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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



BAHIA E BAIANOS
Apresentação de Edson Nery da Fonseca


Este livro reúne textos de Gilberto Freyre sobre a Bahia e sobre alguns baianos ilustres, dispersos em jornais, revistas, obras coletivas e livros de outros autores por ele prefaciados. A idéia inicial era a de reeditar-se a obra Na Bahia em 1943, mandada imprimir no Rio de Janeiro em 1944, por Odilon Ribeiro Coutinho e esgotada no mesmo ano, porque a Policia Civil de Pernambuco se encarregou de retirá-la das livrarias recifenses. Evoluiu-se, depois para esta coletânea que incluiu a parte menos circunstancial de Na Bahia 1943, com exceção de duas notáveis conferências que não tratam especificamente da Bahia e deverão reaparecer em obra que reunirá outros textos inéditos e dispersos do autor de Casa Grande & Senzala. Voltarei, mais adiante, a este marco nas relações de Gilberto Freyre com a Bahia que foram as homenagens por ele recebidas em Salvador no ano de 1943.

Em março de 1926, Gilberto Freyre visitou pela primeira vez a Virgínia Brasileira - epíteto de Joaquim Nabuco por ele muito citado - tendo fixado suas impressões num artigo publicado pelo Diário Pernambuco - "Bahia à tarde" - e em poema do qual foram impressos poucos exemplares pela Revista do Norte. Em carta de 4 de junho de 1972 - reproduzida no volume II da Poesia e Prosa editadas por José Aguilar - Manuel Bandeira manifesta a Gilberto Freyre seu entusiasmo pelo pema : "Teu poema, Gilberto, será a minha eterna dor de corno. Não posso me conformar com aquela galinhagem tão gozada, tão sem-vergonhamente lírica, trescalando a baunilha de mulata asseada. Sacana!". Depois ele escreverá, na Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos que o poema de Gilberto Freyre sobre a Bahia é "um dos mais saborosos do ciclo das cidades brasileiras" . Não devemos esquecer que o próprio Bandeira enriqueceu este ciclo com sua "Evocação do Recife", poema escrito especialmente para Livro do Nordeste, organizado por Gilberto Freyre e publicado em 1925.

A comparação do artigo "Bahia à tarde" com o poema "Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados" evidencia como Gilberto Freyre tinha, desde moço, a noção exata da diferença entre poesia e prosa: elementos poéticos se infiltram no artigo e são aproveitados no poema, sem que haja neste qualquer ruído prosístico. Mas tanto o artigo como o poema estão impregnados de apelos visuais, olfativos e táteis, como, por exemplo, à gordura, aos cheiros e ao ar mole, oleoso e até lúbrico da cidade.

Em outubro de 1930, Gilberto Freyre volta a Salvador, mas desta vez em circunstância dramática: acompanhando o governador de Pernambuco, de quem era secretário, em fuga para ao exílio. : Yo soy yo y mi Ortega y Gasset nas Mditacoines del Quijote; e Gilberto Freyre soube salvar-se da circunstância desastrosa pelos estudos e preocupações que resultaram no primeiro tomo da sua já clássica história da família patriarcal no Brasil, confirmando uma observação de Mallarmé que nunca me cansarei de citar: a de que "tout, au monde éxiste pour aboutir à un livre".

Vale a pena reproduzir todo o parágrafo do prefácio à primeira edição de Casa Grande & Senzala em que o autor fala da oportunidade fornecida por aquela parada obrigatória na Bahia: "Demorando-me em Salvador pude conhecer com todo o vagar não só a coleções do Museu Afro-Baiano Nina Rodrigues e a arte do trajo das negras quituteiras e a decoração dos seus bolos e tabuleiros como certos encantos mais íntimos da cozinha e da doçaria baiana que escapam aos simples turistas. Certos gostos mais finos da velha cozinha das casas-grandes que fez dos fornos, dos fogões e dos tabuleiros de bolo da Bahia seu último e Deus queira que invencível reduto. Deixo aqui meus agradecimentos às famílias Calmon, Freire de Carvalho, Costa Pinto; também ao professor Bernardino de Sousa, do Instituto Histórico, a Frei Filoteu, superior do Governo dos Franciscanos, e à preta Maria Inácia, que me prestou interessantes esclarecimentos sobre o trajo das baianas e a decoração dos tabuleiros. "Une cuisine et une politesse! Oui, les deux signes de vieille civilisation...", lembro-me deter aprendido num livro francês. É justamente a melhor lembrança que conservo da Bahia: a da sua polidez e a sentem hoje como em nenhuma parte do Brasil. Foi a Bahia que nos deu alguns dos maiores estadistas e diplomatas do Império; e os pratos mais saborosos da cozinha brasileira em lugar nenhum se preparam tão bem com nas velhas casas de Salvador e do Recôncavo".

 No trecho citado se exprime toda a Weltanshauug de Gilberto Freyre, pesquisador abrangentemente atento ao erudito ( Museu Nina Rodrigues) e ao popular ( arte do trajo das negras quituteiras), ao documento escrito ( Instituto Histórico) e a história oral ( depoimento da preta Maria Inácia), ao sagrado ( Convento dos Franciscanos) e ao profano (cozinha e doçaria baianas), ao familial (Gois Calmon, Freire de Carvalho etc.) e ao governamental (estadistas e diplomatas do Império). Assim ele viu a Bahia, os outros Brasis e o Brasil: reunindo o disperso, conciliando contrários, sistetizando antíteses.

Cumprindo a promessa que exprimiu no fim do poema Gilberto Freyre tem voltado "com vagar" ao "seio moreno brasileiro" da terra do Senhor do Bonfim. Sente-se que a Bahia é para ele uma espécie de Pasárgada. Chegou a anunciar, em 1940, um guia prático, histórico e sentimental da Cidade do Salvador, no estilo dos que dedicou ao Recife e a Olinda, somente desistindo do projeto quando o viu concretizando por seu amigo Jorge Amado. "Não me sinto de modo nenhum intruso na casa baiana, na cidade baiana, na hoje fortaleza baiana", disse uma vez, acrescentando que ao chegar à Bahia - e isso desde 1926 - sempre tem a impressão de um regresso ou de uma "volta ao que o Brasil tem de essencialmente materno para todo brasileiro".

A Bahia tem correspondido a esse amor e este livro é uma prova disso. Quando em 1943, Gilberto Freyre fo hostilizado pelo interventor federal em Pernambuco e chegou a ser preso pro delito de opinião, a intelectualidade baiana se juntou aos universitários numa série de homenagens que o livro Na Bahia em 1943 documenta. Nenhum escritor brasileiro foi tão calorosamente aplaudido como Gilberto Freyre naquela ocasião. Conferências e banquetes concorridíssimos. Toda a imprensa baiana solidária com as festas. Ao ler, na Faculdade de Medicina, notável conferência sobre uma classificação sociológica - a de Thomas, para quem os tipos humanos se distribuem em boêmios, filisteus e criadores - ele disse que sentia a própria Bahia chamá-lo e recebê-lo "como a um filho". Essa conferência - tanto quanto a que proferiu na Faculdade de Filosofia sobre as relações da filosofia social com a sociologia histórica - aparecerá brevemente no livro Novas Conferência em Busca de um Leitor.

Neste livro repita-se que estão reunidos apenas textos específicos sobre a Bahia e sobre alguns baianos. O que não constitui limitação, pois o próprio Gilberto Freyre já recordou que todos os brasileiros são baianos, acrescentando: "Triste do brasileiro que não tenha dentro de si algumas coisas de baiano. E não só de urbanidade baiana; não só de polidez baiana; não só de gentileza baiana; não só de civilidade baiana; não só do bom gosto baiano; não só de religiosidade baiana; não só de ternura baiana; não só de civismo baiano; não só de inteligência baiana, mas também alguma coisa de malícia, de "humor" de gaiatice compensadora dos excessos de dignidade, de solenidade e da própria elegância".



Fonte: FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Salvador: Fundação das Artes, 1990. 167p.

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