AVENTURA E ROTINA
Prefácio
Depois de uma viagem que foi quase uma aventura, volto à rotina do meu retiro de Santo António de Apipucos. Trago os olhos cheios de Portugal: do Portugal que vi no Oriente e nas Áfricas, em Cabo Verde e São Tomé, no Algarve e em Trás-os-Montes. Do Portugal que revi em Lisboa e em Coimbra, no Porto e em Alcobaça, no Ribatejo, no Alentejo, no Minho, nas terras do Douro.
A viagem por tantos Portugais-- alguns quase ignorados pelo brasileiro e pelo próprio português da Europa - revelou-me aspectos novos do que alguém já chamou, a propósito de modernos estudos brasileiros em torno de assuntos lusitanos, "lusologia"; mas serviu também para confirmar, em mim, critérios de estudos e audácias de generalização esboçadas em antecipação do que acabo de ver com os próprios olhos e tocar com os próprios dedos. Mais de uma vez minha impressão foi a do déjà vu, tal a unidade na diversidade que caracteriza os vários Portugais espalhados pelo Mundo; e tal a semelhança desses Portugais diversos com o Brasil. Donde a verdade, e não retórica, que encontro na expressão "luso-tropical" para designar complexo tão disperso; mas quase todo disperso só pelos trópicos.
As notas de viagem que recolhi quase taquigràficamente tomam aqui forma mais impressionista que expressionista. Chegam algumas a ser reacção crítica - e não apenas lírica- ao que observei. Outras a servir de pretexto a comentários às vezes abstractos. Até a devaneios especulativos. A expansões autobiográficas de que peço perdão aos sociólogos que às vezes me supõem preso a eles por votos, que nunca fiz, de castidade sociológica. Direitos de expressionista que pode passar do facto concreto à abstracção, do objectivo ao transobjectivo, do social ao pessoal, dentro da técnica de que, aliás, foi mestre, em língua portuguesa, o hoje reabilitado, mas sempre inclassificável, autor de Peregrinação. Deste peregrino, homem de génio, encontrei traços no Oriente como encontrei de outros grandes viajantes lusitanos por terras não só hoje portuguesas, como tocadas por portugueses aventurosos, antes de qualquer outro europeu se ter aproximado cautelosamente delas . Um desses reveladores afoitos de terras ignoradas foi português do Brasil: o célebre Dr. Lacerda. Antes de Livingstone, atravessou o brasileiro Lacerda a África, do Ocidente ao Oriente.
Não cheguei a terras virgens de olhos europeus e não apenas brasileiros: não foi a extremo tão romântico a minha viagem, quase só aventurosa pela extensão e pela complexidade; e também pela rapidez com que, graças principalmente aos modernos tapetes voadores, que são os aviões do tipo dos TWA, pude cobrir distâncias imensas em apenas sete meses de peregrinação: distâncias que outrora se deixavam vencer apenas pelos barcos, pelos camelos e pelos elefantes - meios de transporte que ainda experimentei como quem experimentasse arcaísmos pitorescos. Foi, no entanto, ao que parece, a primeira viagem de escritor brasileiro ao conjunto de províncias portuguesas da Europa e do Ultramar, exceptuados apenas Macau, Timor e os Açores. Guardei-os para outra aventura de descobrimento de Portugal por escritor brasileiro do meado do século XX. Chegou a época de partirem do Brasil para as terras portuguesas, brasileiros que retribuam aos Peros Vaz de Caminha as suas palavras de revelação de paisagens a valores ignorados.
Aqui estão as principais reacções do escritor e do brasileiro a viagem tão complexa e tão sugestiva. Sobre o mesmo assunto aparecerá, quase ao mesmo tempo que este caderno de notas, outro volume - Um Brasileiro em Terras Portuguesas - com as conferências e discursos que proferi em Portugal, na África e na Índia :inclusive a tradução das palavras, em voz de conversa, que pronunciei em inglês, na Royal Asiatic Society, de Bombaim, cujos sábios me receberam tão amàvelmente quanto os doutores de Coimbra, recordando-me alguns, pelo porte, pelas barbas e pela voz, a bela figura e a palavra macia do Tagore. Glorioso indiano que conheci já velho, quando eu era estudante de Universidade.
Também traz o volume que a este seguirá, "Um brasileiro em terras portuguesas", além de uma introdução com pretensões a síntese ou esboço de uma possível luso-tropicologia, fotografias que documentam certos aspectos da viagem; e discursos e comentários de portugueses ilustres. Comentários não só gentis para com o viajante como significativos para as actuais relações de sentimento e de cultura de Portugal e do Ultramar Português com o Brasil.
G.F.
Sto. António de Apipucos.
Dezembro de 1952.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Aventura e rotina:sugestões de uma viagem a procura das constantes portuguêsas de caráter e ação. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. 557p. (Documentos Brasileiros, 77).
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