NA BAHIA EM 1943
Prefácio
Em Novembro do ano passado levou-me á Bahia insistente convite dos estudantes de todas as suas faculdades e colégios, para ali realizar um curso ou proferir conferências. Por cinco dias fui hóspede dessa mocidade esplêndida; hóspede também da Cidade do Salvador e da gente baíana. O interventor Federal no Estado, o Prefeito de Salvador, Secretários de Estado, o Chefe de Segurança, as principais autoridades federais e militares, os representantes da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, todos se associaram aos estudantes na cordialidade em que a mocidade, os escritores, os artistas, os homens de ciência, os professores mais jovens, o povo, os jornais, as senhoras das mais ilustres famílias se extremaram em prestigiar um simples escritor brasileiro empenhado em luta que mais do que qualquer outra gente do Brasil os baíanos, e principalmente os estudantes da Bahia, consideram sua. E ai do Brasil si aqui não houvesse Bahias e estudantes e povo e intelectuais como os baíanos para luta tão necessária à causa não só, da dignidade brasileira como da própria salvação de uma república ainda indecisa em sua independência econômica, intelectual e mesmo política, do destino dos aglomerados inermes que as grandes potências julgam por isto mesmo merecedores de despotismos como os da mil e uma noites e de protetorados mais ou menos severos.
A Bahia tem nos estudantes seu principal nervo de resistência a quantas forças conspiram para amortecê-la em simples e doce curiosidade para os turistas, atração para os regalões, antiquários e alfarrabistas. São baianos, a maioria desses estudantes; mas muitos continuam a vir para Salvador das mais remotas províncias do Norte, do Centro e até do Sul do Brasil, tradicionalmente para a Bahia como o lugar por excelência dos "estudos". Principalmente para esse Terreiro de Jesus que os cartões postais com as primeiras palavras de saudade escritas pelos moços, primeiranistas de medicina, às mães distantes, têem tornado conhecido do Brasil inteiro.
Acabo de ver êsse Terreiro de Jesus num dos seus grandes dias. Acabo de vê-lo iluminado pelo espírito de resistência e de luta dos estudantes de todas as faculdades da Bahia. Esse velho recanto da mais ilustre cidade do Brasil não é só uma vista romântica de cartão postal; é uma ilustração para todo compêndio de história do Brasil que não foi escrito para desenvolver no espírito dos adolescentes e meninos brasileiros o conformismo, a inércia, a covardia, sob o falso nome de "espírito de ordem ". O lugar dêsse páteo é principalmente este: na história do Brasil, na história da cultura e da civilização brasileira, na história da liberdade civíl na América, na história da dignidade humana. Na história inacabada e viva de todos êsses valôres.
Enquanto o Terreiro de Jesus fôr o centro que é de resistência de grande parte da mocidade brasileira aos políticos e pedagogos empenhados em reduzir todos os estudos secundários e superiores em nosso país a latim, matemática e técnica, a Bahia continuará, por sua vez, cidade viva. Arrazem-lhe o Terreiro de Jesus - o que esse Terreiro tradicional representa – e os antiquários, os alfarrabistas, os caçadores de pitoresco podem considerar-se donos da Bahia.
Foi assim com Olinda. Que cidade teve o Brasil mais viva do que Olinda? Mais altiva? Mais senhora de si? Chegou a expulsar certo governador insolente que a Metrópole pretendeu impôr-lhe no seculo XVII. No seu Senado falou-se pela primeira vez em república no seculo XVIII. Começaram então os poderosos distantes a querer reduzir tão altiva cidade a burgo igual aos outros: tão podre quanto os mais podres. Cortaram-lhe privilégios. Deixaram o mato crescer pelas ruas e praças outrora ilustres. Mas só a reduziram ao simples regalo que e hoje para os antiquários quando arrancaram de lá suas principais escolas, e a maioria dos seus estudantes, deixando Olinda apenas com os velhos conventos e um seminário que é apenas a sombra do de Azeredo Coutinho.
De perigo igual não está de modo nenhum ameaçada a Bahia. Quem ousaria arrasar-lhe o Terreiro de Jesus ? Ou mudar daqui para cidade menos altiva qualquer de suas grandes escolas? Ou corromper e subornar ás dezenas seus estudantes fazendo de suas becas disfarces negros de agentes, secretas e investigadores de polícia como vai acontecendo no pobre Recife de hoje?
Quem acaba de ver como eu em cinco memoraveis dias o que é a solidariedade da Bahia com seus estudantes, o respeito da Bahia velha e mesmo rica por sua mocidade mesmo quando pobre e desejosa de um mundo sem plutocratas nem exploradores do povo, o prestígio da gente mais nova nesta outrora metrópole que continúa, sob vários aspectos, a mais cidade das cidades do Brasil, a repugnância dos melhores católicos baíanos pelo clericalismo jesuítico e anti-brasileiro – não tem direito nenhum de duvidar da capacidade brasileira de resistência a todas aquelas fôrças que trabalham por nos amolecer a todos, baíanos e amazonenses, pernambucanos e mineiros, paulistas e riograndenses do sul. Alagoanos e paraíbanos, cearenses, brasileiros de todas as províncias e regiões, de todas as condições e ofícios, católicos e acatólicos, em homens macios como eunucos que só escravos oprimidos, saibam dizer sim aos caprichos dos poderosos; e dizer-lhes sim como os meninos timidos e balançando apenas com as cabeças amedrontadas.
Concordando com o grupo de amigos que resolveu reunir em volume as duas conferências que li na Bahia e o discurso que proferi no banquete com que me honraram generosamente os baíanos, e também – ou principalmente – os discursos de estudantes e professores que me receberam em nome de seus colegas com igual generosidade e com desassombro notável e os principais artigos, editoriais e de colaboração, aparecidos na imprensa da Bahia e do Rio a proposito das mesmas conferências e discursos e dos acontecimentos que determinaram o convite que me levou á Bahia, faço-o como homenagem aos meus amigos baíanos: ao seu espírito de luta e de solidariedade com os que hoje trabalham não só por um Brasil, como por um mundo melhor.
G.F.
Sto. Antonio de Apipucos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Na Bahia em 1943. Rio de Janeiro: Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1944. 210p.
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