CARTAS DO PRÓPRIO PUNHO SOBRE PESSOAS E COISAS DO BRASIL E DO ESTRANGEIRO
Prefácio
A autoria deste livro pertence a Sylvio Rabello e não a quem escreveu as cartas que ele reuniu e selecionou para publicação precedendo-as de um longo ensaio crítico-biográfico. Esta introdução é que é importante: as cartas serviram-lhe de pretexto. Portanto, o autor deste livro é Sylvio Rabello. Os direitos autorais cabem à sua viúva, D. Esmeralda Rabello.
Já doente, Sylvio Rabello, ao procurar dar forma definitiva, para publicação, ao material por ele recolhido pacientemente a fim de constituir este livro – sobretudo ao escrever a introdução que valoriza um simples documentário – pediu ao autor das cartas íntimas para selecionar e decidir em definitivo o que deveria ser publicado, tanto das cartas reunidas como da própria introdução, meio biográfica, meio crítica. E que fosse uniformizada a ortografia. Já Sylvio convidara para prefaciar o livro o ilustre escritor Josué Montello, que concordara em editá-lo.
Pediu também ao amigo, cujas cartas reunira – iniciativa de todo sua : o livro é seu – para publicar delas e da introdução – repita-se – somente o que parecesse mais característico, além de oportuno; e que registrasse – já que não o fizera ele – seus agradecimentos à Senhorita Maria do Carmo Lins, que muito o auxiliara no trabalho de copiar, datilografando, papéis tão íntimos, escritos em letra quase sempre má e sem nenhum objetivo especificamente literário: aquele "especificamente literário" que, para Sylvio, era, por vezes, de menor interesse que o extraliterário.
Certamente concordaria em que do trabalho de ordenação cronológica das cartas e da uniformização da ortografia fosse encarregado o também seu amigo e também escritor Mário Souto Maior. Foi o que sucedeu. E Mário Souto Maior realizou inteligentemente essa tarefa de modo a atender tanto ao pedido de Sylvio Rabello quanto a justas exigência do Instituto Nacional do Livro e do editor.
Nos seus últimos anos de vida – Sylvio, chefe do Departamento de Psicologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais – foi diária nossa convivência. Reuníamo-nos todas as tardes, por uma boa meia hora, ele, eu, e Renato Carneiro Campos, por quem era crescente sua admiração. Devo-lhe compreensões generosas de trabalhos meus, então recém-aparecidos. Compreensões que minha vaidade supõe virem faltando a outros críticos literários brasileiros. E quem, no Brasil dos nossos dias, foi, ou é, mais do que ele, crítico literário, do tipo superiormente discriminador, analítico e interpretativo? O que talvez se deva atribuir em parte a seu saber de psicólogo.
Entre essas compreensões generosas, a do "interesse" e até "valor literário" que, segundo sua generosidade – e nisto coincidia seu julgamento com o de idôneos críticos literários estrangeiros – se encontraria de "modo", ia ele ao extremo de dizer, "excepcionalmente novo", na seminovela Dona Sinhá e o Filho Padre. Seminovela para outros destituída de tal modo de "grandiosidade" – que aliás não pretendeu nunca Ter, com seus heróis um tanto anti-heróis e antes gente obscura do que "distinta" ou "pitoresca" – a ponto de ser, para estes outros críticos, obra de pouca ou nenhuma importância no gênero: gênero em que, aliás, pretendera ser inovação. E em vez de apenas "especificamente literária", metaliterária, na sua inovadora expressão captada por Sylvio e em longa análise do livro brasileiro, pelo crítico literário do New York Times. Nessa inovação, a "grandiosidade" não faria falta, Sylvio Rabello tendo sido dos que até em cartas inteiramente pessoais sobre assuntos cotidianos tendia a encontrar possibilidades ou germes de valor literário. O intimamente, despretensiosamente pessoal, estritamente pessoal – sem visar à publicação – podia ser, para ele, em termos ou que o "especificamente literário" da expressão destinada a livro ou a revista ou a jornal.
Também se indignou, com aquela indignação maliciosa de que era capaz, contra o orientador literário de conhecida editora de São Paulo ou do Rio que apresentou a teatralização realizada por teatrólogo ilustre e perito na sua arte, do livro Sobrados e Mucambos, como a primeira "expressão estética" do mesmo livro. Para ele, essa força estética viria, "viva e plena", do próprio Sobrados e Mucambos. Transbordaria dele e do que nele seria literatura além de ciência e, segundo Sylvio até filosofia; e teria sido apenas utilizada e pelo teatrólogo, aliás, brilhante, que lhe deu forma teatral.
Registrem-se essas suas opiniões porque foram os seus últimos pronunciamentos de crítico literário: o arguto crítico que foi ao mesmo tempo que biógrafo. Crítico-biográfica é sua introdução a este livro – em torno do que seja projeção, quer pessoal, quer de escritor, nas cartas de amigo a amigos que teve a idéia de reunir para publicação: repita-se que seu último trabalho. Em todas essas interpretações creio encontrar-se a marca daquela sua argúcia, daquele seu senso crítico, daquela sua capacidade analítica que esplendem nos seus ensaios sobre Farias Brito, sobre Sylvio Romero, sobre Euclydes da Cunha e também nas suas páginas antológicas sobre Capitu e nos trabalhos de pesquisa psico-social que realizou, na sua derradeira fase de atividade intelectual, porventura superior à pedagógica – para o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Cartas do próprio punho sobre pessoas e coisas do Brasil e do estrangeiro. Organizado por Sylvio Rabello. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1978. 280p.
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