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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



INGLESES
Prefácio de José Lins do Rêgo


O Santo padroeiro da Inglaterra é um tal Jorge de Capadocia, homem de vida airada, aventureiro, correndo de lado a lado como um sem-patria. E os ingleses fizeram dele o seu padroeiro, o chefe simbólico de sua cavalaria. é da natureza dos normandos, celtas e saxões, fundidos num só corpo, esse pegadio com a vida nos seus contraste. Nada para eles é seco como uma fórmula de álgebra, como um teorema; tudo é assim – como esse Jorge que tomaram para padrinho, homem que poderia ser salteador de estrada e terminou santo da Igreja.

Quando Gilberto Freyre me lia, num destes dias abafados de derrotas inglesas nos mares do Oriente, o estudo sobre os ingleses que chamou de "Anglos às vezes anjos", fiquei pensando nesse milagre de força humana que é a Inglaterra, ilha de homens que são os mais práticos da terra, os mais românticos do mundo, gente que penetra na vida como sonda e que é, às vezes, cortiças boiando sobre as aguas. O ensaio de Gilberto Freyre me provocou uma reação curiosa, me fez sentir as fraquezas dos ingleses, o lado de diabo do seu temperamento. Fez me ligar aos homens que são frageis e amá-los mais ainda. Porque nada como a fraqueza dos outros para nos aproximar dos outros. O inglês soberbo, forrado de puritanismo, conquistador de mundos, pragmáticos, solene, duro, o inglês da convenção, dos retratos de artificio, esse não nos interessa conhecer, porque como uma ficção de romancista medíocre é um homem todo de um lado só, com os mesmos modos de vestir, com os mesmos tiques, as mesmas reações morais. Esse inglês sem profundidade é o que passa pela nossa cabeça logo que nos lembramos dos ilhéus da Grã-Bretanha. Mas este é inglês, como os outros, os ingleses reais, homens de vida agitada, sofredores, poetas, sabios, mágicos, Nelson, Byron, o Dr. Johnson, Carlyle, David Cooperfield e, como uma súmula de toda a humanidade, Shakespeare. Sim, como uma súmula da humanidade, como um ponto de contacto que todos os homens do mundo têm com a Inglaterra. Fora do continente, sem ligação física com a velha terra da Europa, eles são os mais europeus e ao mesmo tempo os mais universais dos homens. Homens súmulas da humanidade, eles nos têm dado. Um Milton, um Shakespeare, valem pela natureza humana, pelo que é o homem na sua grandeza e na sua miseria. Quando o europeu fora de si pensa em extirpar a Inglaterra do continente, é um impio, é como se se revoltasse contra os designios de Deus. Matar o inglês no mundo seria destruir um riqueza do mundo, seria arrancar do corpo um dos seus membros mais vivos, porque não há quem seja mais uma síntese dos tempos modernos do que as ilhas britânicas, mais um pedaço de carne e uma quantidade de sangue da Europa do que os ingleses. E fora do continente, como se tivesse sido jogada na agua para morrer, a Inglaterra sobreviveria, apurando as forças do continente, as resistencias, as coragens e os crimes do outro lado. O mundo europeu deve a Portugal e Espanha a sua reprodução pelos outros continentes. A Inglaterra foi porem mais européia ainda que os peninsulares, e soube resistir com mais senso comum que os luso-espanhóis. Querer matar o inglês como programa de vida para a Europa é pretender assassinar o que a Europa deu ao mundo de mais firme e mais europeu. Os anglos são duros. Eles têm tudo o que é de bom e tudo que é de ruim da natureza humana. Emerson os via excêntricos, egoistas, hipócritas, sem elevação de idéias. Homens que viviam nos artificios de uma vida social guiada por uma legislação de ficções. Faltava-lhes imaginação, faltava-lhes plasticidade, visão superior para ver os seus semelhantes. Mas Emerson falava ao mesmo tempo da outra parte para se extasiar com as grandezas do outro lado. Eram gigantes que bem mereciam governar o mundo como governavam em 1847. Para o americano de genio angélico, a Inglaterra era a maior nação do mundo, o país onde o individuo é um ser sagrado. Se Emerson achava a sua poesia decorativa, com um Wordsworth conceituoso demais, um Byron apaixonado em excesso, um Tennyson artificial, por outro lado os monges letrados de Oxford faziam-lhe inveja. E George Eliot falando-lhe de Rousseau com um másculo vigor de analista dava-lhe uma impressão de assombro. Só na Inglaterra poderia existir uma George Eliot, tão oposta, tão de outra especie que a outra George da França. E puro Emerson se emociona até as lágrimas ao contacto do louco De Quincey, o " Homero das drogas". Só a Inglaterra daria um De Quincey, ao mesmo tempo que dava um Carlyle. E todos os dois juntos, ligados pelo genio comum. Lá estavam eles em Edimburgo, na mesma casa, bebendo o mesmo chá. Só na Inglaterra. Sim, porque alí a humanidade se encontra nos seus extremos. Alí, somente, na terra do puritanismo, dos homens intolerantes como velhas defumadas, secos e terriveis, um Dickens poderia dizer como se falasse para um clube de faunos: -- O meu filho é casto, só pode ser um doente.

É desses ingleses contraditorios que fala o ensaio de Gilberto Freyre. é desta terra onde o homem de mais bom senso do mundo era um boemio, o Dr. Johnson, de que o meu amigo fala como o seu maravilhoso poder de surpreender a vida onde a vida estiver. Anglos e às vezes anjos. Anglos que massacraram indús, egipcios, malaios, mas que liquidaram o cólera-morbo da Asia, que fizeram a Australia, a África do Sul, e criaram este país de sonhos que é o Canadá. Quando o inglês é anjo, quando ele vence os demonios para vencer a baixeza de seu egoismo, domina-nos, como criadores que se tivessem purificado no sofrimento. A sua poesia quer o Paraiso Perdido, quer roçar os pés de Deus, como em Milton. E é o céu e é o inferno e é toda a humanidade, é o efêmero e é o eterno, no olímpico Shakespeare. A criação está alí como na Biblia. Gilberto Freyre fala desses poetas da Inglaterra, desses anjos rebelados, e do seu romance que é de um realismo romântico, como o é a propria vida da Inglaterra. Foi ouvindo-o, numa manhã de muito sol tropical, de muita luz, que me liguei, pela sua prosa poética, àquela terra brumosa, de céus escuros, de silencios fecundos. Falar hoje da Inglaterra é falar do homem que se debate para sobreviver a uma queda terrivel. Os inimigos dela rugem de dentes trincados: -- Precisamos destruir a Inglaterra, só a destruição da Inglaterra nos dará o poder do mundo, a estrada aberta para a tirania sobre os povos. Este povo e que escravizou povos dos continentes é hoje único obstáculo à escravidão de todas as nações. Sem ela, uma única raça, um único credo, numa única bandeira, comandariam nos sete mares. Sem esses cabeçudos ilhéus, a marcha do novo Átila pela terra já teria secado a relva de todos os campos.

" Os ingleses são homens que se mantêm firmes em suas botas", diz Emerson. " Endinheirados, cheios de seiva, peito largo, repletos de cervejas e de humour, compleição um pouco demais pesada. O que lhes confere o dominio do mundo é o seu self-respect, sua crença na causalidade, sua lógica realista, a arte de ligar os meios aos fins". é esta lógica realista a única lógica que se confunde com a vida, a que dirige os impulsos destes homens de carne e osso e nervos e de alma que é um misto de ambições, de sonhos, de violentos desejos e anseios idílicos de amor. Com esta Inglaterra morta teria perdido o gênero humano um espécime que a enche de grandezas. O ensaio de Gilberto Freyre nos anima e nos faz crer na sobrevivencia inglesa. Ninguem mais do que ele ama esta Inglaterra de amor mais lúcido, mais de conciencia, mais de espírito e de coração. Foi em plena mocidade, com 22 anos, que ele se demorou entre os jovens de Oxford, que ele correu os campos da Avon e se umedeceu do fog de Londres. Esse contacto faria Gilberto Freyre um amigo íntimo daquela gente. Lembro-me dele chegando ao Brasil ainda impregnado daquele ar de altitudes elevadas, onde pudera viver Pater como um santo de hedonismo, onde pudera florescer um Shelley e um Newman debater pela fé, após lutas corporais com a razão, atrás de graça como um faminto de Deus. Inglaterra de Newman e de Joyce, Inglaterra de apolineos e dionisíacos, que se cruzam como se alí os tipos humanos se selecionassem no seu melhor. Povo que aprendeu a compor versos na Biblia, que fez da Biblia especie de sua arte poética, enquanto os mestres do tipo Boileau não puderam nunca montar por lá as suas cátedras de pedagogos abstratos. Poesia e vida seriam sempre na Inglaterra inseparaveis. E, no entanto, povo que bota Oscar Wilde no cárcere, que amarrota e dilacera como um galé o infeliz poeta da Balada do Enforcado. E mesmo quando cometia este crime monstruoso, era cruel como a vida, como gente de terra. O drama é essencial á vida desse povo, que é o mais avesso à declamação, que parece viver tão terra-a-terra, o povo que inventou esta coisa árida e triste que é a Economia Política. Anglo e às vezes anjos. Alí está toda a Inglaterra. Gilberto Freyre viu-a de corpo inteiro. Lá vão eles para ilhas do Sul arrancar dos nativos as riquezas, e destrui-lhes muitas vezes a vida. Lá vai Robert Louis Stevenson. Lá vai Lafcadio Hearn. E amam os nativos e se confundem como eles, como se fossem seus irmãos bem amados. Só a Inglaterra nos daria um Stvenson e um Lafcadio, ao mesmo tempo que nos dava um Kipling imperial. Os padres de Biblia na mão, de almas curtidas como de couro, perdem nos desertos, nas matas, corrompem o instinto virgem dos simples, mas, de quando em vez, no cantar dos hinos de igreja, a alma deste lobos se cordeiriza, são almas puras como as dos nativos. Matam de winchester para salvar almas perdidas, mas morrem de maleita, de cólera, de cobra, de tifo, nas Indias, nos confins da China, por todo esse mundo de Deus. Anglos e às vezes anjos. Gilberto Freyre me ensinou a amar esta gente-síntese da Humanidade. Deu-me a ler os seus poetas e os seus grandes romancistas. Agora, quando se fala de uma "nova ordem", que os poria para fora da vida, eu me lembro ainda do Emerson que chegou à Inglaterra num período de crise aguda da Europa, de revoluções, de Luiz Filipe correndo de París, de fome em Londres, de fábricas de portas fechadas, e a revolução de boca aberta para devorar tudo. Emerson então viu toda a Inglaterra. Ele era um rebento daquele tronco que parecia roido na base, e olhou para tudo, para os lordes, os pobres de Londres, os miseraveis famintos das minas de carvão, para o capitalismo monstruoso, para o imperio que crescia sem nenhuma ternura humana, para os homens de negocios que o livre-cambismo espalhava pelo mundo como moscas. Era um Inglaterra crescendo, uma Inglaterra cínica, amando os fatos mais do que as idéias, de uma franqueza brutal, "grandes marinheiros, mas sem sol, sem amor, tristes". Emerson, como Gilberto Freyre, apesar de tudo, acreditava na Inglaterra. Ela venceria as miserias de sua natureza, porque tinha em sua alma um fabuloso poder de cicatrização, reservas escondidas de espiritualidade. Lá existia, ao lado das massas, uma elite de espíritos abertos a todas as influencias e em correspondencia com o mundo, ligado aos fins ideias e universais. Emerson chamava a esta elite de "espíritos platônicos". São os anjos de Gilberto Freyre. E como se estivesse nos dias sombrios de hoje, o americano falou profeticamente: " Na grande luta das nações, em que se decidirá a sorte da liberdade, os ingleses estarão na certa no exército libertador. Mesmo vencidos, a causa que eles defendem não será vencida. Uma guerra de morte virá do Leste da Europa. E se esta guerra vier por em perigo a civilização inglesa, nós veremos o rei dos mares subir para as suas fortalezas flutuantes e procurar uma nova patria e um milenio de poder em suas colonias".

Os anjos salvarão a Inglaterra. é no que faz acreditar o admiravel ensaio de Gilberto Freyre. Os anjos terão força para corrigir erros, penetrar no espesso das divergencias de classe, botar abaixo Wall Street e fazer o santo cavaleiro, o São Jorge de Capadocia, malandro e camarada de Deus, destruir, com as cargas de sua cavalaria de lanceiros, o Átila que vem montado em monstros de aço.

Anglos e anjos salvarão o mundo.



Fonte: RÊGO, José Lins do. Prefácio In: FREYRE, Gilberto. Ingleses. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942. 175p.

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