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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



Gilberto Freyre: constituinte e parlamentar

Vamireh Chacon



ORIGENS

Gilberto Freyre tinha a idade do século - nascido a 15 de março de 1900 no Recife, ali faleceu em 18 de julho de 1987 - século brasileiro, mesmo mundial, de que foi intenso observador participante quase ao longo de todos os cem anos.

Fez seus primeiros estudos com professores particulares, o inglês Mr. Williams e a francesa Madame Meunier, além de aulas de desenho com Teles Júnior.

Sua origem social encarnou o próprio trânsito da casa-grande de engenho ao sobrado urbano, embora com os percalços da Usina atropelando o Banguê, na descrição romanceada por José Lins do Rego. É o que se vê numa deliciosa confissão do Gilberto Freyre estudante nos Estados Unidos, em carta de juventude, quase de adolescente, a Oliveira Lima, 16 de agosto de 1921: "Meu avô, além de engenho, tinha várias casas na cidade, porém seus negócios levaram a breca e por 16 ou 18 anos andamos a peregrinar sob tetos de aluguel "

Realizou os estudos secundários no colégio norte-americano Gilreath de Pernambuco, depois chamado Colégio Americano Batista.

Bacharelou-se em Ciências Políticas e Sociais em 1920 pela Universidade de Baylor, Texas. Pós-graduou-se em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais pela Universidade de Colúmbia em Nova Iorque, onde teve como professores o antropólogo Franz Boas e o sociólogo Franklin Giddings, que tiveram grande influência na sua formação intelectual.

Defendeu em 1922 tese de mestrado intitulada Social life in the middle of the 19th century, que versava sobre o escravo na sociedade brasileira, tendo dela se originado a sua obra mais famosa, Casa Grande & Senzala.

Posteriormente, a Universidade de Colúmbia concedeu-lhe doutoramento honoris causa.

Após o término dos estudos nos Estados Unidos, percorreu a Europa, permanecendo mais tempo em Paris e em Oxford, onde entrou em contato com representantes das diversas correntes filosóficas, literárias e artísticas da época. Conviveu com imagistas, expressionistas, modernistas, com intelectuais do grupo Péguy ( de Charles Péguy, intelectual católico) da Action Française, e com os representantes da corrente católica vinculada aos ingleses Chesterton e Newman, cuja influência se tornou presente nos valores regionalistas que viria assumir na sua obra. Frequentou ainda cursos e conferências sobre Antropologia, absorvendo a influência da corrente de Antropologia Cultural, então dominante em Oxford, no que se referia à valorização da cultura na interpretação dos fenômenos sociais.

Amizades de família - o pai, Alfredo Freyre, era professor catedrático da Faculdade de Direito do Recife, então o máximo no mandarinato intelectual nordestino - cedo o aproximaram da política, "o diabo da política," exclamaria Gilberto Freyre ainda no início dos vinte anos em Nova Iorque, na Universidade de Colúmbia. Estácio Coimbra - tradicional senhor de engenho e modernizador usineiro, a outra face da oligarquia açucarocrática - convida-o em 1926 ou 1927 para secretário particular ou assessor pessoal. "Pede-me que lhe corrija artigos, notas oficiais, telegramas importantes." "Ao mesmo tempo não estranha que euseja um eterno ausente de embarques, desembarques, missas, solenidades de caráter político, nas quais ele nem ousa me pedir para representá-lo, sabendo do meu desdém pela política brasileira".

Era-lhe insuportável o artesanato da política da pobreza marginalizada, o dia-a-dia da "audiência pública" a "anotar casos". "Casos de miséria, casos de perseguição de pobres por poderosos, casos de opressão de decandentes por arrivistas ou novos ricos. Casos simplesmente de degradação: por inércia, por jogo ou por amor". Mesmo assim Estácio Coimbra queria "atrair-me à polícia: deputado estadual já quis fazer-me e até - seria um escândalo - federal. A todas as seduções já resisti de um modo que ele procura compreender-me mas não consegue - para ele o triunfo literário só existe em suas formas convencionais: livro, conferências no Rio, a Academia Brasileira de Letras; e este seria favorecido pelo triunfo político". "Não compreende um casmurro que busque outras glórias - se é que eu de fato procuro alguma glória literária.

"Gilberto Freyre só aceitará a eleição à deputação federal quando de um movimento histórico de relevância da redemocratização de 1945, contra o Estado Novo ao qual ele tanto se opusera.

Opta por aceitar, em 1928, a oferta da primeira cátedra brasileira de Sociologia na Escola Normal de Pernambuco, uma das conseqüências da reforma educacional por Carneiro Leão, tempos da renovadora administração Estácio Coimbra, noutra etapa das modernizações sem mudanças sociais que abalassem o poder da oligarquia, antes o renovassem por adaptações oportunas e inteligentes. "Eu preferiria que fosse de Antropologia Social, que é mais do que Sociologia, minha especialidade ou predileção, de antigo aluno de Boas." "Darei à mesma o caráter de uma Sociologia Moderna baseada na Antropologia ( Boas etc.) e acompanhada de pesquisa de campo".

Lecionou até 1930, imprimindo orientação de pesquisa de campo ao ensino da Sociologia.

Das inovações e da personalidade de Estácio Coimbra, Gilberto Freyre deixou um retrato íntimo retrato de um dos últimos fidalgos pernambucanos, o de Estácio de Albuquerque Coimbra, senhor dos engenhos Morin e Tentugal infindos e ondulados canaviais da Mata Sul de Pernambuco às margens do Persinunga, divisa com as Alagoas. Depois, principal acionista da Usina Central Barreiros nas imediações. Mesmo nos piores percalços, Gilberto nunca esqueceu que era um Mello e um Freyre, com dois "II" e "y".

Estácio Coimbra, "Estácio", como os pernambucanos passaram a chamá-lo com uma distinta simplicidade que o agradava, Estácio Coimbra inovou não só a cultura de Pernambuco - criando o Museu do Estado e confiando-o ao jornalista Aníbal Fernandes; reformando por completo o secular Ginásio Pernambucano, depois Colégio Estadual, e a Escola Normal de Pernambuco através dos seus diretores Ulysses Pernambucano de Mello e Alfredo Freyre, mais que primo e pai de Gilberto de Mello Freyre, pioneiro médico psiquiatra, um, e professor catedrático da Faculdade de Direito, o outro - Estácio Coimbra também concluiu as obras de saneamento do Recife iniciadas por Saturnino de Brito e convidou eminentes especialistas do Rio de Janeiro e São Paulo em instrução pública, fitopatologia, agricultura, pecuária, tráfego, docas e porto, e, até da França, o engenheiro Alfred Agache, especializado em urbanismo, no seu quadro de competente modernização conservadora. Estácio Coimbra nunca fora um revolucionário e sim "misto de senhor-de-engenho particularista e de bacharel republicano impregnado de liberalismo econômico".

O que não o impediu de outros rasgos no futuro. Estácio Coimbra foi quem iniciou em Pernambuco, apesar de todas suas limitações de mentalidade e classe, o enfrentamento do "problema de grande propriedade anti-social", quando tentou resolver um litígio entre pecuaristas e agricultores do noroeste de Pernambuco através de uma divisão da produção rural mediante a escavação de longo valado separando-os, o "Valado do Araripe ", solução pioneira porque pela primeira vez intervencionista estatal atuava na administração da grande propriedade fundiária. "Usineiro latifundiário, Estácio Coimbra começava a enxergar, entretanto, alguns dos males da monocultura e do latifúndio".

Contra esta figura até emblemática da República Velha, na qual chega a vice-presidente, também estoura a Revolução da Aliança Liberal de 1930.

Gilberto Freyre, sempre bem próximo a ele, inclusive nos momentos mais dramáticos, testemunha-o "dentro do plástico, chegando com freqüência ao terraço e às varandas sob balas, mandando "resistir", "como quem se oferecesse a essas balas", vindo do outro lado do Capibaribe, das janelas do Ginásio Pernambucano ocupado pelos revolucionários. "E não fugindo fantasiado de mulher, como diria o mito tentando ridicularizá-lo, Estácio Coimbra deixou o palácio o pedido do então comandandte das forças do Exército em Pernambuco. Estive presente ao encontro desse ilustre militar com o governador de Pernambuco. Vi e ouvi", concluiu Gilberto Freyre o seu depoimento sobre o término da Revolução de 1930 em Pernambuco. A seu ver, "uma espécie de quebra-quilos misturada com vinagrada, balaiada, cabanada". Casa dos próceres da República Velha estavam então saqueadas e em chamas, inclusive a do próprio Gilberto Freyre.

Estácio Coimbra ordena, então, a partida de um novo e possante rebocador de alto-mar, que viria a Ter o seu nome, rumo de início a uma das praias do sul de Pernambuco, terras suas ou vizinhas, onde esperava Ter "a seu lado guerrilheiros com os chamados cabras de engenho: gente valente e leal. Mas as armas eram poucas". Também não adiantava remar contra a maré da História, a maré de uma revolução montante por muitos motivos.

Do sul de Pernambuco, mares dos engenhos Morim e Tentugal e da Usina Central Barreiros do próprio Estácio, o rebocador prossegue para Maceió ainda próxima, mas "encontrando Alagoas já em estado de pânico - e dali por um vapor, o Ara, para Salvador: outra praça em estado de desânimo", continua o relato de Gilberto Freyre, testemunha participante sempre ao lado do seu amigo Estácio Coimbra, um dos raros próceres da República Velha que reagiram à mão armada, até o fim, contra a Revolução da Aliança Liberal. A seu mando, Gilberto Freyre alcança, com emissário, em alto mar, o scout da Marinha de Guerra, Rio Grande do Sul, ali ouvindo do comandante a comunicação do fim da luta.

Com a vitória do movimento revolucionário, que depôs Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder, Gilberto Freyre partiu para o exílio, acompanhando o governador de Pernambuco, Estácio Coimbra. Em Portuga, aproveitou para efetuar trabalhos de pesquisa, que lhe permitiram aprofundar seus conhecimentos sobre os primeiros tempos do Brasil colonial.

De Salvador prosseguem Estácio Coimbra e o seu fiel Gilberto Freyre rumo à Europa pelo navio francês Belle Isle via Senegal. Na África, um estranho alumbramento: "creio que foi aí que mais se definiu em mim o desejo de escrever o livro que se tornaria Casa Grande & Senzala. Mas isso no meio de angústia intensa: a de saber saqueada a casa de meus pais. Saqueada e incendiada." À maneira de muitas outras dos principais próceres da República Velha no Recife. O que deve ser influenciado a repulsa gilbertiana contra o homicídio político para sempre.

"Semanas depois, chegaríamos a Lisboa." Sem dinheiro, com um terno e duas camisas cada, Gilberto Freyre e Estácio Coimbra, "alugamos uma quase água-furtada, lado da sombra - portanto fria e terrivelmente úmida no inverno - numa rua obscura". Ali, sem poder nem as glórias, Estácio Coimbra, ao receber "a carta de um ingrato do Brasil ". "chorou e, como todas as noites, rezou de joelhos". Retrato íntimo da desgraça política de um grande deste mundo.

O quinhão de Gilberto Freyre logo aumentaria. O Diário Oficial de 17 de outubro de 1930, um dos primeiros após a Revolução, publicava o Ato nº 70: "O Governador do Estado resolve exonerar, por abandono, o Sr. Gilberto Freyre do cargo do professor contratado da cadeira de Sociologia da Escola Normal ". Amarga ironia contra alguém no exílio. Primeira das demissões de Gilberto Freyre pela força. A outra, pouco depois do retorno, quando afastado arbitrariamente de mais uma cadeira de Sociologia, a da Universidade do Distrito Federal do Rio de Janeiro, por conta de repressão ao levante de Aliança Nacional Libertadora da qual veio a participar, embora pacificamente, através da Federação das Classes Trabalhadoras, ao lado de jornalistas e pintores do Recife.

Tendo perdido nas pilhagens sua primeira grande biblioteca, em parte trazida dos seus cursos nos Estados Unidos e Europa, Gilberto Freyre, em 18 de dezembro, ainda de 1930, escrevia do exílio lisboeta ao seu irmão Ulysses Freyre ( não confundi-lo com o primo, também grande amigo e companheiro Ulysses Pernambucano de Mello ) : "Você fala no saque e roubo da casa. Nada mais doloroso para mim em tudo isso, e Deus sabe que eu preferia mil vezes que outra coisa tivesse sucedido, atingindo a mim e só a mim ". Gilberto Freyre anotava em diário depois desenvolvido: "Sob a certeza de que para minha mãe e meu pai a casa saqueada, roubada, incendiada foi golpe ainda mais profundo do que para mim? Pois eu hei de refazer-me. Tenho trinta anos. Mas e eles - que já passaram dos cinquenta e cinco? Que caminham para os sessenta? ".

Até que veio o convite da Universidade de Stanford, Califórnia, para Gilberto Freyre ali ensinar. Ëstácio Coimbra foi levar-me a bordo. Deu-me finíssimo relógio de platina. Abraçou-me demoradamente. Chorou. A Segunda vez que o vi chorar. A primeira, foi no nosso quarto de água-furtada, quando lhe chegou a carta de um ingrato do Brasil." Gilberto Freyre partia num transatlântico italiano de luxo, passagem paga por Stanford, dominado desde a escala do Belle Isle em Dakar, "pelo afã de escrever um livro que seja um grande livro, revivendo, o mais possível, o passado, a experiência, o drama da formação brasileira. Um drama eminentemente humano. Um capítulo que ainda não se escreveu da História ou da Aventura do Homem. Evasão? De modo algum. Aprofundamento num tempo de que o imediatamente atual é um pequeno retalho."

Tendo acesso a bibliotecas, museus e arquivos norte-americanos, recolheu novos elementos em obras raras de viajantes estrangeiros que haviam visitado o Brasil, integrantes da coleção do antigo reitor John Casper Branner.

Serenados os ânimos, anos depois, Gilberto Freyre retornava lentamente ao Brasil pelo sudoeste e sul dos Estados Unidos, tão parecidos com o Nordeste semi-árido e o Nordeste úmido do Brasil em paisagens e monoculturas, por maiores diversidades que tivessem. Era o amadurecimento progressivo de Casa Grande & Senzala a ser enfim escrito, terminada "a aventura do exílio" relembrada logo na primeira, no Recife, Solar do Carrapicho, reinício da caminhada brasileira de Gilberto Freyre. Mas novos percalços o esperavam, "o diabo da política...".

Em 1933, já de volta ao Recife, concluiu e publicou Casa Grande & Senzala. Gilberto freyre sempre foi grande amigo não só de escritores, também de editores: José Olympio no Rio de Janeiro; Alfred A. Knopf e sua esposa Blanche em Nova Iorque; Assis Chateaubriand dos Diários Associados; e Djalma Cavalcanti, um Cavalcanti de Albuquerque a quem considerava primo, da sucursal de O Estado de S. Paulo no Rio de Janeiro, entre outros. Também nisto Gilberto viu a importância dos meios de comunicação.

Em 1934 organizou o I Congresso Afro-Brasileiro de Estudos Sociais. No ano seguinte, foi designado pelo Ministro Gustavo Capanema para a função de professor extraordinário de Sociologia da Faculdade de Direito do Recife. Ainda em 1935, foi convidado por Anísio Teixeira, fundador da Universidade do Distrito Federal, para ali lecionar Sociologia e Pesquisa Social. Essa instituição foi fechada pelo golpe que implantou o Estado Novo em 1937.

Neste ano passara a exercer o cargo de consultor técnico do Patrimônio Nacional, como perito em Belas-Artes, função que exerceria até l957.

Em 1938, teve de deixar o Brasil para ministrar cursos como professor conferencista nas Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto e na Universidade de Londres, e ainda dirigir um seminário para pós-graduados sobre sociologia da escravidão na Universidade de Colúmbia.

Em 1942, já consagrado como escritor, foi eleito para o conselho da American Philosophical Association e para o conselho dos Archives de Philosophie du Droit et de Sociologie de Paris.

A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA

De volta do exílio, Gilberto Freyre prossegue retomando temas e pessoas da sua preferência.

No seu primeiro perfil de Estácio Coimbra - morto no infortúnio político sem terem, ele e outros, recebido qualquer anistia sempre negada pelo parafascista Estado Novo - Gilberto Freyre logo desfecha ataque frontal contra o interventor em Pernambuco, Agamenon Magalhães, facilmente identificável apesar de omitido o nome: "alguns vêm também queimando o que adoraram. Um deles passou cinicamente do parlamentarismo - do qual se fingia devoto - ao fascismo e - apesar de cafuso - ao nazismo. E do nazismo, fracassado no Brasil, vai se preparando, com o mesmo cinismo de vilão oriental, para aderir a novas doutrinas e técnicas de governo, já se confessando admirador de práticas e métodos norte-americanos de administração ".

Agamenon Magalhães, sertanejo branco-índio, cafuso, do Pajeú, "vilão oriental "("malaio " no apelido dado por Assis Chateaubriand ), tinha sido realmente dos defensores do parlamentarismo na Assembléia Nacional Constituinte de 1933/34, mas era paratotalitário em tempo de crise. Sua tese de concurso à cátedra de Direito Público e Constitucional da tradicional Faculdade de Direito do Recife, apresentava-se explícita - em 1933, ano da ascensão do nazismo na Alemanha e apogeu das ditaduras de Mussolini e Salazar - na admiração que tinha por estes, e pelo próprio Hitler, e por Kemal Ataturk na Turquia e Pilsudski na Polônia: "as greves, os sem-trabalho, a pressão das massas e as competições da política interna. Os estadistas da escola liberal desorientaram-se". Dizia Agamenon: "É a hora do assalto flamante das ditaduras..." Na mesma linha, Francisco Campos - Ministro da Justiça de Getúlio Vargas quando do golpe militar estadonovista de 1937 - vai elaborar a outorgada Constituição autoritária e corporativista.

Não só os políticos. As classes dirigentes em geral tentavam conciliar o inconciliável - o simultâneo namoro com o nazifascismo ítalo-alemão e a democracia liberal anglo-americana - noutra etapa dos dilemas da dependência econômica brasileira, portanto dependência política a nível internacional. O chefe do Estado-Maior do Exército, condestável do Estado Novo, General Góis Monteiro, pendulava entre o adido militar da Embaixada dos Estados Unidos, General Miller, e o adido militar da Embaixada da Alemanha, General Niedenfuhr, transpirando publicamente as manobras a ponto de Alceu Amoroso Lima. Tristão de Ataíde, concluir: "Quando Getúlio Vargas voltava o leme para a Direita ou a Esquerda, podíamos estar certos da direção de onde sopravam os ventos dominantes durante a guerra, com a vitória oscilante entre as democracias e o eixo nipo-nazifascista ".

Até a balança pender definitivamente para o lado de Londres e Washington e não haver mais jeito.

Entrementes se desencadearam, contra Gilberto Freyre e o seu pai, o Professor Alfredo, "violências, agressões, perseguições policialescas das mais torpes. Havia sucessivos "tiras "junto ao portão. Nos muros, em letras enormes, insultos aos moradores". "Ameaças de invasão da casa"- enfim consumadas, embora diante da reação física, não só moral, de pai e filho - "Alfredo Freyre ferido, O filho, só subjugado à corda, tal a sua resistência", "de roupa estraçalhada mas sob aplausos dos detentos que assistiram à bravura dos dois moradores de Apipucos". Recebendo a solidariedade principalmente de estudantes. "no meio de acovardamentos nada pernambucanos, pernambucaníssimos desassombros. A violência policialesca não logrou a vitória de que chegou a estar certa".

Neste contexto é que se deve entender a aproximação de Gilberto Freyre com Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Cultura do Estado Novo.

Tendo perdido a cátedra de Sociologia pelo fechamento, em 1937, da pioneira Universidade do Distrito Federal, em companhia de Anísio Teixeira, seu fundador e reitor, Gilberto Freyre, naquele momento dramático, só podia mesmo contar com Capanema, que dava guarida até a intelectuais de esquerda no seu gabinete, como a Carlos Drummond de Andrade e Oscar Niemeyer. Assim lhe foi oferecida uma outra cátedra, para pinçá-lo daquele inferno. Convite recusado por Gilberto Freyre - não queria adaptar-se ao Estado Novo - preferiu substituir aquele convite por "uma viagem de seis meses" em pesquisas "pela Artentina, Uruguai, Paraguai, e terminando nos Estados Unidos". Recém-casado, iria também acompanhar, em Buenos Aires, a primeira tradução de Casa-Grande & Senzala em espanhol. Lá ampliou o seu círculo de amizades com escritores ibero-americanos. Já conhecera o mexicano Alfonso Reyes, diplomata no Rio de Janeiro: acrescentou Eduardo Mallea na sua estadia portenha. "M esmo assim a verba quase não foi suficiente".

Era 1942.

No ano seguinte, ano do Manifesto dos Mineiros, do qual viria em breve a brotar a frente ampla da União Democrático Nacional, depois cindida em vários partidos, a começar pela Esquerda Democrática da qual Gilberto Freyre faria parte, ele vai à Bahia para de lá insistir mais abertamente na oposição ao Estado Novo. Em Pernambuco, com os "duros" do regime - Agamenon Mgalhães na interventoria e Etelvino Lins na Secretaria de Segurança Pública, egresso nada menos que da Delegacia de Ordem Política e Social - era muito mais difícil a resistência. Equivalente, em repressão ao Pernambuco daquele tempo, só o Distrito Federal aterrorizado por Filinto Muller de quem David Nasser depois diria que era o falta alguém em Nuremberg, numa alusão aos nazifascistas brasileiros imunes por terem aderido às democracias triunfantes.

Gilberto Freyre denunciava-os publicamente: "É o jogo deles: agirem pelo nazismo através de terceiros, enquanto se fingem convertidos às forças triunfantes da democracia que até o ano atrasado proclamavam ser a ignomínia da Terra, só compreendendo governos opressores e exploradores do povo, dos intelectuais, das artes, da ciência, da cultura..."

Atacado pelo Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito do Recife, sob pressão dos "órgãos competentes", Gilberto Freyre consegue responder-lhe, mas na Bahia é homenageado com um jantar na Associação Atlética de Salvador, no qual Luiz Viana Filho - outro resistente estadonovista, em breve companheiro de Gilberto Freyre na deputação federal pela União Democrática Nacional na Assembléia Nacional Constituinte - foi o orador que o saudou.

O cerne da questão é que o Estado Novo não perdoava a participação de Gilberto Freyre na Aliança Nacional Libertadora, através da Federação das Classes Trabalhadoras, em companhia dos pintores Cícero Dias e Emiliano Di Cavalcanti, do jornalista Eugênio Coimbra Júnior e do arquiteto Heitor Maia Filho, juntos com um panificador e um gráfico, todos à frente, e com o objetivo de "agitação em sinal de protesto à Lei de Segurança Nacional ", por meio de "paredes ( greves, telegramas, boletins, etc.)".

Gilberto Freyre, ademais, não calara após a repressão ao levante armado de 1935 e a perda da cátedra da Universidade do Distrito Federal. De volta ao Recife, em 1936, recebe homenagem na forma de um jantar oferecido por amigos, quando retoma a ofensiva política no discurso de agradecimento; após reivindicar o regionalismo nordestino, indaga e increpa: "Quem o criou, foram os ricos da terra? Foram os governadores? Foram os açucareiros? Foram os homens que se gabam do seu juízo e do seu senso prático? Foram os deputados? Foram os senadores? Não, fomos nós, médicos, intelectuais, pintores, trabalhadores, artistas, vigários do interior, babalorixás, estudantes". Pois, "que seria o "Recife sem os seus médicos, sem os seus loucos, sem os seus babalorixás, sem os seus letrados, sem os seus poetas, sem os seus estudantes, sem o seu sal, e só com o açúcar e os chamados homens de juízo? " "Tampouco me interessa a opinião dos moralistas e dos censores. ""O dia mais triste da minha vida seria aquele em que eu fosse consagrado por eles ' homem de caráter'."

As áreas conservadoras, mesmo regressistas, senão reacionárias no título de polêmico livro de Jackson de Figueiredo, irritavam-se ao máximo. As insistentes remissões aos médicos e aos babalorixás, ou pais-de-santo, deviam-se à íntima, até em grande parte inspiradora, colaboração com seu primo e amigo Ulysses Pernambucano de Mello ( Gilberto era Gilberto de Mello Freyre) no I Congresso Afro-Brasileiro do Recife em 1934 e na elaboração de Casa Grande & Senzala, cujo antiarianismo negrófilo, entre outras definições, levaram os tradicionalistas do integrismo católico ao paraxismo de irritação, senão de declarado ódio inclusive político.

Já em 1942, Gilberto Freyre, na dedicatória do seu livro Ingleses ao líder trabalhista britânico Stafford Gripos, "para quem se voltam hoje as melhores simpatias dos que separam a causa anglo-americana dos interesses plutocráticos de Londres e Nova Iorque - indireto ataque a Gustavo Barroso e outros integralistas e adjacências, confusionistas misturadores daquelas duas dimensões em livros-panfletos do tipo de Brasil, Colônia de Banqueiros - já ali Gilberto Freyre proclamava que "não estou só na confiança com que acompanho a revolução social na comunidade britânica realizada pelos seus socialistas no sentido de um mundo - não apenas uma Inglaterra - mais cristão e mais democrático". Já - Estácio Coimbra chamava Gilberto "meu socialista...

"Com a deposição de Vargas em 29 de outubro de 1945, encerrou-se o Estado Novo, período de ditadura inaugurado em 10 de novembro de 1937.

Odilon Nestor - professor da Faculdade de Direito do Recife e amigo hereditário do velho Alfredo, também companheiro do Centro e Congresso Regionalista de 1926 - Odilon Nestor vinha de publicar o livro Atenas, Roma e Jesus. Logo saudado por Gilberto Freyre com um cálido exemplo do humanismo social cristão de Jacques Maritain, então muito hostilizado pelos integristas católicos.

Desencadeia-se a campanha pela redemocratização. Em meio a violentos percalços, irrompe o tiroteio da polícia política contra manifestantes na praça da Independência no centro do Recife e contra oradores perorando da sacada do tradicional Diario de Pernambuco. Gilberto Freyre falava, o estudante Demócrito de Souza Filho da Faculdade de Direito atentamente estava bem perto ouvindo o orador. Saraivada de disparos. Tombam mortos, lá em cima o estudante, lá embaixo o carvoeiro Manuel Elias.

Gilberto Freyre muito após viria a recordar aquela resistência heroicamente romântica, selecionando ele mesmo seus principais nomes: "Que jovens e adolescentes da década de 40 foram os que mais se ligaram à casa de Apipucos como a um reduto não só de cultura, como de civismo? Entre eles, Demócrito de Souza Filho que seria o mártir do grupo, vítima de covardes balas policiais quando, de uma das varandas do Diario de Pernambuco, ouvia morador de Apipucos que falava de outra varanda. Odilon Ribeiro Coutinho, Paulo Rangel Moreira, Salviano Machado, Artur Reinaldo, Murilo Costa Rego. Ao lado deles, também bravamente, Aníbal Fernandes, Amaro Quintas, Odilon Nestor, William Shorto". Ao longo da campanha, rumo àquele imprevisto coroamento de sangue, com coragem e decisão: José Antônio Gonçalves de Melo, Edson Nery da Fonseca e muitos mais, idealistas da geração de 1945. Entre os mais velhos, o médico Geraldo de Andrade, de quem Gilberto fará o necrológio na Câmara.

Gilberto Freyre candidata-se a deputado federal constituinte numa das viradas históricas do Brasil. É eleito pelo voto urbano recifense, impulsionado pelo entusiasmo dos estudantes que o consagram nas urnas pela legenda da União Democrática Nacional, ala da Esquerda Democrática, depois fragmentada, já sem Gilberto Freyre na deputação, no pequeno Partido Socialista Brasileiro, só qualitativamente grande com João Mangabeira e Hermes Lima à frente.

UM PARLAMENTAR HUMANISTA

Havia de tudo em 1945.

O Estado Novo parafascista caíra. Sua Constituição nunca chegara a implantar-se, nem seu plebiscito autolegitimador, previsto por ela mesma, se realizaria, empolgada pelo poder pessoal de Getúlio Vargas e sátrapas estaduais, "interventores".

Em 1945 as esperanças estavam com a União Democrática Nacional (dentro dela ainda a Esquerda Democrática), o PCB e o Partido Democrata Cristão, outrora empolgado pela doutrina social da Igreja. O realismo, poré,, com o Partido Social Democrático, que disto só tinha o nome, na realidade um dos dois partidos criados pelo próprio Vargas, aquele reunindo os tais sátrapas e o outro, o Partido Trabalhista Brasileiro, agrupando líderes do sindicalismo verticalizado autoritariamente para esvaziar e/ou esmagar o pioneirismo anarco-sindicalista de baixo para cima através dos chamados "pelegos" do PTB, ao qual Alberto Pasqulin em vão tentava dar um sentido ideológico social-democrático de inspiração britânica ainda em moda.

Tudo isto se mistura com resistentes resíduos localistas na forma do Partido Social Progressista de Ademar de Barros em São Paulo, Partido Libertador de Raul Pilla no Rio Grande do Sul (este, esforçadamente parlamentarista) e Partido Republicano do velho conservador ex-Presidente Artur Bernardes, transformando em nacionalista nas Minas Gerais.

Gilberto Freyre movimentava-se na área intelectualizada udenista, ao lado de luminares do porte de Raul Fernandes, José Américo de Almeida, agrário do País". Tendo Gilberto Freyre à frente, o Instituto iria transformar-se numa das mais importantes instituições de pesquisa em ciências sociais do País.

Além desse projeto de criação do Instituto Joaquim Nabuco, organizou, a pedido de Anísio Teixeira e do Ministério da Educação e Cultura, o Centro de Pesquisas Educacionais e Sociais para a Região Nordeste do Brasil.

Em discurso na Câmara dos Deputados, em 28 de abril de 1950, portanto perto da conclusão do mandato, Gilberto Freyre relembrava muito claramente, na presença de muitas testemunhas do episódio: "devo recordar que não foi só a União Democrática Nacional, por todos os seus ilustres organizadores em Pernambuco e por seus mais destacados líderes no Rio de Janeiro e noutros estados, nem apenas a Esquerda Democrática, hoje Partido Socialista Brasileiro, por unanimidade, que em 1945 me honrarem com insistentes convites para concorrer, como seu candidato, à eleição para a Assembléia Nacional Constituinte em 1946 e para a atual Câmara dos Deputados. Também o Partido Comunista do Brasil, por intermédio de comissões de Apipucos, em nome da direção central do partido, instando comigo para que figurasse na sua chapa sem compromisso de ordem partidária". "E em Pernambuco - concluíam, precisando as razões para o convite insistente que me faziam - ninguém se batera tão corpo a corpo, tão abertamente tão abertamente, tão arriscadamente, com tão constante perigo de vida, contra o prolongamento da ditadura..." Também recusei este convite, sem Ter deixado de ser sensível ao que nele havia de honroso para mim..."

Tempos em que Gilberto Freyre se considerava "socialista experimental" - se é que sou realmente "ista" de qualquer espécie --, e nunca "dogmática ou sectariamente doutrinário..."

Tempos de frente ampla contra o Estado Novo e tempos imediatamente seguintes, quando Gilberto Freyre, noutro discurso memorável, desta vez no Parque 13 de Maio, com o pano de fundo da Faculdade de Direito ao longe, em 30 de setembro de 1950, ainda clamava contra a candidatura do ex-interventor Agamenon Magalhães a governador exortando o Recife. "Águia ferida, pelicano rasgado no peito como o da lenda imortal, leão a quem mataram os filhos pequenos - sê cruel com quem se novo quer subir ao teu dorso, agora para furar devez os teus olhos, sangrar mais fundo o teu peito, matar outros dos teus filhos inermes. Cidade chamada cruel, sê de verdade cruel. Aguça tuas garras para estraçalhar o atrevido que pretende ser teu senhor, teu opressor, teu exolorador, com a própria caridade do teu voto".

Paradoxal destino.

Nem mesmo o sertanejo, embora urbanizado e federal, mas sempre muito telúrico, José Américo de Almeida usou palavras tão duras num momento de apelo ao solo natal. Na "Oração da Capital", José Américo conclamava: "Minha nobre e altiva terra de 1930, creio em ti, creio em teus sentimentos e em teus brios, creio em tua independência e na tua dignidade". "Venho lutar. Tenho levado uma vida combativa e meus combates ainda não me cansaram". "Este é o meu posto para que a Paraíba não torne a cair em mãos impuras".

O companheiro condigno de João Pessoa e Getúlio Vargas, no fragor da Aliança Liberal em campo oposto momentaneamente ao de Gilberto Freyre, não se inflamava tanto quanto ele, intelectual urbano de berço e cosmopolita de vocação e formação. A política, não só a política, "o diabo da política", tem os seus estranhos caminhos ao exaltar as suas vítimas. Talvez porque José Américo de Almeida, do lado dos vencedores em 1930, só viesse presidência da República em 1937.

Gilberto Freyre também fazia parte de outra tradição - apesar de tão aparentada à paraibana na fraternidade nordestina --, a do Recife, síntese das exaltações radicais da região irredenta. Nas palavras de Tobias Barreto, teuto-sergipano, nos s eus versos escritos logo sob o primeiro impacto da visão do Recife do convés de navio no qual chegava: "É cidade valente/brio da altiva nação.../ Cidade das galhardias,/ que no teu punho confias.../Uivam as revoluções.../ Quem é que lhe põem a mão?.../ Possa a coragem de novo/ teu bafo ardente inspirar,/ e a glória sair do povo,/ como tu surges do mar..."

Cem anos após, Carlos Pena Filho ecoará o Recife "cruel cidade". Interessante que a imagem seja de Agamenon Magalhães interventor se chocando com a sua crônica rebeldia - "águia sangrenta, leão./Este é teu retrato feito/com tintas do teu verão/e desmaiadas lembranças/do tempo em que também eras/noiva da revolução". Tempos evocados também por Gilberto Freyre e por quantos tornam a convocá-la, sempre disponível, à luta...

Gilberto Freyre chega, assim, aureolado pela resistência democrática ao Congresso Nacional. Dele, do orador, deixou o maior cronista político da época, Pedro Dantas pseudônimo de Prudente de Moraes Neto, o flagrante excepcional: "Um discurso do Sr. Gilberto Freyre é sempre um acontecimento intelectual... Ainda ontem notou-se a desusada atenção com que a Câmara ouviu seu discurso..."

E o companheiro de Constituinte, colega de primeira legislatura pós-redemocratização de 1945, Munhoz da Rocha dele recorda "discursos escutados em silêncio, com atenção unânime por todo o plenário, em que, numa atitude raríssima em assembléias numerosas, todos se concentravam diante de sua eloqüência absolutamente diferente da comum". Gilberto na tribuna significava silência no plenário, de onde sumia o zumzum das conversas de grupo. Muitos o admirava, e, se não o admiravam, o entendiam. Uns poucos nem o admiravam nem o entendiam, mas o clima de respeito os coagia a manter ou aparentar a comum atitude admirativa". "Gilberto Freyre só intervinha em assuntos de importância para a nacionalidade, mais preocupado, é claro, com o social do que com o meramente político, e até meio despreocupado desde enquanto em seu âmbito estreito".

Sua maior inspiração, Joaquim Nabuco, um "revolucionário conservador", com a coragem de antecipar-se, em mais de um ponto, à maioria dos chamados "bem pensantes" e de arriscar-se a ser acusado de "petroleiro" ou "anarquista" ou "comunista", como foi Nabuco nos seus dias de "reformador social". "Contraditório, diverso, rico de contrastes em sua personalidade. Conservador e revolucionário. Anticlerical e religioso. Democrata e monarquista. Provincianista e universalista. Acadêmico e descuidado do purismo acadêmico. Homem de gabinete e homem de rua". "Também nós caminhamos hoje, com um gosto de aventura semelhante ao dele, para as surpresas de renovação social sem querermos abandonar de todo a rotina macia do passado, cuja doçura Proust nos ensinou a amar..." Gilberto Freyre poderia Ter acrescentado e concluído: De meu autem fabula narratur... Pois, em linha análoga, embora não propriamente idêntica à sua. "É que seu parassocialismo era intensamente personalista. Neste ponto antecipou-se, como noutros, ao moderno socialismo ou trabalhismo inglês, que não esquece nunca a pessoa, Nem pela raça, nem pela classe,e nem pela massa". Pontos em comum com aquela dedicatória de Gilberto Freyre a Stafforde Cripps em Ingleses, completada por uma esperança de muitos povos de então: "não estou só na confiança com que acompanho a revolução social na comunidade britânica realizada pelos seus socialistas". Daí o entusiasmo com que se associa as comemorações nacionais da Câmara dos Deputados em homenagem ao centenário da Rebelião Praeira.

Passando a demonstrar como "Nabuco foi amigo leal da gente de trabalho no Brasil, da qual o aproximou um socialismo esclarecidamente personalista, com muitas afinidades com o trabalhismo mais avançado de hoje, que é o britânico da ala Cripps ou o que se inspira no britânico ou o que se inspira no britânico da ala Cripps". Pois, para Joaquim Nabuco, "o que é o operário? Nada. O que virá ele a ser? Tudo"; "germe do futuro da nossa pátria, porque o trabalho manual (...) dá força, vida, dignidade a um povo, e a escravidão inspirou ao nosso um horror por toda e qualquer espécie de trabalho em que ela algum dia empregou escravos". Portanto, retoma Gilberto Freyre o raciocínio, "no sentido de um trabalhismo ou de um socialismo ético e não apenas econômico: de alcance social e cultural e não apenas político".

Quatro grandes linhas norteiam a conduta do constituinte e parlamentar Gilberto Freyre no seu único mandato, de 1946 a 1950. São o constitucionalismo, o presidencialismo, a ordem econômica e social, o regionalismo e o universalismo.

Seu colega Munhoz da Rocha mais uma vez testemunha, agora, o constitucionalismo gilbertiano: "Gilberto Freyre desenvolve da tribuna da Câmara a tese de que a Constituição democrática não é poder e sim instrumento. É evidente que é um instrumento de execução da própria democracia que para nós brasileiros e, generalizando para os povos de cultura latina, é um ideal a atingir, e como ideal só se realiza imperfeitamente, não podendo satisfazer a sede insaciável da infinita perfeição". Já "os povos de cultura anglo-saxônica, como o norte-americano, não pedem da Coonstituição e das instituições políticas mais do que elas podem dar. Contentam-se com sua execução, ainda que deficiente, e procuram corrigi-las objetivamente em seus setores falhos, bem especificados".

Realmente, o constituinte Gilberto Freyre é dos que optam por uma constituição sintética e substantiva, que deveria "Limitar-se ao simbólico e ao essencial, deixando o mais para a lei ordinária". Produto "imperfeito como surgiu, ele representa o resultado de uma cooperação interpartidária e transpartidária como ainda não se fizera entre nós. E dentro dessa cooperação, um esforço de conciliação do desejável com o possível, que nenhum crítico, mesmo apolítico, de suas imperfeições, deve esquecer inteiramente". Porque a Política mesmo com o "P" maiúsculo de distinção de Joaquim Nabuco em Um Estadista do Império, a Política ( diferente do "diabo da política"...) é, para Gilberto Freyre, arte e não ciência, mesmo que as duas dimensões não se excluam, antes se interpenetrem.

É o que Gilberto Freyre explica no Teatro Municipal de São Paulo, em 22 de junho de 1946, numa conferência a convite do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. "Como cientista, é que ele ( o político ) foi um modernista necessário mas superado. Necessário para trazer à arte política o contato com a ciência, admitido, como está hoje, que sem esse contato a arte política pode degenerar em bruxaria sociológica. O ideal é que o político, o artista político, seja hoje um homem de formação não apenas jurídica ou legalista, mas principalmente científica ou técnica ( ... ) mas sem que sua formação científica ou técnica seja sua única recomendação para a atividade política. Sua principal recomendação para a atividade política deve ser sua capacidade para exercê-la como artista. Ou como político. Pois política é arte, é dança, é ritmo, e quem for incapaz de arte, de dança, de rítmo pode passar pela política como um grande modernista revolucionário - violento, duro, hirto; nunca com o vigor e, ao mesmo tempo, a graça de um moderno de todos os tempos que pratique a sabedoria da contemporização sem sacrificar o essencial das harmonizações ao simplesmente formal". Daí Gilberto Freyre comparar, quando participante parlamentar em delegação oficial do Brasil a uma das sessões da Organização das Nações Unidas, o embaixador soviético Andrei Vishinsky ao grande bailarino russo Nijinsky, para escândalo tanto dos stalinistas quanto de burgueses empedernidos...

Balé político, mas da política com "P" maiúsculo, repita-se e insista-se, não o "diabo da política"...

Política, pois, a serviço, não se servindo; por isto Gilberto freyre insistiu muito numa proposta de redação para o art. 145 da Constituição de 1946 que dissesse: "A ordem econômica conciliará a liberdade de empresa com a condição humana do trabalho e a proteção social ao trabalhador"- "uma redação limpa e clara que refletia perfeitamente o pensamento dos constituintes e sua deliberação de, nessa questão que viria a ser a mais importante nos seguintes, procurar na conciliação da livre iniciativa com a legislação traballhista, o segredo da continuidade democrática" - atesta ainda Munhoz da Rocha, que lamenta "a mesquinheza com que se conseguiu atropelar a proposta em favor de textos menos límpido".

Exatamente por repelir o "racionalismo abstrato, linear, superficial" foi que Gilberto Freyre optou, na Constituinte de 1946, pelo que chamava de "presidencialismo transacional"( "Nunca pertenceria a uma seita para a qual fora do presidencialismo não houvesse salvação. Nunca reconheceria no parlamentarismo um sistema diante do qual pudesse a ser repetida a frase do poeta célebre: 'Pará, és perfeito'. Nem perfeito, sempre superior ao seu oposto, me parece ele"), pois "o experimentalismo em questões de forma de governo deve ser, sempre que possível, gradual, tais os elementos e interesses sociais que atingem as experiências". "Em mais de uma zona parece aconselhável a transação do sistema presidencial com o parlamentar".

Na prática, explica Gilberto Freyre, "desaparecida essa figura - a do Presidente da República - do nosso sistema de governo, temo que, entre nós, não viesse o presidencialismo a ser substituído senão ficticiamente pelo parlamentarismo. O presidencialismo de feitio legal, de sabor constitucional, de aspecto legítimo, correria o risco de ser substituído pela sua caricatura, pela sua perversão, pela sua depravação, sob a forma de quanto caciquismo se possa imaginar, de quanto sebastianismo se possa conceber, de quanto messianismo se possa figurar. Este, o grande perigo - perigo de natureza psicológica e de ordem sociológica - que me parece acompanhar a emenda parlamentarista, sob outros aspectos tão sedutora, tão atraente, tão capaz de empolgar a inteligência dos políticos mais lógicos nas suas concepções politicamente democráticas de governo."

É que Gilberto Freyre admirava o Poder Moderador imperial ("Quando se salienta que a instituição do Poder Moderador na Constituição de 1824 foi 'única no mundo', presta-se aos redatores da Constituição do Império alto tributo"), mesmo sem ser monarquista, e sim por motivos sociológicos de arbitragem de uma sociedade agrária e patriarcal por uma autoridade representando o seu protótipo, "quebrando-se o perigo, para uma comunidade da formação da brasileira, da onipotência parlamentar, com a sua inevitável diluição de responsabilidade e a sua também inevitável abstração de autoridade".

Pedro II equivocara-se. "Faltou-lhe a noção exata do lado para o qual deveria Ter pendido, naquela função de poder moderador que tanto discutiram os teóricos da época. ""Foi - em desacordo com o meio e as tradições do nosso país - uma figura de burguês liberal feito para governar a Suíça", quando "o momento queria-o mais acre, mais incisivo, mais duro; ele não fez caso do momento e tornou-se o mártir do seu próprio excesso de liberalismo acadêmico, sem raízes nas condições brasileiras", "no interesse da democracia aristocrática para que o Brasil estava predisposto desde os seus começos". "O fraco rei faz fraca a forte gente", já dizia Camões. Dessa nobreza - sem cerimônias, sabendo latim "aprendido com o capelão do engenho, o tio padre ou o mestre régio", montando com elegância a cavalo, sabendo manejar "a faca de ponta com cabo de prata", "descendem alguns daquela fidalguia cheia do espírito de aventura que veio para o Brasil de Portugal, da Espanha, de Florença, da Holanda; boêmios da fidalguia que aqui deixaram desbotar, sob o sol livre no trópico e ao requeime de amores irregulares, os azuis e os vermelhos dos seus brasões. Cavalcantis, Camargos, Albuquerques, Mellos, Andrades, Wanderleys" - "dessa nobreza" Pedro II "poderia Ter feito uma elite animada de consciência de espécie rusticamente brasileira; impregnada de uma noção clara de responsabilidade nacional diante da época de transição que tinhamos de enfrentar e em face dos interesses estrangeiro empenhados no nosso enfraquecimento e até na nossa fragmentação". Que se uma não foi conseguida, o outro foi alcançado. Página digna de A Ilustre Casa de Ramires...

Programa ( "Linda receita com o nome do remédio em letra de médico") talvez realizável por Dom Luís, cedo falecido, neto de Pedro II. "Mas agora que Dom Luís é morto, como se retificará a História brasileira? "Ao que Gilberto Freyre responde desde 1925: "Um otimista diria que por um presidencialismo mais acentuado nos seus pendores monárquicos".

Foi na ausência deste Poder Moderador monárquico que Gilberto Freyre vislumbrou a possibilidade de outro, militar, nas Forças Armadas em seu conjunto, noutra fase brasileira, industrializada e urbanizada, porém ainda e até mais cheia de contradições, necessitando de mediações : "Não tem faltado às Forças Armadas, no Brasil, a consciência de lhes caber um papel superiormente político, acima dos partidos e das ideologias, em dias extremamente críticos para as relações intranacionais". Não apenas internacionais. "Espécie de poder supra-estadual e suprapartidário". "Daí o poder nacional militar - um poder constante e não transitório, como o dos partidos ou o dos próprios grupos econômicos regional ou estadualmente condicionados nos seus objetivos ( palavras de Joaquim Nabuco, 1890, um insuspeito monarquista ), o único substituto nacional possível do "prestígio monárquico". "Apesar de Gilberto Freyre indagar-se ( "por que ... a República no Brasil em 1889? Correspondeu ela a uma específica aspiração verdadeiramente nacional? Proclamou-a o General Deodoro da Fonseca em momento sociologicamente justo? Resultou em imediato benefício político ou econômico ou amplamente social para a comunidade brasileira?), encarregando-se ele mesmo de responder: "No plano sociológico - que é aquele em que procuro considerar o assunto - são pontos discutíveis". Apesar do seu caráter "de revolução, antes das chamadas brancas que das denominadas rubras" e de que "não significou, no caso brasileiro, o episódio de substituição da Monarquia pela República em 1989, repúdio absoluto do brasileiro ao regime monárquico e sim a alguns dos seus característicos..."

Gilberto Freyre analisará, à base de depoimentos da geração de 1989 e da imediatamente seguinte, toda essa problemática no seu livro Ordem e Progresso, conclusão da trilogia iniciada por Casa Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos.

Ainda deputado federal, 1948, ele pronuncia conferência na Escola do Estado-Maior do Exército, na qual valoriza, quase weberianamente, mais outro lado das Forças Armadas, ao qual se poderia por conseqüência se chamar de modernizante: "A responsabilidade das Forças Armadas é, no Brasil de hoje, imensa porque no Brasil de hoje - repita-se - pouco é o que se acha organizado e muita a desorganização. O Exército, desde a Reforma Hermes, e, principalmente, desde o Ministério Calógeras, vem-se tornando um exemplo expressivo do que pode, no Brasil, a técnica de organização". Elogia extensivo à Marinha e Aeronáutica. "Sendo elas hoje um conjunto organizado, no meio de tantas forças desorganizadas, esse fato só faz aumentar sua responsabilidade em face dos problemas nacionais". "Mas devem saber conter-se para não se tornarem sozinhos, a Nação ou a defesa nacional". Daí Gilberto Freyre, mesmo durante o regime de 1964, nunca se Ter extremado em Kemalista ou nasserista. E sim que "o que explodiu a 15 de novembro foi um episódio num processo brasileiramente revolucionário que vinha já de longe. Vinha de dias remotos. Continua".

Quaisquer considerações, por maiores que se tornem, jamais obscurecem, no final das contas, o Gilberto Freyre nordestinamente regionalista na suas visão regional do Brasil e do Mundo: volta sempre a Joaquim Nabuco, seu inspirador maior, "o revolucionário-conservador", estende a José Mariano, grande companheiro abolicionista de Nabuco no Recife, de quem a imprensa regressista ou reacionária dizia invejosa no jornal pernambucano República Brasileira, 25 de julho de 1899, seguido pela "lama das ruas (..) casta faminta que chamam por grossa hipérbole povo, e que acompanha o Sr. José Mariano no Recife"; inclui no elogio outro pernambucano, antípoda, Dom Joaquim de Albuquerque Cavalcanti Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro e primeiro Cardeal da América Latina; lembra-se de José Vicente Meira de Vasconcelos, jurista "para quem povo e república foram mais do que figuras de retórica", apelando até a "uma poesia socialista que continuasse, no nosso país, a ação social de Castro Alves e de Tobias Barreto", homem público combativamente liberal, "mestre de Direito e mestre de civismo", de muitas afinidades com Rui Barbosa. Faz questão de recordar outro mestre recifense esquecido, Gonçalves Ferreira, professor da velha Faculdade de Direito.

Gilberto Freyre amplia nordestinamente o elogio em necrológio ao Deputado Federal Graco Cardoso, de Sergipe, homem reto e probo, injustiçado por sua inclusão, e de outros, no rol dos preconceitos contra os políticos. Gilberto Freyre vai além, declara Bernardo Pereira de Vasconcelos, uma síntese da "mineiridade" de "conciliação do desejo de ordem com o de liberdade", quase o nosso Disraeli. Coroa os elogios parlamentares anglofilamente na pessoa do Presidente da Câmara dos Lordes do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, Lorde Jowitt, em visita ao Brasil em 1949, saudado por Gilberto Freyre em sessão solene da Câmara dos Deputados, " um caçador", "um jogador de cricket e de tennis", mas também "ministro nos dias terríveis em que a Grã-Bretanha, como que cumprindo palavra dos Evangelhos, teve a coragem de perder a vida, salvando-se pelo sacrifício: um sacrifício que também a nós, povos da América, salvou de perigos talvez mortais para nossas aspirações democráticas". Anglofilia universalizada quando Gilberto Freyre se faz porta-voz, noutro discurso na Câmara dos Deputados, do apelo de membros da Câmara dos Comuns em favor de "que juntemos nosso esforço ao deles no sentido de se organizar nos nossos dias um governo supranacional capaz de enfrentar problemas supranacionais", generosas esperanças do pós-guerra, aos quais se associava o grande indiano anglófilo, porém nacionalista. Pandit Nehru".

Amadurecera o momento para Gilberto Freyre apresentar o seu principal projeto de lei, o de criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, um dos "dois ou três institutos de pesquisas social, para o estudo científico do homem brasileiro, e não só de um . proposto o Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, em artigo na revista carioca O Cruzeiro, 25 de setembro de 1948, explicava que deveriam tratar-se de um para o Norte/Nordeste, outro para o Brasil Meridional e mais um para o Brasil Central.

E de novo sem nenhum preconceito, Gilberto Freyre, quando apresenta o projeto de lei do Instituto Joaquim Nabuco propriamente dito, aponta que "o Brasil (...) é, à semelhança da União Soviética, imensa reunião, de províncias ou de regiões diversas" e que "sabe-se que, na União Soviética, dá-se hoje grande atenção ao estudo e ao estímulo das formas regionais de vida, respeitando-se, no plano cultural, e até certo ponto, no político, culturas tradicionais, nacionais ou regionais. Estudam-se cuidadosamente as várias populações que constituem a hoje imensa união de repúblicas chamadas socialistas". Analogias eslavófilas são recorrentes na obra gilbertiana, desde quando denominava o Brasil uma "Rússia Americana" em seu artigo "Vida Social no Nordeste", na edição do Diario de Pernambuco comemorativa do seu centenário, 1925.

Era, mais uma vez, uma grande penetração psicossocial de Gilberto Freyre.

O Nordeste vivia, há muito, profunda crise econômico-polítca. Datavam de pelo menos um século as suas reinvindicações, algumas transbordando em protestos que só não era separatistas porque, mostrou-se Barbosa Lima Sobrinho, "as revoluções chamadas separatistas soa apenas as que ficaram no meio do caminho, entre a conspiração regional e a impossibilidade de alcançarem vitória definitiva, com que sonham todas as conspirações. O ideal de todas elas é a irradiação, que lhes permita chegar a todos os Estados, tornando-se, por isso mesmo, revoluções nacionais, sob o prestígio das idéias e dos programas que defendem". "Mesmo a chamada Guerra de Secessão nos Estados Unidos não tivera propósito separatista. Uns lutavam por uma nação unida sem a escravidão, outro por uma nação que admitisse a escravidão. O separatismo poderia se uma conseqüência, não um ideal, e tanto podia valer num dos campos, como no outro".

UMA NOVA CONSCIÊNCIA DE NORDESTINIDADE

Gilberto Freyre criou e gostava muito dos neologismos "pernambucanidade" e "recifensidade", entre os muitos com que enriqueceu o português do Brasil sem recorrer a estrangeirismos. Muito pelo contrário, todos remontando às nossas origens afro-luso-ameríndias. Que lhe seja acrescentada a "nordestinidade" do seu reginalismo, por ele elevado até uma visão do mundo, dele, que tanto repelia as padronizações, inclusive a de "brasileiro". Preferiu, repetidas vezes, aplicar o método monográfico do francês de Le Paly, associado à Sociologia Regional do indiano Radhakamaml Mukerjee. Le Play, esquecido no Brasil, apesar de revelado desde Sílvio Romero e Mukerjee, foi pela primeira vez divulgado pelo próprio Gilberto Freyre a partir dos seus também pioneiros cursos a respeito, iniciados extraordinariamente na Faculdade de Direito do Recife e interrompidos, já regulares, na Universidade do Distrito Federal do Rio de Janeiro pelo seu fechamento em 1937, uma das conseqüências do golpe militar estadonovista.

O regionalismo de Gilberto Freyre expressa, entre outras dimensões, uma nova consciência da crise nordestina. Esta vem de longe. Gilberto Freyre, porém, foi quem começou a dar-lhe outra perspectiva. E Evaldo Cabral de Mello mapeou muito bem o itinérario da crise em seu livro O Norte Agrário e o Império (1871-1889), 1984. Ela gira em torno de três eixos: o tráfico interprovincial de escravos, os juros bancários desiguais e os impostos centralizados na Corte.

Antes de mais nada, lembre-se que, conforme o censo de 1872, a população nortista praticamente equivalia à sulista, 4.761.000 diante de 4.768.000. mas as estimativas calculam que entre 100.000 e 200.000 escravos mudaram de donos no Norte, naquele tempo basicamente o Nordeste, dada a riqueza açucareira deste, com maior concentração demográfica, e a extrema distância do outro, com população rarefeita. A ponto de, já em 1871. 50% da lavoura nordestina empregar trabalhadores livres. Em Pernambuco, centro econômico rivalizando e mesmo disputando primazia com a Bahia, o trabalho livre atingia 75%, na própria lavoura de cana, mais de 50%. Donde conclui muito bem Evaldo Cabral de Mello: "o primeiro argumento que utiliza o protesto regional ao acusar o governo imperial de indiferença pela sorte das províncias setentrionais é invariavelmente o tráfico de escravos. Afinal de contas, as caravanas de negros que tomam o rumo do Sul constituem a forma mais visível do desequilíbrio regional'. A crise e declínio do Nordeste vêm de longe. Com o resultado do abolicionsimo ir se fortalecendo mais ao Norte que no Sul: já que os mais ricos proprietários sulistas, os do café em seguida ainda mais, tiravam, mesmo por dinheiro, os escravos dos mias pobres proprietários nordetinos, que se acabasse a escravidão. Não por acaso Rui Barbosa provinha da Bahia e Joaquim Nabuco de Pernambuco, os dos principais próceres liberais abolicionista,s apesar de uma da nascente burguesia urbana outro nascido em sobrado recifense e criado no Engenho Massangana entre numerosa escravaria, embora relativamente bem tratada pelo matriarcado da sua madrinha, tão bem escrito em Minha Formação.

Outra questão seriíssima era a desigualdade dos impostos entre Norte e Sul, a questão dos chamados "auxílios à lavoura". Prossegue indicativo Evaldo Cabral de Mello: "Ao contrário da lavoura cafeeira, a dificuldade fundamental enfrentada pelo açúcar e pelo algodão residia na carestia do crédito, como sugerem as disparidades das taxas de juros no Norte e no Sul. Enquanto nas províncias cafeeiras elas não iam além de 10 e 12% ao ano, Norte agrário o agricultor pagava normalmente entre 18 e 24% Devido à coexistência, em escala nacional, de setores agrícolas de produtividade diferente, tais disparidades eram inevitáveis, mas inegavelmente a ação governamental reforçou os mecanismos deflagrados "espontaneamente" pelo crescimento da economia cafeeira, mediante um política de centralização do crédito, com o fito de privilegiar o grande comércio do Rio e os interesses cafeeiros do vale do Paraíba ele vinculados". Paraíba do Sul se alongando e estendendo de São Paulo ao Rio de Janeiro. Velho método de financiar ricos através de recursos dos pobres, não só verticalmente, também horizontalmente até a incrementação do surto industrial paulista, meados da década de 1950, ao auge no qüinqüênio Kubistschek, através da diferença do câmbio de custo entre o dólar oficial, fixado pela então Superintendência da Moeda e do Crédito ( Sumoc) do Banco do Brasil, em dezoito cruzeiros velhos, o dólar real de trinta e mais cruzeiros, diferença paga pelas importações e exportações do resto do Brasil.

A transferência, tornada voluntária, dos trabalhadores livres nordestinos rumo ao amontoamento em favelas, de início no Rio de Janeiro, depois em especial em São Paulo, terminou sendo o outro lado da moeda: ao lado do confisco da riqueza remanescente, vinham em contrapartida os problemas do excedente demográfico, ambos mudando de lugar geográfico... Não por acaso São Paulo, transformou na maior cidade nordestina do Brasil. Quem cometeu o filé, roa osso. Sem qualquer antagonismo regional, pois, mais uma vez, muitos inocentes acabaram pagando pelos pecadores, classes médias diretamente ameaçadas pela marginalidade importada em nome do barateamento competitivo internacionalmente dos custos de mão-de-obra, mas em favor de ricos que souberam se proteger muito bem das conseqüentes ameaças.

A consciência nordestina foi despertando para o problema. O jornal do Partido Liberal do Recife, A Província, reclamava desde pelo menos 8 de agosto de 1874: "O Norte do Império, puro fornecedor de carne de canhão, viveiro de recrutas, passou quase esquecido em seus mais justos reclamos. Fazem uns arranjos com o Banco do Brasil, intitulam isso de benefício à lavoura e tudo se cifra nos agricultores do Rio de Janeiro". Açucarocratas, para se usar uma expressão de Tobias Barreto no seu Discurso em Mangas de Camisa, 1877, açucarocratas fluminenses conseguindo botar para trás os pernambucanos, em breve os fluminenses se aliando aos cafeicultores paulistas a montante do mesmo vale do rio Paraíba do Sul, de Lorena e Guaratinguetá a Campos.

"A Abolição repôs o problema dos auxílios à lavoura no primeiro plano. Em 1873, Rio Branco desejara reconciliar o vale do Paraíba com o Partido Conservador, em 1888, para João Alfredo, tratava-se de congraçar a grande lavoura do País com o próprio regime monárquico", prossegue Evaldo Cabras de Mello, netas notas com nosso contraponto. Testemunhava, desde 1887. O Conselheiro Saraiva, às vésperas da Lei Áurea, que "essa agitação (o abolicionismo) (...) trouxe da parte de muitos capitalistas desânimo; muitos capitais fugiram do País: todos os tímidos, todos os que não têm conhecimento dos negócios públicos, passaram o seu dinheiro para Londres e em grande parte para Portugal. Foi esta a razão da grande baixa de câmbio naquela época, acrescendo sobretudo a crise geral de todas as indústrias do mundo, e especialmente no Brasil, porque é sabido que até 1885 havia crise geral, manifestada pela baixa dos preços de todos os produtos nas diversas nações que comerciam conosco...". Era a longa recessão interrompendo o período de expansão capitalista começado por volta de 1850, rompido, em 1875, pelo que Eric J. Hobsbawn chamou, em The Age of Capital, 1969, "o equivalente vitoriano do craque da WALL STREET em 1929", que também viria a nos atingir em cheio.

Tudo isto faz Evaldo Cabral de Mello, e quem quer acompanha sua documentada e progressiva análise, remontar a Sérgio Buarque de Holanda, quando este advertia" contra o cunho anacronístico da atribuição à grande propriedade de uma avassaladora influência sobre as decisões políticas no Brasil Imperial, o que teria constituído uma condição muito mais típica da Primeira República". "A verdade é que o império dos fazendeiros das áreas adiantadas, porque os outros vinham perdendo cada vez mais sua importância, só começa no Brasil com a queda do Império". Porque, de novo, Evaldo Cabral de Mello explica, muito bem: Caberia acrescentar que a influência da lavoura sobre o mecanismo decisório nem se fazia sentir isoladamente, mas no bojo de complexos agrário-comerciais montados em torno dos principais produtos de exportação, nem se exercia, no interior deles, de maneira determinante sobre os demais segmentos que os compunham, o comissariado, o comércio de exportação, os bancos. Para ser politicamente eficaz, a lavoura devia atuar através deles e até na dependência deles".

Por outras palavras, a casa-grande rural estava indissoluvelmente ligada ao sobrado urbano, o patriarcado ao patriciado, tanto quanto a senzala ao mucambo ou favela não sendo absorvíveis, em sua marginalidade sócio-econômica-política por aqueles paternalismos; ainda Gilberto Freyre mostrou-o muito bem em livros clássicos.

Desde que, concluía o Conselheiro Saraiva desde 1887, "a autocracia individual a financeira substituiu a influência do elemento territorial em sua evolução histórica", "a centralização administrativa é o fruto sazonado na reação política. Depois que a denominação de elemento parlamentar foi substituída pela onipotência do Poder Executivo, este precisava de um auxiliar poderoso. O Governo fez-se tudo, na frase originalíssima de um escritor brilhante - protetor, colonizador, civilizador, medianeiro, padre, juiz, carcereiro, carrasco, agente de câmbio, construtor de edifícios, professor, administrador de museus em uma palavra, senhor de tudo e contratador universal".

Mal republicano vindo da monarquia.

Nela, "o Estado chamou a si (até) as despesas de certos serviços de natureza local, como a justiça de primeira instância, clero etc." Por trás da aparente magnanimidade era, porém, "o primeiro interessado e o principal beneficiário de um sistema que, ao mesmo tempo em que lhes negava ( às províncias) os recursos que legitimamente lhes pertenciam, mantinha-as graças a essa negação mesma, submetidas às ordens dos ministérios que, no Rio, exercessem eventualmente o poder, fossem liberais ou conservadores". "Da questão dos impostos, provinciais, pode-se dizer, sem risco de equívoco, que deixou cruamente à mostra a incapacidade do regime monárquico para lograr a descentralização autêntica reclamada através do Brasil."

A república ia encarregar-se de agravar esta e outras questões fundamentais, só resolvendo ou inovando algumas poucas.

"Entre 1890 e 1930, Pernambuco conseguiu colocar apenas uns poucos representantes em postos federais", sintetiza agora o brasilianista estadunidense Roberto M. Levine. "Pernambuco não lucrou significativamente com a federação". José Américo de Almeida, em livro de 1923, sintomaticamente às vésperas do Congresso Regionalista mobilizado por Gilberto Freyre, mostra que, das vinte e três presidência do Conselho de Ministros da Monarquia, dezenove tinham sido de nordestinos: onze da Bahia ( Zacarias de Góis e Vasconcelos, três vezes; Alves Branco, Visconde de Macaé, Marquês de Monte Alegre, Ângelo Muniz da Silva Ferraz, Visconde do Rio Branco, Saraiva, Dantas e o Barão de Cotegipe); cinco de Pernambuco ( quatro vezes o Marquês de Olinda e uma o Conselheiro João Alfredo); dois do Piauí ( Francisco José Furtado e o Marquês de Paranaguá); e um das Alagoas (o Visconde de Sinimbu). Já à República Velha, o Nordeste só dera vice-presidentes: o baiano Manuel Viitorino, o maranhense Urbano Santos e os pernambucanos Rosa e Silva e Estácio Coimbra. Presidente da República, apenas Epitácio Pessoa, porque Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto forma mais militares que nordestinos. Ministros, ainda menos relativamente, só quatorze entre dezenas e dezenas de paulistas e mineiros, pontilhados por fluminenses ou gaúchos.

Daí em diante é a consciência das peculiaridades que cresce. Frankiln Távora, no prefácio, verdadeiro manifesto regionalista ao seu romance O Cabeleira, 1878, dizia com ênfase: "Proclamo uma verdade irrecusável, Norte e Sul são irmãos, mas são dois. Cada um há de Ter uma literatura sua, porque o gênio de um não se confunde com o do outro. Cada um tem suas aspirações, seus interesses, e há de Ter, se já não tem, sua política." Por tudo isto, o fluminense Euclides da Cunha em Os Sertões, com as vívidas impressões recolhidas em Canudos, interior profundo da Bahia, foi ainda mais longe, ao ver "duas histórias distintas" no Norte e Sul. "Duas sociedades em formação, alheadas por destinos rivais - uma de todo indiferente ao modo de ser da outra ambas, entretanto, evolvendo sob os influxos de uma administração única", que Euclides viu esmagando beatos e jagunços a tiros de canhão Krupp do Exército." Daí Joaquim Nabuco, muito antes do francês Jacques Lambert, falar em "dois Brasis".

Coube historicamente a Gilberto Freyre recolher os clamores deste mundo se desfazendo sob protestos. Além da sua obra maior, a trilogia Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso - com os também expressivos subtítulos da primeira e da última, Formação d Família Brasileira sob o Regime da Economia Patriarcal e Processo de Desintegração das Sociedades Patriarcal e Semipatriarcal no Brasil sob o Regime do Trabalho Livre - trilogia iniciada muito sintomaticamente no ano-chave de 1930, conforme ele mesmo confessa, ano em que pela primeira vez São Paulo ultrapassava a produção pernambucana de açúcar e fundava-se, como um dos resultados da Revolução da Aliança Liberal, o Instituto do Açúcar e do Álcool para tentar, e em vão, restabelecer um equilíbrio para sempre perdido; além desta imensa síntese, Gilberto Freyre dedicou-se paralelamente ao esforço de ajudar a própria autocrítica coletiva do Brasil através da pesquisas em grupo.

A primeira tentativa foi o Club de Sociologia no Rio de Janeiro, nos tempos do seu magistério desta matéria na Universidade do Distrito Federal. Universidade e Club a serem fechados pelo golpe parafascista do Estado Novo em 1937.

Logo após, o 1º do art.1º do estatuto, registrado em cartório, determina que "o Club de Sociologia tem por objetivo animar o estudo da Sociologia e das matérias correlacionadas, constituindo uma biblioteca, organizando serviços de informações e trabalhos de pesquisas, promovendo conferências e divulgando, por meio de publicações e radiotransmissões, os resultados das suas atividades". Com sete "secções técnicas": Geografia (Humana), História (Econômica e Social), Economia, Antroplogia, Psicologia (Social), Sociologia e Estatística (art. 20). O artigo seguinte previa a publicação de duas revistas, os Arquivos e o Boletim.

Gilberto Freyre era o presidente; a antropólogo Heloísa Alberto Torres (filha do homônimo cientista social, uma das iniciais admirações brasileiras de Gilberto Freyre, que concluía na bibliografia básica dos seus cursos na Faculdade de Direito do Recife e da Universidade do Distrito Federal), vice presidente; secretário, e futuro Ministro de Estado, Hélio Beltrão; diretor da nascente biblioteca, José Bonifácio Martins Rodrigues; Roquette-Pinto, o diretor da secção de Antropologia; Artur Ramos, o de Psicologia; ainda Gilberto Freyre, o de Sociologia. Em poucos meses, o Club de Sociologia era extinto na voragem do Estado Novo, que também avassalou a Universidade do Distrito Federal com todos os seus pioneirismos.

Mas Gilberto Freyre ia voltar à carga, ai em diante, em favor de algo idêntico, mas no Nordeste mesmo, de preferência no Recife, por tantos títulos irredento, no Nordeste pernambucano atormentado pelas crises das quais queria cada vez mais tomar consciência e de novo irradiar influências.

Em carta a Sílvio Rabelo, sem data mas ainda em vida de Ulysses Pernambucano, antes portanto de 1943, ano d a sua morte no Rio de Janeiro, dali Gilberto Freyre escreve, descrevendo: "O Instituto será o primeiro do gênero e criar-se no Brasil (o daqui se limita ao meio social escolar). Será uma grande coisa, da maior significação para Pernambuco, principalmente porquê reunirá as melhores inteligências e o melhor saber especializado daí. Repito que não acredito que Anti dê para trás. Vocês estejam sempre em cima. Me mande, de combinação com Ulysses, o plano e notas do Instituto, de acordo com aquela minha base, que eu publicarei aqui quanto antes".

Gilberto Freyre parecia ali confiar em especial não só na colaboração intelectual especial de Ulysses Pernambucano, como também nos recursos a serem captados por Antiógenes Chaves, "Anti", genro do maior industrial de Pernambuco.

Pouco após a morte de Ulysses, Gilberto Freyre volta a insistir, em conferência na Faculdade de Direito de Alagoas, 1944, na idéia de um Instituto de Pesquisas Sociais do Nordeste, uma Fundação, para concretizar "a obra inacabada de Ulysses" Logo em seguida,. 28 de junho de 1944, O Jornal do Rio de Janeiro retornava ao assunto sob o título "cogita-se de organizar a Fundação Ulysses Pernambucano. Homenagem a um ilustre médico, com um largo programa cultural", passando a descrevê-la desdobrada de um Instituto de Orientação Profissional e de uma Escola para Crianças Anormais, além de Liga de Higiene Mental, num Instituto de Pesquisas Sociais "que se ocupará de questões de Antropologia Física, alimentação, condições de trabalho, orientação profissional, problemas da crianças e do adolescente, e do homem do Nordeste em geral. Procurará ainda articular-se com instituições semelhantes dos Estados Unidos e da Europa, de modo a promover a visita de cientistas eminentes e professores para a realização de cursos de especialização, facilitando também a estudantes nordestinos a possibilidade de realizarem cursos em outros centros".

Em 2 de agosto de 1948, quando da metade do seu mandato de deputado federal, Gilberto Freyre apresenta o Projeto nº 819 às Comissões de Constituição e Justiça, Educação e Cultura e de Finanças, propondo a criação do Instituto Joaquim Nabuco, que viria a ser o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, depois Fundação Joaquim Nabuco.

O ensejo, o duplo centenário de nascimento de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. É que, "diante do estranho silêncio em volta do nome e da figura de Nabuco, tão grande quanto a de Ruim tão significativa quanto a de Rui, tão intelectual e civicamente importante quanto a de Rui", "no mesmo ano do centenário do nascimento do grande brasileiro, filho da Bahia, ocorre o centenário do nascimento de outro brasileiro, filho da Bahia, ocorre o centenário do nascimento de outro brasileiro igualmente grande, este de Pernambuco: Joaquim Nabuco". Gilberto Freyre interroga, increpa e assume "a iniciativa de homenagens à memória de Nabuco iguais às que propõem com aplausos de todos os brasileiros à memória de Rui Barbosa, para o dia ou o ano do centenário do nascimento de tão eminente brasileiro". Na forma de prêmios literários e, principalmente, "na cidade do Recife, onde nasceu Joaquim Nabuco, um instituto dedicado ao estudo sociológico das condições de vida do trabalhador brasileiro da região agrária do Nordeste e do pequeno lavrador da mesma região, visando ao melhoramento dessas condições, problema que foi a preocupação máxima do grande brasileiro" (art. 2 do Projeto nº 819).

Retornando ao assunto, quando ele voltou a precisar mais, 4 de dezembro de 1948, de novo da tribuna da Câmara dos Deputados, Gilberto Freyre explica, no espírito do seu multirregionalismo: "O Brasil necessita de dois ou três institutos de pesquisas social para o estudo científico do homem brasileiro, e não só um. Institutos que correspondam às regiões mais características em que a Nação se divide antropológica, social e culturalmente, e das quais o Norte agrário, por onde mais se estende no Brasil a monocultura latifundiária e escravocata e, a seu modo, feudal, é certamente uma".

O que Gilberto Freyre não refere é existência, já então e de alguma maneira simbólica, de um instituto de pesquisas muito urbanamente carioca e nacionalmente federal dedicado a Rui Barbosa no Rio de Janeiro, a Casa de Rui Barbosa. Não por acaso são os dois maiores liberais sociais brasileiros, ele e Joaquim Nabuco, que primeiro recebem semelhante homenagem no Brasil, a Casa datando de muito antes do centenário do patrono.

Sempre insistindo neste lado social, na sua ligação com o Nordeste e o Recife, Gilberto, ainda da tribuna em 4 de dezembro de 1948, esclarecia em pormenores a opção pela "cidade onde se desenvolveu seu trabalhismo, seu socialismo, sua preocupação com a questão social do nosso país. Daí parecer justo que o Recife seja a sede de um instituto destinado a estudar o problema do trabalhador rural e do pequeno lavrador, na região onde mais fortemente se vêm fazendo sentir, no Brasil, os efeitos do latifúndio, da monocultura e do regime semifeudal de trabalho...". "Ora, o Recife foi por muito tempo a capital, se não econômica, intelectual, de toda essa região, sem considerarmos, é claro, a Bahia, que, ainda hoje marcada pela majestade de antiga sede do Governo Geral, escapa, como cidade, à categoria de metrópole regional".

O primeiro obstáculo, muito difícil obstáculo, é a inicial instância da Comissão de Constituição e Justiça, presidida nada menos que por Agamenon Magalhães. Afonso Arinos de Mello Franco, relator, desembaraça o projeto com parecer favorável, incorporando-se ao seu espírito, ao insistir "que conste, desde logo, da lei, que o nome do instituto a ser crido seja como é natural o de Joaquim Nabuco".

Aureliano Leite, da UDN de São Paulo, associa-se à idéia em parecer já na Comissão de Educação e Cultura, concluindo que "o autor do projeto nem sequer o justificou. É que, na realidade, bastaria o seu próprio texto. Esse projeto se justifica por si mesmo". "Com efeito, a vida e a obra de Joaquim Nabuco merecem a consagração que a posteridade está convidada e render-lhe".

Na Comissão de Finanças, a última, outro relator da UDN e também intelectual, o Deputado Luiz Viana Filho, propõe que a substituição da área de atuação do Instituto Joaquim Nabuco fosse estendida do Nordeste ao Norte. Época anterior à criação da Sudene, quanto à Bahia se dizia Leste, ma o Norte a todos englobava.

No Senado, também na Comissão de Finanças, Joaquim Pires dá outro parecer favorável, diante de Ismar de Góis, presidente em exercício, com restrições. O Senador Ismar de Góis era irmão do General Góis Monteiro, condestável do Estado Novo recém-derrubado e ainda muito forte nos seus ativos resíduos do PSD e PTB. Esse mesmo pessoal - Georgino Avelino, Nereu Ramos, Dário Cardoso - tentam, ao apagar das luzes, desfigurar o projeto do Instituto Joaquim Nabuco, ao oferecerem um outro art. 2º, destinando-o a ser "parte integrante da Universidade do Recife". Recebendo a clara, direta e veemente reposta de Gilberto Freyre, mostrando como tal ligação o limitaria a Pernambuco, em vez de vocacioná-lo a todo "o Norte agrário", conforme a idéia inicial. Como se não faltasse mais nada, a imprensa registrava, com o Diário de Pernambuco, sempre vigilante à frente, 21 de maio de 1949, a final tentativa, fracassada, de descaracterização através da extravagante proposta do Senador Ismar de Góis Monteiro, assessorado pelos velhos conhecidos Agamenon Magalhães e Etelvino Lins, no sentido de substituir o Instituto Joaquim Nabuco por um museu em Massangana, terras e dependências das célebres páginas de Minha Formação, que, muito depois, iriam realmente tornar-se parte da então Fundação Joaquim Nabuco.

Em 21 de julho de 1949, a Lei nº 770 - assinada pelos Presidente Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Educação Clemente Mariani, e da Fazenda Guilherme da Silveira - termina consagrando, ainda e sempre no seu discutido art. 2º.a decisão conclusiva, vitória maior do parlamentar Gilberto Freyre: "É criado, na cidade do Recife, onde nasceu Joaquim Nabuco, instituto que se denominará Instituto Joaquim Nabuco, dedicado ao estudo sociológico das condições devida do trabalhador brasileiro da região agrária do Norte e do pequeno lavrador dessa região, que vise o melhoramento dessas condições".

DESPEDIDA E ELOGIO DO PARLAMENTO

Gilberto Freyre foi deputado de um só mandato, não tendo sido reeleito deputado pelos imediatas de política, aí sim, realmente "o diabo da política", com "p" minúsculo mesmo.

De qualquer modo, quantos parlamentares de um único mandato fizeram algo de longe parecido com a criação da florescente árvore do Instituto depois Fundação Joaquim Nabuco?

Toda a enorme produção, não só quantitativa, mas também qualitativa do Joaquim Nabuco, mais que legitimam o exercício daquele mandato lamentavelmente solitário. Muitos outros planos Gilberto Freyre tinha, confidenciados à sua família e aos seus amigos íntimos, inclusive a idéia, entrevista no discurso de apresentação do projeto resultando na criação do Joaquim Nabuco e explicitada no artigo publicado na revista carioca O Cruzeiro, então no auge, 25 de setembro de 1948: o Joaquim Nabuco, um instituto de pesquisas sociais para o Norte/Nordeste, outro para o Brasil Meridional e mais um para o Brasil Central, portanto três institutos da envergadura da atual Fundação Joaquim Nabuco, algo parecido com as duas Fundações Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro e São Paulo, cobrindo outros setores.

Pelo que se pode vislumbrar, que resultados não teriam tido tantas pesquisas, tantos seminários, tantos cursos de treinamento não-convencional, tantas edições de livros e revistas científicas! Gilberto Freyre sempre demonstrará total repúdio ao ensino apenas de giz, saliva e quadro-negro, haja vista sua experiência didático-investigativa quando professor de Sociologia na Escola Normal de Pernambuco, de 1927 a 1930, outro tanto na Universidade do Distrito Federal do Rio de Janeiro, mais o Club de Sociologia, de 1935 a Amarga lição, que explicará grande parte das negociações políticas por ele feitas, não em favor pessal e sim do Joaquim Nabuco, uma autêntica universidade, mas de pesquisas.

Sem mágoa, nem sarcasmo contra os outros, antes com certa auto-ironia, o próprio Gilberto Freyre descreve sua depuração: "Fomos, os moços meus amigos e eu, o batalhão suicida na luta (...). Eu, batendo-me, na cidade do Recife, exclusivamente por esse nome (o do candidato a governador de Pernambuco) e certo que minha candidatura a deputado não teria no interior a votação prometida pelos políticos. Falharam os políticos com suas promessas formais de votos no interior a quem pela causa comum assim trabalharam na cidade chamada cruel, com risco da própria vida e sob constantes ameaças de agressão e até de morte da parte de adversários espantados com o sucesso da campanha inesperada? Falharam. Mas não os recifenses livres. Não a cidade chamada cruel. Não o meu velho Recife. Não o Recife que me encheu generosamente de votos que não pedi, que não roguei, que não implorei...". "Do que não me arrependo. Cumpri meu dever. Mesmo matematicamente derrotado na minha candidatura à representação de Pernambuco nesta Câmara, estou tão bem com a minha consciência, tão bem com a cidade bem-amada que me deu seus melhores votos, tão bem com a mocidade pernambucana, mais livre e mais brava, que mais uma vez me honrou com sua desinteressada confiança, que tenho a impressão de Ter saído das eleições de 1950 mias do que nunca representante da cidade do Recife e representante da mocidade pernambucana: mais do que nunca representante do Recife, que não se vende, e da mocidade que madruga na vida pública corrompida pelo dinheiro".

Gilberto Freyre se despedia da Câmara dos Deputados na sessão de 8 de novembro de 1950. Próceres do Estado Novo voltavam ao poder agora pela via eleitoral. Getúlio Vargas na presidência e Agamenon Magalhães no governo de Pernambuco, o populismo dava frutos não só demagogicamente, mas também pelas suas realizações na industrialização e na legislação trabalhista e previdenciária. A democracia representativa liberal recebera mais um seriíssimo desafio: conseguiria igualar, mesmo superar as realizações estadonovistas, ou cedo mergulharia numa crise desembocando noutra intervenção militar do que Gilberto Freyre chamava de Poder Moderador da Forças Armadas, embora levando a outros impasses, em meio às mias amplas contradições da Revolução brasileira se desenrolando cada vez mais a partir da Proclamação da República?

Ainda no discurso de despedida, perante a Câmara dos Deputados, Gilberto Freyre apnotava os perigos da "caricatura" contra o Poder Legislativo acusado de plutocrático e corrupto - "cesarismo econômico", "cesarismo financeiro", "cesarismo do dinheiro" - descontadas as injustiças. A verdade, porém, é que foram tremendas sobre o eleitorado, na última corrida eleitoral, estas duas pressões: a do dinheiro e a da vulgaridade".

No que intitulou de "Definição de Atitude na Vida Pública", outro discurso na Câmara e pouco antes da eleição, 28 de abril de 1950, Gilberto Freyre fizera questão de concluir, proclamando que "é falso que eu seja ou declare ser um desencantado de parlamento, de câmara, de política e de políticos democráticos. Apenas não sendo rigorosamente político, nem ortodoxamente partidário, só voltaria ao Parlamento pelo mesmo caminho por que vim ao Parlamento. Só voltaria à Câmara nas mesmas circunstâncias em que me iniciei na Câmara. Só assim o mandato teria para mim sentido ou razão de ser. De outro modo, não".

E dando um depoimento sobre o outro lado, positivo, favorável da democracia representativa, testemunhava: "A recordação mais viva que guardo da minha experiência parlamentar na Constituinte de 1946 e nesta Câmara é a do espírito público que aqui encontrei em homens de todos os partidos e de todos os Estados. Homens voltados tanto para os problemas, as necessidades e as aspirações do Brasil como para o seu principal motivo de vida e de atividade. Homens que tornam falsa e até falsíssima a generalizada caricatura do parlamento brasileiro: a do parasita que sorve o dinheiro da Nação para gozar as delícias do Rio de Janeiro. Ou a do papagaio de gravata sempre na tribuna e fazer discursos para enganar os tolos".

Pois ainda havia parlamentares como Graco Cardoso - editor das obras completas de Tobias Barreto quando governador de Sergipe - na Câmara dos Deputados "para a qual ultimamente vivia como um padre velho para a sua velha catedral', morando "na sua pequena e docemente hospitaleira casa de subúrbio, com o quarto dos santos de sua piedade de católico cheio de fotografias de mortos queridos, com a sala de jantar alegrada por gaiolas de passarinhos do Norte". "Homem bom e de bem", após cuja morte Gilberto Freyre faria então seu necrológio, diante da pergunta "de quem é este enterro? . "Poderíamos responder-lhe: de um velho parlamentar que morreu no serviço do povo e no serviço da Pátria. De um velho deputado que morreu pobre e limpo. De um velho político que governou um estado e nunca fez fortuna. De um velho brasileiro que nunca soube o que fosse viver parasitariamente do Brasil". "Homens como ele reconciliam qualquer crítico de boa-fé com a caluniada figura do parlamentar brasileiro".

O tempo vai também encarregando de dissipar muita paixão em torno do Gilberto Freyre político - do escritor quase só se disse bem.

Assim que ele morreu, Celso Furtado, Ministro da Cultura, logo está entre os primeiros a fazer-lhe justiça, reconhecendo que Gilberto Freyre "nunca foi um revolucionário convencional, amarrado por uma ideologia. Foi muito mais profundo, chegando `s raízes da formação da sociedade brasileira. Por isso chocou tanto". Acrescentando por Florestan Fernandes, paulista e homem de esquerda: "Ele foi um pioneiro da defesa do Nordeste, atualmente tão em moda. Denunciando, sempre de forma muito delicada, a concentração de riquezas no Sul, Freyre defendia um desenvolvimento mais balanceado. Isto numa época em que não era comum esta posição". Já Munhoz da Rocha, companheiro constituinte de 1946, mostrara que "a filosofia da Sudene, antes da Sudene como princípio de legislações regionais voltadas por um parlamento federal, foi sociologicamente defendida por Gilberto Freyre", "aí está a filosofia da Sudene que se coloca na cúpula de todo um sistema de legislação a atender as necessidades peculiares das regiões brasileiras, como a da Amazônia, do Vale do São Francisco, da fronteira do Sudoeste". Gilberto Freyre nunca pretendeu que o regionalismo se esgotasse no regionalismo nordestino e sempre fora contra o que chamava de "estadualismo balcânico"; para ele, o mundo, não só o Brasil, compunha-se de macro e microrregiões pequenas pátrias dentro da Nação, inclusive a do seu amor maior, "o meu velho Recife", "a cidade bem-amada", não de todo cruel como nos versos de Carlos Pena Filho e onde nem sempre "uivam as revoluções "de Tobias Barreto...

Intelectuais engajados na política, do porte de Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso, mesmo militando décadas em lados opostos a Gilberto Freyre, foram dos que inauguraram a revisão do seu papel na cultura brasileira.

Darcy Ribeiro, reconhecendo que "muito a contragosto, tenho que entrar no cordão dos louvadores. Gilberto Freyre escreveu, de fato, a obra mais importante da cultura brasileira". "Porque Gilberto Freyre, de certa forma, fundou - ou pelo menos espelhou - o Brasil no plano cultural tal como Cervantes a Espanha. Camões a Lusitânia. Tolstói a Rússia. Sartre a França. É certo que houve em nosso caso, como nos outros alguns gestos mais, uns antes - ontem, o Aleijadinho entre poucos - outros depois, hoje Brasília, de Oscar - mas, sem dúvida, entre eles está o Gilberto".

E Fernando Henrique Cardoso, acrescentando: "Como poderia eu deliciar-me com um conservador emperdenido? Rótulos não se sustentam diante do verdadeiro criador. Freyre me capturou. Não por sua ciência, mas por Ter sido capaz de propor um mito-fundador". "E não só com Casa Grande & Senzala: todo o seu tropicalismo faz parte da estrutura do mito(...) - tudo isto compõe a visão mítica - e necessária - de um Brasil que em parte é assim, que gostaria de ser assim". 'Gilberto Freyre estruturou e revelou alguns mitos básicos do Brasil. Perdurará, por isto mesmo, mais do que outras obras, mais científicas, mas menos relevantes.

Muitas vozes prosseguem se somando a esta revisão crítica. Aqui não é ainda o lugar para rememorá-las e sim para comemorar o Gilberto Freyre criador de Casa Grande & Senzala, na preparação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, ao qual criou por conseqüência do seu mandato parlamentar de 1946 a 1950, no calor da redemocratização e da Assembléia Nacional Constituinte daqueles anos de mais uma grande mudança histórica do Brasil, de que foi um dos principais protagonistas.




Fonte: FREYRE, Gilberto. Discursos parlamentares. Brasília: Câmara dos Deputados, 1994. 318p.

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