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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



CASAS-GRANDES & SENZALAS
Prefácio
De Casas-grandes no plural à Casa-grande no singular


Como se explica que de muitas casas-grandes, acompanhadas de senzalas, como as pluralmente espalhadas por vários Brasis desde o século XVI, tenha resultado, sob a forma de livro, uma Casa-Grande ( também acompanhada de Senzala) no singular e com iniciais simbolicamente maiúsculas? Será exato dos livros que sempre copiam a vida tal como ela é, ou tem sido, ou deverá dizer-se de alguns que procuram na vida, além do que apenas aparece, o que sugere de mais íntimo e significativo de modo a tornar-se simbólico?

No caso, é o que terá acontecido: o singular se fez, quanto pôde, expressão simbólica de uma realidade dispersa, difusa, apenas pitoresca; e surpreendida quando já a tornar-se mais arcaismo do que vida: vida no seu verdor. A interpretação simbólica acrescentou-se - com o autor do livro completado por magistral ilustrador - a essa realidade, vista quase indiferentemente por muitos. Acrescentou-se à pura realidade, tornando evidentes significados quase de todo ocultos; ou ignorados ou desapercebidos por esses muitos.

Existem, a esse respeito, em ponto grande e até grandioso, exemplos esplendidamente clássicos. Um deles, o dos vários quixotes e o dos muitos sanchos que havia na Espanha, já decadente como terra heróica, quando certo espanhol, por algum tempo prisioneiro de mouros depois de Ter sido uma espécie de antipático mas bisbilhoteiro fiscal de consumo, descobriu nesses quixotes e nesses sanchos reais, mas moribundos e dispersos como realidade apenas histórica, um Dom Quixote e um Sancho Pança simbólicos, cada um no singular; e mais que históricos, mais que reais e até mais que espanhóis. Assim descoberto, esse plural tornou-se simbolicamente singular. Está em pinturas e em esculturas que ilustram o livro. E assim vive até hoje e viverá sempre: sob a forma de um livro que sendo, sem dizer que é, sociologia em profundidade, é principalmente literatura da existencialmente poética: tão poética que é mais do que literatura. E cujo texto se vem prolongando em ilustrações, algumas célebres.

Pois há livros que sem apenas copiarem o exterior da vida, literária ou artisticamente, se tornam, assim, criadores de uma simbologia do literalmente social, mais duradouros do que ela, vida, quase só exterior, através do que surpreendem além do cotidiano, de constante, em aparentes insignificâncias vividas por sucessivas gentes tanto dentro de suas casas, assim grandes como pequenas, como em volta delas: nas plantas e nos animais que as cercam e que, participando de suas vidas, servem de primeira mulher a seus meninos eróticos e são, por vezes, como plantas, elas próprias como que eróticas, mistas de formas vegetais e de formas humanas, de algumas delas irrompendo arremedos dos próprios órgãos sexuais das mulheres e dos homens. É como se plantas e animais, dos que cercam e até penetram nelas, casas, grandes e mesmo pequenas, quisessem confraternizar com a gente dessas casas, sendo, por vezes, a recíproca, verdadeira. Daí o que há de autobiográfico em evocações de experiências marcadas pelas casas, não só proórpias, coo ancestrais, de homens dos chamados representativos, incluir tais confraternizações. Confraternizações, que pelos seus passados, influem sobre homens, desde pequenos e até mesmo antes de nascerem. Ou, desde os seus mais verdes anos, presentes nas suas vidas. Ou na sua arte: de modo especial na de um Francisco Brennand. Passados recordados autobiograficamente em obras nem sempre ostensivamente autobiográficas. Mas, na verdade, passados atuantes sobre as vidas de homens famosos como a meninice na casa-grande de Massangana sobre a formação de Joaquim Nabuco, afilhado de sinhá Ana Rosa. Daí terem, alguns desses passados, se tornado literatura autobiográfica: autobiografia poeticamente histórica ou sociológicad a melhor. O caso, em termos bem menos ilustres que esses clássicos, de Casa-Grande & Senzala ilustrado por Cicero Dias com um ânimo autobiográfico igual ao do autor.

Ânimo, no caso de Cicero, genialmente autobiográfico. Não foi esse ânimo o de Tolstoi ao absorver, como escritor, o que ele próprio viveu e viu viver-se em casa-grande de sua Rússia parecida às casas-grandes do Brasil patriarcal e, tanto como as do Brasil, completadas por quase senzalas, com servos quase escravos, com os quais o futuro autor de Guerra e Paz conviveu íntima e fraternalmente como se fosse um deles: dormindo, com eles servos, em palha e não em colchão fidalgo?

Do que resultaria o Comunista Lenine poder dizer de escritor assim identificado com sua gente total, e não apenas com a da sua classe exclusiva, que ninguém "como esse conde", conhecera tanto a gente russa e tanto soubera revelá-la. O que desmoraliza a tese daqueles que dividem intelectuais ou artistas em elitistas e não elitistas.

Ignoram quanto há acima de tal bisantinice nas artes e literaturas mais profundamente existenciais.

O "elitista" Tolstoi revela sua Rússia germinal, reduzindo o plural de seu cotidiano igual a mil outros cotidianos a um singular que o simboliza. A literatura assim reveladora de realidades plurais ou coletivas através de mais-que-reais singulares, além de autobiográficos, simbólicos - e alguém já disse da melhor literatura que é sobretudo revelação dessa espécie - é como se vem realizando: através do seu poder de singularizar em símbolos e através de imagens, o que, na realidade, se encontra pluralmente, coletivamente, difusamente disperso. Sendo isto certo da literatura aparentemente só de ficção, com a dos Balzac, e menos, da dos Tolstoi e da dos Proust. E até da sociologia potencialmente poética dos Simmel e dos Weber e, na língua inglesa, a de um tanto esquecido Thomas: um Thomas que também soube criar, como os alemães, mas a seu modo, "tipos ideais". Ou tipos simbólicos.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Casas-grandes & senzalas. Recife: Ranulpho Editora de Artes, 1977.

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