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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



HERÓIS E VILÕES NO ROMANCE BRASILEIRO
Prefácio


Este livro, reunindo vários ensaios, em parte se apóia em resultados - inclusive quantitativos ou estatísticos - de pesquisas realizada no Recife - projeto e organização do autor - nos anos de 1969 e 1970, por estudantes de Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco e assistentes de pesquisa do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Pesquisa concebida pelo autor e por ele dirigida prolongou-se por dois anos. Os principais participantes foram Isabel Montezulma, Gilson Soares, Francisco Carneiro, Marcos Albuquerque, Roberto Galvão.

    Num dos ensaios que o livro reúne, o autor refere-se aos métodos empregados nesse trabalho, que exigiram, para a leitura de quase todos os romances já escritos por brasileiros e publicados no Brasil - talvez de todos os autores de romances literariamente válidos e sociológica ou antropologicamente significativos aparecidos até o ano de 1970 - a participação individual, exigiu a revisão, crítica e interpretação coletivas - isto é, pelo grupo inteiro e pelo seu orientador - de dados recolhidos individualmente por seus participantes . Dados que permitissem o máximo possível de identificação de personagens dos romances lidos especializadamente por cada um, como tipos sócio-antropológicos considerados sob critério superindividual e com a supervisão do organizador da pesquisa, de quem foi a idéia de que se realizasse tal trabalho.

    Foi trabalho dirigido por quem, tendo a idéia de pesquisa, em qualquer país, pioneira, assumiu a responsabilidade, sem ônus para qualquer instituição, de iniciar organizar, controlar, articular e dirigir, por puro prazer do que nele foi alguma análise a um pouco de síntese, depois de vencida a primeira fase, que foi a da coleta de dados ou informes sob o critério estabelecido para esse trabalho inicial.

    A esse pouco de síntese coletiva junta-se, neste livro, outro tanto - também pouco - da interpretação do assunto e de generalização ou abstração a seu respeito, representada, essa interpretação, pelo conhecimento já antigo do autor, de matéria com a qual tem sido longo o seu contato. Conhecimento que, mesmo imperfeito como é, inclui a sua convicção, à base de estudos e não apenas de impressão, da validade de métodos dos chamados novelescos em criações extranovelescas. Sua contribuição, à base desse seu conhecimento da matéria, é acrescida de algum intuir e de uns tantos e aventurosos conceitos sobre as relações da interpretação literária ou humanística do comportamento humano com a interpretação cientificamente antropológica, psicológica, ecológica e sociológica desse comportamento. Para o que os personagens de romances podem - é idéia do autor - servir de cobaias.

    A caracterização de tais personagens como sócio-antropológicos indica que, para o autor, o simples perfil antropológico que pudesse ser levantado de personagens de romances brasileiros, desde os primeiros aos da década 60 deste século, seria incompleto; teria que ser acompanhado, quanto possível, do registro de condicionamentos de meio e de tempo sociais que se projetassem sobre eles, personagens, tornando-os, no maior número de casos, coletivos, representativos, típicos. Típicos de um tipo geral de brasileiro que vem, cada dia mais, adquirindo característicos capazes de o distinguirem, como pan-nacional, para além do que neles seja apenas projeção de etnia - já tão insignificante na sociedade crescentemente matarracial que é a brasileira - ou de classe ou de região.

    O uso dos qualificativos de "heróis" e "vilões", para caracterizar tais personagens e os tipos sócio-antropológicos que representam ou sugerem é, evidentemente, de pouco valor tipológico; mais que relativo; em geral corresponde, quase que apenas, às intenções e talvez preconceitos dos autores dos romances e criadores de personagens e aos seus compromissos com os valores éticos e sociais predominantes nos seus meios e tempos sociais. O que não significa que, em alguns casos, se deva deixar de reconhecer em certos vilões, vilania, e em certos heróis, virtudes. Vilania e virtudes superiores a tais circunstâncias e até universalmente válidas como vilania e como virtude.

    A pesquisa que foi empreendida sob a orientação do autor por alunos - repita-se - de Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco e por assistentes de pesquisas do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em torno de "tipos sócio-antropológicos no romance brasileiro", de início limitou seus objetivos quanto ao que devesse ser entendido por "tipos sócio-antropológicos" e por "romance brasileiro" . Quanto aos tipos sócio-antropológicos, estabeleceu-se que seriam os étnicos-constitucionais, anotando-se - quando possível - dos característicos que definem etnias, puras ou mistas, os apresentados por personagens de romances: cor de pele, cor e qualidade de cabelo e de olhos, formas de nariz, de lábios. Quanto aos que caracterizam constituições, temperamentos, personalidade, os procurados, para efeitos estatísticos, gerais e comparativos, foram: o brevilíneo em contraste com o longilíneo ou o misto; o introvertido em contraste com o extrovertido ou o misto; o dionisíaco com o apolíneo ou o misto; estatura; os sinais de ofício ou de profissão, longamente exercida, porventura as formas de corpo e de personalidade; as marcas de doenças, de acidentes ou de vícios, por acaso deformadoras das mesmas formas de corpo ou de personalidade. Sinais, estes, raramente encontrados; mas quando encontrados, significativos para a apreciação do conjunto psicossomático de cada indivíduo biológico socializado em pessoa e, como pessoa, presente em romance ou novela, como pessoa dramática nesse romance ou nessa novela representando de modo simbólico aquele papel social que representaria, se fosse pessoa real e não fictícia, na vida real. Papel social de personagens que o Professor Jean Duvignaud procura analisar em personagens de dramas em sua notável Sociologie du Théâtre: obra da qual não existe exato equivalente sob o aspecto de uma sociologia do romance, embora seja igualmente notável, a esse respeito, o estudo, menos amplo ou menos compreensivo, que é o ensaio de Roger Caillois sobre a sociologia da novela.

    Estabelecidos os tipos sócio-antropológicos conforme esses característicos inatos e adquiridos e sempre expressivos, quer da formação, quer da deformação de físico e de íntimo de personalidades, concordaram os pesquisadores, sob a orientação do autor deste livro, em anotar, quanto possível, as situações ecológicas - físicas, geográficas, sociais, culturais - dentro das quais, nos romances ou novelas considerados, os personagens se movessem ou pelas quais parecessem ter sido decisivamente influenciadas em sua formação psicossocial, sócio-cultural, sócio-econômica, quando heróis ou mesmo quando vilões ou neutros ou mistos; ou em sua deformação, nesses mesmos planos, menos como heróis do que vilões suscetíveis de ser considerados vítimas, quer de fatores genéticos, hereditários, e redutíveis, quer de circunstâncias ecológicas e sociais que pudessem, até certo ponto, ter sido removidas ou atenuadas a favor de indivíduos biológicos hipoteticamente sadios degradados em pessoas sociais romanescamente viciosas, perversas, vis, como são de ordinário os vilões das novelas mais convencionais.

    Mais: estabelecidos esses limites para objetivos - aliás, mesmo assim amplos - da pesquisa, foi ela iniciada com um caráter que os seus participantes concordaram com o organizador e orientador que fosse experimental. Mais uma aventura que um esforço com pretensões a rigorosamente sistemático do ponto de vista antropológico-estético, além de antropológico-social em geral.

G.F.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Heróis e vilões no romance brasileiro: em torno das projeções de tipos sócio-antropológicos em personagens de romances nacionais do século XIX e do atual. São Paulo: Cultrix, 1979. 160p.

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