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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



HOMENS, ENGENHARIAS E RUMOS SOCIAIS
Prefácio


Engenhar, dizem os dicionários, é inventar, engendrar, maquinar. Vem de engenho: faculdade universitária. Da mesma origem é engenharia: arte de aplicar conhecimentos científicos ou empírico á criação de estruturas a serviço do homem. Arte ou ciência. Arte ou ciência - em sentido mais restrito - do emprego de dispositivos e de processo na conversão de recursos naturais ou humanos em formas adequadas ao atendimento de necessidades do mesmo homem. Sempre engenho, invenção criativa, a serviço do homem. A serviço do seu físico. De necessidades físicas. Mas também de relações do seu físico com o ambiente. Com a natureza. Mas, indo além: a serviço do homem social que inclui o homem econômico, o homem político, o homem aprendiz, (existem máquinas de ensinar ou de aprender), o próprio homem lúcido ( que são patins, raquetes, bastões de jogar golfe, taco de bilhar, senão engenhos para fins recreativos?).

Além do que, dentro de uma moderna concepção de engenharia humana, é engenharia o ajustamento do homem físico a engenhos, a máquinas, a veículos, a dimensões, iluminação, aeração de casas de residência e de locais de trabalho ou de lazer ou de devoção ou de recreação.

Sem nos esquecermos de que, dentro de um também moderno conceito de engenharia social, é engenharia aquela arte-ciência que desenvolve a aplicação de conhecimentos, quer científicos quer empíricos ou intuitivos, à criação e ao aperfeiçoamento de estruturas sociais; ou de formas de convivência social: inclusive política ou econômica.

Daí poder-se ajustar à condição de engenheiro social certo tipo de político ou de estadista ou de governante ou de empresário ou de líder público que, em vez de ser apenas improvisador de soluções ou de providências ou de iniciativas no setor político ou no empresarial ou no público desenvolva soluções, providências, iniciativas à base de observações, experimentos, estudos. O que se estendo a líderes operários, militares, religiosos, agrários, educacionais, recreativos.

As caracterizações dessas três formas principais de engenharia serão apresentadas, no decorrer deste livro, de modo mais específico. Sobretudo no tocante às suas aplicações a situações brasileiras. Ou a aspectos das relações da formação brasileira, quer pré-nacional quer nacional, passíveis de ser interpretadas sob as perspectivas das três engenharias ou de uma ou de duas delas. Sob esse critério de interpretação resultará claro o fato de quem ao homem brasileiro não vem faltando, através de sua formação, contatos ou relações com o que se possas considerar, retrospectivamente, ter sido engenharia. Lembre-se que a própria divisão, no século XVI, do Brasil em capitanias foi engenharia: engenharia social. Que a construção dos primeiros fortes, para a defesa militar da Colônia, foi engenharia física. Que obra de engenharia humana foi adaptação de formas européias de corpo humano a redes ameríndias de dormir, admitidas dimensões antropológicas diferentes de um tipo de homem para outro. E também, no setor culinário, a substituição - tão importante - desde o século XVI, do trigo pela mandioca e a adoção, na culinária e na farmacopéia, de frutos, ervas e sucos indígenas, usados pelos nativos - o caju, por exemplo - além da adoção por europeus em processo de abrasileiramento - um processo, todo ele, de engenharia humana - essencialmente adaptativo. Lembre-se, no setor da engenharia física - hidráulica - aquela imitação de ‘engenho de escravizar água’: defesa contra secas do Nordeste mais árido, por meio de tapagem, realizada por povoadores rústicos, valendo-se de lição aprendida como castor de região, animal hábil em cavar a terra para cativar águas. Imitação destacada em estudo recente, que é Osvaldo Lamartine (Veja-se o seu Os açudes dos sertões do Seridó, Natal, 1978)

Engenharia física ecológica, essa, o mesmo podendo ser dito da utilização, em área piauiense, de antigas cavernas com habitação humana, com adaptações por meio de tapumes. Utilizações de exemplos, dados até por animais, podem resultar em obras ecológicas de engenharia física, com repercussão social, como o uso da água em represa para adubo, até chegar-se àquele pronunciamento antecipado, do padre Brito Guerra, no sertão nordestino - pronunciamento do século XVIII - recordado por Osvaldo Lamartine - de que " o problema das secas estaria resolvido no dia em que as águas caídas das chuvas não chegassem ao mar". Engenharia física da melhor e da mais capaz de desdobrar-se em engenharia humana e afirmar-se em ampla engenharia social. Tão ampla que, completada pelas duas outras, pode ser a chave para interpretações das realizações de um grupo humano dentro de determinado espaço e, em relação com esse esforço, em tempo específico. Pois as realizações assim condicionadas seriam, em grande parte, expressão de engenho humano através de engenharias ecológicas: inclusive imitações de engenharias rústicas e até animais.

O que principalmente se sugere neste livro, desde as primeiras páginas do seu prefácio, é que dependem de engenharias - de três, que se completam - quer o desenvolvimento global do homem - ou de grupos humanos constituídos em sociedades, de que são exemplos as nacionais - quer a preservação, por essas sociedades, dos característicos de seus ambientes ou de suas ecologias, com as quais precisam de ajustar suas formas de vivência, de convivência e de desenvolvimento. Quer de desenvolvimento global, quer de desenvolvimentos específicos.

As três engenharias: a física, a humana e social. A física, a mais evidente. Ela se manifesta em quase todas as coisas técnicas, ou construções, a serviço essencial e imediato dos homens: casas, pontes, instrumentos de trabalho, veículos, equipamentos: inclusive o culinário. Das relações técnicas ao mesmo tempo que antropométricas, dos homens com tais coisas, cuida a engenharia humana. E das inter-relações de ordem social entre homens uns com os outros e de métodos com instituições de várias espécies dentro de uma sociedade humana, cuida a engenharia social. Todas consideradas nas suas sistemáticas e nos seus objetivos definidos: definições recentes.

Vem sendo crescentemente particularizado o uso da palavra engenharia para caracterizar especialidades restritas: engenharia médica, por exemplo. Engenharia dos alimentos. Engenharia militar e engenharia naval são caracterizações já antigas de especialismo ligados a institucionalizações de técnicas de engenharia: da engenharia física.

De modo geral, entende-se por engenharia toda técnica de manipulação de coisas através de máquinas, por coisas podendo-se entender até partes ou órgãos do corpo humano susceptíveis de ser controlados, mantidos em funcionamento ou reajustados por meios mecânicos. Daí - em parte - uma engenharia que, intitulada de humana, regule relações extramédicas e não apenas médicas, entre homens e coisas. Homens e máquinas. Entre homens e veículos. Outro ainda, os fatores de uma engenharia humana ao lado da física e que, em alguns pontos, desdobre-se na social. Esta, a mais abrangente pelo que, sociológica, psicológica, econômica e até politicamente é uma complementação das duas outras. Inclusive por abrir esta perspectiva: a de ser o homem - ou a de serem os homens - muito mais que coisas mecânica ou científica ou matematicamente manipuláveis. Isto, dada a unicidade do homem quando de indivíduo biológico passa a se pessoa: a se verdadeiramente homem. O que limita a aplicação ao comportamento humano de, até certo ponto, úteis abordagens, como moderníssimos aperfeiçoamentos de técnicas quantitativas - as estatísticas, entre elas - racionalizações através de computadores, psicologias behavioristas, endurecimentos de técnicas psicanalíticas ou mesmo arquetípicas ( Jung). Quanto a reorientações de relações de homens com ambientes podem, no que neles for manipulável, absorver não poucos conhecimentos valiosos de recentes desenvolvimentos científicos. Isto sem que deixem de ocorrer retificações a precipitadas utilizações desses conhecimentos como o abuso de inseticidas, perturbador de equilíbrio ecológico.

A engenharia social lidando principalmente com estruturas mais do que com funções - sem se fechar num estruturalismo sectário - preocupa-se mais com a criação de novas formas e de novos estilos de convivência social do que com a adaptação do comportamento de um grupo social a normas pré-fabricadas de convivência. Nas palavras do sociólogo Fairchild, "as in the case of all forms of engineering, every social engineering project starts with a problem". O caso das obras do vale do Tennessee. E completando sua definição: " Social Engieering differs from other branches of engineering in that the material with which it deals are human rather than inanimate and the forces which it utilizes are social forces." O que se aplica de modo especialíssimo à sociologia da habitação, da morada, da casa: projeção do homem através do que nele é e tem sido um engenheiro social.

Para os organizadores do sob vários aspectos prestimoso Dicionário de sociologia, publicado pela Editora Globo, de Porto Alegre, a "engenharia social" outra coisa não é senão ‘ação social’. Terão razão? Será a engenharia social apenas ‘ um esforço organizado para modificar as instituições econômicas e sociais’, como pretende o professor Roger M. Baldwin, diferenciando-a, por esse esforço, do serviço social, cujo campo de competência não abrangeria, "de modo característico, a realização de mudanças essenciais nas estruturas sociais"? Ou temos que considerar, como característico essencial da engenharia social, aquela aplicação de princípios sociológicos a esforços de objetivos especificamente sociais a que se refere Fairchild: aplicação que, de ordinário, ninguém associa à simples a difusa ‘ação social’? Sou dos que se recusam a identificar engenharia social com ação social; e insistem no significado específico da expressão, distinguindo engenharia social não só de ação social, reforma social, serviço social, como, também, da engenharia humana: outra que muito tem que ver como a casa, com morada, com a habitação. Como suas relações imediatas com pessoas. Com as formas de corpo e com os característicos pessoais de indivíduos já constituídos em pessoas mas ainda antropologicamente configurados quanto às suas formas de corpo e às suas predisposições.

Que é ‘engenharia humana’? Define-a o professor Ernest J. McCormick no seu Human Engineering, aparecido em 1957, mas desde logo um clássico na matéria, como "adaptação ao uso humano de espaço, equipamento e ambiente de trabalho". Alguns preferem á expressão ‘engenharia humana’ a palavra ‘biomecânica’; outros, a palavra ‘ergonomia’, ainda outros, a expressão ‘engenharia psicológica’. A discrepância é significativa: indica que se trata de uma especialidade complexa. Interessa ao engenheiro físico. Interessa no administrador. Mas interessa também ao antropólogo, ao médico, ao fisiólogo ao psicólogo. Todos esses, segundo o professor McCormick, vêm contribuindo para o desenvolvimento da nova especialidade através de conhecimentos diversos do ser humano e de métodos diferentes de pesquisa em torno do assunto.

Trata-se de saber com as atividades motoras do ser humano e a sua visão e a sua audição se relacionam com o trabalho que cada um realiza dentro de um grupo social em diferentes situações ligadas a diferentes ocupações, as quais, inter-relacionadas, constituem um conjunto de atividades ao mesmo tempo individuais e socais, susceptíveis de se desenvolverem num ritmo de eficiência mais ou menos vantajoso ao grupo total. Atividades a que se junta o tempo-repouso ou o tempo-lazer, tão do homem dentro se sua casa. Daí a importância de bancos ou cadeiras de trabalho - por exemplo - ou de repouso - sofá ou rede doméstica - que correspondam às formas de um corpo, não se um homem abstrato, mas, quanto possível, de um homem regionalmente diferenciado, condicionado por um conjunto de predominância de ordem étnica e de caráter constitucional, características de uma população regional. Não só o trabalho, através de ajustamentos dessa espécie, se torna mais eficiente. O bem-estar do homem aumenta em conseqüência de uma engenharia humana a serviço não só de indústrias, fábricas, usinas, que constituam um conjunto tecnológico de importância econômica e dependem das condições de trabalho dos seus técnicos e operários, como a serviço do próprio homem: do seu bem-estar físico e psíquico e da sua saúde no moderno sentido de saúde: o bem-estar além de físico, psíquico, social, ou sócio-econômico e cultural.

Os objetivos da engenharia humana não são novos - reconhecem os modernos campeões dessa nova espécie de engenharia. E o mesmo pode dizer-se dos objetivos da engenharia social. São duas sistematizações modernas; moderníssimas até. Mas duas sistematizações modernas de conhecimentos acerca de seres humanos e de grupos sociais, considerados em suas múltiplas relações de trabalho e de vida, uns com os outros e todos com o ambiente físico e com condições ecológico-sociais de vivência e de convivência, a que não têm faltado precursores.

Da engenharia física - nela incluída a arquitetura - sabemos que vem sendo equivalente de mecanização. Há quem pense que o ritmo de mecanização do trabalho humano planejado, orientado - por vezes dirigido - pelo engenheiro físico se intensificou no período entre as duas grandes guerras: 1918-1939. é a opinião do professor S. Giedion num livro que se tornou famoso e ao qual não pode conservar-se alheio - acentua-se - nenhum engenheiro ou sociólogo moderno: Mechanization Takes Command (Nova York), 1948. o professor S. Giedion é autor, aliás, de outro livro essencial ao engenheiro moderno: Space, Time and Architecture. Livros nos quais se considera a arquitetura da residência; seu equipamento; o móvel doméstico; a cozinha. E aos quais sob, certos aspectos, já se haviam antecipado, sem seguirem qualquer modelo, porém inovando, no Brasil, os livros Casa-grande & senzala e Sobrados e mucambos.

Para Giedion, foi naquele período - entre duas Grandes Guerras e em parte como repercussão de avanços por experiências militares em certas importantes áreas de conhecimento - que a mecanização da cozinha se acentuou, embora a indústria de enlatamento mecânico de alimentos - obra de engenharia física - viesse se desenvolvendo desde o começo do século XX, constituindo a matéria base para uma especializada engenharia do alimento. Foi também o período da substituição, em grande parte, do teatro convencional pelo processo ótico-psíquico - obra da engenharia física - de reprodução de imagens popularizado pelo cinema; o período de mais intensa mecanização do transporte; o período das primeiras intervenções de uma mais decisiva ciência aplicada não só na substância do orgânico como do inorgânico, com as primeiras exploração de concepções apenas modernas por perspectivas pós-modernas.

Foi naquele período que se acentuam com um maior desenvolvimento da produção em massa, tendências à estandardização: um característico de concepções modernas de vida. Provocaram tais tendências reações maiores que as apenas românticas, de épocas anteriores, da parte de energias decididas a apor a valores arbitrariamente universais, valores criadoramente regionais e potentemente tradicionais. Seriam estes à base de modernas conciliações entre imposições como que imperiais de uma mecanização irradiada dos grandes centros de produção capitalista e mecanizações adaptadas a condições regionais de vida, de clima e de convivência. Diferentes, portanto, das dominantes nas áreas de produção capitalista.

Compreende-se, assim, que os indianos europeizados, por exemplo, tenham passado a fabricar com material inglês de mecanização e servindo-se de equipamento de origem inglesa adaptado por eles - por seus engenheiros físicos completados pelos humanos e sociais - a novas funções, tecidos para trajos de homem e de mulher modelados na tradição oriental e opostos à estandardização - segundo modelo europeus - de trajo, em áreas como a indiana. O mesmo passou a ocorrer, aí e noutras áreas, com relação à arquitetura, com relação ao uso de material nativo de construção, com relação ao calçado, com relação ao móvel, com relação a técnicas de construção de estradas e técnicas de urbanização ou de modernização de cidades. Começou-se a verificar aquilo que se vem considerando a aliança do regional - da sua substância - com a forma mecanizada moderna, criando-se para o engenheiro, e não apenas para o artista, nas áreas de reação regional à estandardização mecânica, maiores responsabilidades que as de um passivo executor de ordens, receitas ou medidas recebidas do estrangeiro.

Datam daí alianças nem sempre ostensivas, de ordinários até inconscientes, entre engenheiros e antropólogos, entre arquiteto e sociólogos, entre pensadores e cientistas, entre cientistas e artistas, entre poemas e homens dos chamados práticos. Por quê ? Porque engenheiros, construtores, industriais começam a aperceber-se de que a engenharia, para bem desempenhar suas funções, precisava de corresponder a necessidades especificamente regionais - condições de clima, predominâncias de tipos antropológicos, predominâncias de heranças culturais já integradas em meios físicos - ao mesmo tempo que exprimir-se em linguagem, ou através de formas, em grande parte, universais. é uma conciliação, a do regional com o universal, que interessando o artista, o poeta, o antropólogo, o sociólogo, o filósofo, interessa também o cientista, o engenheiro, o urbanista, o arquiteto, o industrial, o administrador, o político. Todo o processo de integração de atividades modernas, umas nas outras, é um processo de integração de atividades regionais em atividades universais, com as universais não podendo desprezar as regionais. Nem as modernas podendo desprezar as arcaicas - os arquétipos - por um lado, ou as pós-modernas, por outro lado.

Note-se que aqui se coloca a ênfase na síntese universal-regional. Mas sem qualquer desprezo pela universal-nacional. Se o conceito nacional de vida é sociologicamente não só recente - em termos de tempo histórico - como dependente do regional, por um lado, e do transnacional ou do supranacional, por outro lado, não deixa de ser de importância máxima. Vivemos há já algum tempo num mundo dividido em nações e equilibrado - equilíbrio sujeito a interrupções - internacionalmente.

Uma obra autenticamente brasileira de arquitetura - qualquer das deixadas por Henrique Mindlin, por exemplo - ou de engenharia hidráulica - a instalação, segundo informação idônea, não de todo ortodoxa, na sua técnica de engenharia física, de Paulo Afonso, antes modificada notavelmente por brasileirismos desenvolvidos pelo engenheiro Marcondes Ferraz, outro exemplo - não se opõe a quanto existe de universalmente consagrado em arquitetura monumental e em engenharia hidráulica pelo que, em qualquer delas, seja, ou tenha sido, deliberadamente nacional, no sentido político ou mesmo cultural de nacional, mas pelo que nelas é criação brasileira de arte, ou afirmação brasileira de técnica, em correspondências com condições especificamente regionais - ou ecológicas ou telúricas - de vida, de meio, de cultura, em divergência com o geralmente aceito ou seguido, noutras áreas, ou noutras regiões, para obras do mesmo gênero e do mesmo porte.

Compreende-se que acentuando-se a tendência no sentido da valorização do regional, dentro da combinação regional-universal, diminua a tendência no sentido da uniformização de obras de engenharia e de criações de arte segundo modelos vindos, como modelos sagrados e perfeitos, de áreas imperialmente culturais para as colonialmente culturais. Compreende-se que a tendência no sentido daquela valorização se contraponha à própria tendência para o produto fabricado especialmente para resistir ao tempo e às violências dos processos de exportação - a exportação de produtos das áreas imperialmente culturais para as áreas colonialmente culturais - seja considerado, por essas suas qualidades de resistência, produto ideal, desprezando-se os menos resistentes produtos regionais, superiores aos mais resistente noutras qualidades de ordem artística ou noutras virtudes de ordem técnica.

O que principalmente alegara o autor com relação ao modo por que se construiu a aliás admirável Brasília é que essa construção se fizera como pura obra - ou quase pura - de engenharia física ou, mais restritamente, de arquitetura estética: de magnífica e até esplendorosa arquitetura estética. Obra entregue exclusiva e arbitrariamente a dois na verdade magistrais arquitetos ou, para efeito de classificação geral de sua especialidade, engenheiro físicos. Que engenheiro humano fora ouvido? Que engenheiro social? Que antropólogo? Que ecólogo? Que sociólogo? Que psicólogo? Que educador? O resultado foi uma nova e fisicamente grandiosa cidade, mas na sua parte de engenharia humana e de engenharia social nem sequer adaptada brasileiramente à sua ecologia tropical: com um excesso de vidros de excessiva imitação de uma engenharia física concebida e desenvolvida pelo suíço Le Corbuisier para a Europa central: para as condições de luz, de atmosfera, de ar, de paisagem, de meio, de ambiente natural do centro, durante grande parte de cada ano, brumoso, sombrio, muito mais boreal do que tropical, da Europa.

Mais: desprezara-se na construção de uma cidade nova, levantada com imensas despesas para o futuro mais do que para o que se considerasse presente, a consideração por novas perspectivas, nesse futuro, de relações entre homem e tempo. De relações entre homem e trabalho a serem em parte substituídas pelas relações entre homem e lazer.

Não se cogitou, na construção de Brasília, de problemas psicos-social tão importante. Não se reservam de início áreas bastante amplas para recreação, para esportes, para tempos desocupados.

Destaque-se, de passagem, que tais problemas tiveram no Brasil quem, desde a década de 1930, começasse a considerá-los pioneiramente. Em livro brasileiro, de cientista social, publicado em 1937, já se clamava contra desequilíbrios ecológicos e contra poluições de águas no nosso país. E o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, órgão federal fundado no Recife em 1949, e hoje incorporado à Fundação Joaquim Nabuco, não tardaria a realizar pesquisas de caráter sócio-ecológico sobre poluição de rios do Nordeste por indústrias de todo descontroladas: pesquisa de que aquele instituto encarregou o então jovem e lúcido geógrafo, professor Gilberto Osório de Andrade, falecido em 1986. E não vêm tendo outro caráter as principais pesquisas até agora desenvolvidas por aquele instituto.

Observe-se dessas pesquisas que não vêm sendo realizadas segundo técnicas de investigação social importadas do estrangeiro e sim conforme adaptações dessas técnicas brasileiras, nacionais ou regionais. Em alguns casos, segundo orientações de tal modo próprias a essas situações que têm significado inovações de base ecológica ou nacional. Pois também a esse setor aplica-se aquele pronunciamento recente do por algum tempo ministro Severo Gomes, segundo o qual o Brasil deve gerar o mais possível "sua própria tecnologia após a absorção de tecnologia importada", esta última refletindo "um universo econômico e social de onde foi gerado". Pronunciamento semelhante faria, em dia ainda mais recente, o ex-presidente Ernesto Geisel salientando dessa tecnologia própria do Brasil que precisava de ajustar-se a uma situação em grande parte tropical. Solidário, portanto, com os objetivos do seminário de tropicologia do Recife.

Lembre-se, a propósito, que do Brasil vêm partindo, no campo da engenharia social, no que essa engenharia significa ciência social aplicado ou aplicável, várias conceituações originais de operação econômica ou social. Entre as primeiras, a de ‘valorização’, iniciada em São Paulo com a valorização do café quando superabundante sua produção, através de técnica em seguida adotada por vários países; e mais recentemente, a chamada ‘correção monetária’: outro brasileirismo. Brasileiríssimos são os conceitos socioantropológicos de ‘homem situado no trópico’ - aprovado publicamente pela Sorbonne - de ‘ecologia telúrica’, de ‘pluralismo metodológico em estudos sociais’, de ‘tempo tríbio’, de ‘metarraça’, de ‘morenidade’. Brasileiro, também, uma arquitetura de casa vinda dos dias coloniais do Brasil e adaptável a circunstâncias atuais através de modernizações possíveis e necessárias. Tanto assim que a sugestões desse tipo de casa tradicional e ecologicamente brasileira recorreu - repita-se aqui - o moderníssimo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer para, de acordo com elas, construir em Brasília casa para sua própria residência.

Fonte: FREYRE, Gilberto. Homens, engenharias e rumos sociais: em torno das relações entre homens de hoje, sobretudo os brasileiros, e as três engenharias indispensáveis a políticas de desenvolvimento e segurança, por um lado, e por outro lado, a ajustamentos a espaços e a tempos, a engenharia física, a humana e a social, considerando-se, inclusive, o desafio, a essas engenharias, das selvas do Brasil, em particular, das amazônicas. Organizado por Edson Nery da Fonseca. Rio de Janeiro: Record, 1987. 244p.



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