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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



HOMEM, CULTURA E TRÓPICO
Prefácio


    Em livros, revistas, jornais, não é raro depararmos atualmente com as expressões " integração racial ", " integração social ", " ecologia humana ", " sociedades plurais", " sociedades multi-raciais", " pluralismo étnico", " pluralismo cultural", que eram, até há pouco, expressões tècnicamente sociológicas. Que significam tais expressões - tôdas elas relacionadas com o eterno problema da situação regional dos grupos humanos e das suas culturas, com a diversidade dêsses grupos e de suas culturas, diversidade quase sempre em choque com tendências e conveniências da parte de alguns dêsses grupos e dessas culturas no sentido de se constituírem em grupos e culturas transregionais? Por que saíram essas expressões dos livros hirtamente técnicos para se juntarem ao vocabulário do moderno homem culto, que seja um indivíduo atento aos problemas de ajustamento ou de desajustamento entre regiões, nações, grupos étnicos, civilizações etnocêntricas - problemas da mais viva atualidade?

Precisamente por isto; porque correspondem a aspectos de problemas que a todos nós, modernos, afetam de alguma maneira. A uns, direta; a outros, indiretamente.

Vivemos num mundo que é ao mesmo tempo crescentemente um só e irredutìvelmente múltiplo, vário, diverso em sua organização social e em sua cultural. Crescentemente um só porque das grandes diferenças de costumes, de trajo, de recreação, de alimentação que até há pouco caracterizavam os grupos nacionais, pré-nacionais ou tribais que vinham já há alguns séculos constituindo a sociedade humana, várias vêm ràpidamente desaparecendo; e estão sendo substituídas por semelhanças entre os mesmos grupos criados pelas modernas técnicas de fabrico de tecido, de tijolos, de alimento enlatado, de filmes, de discos, de cigarros, de fácil e rápida comunicação de tôda a espécie sôbre grupos separados por distâncias, quer físicas, quer culturais. Mesmo entre os Estados Unidos e a União Soviética - os dois fortes rivais de hoje - são muitas as semelhanças dessa espécie que se sobrepõem às diferenças - cada vez menores -- de regimen econômico entre um socialismo com tendências a perder característicos como que sectários de impessoalidade nas relações entre os indivíduos e um capitalismo já em processo de socialização sem grande prejuízo da pessoalidade nas relações entre os socii.

Nem por isto está deixando o mundo de ser um mundo étnico, social e culturalmente plural. Suas sociedades mais adiantadas - mesmo as predominantemente socialistas de feitio marxista como a polonesa, que entretanto contêm núncia população, culturalmente ativa, católica e contrária ao marxismo maciço - são plurais no sentido de dentro delas coexistirem, com maior ou menor cordialidade reciproca, grupos diferentes pela etnia, pela religião, pelo ideal político - como, por exemplo, os dois Canadás, as várias Rússias, os brancos e prêtos coexistentes nos Estados Unidos - pela condição econômica, e pelas inclinações de ordem estética como as que separam na Índia, indianos ocidentalizados dos irredutìvelmente orientais. Plurais também por serem, quando sociedades nacionais ou comunidades multi-nacionais, condicionadas por diferenças de base física e de experiência histórica que distinguem às vezes as regiões de um país liliputiano como a Suíça - diferenças de, senão de solo, de clima, de recursos econômicos, de passado cultural - que se refletem em diferenças culturais - do tipo de habilitação, de vestuário, de alimentação. Maiores entre os grupos telúricos ou rurais, menores entre os industriais e urbanos. Nunca, porém, ausentes de todo.

Dessas sociedades plurais, repita-se que algumas se caracterizam pelo pluralismo paralelo entre seus diferentes grupos. Tal a Comunidade Britânica com seus brancos ou caucásicos vivendo vida à parte dos seus negros, com seus Católicos continuando Católicos ao lado seus Protestantes e dos seus hindus; com seus conservadores vivendo em estado de tolerância constante com relação aos seus trabalhistas e em alterativos de poder político e até certo ponto econômico com eles. Outras comunidades vivem em situação de pluralismos convergente: com as diferenças entre seus sub-grupos em constantes fluidez, -- uma fluidez favorável a novas combinações étnicas, sociais, culturais em conseqüência não só dessa convergência como de uma ativa e viva interpenetração, desmoralizadora de extremismos ou de purismos de tôda a espécie. é o caso do Brasil - um Brasil dinâmicamente interregional e dinâmicamente interracial e intercultural - em nítido contraste como caso da União Africana: uma nação estàdicamente organizada, na qual os extremos étnicos e culturais quase não se tocam; na qual, muito mais do que nos Estados Unidos, os brancos procuram viver biològicamente à parte dos negros, dos mestiços e dos indianos; na qual os portadores de civilização cristã, tudo fazem para viver à parte dos portadores de culturas não-européias, mesmo quando cristãs.

O fato de ser o Brasil dinâmicamente interregional, interracial e intercultural - um país de considerável miscigenação, de intensa interpenetração entre as culturas que formam sua civilização nacional e de constante mobilidade, quer horizontal, de região para região quer vertical, de classe para classe e até de raça para raça, entre os grupos que constituem sua população, não significa que faltem ao seu conjunto predominâncias regionalmente diversas de atividade econômica, de composição étnica e de vida cultural. Tais predominâncias existem dando ao conjunto características plurais. No extremo Norte, a população se distingue, do ponto de vista étnico pela predominância, na sua composição do elemento ameríndio. Na Bahia, assim como no Nordeste agrário em geral, avulta o elemento africano, já muito misturado ao ameríndio e sobretudo ao caucásico. No extremo Sul é o elemento caucásico que predomina. Mas sem que essas predominâncias importem em minorias étnicas ou em minorias culturais que compõem a população nacional.

Ninguém diz que de todo aos brasileiros das várias regiões, das várias classes e das várias culturas que compõem a mesma população, preconceitos de raça ou de côr, de classe ou de região. Existem tais preconceitos. Mas sem a fôrça dos que animam, noutros países, as atitudes segregacionistas da parte de minorias dominantes para com maiorias dominadas; ou da parte de maiorias intolerantes para com mal toleradas minorias. Daí poder-se falar, sem escândalo, do Brasil, como sendo uma democracia étnica ou racial ainda imperfeita, mas já consideràvelmente adiantada. O mesmo é certo das classes, entre nós: não são rígidas.

A maior deficiência do Brasil como organização democrática devida, de economia e de cultura nacionais está no diferente tratamento que vêm dando os governos centrais, desde que se estabeleceu a República, a certas regiões, desprezadas em benefício de outras. Mesmo assim, tão intensas vêm sendo, no Brasil, as relações interregionais, em virtude mesmo dessa desigualdade de tratamento da parte de sucessivos governos centrais, a populações e economistas regionais, que dessas relações têm resultado, paradoxalmente corretivo àquele desequilíbrio. As migrações internas no Brasil têm concorrido muito mais para a coesão, para integração, para a unificação regional, que para o desequilíbrio biológico ou econômico, entre as várias regiões brasileiras. O mesmo é certo da miscigenação, tão característica, como processo biológico da formação brasileira como a interpenetração cultural e a intercomunicação regional, sob a forma, a primeira de processo sociológico, a Segunda, de processo ecológico.

Precisamente a dinâmica integrativa - insistamos de início neste ponto - que falta à União Sul-Africana, onde se vem pretendendo seguir uma política de quase absoluta imobilização de culturas, de etnias, de áreas de residência de grupos étnico-culturais. Pois outra coisa não significa a política chamada "Apartheid" senão isto: imobilização biológica, cultural e ecológica dos grupos aos quais se impõem, a cada um, além de rigorosa endogamia, uma cultura estática; e também residência inflexìvelmente fixa, dividida a nação em regiões intransponíveis, cada região correspondendo a um grupo étnico-cultural. Repele-se assim, clara e sistemàticamente, qualquer tendência ou qualquer pendor da parte seja lá de quem fôr - de brancos descendentes de inglêses, da Igreja Católica Romana, de prêtos, de mestiços, de indianos - no sentido daquela integração nacional que se processe, como no Brasil, pela interpenetração cultural e pela comunicação interregional, admitindo-se também a interpenetração no plano biológico ou seja a miscigenação.

Trata-se, é claro, de um arrôjo perigosamente político. Supõem sul-africanos de origem holandesa ser possível resolver um problema complexamente social, por meio de medidas apenas políticas ou de providências sòmente policiais. De uma maioria branca de três milhões de brancos, são talvez cêrca de dois milhões os que pretendem inflexìvelmente contrapor seu ideal estático de pureza de raça e de pureza de civilização européia a uma vasta população preta e de côr, cinco vezes ou porventura quase seis vêzes, o seu número. Uma vasta população que cada vez se torna mais consciente não só dos seus direitos como da sua fôrça ou das suas possibilidades.

O problema de pluralismo étnico e cultural foi o tema do conclave convocado em 1957 pelo Instituto Internacional de Civilizações Diferentes, cuja sede é em Bruxelas. Coube a um brasileiro, por escolha do mesmo Instituto, que reúne alguns dos maiores sábios europeus, orientais, africanos e americanos voltados para o estudo de problemas atuais de raça e de cultura, ser um dos quatro relatores gerais do conclave. Já a êsse relator coubera a difícil responsabilidade de opinar, como antropólogo - escolhido como tal pela Organização das Nações Unidas para orientá-la a respeito da situação sul-africana - sôbre um problema que sendo aparentemente só político é principalmente social e, além de social, ecológico.

Nunca é demais nos lembrarmos, -- os brasileiros - de que essas intervenções de homens de ciências nacionais no esclarecimentos de problemas atuais de raça e de cultura que afligem outros países - intervenções solicitadas por organismos internacionais - representam triunfos nada insignificantes não só para a ciências, em particular, como para a civilização brasileira, em geral. é tôda uma civilização que vem falando, como relação a problemas de raça e de cultura, pela bôca daqueles homens de ciências desde J. B. de Lacerda solicitados a se pronunciarem, em congressos internacionais de antropologia, sôbre o que tem sido a experiência de miscigenação que o Brasil vem realizando em suas várias regiões e que seus grandes antropólogos - J. B. de Lacerda, Roquette Pinto, Froes da Fonseca - vêm procurando avaliar e interpretar em têrmos de cada dia maior validade universal. Trata-se da maior contribuição do Brasil para a paz entre os homens e para a harmonia entre as nações. Da ciência antropológica e sociológica dos José Bonifácio, dos Joaquim Nabuco, dos Roquette, dos Sylvio Romero, dos Alberto Torres, dos Froes, não há exagêro em dizer-se que, como contribuição do Brasil para a civilização moderna, iguala, quando não excede, em importância humana, quanto seja contribuição artística, jurídica, técnica, política da parte de brasileiros para o mesmo conjunto universal de valores. E essa outra contribuição sabemos que já é notável. Que o digam a música de Vila-Lobos, a arquitetura de Niemeyer, a jurisprudência de Teixeira de Freitas, o internacionalismo polìticamente igualitário de Ruy Barbosa, a técnica aeronáutica de Santos Dumont.

Ninguém suponha que os triunfos de Ruy Barbosa na Haia tiveram na Europa a mesma repercussão que no Brasil. Não tiveram. Mas o contrário sucedeu com as palavras de J. B. Lacerda em Londres, em 1911, no Congresso Universal de Raças que ali se reuniu por iniciativa britânica, sôbre a situação do mestiço no Brasil: foram palavras de muito maior repercussão fora dos meios brasileiros que dentro do nosso País. Contribuíram muito mais que os discursos do insigne Ruy para valorizar não só a ciência como a civilização brasileira aos olhos de elites estrangeiras de sábios, de políticos, de industriais, que já então começaram a preocupar-se com os problemas de relações interculturais, interraciais e interregionais num mundo crescentemente interdependente como é, desde o século XVI, o nosso, mesmo que essa interdependência se viesse exprimindo em superioridades e inferioridades ostensivas como as que desde aquêle século ao comêço do atual caracterizaram as ralações entre europeus e não-europeus, entre brancos e raças de côr, entre povos cronométricos em suas noções de tempo - o tempo identificado com a pecúnia - e os povos não-cronométricos em seu sentido de vida, entre nações senhoris e populações servis, entre economias industriais e economias apenas fornecedoras de matérias primas, entre Estados imperiais e áreas coloniais, entre aristocratas e plebeus e principalmente entre burgueses e proletários, entre urbanistas e ruralistas, entre civilizados e selvagens.

Note-se do processo denominado de integração que, ao contrário do de assimilação e sobretudo do de dominação, não significa a absorpção de um grupo por outro ou de uma cultura por outra, mas interpenetração, troca de valores ou de equivalentes culturais de valores, reciprocidade até a formação de novo grupo ou de nova cultura. Não se refere apenas a relações entre grupos socialmente verticais - raças, classes, castas - mas também a relações entre grupos socialmente horizontais como são os grupos regionais que constituem uma sociedade nacional com a brasileira ou uma comunidade transnacional como a constituída pelos Estados americanos ou a até há pouco formada pelo Império, hoje Comunidade Britânica, devendo-se admitir haver às vezes coincidência entre as duas situações horizontais e as verticais. Também entre êsses grupos regionais pode ocorrer aquela desintegração, em virtude de um grupo exercer sôbre os demais domínio que se exprima, ostensivamente ou não, em opressão de áreas ou regiões coloniais por área ou região metropolitana ou imperial. O equivalente sociológico dessa espécie de relações entre grupos regionais basta para caracterizá-la sociològicamente como tal e para alguns observadores é hoje o caso das relações entre o Norte e o Nordeste do Brasil com aquelas áreas do Sul que pelo muito maior vigor de suas economias e estas predominantemente urbano-industriais tornaram-se dinâmicamente imperiais em sua superioridade sôbre os estàticamente ancilares. Trata-se de um desajustamento intratropical que, como tal, interessa ao tropicologista.

Para a Tropicologia - para o conjunto de estudos que, com essa denominação, hoje se organiza em ciência - o Trópico, o Homem situado no Trópico estão longe de ser apenas pitoresco. Ou sòmente bizania. Ou puro exotismo. Ao contrário: são uma parte do mundo e da humanidade tão normal como a outra, embora com motivos de natureza biológica e de ordem cultural para se desenvolverem de modo diferente da européia ou da anglo-americana.

Já a mais de um estudioso do assunto parece haver base, à margem da Ecologia, por um lado, e da Antropologia, por outro, para a definitiva sistematização da matéria que, sob formas dispersas e rótulos diversos, refere-se àquele esfôrço e àquele experimento. Ainda há pouco, manifestou-se solidário com a sugestão brasileira, no sentido dessa sistematização, um homem de ciência português a quem não tem faltado contato com as mais modernas atividades européias em tôrno das ciências do homem e que é o Professor Almerindo Lessa. Recorda êle ter há alguns anos participado de interessante reunião de caráter científico, em que foram seus companheiros o Professor Conrado Gini, ao tempo Reitor da Universidade de Roma e certamente, diz o Professor Lessa, " o primeiro bio-estaticista da Europa"; o Professor Raymond Trupin, catedrático de Heredobiologia da Universidade de Paris; e o Professor René Martial, da Escola de Antropologia de Paris. Todos empenhados - destaca o cientista português - no estudo das chamadas " enxertias raciais" ou "transfusões coletivas de sangue", das quais tem resultado a formação de populações mestiças.

Só agora, entretanto, o Professor Lessa reconhece que o problema, tal como o consideraram e discutiram europeus tão eminentes pela sua ciência biosocial e antropológica, estava " eivado ao que penso hoje", - são palavras do Professor Almerindo Lessa - " por uma espécie de burguesismo sociológico que mascarava em nós os ceticismos na Europa". Daí não hesitar hoje o cientista português em admitir, com alguns dos seus colegas brasileiros, não que o futuro da civilização de origem européia e porventura o da própria civilização humana, esteja exclusivamente nos trópicos, mas que as civilizações tropicais se apresentam cheias de possibilidades que considera "extraordinárias". Por conseguinte, o bastante para que tais civilizações e, dentro delas, a comunidade ou a civilização lusotropical, sejam estudadas à parte das desenvolvidas em climas temperados ou em espaços boreais.

Significativo é o depoimento do Professor Almerindo Lessa, quanto a maior ou menor valorização do mestiço nos espaços tropicais dominados por diferentes civilizações européias, de que "os progressos da genética nos levam a considerar" - fala principalmente como homem de formação médica e biológica - "o valor biológico dos mestiços por um prisma novo: novo e fecundo". Acêrca do que acrescenta: "E cabe realçar que nesta correção os sociologistas foram pioneiros dos médicos". Dos médicos ou dos biólogos.

Não me parece, porém, que devam os estudantes de Sociologia aceitar sòzinhos tôdas as glórias dêsse pioneirismo científico de correção, revisão ou retificação do valor biológico dos mestiços, em geral, e, em particular, dos mestiços cada dias mais em relêvo senão como criadores, como colaboradores de europeus de origem hispânica - principalmente de portugueses - no desenvolvimento de novos tipos de sociedades, de culturas e; talvez, de homens, em espaços tropicais. é um obra de revisão ou retificação para a qual vêm concorrendo antropólogos, psicólogos e geógrafos, dos que, ao estudo que é físico no objeto de estudo das suas ciências, vêm acrescentando a crescente consideração do que é cultural nesse mesmo objeto de estudo. Permanecesse sòmente físico, ou quase sòmente físico, o objeto de estudo de geógrafos, antropólogos, psicólogos, e é duvidoso que os sociólogos pudessem ter sòcinhos remado decisivamente contra a maré, isto é, contra a tendência de a-priori negar-se a possibilidade de desenvolvimento de civilizações européias, ou equivalentes das européias, em espaços tropicais, em climas quentes, em zonas tórridas, e tendo por portadores, ou carriers, como se diz em inglês, de modernos valores de civilização, em tais espaços, povos em grande parte, e até na sua maioria, mestiços. Mestiços de europeus com asiáticos, uns. De europeus com ameríndios ou com ameríndios e negros africanos, ainda outros. é pelos estudos em conjunto de geógrafos não só físico com culturais, de psicólogos não só bioneurologistas como sociais, de sociólogos não só voltados para o estudos de formas de organização social em abstrato como de formas concretamente regionais de cultura e não só para as atualidades como para as formações históricas de grupos, comunidades, instituições, que se vem esclarecendo a verdadeira situação de grupos, culturas e civilizações desenvolvidas em espaços tropicais e em climas quentes. E é à base dêsse esfôrço - da maior conjugação de estudos orientados por duas constantes: a consideração do que é ecológico e a consideração do que é cultural no desenvolvimento de grupos situados física e culturalmente em espaços tropicais - que me parece possível a sistematização em ciências especial - que se denominasse Tropicologia e dentro da qual se admitisse, como subciências, além de uma Hispanotropicologia, uma Lusotropicologia - de conhecimentos hoje dispersos em tôrno de matéria que, no caso da sugerida Lusotropicologia, pode ser definida como complexo transregional, dado o fato de ser a área da presença histórica ou lusitana nos trópicos, em vez de contínua, ela própria dispersa.

Admitido, dentro de critério assim elástico de área, um complexo lusotropical de que o Brasil fôsse parte, e parte importantíssima, não significaria, porém, nem considerarmos a formação ou o atual conjunto brasileiro, espalhado, quase todo, em espaço tropical, formação ou conjunto exclusivamente hispânico, muito menos sòmente lusitano, em sua cultura ou em sua etnia, nem nos limitarmos a ver e estimar afinidades do Brasil apenas como as nações ou populações hispanotropicais. Essas afinidades existem, dentro de semelhanças evidentes, com outras nações e populações tropicais com problemas e situações ecológicas e antropológicas susceptíveis de ser gestaltianamente consideradas, estudadas e interpretadas por uma Tropicologia global. Outro não é o espírito como que se estabelece o Instituto de Antropologia Tropical senão êste: animar, orientar, coordenar estudos pan-tropicais e intertropicais, fazendo do Recife um centro ao mesmo tempo brasileiro e pan-tropical de estudos ecológicos e antropológicos.

G.F.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Homem, cultura e trópico. Recife: Imprensa Universitária, 1962. 236p.

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