INGLESES NO BRASIL
Prefácio de Octavio Tarquinio de Sousa
QUE é o ensaio? Sob esse nome o que mais comumente existe hoje é o estudo, a monografia que esgota determinado assunto dentro de linhas mais ou menos rígidas e de regras preestabelecidas. Ou então é o trabalho didático, que assenta em conhecimentos geralmente aceitos e em que cabe ao autor apenas o esforço de ordená-los ou sistematizá-los para melhor compreensão do leitor. No verdadeiro ensaio, de sabor montaigniano ou baconiano haverá uma aparente falta de plano e o seu ritmo será o da propria vida – homens, instituições, costumes, épocas encarados sem rigores lógicos, "de maneira simples, natural e comum", como se propôs Montaigne, o lado de saber positivo não dissociado nunca do sentido de "recreação" de que Bacon fez timbre. Só assim o ensaio surpreenderá também o lado de aventura em que muitas vezes se dissimula o veio poético dos temas considerados friamente prosaicos, jamais desvendado na douta monografia ou no tratado austero.
Neste novo livro de Gilberto Freyre – Ingleses no Brasil – surge mais um dos seus sumarentos ensaio, inaugurados com a obra-prima que é Casa-Grande & Senzala. Ensaio na melhor significação, e com originalidade, força, simplicidade, naturalidade, Dom de descobrir aspectos novos, de fixar a nota humana, de interessar nos leitores não só as idéias como os sentimentos. Repila-se para logo qualquer tentação de ligar a livro como este, de paciente pesquisa e de cautelosa interpretação sociológica, carater de romance, de obra de imaginação. De tal faculdade se socorre sem dúvida o autor – que sem ela a mais séria investigação científica poderá tornar-se esteril e enfadonha; mas é naquilo em que a imaginação representa o pressentimento do espírito ou a antecipação intuitiva, como queria Claude Bernard – para captar mais sutilmente, na massa do fatos, testemunhos e documentos, a por vezes esquiva verdade.
A influência ou influências inglesas no Brasil serão porventura bastante antigas. Menos aparentes, mais distantes, de Segunda mão, se assim se pode dizer, mas antigas. Influências através de portugueses que aqui chegavam já contagiados delas; influencias de alguns contactos diretos. Porque o certo é que Portugal de longa data gravitava na órbita britânica. Ao tratado de Methuen, de 1703, instrumento de dominação econômica inglesa sobre o reino luso, precederam varios outros, animados do mesmo espírito. Desde os tempos de el-rei D. Diniz (antes, provavelmente) sucederam-se convenções e pactos em que à Inglaterra tocou sempre o melhor quinhão. Já em 1298 se concediam salvo-condutos aos comerciantes e navegadores portugueses e ingleses, com a faculdade de nomearem árbitros para dirimir pendencias entre uns e outros. Pelo tratado de 29 de janeiro de 1642, cogitando-se embora de reciprocidade de ingleses e portugueses no tocante "à venda e contrato de suas mercadorias ", estabelecia-se a preponderancia dos interesses dos primeiros, entrando logo em cena a autoridade do juiz conservador dos ingleses. Sob o governo de Cromwell, o tratado de 10 de junho de Portugal e firmava as bases do que conseguiria depois Methuen, nos primeiros anos do século XVIII. Com efeito os ingleses obtinham liberdade de comercio sem salvo-conduto nem licença em Portugal e em todos os seus domínios, liberdade de religião e de culto, privilegio de seus créditos quanto aos bens e mercadorias embargados de portugueses presos pela Inquisição ou pela Justiça Real, jurisdição especial nos casos de heranças jacentes e espolios, livros e contas de súditos britânicos falecidos em Portugal, isenção de embargo de navios e bens para uso de guerra, tratamento de nação mais favorecida, jurisdição especial do juiz conservador, sem cuja ordem nenhum inglês podia ser preso ou embargado, salvo em flagrante delito, direito de circulação e de propriedade privada de casas de habitação, lojas e armazéns, porte de armas ofensivas e defensivas. Confirmavam-se assim os privilegios do "foral antigo dos ingleses", corporificado nas cartas patentes de D. Fernando, 1367, de D. João, 1400, de D. Afonso, 1453, de D. Manuel, 1495, que asseguravam aos nascidos na ilha além da Mancha uma situação tal que levou muitos portugueses a rogarem a seus reis "carta de privilegios de ingleses".
Entre o tratado assinado ao tempo de Cromwell e o de Methuen houvera o de 1661, polpudo de regalias aos britânicos, sendo de notar-se o direito de moradia de quatro familias inglesas na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. A sombra do poderio inglês crescia sempre e cada vez mais densa sobre Portugal e suas colonias. E de pouco valeriam os esforços de Pombal para evitá-la. Na Segunda metade do século XVIII havia só em Lisboa mais de cem casas comerciais de vinhos. Portugal era sem maior exagero a "vinha do Inglês", e não tardaria que em vinha do inglês, como expressão de dominio econômico, se transformasse o Brasil: a transferencia da familia real portuguesa para a sua colonia americana, processada sob os conselhos e o amparo da Inglaterra, ia propiciar o ensejo.
Inicialmente, o ato de abertura de nossos portos, em 1808, ao comercio das nações amigas, equivalia a abrí-los de preferencia aos britânicos. Começa então a história propriamente dita das relações anglo-brasileiras, pouco estudada entre nós até agora e para cujo conhecimento o novo livro de Gilberto Freyre traz contribuição definitiva. Sem hesitações, os ingleses se convenceram de que encontrariam no Brasil excelente oportunidade para a expansão de sua industria e de seu comércio; e, aproveitando-se, como bons realistas, das circunstancias favoraveis, continuaram a mesma política que vinham pondo em prática com Portugal : obter o máximo de favores, o máximo de parecia então habitada apenas pelos últimos. Não se poderá acusar de enfático quem disser que os primeiros anos de D. João no Brasil foram de quase curatela inglesa. Se ao tão falado apetite do príncipe regente não correspondiam boas digestões, seus pesadelos hão de ter sido muitas vezes com Lord Strangford, o britânico de pouco tato sempre a imiscuir-se em negocios que não lhe diziam respeito, e apontando por maldizentes da época como amoroso de Carlota Joaquina. A verdade é que Strangford se viu obrigado a deixar o Rio de Janeiro em seguida à queixa de D. João ao governo britânico, mas depois de haver imposto (imposto talvez apenas por simbolizar a força protetora) os tratados de 1810 – o de comercio e navegação e o de amizade e aliança.
Esses tratados, que não passavam, em última análise, de edições corretas e aumentadas dos tratados anteriores, suscitaram sem demora as mais acerbas críticas. Houve sem dúvida quem os defendesse, o futuro Cairú à frente; Henry Koster pretendeu também demonstrar-lhes as excelencias, inclusive a da cláusula relativa à justiça especial, o chamado "Juiz Conservador da Nação Inglesa", criado aliás desde 4 de maio de 1808: mas Hipólito da Costa analisou-os admiravelmente no Correio Braziliense, e a opinião geral não se deixou iludir. Em pouco os ingleses se tornaram impopulares, e mais do que ninguém os comerciantes portugueses, até então donos sem concorrencia do comercio do Brasil, fomentaram essa hostilidade. Um deles disse que eram" uma aranha por toda parte" e que se devia temer mais um escritório comercial inglês do que todas as peças da artilharia britânica. De fato os portos brasileiros foram rapidamente abarrotados de toda sorte de mercadorias inglesas, produtos de ferro, vidro, cobre, lã, louça, cutelaria, moveis, sapatos, roupas, colchões e, segundo Sierra y Mariscal, até caixõezinhos já enfeitados para enterrar crianças.
Cumpre todavia encarar a atividade dos ingleses entre nós na primeira metade do século XIX sob outros prismas que não o da ganancia comercial e não perder a serenidade de julgamento diante dos excessos e das impertinencias do seu então jovem imperialismo. é o que faz Gilberto Freyre. Não que lhe falte ânimo para exprobrar demasias ou que omita a arrogancia de certos súditos de Sua Majestade Britânica. Mas um ensaio como Ingleses no Brasil há pouco espaço ou até não há nenhum para definições de ordem moral ou considerações de índole política. Não se visa a fixar o sentido do imperialismo britânico nas suas relações com o Brasil, a conquista de mercados através de tarifas aduaneiras conseguidas mais pelas imposições de nação poderosa do que por conveniencias recíprocas; nem se tem em mira a influencia inglesa por detrás das notas do Foreign Office ou de seus diplomatas nem sempre macios. Não estarão em cena ingleses eminentes, grandes homens, mas negociantes, cônsules, missionarios, engenheiros. O que se vê neste livro é realmente o estudo histórico-sociológico da influencia britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil, à luz de uma sempre arguta interpretação psicológica. E isto feito sem nenhuma especie de improvisação, com o arrimo de tão copiosa massa de documentos que a alguns leitores pareceria até prodigalidade ou luxo. Reparo entretanto descabido, já que isso assume para o autor senão a importancia de um sistema, pelo menos a de uma técnica de trabalho voluntariamente adotada. Dessas centenas e centenas de anuncios de jornais e de oficios de cônsules, transcritos ou citados, Gilberto Freyre extrai tudo o que é indispensavel para definir os traços culturais acrescentados à vida brasileira graças ao contacto com homens, idéias, costumes, objetos, cousas de procedencia inglesa. Marca britânica de que já haveria algum sinal antes, mas que se acentuou e cresceu com a chegada da família real portuguesa em 1808, ano dessa chegada e da dos ingleses; não só de Lord Strangford e Sir Sidney Smith, como de muitos comerciantes e aventureiros. De um John Luccock ou de um John Mawe, por exemplo. Daí em diante, em ritmo acelerado, aportariam aqui, ao lado d homens, artefatos ingleses, objetos de ferro, de aço, de cobre, de vidro, atuando decisivamente sobre a psicologia dos brasileiros e a paisagem urbana.
Gilberto Freyre dá-nos um imenso rol de tudo quanto se ficou a dever aos ingleses, desde o uso do chá, da cerveja e do pão de trigo, até o bife com batatas, a residencia em suburbio, o water-closet e – last but not least – o juri e o habeas-corpus. Dívida enorme, mas que rivaliza no vulto com a que contraimos com os franceses. E seria interessante pesquisar até onde algumas influencias inglesas, principalmente de ordem política e intelectual, vieram por intermedio da França, onde não faltaram nunca anglicistas e anglófilos. Havia aquí mais gente sabendo ou lendo francês do que inglês e as obras de autores britânicos chegavam em francês, como Tactique des Assemblées, de Bentham, cuja venda João Pedro da Veiga e Comp. Anunciavam pelo Diário do Rio de Janeiro de 11 de outubro de 1823. Não quer isso dizer que não se conhecesse a lingua inglesa, nem que os livros ingleses não fossem lidos. Se é certo que desde 1699 se criara no Rio uma aula de francês para militares, ao tempo de D. João VI havia professores regios não só de francês como de inglês. Evaristo da Veiga foi discípulo, em 1818, de João Joyce, que lhe passou atestado pela "rapidez, perfeição e facilidade" com que traduzia o idioma inglês. Então, decorridos já dez anos de acentuada preponderancia britânica nos negocios do Brasil, não faltaria quem possuisse livros ingleses. Não seriam apenas os numerosos comerciantes súditos de S.M.B., a expulsarem os portugueses das antes tão portuguesas ruas Direita, da Alfândega, dos Pescadores, do Rosario, da Quitanda, os únicos que liam em inglês. Evaristo não constituia exceção.
Neste ensaio se focalizam todas as atividades em que se empenharam os britânicos no Brasil, tudo quanto "o capital e a técnica, o espirito de aventura e o espírito de organização, a ciencia e o comercio dos ingleses" realizaram ou tentaram realizar. Se comerciantes britânicos se espalharam por nossas cidades, de preferencia Rio, Recife e Salvador, não escassearam os empreendimentos ingleses de mineração e, quando a tração a vapor permitiu as estradas de ferro, mais do que em qualquer outra esfera os ingleses patentearam aí a sua superioridade técnica e científica. Este é dos aspectos mais originais e ricos de sugestões do grande livro que se acrescenta hoje à Coleção Documentos Brasileiros. Ao estudá-lo, Gilberto Freyre proporciona a seus leitores algumas das melhores páginas de toda a sua obra de sociólogo e historiador social, porque nelas está o ensaista que sabe penetrar a parte humana – no melhor sentido da expressão – da empresa comercial ou industrial, a porção de aventura e até de poesia escondida no construtor de ferrovias ou no explorador de minas.
Nova luz traz Ingleses no Brasil no tocante à valorização entre nós de oficios ou profissões antes tido como despreziveis ou menos nobres – de mecânico, por exemplo, ou de negociante. Quanto a este, nota que a figura do comerciante em grosso se emparelhou com a dos fildagos e desembargadores, pelas moradias, pelas roupas, pelas carruagens. Influencias inglesas no vestuario, no chapéu, na jaqueta, nas casacas, nas meias, nos lenços, nas luvas, nas calças de montaria, tudo desses panos, lãs e tecidos que a industria britânica orgulhosamente fabricava, desbancando fazendas orientais antes tão apreciadas. Influencias inglesas nos objetos de uso doméstico, como as louças que poriam em cheque as asiáticas tão comuns aquí que o Almanaque do Rio de Janeiro, de 1792, mencionava na pequena cidade colonial nada menos de doze lojas de louça da India. Influencias inglesas de ordem menos material verificada na forma do culto religioso. Influencias inglesas na conduta de cada dia pelo hábito da pontualidade aos encontros marcados, na ética dos negocios pela venda escrupulosa de produtos segundo a qualidade e o estado de conservação indicados nos anuncios de jornal. Influencias inglesas que em muitos casos assumiam ares de invasão e de conquista, dada a soma de privilegios que os tratados imperialisticamente impostos asseguravam, desde as tarifas escandalosas até a justiça de exceção, o odioso Juiz Conservador da Nação Inglesa, atentatorio da soberania do jovem Imperio brasileiro. Esses aspectos da expansão inglesa entre nós mais do que quaisquer outros da suscitaram a impopularidade dos "beefs", "baetas", "gringos", "novas-seitas", "bodes" das alcunhas populares.
é bem conhecido o ato do governo de D. João contra as rótulas e gelosias de urupema. Sua substituição por grades de ferro e vidraças revestiu-se de um carater quase revolucionario, que Gilberto Freyre assinala, sugerindo explicação nova e plausivel – pressão de ingleses interessados na venda de ferro e vidro. De um dia para outro começou a chegar da Inglaterra vidro em grandes quantidades, de todas as espécies, para todas as serventias. E também ferro. Vidro e ferro passaram a caracterizar as casas brasileiras. "De 1808 a 1830 poucos os brigues vindos da Inglaterra para o Brasil sem essas quatro ou cinco mercadorias básicas do comercio britânico com a América portuguesa: vidro, ferro, fazenda, louça, bacalhau". Os jornais ficaram pejados de anuncios de vidro. Ter vidro ou vidraças passou a ser vantagem incalculavel. Casas, carruagens, até os homens com os diversos aparelhos de ótica, todos beneficiando do vidro. A mística do vidro, avança Gilberto Freyre. Por ocasião da abertura dos portos do Brasil ao comercio das nações amigas, na "nação amiga" por excelencia – a Inglaterra – as indústrias do ferro e do vidro haviam logrado posição das mais consideraveis. Conquistar, pois, para os seus produtos de ferro e de vidro, um mercado por assim dizer virgem como o nosso, atiçaria por certo a cobiça dos negociantes ingleses; e é por isso que o autor deste livro levanta, em face das consequencias do ato proibitivo das gelosias, a hipótese de manobras astuciosas de britânicos junto a governantes poderosos ou a seus parentes. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, anglófilo notorio, poderia estar nessa trama, ou, como diriamos hoje, nesse episódio de advocacia administrativa. O reinado americano de D. João VI mereceu a pecha de corrupto, e Oliveira Lima, conhecedor máximo desse periodo histórico, não faz misterios a respeito. Talvez o conde de Linhares seja lembrado, de preferencia a outros, por sua dedicação aos ingleses, que era um pouco o avesso do seu horror aos "abominaveis principios franceses", sua repugnancia à grande Revolução . Terá mesmo ele influenciado o Intendente Geral da Policia, Paulo Fernandes Viana, no edital de 11 de junho de 1809 contra as gelosias? é muito provavel que tenha havido nessa medida sugestão ou pressão de interessados na venda de ferro e vidro. O certo é que a determinação, baixada a pretexto do motivos estéticos e de saude pública, se cumpriu rapidamente, e o louvaminheiro padre Luís Gonçalves dos Santos registra que nunca se executara "ordem superior com tanto gosto e igual satisfação". Gosto e satisfação de que participaram em termos de pecunia os comerciantes ingleses de ferro e vidro; ferro e vidro de que decorreram modificações profundas na paisagem brasileira e em que houve indisfarçaveis influencias inglesas.
Seria encarar estreitamente os fatos supor que só por interesse comercial os britânicos trariam alterações a nossa vida. Gilberto Freyre mostra como eles, revelando sempre o seu feitio de "admiraveis revolucionarios contemporizadores", souberam conservar o que havia de bom e do mesmo passo introduzir a novidade util ou agradavel. Foi por exemplo o que fizeram com as casas de residencia suburbana, com os jardins, com o mobiliario.
Servindo-se magistralmente de uma técnica de pesquisa de que foi pioneiro em O Escravo nos Anuncios de Jornal do Tempo do Imperio, o autor deste livro extraiu com paciencia de velhas gazetas um material de incomparavel valor. Quase se pode afirmar que toda a sua documentação repousa em anuncios de jornais; nestes e em esquecidos oficios de cônsules. Mas com esse apoio documental, na aparencia insignificante ou humilde, Gilberto Freyre chega a resultados verdadeiramente surpreendentes pela novidade, pela variedade, pelo rigor, pela segurança. Aliás, os velhos jornais não só nos seus anuncios guardam os sinais da influencia inglesa no Brasil e consignam os choques com outras influencias, sobretudo a francesa. Sem a pujança da Inglaterra, cujo desenvolvimento econômico não podia acompanhar, a França foi sempre sua rival no Brasil, a disputar-lhe a clientela comercial e o dominio dos espíritos. A Aurora Fluminense, em 1828, refletiu lances desse conflito. Para Evaristo os comerciantes franceses se contariam apenas entre cabeleireiros, alfaiates, perfumistas, dentistas e "damas do Palais-Royal", e suas lojas seriam apenas de "modas e nouveautés", ao passo que os ingleses estariam representados por "capitais muito fortes", isto é, por um comercio em grosso de artigos substanciais. Estava Evaristo respondendo a artigos de um francês ou afrancesado, aparecidos num jornal do tempo, acerca de costumes brasileiros. A França não influiu em nossa gente tão somente por suas modas femininas, suas cocottes, seus perfumes: influiu por suas idéias, suas doutrinas políticas, seus poetas, seus livros; influiu pelo extraordinario, universal prestigio de sua Revolução; e debaixo desse ponto de vista deixou à distancia a Inglaterra.
Mas isso não quer a influencia inglesa não tenha sido, sob múltiplos aspectos, de maior importancia; que não tenha significado, como acentua Gilberto Freyre, uma invasão, uma quase revolução, uma "alteração tão dramática no ambiente das cidades", que lembra a mudança de cenario nos teatros – pela rápida substituição de hábitos e estilos de vida, de alimentação, de higiene, de vestuario, de transporte e de divertimento. Influencia inglesa que levou os políticos do Imperio - particularmente do Segundo Reinado – a terem os olhos bovaristicamente voltados para a Câmara dos Comuns, para o sistema de governo de gabinete, que não fora consagrado pela Constituição de 1824, diploma impregnado de fundos ressaibos franceses. Influencia inglesa que se atritava com o aferro da classe dominante ao trabalho escravo e ao tráfico do negro, o que não impedia o recurso reiterado aos banqueiros de Londres para os empréstimos de que nos dá noticia a nossa lamentavel historia financeira.
Julien Benda aponta como uma das características do ensaio a ausencia do peremptorio. Este livro é, repita-se um ensaio da melhor qualidade: nenhuma suficiencia escolástica; nenhum pedantismo; as interpretações sugeridas à vista do material nuamente exposto aos olhos do leitor. Por isso, é um grande livro – o livro de um mestre.
Rio, outubro, 1947. OCTAVIO TARQUINIO DE SOUSA
Fonte: SOUSA, Octavio Tarquinio de. Prefacio In: FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948. 394p. (Documentos Brasileiros, 58).
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