CONTRIBUIÇÃO PARA UMA SOCIOLOGIA DA BIOGRAFIA
Prefácio
O trabalho que se segue não é dos fáceis de ser definidos ou caracterizados. Tendo alguma coisa de biografia e outro tanto de história, pretende ser interpretação sociológica de uma fase da formação já quase nacional do Brasil; e essa interpretação baseada em grande parte em documentos autobiográficos: os que se referem a Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres e se conservam no arquivo dos Albuquerques, na Casa da Ínsua. Baseia-se principalmente em manuscritos, dos conservados nesse arquivo.
Dos diários deixados em manuscritos, por Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, um é acompanhado de desenhos a lápis do seu próprio punho. Vão publicados como apensos a esta tentativa de interpretação sociológica do material autobiográfico contido nos mesmos documentos. Mais do que isto: pequena contribuição par uma sociologia da biografia.
Com esse
material, além de autobiográfico, histórico, supõe o
Autor ter reunido, não só dessa fonte como de arquivos
públicos portugueses e brasileiros - principalmente do Arquivo
Histórico Ultramarino, de Lisboa --, um conjunto de informes
sociològicamente significativos que concorram para uma
"autobiografia colectiva", de tipo como que weberianamente
"ideal", imaginado por sociólogo-historiador alemão, do
homem português e, neste caso, transformando - ou em fase aguda de
transformação, como foi a aventura de Luiz de Albuquerque em Mato
Grosso - em homem luso-tropical.
Evitando quanto possível chover no molhado, o Autor procurou principalmente trazer à tona informes de fontes quase ignoradas, ou de todo ignoradas, portanto inéditas, desde que sobre o assunto já foram utilizados e divulgados documentos existentes no Arquivo Histórico de Cuiabá, no do Rio de Janeiro, e em alguns dos de Portugal, por historiadores ilustres como, no Brasil, Virgílio Corrêa Filho e o general Raul Silveira de Mello. Entretanto, no seu uso dos Anais da Comarca de Vila Bela referentes à maior parte dos anos em que Luiz foi capitão-general de Mato Grosso, preferiu recorrer às fontes - aos manuscritos guardados na Casa da Ínsua, que examinou pessoalmente, durante sua residência de estudo naquele solar, hóspede, com sua mulher, dos actuais Albuquerque e Cáceres - a servir-se de material já publicado, talvez inexacto, em alguns pontos, devido a erros ou descuidos de cópia.
Já editada no Brasil foi também, por iniciativa do historiador Afonso d’E. Taunay, quando director da Biblioteca e Mapoteca do Itamarati, a Carta de toda a América Meridional que pareceu necessário a manifestar a viagem de 569 léguas comuns que da escala e cidade do Rio de Janeiro executou por terra, em 17 de Maio de 1772, para Vila Bela da Santíssima Trindade, o governador e capitão-general do Estado de Mato Grosso Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima. Conhecida entre nós, e em Portugal, dela escreveu o historiador Virgílio Corrêa Filho, no seu Luís de Albuquerque, Fronteiro Insigne ( separata dos "Anais do Terceiro Congresso de História Nacional", Rio de Janeiro, 1942), "suprir a deficiência do diário da viagem que, escrito na ocasião, não se lhe conhece o paradeiro". é o que se lê a páginas 170 dessa separata. O Autor tem agora o prazer de publicar, em apenso ao seu ensaio interpretativo, esse precioso diário, do qual se desconhecia o paradeiro.
Das
publicações brasileiras que versam directamente o assunto,
destacam-se o já referido estudo de Virgílio Corrêa Filho (
Luís de Albuquerque, Fronteiro Insigne, Rio de Janeiro, 1942), o do
general Raul Silveira de Mello ( História do Forte de Coimbra, 4 vols.,
Rio de Janeiro, 1959-1961),a complicação realizada pelo marechal
Beaurefaire Rohan ("Annais de Matto Grosso", Revista do Instituto
Histórico de São Paulo, vol. XV), as " Crónicas de
Cuiabá", Revista do Instituto Histórico de Matto Grosso, t.
XXXII. E ainda os estudos sobre bandeiras e bandeirantes, de Afonso d’E.
Taunay, Jaime Cortesão e Carvalho Franco, os de Artur Reis e Leandro
Tocantins sobre a Amazónia, os do Prof. Sérgio Buarque de Holanda
sobre moções e sobre Lacerda e Almeida, os do general A. Lyra
Tavares sobre engenheiros militares no Brasil colonial, os três tomos
recentemente publicados, sob a direcção do historiador Marcos
Carneiro de Mendonça, pelo Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, sobre a Amazónia na Era Pombalina ( Rio de Janeiro), o estudo
Pombal e os Jesuítas no Brasil, pelo general Ignácio José
Veríssimo, publicação da Imprensa do Exército (Rio
de Janeiro), os ensaios Nas Selvas Amazónicas e o Urbanismo na
América Portuguesa ( São Paulo), por Manuel Rodrigues Ferreira,
que, noutro dos seus trabalhos, A Causa do Subdesenvolvimento do Brasil,
defendendo vigorosamente, apoiado em parte no relatório (1978) de
Hipólito da Costa Pereira sobre a economia agrícola da nova
república norte-americana, a tese de ter o Brasil sido, naquele fim de
século, superior, em desenvolvimento global, aos futuros Estados Unidos,
enquanto os dois países, até o fim do século XVIII,
dependeram, um e outro, dos tipos de energia convencionais, isto é, do
trabalho muscular humano e animal, dos rios e dos ventos, destaca, a
página 117, ter sido Vila Bela construída na Capitania de Mato
Grosso, por ordem do rei de Portugal, em 1752, a 2000 quilómetros, em
linha recta da costa, "segundo os mais modernos preceitos
urbanísticos", contratando a penetração do interior
tropical do Brasil de então pelos portugueses com a
situação das treze colónias inglesas da América do
Norte, naqueles dias apenas estabelecidas em estreitas faixas litorânea.
As então cidades anglo-americanas "mais ao interior" não
distavam mais de "cem quilómetros do litoral". Destaca mais o
técnico paulista, especializado em estudos em torno da história
económica do Brasil, mostrarem mapas guardados no arquivo do
Ministério da Guerra do Brasil ter,naqueles dias, Luiz de Albuquerque
mandado estudar a possibilidade de ligar as bacias do Amazonas e Prata por meio
de um canal que seria aberto pelo braço do homem.
Dentre as obras mais antigas, que se referem a Luiz, devem ser recordadas as de J. Ferreira Moutinho (Notícia Histórica e Descritiva da Província de Mato Grosso, São Paulo), João Severino da Fonseca ( Viagem ao redor do Brasil, 2 vols., Rio de Janeiro), Hércules Florence, Viagem Fluvial (tr. do francês).
Em Portugal, serviu-se de documentos conservados no arquivo da Casa da Ínsua, para um trabalho incompleto e com algumas inexatidões, embora escrito com a maior simpatia pela figura de Luiz, o P. J. C. Freitas Barros. Intitula-se seu livro Um Português no Brasil ( Lisboa, 1948).
Valiosos, em ligação com o assunto, são os informes que se encontram em O Marquês de Pombal e Sua época, por João Lúcio de Azevedo, o Brasil na Administração Pombalina, pelo visconde Carnaxide, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, por Jaime Cortesão ( Rio de Janeiro), o Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira, por Américo Pires de Lima, e em recente edição da obra Expedições Científico-Militares Enviadas ao Brasil, por Sousa Viterbo, coordenação, aditamentos e introdução de Jorge Faro (2vols., Lisboa).
Quanto à opulenta colecção de mapas e de plantas de cidades e de construções, que fazem parte da albuquerquiana da Casa da Ínsua - e que o Autor examinou durante sua residência de estudo nesse solar --, deve-se recordar aqui ter sido já catalogada, com a competência de sempre, pelo comandante Teixeira da Mota. Registe-se, a esse propósito, o trabalho de alto interesse científico e, ao mesmo tempo, histórico que vem sendo realizado em Portugal pelos Serviços Cartográficos do Exército, sob a orientação do general Luís Maria da Câmara Pina, chefe do Estado-Maior do mesmo Exército, que também tem cuidado do levantamento e da actualização da Carta Militar de Portugal, na escala i/25000, e da Carta Itinerária de Portugal, na escala I/250 000, tratado de ampliar o Museu Militar de Lisboa, divulgado o acervo cartográfico do Gabinete de Estudos Históricos de Fortificação e Obras Militares e exibido peças cartográficas, plantas e outros documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, da Biblioteca da Ajuda, da Biblioteca Nacional de Lisboa, da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de évora, da Casa da Ínsua, da Casa Cadaval, da Casa Palmela, da Sociedade de Geografia de Lisboa e de outras instituições.
Em 1960, o general Câmara Pina promoveu a exposição sob o tema "A Engenharia Militar no Brasil e no Ultramar Português Antigo e Moderno", integrada nas Comemorações do Centenário do Infante Dom Henrique. Deu-se ai a devida atenção ao Brasil, onde a engenharia militar portuguesa realizou no século XVIII, durante a época pombalina e com estadistas do tipo Luiz de Albuquerque e Cáceres, obra digna das suas tradições africanas e orientais.
O trabalho que se segue empenhou-se em realizá-lo o Autor - tendo como valoroso auxiliar na cópia de manuscritos do arquivo da Casa da Ínsua o historiador português Jorge Faro --, para atender a uma solicitação da Sociedade Dom Pedro II, de São Paulo; mas uma solicitação que correspondia ao crescente interesse da sua parte por assuntos hispano-tropicais. Particularmente os luso-tropicais, dentro da técnica de associar-se biografia e autobiografia à história e à antropologia, para possíveis interpenetrações sociológicas nesse sector.
Ao estudar os manuscritos, mapas e álbuns da quase virgem e ainda sem catálogo albuquerquiana da Casa da Ínsua, ocorreu ao Autor sugerir ao eminente orientador daquela Sociedade, o embaixador Assis Chateaubriand, que conseguisse da mesma Sociedade recursos para um esforço grandioso: o da catalogação do vasto material relativo ao Brasil, que se encontra nessa casa fidalga e, disperso e ignorado, noutros solares portugueses. Assis Chateaubriand - discípulo a seu modo de Capistrano de Abreu - entusiasmou-se com a sugestão; autorizou o Autor a pô-la em prática; e teve início essa difícil obra de catalogação de material tão vasto quanto valioso para o nosso país, tendo-se incumbido de realizá-lo o historiador português Prof. Ruben Leitão, auxiliado por equipa idónea, por ele seleccionada. Ninguém, aliás, mais apto para essa tarefa que o Prof. Ruben Leitão, mestre na sua especialidade. Verificou, porém, a Sociedade Dom Pedro II não dispor de recursos para empresa tão dispendiosa. A obra teve que ser abandonada nos seus heróicos começos. Talvez possa vir a financiá-la, em futuro próximo, por intermédio da Academia Internacional da Cultura Portuguêsa, a Fundação Gulbenkian.
Não parece ao Autor fora de propósito clamar, neste prefácio, a favor de estudos naqueles arquivos particulares de Portugal que, à semelhança do da Casa da Ínsua, guardam material ignorado ou virgem sobre o Brasil: material que precisa de ser quanto antes catalogado por pesquisadores idóneos - como a Prof.ª Virgínia Rau com relação ao arquivo da Casa de Cadaval - para que na elaboração de estudos como este - sobre Luiz, como governador de Mato Grosso - não aflija a outros autores a preocupação de estar sendo deficiente quanto às suas fontes de informação. Preocupação que só não inquieta quem, contentando-se em estudar assuntos complexos servindo-se apenas dos bocados já feitos ou das fontes já conhecidas, não busque descobrir outras reservas de informações e outros meios de abordagem do mesmo assunto, além dos já explorados. Compreende-se assim aquele excesso de escrúpulo de que padeceu Capistrano de Abreu, em face do pouco que se sabia, no seu tempo, do material sobre o Brasil guardado ainda a sete chaves nos arquivos da Companhia de Jesus. Excesso de escrúpulo que teria concorrido para o relativamente pouco que nos deixou sua lúcida inteligência de historiador sobre o passado brasileiro. Enquanto outros exclamavam "rumo ao mar!" ou "rumo aos campos!", a sua advertência aos seus compatriotas - aos governos, aos institutos, aos historiadores - como que se poderia resumir noutro clamor igualmente patriótico: " rumo aos arquivos!", Clamor que felizmente vem sendo ouvido por uns tantos responsáveis pelos estudos brasileiros de história, nos últimos anos. Mas não tanto que já pudéssemos nos sentir senhores de todas as principais fontes de informação sobre o passado colonial e nacional do Brasil.
A relação de arquivos particulares que o Autor propôs à Sociedade Dom Pedro II inventariasse, fazendo catalogar o seu material por gente idónea, daria bem ideia, se realizada e publicada, de quanto é numeroso esse documentário agora disperso e, em grande parte, ignorado. Aqui nos interessa apenas destacar o que há de valioso na albuquerquiana guardada na Casa da Ínsua: uma casa, ou solar, ligada de tal modo ao Brasil que nela bem poderia vir a instalar-se um centro de estudos à base dessa ligação.
A Casa de Ínsua está na Beira: numa das Beiras. A Beira não é uma Beira só, porém três ou quatro, começando com a do litoral . as três ou quatro formam um conjunto. Do litoral, a Beira se aprofunda pelo interior, faz-se Beira Baixa, até tornar-se Beira Alta. Vai da ria de Aveiro a Coimbra e de Coimbra às montanhas. Sua gente do litoral pesca e do mar leva o peixe, em carros de bois, até terras distantes. As mulheres dessa população eram outrora famosas pelos seus coletes, pelos seus chapéus e pelas suas mantilhas. Pelas cores vivas dos seus trajos. Foi daqui, dizem os entendidos, que a célebre varina irradiou para Lisboa, tornando-se lisboeta. Já na zona chamada serrana, o que distinguia a mulher - e ainda a distingue - é a capucha de burel. O homem, usando ai grossos capotes e até peles de ovelha e andando de varapau, defende-se, a seu modo, dos frios; e deles ainda se resguarda à sua maneira, nas suas casas.
Por todas as Beiras perderam outros usos característicos de populações apegadas às suas paisagens e às suas tradições, além da dos trajos. Danças e canções rimadas, na Beira Baixa, de gente agrária. Melodias lentas, com histórias de princesas e de cavaleiros, louvores à Virgem e a Jesus. Muitas festas religiosas - uma delas, pela passagem da Páscoa. Ranchos e folias do Espírito Santo. As primícias da fruta levadas em ex-votos aos santos. Os cornos das vacas e dos novilhos enfeitados de fitas coloridas, também em honra dos santos. Chega-se a levar aos altares cabeças de criação. Uma harmonia profunda entre gentes, terras e gados. E aqui e ali, marcas da presença romana : inclusive as velhas termas de São Pedro do Sul, a Balneum dos romanos. Águas consideradas boas para reumatismo e para outras doenças.
Viseu é a capital. Viseu, sede de bispado. Da capital beiroa se diz que tem alguma coisa de espanhol. Há quem diante dela se sinta em presença de uma cidade da Meseta. Os historiadores explicam: a Sé Catedral, ainda que românica no seu arcabouço, durante do século XVIII foi um tanto espanholizada no sua fronteira por um arquitecto de Castelo-a-Velha. Uma ironia tratando-se de burgo tão português. Porém todos sabemos que tem havido momentos, na história das relações de Portugal com a Espanha, em que o hispânico, preponderando sobre o português ou o espanhol, tem-se feito sentir como uma presença geral ao lado das particulares. Viseu é assim: sua catedral é antes hispânica que apenas portuguesa, erguendo-se ao lado de restos de portuguesíssimos muros da área afonsina.
Não lhe faltam solares. Foi reduto de fidalgos. E nos seus arredores se erguem algumas das casas fidalgas mais características desse tipo de arquitectura em Portugal. Dos fins do século XVII é, por exemplo, o Solar dos Pais de Amaral ou Casa Anadia, na vila de Mangualde. Os arquitectos o incluem entre as jóias de arquitectura fidalga do Norte do País: as Casas de Mateus, de Vila Real, da Brejoeira de Monção. é famosa sua portada. Famosas são suas janelas do andar nobre. Famosos são, no interior, seus painéis de azulejo e seus tectos de madeira apainelados.
Essas expressões de arquitectura nobre levantam-se dentro de uma paisagem na qual um escritor português da acuidade de António Arroio notou também nobreza: uma "estranha nobreza". Não é - observou Arroio da paisagem da Beira Alta na já clássicas Notas sobre Portugal - a paisagem nem de Trás- os-Montes nem do Minho. Pois o seu carácter " grave e calmo", e "o panorama longo, sem exageração".
Quem de Mangualde - e de seu solar, hoje chamado de Anadia - se dirige para Castendo é a paisagem que vê: essa, grave e calma. Os geógrafos a caracterizam como "rústica e pomícola".
É perto dessa vila antiga, com foral de Dom Sancho II - Castendo --, que se ergue o Solar dos Albuquerques. A Casa da Ínsua. A residência já tradicional - embora a construção grandiosa seja apenas do século XVIII - dos Albuquerques de Mello Pereira e Cáceres.
É edifício de fachada corrida. Tem três corpos: um central e dois laterais, estes mais altos que o central e em forma de torres ameadas.
Muito
portuguesa, a Casa da Ínsua tem sido sede de quinta; e esta, não
só com lagar de azeite, porém com suas vinhas e seus vinhos; com
uma mata; e para ser bem lusitana, com um santuário, além da
capela ligada à Casa, onde ainda hoje camponeses e gente de Castendo
vêm ouvir a missa no andar térreo, enquanto os fidalgos a ouvem num
primeiro andar e - se assim o quiserem - sem ser vistos. O que
não vem impedindo fidalgos e gente comum de virem sendo,
sociològicamente, quase um conjunto só, com Castendo e a Casa da
Ínsua completando-se, com o lagar de azeite, o fabrico de vinho, o
pão, o de gelo, o de queijo e manteiga - que a Ínsua tem
também o seu gado - servindo tanto aos fidalgos como à gente
da vila, também, servida de luz pela geradora hidroeléctrica com
que os Albuquerques se anteciparam a outros senhores rurais do Norte de Portugal
em modernizarem sua quinta, como que animados do espírito empreendedor de
Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres: o rebento mais vigoroso
dos fidalgos da Ínsua.
Luiz talvez tenha levado do Brasil para os jardins do solar algumas das plantas tropicais que ali esplendem. São jardins que até na Inglaterra ou na Escócia, em redor de castelos de grandes lordes, como o duque de Hamilton - que no seu principal castelo recebeu certa vez o Autor, mostrando-lhe, ele próprio, o interior da casa e os jardins --, seriam notáveis. Vastos e belos.
E quanto ao interior da Casa da Ínsua, basta para caracterizá-lo como grandiosamente nobre a "sala dos retratos", na qual se pode admirar, entre retratos de família, a cópia do retrato equestre de Francisco de Albuquerque e Castro, considerado pelos peritos em arte como de composição e inspiração velazquiana. Outros retratos de família, de menor porte, se juntam a este, formando um dos mais valiosos conjuntos portugueses de pintura senhorial: um tipo de pintura em que ao interesse artístico se junta o histórico, o sociológico, o biográfico.
Grandiosas são também, na Casa da Ínsua, as lareiras de granito lavrado. Senhoriais, os tectos de madeira, os caixotões, além dos moveis, das baixelas, das pratas, das louças. O que mais uma vez se destaca para caracterizar-se o ambiente em que os Albuquerques e Cáceres vêm vivendo a chamada "lei de nobreza"; e para o aprimoramento do qual Luiz teria concorrido, não tanto com ouros e pedras preciosas levados do Brasil para a Beira, como com o arquivo que desde o seu regresso Portugal tornou-se parte tão preciosa do património da Casa da Ínsua; papéis, mapas, desenhos, pinturas. Toda uma riqueza de documentação sobre o Brasil: especialmente o Brasil do fim do século XVIII, que foi a época da presença de Luiz de Albuquerque - ou d’Albuquerque - na Capitania de Mato Grosso, como governador.
Foi entre esses papéis preciosos que o Autor pôde descobrir - auxiliado em suas pesquisas pela esposa e, posteriormente, pelo historiador Jorge Faro - o até agora ignorado, e tido por particularmente valioso, diário da viagem de Luiz á sede da sua capitania através de sertões: manuscrito que ora se publica no seu texto original; e cuja descoberta e publicação bastariam para justificar a iniciativa da Sociedade Dom Pedro II, de São Paulo - ou seja, a iniciativa de Assis Chateaubriand --, destacando pesquisador de seu apreço para vasculhar aquele arquivo. Infelizmente, em nenhum dos papéis de Luiz foi possível ao Autor encontrar esclarecimento específico para este mistério: como se procedeu ao transporte de material pesado vindo da Europa para o Forte do Príncipe da Beira. Forte construído um tanto em segredo.
Referindo-se ao rio Madeira, na sua valiosa Notícia Histórica e Descritiva da Província de Mato Grosso, publicada em São Paulo, em 1869, J. Ferreira Moutinho informa a página 150 que "Mato Grosso recebeu por êsse rio muita artilharia, petrechos e munições de guerra", além, de "artigos de comércio", salientando de Luiz de Albuquerque que "empregou seus cuidados a favor dessa navegação que facilitou o mais que pôde". Á base medição de distâncias realizada em 1782 pelos Eng". Ricardo Franco de Almeida Serra, António Pires da Silva Pontes e Francisco José de Lacerda, Moutinho informa, mais sobre o Madeira, que, em " léguas de 20 ao grau", ser sua extensão, da foz à primeira cachoeira de Santo António, de 186, da confluência do Beni com o Mamoré, 60, à última cachoeira do Guajará-Mirim, de IO, à confluência do Guaporé com o Mamoré, 34, a Mato Grosso, 180, da foz do Madeira à cidade de Belém, 280, num total de 490 léguas de 20 ao grau, às quais correspondiam, em 1782, 150 dias de viagem, tendo o mesmo rio, por espaço de 70 léguas, "grandes e difíceis cachoeiras".
Sobre o transporte de "apercebimentos de guerra", pelo rio Madeira, cujas águas - as suas e as do Guaporé - desde 1754 teriam permitido o comércio de Mato Grosso com o Pará, outro geográfo-historiador, o médico militar João Severiano da Fonseca, a páginas 136 volume I da sua Viagem ao redor do Brasil ( Rio de Janeiro, 1880), informa que em 1759 o então capitão-general de Mato Grosso, Dom António Rolim de Moura Tavares, desceu por essas águas a fim de fundar o Forte de Nossa Senhora da Conceição, no local onde fora a missão de Santa Rosa. Para aparelhar esse forte é que aportou ai, naqueles dias, "uma expedição do Pará com apercebimento de guerra".
Como capitão-general de Mato Grosso é que Luiz, em 1744, partiu de Vila Bela, com engenheiros para levantarem, a planta da confluência do Mamoré e "tratarem do seu melhor meio de defesa". Com esse objectivo - o de melhor defesa da área - é que veio a ser construído por Luiz, uma milha acima do Forte da Conceição, o monumental, do Príncipe da Beira, sendo de presumir que seus "apercebimentos de guerra" tenham vindo de Pará pelas mesmas águas - as do Madeira-Guaporé - e vencendo, por meios heróicos, os obstáculos apresentados pelas 70 léguas de cachoeiras.
Profundo conhecedor da região, o Eng.º. Firmo Dutra, consultado sobre o assunto - como teria sido feito o transporte de pesadas peças de guerra, vindas do Pará, através de tais cachoeiras --, opina que, ao serem defrontados os trechos encachoeirados do rio, essas peças, em vez de levadas em embarcações, seriam retiradas das mesmas embarcações e transportadas, através de picadas abertas no mato grosso, em carretas conduzidas por homens; ou puxadas por bois. Esses homens parece que foram antes escravos africanos do que ameríndios, manuscritos existentes no arquivo do Tribunal de Contas, Fundo do Erário, em Lisboa, indicando que Luiz - nessa prática continuado pelo irmão João, seu sucessor - recorreu ao braço africano, de preferência ao indígena, para aqueles trabalhos, que exigiram esforço mais sistemático e mais rotineiro. Para esse tipo de esforço, o braço indígena era incerto ou precário. Além do que, sob Pombal, o ameríndio tornar-se livre: não podia ser submetido, a não ser ilegalmente, à escravidão.
Em 1794 - consta do Livro Iº. do Registro das Representações feitas a S. Exª. pertencentes à Capitania de Mato Grosso, desde 15 de abril de 1788, guardado naquele arquivo - o governador de Mato Grosso ainda mandava comprar no Rio de Janeiro "dez mil cruzados de escravos". Por esse documento se vê que as "Reaes Obras" na Capitania de Mato Grosso vinham-se servindo, há anos - inclusive na construção do Forte do Príncipe da Beira --, de "escravos (negros africanos) particulares", com prejuízo para a mineração e a lavoura. Deviam as "Reaes Obras" ter os seus próprios escravos de el-rei.
Se em documento conservado em Lisboa, no arquivo do Tribunal de Contas, no referido Livro Iº do Regime das Representações feitas a S. Ex.ª pertencentes à Capitania de Mato Grosso, desde 15 de Abril de 1788, confirma o tenente-coronel Eng.º Ricardo Franco de Almeida Serra que o rio Paraguai podia ser considerado "navegável para toda qualidade de navegações", sabe-se que bem diferentes eram as condições oferecidas pelo Madeira, do qual tanto dependiam, na época de Luiz, governador de Mato Grosso, as comunicações dessa capitania com a metrópole.
"A cal, os
canhões, as ferramentas e as ferragens vieram da Mãe
pátria" - escreve Lima Figueiredo no seu Limites do Brasil (
Rio de Janeiro, 1936 - "através do Amazona, do Madeira e do
Guaporé. Parece que êste percurso é muito difícil;
todavia, nos devemos lembrar que o Madeira apresenta um trecho encachoeirado
numa extensão de 462 quilômetros. O rio tem seu perfil longitudinal
quebrado em quinze quedas: Santo Antônio, Theotonio, Morrinhos, Girau,
Três Irmãos, Paredão, Pederneiras, Araras ou Figueiras,
Ribeirão, Misericórdia, Madeira, Lajes, Pau Grande, Bananeira e
Jaguarassu. De tôdas estas catadupas a maior é a do Theotonio, onde
a água cai de dez metros de altura, em enorme zoada."
E comenta:
"Hodiernamente o viajante se safa dessas cachoeira utilizando - se da
Madeira-Mamoré, a ferrovia que liga Pôrto Velho a Guajaramirim. A
dificuldade em construir-se esta via de comunicação valeu-lhe o
epiteto de ‘estrada de ferro de trilhos de outro", cujos dormentes
representam o número de trabalhadores que tombaram. Imagine agora o
leitor: a chegada das embarcações; o trabalho esgotante da
descarga e do transporte do material; a ‘varação’ das
naus por terra, o que exige um ânimo inaudito e pertinaz; o
lançamento das canoas n’água novamente e faina afincada da
carga. Acrescentando ainda mais ao pensamento que tôda esta sigma de
trabalhos e canseiras que atravancam o curso do caudal, o leitor terá o
esfôrço desenvolvido pelos lusitanos nas nossas raias ocidentais,
para legar-nos êste vasto torrão, que nos serve de
Pátria".
Este sendo também o parecer, quanto ao meio de que Luiz teria-se servido para o transporte, até o Forte do Príncipe da Beira, de material pesado vindo da Europa, do Eng.º Firmo Dutra - talvez o maior conhecedor da região --, este testemunho de engenheiro tão provecto apresenta-se particularmente esclarecedor. Repita-se do Eng.º Dutra que admite ter Luiz se utilizado, para o transporte de certas peças, através do "mato grosso", de carretas ou de carros semelhantes aos de bois. A verdade, porém, é que os principais meios de comunicação da Europa com as partes mais remotas do Brasil colonial foram a canoa e a mula.
Impressionou a Georges Clemenceau, quando esteve no Brasil no começo deste século, o facto de que em 1780, a 1400 quilómetros do litoral, já se representassem, no nosso país, "tragédies de Voltaire". O que o levou a concluir que "l’influence de l’idée, telle que nous l’avons trouvée dans notre hértige, n’este peut-être ni moins sûre mi moins durable que la puissance du trafic, créateur des relations humaines". Reflexão que se encontra no "avant-propos" do su Notes de Voyage dans l1Amérique du Su ( Paris, 1911), onde acrescenta ter havido tráfico, como veículo de ideias, da Europa a Pernambuco, por mar, e daí a dorso de mula, durante meses, por terra, a lugares remotos.
Entre estes, nenhum mais remoto do que Vila Bela do Santíssimo Sacramento, onde, nos dias de Luiz, governador, houve tanta representação de comédias, tanto recitativo de poesias, tantas danças no Palácio do Governo, tantos bailes de máscaras, tantas cavalhadas na praça. O que confirmaria outra reflexão do socialista Clemenceau: a de que "endépit du ‘matérialismo historique’ de Karl Marx l’intérêt mercantile n’est pas le seul facteur de civilisation...".
Fidalgos portugueses que, em postos de administração e de governo no Brasil colonial, destacaram-se pelos abusos que cometeram, não foram raros. Cometeram desonestidades, roubos violências. Um chegou a tornar-se célebre não só pelos ridículos bigodes em tufos como pelos excessos de Dom-juanice. Ficou na história anedótica do Brasil colonial como Xumbergas; e dele se derivaram palavras de sentido rasgadamente erótico: xumbergação, xumberguice, xumbergar.
Outros fidalgos portugueses, tendo estado no Brasil como vice-reis ou como capitães-generais, terão sido outros tantos xumbergas. Ignorantaços e desonestos.
Houve, porém, entre eles quem se distinguisse por aquelas virtudes que no Oriente tornaram célebre Dom João de Castro, tendo sido administradores esclarecidos e até estadistas; e dispensado atenções e mesmo carinhos às ciências, às artes, às letras. Difìcilmente terá qualquer deles se tornado tão representativo como Luiz de Albuquerque, dos aspectos positivos desse tipo de presença portuguesa na América - o do fidalgo, bom e sábio homem de governo. Certo, em vários casos, o aristocrata lusitano tornou-se conhecido antes por aqueles traços negativos, do que pelos positivos; antes por suas violências e por seus actos ilícitos, pela sua desatenção aos problemas sociais e de cultura, pelos seus abusos do poder em benefício próprio, do que por virtudes e realizações de interesse público. Houve, porém, os do tipo de Luiz Albuquerque. Além do que Luiz, à nobreza - ética - que caracterizou seu comportamento como homem de governo, durante dezessete anos, em região ainda agreste do Brasil, juntou - repita-se - o critério cientifico do seu modo de ser administrador, político, diplomata. Daí poder ser comparado, sem excesso de retórica, com o próprio conde Maurício de Nassau, fidalgo alemão do século XVII que, no governo, durante oito anos, do Brasil holandês, foi no que primou de modo admirável: em juntar a ciência à administração de terras e gentes tropicais. Em acrescentar à boa administração exemplos aos governados, de boas maneiras; de carinho pelas belas-artes; de atenção às graças da vida.
*
Como noutros
dos seus trabalhos, neste, o Autor não soube evitar
repetições. O seu consolo contra tal defeito está em que as
repetições ocorrem, quase sempre, com alguma coisa, no seu modo de
ser repetições, que talvez importe em busca de nova perspectiva na
consideração do assunto reiterado. Um aspecto inevitável do
método que se possa denominar proustiano, de análise de passado
humano real, ou fictício. Foi, pelo menos, o reparo do Prof. Roger
Bastide, um dos primeiros críticos a notarem excessos de
recorrências nos livros do Autor e a sugerirem a atenuante que aqui se
reproduz.
Antecipando-se à introdução, deseja o Autor agradecer a quantos, no decorrer das pesquisas de que resulta este livro, lhe facilitaram essas pesquisas, a começar pela Família Albuquerque e Cáceres de que foi hóspede, com sua mulher, na Casa Ínsua - um dos mais belos solares portugueses; ao historiador Jorge Faro, seu valioso auxiliar na busca, selecção e cópia de manuscritos guardados no arquivo dos Albuquerques e Cáceres; e, por outros auxiliados e sugestões, aos historiadores Ruben Leitão, de Portugal, Leandro Tocantins, Marcos Carneiro de Mendonça e general Aurélio Lyra Tavares, do Brasil; ao velho Eng.º Firo Dutra, filho de Mato Grosso e íntimo conhecedor do Brasil central. Também aos seus bons amigos Nuno Simões, de Portugal, general Câmara Pina, comandante e Senhora ( néo Souto Maior) José Matoso, também de Portugal; e a Assim Chateaubriand, no Brasil, este responsável pela elaboração do livro que agora se publica e, como orientador da Sociedade Dom Pedro II, de São Paulo, pelas pesquisas que o tornaram possível. Há em Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello uma vocação de historiador que a vida de homem de acção abafou quase de todo, sem contudo a extinguir. Ele é sensível como um Capistrano aos encantos dos arquivos que guardam segredos de valor histórico, para o seu e nosso país; e como um Capistrano sabe avaliar a importância da descoberta, num desse arquivos, de diário ou de manuscritos do qual se vinha presumindo, há mais de um século, a existência, sem que qualquer pesquisador o tivesse encontrado ou identificado no original; ou publicado. O caso - tanto quanto sabe o Autor - do diário que agora se divulga, de Luiz Albuquerque.
Santo António de Apipucos, Agosto de 1966.
G.F.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Contribuição para uma sociologia da biografia: o
exemplo de Luís de Albuquerque, governador de Mato Grosso, no fim do século XVII. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1978. 404p.
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