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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



O CARÁTER DA CIDADE


O viajante que chega ao Recife por mar, ou de trem, não é recebido por uma cidade escancarada à sua admiração, à espera dos primeiros olhos gulosos de pitoresco ou de côr. Nenhum pôrto de mar do Brasil se oferece menos ao turista. Quem vem do Rio ou da Bahia, cidades francas, cenográficas, fotogênicas, um ar sempre de dia de festa, as igrejas mais gordas que as recifenses, casas trepadas umas por cima das outras como grupos de gente se espremendo pra sair num retrato de revista, uma hospitalidade fácil, derramada - talvez fique a princípio desapontado com o Recife. Com o recato quase mourisco do Recife, cidade acanhada, escondendo-se por trás dos coqueiros; e angulosa, as igrejas magras, os sobrados estreitos, alguns, ainda hoje, com quartinhas às janelas, com gaiolas de passarinhos, de papagaios e até de araras, junto às varandas de ferro rendilhado; com mulatas de casas-de-rapariga em terceiro ou quarto andar, que de madrugada aparecem nuas nas varandas para provocarem os seminaristas de conventos, alvoroçando os frades moços empenhados nas primeiras rezas do dia. Cidade sem saliências nem relevos que dêem na vista, tôda ela num plano só, achatando-se por entre as touças de bananeiras que saem dos quintais dos sobrados burgueses; por entre as mangueiras, os sapotizeiros, as jaqueiras das casas mais afastadas.

Outra impressão, bem mais alegre, é a do viajante que chega de avião e a quem o Recife se oferece um pouco mais. Só as grandes manchas de água verde e azul dão para alegrar a vista.

A nenhum, porém, a cidade se entrega imediatamente: seu melhor encanto consiste mesmo em deixar-se conquistar aos poucos. É uma cidade que prefere namorados sentimentais a admiradores imediatos. De muito oferecido ou saliente, ela só tem o farol. Ou as tôrres das igrejas como a do Espírito Santo, outrora célebre pelas côres vivas que anunciavam aos recifenses navios à vista, vapôres a chegar: da Europa, do Sul, da África de outras Américas.

Sucede porém que raro é o viajante com o vagar ou a veneta para namoros tão demorados. Muitos saem do Recife com a impressão única, monótona, das ruas claras, batidas de sol, das pontes modernas, da gente quase tôda morena. Um outro Recife - aquêle que o pirata inglês James Lancaster saqueou no século XVI, instalando-se em seguida nos armazéns de açúcar e obrigando os portuguêses a puxarem carroças, fazendo dêles os primeiros burros-sem-rabo do Brasil; onde no século XVII o Conde Maurício de Nassau, com o seu séquito de homens louros - dos quais ainda se vêem descendentes - levantou o primeiro observatório astronômico na América, o primeiro jardim zoológico, e dois palácios à beira do rio, um dêles - o de Vrijburg - cercado de coqueiros e das mais altas árvores dos trópicos; onde, no tempo do mesmo Nassau, floresceram pintores como Franz Post, cientistas como Piso e Marcgraf, eruditos como o pastor protestante Plante, Frei Manuel do Salvador e o Rabino Aboab da Fonseca; o Recife do primeiro centro de cultura israelita na América; da primeira assembléia política; cidade que por algum tempo reuniu a população mais heterogênea do continente - louros, morenos, pardos, negros - católicos, protestantes, judeus - português, caboclos, flamengos, africanos, inglêses, alemães - fidalgos, soldados de fortuna, cristãos-novos, aventureiros, plebeus, degredados - gente das mais diversas procedências, credos, culturas, que aqui se misturou, fundindo-se num dos tipos mais sugestivos de brasileiro; o Recife das revoluções, dos crimes, das assombrações, dos cadáveres de padres ideólogos rolando pelo chão, dos fantasmas de môças nuas aparecendo a frades devassos, dos papa-figos pegando meninos, dos maridos ciumentos esfaqueando mulheres, das serenatas de rapazes, pelo Capibaribe, nas noites de lua - toda êsse Recife romântico, mal-assombrado, passa despercebido ao turista. E não que o turista, brasileiro ou estrangeiro, não queira saber dessas cousas; para o maior número são traços de um grande interêsse, capazes de enriquecer enormemente a impressão que recolham da cidade. Mas como encontrar tais sugestões fora dos compêndios de História, das publicações eruditas, dos livros grandes, solenes, de que todo viajante que se preza foge prudentemente, com as valises tomadas pelos objetos de uso, pelos frascos de sais, pelos romances leves?



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Caráter da Cidade. In: Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. Ilustrado por Luís Jardim. 4 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1934. 3-5 p.

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