BRASIS, BRASIL E BRASÍLIA
Prefácio
Parece ao autor de todo oportuno o aparecimento dêste livro no Brasil, em edição brasileira. Embora nêle sejam abordados temas sociais - sociológicos, antropológicos e até políticos - de interêsse geral, e não apenas brasileiro, e sob critério principalmente científico e não preponderantemente cívico ou nacional, anima-o além de especialíssima preocupação com problemas brasileiros, o afã de concorrer o autor para despertar nos seus compatriotas a consciência de pertencerem a um vasto país - que, por sua vez, lhes pertence; e o qual, sendo uno, é também uma constelação de Brasis; possuindo um valioso passado "útil" ou "utilizável", defronta-se com um futuro cheio de desafios à sua capacidade de ação orientada pelo, que, nas suas elites e no seu povo, seja imaginação criadora. Imaginação científica associada à poética.
A diversidade regional, característica do Brasil, não se apresenta ao autor, nem a outros analistas da situação do nosso país, como obstáculo ao desenvolvimento nacional; ou risco para a unidade da maior república latina do mundo atual. " Rússia americana", já o chamou o autor em ensaio antigo. E noutra das suas páginas: " China tropical".
Mas nem a Rússia nem a China, nem tampouco os Estados Unidos e o Canadá, dispõem dos elementos de unidade nacional, susceptíveis de ser combinados com os de diversidade regional, de que dispõem o Brasil. A herança íbero-Católica, particularmente lusitana, permanece viva inclusive através da Língua Portuguêsa como passado alongado em presente e projetado sôbre o futuro. Como tal vem unificando divergências; como tal, vem se impondo sem violência a sucessivas camadas de bons e valiosos adventícios, representando etnias e culturas não-ibéricas, em geral, e não-portuguêsas, em particular; e também não-Católicas e até não-cristãs vem se impondo, desde o século XVII, a essas camadas valiosas de adventícios como fôrça sociològicamente europeizante, nuns casos - o dos imigrantes africanos - e tropicalizante, noutros casos - dado a imediata identificação dos portuguêses, no Brasil, como no Oriente, com a ecologia tropical - sem que essa dupla ação no sentido do que hoje podemos considerar uma unidade brasileira, tanto ecológica como sociocultural, venha implicando em repúdio a valores trazidos pelos mesmos adventícios, de países frios ou de outros continentes. Adventícios que se vêm constituindo - principalmente no último século e meio - em neo-brasileiros: os de origem alemã, os de procedência italiana, os vindos da Polônia, da Síria, do Líbano, de outras regiões e de outras culturas; os vindos, nos últimos cinqüenta anos, do Japão. Isto sem nos referirmos à europeização de ameríndios e de negros - êstes vindos, em tão grande número, para o Brasil, desde os dias coloniais, da África; e aos quais se aplica o mesmo reparo. Pois também dêles a sociedade, a cultura, a "raça" brasileira vêm absorvendo valores. Valores evidentes em vários costumes e em várias artes já características da sociedade una e plural que é a do Brasil de hoje. Valores, ora ostensivos, ora sùtilmente presentes em tipos étnicos regionais da gente brasileira, nos quais a qualidades eugênicas se juntam virtudes estéticas, num desmentido flagrante ao mito de ser a mestiçagem um processo do qual resultariam preponderantemente, além de traços cacogênicos, negações de todos os padrões de beleza e de harmonias das formas e das côres da figura humana.
Tropicalização e europeização parecem a alguns de nós constituir os dois processos principais que vêm se defrontando no Brasil, isto é, na formação, no espaço e no tempo brasileiros, de uma sociedade, de uma cultura e de uma "raça" com características nacionais em que o Trópico e a Europa são presenças decisivas. Sem elas, o Brasil não teria se desenvolvido no conjunto nacional que hoje, com o Trópico, numas regiões naturais e nuns setores culturais, quase soberano sôbre a Europa; e com a Europa, noutras regiões naturais e noutros setores culturais, quase senhora absoluta do Trópico. A tendência geral, porém, é para a interpenetração dos dois - Trópico e Europa - na definição e na caracterização de quanto seja mais especìficamente nacional, original, sintético, na situação brasileira. Observe-se que por Trópico se estende aqui não só a ação, sôbre a formação brasileira, de uma ecologia tropical preponderantemente física, no sentido de geográfica ou de climática, como a influência que vêm tendo sôbre a mesma formação culturas ou civilizações e grupos étnicos de procedência nìtidamente tropical: ameríndios, negros, indianos.
Sob o critério assim sugerido, torna-se possível acompanhar-se a formação brasileira como um desenvolvimento em que, sob as duas fôrças interpenetrantes aqui destacadas, está se constituindo entre nós uma cultura, além de uma sociedade, que sendo já unas, são plurais, quer pelos seus principais e vários elementos de origem quer pelos adventícios que se vêm acrescentando aos básicos, sem os destruírem, antes assimilando-os, nuns casos, ou deixando-se por êles assimilar, noutros casos. Um processo antes de integração que de absoluta subordinação de uns elementos a outros. Integração em marcha.
Impossível não reconhecer-se, à margem das considerações aqui esboçadas, que à diversidade etnico cultural característica do Brasil uno e plural de hoje, é necessário acrescentar-se o desnível de caráter econômico, também característico do Brasil atual, entre populações regionais: geogràficamente regionais. O Norte e o Nordeste com relação ao Centro-Sul, principalmente. Os Brasis pobres com relação aos Brasis relativamente ricos. Os Brasis como que coloniais com relação aos Brasis como que metropolitanos dentro do complexo nacional brasileiro.
Os recentes desenvolvimentos da ação da Superintendência criada, há anos, pelo Govêrno Federal, para cuidar da valorização do Nordeste e da sua possível integração num "tempo" econômico próximo do do Centro-Sul, está a fazer-se sentir de modo efetivo, no sentido da realização de seus objetivos. Organizou-a um dos economistas brasileiros mais idôneos, o Professor Celso Furtado. Continuou-lhe o esfôrço um sociólogo ilustre: o Professor João Gonçalves de Souza, seguido por outro economista de valor: Rubem Costa. Anima-a hoje um ministro de Estado que à tenacidade de homens do Nordeste junta a visão nacional dos problemas regionais de um Brasil que só pode ser efetivamente uno sendo saudàvelmente plural, regional, diverso: o General Afonso de Albuquerque Lima.
Outras regiões brasileiras retardadas em seu desenvolvimento, e imperfeitas na sua integração econômica no conjunto nacional, reclamam igual atenção: a região amazônica, principalmente. Constitui o problema regional amazônico o maior desafio atual à inteligência brasileira. Será um êrro opor-se à sua solução um nacionalismo estreito ou um anti-ianquismo histérico que se levante até contra um centro de altos estudos futurológicos como o Instituto Hudson, como seria um crime abdicar o Brasil, no trato de assunto tão grave, das suas responsabilidades de Estado-Nação ciosos das regiões que o constituem. A sensibilidade ao que seja plural - plural ao ponto de admitir entendimentos com outras nações, em volta de interêsses regionais ou nacionais brasileiros ligados a interêsse internacionais ou pan-humanos - no sistema nacional brasileiro, não pode ser tanta que nos leve ao descuido ou à despreocupação do que seja essencialmente uno, no mesmo sistema; e sendo uno exija dos brasileiros atitudes firmemente nacionais em ralação a problemas como o amazônico.
Com relação não só à economia e ao ensino - donde os órgãos federias já criados para cuidar de problemas regionais nesses setores - como atividades especìficamente culturais - teatro, música, letras, artes, ciências - vem se acentuando, nos últimos anos, a tendências, da parte do Govêrno Federal, para serem atendidas as peculiaridades regionais ao mesmo tempo que coordenadas dentro de um amplo plano nacional. Bem expressivas, a êsse respeito, foram as palavras com que o Presidente Castelo Branco, em discurso proferido a 27 de fevereiro de 1966, justificou a criação, pelo seu govêrno, de um Conselho Federal de Cultura que atenda "as peculiaridades regionais sem prejuízo de ser o órgão governamental destinado a defender, estimular e coordenar, nas suas linhas mestras, um plano nacional". Mais: declarou ter, na constituição do nôvo órgão, procurando "atender às raízes regionais que deverão dar ao Conselho as amplas perspectivas que lhe permitirão divisar do Amazonas às fronteiras meridionais.
No mesmo sentido vem se manifestando, através do seu ministro da Educação e Cultural, o Presidente Costa e Silva, interpretando os objetivos e as funções do nôvo Conselho Federal de Culturl, destacou desde o início do seu govêrno o Presidente da República, pela palavra do seu ministro, Tarso Dutra: " O que o Conselho Federal tem quer ter em vista em primeiro lugar, é a realidade cultural regional, a qual deverá tomar como ponto de partida". Daí, a importância dos Conselhos Estaduais de Cultura que, uma vez organizados, deverão colaborar com o Conselho Federal interpretando, junto a êste órgão coordenador, aspirações e necessidades, nos setores cultural, regional.
Embora, no setor educacional a política imposta ao Executivo pelo Congresso venha sendo, nos últimos anos, com relação a universidades, antes estadualista que, no bom sentido, regionalista, e por conseguinte, superestadualista, êste - o regionalista ou pluralista conciliado com o unionista - é o critério que orienta agora a política governamental, através do referido Conselho Federal, com relação à cultura no seu sentido específico: artes, letras, ciências humanas, patrimônio histórico e artístico. Trata-se, assim, de um não pequeno triunfo alcançado por aquêle construtivo regionalismo de que foram pioneiros os iniciadores, em 1924, no Recife, de um movimento que pretedendo ser ao mesmo tempo regionalista, tradicionalista e modernista, deu, no Brasil, à palavra "regionalismo", um sentido de todo diferente do de caipirismo ou seccionalismo. Pois o que animava aquêles pioneiros era precisamente o afã de, sobretudo no setor cultural específico, estimularem dos vários Brasis com o Brasil geral, mesmo á revelia de Estados com tendências, alguns dêles, a abusarem do estadualismo em prejuízo da própria unidade nacional combinada com uma dinâmica regionalidade.
Aliás, o que nessa regionalidade é sociològicamente válido constituiu-se em objeto de um dos mais sugestivos ensaios escritos ùltimamente no Brasil por cientista social: o estudo do Professor Diegues Júnior sôbre áreas brasileira de cultura. São áreas, essas, que, como regiões, constituem, os vários lastros sôbre os quais se esboça a probabilidade de desenvolver-se, no vasto país que é o Brasil, uma cultura plural ao mesmo tempo que una. Se ocorrer nesse desenvolvimento, tal combinação - extensiva à sociedade ou à população - os Brasis formarão um Brasil com o qual difìcilmente poderão vir a ser comparados a Rússia ou o China, os Estados Unidos ou o Canadá: países de grandes dimensões nos quais o jôgo dos contrários "unidade" e "diversidade" não se apresenta com iguais possibilidades de harmonização de grupos etnicoculturais: quer os situados em regiões específicas, quanto aos seus característicos de ecologia física, quer os disseminados - como o grupo afro-americano nos Estados Unidos - em várias regiões e em várias classes.
Os Brasis se situam, quase todos, sôbre um trópico que sendo singular é também plural: constituído por vários trópicos. Pelo trópico úmido e pelo trópico árido, principalmente. Pelo trópico sertanejo e pelo trópico amazônico - êste um como trópico anfíbio.
A civilização brasileira tende assim a desenvolver-se sôbre uma comum base tropical e quase-tropical que, entretanto, tem as suas diferenças intratropicias. Daí compreender-se que a alimentação, no Brasil, tendo seus característicos comuns, varie, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, noutros dos seus característicos. Compreende-se que o mesmo venha a suceder de modo mais nítido do que atualmente com a arborização das ruas, dos parques, das praças, e em tôrno às residências; com o traje do homem, da mulher, da criança; com os seus calçados; com o uso, por êles, do tempo livre sob formas de lazer e de recreação que tendem, num vasto país como o nosso, a tomar aspectos ou especializações regionais, de acôrdo com diferentes ecologias tropicais. Compreende-se, mais, que essa tendência se acentue com relação a formas de arquitetura e, principalmente, com relação a tipos de edifício escolar, de clube recreativo, de igreja, de casa de residência: às suas formas e aos materiais a ser utilizados na sua construção e no seu equipamento, isto é, nos materiais que se empreguem no fabrico dos seus móveis, cujas formas também tende a regionalizar-se ou ecologizar-se para serem autênticamente artísticos, além de higiênicos. Pois a higiene, também ela, tem seus modos regionais de ser higiene, ao lado dos gerias e universais.
Para tais especialisações regionais, é evidente que não devem ser desprezadas tradições úteis: expressões, no setor arquitetônico, do chamado "passado utilizável". A experiência portuguêsa nos trópicos asiáticos e africanos, o modo por que, nessa sua experiência ou vivência, o português se enriqueceu com valores não-europeus, de considerável valor ecológico, constituem herança cultural importantíssima, transmitida pelo colonizador às gentes brasileiras; e que as gentes brasileiras não podem desprezar sem dano ou prejuízo para sua cada vez maior integração em ecologias tropicais.
Bem o vem sentindo, com relação à arquitetura, um dos mais notáveis arquitetos modernos do Brasil, Henrique Mindlin, que, neo-brasileiro - brasileiro de origem não ibérica, apenas na Segunda geração - não tardou, entretanto, a aperceber-se do que as tradições portuguêsas de arquitetura contêm de valiosamente unificador para um país em desenvolvimento no trópico como o nosso: de utilizável em arrojos modernos de construção que se harmonizem, quer com ambientes tropicais diversos, quer com experiências, preferências, gostos cotidianos, domésticos, lúcidos, já incorporados a um estilo distintamente brasileiro, em particular, lusotropical, em geral, de vida e de cultura. Cultura, é claro, no largo sentido antropológico ou sociológico da palavra.
Com essa orientação, aliás, é que o autor notável arquiteto moderno, nosso compatriota, Oscar Niemeyer, levantou nos arredores da cidade de Brasília casa para sua própria residência inspirada na arquitetura tradicional de casa-grande de fazenda do Sul do Brasil, à qual juntou, é claro, tôdas as conveniências modernas. Essa conciliação de aparentes contrários foi, desde 1924, -- repita-se - um dos pontos mais significativos do programa dos Regionalistas, Tradicionalistas, Modernistas do Recife, que muito insistiram na necessidade do Brasil desenvolver, através dessa conciliação de aparentes contrários, tipos ecològicamente e culturalmente seus, não só de arquitetura, como - antecipação importante a tendências modernas - de planejamento não só urbano como regional. Planejamentos regionais que se integrem num vasto planejamento inter-regional e, por conseguinte, racional e, mesmo, continental.
Do ponto de vista sociológico, ninguém, no Brasil, que venha ùltimamente dedicando maior interêsse a formas regionais de arquitetura do que o competente especialista em assuntos amazônicos Leandro Tocantins. Voltado para o estudo de quanto seja problema humano da principal região-problema do nosso país, ou seja do Brasil atualmente mais necessitado da atenção e, até do desvêlo dos demais Brasis - atenção e desvêlo em benefício da própria integração nacional - era inevitável que nesse estudo viesse incluir o do problema da casa ecológica para o Amazonas brasileiro.
Agrada ao autor constatar que, do seu estudo chegou Leandro Tocantins à conclusão de que nesse Brasil àsperamente tropical que é o amazônico " teve o português admirável sensibilidade de adaptar formas de arquitetura européias, asiáticas e africanas às condições de clima, de luz., de vento, de umidade e de vegetação amazônicas. Prova de que o lusotropicalismo é uma tese sociològicamente cultural válida na Amazônia". Daí ter estranhado que " Belém se afastasse de seu passado e das próprias sugestões da natureza tropical, tão fortes, tão indicativas - uma simples prova sensorial basta para entender o problemas - e se transviasse no caminho da mera imitação de modelos de outras áreas em que as condições ecológicas chegam a ser antagônicas às dos trópicos". Mais : "Quando recolhia elementos em Belém para o meu libro Santa Maria de Belém do Grão Pará, entrei no âmago, por assim dizer, da questão. Visitei, vasculhei, apalpei, observei casas antigas, igrejas, conventos, quintais, barracas, tudo enfim, que se ligasse ao binômio homem-casa e suas implicações sociológicas, melhor sócio-ecológicas. Cresceu em mim a idéia de denunciar erros e distorções nos planos dos engenheiros regionais que estavam enchendo a cidade de construções inadaptáveis ao meio tropical, sem ao menos considerar elementos tradicionais que estão integrados na arquitetura com reconhecimento do valor estético, higiênico, funcional: o azulejo, o alpendre (ou varanda), a veneziana, o arvoredo, o jardim tropical (não o gramado nu, estilo inglês). Em Santa Maria de Belém do Grão Pará, escrito em 1959-1960, e publicado em 1963, manifestei tôdas essas inquietações espirituais. Necessidade de criação da casa ecológica, valorização do azulejo, aproveitamento integral dos valores nativos, universalizando-os pela simbiose com outros adaptáveis ao meio, defesa da arquitetura tradicional, e tanta coisa mais ligada à condição e ao destino do homem nos trópicos amazônicos".
E quanto ao que se fêz no Estado do Amazonas durante o período do Professor Arthur Reis como governador -interventor, Leandro Tocantins informa: "Os arquitetos Luís Carlos Antony e Fernando Pereira da Cunha projetaram o chamado "Bairro da Raiz", um conjunto de 500 casas populares... São habitações admiráveis, ventiladas, espaçosas, com aquêles requintes essenciais à arquitetura ecológica. De outra parte, convidado pelo Governador para exercer a presidência da Companhia Habitacional do Amazonas, Arquiteto Cézar Oiticica tomou-se de entusiasmo pelas novas idéias, e projetou o prédio da Secretaria de Planejamento, de tal modo que não vai precisar de ar condicionado, lembrando, com suas largas circulares do edifício, uma casa de fazenda brasileira dos séculos XVII e XIX".
Vê-se por essas transcrições que ao Brasil amazônico vai chegando, de modo saudável o sentido de arquitetura moderna e, ao mesmo tempo, regional e tradicional que, tendo sido desde 1924, um dos objetivos do Movimento Regionalista, Tradicionalista e, a seu modo, Modernista, do Recife, encontrou no arquiteto Henrique Mindlin o seu mais autorizado intérprete e realizador nos dias de transição que o país atravessa. Transição que para vários dos especialista em a diferentes ciências e artes, empenhados em orientar essa transição, não deve significar uma modernização pura e simples e sim combinada com o que há de utilizável na tradição lusotropical e com o que há de inevitável na condição sempre tropical ou quase-tropical do Brasil inteiro: trópico úmido, numas regiões trópico árido, noutras, subtrópicos, quase trópicos: trópico úmido, numas regiões, trópico árido, noutras, subtrópicos, quase trópicos. De onde a situação brasileira poder ser apresentada em síntese, como uma situação em que aos critérios de modernidade devem juntar-se os de tradicionalidade e de regionialidade.
Os erros cometidos em Brasília, onde a tradicionalidade a regionalidade foram sacrificadas, em arrojos de arquitetura urbana, à modernidade e esta antes a só estética ou apenas escultural que a geral, devem valer como uma advertência para todos os Brasis em fase de modernização ou de urbanização. Não que se repudie Brasília: representa ela um triunfo brasileiro grande demais para que seus erros sejam considerados à revelia das suas virtudes. Mas é preciso que nos resguardemos da repetição dos seus erros e, em arquitetura, pensemos regionalmente e não apenas modernìsticamente; tradicionalìsticamente ao mesmo tempo que juntando a experiências válidas primores tecnológicos de várias origens que sejam adaptadas à situação brasileira em geral e, dentro dessa situação, especìficamente regionais.
Não só em arquitetura, porém: em todo o conjunto de formas de cultua que constituem um estilo nacional de vida. Na alimentação, no traje, na recreação, no móvel, na higiene, nas artes.
Pois voltemos a êste ponto - o Brasil não é monolítico e sim vário. O trópico brasileiro não é o mesmo, em tôdas as regiões do país, porém diverso. A unidade brasileira é do que se nutre para ser o espantoso fenômeno sócio-ecológico que é; da diversidade de regiões - Brasis no plural - que se interpenetram, completando-se no Brasil: no Brasil singular.
Ninguém que tenha tido um sentido mais completo dessa pluralidade ao lado dessa singularidade - Brasis, Brasil - do que Heitor Villa Lobos ao projetar compor o seu "Arquipélago Brasileiro". Só lhe faltou o sentido de Brasília, não como a realização festiva porém manca, que foi, de início, mas como o "tipo ideal", no sentido sociológico da expressão, que poderá ter sido e que poderá vir a ser, como centro de articulação prática e poética de vários Brasis num só Brasil.
Pode-se dizer a êsse respeito que nos setores musical e coreográfico da cultura, como também no da culinária, o brasileiro já desenvolveu uma sensibilidade que sendo, além de eurotropical, nacional ou pan-brasileira, tem também variantes regionais. Variantes que em vez de comprometerem o todo ou o complexo, o enriquecem. Era o ponto de vista de Heitor Villa Lobos que chegou a desejar, já no fim da vida, compor com o autor dêste livro - que escreveria, a seu pedido, o texto, segundo êle, "poético-sociológico" ou "romanesco-sociológico" - um "Arquipélago Brasileiro".
Êsse "Arquipélago Brasileiro" outra coisa não seria em música, senão uma criação de música nacional, à maneira de Bach: aquela maneira salientada por Vaugham Williams em seu National Music (Londres 1935) como tendo sido a adaptação de melodias tradicionais, populares regionais, a arrojos de criação ao mesmo tempo moderna e universal, sem que deixasse de animar tais arrojos a inspiração regional-popular ou a sensibilidade nacional-folclórica. Antes de imaginar aquêle "Arquipélago" como que inter-regional, já em suas Bachianas Brasileiras procedera Villa Lobos, de modo a desfigurar - é o que nos diz um mestre no assunto: Luís Cosme em sua Introdução à Música ( Rio 1954) - "com indiscutível liberdade certos processos contrapontísticos aplicados ao folclore brasileiro". Um folclore - acrescente-se - caracterìsticamente inter-regional ou pluri-regional. Projeção de vários Brasis num Brasil geral, com alternativas de dolência cabocla, voluptuosidade lusotropical, mais no todo nacional brasileiro que o gênio musical de Villa Lobos pretendia captar de modo mais específico num "Arquipélago Brasileiro" que fôsse, no setor musical, a evidência de haver um Brasil constituído por Brasis ou nutrido de Brasis. Tese que o escritor Viana Moog defende, com argúcia crítica, com relação à literatura brasileira, também ela pluri-regional, ou inter-regional, ao mesmo tempo que nacional.
Aqui é oportuno recordar-se que desejo semelhante ao de Villa Lobos animou Serge Lifar com relação ao aproveitamento, em ballet moderno, das danças populares e regionais do Brasil: "Rússia americana". "Essas danças ou ballets êle pretendeu estudá-los em companhia do autor - pesquisa sociológica a que não faltasse creatividade romanesca - caso o então Ministro João Lins de Barros confirmasse a sua promessa de prestigiar, da parte do govêrno brasileiro, projeto tão cheio de possibilidades. Projeto que, entretanto, morreu onde nasceu: no apartamento do Waldorf Astoria em que nos reunimos em 1939 para discutir o assunto, Lifar tendo sido apresentado pelo autor a um João Alberto a princípio relutante - que ex-revolucionário convencional era, naqueles dias, o bom mas ingênuo João! - em receber um Lifar, de quem havia quem dissesse, mentindo, ser um "terrível efeminado". Mudou de opinião. Tornou-se entusiasta de Lifar. Faltou, porém, a João Alberto, no Brasil de 1939, a fôrça política para levar avante o seu compromisso, com o autor e com Serge Lifar, de prestigiar de modo completo a elaboração do projetado ballet. Um ballet do qual o bumba-meu-boi, por exemplo, apareceria tanto com seus característicos nordestinos quanto com os amazônicos, por conveniências estéticas, acentuando-se nêle, ora a festa do fogo ( São João), ora, a da Natividade ( Messias, ao ar livre tropical). Que São Joões e Natais se apresentam, no Brasil, regionalmente diversificados em seus aspectos folclóricos mais ou menos ecològicamente condicionados: presépios, e pastôres ao ar livre e missas campais são evidentes tropicalismos, com acentuado relêvo no Norte e no Nordeste do país, onde a figura do Papai Noel e a "árvore de Natal" se apresentam como instruções antiecológicas. Entretanto, no Sul do Brasil - no Paraná - o pinheiro nada tem de estranho à paisagem nativa. Villa-Lobos, como pan-brasileiro, não deixaria de ser sensível à sua sugestão lírica regional.
Em estudo sôbre Villa Lobos, incluindo na obra coletiva organizada por David Eiven, Maravilhas da Música Moderna, (tradução portuguêsa de João Henrique Chaves Lopes, editada no Brasil em 1959), o crítico Eurico Nogueira França, destacando as origens populares ou folclóricas - e poderia ter acrescentado: regionais - das obras sinfônicas do compositor brasileiro conhecidas como "choros", identifica suas raízes nos "chorões" cariocas de seresteiros de morro ou de rua. E vai ao excesso de enxergar nessas inspirações líricas "os ímpetos ainda bárbaros do nosso psiquismo racial". Um "específico lirismo brasileiro", encontra-o o crítico nas "Bachianas": tentativa arrojada de transposição de "populismo nativo" a " um plano depurado", sem que essa transposição transcenda o que chama a "voluptuosidade tropical": uma tropicalidade - acrescente-se - como que básica, telúrica, ecológica. E não deixa de acentuar que, na "Lenda do Caboclo", cristaliza o compositor brasileiro - passando, talvez, a transpor a "plano depurado" inspiração regional um tanto diferente da dos "chorões" cariocas - "a especial dolência e o poético langor que existem na sensibilidade musical brasileira".
Que existem nessa sensibilidade como um característico comum, sem que faltem a êsse característico comum variantes regionais de expressão popular: ênfases diferentes. O que se explica pelo fato do erradamente chamado "psiquismo racial" brasileiro - erradamente, por ser êsse "psiquismo" antes cultural do que étnico ou racial - constitui um complexo com diferentes ênfases regionais de expressão: mais luso-ameríndia entre gaúchos, por exemplo; mais ameríndia, na sua expressão amazônica; mais luso-africana, entre baianos e mineiros; mais luso-afro-ameríndia, entre nordestinos pròpriamente ditos; luso-africana, a seu modo, entre cariocas. Era a interpretação dêsse todo diversificado que Villa Lobos pretendia realizar em seu projetado "Arquipélago".
O que teria se verificado se qualquer dos dois projetos tivesse se realizado? Provàlvemente impactos de personalidades criadoras - Villa Lobos, num caso, Serge Lifar, no através de conceitos métodos clássicos, quer musicais, quer coreográficos, reformados ou transformados por essas personalidades criadores sob o estímulo de situações insólitas, novas, diferentes, pela sua tropicalidade - tanto a nordestina como a amazônica, nas suas origens estritamente européias e ortodoxamente cristãs; e já com o samba africano a caracterizar a dança de Catarina; Já com Mateus tropicalizado em seu modo de ser vaqueiro. O resultado teria sido - é de supor-se - no sentido de desvios tão sociològicamente quanto estèticamente expressivos daquele "academicismo monótono" ou daquela "escolástica asfixiante" a que se refere Luís Cosme na sugestiva página em que conclui a sua Introdução à Música. E note-se que, para chegar-se a tal resultado, tanto Villa Lobos como Serge Lifar estavam convencidos de ser necessário juntar-se a "pesquisa sociológica" à "’invenção romanesca", em vez de orientados no sentido de considerarem êsses dois métodos, quando utilizados por indivíduos de gênio criador, incompatíveis, em vez de complementares. Compatíveis e complementares é o que vêm sendo êsses dois métodos em vários casos: sobretudo quando se tem procurado dar universalidade ao pluri-regional ( popular, folclórico, telúrico, histórico) através ou não do nacional ( Shakespeare, Bach, Merville, Cervantes, Gil Vicente, Goya, Villa Lobos, Walt Disney, a cozinha francesa).
A cozinha francesa, sim, porque ela é expressão do pluri-regional no nacional; e do seu aperfeiçoamento numa das artes mais complexas do tempo moderno, pode-se sugerir vir resultando de experimentos em tôrno de estratificações culinárias regionais, tradicionais, populares, folclóricas, até, e quase sempre anônimas, que, estilizadas, vêm se tornando nacionais; e recebendo, por vêzes, notáveis transformações através das "invenções romanescas" de um Brillat Severin e de um Dumas. Invenções sempre de acôrdo com uma sensibilidade ou um estilo ou uma tradição panfrancesa de paladar, diferente, em qualquer das suas expressões genialmente individuais ou sociològicamente regionais, da tradição italiana ou da tradição espanhola de paladar. Tradições das quais se poderá dizer o mesmo: que são castiçamente nacionais, sendo pluri-regionais, com seus patos à moda de Pequim, suas massas à maneira de Bolonha, suas galinhas com arroz no estilo de Valência.
O fato de
começar o mundo a viver uma "era nuclear" não exclui a
importância, neste mundo, de diferenças regionais naturais,
acrescidas ou não de culturais, de existência. Em livro recente
sôbre o assunto - América faces the Nuclear Age ( N. Y.
1961), organizado por Johnson E. Fairchild e David Landman, salienta à
página 99, o professor Merril Eisenbud que a própria
radioatividade natural se apresenta, no continente americano, de tal modo
regionalmente diversificada que há locais, no Brasil, em que essas
radioatividade se apresenta "one hundred times the amount in New
York". Quais os efeitos dessa disparidade sôbre a vida ou a
saúde humana? é fenômeno ainda ignorado. Mas não
são as únicas disparidades de caráter ecológico a
ser consideradas pelo tropicólogo: existem também as disparidades
intratropicais.
Há tropicólogos a quem preocupam atualmente problemas gerias de Tropicologia, ao lado dos particulares, de uma Antropologia e de uma Sociologia voltadas para o Homem situado no Trópico e para as sociedades condicionadas por ambientes tropicais. Situados - homem e sociedades no trópico plural: por conseguinte regionalmente diversificado.
Existe não um trópico mas uma variedade de trópicos e o Brasil, como país situado quase todo em espaço tropical - espaço onde se desenvolve hoje o que alguns consideram a maior civilização moderna assim condicionada - é exemplo dessa variedade de ambientes tropicais. é uma variedade que exige dos tropicologistas atenção a variantes de quanto sejam formas de vida que possam ser associadas à ecologia tropical.
Não só formas de vida vêm sendo associadas a essa ecologia: também predominâncias de doenças comprometedoras da vida ou da saúde ou da eficiência humanas, sem que, entretanto, para serem admitidas essas predominâncias seja necessário consagrar-se uma específica patologia determinada, como por algum tempo se supôs, e não apenas condicionada, pela mesma ecologia. Em crise todos os determinismos, também êste vem sendo desmentido pela análise científica das exatas relações entre ecologia e doenças. Mesmo assim, as predominâncias de certas doenças continuam a caracterizar, fora de imposições determinadas, regiões tropicais, admitindo-se que à ecologia física se tenha associado, nessas regiões tropicais, uma ecologia sócio-cultural, responsável pelo prolongamento de condições de existência e de convivência humanas, em ambientes tropicais, que são condições nem sempre favoráveis ao desenvolvimento das mais saudáveis formas dessa existência e dessa convivência.
Sendo certo, como parece ser, tal jôgo de relações entre espaço ou ambiente físico e condições sócio-culturais, compreende-se que grande parte dos problemas de medicina que interessam nesse setor, os tropicólogos ou os médicos tropicalistas, sejam problemas não apenas médicos, porém, sócio-culturais e, alguns, especìficamente sócio-econômicos. Problemas que exigem, vários dêles, que os médicos, os higienistas, os sanitaristas, os consideram, em cooperação com antropólogo sociólogo, psicólogos, economistas, humanistas, juristas, e não apenas com biólogos, fisiólogos e geógrafos. Daí a conveniência de alguns dêsses problemas serem gestaltianamente considerados dentro de um critério tropicológico global, que permita a confluência, para essa consideração gestaltiana, de pontos de vista e de saberes diversos.
A essa atitude parece dever ajustar-se a consideração de vários problemas interrelacionados em tôdas as áreas ou em tôdas as regiões tropicais, quer os problemas, próprios dessas regiões, sejam principalmente de medicina, quer principalmente de arquitetura, quer ostensivamente de alimentação, quer ostensivamente de trajo. No caso do Brasil, é uma atitude que evidentemente corresponde a uma situação pan-nacional, quase tôda pan-tropical, embora essa situação geral não seja monolítica nem rìgidamente uniforme, mas constituída por peculiaridades regionais e por condições tropicais regionalmente diversas de vida, entre as quais as que são criadas pelo trópico úmido e as que soa criadas pelo trópico árido.
O Brasil se apresenta aos olhos do tropicólogo, seja qual fôr a sua especialidade, como um laboratório ideal em que situações tropicais assim regionalmente diversas podem ser estudadas, confrontadas, comparadas, dentro do mesmo sistema nacional de cultura: de cultura e de coexistência e esta não só pacífica como quase sempre harmônica. O Brasil é uno e plural como um todo quase todo tropical. é singular e é plural. Uma constelação de Brasis e não um Brasil único. Não é o mesmo de Norte a Sul e de Leste a Oeste em tôdas as suas condições de existência de solo, de vegetação, de regimen de águas, de existência de solo, de vegetação, de regimen de águas, de relações entre terras e águas. é diverso. Ao mesmo tempo, sôbre um lastro biofísico comum e êste complexo quase todo tropical, é que vem se consolidando e se desenvolvendo não só seu sistema nacional de cultura, de economia, de organização política com suas tendências a uma possível síntese étnica ou tipológica de homem ou de figura humana a que venha corresponder a expressão de um ethos comum a várias populações regionais e até a vários grupos diferenciados pela classe social ou pela especialização de trabalho: agrária pastoril, urbano, extrativo, marítimo, fluvial.
Num país todo situado em espaço tropical como o Brasil, concordam os cientistas sociais com os biólogos - e é assunto do que o autor se vem ocupando há vários anos, em relação com o Nordeste de cana-de-açúcar - que a monocultura latifundiária vem constituindo verdadeira perversão do destino natural da sua agricultura. êsse destino seria o da diversificação de acôrdo com sua exata vocação ecológica, isto é, no sentido do máximo aproveitamento da variedade que caracteriza o viço da vegetação tropical. Essa vocação implicaria em capacidade de produção, favorecida por uma senão provável, possível, aptidão do trópico brasileiro - trópicos no plural: Brasis constituídos em Brasil para tornar-se parte considerável daquele "celeiro do mundo", a que se referem biólogos conhecidos pelas discreção dos seus prognósticos.
Sendo assim, a política social a ser seguida num país quase todo tropical e em desenvolvimento mais ou menos acelerado, como o Brasil, parece a alguns de nós que deve ser a que reduza ao mínimo - e neste particular o auxílio da moderna química agrária pode ser extremamente valioso - as sub-áreas, puramente rurais, de monocultura, outrora latifundiária, estendendo-se sôbre elas - o que implica numa nada insignificante revolução - atividades e populações que, de rurais, passem a rurbanas e de ligadas exclusivamente a esta ou aquela lavoura imperial passem a ser, tanto quanto ecològicamente possível, populações áreas, menos de uma só produção que de produção diversificada. Aproveitar-se-ia ao máximo a chamada vocação dos solos tropicais para se exprimirem antes em vegetação diversificada do que em culturas exclusivas, estendidas sôbre grandes áreas. No caso do Brasil, as vocações dos vários Brasis se juntariam em benefício do todo nacional.
Se o Brasil conseguir orientar, nos próximos anos através de um planejamento ao mesmo tempo interregional e pan-brasileiro, seu desenvolvimento, no sentido dessa conjugação de produção - a que se processe de acôrdo com as vocações várias, porém, complementares, dos seus solos tropicais com que por sua natureza, ou por sua própria ecologia, rebeldes à monocultura e ao latifundio - terá realizado parte importante da revolução que lhe cumpre desenvolver com urgência: a revolução do ajustamento da sua economia e da sua sociedade a uma ecologia que, sendo, no caso, a biològicamente tropical, parecer sociològicamente favorável a um desejado desenvolvimento harmônico, quer da economia, quer da sociedade. é pelo menos o que parece a alguns de nós, já antigos analistas de um processo, ou de um anseio ou afã, revolucionário, provocado, ao nosso ver, principalmente, por aquêles desajustamentos. Processo que o autor tem procurado considerar não só nas suas expressões mais recentes como nas mais remotas: as que desde que o Brasil é polìticamente, nação, o vêm sacolejando em movimentos como as "cabanadas", "balaiadas", "tapuiadas", "Pedra Bonita", "Farroupilha", "Revolta Praeira", "Quebra-Quilos", "Canudos", Contestado", "Joazeiro", de sentido antes socio-econômico, ou sociológico, do que apenas político. Brasis inquietos sem atinarem com o seu sentido nacional total: socio-econômicamente total.
A tensão, no Brasil atual, entre o Nordeste ou o Norte e o Centro-Sul não vai a tanto quanto, no Canadá, o conflito entre os dois Canadás, o francês e o anglo-saxônico, desmoralizada como vem sendo a profecia daqueles para-sociólogos que supunham, ainda há meio século, inevitável uma diferenciação étnica entre o Sul e o Norte-Nordeste do nosso país, com teuto-brasileiros e ítalo-brasileiros predominando étnica e culturalmente no Sul a ponto de constituirem um Brasil ariano ou não-europeu, em contraste com os Brasis luso-afro-ameríndios, portadores de cultura mais não-européia que européia.
A imigração de alemães, de italianos e de outros europeus não-ibéricos tendo cessado para o Sul e o Centro-Sul do Brasil, os substitutos, para atender a necessidades industriais e agrárias dessa região, dessa imigração, vêm sendo ou japonêses, ou, em muito maior número, os nordestinos, vários dos quais vêm se integrando por casamento e por uniões extra-matrimoniais na população do Centro-Sul e do Sul. êsses deslocamentos de população são dos mais consideráveis que vêm ocorrendo em qualquer país da América e já importam em alteração étnico-cultural de população da região mais industrializada do Brasil, pelo impacto, sôbre ela, de elementos vindos das mais rústicas, das de culturas mais telùricamente folclórica; e essa alteração no sentido de um abrasileiramente de população centro-sulina e sulina que se vem fazendo através, quer daquelas uniões sexuais, no plano biológico, quer, no plano cultural. Brasis interpenetrando-se no espaço e no tempo sociais; e constituindo-se dinâmicamente em Brasil: Brasil uno sem deixar de ser plural.
Nas
páginas que se seguem, a expressão "pluralismo" é
empregada em seu sentido sociológico mais amplo - aquêle que
admite a coexistência de diferenças sociais ou culturais, ou
étnico-sociais, paralelas ou convergentes, numa sociedade global, sem
prejuízo, e até com vantagem, para essa sociedade. E não em
qualquer dos seus sentidos particulares: aquêles que são
destacados, em recente ensaio, "Pluralismo social et cultual", nos
Cahiers Internationaux de Sociologie, de Paris (vol. XLIII, 1967), pelo
Professor Pierre L. van den Berche, como sendo, o primeiro, tocquevileano (cujos
adeptos modernos seriam Raymond Aron e outros franceses e anglo-americanos e que
entende por pluralismo a existência, numa sociedade global, de
instituições e de grupos diversos por suas formas,
conteúdos e funções, que, como intermediários entre
o Indivíduo e o Estado democrático, exerceriam pressões
contraditórias sôbre o poder teòricamente, e nem sempre, na
prática, unificador por meios coordenadores, do mesmo Estado; e o
segundo, o etnológico (J. C. Furnivall e outros antropólogos
sociais, principalmente britânicos e funcionalistas, mas também
franceses como Georges Balandier e mexicanos como Pablo Gonzalez Casanova em sua
La Democracia en Mexico, 1965. Os pluralistas do segundo tipo se vêm
especializando em considerar problemas culturais e étnico culturais de
pluralidade, em face de situações por elas consideradas
"colonialistas" quer o "colonialismo" suja externo, quer
interno, com os regimes de dominação de potências
européias em países tropicais constituindo, para alguns
dêsses estudiosos, o protótipo empírico que lhes tem servido
de base a análises de situações plurais menos
democráticas do que as de ordinário concebidas ou consideradas
pelos estudiosos da primeira tendência.
As situações plurais mais características do Brasil como sociedade e como cultura e até como "raça" nacionais, não se ajustando exatamente a nenhum dêsses dois critérios rígidos de análise e de interpretação, não deixam, por essa sua peculiaridade, de ser plurais; nem de corresponderem a um jôgo de interrelações entre grupos e subculturas e até entre etnias, que pode ser considerado jôgo, sob vários aspectos, para-democrático. Ou com tendências democratisantes por vêzes contrariadas por interêsses de grupos (políticos, econômicos, religiosos, étnicos, regionais) que, dominantes num setor, têm pretendido, raramente com êxito considerável, estender a outros setores êsse domínio. Por exemplo: grupos principalmente europeus na sua etnia que têm pretendido impor aos demais um cristianismo exclusivamente europeu. Ou grupos principalmente urbanos que têm pretendido agir nacionalmente à revelia de grupos rurais, deixando-os na situação de subnacionais. São problemas, os dêsse caráter, que têm perturbado ou contrariado por vêzes, o desenvolvimento brasileiro num sentido genuìnamente nacional, quer de sociedade, quer de cultura, constituindo-se em problemas de pluralidade menos saudável e até patológica.
Com relação ao que possa ser considerado, na população brasileira, com projeções sôbre a sociedade e a cultura nacionais, de pluralmente étnico, impõe-se assinalar, contra a tendência, por algum tempo dominante, para a supervalorização da etnia caucasoide - esta etnia associada a privilégios de caráter político, econômico, cultural, estético - a tendência, cada vez mais acentuada, para uma ampla morenidade étnica - até pretos já são considerados morenos - a que vão correspondendo formas sociais e culturais igualmente amplas de morenidade. Não se diga, porém, dessa tendência que vem significando um pendor tal para uma uniformidade ou uma unanimidade brasileira, nesses setores, que comece a importar num declínio ou num quase extermínio de pluralidade. A morenidade, no seu aspecto étnico, está longe de ser uma só: suas nuances de côr e suas variedades de forma são numerosas e lhe dão um nítido caráter de pluralidade que, entretanto, se concilia com sua tendência uniformizante, ao mesmo tempo que democratizante. Se os brasileiros tendem a ser todos, ou quase todos, morenos - um moreno, no caso de alguns alvos e louros, virgem de qualquer miscigenação ou de origem, mesmo remota, moura, negra ou ameríndia e obtido apenas pela sistemática exposição de candidatos à morenidade, em estado de completa ou quase completa nudez, ao sol e pelo uso, pelos mesmo de cremes bronzeadores da pele - compreende-se que dessa morenidade geral, porém não absoluta, resulte entre êles um sentimento igualitário, étnico, com relação à sua condição geral de brasileiros. Mas sem que dentro dessa morenidade, por assim dizer democrática, as nuances de côr e variedades de forma deixem de se apresentar plurais num dos aspectos mais significativos de pluralidade física, sem ser étnica: o aspecto estético. Forma-se assim, através do mito em grande parte democrático, igualitário e unificador da morenidade, uma espécie de "raça brasileira que desprestigia o racismo, prestigiando antes um melanismo, por vêzes multi-étnico, que um albinismo natural ou artificialmente obtida ou simulado.
Será que todo êsse processo morenocêntrico, em que as relações interpessoais tendem a se sobrepor as relações entre membros de classes, de raças, de regiões, está se verificando, no Brasil, de modo de todo idílico, sem preconceitos de caráter étnico a se levantarem, por vêzes, ou em certos meios, contra êle? é evidente que não. Daí alguns sociólogos como o Professor Florestam Fernandes, em estudos idôneos e, sobretudo, publicistas mais ou menos retóricos, exagerarem êsses obstáculos e alguns até pretenderem encontrar no Brasil equivalências ao que se passa nos Estados Unidos e na União Sul-Africana. êsses exageros de publicistas e suas tentativas no sentido de apresentarem tais "equivalências" como sociològicamente potentes, vêm-se constituindo numa literatura dita sociológica, mas na verdade, politicóide e, ao que parece, precária: sem condições nem qualidades de permanência. À sombra dela vem se tentando introduzir no Brasil o mito da "negritude", através de novas tentativas, de aparente pluralismo cultural, no sentido de se desenvolver, entre nós, num teatro militantemente "negro" e, até, de se animarem reivindicações de caráter cultural da parte de tribus brasileiras, indígenas, a cuja integração no todo étnico-sociocultural brasileiro, de acôrdo com os métodos Rondon, deveria preferir-se sua existência segregada ou autônoma. Excesso de pluralismo paralelo, semelhante ao que vem sendo defendido, com relação à África, por antropólogos românticos, do tipo de Herskovits, por um lado, e, por outro lado, por políticos mais ou menos realistas, interessados em que essas tribus venham a fazer passivamente parte de sistemas supernacionais a seu modo imperiais, embora aparentemente anti-imperiais. Semelhante pluralismo paralelo, se se concretizasse, perturbaria o processo de integração nacional entre grupos nacionais ou para-nacionais como o brasileiro, ou o luso-moçambicano ou o luso-angolano, em benefício tão-sòmente daqueles sistemas imperiais.
O autor teme concluir êste já longo prefácio resvalando no risco de dar às considerações aqui reunidas em tôrno de uns tantos aspectos da ecologia tropical, ao mesmo tempo una e plural, que vem condicionando a formação e condiciona, ao que parece, o desenvolvimento do Brasil como sistema nacional de vida, de convivência e de cultura, um toque de pedanteria científica. Não resiste, porém, à tentação de destacar a atualidade, por um lado, entre biólogos preocupados com problemas sociais do Homem, e, por outro lado, entre os próprios cientistas sociais de maior relêvo pelo valor das suas obras e pela autoridade da sua palavra, da idéia dos ecosistemas. Para um dêsses cientistas sociais, o Professor Talcott Parsons, é de tôda conveniência nos modernos estudos sociais cientìficamente orientados, reconhecer-se o que chama "a existência e a função ecológica daqueles variantes diferenciados" que o seu colega Gerald Holton identifica como ecosistemas. O Professor Parsons versa o assunto no seu "Unity and Diversity in the Modern Intellectual Disciplines the Role of the Social Sciences".
Como biólogo, o Professor Renê Dubos é mais incisivo a êsse respeito: parece-lhe de todo necessário que, nos estudos sôbre o Homem, procure-se atualmente conhecer os ecosistemas através dos quais se manifesta ou funciona a chamada natureza do mesmo Homem. Só assim se terá um conhecimento íntegro, em vez de fragmentário, das relações entre o que se considere natural e o que se considere cultural nessas funções, através dos complexos identificáveis como ecosistemas.
Um dêsse complexos parece a alguns de nós ser o pan-tropical, susceptível de ser analisado e estudado, no seu todo, através de uma Tropicologia que se constitua em ciência especial com menor amplitude, mas ainda sob a configuração de "totalidades" como sistemas transnacionais, podem ser estudados os sistemas hispanotropical e lusotropical. Ou, ainda alguns outros, como sistemas nacionais. Está neste caso sistema nacional brasileiro, em cuja análise podem ser considerados ao mesmo tempo, a unidade ecológica pan-tropical, tendo por base física vasto espaço continental, e a diversidade, também. é um eco-sistema como variante de um grande todo: variante, por sua vez, composta de variantes menores.
Santo Antonio de Apipucos, Janeiro, 1968.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Brasis, Brasil e Brasília: sugestões em tôrno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural. Rio de Janeiro: Record, 1968. 271p.
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