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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



CASA-GRANDE E SENZALA
Prefácio


Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio. Levou-me primeiro à Bahia; depois a Portugal, com escala pela África. O tipo de viagem ideal para os estudos e as preocupações que este ensaio reflete.

Em Portugal foi surpreender-me em fevereiro de 1931 o convite da Universidade de Stanford para ser um dos seus visiting professors na primavera do mesmo ano. Deixei com saudade Lisboa, onde desta vez pudera familiarizar-me, em alguns meses de lazer, com a Biblioteca Nacional, com as coleções do Museu Etnológico, com sabores novos de vinho-do-porto, de bacalhau, de doces de freiras. Juntando-se a isto o gosto de rever Sintra e os Estoris e o de abraçar amigos ilustres. Um deles, João Lúcio de Azevedo, mestre admirável.

Igual oportunidade tivera na Bahia - minha velha conhecida, mas só de visitas rápidas. Demorando-me em Salvador pude conhecer com todo o vagar não só as coleções do Museu Afrobaiano Nina Rodrigues e a arte do trajo das negras quituteiras e a decoração dos seus bolos e tabuleiros como certos encantos mais íntimos da cozinha e da doçaria baiana que escapam aos simples turistas. Certos gestos mais finos da velha cozinha das casas-grandes que fez dos fornos, dos fogões e dos tabuleiros de bolo da Bahia seu último e Deus queira que invencível reduto. Deixo aqui meus agradecimentos às famílias Calmon, Freire de Carvalho, Costa Pinto; também ao professor Bernardino de Sousa, do Instituto Histórico, a Frei Filoteu, superior do Convento dos Franciscanos, e à preta Maria Inácia, que me prestou interessantes esclarecimentos sobre o trajo das baianas e a decoração dos tabuleiros. "Une cuisine et une politesse! Oui, les deux signes de vieille civilisation...", lembro-me de ter aprendido num livro francês. É justamente a melhor lembrança que conservo da Bahia: a da sua polidez e a da sua cozinha. Duas expressões de civilização patriarcal que lá se sentem hoje como em nenhuma outra parte do Brasil. Foi a Bahia que nos deu alguns dos maiores estadistas e diplomatas do Império; e os pratos mais saborosos da cozinha brasileira em lugar nenhum se preparam tão bem como nas velhas casas de Salvador e do Recôncavo.

Realizados os cursos que por iniciativa do Professor Percy Alvin Martin me foram confiados na Universidade de Stanford - um de conferências, outro de seminário, cursos que me puseram em contato com um grupo de estudantes, moças e rapazes, animados da mais viva curiosidade intelectual - regressei da Califórnia a Nova Iorque por um caminho novo para mim: através do Novo México, do Arizona, do Texas; de toda uma região que ao brasileiro do Norte recorda, nos seus trechos mais acres, os nossos sertões ouriçados de mandacarus e de xique-xiques. Descampados em que a vegetação parece uns enormes cacos de garrafa, de um verde duro, às vezes sinistro, espetados na areia seca.

Mas regressando pela fronteira mexicana, visava menos a esta sensação de paisagem sertaneja que a do velho Sul escravocrata. Este se alcança ao chegar o transcontinental aos canaviais e alagadiços da Luisiana. Luisiana, Alabama, Mississipi, as Carolinas, Virgínia - chamado "deep South". Região onde o regime patriarcal de economia criou quase o mesmo tipo de aristocracia e de casa-grande, quase o mesmo tipo de escravo e de senzala que no norte do Brasil e em certos trechos do sul; o mesmo gosto pelo sofá, pela cadeira de balanço, pela boa cozinha, pela mulher, pelo cavalo, pelo jogo; que sofreu, e guarda as cicatrizes, quando não as feridas abertas, ainda sangrando, do mesmo regime devastador de exploração agrária - o fogo, a derrubada, a coivara, a "lavoura parasita da natureza", no dizer de Monteiro Baena referindo-se ao Brasil. A todo estudioso da formação patriarcal e da economia escravocrata do Brasil impõe-se o conhecimento do chamado "deep South". As mesmas influências de técnica de produção e de trabalho - a monocultura e a escravidão - uniram-se naquela parte inglesa da América como nas Antilhas e em Jamaica, para produzir resultados sociais semelhantes aos que se verificam entre nós. Às vezes tão semelhantes que só varia o acessório: as diferenças de língua, de raça e de forma de religião.

Tive a fortuna de realizar grande parte da minha excursão pelo sul dos Estados Unidos na companhia de dois antigos colegas da Universidade de Colúmbia - Ruediger Bilden e Francis Butler Simkins. O primeiro vem se especializando com o rigor e a fleuma de sua cultura germânica no estudo da escravidão na América, em geral, e no Brasil, em particular; o segundo, no estudo dos efeitos da abolição nas Carolinas, assunto que acaba de fixar em livro interessantíssimo, escrito de colaboração com Robert Hilliard Woody: South Carolina During Reconstruction (Chapel Hill, 1932). Devo aos meus dois amigos, principalmente a Ruediger Bilden, sugestões valiosas para este trabalho; e ao seu nome devo associar o de outro colega, Ernest Weaver, meu companheiro de estudos de Antropologia no curso do Professor Franz Boas.

O Professor Franz Boas é a figura de mestre de que me ficou até hoje maior impressão. Conheci-o nos meus primeiros dias em Colúmbia. Creio que nenhum estudante russo, dos românticos, do século XIX, preocupou-se mais intensamente pelos destinos da Rússia do que eu pelos do Brasil na fase em que conheci Boas. Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação. Vi uma vez, depois de mais de três anos maciços de ausência do Brasil, um bando de marinheiros nacionais - mulatos e cafuzos - descendo não me lembro se do São Paulo ou do Minas pela neve mole de Brooklyn. Deram-me a impressão de caricaturas de homens. E veio-me à lembrança a frase de um livro de viajante americano que acabara de ler sobre o Brasil: "the fearfully mongrel aspect of most of the population". A miscigenação resultava naquilo. Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes.

Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do Professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família.

Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes exagerado na suas generalizações - principalmente em trabalhos de sectários e fanáticos - temos que admitir influência considerável, embora nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral. É uma influência sujeita à reação de outras, porém poderosa como nenhuma na capacidade de aristocratizar ou de democratizar as sociedades, de desenvolver tendências para a poligamia ou a monogamia; para a estratificação ou a mobilidade. Muito do que se supõe, nos estudos ainda tão flutuantes de eugenia e de cacogenia, resultado de traços ou taras hereditárias preponderando sobre outras influências, deve-se antes associar à persistência, através de gerações, de condições econômicas e sociais, favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento humano. Lembra Franz Boas que, admitida a possibilidade da eugenia eliminar os elementos indesejáveis de uma sociedade, a seleção eugênica deixaria de suprimir as condições sociais responsáveis pelos proletariados miseráveis - gente doente e mal nutrida; e persistindo tais condições sociais, de novo se formariam os mesmos proletariados.

No Brasil, as relações entre os brancos e as raças de cor foram desde a primeira metade do século XVI condicionadas, de um lado pelo sistema de produção econômica - a monocultura latifundiária; do outro, pela escassez de mulheres brancas, entre os conquistadores. O açúcar não só abafou as indústrias democráticas de pau-brasil e de peles, como esterilizou a terra, numa grande extensão em volta aos engenhos de cana, para os esforços de policultura e de pecuária. E exigiu uma enorme massa de escravos. A criação de gado, com possibilidade de vida democrática, deslocou-se para os sertões. Na zona agrária desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal - uma minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão.

Vencedores no sentido militar e técnico sobre as populações indígenas; dominadores absolutos dos negros importados da África para o duro trabalho da bagaceira, os europeus e seus descendentes tiveram entretanto de transigir com índios e africanos quanto as relações genéticas e sociais. A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações - as dos brancos com as mulheres de cor - de "superiores" com "inferiores" e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que doutro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.

Ligam-se à monocultura latifundiária males profundos que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da população brasileira, cuja saúde instável, incerta capacidade de trabalho, apatia, perturbações de crescimento, tantas vezes são atribuídas à miscigenação. Entre males, o mau suprimento de víveres frescos, obrigando grande parte da população ao regime de deficiência alimentar caracterizado pelo abuso do peixe seco e de farinha de mandioca (a que depois se juntou a carne de charque); ou então ao incompleto e perigoso, de gêneros importados em condições péssimas de transporte, tais como as que precederam a navegação a vapor e o uso, recentíssimo, de câmaras frigoríficas nos vapores. A importância da hiponutrição, destacada por Armitage, McCollum e Simmonds e recentemente por Escudero; da fome crônica, originada não tanto da redução em quantidade como dos defeitos da qualidade dos alimentos, traz a problemas indistintamente chamados de "decadência" ou "inferioridade" de raças, novos aspectos e, graças a Deus, maiores possibilidades de solução. Salientam-se entre as conseqüências da hiponutrição a diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências tiróide, hipofisária e gonadial provocadoras da velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro infecundidade. Exatamente os traços de vida estéril e de físico inferior que geralmente se associam as sub-raças; ao sangue maldito das chamadas "raças inferiores". Não se devem esquecer outras influências sociais que aqui se desenvolveram com o sistema patriarcal e escravocrata de colonização: a sífilis, por exemplo, responsável por tantos dos "mulatos doentes" de que fala Roquette Pinto e a que Ruediger Bilden atribui grande importância no estudo da formação brasileira.

A formação patriarcal do Brasil explica-se, tanto nas suas virtudes como nos seus defeitos, menos em termos de "raça" e de "religião" do que em termos econômicos, de experiência de cultura e de organização da família, que foi aqui a unidade colonizadora. Economia e organização social que às vezes contrariaram não só a moral sexual católica como as tendências semitas do português aventureiro para a mercancia e o tráfico.

Spengler salienta que uma raça não se transporta de um continente a outro; seria: preciso que se transportasse com ela o meio físico. E recorda a propósito os resultados dos estudos de Gould e de Baxter, e os de Boas, no sentido da uniformização da média de estatura, do tempo médio de desenvolvimento e até, possivelmente, da estrutura de corpo e da forma de cabeça a que tendem indivíduos de várias procedências reunidos sob as mesmas condições de "meio físico". De condições bioquímicas talvez mais do que físicas; as modificações por efeito possivelmente de meio, verificadas em descendentes de imigrantes - como nos judeus sicilianos e alemães estudados por Boas nos Estados Unidos - parecem resultar principalmente do que Wissler chama de influência do biochemical content. Na verdade, vai adquirindo cada vez maior importância o estudo, sob o critério da Bioquímica, das modificações apresentadas pelos descendentes de imigrantes em clima ou meio novo, rápidas alterações parecendo resultar do iodo que contenha o ambiente. O iodo agiria sobre as secreções da glândula tiróide. E o sistema de alimentação teria uma importância considerável na diferenciação dos traços físicos e mentais dos descendentes de imigrantes.

Admitida a tendência do meio físico e principalmente do bioquímico (biochemical content) no sentido de recriar à sua imagem os indivíduos que lhe cheguem de várias procedências, não se deve esquecer a ação dos recursos técnicos dos colonizadores em sentido contrário: no de impor ao meio formas e acessórios estranhos de cultura, que lhes permitem conservar-se o mais possível como raça ou cultura exótica.

O sistema patriarcal de colonização portuguesa do Brasil, representado pela casa-grande, foi um sistema de plástica contemporização entre as duas tendências. Ao mesmo tempo que exprimiu: uma imposição imperialista da raça adiantada à atrasada, uma imposição de formas européias (já modificadas pela experiência asiática e africana do colonizador) ao meio tropical, representou uma contemporização com as novas condições de vida e de ambiente. A casa-grande de engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Brasil - grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, cobertura de palha ou de telha-vã, alpendre na frente e dos lados, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais - não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpreendente, inesperada, do imperialismo português: sua atividade agrária e sedentária nos trópicos; seu patriarcalismo rural e escravocrata. Desde esse momento que o português, guardando embora aquela saudade do reino que Capistrano de Abreu chamou "transoceanismo", tornou-se luso-brasileiro; o fundador de uma nova ordem econômica e social; o criador de um novo tipo de habitação. Basta comparar-se a planta de uma casa-grande brasileira do século XVI com a de um solar lusitano do século XV para sentir-se a diferença enorme entre o português do reino e o português do Brasil. Distanciado o brasileiro do reinol por um século apenas de vida patriarcal e de atividade agrária nos trópicos já é quase outra raça, exprimindo-se noutro tipo de casa. Como diz Spengler - para quem o tipo de habitação apresenta valor histórico-social superior ao da raça - a energia do sangue que imprime traços idênticos através da sucessão dos séculos deve-se acrescentar a força "cósmica, misteriosa, que enlaça num mesmo ritmo os que convivem estreitamente unidos". Esta força, na formação brasileira, agiu do alto das casas-grandes, que foram centros de coesão patriarcal e religiosa: os pontos de apoio para a organização nacional.

A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater familias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa (o "tigre", a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés); de política (o compadrismo). Foi ainda fortaleza, banco, cemitério, hospedaria, escola, santa casa de misericórdia amparando os velhos e as viúvas, recolhendo órfãos. Desse patriarcalismo absorvente dos tempos coloniais a casa-grande do engenho Noruega, em Pernambuco, cheia de salas, quartos, corredores, duas cozinhas de convento, despensa, capela, puxadas, parece-me expressão sincera e completa. Expressão do patriarcalismo já repousado e pacato do século XVIII; sem o ar de fortaleza que tiveram as primeiras casas-grandes do século XVI. "Nas fazendas estava-se como num campo de guerra", escreve Teodoro Sampaio referindo-se ao primeiro século de colonização. "Os ricos-homens usavam proteger as suas vivendas e solares por meio de duplas e poderosas estacas à moda do gentio, guarnecidas pelos fâmulos, os apaniguados e índios escravos, e servindo até para os vizinhos quando de súbito acossados pelos bárbaros".

Nos engenhos dos fins do século XVII e do século XVIII estava-se porém como num convento português - uma grande fazenda com funções de hospedaria e de santa casa. Nem mesmo o não sei quê de retraído das casas dos princípios do século XVIII, com alpendres como que trepados em pernas de pau, verifica-se nas habitações dos fins desse século, do XVIII e da primeira metade do XIX - casas quase de todo desmilitarizadas, acentuadamente paisanas, oferecendo-se aos estranhos numa hospitalidade fácil, derramada. Até mesmo nas estâncias do Rio Grande, Nicolau Dreys foi encontrar, em princípios do século XIX, o costume dos conventos medievais de tocar-se um sino a hora da comida: "serve elle para avisar o viajante vagando pelo campo, ou o desvalido da visinhança, que pode chegar à mesa do dono que está se apromptando; e, com effeito, assenta-se quem quer a essa mesa de hospitalidade. Nunca o dono repelle a ninguem, nem sequer pergunta-se-lhe quem he [ .... ]".

Não me parece inteiramente com a razão José Mariano Filho ao afirmar que a nossa arquitetura patriarcal não fez senão seguir o modelo da religiosa, aqui desenvolvida pelos jesuítas - os inimigos terríveis dos senhores de engenho. O que a arquitetura das casas-grandes adquiriu dos conventos foi antes certa doçura e simplicidade franciscana. Fato que se explica pela identidade de funções entre uma casa de senhor de engenho e um convento típico de frades de São Francisco. A arquitetura jesuítica e de igreja foi, não há dúvida, e nisto me encontro de inteiro acordo com José Mariano Filho, a expressão mais alta e erudita de Arquitetura no Brasil colonial. Influenciou certamente a da casa-grande. Esta, porém, seguindo seu próprio ritmo, seu sentido patriarcal, e experimentando maior necessidade que a puramente eclesiástica de adaptar-se ao meio, individualizou-se e criou tamanha importância que acabou dominando a arquitetura de convento e de igreja. Quebrando-lhe o roço jesuítico, a verticalidade espanhola para achatá-la doce, humilde, subserviente em capela de engenho. Dependência da habitação doméstica. Se a casa-grande absorveu das igrejas e conventos valores e recursos de técnica, também as igrejas assimilaram caracteres da casa-grande: o copiar, por exemplo. Nada mais interessante que certas igrejas do interior do Brasil com alpendre na frente ou dos lados como qualquer casa de residência. Conheço várias - em Pernambuco, na Paraíba, em São Paulo. Bem característica é a de São Roque de Serinhaém. Ainda mais: a capela do engenho Caieiras, em Sergipe, cuja fisionomia é inteiramente doméstica. E em São Paulo, a igrejinha de São Miguel, ainda dos tempos coloniais.

A casa-grande venceu no Brasil a Igreja, nos impulsos que esta a princípio manifestou para ser a dona da terra. Vencido o jesuíta, o senhor de engenho ficou dominando a colônia quase sozinho. O verdadeiro dono do Brasil. Mais do que os vice-reis e os bispos.

A força concentrou-se nas mãos dos senhores rurais. Donos das terras. Donos dos homens. Donos das mulheres. Suas casas representam esse imenso poderio feudal. "Feias e fortes." Paredes grossas. Alicerces profundos. Óleo de baleia. Refere uma tradição nortista que um senhor de engenho mais ansioso de perpetuidade não se conteve: mandou matar dois escravos e enterrá-los nos alicerces da casa. O suor e às vezes o sangue dos negros foi o óleo que mais do que o de baleia ajudou a dar aos alicerces das casas-grandes sua consistência quase de fortaleza.

O irônico, porém, é que, por falta de potencial humano, toda essa solidez arrogante de forma e de material foi muitas vezes inútil: na terceira ou quarta geração, casas enormes edificadas para atravessar séculos começaram a esfarelar-se de podres por abandono e falta de conservação. Incapacidade dos bisnetos ou mesmo netos para conservarem a herança ancestral. Vêem-se ainda em Pernambuco as ruínas do grande solar dos Barões de Mercês; neste até as cavalariças tiveram alicerces de fortaleza. Mas toda essa glória virou monturo. No fim de contas as igrejas é que têm sobrevivido as casas-grandes. Em Maçangana, o engenho da meninice de Nabuco, a antiga casa-grande desapareceu; esfarelou-se a senzala; só a capelinha antiga de São Mateus continua de pé com os seus santos e as suas catacumbas.

O costume de se enterrarem os mortos dentro de casa - na capela, que era uma puxada da casa - é bem característico do espirito patriarcal de coesão de família. Os mortos continuavam sob o mesmo teto que os vivos. Entre os santos e as flores devotas. Santos e mortos eram afinal parte da família. Nas cantigas de acalanto portuguesas e brasileiras as mães não hesitaram nunca em fazer dos seus filhinhos uns irmãos mais moços de Jesus, com os mesmos direitos aos cuidados de Maria, às vigílias de José, às patetices de vovó de Sant'Ana. A São José encarrega-se com a maior sem-cerimônia de embalar o berço ou a rede da criança:

Embala, José, embala,
que a Senhora logo vem:
foi lavar seu cueirinho
no riacho de Belém.

E a Sant'Ana de ninar os meninozinhos no colo:

Senhora Sant'Ana,
ninai minha filha;
vede que lindeza
e que maravilha.
Esta menina
não dorme na cama,
dorme no regaço
da Senhora Sant'Ana.

E tinha-se tanta liberdade com os santos que era a eles que se confiava a guarda das terrinas de doce e de melado contra as formigas:

Em louvor de São Bento
que não venham as formigas
cá dentro,

escrevia-se num papel que se deixava à porta do guarda-comida. E em papéis que se grudavam às janelas e às portas:

Jesus, Maria, José,
rogai por nós que recorremos a vós.

Quando se perdia dedal, uma tesoura, uma moedinha, Santo Antônio que desse conta do objeto perdido. Nunca deixou de haver no patriarcalismo brasileiro, ainda mais que no português, perfeita intimidade com os santos. O Menino Jesus só faltava engatinhar com os meninos da casa; lambuzar-se na geléia de araçá ou goiaba; brincar com os muleques. As freiras portuguesas, nos seus êxtases, sentiam-no muitas vezes no colo brincando com as costuras ou provando dos doces.

Abaixo dos santos e acima dos vivos ficavam, na hierarquia patriarcal, os mortos, governando e vigiando o mais possível a vida dos filhos, netos, bisnetos. Em muita casa-grande conservavam-se seus retratos no santuário, entre as imagens dos santos, com direito a mesma luz votiva de lamparina de azeite e as mesmas flores devotas. Também se conservavam às vezes as tranças das senhoras, os cachos dos meninos que morriam anjos. Um culto doméstico dos mortos que lembra o dos antigos gregos e romanos.

Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moças, hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco. Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se jóias, ouro, valores. Às vezes guardavam-se jóias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas à baiana de tetéias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro. Os ladrões, naqueles tempos piedosos, raramente ousavam entrar nas capelas e roubar os santos. É verdade que um roubou o esplendor e outras jóias de São Benedito; mas sob o pretexto, ponderável para a época, de que "negro não devia ter luxo". Com efeito, chegou a proibir-se, nos tempos coloniais, o uso de "ornatos de algum luxo" pelos negros.

Por segurança e precaução contra os corsários, contra os excessos demagógicos, contra as tendências comunistas dos indígenas e dos africanos, os grandes proprietários, nos seus zelos exagerados de privativismo, enterraram dentro de casa as jóias e o ouro do mesmo modo que os mortos queridos. Os dois fortes motivos das casas-grandes acabarem sempre mal-assombradas com cadeiras de balanço se balançando sozinhas sobre tijolos soltos que de manhã ninguém encontra; com barulho de pratos e copos batendo de noite nos aparadores; com almas de senhores de engenho aparecendo aos parentes ou mesmo estranhos pedindo padres-nossos, ave-marias, gemendo lamentações, indicando, lugares com botijas de dinheiro. Às vezes dinheiro dos outros de que os senhores ilicitamente se haviam apoderado. Dinheiro que compadres, viúvas e até escravos lhes tinham entregue para guardar. Sucedeu muita dessa gente ficar sem os seus valores e acabar na miséria devido a esperteza ou a morte súbita do depositário. Houve senhores sem escrúpulos que, aceitando valores para guardar, fingiram-se depois de estranhos e desentendidos: "Você está maluco? Deu-me lá alguma cousa para guardar?" Muito dinheiro enterrado, sumiu-se misteriosamente. Joaquim Nabuco, criado por sua madrinha na casa-grande de Maçangana, morreu sem saber que destino tomara a ourama para ele reunida pela boa senhora; e provavelmente enterrada em algum desvão de parede. Já ministro em Londres, um padre velho falou-lhe do tesouro que Dona Ana Rosa juntara para o afilhado querido. Mas nunca se encontrou uma libra sequer. Em várias casas-grandes da Bahia, de Olinda, de Pernambuco se têm encontrado, em demolições ou escavações, botijas de dinheiro. Na que foi dos Pires d'Avila ou Pires de Carvalho, na Bahia, achou-se, num recanto de parede, "verdadeira fortuna em moedas de ouro". Noutras casas-grandes só se têm desencavado do chão ossos de escravos, justiçados pelos senhores e mandados enterrar no quintal, ou dentro de casa, à revelia das autoridades. Conta-se que o Visconde de Suassuna, na sua casa-grande de Pombal, mandou enterrar no jardim mais de um negro supliciado por ordem de sua justiça patriarcal. Não é de admirar. Eram senhores, os das casas-grandes, que mandavam matar os próprios filhos. Um desses patriarcas, Pedro Vieira, já avô, por descobrir que o filho mantinha relações com a mucama de sua predileção, mandou matá-lo pelo irmão mais velho. "Como Deus foi servido, que eu mandasse matar meu filho", escreveu ao padre coadjutor de Canavieira depois de cumprida a ordem terrível.

Também os frades desempenharam funções de banqueiros nos tempos coloniais. Muito dinheiro se deu para guardar aos frades nos seus conventos duros e inacessíveis como fortalezas. Daí as lendas, tão comuns no Brasil, de subterrâneos de convento com dinheiro ainda por desenterrar. Mas foram principalmente as casas-grandes que fizeram de bancos na economia colonial; e são quase sempre almas penadas de senhores de engenho que aparecem pedindo, padres-nossos e ave-marias.

Os mal-assombrados das casas-grandes se manifestam por visagens e ruídos que são quase os mesmos por todo, o Brasil. Pouco antes de desaparecer, estupidamente dinamitada, a casa-grande de Megaípe, tive ocasião de recolher, entre os moradores dos arredores, histórias de assombrações ligadas ao velho solar do século XVII. Eram barulhos de louça que se ouviam na sala de jantar; risos alegres e passos de dança na sala de visita; tilintar de espadas, ruge-ruge de sedas de mulher, luzes que se acendiam e se apagavam de repente por toda a casa; gemidos; rumor de correntes se arrastando; choro de menino; fantasmas do tipo crescemíngua. Assombrações semelhantes me informaram no Rio de Janeiro e em São Paulo povoar os restos de casas-grandes do vale do Paraíba. E no Recife, da capela da casa-grande que foi de Bento José da Costa, assegura-me um antigo morador do sítio que toda noite, à meia-noite, costuma sair montada num burro como Nossa Senhora, uma moça muito bonita, vestida de branco. Talvez a filha do velho Bento que ele por muito tempo não quis que casasse com Domingos José Martins fugindo a tirania patriarcal. Porque os mal-assombrados costumam reproduzir as alegrias, os sofrimentos, os gestos mais característicos da vida nas casas-grandes.

Em contraste com o nomadismo aventureiro dos bandeirantes em sua maioria mestiços de brancos com índios - os senhores das casas-grandes representaram na formação brasileira a tendência mais caracteristicamente portuguesa, isto é, pé-de-boi, no sentido da estabilidade patriarcal. Estabilidade apoiada no açúcar (engenho) e no negro (senzala). Não que estejamos a sugerir uma interpretação étnica da formação brasileira ao lado da econômica. Apenas acrescentando a um sentido puramente material, marxista, dos fatos, ou antes, das tendências, um sentido psicológico. Ou psicofisiológico. Os estudos de Cannon, por um lado, e, por outro, os de Keith parecem indicar que atuam sobre as sociedades, como sobre os indivíduos, independente de pressão econômica, forças psicofisiológicas, suscetíveis, ao que se supõe, de controle pelas futuras elites científicas - dor, medo, raiva - ao lado das emoções de fome, sede, sexo. Forças de uma grande intensidade de repercussão. Assim, o Islamismo, no seu furor imperialista, nas suas formidáveis realizações, na sua exaltação mística dos prazeres sensuais, terá sido não só a expressão de motivos econômicos, como de forças psicológicas que se desenvolveram de modo especial entre populações do Norte da África. Do mesmo modo, o movimento das bandeiras em que emoções generalizadas de medo e raiva se teriam afirmado em reações de superior combatividade. O português mais puro, que se fixou em senhor de engenho, apoiado antes no negro do que no índio, representa talvez, na sua tendência para a estabilidade, uma especialização psicológica em contraste com a do índio e a do mestiço de índio com português para a mobilidade. Isto sem deixarmos de reconhecer o fato de que em Pernambuco e no Recôncavo a terra se apresentou excepcionalmente favorável para a cultura intensa do açúcar e para a estabilidade agrária e patriarcal.

A verdade é que em torno dos senhores de engenho criou-se o tipo de civilização mais estável na América hispânica; e esse tipo de civilização, ilustra-o a arquitetura gorda, horizontal, das casas-grandes. Cozinhas enormes; vastas salas de jantar; numerosos quartos para filhos e hóspedes; capela; puxadas para acomodação dos filhos casados; camarinhas no centro para a reclusão quase monástica das moças solteiras; gineceu; copiar; senzala. O estilo das casas-grandes - estilo no sentido spengleriano - pode ter sido de empréstimo; sua arquitetura, porém, foi honesta e autêntica. Brasileirinha da silva. Teve alma. Foi expressão sincera das necessidades, dos interesses, do largo ritmo de vida patriarcal que os proventos do açúcar e o trabalho eficiente dos negros tornaram possível.

Essa honestidade, essa largueza sem luxo das casas-grandes, sentiram-na vários dos viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil colonial. Desde Dampier a Maria Graham. Maria Graham ficou encantada com as casas de residência dos arredores do Recife e com as de engenho, do Rio de Janeiro; só a impressionou mal o número excessivo de gaiolas de papagaio e de passarinho penduradas por toda parte. Mas estes exageros de gaiolas de papagaio animando a vida de família do que hoje se chamaria cor local; e os papagaios tão bem-educados, acrescenta Mrs. Graham, que raramente gritavam ao mesmo tempo. Aliás, em matéria de domesticação patriarcal de animais, d'Assier observou exemplo ainda mais expressivo: macacos tomando a benção aos muleques do mesmo modo que estes aos negros velhos e os negros velhos aos senhores brancos. A hierarquia das casas-grandes estendendo-se aos macacos.

A casa-grande, embora associada particularmente ao engenho de cana, ao patriarcalismo nortista, não se deve considerar expressão exclusiva do açúcar, mas da monocultura escravocrata e latifundiária em geral: criou-a no Sul o café tão brasileiro como no Norte o açúcar. Percorrendo-se a antiga zona fluminense e paulista dos cafezais, sente-se, nos casarões em ruínas, nas terras ainda sangrando das derrubadas e dos processos de lavoura latifundiária, a expressão do mesmo impulso econômico que em Pernambuco criou as casas-grandes de Megaípe, de Anjos, de Noruega, de Monjope, de Gaipió, de Morenos; e devastou parte considerável da região chamada "da mata". Notam-se, é certo, variações devidas umas a diferenças de clima, outras a contrastes psicológicos e ao fato da monocultura latifundiária ter sido, em São Paulo, pelo menos, um regime sobreposto, no fim do século XVIII, ao da pequena propriedade. Não nos deve passar despercebido o fato de que "enquanto os habitantes do Norte procuravam para habitações os lugares altos, os pendores das terras, os paulistas, pelo comum, preferiam as baixadas, as depressões do solo para a edificação de suas vivendas [. . .]". Eram casas, as paulistas, "sempre construídas em terreno íngreme, de forte plano inclinado, protegidas do vento sul, de modo que do lado de baixo o prédio tinha um andar térreo, o que lhe dava desse lado aparência de sobrado". Surpreende-se nos casarões do Sul um ar mais fechado e mais retraído do que nas casas nortistas; mas o "terraço, de onde com a vista o fazendeiro abarcava todo o organismo da vida rural", é o mesmo do Norte; o mesmo terraço hospitaleiro, patriarcal e bom. A sala de jantar e a cozinha, as mesmas salas e cozinhas de convento. Os sobrados que, viajando-se de Santos ao Rio em vapor pequeno que venha parando em todos os portos, avistam-se à beira da água - em Ubatuba, São Sebastião, Angra dos Reis - recordam os patriarcais, de Rio Formoso. E às vezes, como no Norte, encontram-se igrejas com alpendre na frente - convidativas, doces, brasileiras.

A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: de sua vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; da sua vida de menino; do seu cristianismo reduzido a religião de família e influenciado pelas crendices da senzala. O estudo da história íntima de um povo tem alguma cousa de introspecção proustiana; os Goncourt já o chamavam "ce roman vrai". O arquiteto Lúcio Costa diante das casas velhas de Sabará, São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, das velhas casas-grandes de Minas, foi a impressão que teve: "A gente como que se encontra... E se lembra de cousas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós; não sei - Proust devia explicar isso direito.

Nas casas-grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro; a nossa continuidade social. No estudo da sua história íntima despreza-se tudo o que a história política e militar nos oferece de empolgante por uma quase rotina de vida: mas dentro dessa rotina é que melhor se sente o caráter de um povo. Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar-se o "tempo perdido". Outro meio de nos sentirmos nos outros - nos que viveram antes de nós; e em cuja vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos.

Isto, é claro, quando se consegue penetrar na intimidade mesma do passado; surpreendê-lo nas suas verdadeiras tendências, no seu à-vontade caseiro, nas suas expressões mais sinceras. O que não é fácil em países como o Brasil; aqui o confessionário absorveu os segredos pessoais e de família, estancando nos homens, e principalmente nas mulheres, essa vontade de se revelarem aos outros que nos países protestantes provê o estudioso de história íntima de tantos diários, confidências, cartas, memórias, autobiografias, romances autobiográficos. Creio que não há no Brasil um só diário escrito por mulher. Nossas avós, tantas delas analfabetas, mesmo quando baronesas e viscondessas, satisfaziam-se em contar os segredos ao padre confessor e a mucama de estimação; e a sua tagarelice dissolveu-se quase toda nas conversas com as pretas boceteiras, nas tardes de chuva ou nos meios-dias quentes, morosos. Debalde se procuraria entre nós um diário de dona-de-casa cheio de gossip no gênero dos ingleses e dos norte-americanos dos tempos coloniais.

Em compensação, a Inquisição escancarou sobre nossa vida íntima da era colonial, sobre as alcovas com camas que em geral parecem ter sido de couro, rangendo as pressões dos adultérios e dos coitos danados; sobre as camarinhas e os quartos de santos; sobre as relações de brancos com escravos - seu olho enorme, indagador. As confissões e denúncias reunidas pela visitação do Santo Ofício as partes do Brasil constituem material precioso para o estudo da vida sexual e de família no Brasil do século XVI e XVII. Indicam-nos a idade das moças casarem - doze, quatorze anos; o principal regalo e passatempo dos colonos - o jogo de gamão; a pompa dramática das procissões - homens vestidos de Cristo e de figuras da Paixão e devotos com caixas de doce dando de comer aos penitentes. Deixam-nos surpreender, entre as heresias dos cristãos-novos e das santidades, entre os bruxedos e as festas gaiatas dentro das igrejas, com gente alegre sentada pelos altares, entoando trovas e tocando viola, irregularidades na vida doméstica e moral cristã da família - homens casados casando-se outra vez com mulatas, outros pecando contra a natureza com efebos da terra ou da Guiné, ainda outros cometendo com mulheres a torpeza que em moderna linguagem científica se chama, como nos livros clássicos, de felação, e que nas denúncias vem descrita com todos os ff e rr; desbocados jurando pelo "pentelho da Virgem"; sogras planejando envenenar os genros; cristãos-novos metendo crucifixos por baixo do corpo das mulheres no momento da cópula ou deitando-os nos urinóis; senhores mandando queimar vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das chamas.

Também houve - isto no século XVIII e no XIX - esquisitões Pepys de meia-tigela, que tiveram a pachorra de colecionar em cadernos, gossip e mexericos: chamavam-se "recolhedores de fatos". Manuel Querino fala-nos deles com relação à Bahia; Arrojado Lisboa, em conversa, deu-me notícia de uns cadernos desses, relativos a Minas, e em Pernambuco, na antiga zona rural, tenho encontrado traços de "recolhedores de fatos". Alguns "recolhedores de fatos", antecipando-se aos pasquins, colecionavam casos vergonhosos, que, em momento oportuno, serviam para emporcalhar brasões ou nomes respeitáveis. Em geral, exploravam-se os preconceitos de branquidade e de sangue nobre; desencavava-se alguma remota avô escrava ou mina; ou tio que cumpria sentença; avô que aqui chegara de sambenito. Registravam-se irregularidades sexuais e morais de antepassados. Até mesmo de senhoras.

Outros documentos auxiliam o estudioso da história íntima da família brasileira: inventários, tais como os mandados publicar em São Paulo pelo antigo presidente Washington Luís; cartas de sesmaria, testamentos, correspondências da Corte e ordens reais como as que existem em mss. na Biblioteca do Estado de Pernambuco ou dispersas por velhos cartórios e arquivos de família; pastorais e relatórios de bispos, como o interessantíssimo, de Frei Luís de Santa Teresa, que amarelece, em latim, copiado em bonita letra eclesiástica, no arquivo da Catedral de Olinda; atas de sessões de Ordens Terceiras, confrarias, santas casas como as conservadas, inacessíveis e inúteis, no arquivo da Ordem Terceira de São Francisco, no Recife, e referentes ao século XVII, os Documentos Interessantes para a Hist6ria e Costumes de São Paulo, de que tanto se tem servido Afonso de E. Taunay para os seus notáveis estudos sobre a vida colonial em São Paulo; as Atas e o Registro Geral da Câmara de São Paulo; os livros de assentos de batismo, óbitos e casamentos de livres e escravos e os de rol de famílias e autos de processos matrimoniais que se conservam em arquivos eclesiásticos; os estudos de genealogia de Pedro Taques, em São Paulo, e de Borges da Fonseca, em Pernambuco; relatórios de juntas de higiene, documentos parlamentares, estudos e teses médicas, inclusive as de doutoramento nas Faculdades do Rio de Janeiro e da Bahia; documentos publicados pelo Arquivo Nacional, pela Biblioteca Nacional, pelo Instituto Histórico Brasileiro, na sua Revista, e pelos Institutos de São Paulo, Pernambuco e da Bahia. Tive a fortuna de conseguir não só várias cartas do arquivo da família Paranhos, que me foram gentilmente oferecidas pelo meu amigo Pedro Paranhos, como o acesso a importante arquivo de família, infelizmente já muito danificado pela traça e pela umidade, mas com documentos ainda dos tempos coloniais - o do engenho Noruega, que pertenceu por longos anos ao capitão-mor Manuel Tomé de Jesus, e, depois, aos seus descendentes. Seria para desejar que esses restos de velhos arquivos particulares fossem recolhidos as bibliotecas ou aos museus, e que os eclesiásticos e das Ordens Terceiras fossem convenientemente catalogados. Vários documentos que permanecem em mss. nesses arquivos e bibliotecas devem quanto antes ser publicados. É pena - seja-me lícito observar de passagem - que algumas revistas de História dediquem páginas e páginas à publicação de discursos patrióticos e de crônicas literárias; quando tanta matéria de interesse rigorosamente histórico permanece desconhecida ou de acesso difícil para os estudiosos.

Para o conhecimento da História social do Brasil não há talvez fonte de informação mais segura que os livros de viagem de estrangeiros - impondo-se, entretanto, muita discriminação entre os autores superficiais ou viciados por preconceitos - os Thévet, os Expilly, os Debadie - e os bons e honestos da marca de Léry, Hans Staden, Koster, Saint-Hilaire, Hendu, Spix, Martius, Burton, Tollenare, Gardner, Mawe, Maria Graham, Kidder, Fletcher. Destes me servi largamente, valendo-me de uma familiaridade com esse gênero não sei se diga de literatura - muitos são livros mal escritos, porém deliciosos na sua candura quase infantil - que data dos meus dias de estudante; das pesquisas para a minha tese Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century, apresentada em 1923 a Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Colúmbia. Trabalho que Henry L. Mencken fez-me a honra de ler, aconselhando-me que o expandisse em livro. O livro, que é este, deve esta palavra de estimulo ao mais antiacadêmico dos críticos.

Volto à questão das fontes para recordar os valiosos dados que se encontram nas cartas dos jesuítas. O material publicado já é grande; mas deve haver ainda - lembra-me em carta João Lúcio de Azevedo, autoridade no assunto - deve haver ainda na sede da Companhia muita cousa inédita. Os jesuítas não só foram grandes escritores de cartas - muitas delas tocando em detalhes íntimos da vida social dos colonos - como procuraram desenvolver nos caboclos e mamelucos, seus alunos, o gosto epistolar. Escrevendo da Bahia em 1552 dizia o jesuíta Francisco Pires sobre as peregrinações dos meninos da terra ao sertão: "[...] o que eu não escreverei porque o Padre lhes mandou que escrevessem aos meninos de Lisboa; e porque poderá ser que suas cartas as vejais o não escreverei [...]". Seria interessante descobrir essas cartas e ver o que diziam para Lisboa os caboclos do Brasil do século XVI. Freqüentemente depara-se nas cartas dos jesuítas com uma informação valiosa sobre a vida social no primeiro século de colonização; sobre o contato da cultura européia com a indígena e a africana. O Padre Antônio Pires, em carta de 1552, fala-nos de uma procissão de negros de Guiné em Pernambuco, já organizados em confraria do Rosário, todos muito em ordem "uns traz outros com as mãos sempre alevantadas, dizendo todos: Ora pro nobis". O mesmo Padre Antônio Pires, em carta de Pernambuco, datada de 2 de agosto de 1551, refere-se aos colonos da terra de Duarte Coelho como "melhor gente que de todas as outras capitanias"; outra carta informa que os índios a princípio "tinham empacho de dizer Santa Jooçaba, que em nossa língua quer dizer - pelo Signal da Cruz, por lhes parecer aquilo gatimonhas". Anchieta menciona os muitos bichos peçonhentos que atormentavam a vida doméstica dos primeiros colonos - cobras jararacas andando pelas casas e caindo dos telhados sobre as camas; "e quando os homens despertam se acham com elas enroladas no pescoço e nas pernas e quando se vão a calçar pela manhã as acham nas botas"; e tanto Anchieta como Nóbrega destacam irregularidades sexuais na vida dos colonos, nas relações destes com os indígenas e os negros, e mencionam o fato de serem medíocres os mantimentos da terra, custando tudo "o tresdobro do que em Portugal". Anchieta lamenta nos nativos, o que Camões já lamentara nos portugueses - "a falta de engenhos", isto é de inteligência, acrescida do fato de não estudarem com cuidado e de tudo se levar em festas, cantar e folgar; salientando ainda a abundância dos doces e regalos, laranjada, aboborada, marmelada, etc., feitos de açúcar. Detalhes de um realismo honesto, esses, que se colhem em grande número, nas cartas dos padres, por entre as informações de interesse puramente religioso ou devoto. Detalhes que nos esclarecem sobre aspectos da vida colonial, em geral desprezados pelos outros cronistas. Não nos devemos, entretanto, queixar dos leigos que em crônicas como a de Pero de Magalhães Gandavo e a de Gabriel Soares de Sousa também nos deixam entrever flagrantes expressivos da vida íntima nos primeiros tempos de colonização. Gabriel Soares chega a ser pormenorizado sobre as rendas dos senhores de engenho; sobre o material de suas casas e capelas; sobre a alimentação, a confeitaria e doçaria das casas-grandes; sobre os vestidos das senhoras. Um pouco mais, e teria dado um bisbilhoteiro quase da marca de Pepys.

De outras fontes de informações ou simplesmente de sugestões, pode servir-se o estudioso da vida íntima e da moral sexual no Brasil dos tempos de escravidão: do folclore rural nas zonas mais coloridas pelo trabalho escravo; dos livros e cadernos mss. de modinhas e receitas de bolo, das coleções de jornais; dos livros de etiqueta; e finalmente do romance brasileiro que nas páginas de alguns dos seus maiores mestres recolheu muito detalhe interessante da vida e dos costumes da antiga família patriarcal. Machado de Assis em Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Iaiá Garcia, Dom Casmurro e em outros de seus romances e dos seus livros de contos, principalmente em Casa Velha, publicado recentemente com introdução escrita pela Sra. Lúcia Miguel Pereira; Joaquim Manuel de Macedo n'As Vítimas Algozes, A Moreninha, O Moço Louro, As Mulheres de Mantilha, romances cheios de sinhazinhas, de iaiás, de mucamas; José de Alencar em Mãe, Lucíola, Senhora, Demônio, Familiar, Tronco do Ipê, Sonhos de Ouro, Pata da Gazela; Francisco Pinheiro Guimarães na História de uma Moça Rica e Punição; Manuel Antônio de Almeida nas Memórias de um Sargento de Milícias; Raul Pompéia n'O Ateneu; João Ribeiro n'A Carne; Franklin Távora, Agrário de Meneses, Martins Pena, Américo Werneck França Júnior são romancistas, folhetinistas ou escritores de teatro que fixaram com maior ou menor realismo aspectos característicos da vida doméstica e sexual do brasileiro; das relações entre senhores e escravos; do trabalho nos engenhos; das festas e procissões. Também os fixou a seu jeito, isto é, caricaturando-os, o poeta satírico do século XVIII, Gregório de Matos. E em memórias e reminiscências, o Visconde de Taunay, José de Alencar, Vieira Fazenda, os dois Melo Morais, deixaram-nos dados valiosos. Romances de estrangeiros procurando retratar a vida brasileira do tempo da escravidão existem alguns, mas nenhum que valha grande cousa, do ponto de vista da história social. Quanto a iconografia da escravidão e da vida patriarcal está magistralmente feita por artistas da ordem de Franz Post, Zacarias Wagner, Debret, Rugendas; sem falarmos de artistas menores e mesmo toscos - desenhadores, litógrafos, gravadores, aquarelistas, pintores de ex-votos - que desde o século XVI - muitos deles ilustrando, livros de viagem - reproduziram e fixaram, com emoção ou realismo, cenas de intimidade doméstica, flagrantes de rua e de trabalho rural, casas-grandes de engenhos e de sítios, tipos de senhoras, de escravos, de mestiços. Dos últimos cinqüenta anos da escravidão, restam-nos, além de retratos a óleo, daguerreótipos e fotografias fixando perfis aristocráticos de senhores, nas suas gravatas de volta, de sinhá-donas e sinhá-moças de penteados altos, tapa-missa no cabelo; meninas no dia da primeira comunhão - todas de branco, luvas, grinalda, véu, livrinho de missa, rosário; grupos de família - as grandes famílias patriarcais, com avós, netos, adolescentes de batina de seminarista, meninotas abafadas em sedas de senhoras de idade.

Não devo estender este prefácio, que tanto se vai afastando do seu propósito de simplesmente dar uma idéia geral do plano e do método do ensaio que se segue, das condições em que foi escrito. Ensaio de Sociologia genética e de História social, pretendendo fixar e às vezes interpretar alguns dos aspectos mais significativos da formação da família brasileira.

O propósito de condensar num só volume todo o trabalho, não o consegui infelizmente realizar. O material esborrou, excedendo os limites razoáveis de um livro. Fica para um segundo o estudo de outros aspectos do assunto - que aliás admite desenvolvimento ainda maior.

A interpretação, por exemplo, do 1900 brasileiro - das atitudes, das tendências, dos preconceitos da primeira geração, brasileira depois da Lei do Ventre Livre e da débâcle de 88 - deve ser feita, relacionando-se as reações antimonárquicas da classe proprietária, seus pendores burocráticos, a tendência do grande número para as carreiras liberais, para o funcionalismo público, para as sinecuras republicanas - sinecuras em que se perpetuasse a vida de ócio dos filhos de senhores arruinados e desaparecessem as obrigações aviltantes de trabalho manual para os filhos de escravos, ansiosos de se distanciarem da senzala - relacionando-se todo esse regime de burocracia e de improdutividade que no antigo Brasil agrário, com exceção das zonas mais intensamente beneficiadas pela imigração européia, se seguiu a abolição do trabalho escravo - à escravidão e a monocultura. Estas continuaram a influenciar a conduta, os ideais, as atitudes, a moral sexual dos brasileiros. Aliás a monocultura latifundiária, mesmo depois de abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do pais, ainda mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil, nas mãos de um só homem, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas. Em Pernambuco e Alagoas, com o desenvolvimento das usinas de açúcar, o latifúndio só tem feito progredir nos últimos anos, subsistindo à sua sombra e por efeito da monocultura a irregularidade e a deficiência no suprimento de viveres: carnes, leite, ovos, legumes. Em Pernambuco, em Alagoas, na Bahia continua a consumir-se a mesma carne ruim que nos tempos coloniais. Ruim e cara. De modo que da antiga ordem econômica persiste a parte pior do ponto de vista do bem-estar geral e das classes trabalhadoras - desfeito em 88 o patriarcalismo que até então amparou os escravos, alimentou-os com certa largueza, socorreu-os na velhice e na doença, proporcionou-lhes aos filhos oportunidades de acesso social. O escravo foi substituído pelo pária de usina; a senzala pelo mucambo; o senhor de engenho pelo usineiro ou pelo capitalista ausente. Muitas casas-grandes ficaram vazias, os capitalistas latifundiários rodando de automóvel pelas cidades, morando em chalés suíços e palacetes normandos, indo a Paris se divertir com as francesas de aluguel.

Devo exprimir meus agradecimentos a todos aqueles que me auxiliaram, quer no decorrer das pesquisas, quer no preparo do ms. e na revisão das provas deste ensaio. Na revisão do ms. e das provas ajudou-me principalmente Manuel Bandeira. Outro amigo, Luís Jardim, auxiliou-me a passar a limpo o ms. que entretanto acabou seguindo para o Rio todo riscado e emendado. Agradeço-lhes o concurso inteligente como também o daqueles que gentilmente me auxiliaram na tradução de trechos antigos de latim, de alemão e de holandês e em pesquisas de biblioteca e folclóricas: meu pai - o Dr. Alfredo Freyre; meu primo José Antônio Gonsalves de Melo, neto; meus amigos Júlio de Albuquerque Belo e Sérgio Buarque de Holanda; Maria Bernarda, que bastante me instruiu em tradições culinárias; os ex-escravos e pretos velhos criados em engenho - Luís Mulatinho, Maria Curinga, Jovina, Bernarda. Sérgio Buarque traduziu-me do alemão quase o trabalho inteiro de Wätjen. Júlio Belo, no seu engenho de Queimadas, reuniu-me interessantes dados folclóricos sobre relações de senhores com escravos. Sozinho ou na companhia de Pedro Paranhos e Cícero Dias, realizei excursões para pesquisas folclóricas ou conhecimento de casas-grandes caraterísticas, por vários trechos da antiga zona aristocrática de Pernambuco. Devo deixar aqui meus agradecimentos a quantos me dispensaram sua hospitalidade durante essas excursões: Alfredo Machado, no engenho Noruega, André Dias de Arruda Falcão, no engenho Mupã, Gerôncio Dias de Arruda Falcão, em Dois Leões, Júlio Belo, em Queimadas, a Baronesa de Contendas, em Contendas, Domingos de Albuquerque, em Ipojuca, Edgar Domingues, em Raiz - verdadeiro asilo da velhice desamparada onde fui encontrar centenário um, e octogenários os outros, quatro remanescentes das velhas senzalas de engenho. O mais velho, Luís Mulatinho, com uma memória de anjo. Doutras zonas, já minhas conhecidas velhas recordarei gentilezas recebidas de Joaquim Cavalcanti, Júlio Maranhão, Pedro Paranhos Ferreira, senhor de Juparanduba, neto do Visconde e sobrinho do Barão do Rio Branco, Estácio Coimbra, José Nunes da Cunha; da família Lira, em Alagoas; da família Pessoa de Melo, no norte de Pernambuco; dos parentes do meu amigo José Lins do Rego, no sul da Paraíba; dos meus parentes Sousa e Melo, no engenho de São Severino dos Ramos, em Pau-d'Alho - o primeiro engenho que conheci e que sempre hei de rever com emoção particular. Meus agradecimentos a Paulo Prado, que me proporcionou tão interessante excursão pela antiga zona escravocrata que se estende do Estado do Rio a São Paulo, hospedando-me depois ele e Luís Prado, na fazenda de café de São Martinho. Agradeço-lhe também o conselho de regressar de São Paulo ao Rio por mar, em vapor pequeno, parando nos velhos portos coloniais; conselho que lhe costumava dar Capistrano de Abreu. O autor do Retrato do Brasil, desconfiado e comodista, nunca pôs em prática, é verdade, o conselho do velho caboclo - talvez antevendo os horrores a que se sujeitam, no afã de conhecer trecho tão expressivo da fisionomia brasileira, os ingênuos que se entregam a vapores da marca do Irati.

Devo ainda agradecer gentilezas recebidas nas bibliotecas, arquivos e museus por onde andei vasculhando matéria: na Biblioteca Nacional de Lisboa, no Museu Etnológico Português, organizado e dirigido por um sábio - Leite de Vasconcelos; na Biblioteca do Congresso, em Washington, especialmente na seção de documentos; na coleção Oliveira Lima, da Universidade Católica dos Estados Unidos - tão rica em livros raros, de viagem, sobre a América Portuguesa; na coleção John Casper Branner, da Universidade de Stanford, igualmente especializada em livros de cientistas estrangeiros sobre o Brasil - cientistas que foram, muitas vezes como Saint-Hilaire, Koster, Maria Graham, Spix, Martius, Gardner, Mawe, e Príncipe Maximiliano, excelentes observadores da vida social e de família dos brasileiros; na seção de documentos da Biblioteca de Stanford, onde me servi da valiosa coleção de relatórios diplomáticos e de documentos parlamentares ingleses sobre a vida do escravo nas plantações brasileiras; na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, hoje dirigida pelo meu amigo e mestre Rodolfo Garcia; na biblioteca do Instituto Histórico Brasileiro, onde fui sempre tão gentilmente recebido por Max Fleiuss; na do Instituto Arqueológico Pernambucano, no Museu Nina Rodrigues da Bahia; na seção de documentos da Biblioteca do Estado de Pernambuco; no arquivo do Cartório de Ipojuca, cujos inventários do século XIX constituem interessantes documentações para o estudo da economia escravocrata e da vida de familiar patriarcal; na parte do arquivo da Catedral de Olinda - mss. de pastorais e relatórios de bispos sobre modas, moral sexual, relações de senhores com escravos, etc. - que o cônego Carmo Barata gentilmente facultou ao meu estudo. Agradeço aos meus bons amigos André e Gerôncio Dias de Arruda Falcão e Alfredo Machado terem-me franqueado seu arquivo de família, no engenho Noruega, com documentos virgens, do tempo do capitão-mor Manuel Tomé de Jesus; outros da época do Barão de Jundiá; alguns de vivo interesse para o estudo da vida social dos senhores de engenho; das suas relações com os escravos. A José Maria Carneiro de Albuquerque e Melo diretor da Biblioteca do Estado de Pernambuco, agradeço as excelentes reproduções de Piso, Barléus e Henderson, que, a meu pedido, preparou para ilustração deste livro; a Cícero Dias e ao arquiteto Carlos Pacheco Leão as plantas da casa-grande de Noruega. Um nome me falta associar a este ensaio: o do meu amigo Rodrigo M. F. de Andrade. Foi quem me animou a escrevê-lo e a publicá-lo.

Lisboa, 1931 Pernambuco,1933



Fonte: FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933. 517p.

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