FERRO E CIVILIZAÇÃO NO BRASIL
Prefácio
advertência do autor a respeito do texto panorâmico que se segue
Exatamente em que língua está escrito o texto, que se vai ler, sobre ferro e civilização brasileira? Em sociologês ? Não. Nem em antropologês. Nem em filosofês. Nem em eruditês.
Mas é inevitável que apareçam, umas raras vezes, palavras técnicas, evitando-se as tecnocráticas. Evitando-se a própria abstração científica. Evitando-se abstrato.
O leitor é, desde agora, convidado pelo autor a oralizar, quanto possível, o que, estando escrito, possa, como escrito, se tornar, ao mesmo tempo, oral e até musicalmente vivente e convivente. Talvez a grande arte de um escritor à procura de comunicar-se com leitores esteja nessa capacidade de, escrevendo para ser lido, discorrer quase falando, para ser compreendido, sendo também ouvido. O ouvido do leitor gosta de lhe serem dirigidas palavras que, sendo escritas para os olhos, através de palavras-imagens e não apenas das abstratas, possam chegar ao extremo de acariciarem esta outra forma de receptividade de quem lê: a auditiva.
Abordando o assunto ferro e civilização é preciso que um autor procure começar o seu texto a sugestionar o leitor com uma imagem sensualmente sonora, e não somente visual, de ferro batido, de ferro ferido, de ferro martelado, de ferro criativo, de ferro em movimento, de ferro imagística e musicalmente, e não apenas mecânica e funcionalmente, dinâmico. Quem diz ferro numa civilização, por ele marcada, diz ferro tanto em forma de máquinas que rodam sob a forma de veículos, quer de transportar pessoas, quer de cargas; que fere solos, como trator e como arado; que range quase de dor ao tornar-se esqueleto de edifício ousadamente vertical ou de ponte impressionantemente grandiosa, como em forma de talher de almoço ou de jantar que íntima e docemente tilinta ao ser usado no dia-a-dia sossegadamente doméstico. Sons de ferro que tendem a acompanhar, cada dia mais, o brasileiro a cujos ouvidos esses sons começam a chegar desde remotos dias: antes do brasileiro passar de prebrasileiro a brasileiro. Esse prebrasileiro ainda era apenas participante de um rude começo, em sua nova terra, de uma futura civilização de açúcar, quando já ouvia tosco instrumento de ferro ferindo massapê virgem e cavando, nesse massapê tropical, sulcos para a plantação de cana. Tornou-se, já então, por esse som pioneiro, uma espécie de música quando o prebrasileiro pôde associar som tão novo ao fato de a cana-de-açúcar começar a dar-lhe alimento, aguardente, lucros, açúcar capaz de ser exportado. Pois ao som agrário logo juntou-se o do fabrico, já industrial, do açúcar por moenda, motor, máquina que, de madeira, passaria a ser de ferro. Motor.
Moendas que foram se aperfeiçoando. Aperfeiçoando-se esses motores substituindo rodas d’ águas, energia de animais, almanjarras.
Crescendo os lucros da venda do açúcar, ao mesmo tempo que a sua transformação em pães, bolos, doces, o ferro continuou presença dinâmica na civilização do açúcar. Juntando-se ao ruído de máquinas de fabricar açúcar a associação a esses ruídos de sensibilidades de um paladar de prebrasileiro que, enriquecendo, passou, com os lucros dos produtos dessas máquinas, a mandar vir da Europa alimentos finos, vinhos de luxo, trajos elegantes, sedas, cetins, veludos caros para trajos, chapéus em moda em Lisboa e Madri, ferros para construções de casas-grandes e de capelas. A certa altura, ferros para castigar escravos, para prender animais, para ferrar cavalos. Toda uma ferraria a serviço do que veio a ser uma civilização prebrasileira, depois brasileira, de açúcar. Uma ferraria com a qual o Brasil se formou econômica e socialmente. Estabilizou-se. Consolidou-se. E com o ferro ancilarmente presente, de modo pouco ostensivo mas efetivo, nessa civilização: como o escravo, gente de cor, outro escravo a serviço dos dominadores europeus.
E desde esses dias remotos, pode-se supor que tornando-se senão palavras, signos, na língua portuguesa do Brasil em começo: os relativos a ferro a serviço do Brasil. Signos dos que um estudioso do assunto, homem de alta visão, antecipou-se em considerar de importância básica para uma ciência da linguagem.
Qual a primeira palavra derivada de ferro, usada por prebrasileiros? Talvez ferrar. Mas cedo, houve quem fosse ferreiro, entre prebrasileiros. Ferreiro deve ter sido uma das primeira palavras, em português do Brasil, derivadas de ferro.
E parecendo ao grande Roland Barthes - outro desse estudiosos, além de escritor de gênio - haver uma correlação entre linguagem e jogo ou brinquedo, pode-se imaginar, dos primeiros signos prebrasileiros derivados de ferro ou relativos a coisas de ferro, terem sido lúcidos, recreativos e, até brincalhões.
Terá vindo de dias remotamente prebrasileiros a associação, que viria a ser surpreendida pelo mestre de ciência folclórica, Mário Souto Maior, de ferro com o órgão sexual do homem ? O ferro mineral duro, teso, procriador, a assemelhar-se a pau vegetal, nessa conotação simbólica. Possível ter havido esse jogo - o jogo sugerido por Barthes em Linguagens
- em dias de que as Denunciações ao Santo Ofício mostram não terem sido sem furores de sexo. Sem palavrões obscenos. Um deles - talvez de boca de judeu, envolvendo desbragadamente " os pentelhos da Virgem".
Segundo discriminação de Roland Barthes - o Barthes das entrevistas sobre seus modos de considerar signos e palavras que vêm no livro, traduzido do francês Le Grain de la Voix e publicado em Lisboa como O Grão da Voz, em 1981 - lembre-se que, no texto que se segue, sobre ferro e civilização brasileira, pretende o autor que seja de escritor e não de quem seja, apenas, aquele alguém que escreve, da classificação do mesmo Barthes. Para o superior crítico literário francês, não só esse " alguém que escreve", sem ser escritor, como o próprio, no escrever, artesanalmente sociólogo, escreve, recusando certas figuras de retórica. Tanto que eles e igualmente demógrafos e, até, historiadores, " não põem na mesma frase dois termos em antítese como Victor Hugo". Evitam repetições, para eles extremos de incorreção estilística.
Além do que, acrescente-se a essas maneiras de serem esses subescritores, hirtos no seu escrever diferente do de escritores criativos - hirtos e, para Barthes, "insípidos’ - os não-escritores nunca são capazes das repetições insistentes, características de Proust. São repetições, para tais ‘insídios" - acentue-se - deselegantes ou estilisticamente incorretas.
O texto que se segue assemelha-se ao de outras obras do autor, em ser - como tem sido notado por críticos, dentre os mais idôneos, brasileiros e, sobretudo, estrangeiros - reconhecimento de expressividade à revelia de " correções" e " elegâncias" convencionais do estilo. Arrojos de parente pobre de Proust sem ser arremedo do francês. Essa expressividade, tratando-se não do trato de coisas de açúcar nem de café nem de ouro, mas defrontando-se o autor com um desafio novo ao misto de ciência e de literatura que em sendo a perspectiva deste escritor ao abordar temas ecológica e teluricamente brasileiros.
Para alguns, talvez, lhe falte o sabor fácil de ser detectado naquelas abordagens: de coisas do açúcar, principalmente. Questão, é possível, de adaptação de paladar a uma abordagem inevitavelmente condicionada pela matéria: aquela matéria que, segundo o já citado Roland Barthes, precisamente a propósito do autor brasileiro deste texto, torna-se, no seu modo de tratá-la, como que sensual. Será que o ferro recusa-se a ser considerado naquelas palavras-eros, segundo o mesmo Barthes, as mais capazes de dar vida e vivacidade ao que escreve um escritor? O autor pensa que, escrevendo sobre o ferro no Brasil, numa emergente civilização brasileira a ser marcada por essa presença mineral, seu contacto com o assunto, vem tendendo a ser com um objeto, embora aparentemente austero em contraste com o assunto ‘açúcar", como que mais escultural e, portanto, mais forma plástica a se deixar apalpar sensualmente. O que não exclui a idéia de as máquinas, os instrumentos, os objetos de uso cotidiano, nos quais o ferro se exprime mais do que em edifícios e em pontes monumentais, se esquivarem, por sua dureza, a ser assim apalpadas pelo olhar dos que as contemplem, as analisem, avaliem sua funcionalidade dentro de um sistema civilizado de vivência e de convivência. O fato de serem as máquinas, os motores, os ferros funcionais, no Brasil, objetos de promessas populares e cristãs a Cristo, a Virgem, a santos, em que são igualados, em sua funcionalidade de ponto de vista humano, a animais e vegetais ligados àquelas formas de vivências e de convivência é social e culturalmente significativo. Parece confirmar sua plasticidade social e artística.
Não deixa de inserir-se na consideração daquele relacionamento entre máquinas e imagens que constitui um dos mais perceptivos estudos atuais em torno de máquinas e suas imagens, máquinas e seus produtos, máquinas e consumidores de seus produtos, esse consumo tendo em imagens audiovisuais estímulos consideráveis: o ensaio, recentemente aparecido, de Pietro Prini, "Civilización de las máquinas e civilización de las imágenes" (Cuenta y Razón, Madri, março-abril, número 10). Ensaio em que a certa altura o autor focaliza o paradoxo de que, a triunfante tendência, para ele, "separadora y formalizante" do que " en la cultura científico-tecnológica se há oponiendo un proceso de retorno hacia el conocimiento no alienante, hacia un tipo de imediatez en la relación del hombre com el mundo natural y social". Daí, nesse novo tipo de relação do homem com essas duas circunstâncias, a natural e a social, uma também nova cultura funcional que seria a de "nuevos lenguajes audiovisuales"... " que se van imponiendo en nuestra misma conduta perceptiva, en el modo general de nuestro aceso cognostivo a la realidad ". O que dá às linguagens e às imagens por elas criadas uma importância maior do que a geralmente admitida. As máquinas, ou o ferro ou o aço, em movimento, não valeriam apenas pelo que cruamente são, mas por suas imagens através de várias formas de comunicação, de informação e até de propaganda. O que, sendo exato, afirma o valor, a importância, a funcionalidade de anúncios de jornais - portanto, a Anunciologia criada por sociólogo-antropólogo brasileiro, há anos - com relação a objetos anunciados, a anunciantes como produtores ou como intermediadores entre produtos e públicos alcançados por tais anúncios, como expectativas de reações de consumidores.
Aqui volta-se ao Roland Barthes revelado por suas entrevistas sobre linguagem e assuntos correlatos em Le Grais de la Voix( Paris, 1981) com tradução, já assinalada, à língua portuguesa ( Lisboa, 1981): à parte em que Barthes repete considerar Michelet o historiador social máximo por ter fundado, no que escreveu, "a etnologia da França afastando-se da cronologia para olhar a sociedade francesa como os etnólogos olham as outras sociedades". Perspectiva que Barthes antecipou-se em revelar, ao descobrir a mesma perspectiva micheletiana na obra Casa-Grande & Senzala, por ele lida na tradução á língua francesa sob o título Maître et Esclaves e onde surpreendeu arrojo igual ao de Michelet, em termos originalmente brasileiros. O que Barthes mais destacou em Michelet? Que neles se "repensa o corpo na história", dando-se atenção "ao sabor das coisas e dor saber". Sensualmente.
Perspectivas, a de Michelet e a do autor brasileiro, só possíveis através de uma linguagem de tal modo diferente das convencionalmente científicas em obras de Ciências do Homem, que, sendo científica, no essencial, seja criativamente literária. Isto mesmo: criativamente literária.
Daí tal linguagem ter chegado a parecer "chula" até a um crítico da superior idoneidade de Afonso Arinos de Mello Franco que, entretanto, anos depois desse pronunciamento, veio a encontrar na obra de Casa- Grande & Senzala e autor do texto que se segue, como um arrojo positivo, conciliação da expressão cientifica com a literária, esta incluindo vocábulos de origem popular, entre os quais os brasileiramente plebeus, vindos de tupi e do afronegro; e essa inclusão, em seus primeiros usos em língua portuguesa com compromissos científicos, para puristas quer da ciência, quer da literatura, escandalosa.
É a orientação seguida no presente texto, embora fosse primeiro exigida pelo assunto, ao considerar-se o predomínio do açúcar numa fase germinal de civilização brasileira. Passando-se da consideração do açúcar para a do ferro, ao defrontar-se o Brasil com a provável - ou quase à vista - predominância do ferro noutra fase de civilização brasileira - predominância precedida por presenças antecipadas - volta o autor à mesma busca de conciliação de arte com ciências em sua expressão.
E aqui é oportuno ser lembrada a relação entre forma de linguagem e forma de civilização, que é assunto magistralmente considerado de modo clássico pelo historiador cultural Paul Schrecker, em Work and History ( Princeton, Nova Jersey, 1948). Admite esse analista em profundidade de assunto tão complexo que haja o que chama individuação no uso do que domina "linguagem civilizada", ou relativa a assuntos civilizados, uma dessas individuações precisando ser considerada a por ele chamada "licença poética", em que se exprimiria " uma maior criatividade no uso de uma língua ou, dentro de qualquer língua, de linguagem" usada a respeito dessa civilização.
Daí sugerir-se que os assuntos considerados numa língua, em textos relativos a assuntos específicos, tendam a influenciar como que fisicamente, sensualmente, as colocações de palavras ou as relações de palavras usadas pelo autor de texto global, podendo, no caso de texto sobre a presença panorâmica de ferro numa civilização nacional, adquirir, quase sensualmente, um sabor desse metal.
Mas esse sabor, podendo precisar de ser, em trechos do texto, menos soltamente literário que com algum ranço de científico ou de tecnológico, dado que se trata de assunto inevitavelmente envolvido, em alguns dos seus aspectos, por essas duas perspectivas. Um ranço desagradável para não poucos leitores, mais facilmente acessível e, até, possivelmente deleitoso nesse acesso.
A autor intelectualmente honesto no seu desempenho de misto de científico e de literariamente artístico não resta outra opção senão, nesses trechos, desagradar ao leitor como que tirânico em suas preferências por texto sempre de todos acessível ou sempre de todo fácil. Os Sertões, onde há trechos inevitavelmente de difícil acesso ao leitor inclinado a uma leitura sempre fácil e deleitosa. Os textos em torno de matéria complexa - como é o ferro, a máquina, o motor - em seu relacionamento com um contexto socioculturalmente em grande parte civilizado - têm, quando o autor a compromisso científico junta sensibilidade artisticamente literária, de equilibrar-se entre alternativas. Pode, entretanto, optar pela elaboração de um texto de todo corretamente científico e tecnológico no trato do assunto predominantemente dessa espécie. é o que faz, de modo exemplar, em notável livro recente, com a colaboração de equipe toda ela tecnológica, o Professor Ruy Gama, arquiteto, Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, no livro intitulado Engenho e Tecnologia (S. Paulo, 1979), resguardando-se, entretanto - como destaca a seu respeito o prefaciador, o também erudito Medtre Shozo Motoyama - de "reduzir a história da técnica à cronologia das máquinas e das fontes de energia motora". De modo algum vai a tal extremo, certo como é que procura centrar suas indagações " no estudo da divisão e do aumento da produtividade de trabalho, sem, no entanto, esquecer a análise histórica das ferramentas e das máquinas que tão bem conhece". Perspectivas que aplica, de modo rigorosamente especializado, ao estudo da tecnologia do açúcar, particularmente no Brasil.
Não é do interesse de um estudioso de orientação do Professor Ruy Gama o contexto social, no sentido de humano, da matéria. Daí seu desprezo por um trato, menos abstrato e mais existencial, de formas de relações entre senhores de meios de produção e executores de trabalhos não só açucareiros como canavieiros no Brasil patriarcal e escravocrata, por longo tempo produtor e tendo se tornado exportador de açúcar. Típica dessa sua exclusividade abstrata no trato da matéria é a sua afirmativa de que " a única máquina empregada no engenho era a moenda". E a valiosa máquina de transporte que foi o carro de boi durante século ou o trem de via férrea particular, a serviço desse transporte, atingida a época de usinas latifundiárias? Justa a importância que atribui a registros de pintores holandeses para a compreensão de aspecto do que foi, no Brasil máquinas (e da força motriz) da divisão de trabalho e da produtividade dos engenhos". E, como arquiteto, observa de, nesse Brasil patriarcal e escravocrata, as fábricas terem se revelado " extremamente adequadas às características da manufatura", especificando o próprio " arrojo dos edifícios que compõem o conjunto maior do engenho: a fábrica, a casa-grande, a capela e a senzala". é o máximo a que chega fora de abstrações. Acrescentando, porém, que "essa arquitetura funcional foi provavelmente uma das coisas exportadas do Brasil para outras áreas açucareiras, particularmente para as Antilhas". Pena não ter tomado conhecimento de estudos de outros brasileiros sobre aspectos menos abstratos do assunto, nos quais já há referências a essa exportação de adaptações lusotropicais ao relacionamento de homens e não só de máquinas ligadas à produção do açúcar a circunstâncias que tornaram esse relacionamento tecnicossocial pioneiro. Interessante sua conclusão, de terem as adaptações, aqui denominadas lusotropicais, constituído, da parte do Brasil canavieiro, mudança de técnicas ou usos artesanais substituído por um tipo de trabalho coletivo, de tal maneira funcional que teriam se antecipado a contestações do próprio Karl Marx.
O que é de estranhar-se no estudo do arquiteto brasileiro Ruy Gama é - acentue-se—sua nenhuma referência a abordagens de brasileiros, já clássicas, do contexto sociocultural dentro do qual está o assunto técnico em que se especializou, de modo quase de todo concentrado na especialidade de todo técnica.
Voltando-se a outra abordagem atual, já referida, do assunto - a de Mestre Pietro Prini, " Civilización de las máquinas e civilización de las imágens", cabe perguntar-se das predominâncias de imagens de construções e máquinas de ferro, sendo mais de um sexo do que de outro - mais possivelmente do sexo masculino do que feminino - tais predominâncias tendem a afetar a linguagem gramatical relativa ao assunto. A realidade parece ser que há imagens femininas, dos impactos de criações de ferro sobre vivências correlatas, que se defrontam com imagens masculinas. Se grandes pontes, continuadores da magnificamente ancestral - a de Brooklyn - projetam-se em imagens receptivamente femininas, os arranha-céus, ao contrário, apresentam-se quase fálicos na sua verticalidade insólita. Os potentes arados, é o que igualmente sugerem como imagem: ferros mecanicamente capazes de, como machos, ora desvirginarem solos intactos, ora voltarem a fecundar outros solos, sempre com desempenhos masculinóides. Enquanto as locomotivas, através de imagens femininas do que nelas é ferro a acomodar-se a paisagens e a funções diversas, cedo assumiram, até sob doces nomes de mulher que, no Brasil se popularizaram, como Baronesa e Balduína. Como que, simbolicamente ou miticamente, assumiram imagens de mulheres-machos, é certo, porém mais decisivamente mulheres do que machos, nessas imagens de máquinas potentes.
Os sexos assumidos gramaticalmente por palavras que vêm designando objetos de ferro, estes parecem ter designações arbitrariamente gramaticais: os mesmos que fazem de objetos de uso cotidiano, como vinho, leite, queijo, pirão, arroz, pudim, guardanapo, garfo, copo, do sexo masculino, e manteiga, faca, cerveja, farinha, sopa, batida, toalha, papa, fruteira, do feminino. Puros caprichos ou arbítrios gramaticais que línguas como a portuguesa ou as demais neolatinas ostentam dionisiacamente, em contraste com a neutralidade, nesse particular, de línguas como a inglesa. A diferenciação, por sexo, de pequenos objetos de aço, acompanha a dos grandes, justificada por projeções em imagens, sem precisarem de refletir imagens assim diferenciadoras. Tesoura de aço, entretanto, talvez tenha sua justificadora em imagem feminina do que nela deixa de ser pequena máquina feminina, dentro do contexto sociocultural de ser costura arte eminentemente feminina - embora não exclusivamente - dentro da cultura tradicional a que o Brasil pertencia.
Sutilezas não faltam nas correlações entre objetos de ferro, grandes e pequenos, e suas imagens: as versões de suas imagens. Correlações que o leitor encontrará abordadas, de diferentes pontos de vista, no texto que se segue, dado que são de interesse nada insignificante para o que vem sendo a crescente presença do ferro no Brasil até dar mostras de vir a tornar-se - tese que agora se apresenta em livro, em que a uma visão pluralmente panorâmica do assunto se juntam idôneas considerações especializadas de alguns dos seus aspectos particulares mais significativos: o geográfico, o econômico, o documental ou histórico. Texto em que se tenta destacar mais de uma marca característica de novo e, também, criativo e expressivo tipo de civilização brasileira, sucessora das já criativamente presentes na formação de um moderno complexo nacional em espaço tão vasto e quase todo nãoeuropeu em sua condição fisicamente geográfica. E sim tropical. Exigindo soluções nãoeuropéias para adaptação, a suas condições dessa espécie, de valores e técnicas de origem em parte européias ou lusoestadunidenses, criativamente brasileira.
Pois, sendo o ferro sempre fisicamente o mesmo, como matéria a ser transformada num Brasil em grande parte ecologicamente nãoeuropeu, em construções, máquinas, motores, estéticas, artesanais, funcionais, estruturais tendem a obedecer a usos funcionais e a modelos estruturais em parte nãoeuropeus: ecologicamente brasileiros. Teluricamente brasileiros, até. O que, em vários casos, significa desafios a inventividades. A originalidades. A capacidades de criação de tais modelos. A respostas brasileiras a tais desafios.
Pois, se do comando de atividades, além de modernas, posmodernas, tem se dito e repetido que tendem a ser predominantemente mecânica, o fato é que as máquinas dependem de homens, seus inventores, que orientem seus fabricos para aplicações às suas circunstâncias orteguianas. De onde se pode sugerir de elas - de construções monumentais de ferro, ao mesmo tempo que das minicotidianas e domésticas - poderem todas dizer em conjunto e cada uma: nós - ou eu—somos nós, ferros estruturais e funcionais, e nossas circunstâncias. No caso, circunstâncias, ecologias, formações historicossociais brasileiras e, portanto, em seus contexto mais específicos, lusotropicais ou hispanotropicais ou eurotropicais.
O estudo que se segue afasta-se, não poucas vezes, de perspectivas consagradas para tentar abordagens porventura originais de assuntos que continuam a desafiar respostas particularmente brasileiras e, talvez, mais abrangentes que as convencionais. Entre essas originalidades de perspectivas, ênfases em aspectos socioculturais do que vem sendo, e tende a tornar-se mais incisiva, a presença do ferro na civilização em desenvolvimento no Brasil. Daí superações, no trato de matéria tão complexa, de atenções a fatores especificamente tecnológicos e econômicos - já abordados por estudiosos idôneos - por aquelas ênfases que, abrangentemente socioculturais, podem nos fazer defrontar com surpreendentes e originais brasileirismos, em torno do relacionamento de homens, ou de gentes do Brasil, com o ferro. Um ferro, em suas expressões moderníssimas, a crescente serviço desses brasileiros e, ao mesmo tempo, ligado, de modo quase imprevisível, a crenças, comportamentos e opções tradicionais da gente do nosso país.
Para tanto, utilizou o autor deste estudo, de maneira pioneiríssima, material ignorado mas sugestivo: por exemplo, anúncios de produtos de ferro - máquinas e instrumentos, alguns para usos cotidianos - nos quais se surpreende o que produtos de tais objetos destacam, desses objetos, para valorizá-los social e culturalmente, aos olhos de consumidores em potencial. é um método de indagação que inclui uma nada insignificante abordagem psicossocial, inclusive através de linguagem - sociolisguística, portanto - específica de tais anúncios: particularidade pela primeira vez notada sociocientificamente no presente estudo.
O mesmo pode dizer-se da também pioneira, no estudo que se segue, atenção dispensada a um muito brasileiro relacionamento do homem com objetos de ferro do seu uso valiosamente econômico ou produtivo. Relacionamento que o tem levado a proceder, com relação a máquinas de ferro ou a ferros utilmente mecânicos, do mesmo modo que com relação a casas próprias para residências e a vegetais e animais economicamente úteis à família que os possui e deles se serve, não como simples coisas, mas como quase membros personalizados da mesma família. Através desse relacionamento, tem se desenvolvido, no Brasil, um muito brasileiro ânimo confraternizante - franciscano, até - de pessoa e unidades familiais com objetos representados por casas, vegetais e animais e, o que é notável, por ferros mecânicos.
Como chegar-se a tal conclusão? Através de evidências que o presente estudo apresenta como sendo o primeiro a sociocientificamente detetá-las. Essas evidências, ex-votos em que brasileiro agradecem, dentro de rito tradicional a esse respeito, a Deus, a Cristo a Virgem, a santos, recuperações, solicitadas a esses protetores míticos, de moendas e de outros objetos de ferro, a serviço familial, ou microempresarial, desses brasileiros. Vê-se, através desse relacionamento, a um tempo pragmático e mítico, estar o ferro mecânico, para tais brasileiros, na situação de uma espécie de irmão de ferro, para o qual se pede proteção divina, como se tal irmão simbólico pertencesse á família.
Nota Sobre a Terminologia
Destinando-se a presente obra ao público em geral, as palavras ferro e aço foram empregadas indistintamente, como é
usual. O autor, entretanto, acolhe com muito prazer os seguintes
esclarecimentos, fornecidos por técnicos do Grupo Gerdau que se
encarregaram de revisão dos originais.
Do ponto de vista técnico, ferro é o metal quimicamente puro, sendo o aço uma liga deste metal (Fe) como o elemento carbono (C), em proporção inferior a 1,7% em peso. Acima desta proporção e até 4,3% a liga ferro-carbono passa a chamar ferro fundido. No jargão tecnológico, quando se fala em ferro normalmente se alude ao ferro fundido. Convém acrescentar que na composição de ferros fundidos e de aços estão presentes, além de ferro e do carbono, muitos outros elementos, como o manganês, o silício, o fósforo, o enxofre, o estanho, o cobre, o níquel, o cromo etc. Essa presença pode ser proposital ou acidental. Na linguagem vulgar, quem diz ferro está se referindo ao aço comum, cujo teor de carbono é baixo (menos de 0,2%) e sem ligas especiais ou nobres, como o níquel, o cromo, o molibdênio etc.; e quem fala em aço alude a um aço de qualidade (aço mola, aço ferramenta, aço inoxidável etc.) .
Fonte: FREYRE, Gilberto. Ferro e civilização no Brasil. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 1988. 467p.
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