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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



NORDESTE
Prefácio

Este ensaio é uma tentativa de estudo ecologico (*) do Nordeste do Brasil. De um dos Nordestes, accentue-se bem, porque há, pelo menos, dois, o agrario e o pastoril; e aqui só se procura vêr de perto o agrario. O da canna de assucar, que se alonga por terras de massapê e por varzeas, da Bahia ao Maranhão, sem nunca se afastar muito da costa.

Vêr simplesmente. Não se trata de sondagem nem de analyse minunciosa. A analyse ecologica de uma região tão complexa seria tarefa para mais de um auctor, e não para um só; e também para mais de um volume.

Aqui apenas se tenha esboçar a physionomia daquelle Nordeste agrario, hoje decadente, que foi, por algum tempo, o centro da civilização brasileira. Do outro Nordeste traçará o perfil para esta collecção um dos conhecedores mais profundos de sua formação social – Djacir Menezes.

O critério deste estudo já disse que é um criterio ecologico. O centro de interesse, o homem, fundador de lavoura e transplantador e creador de valores á sombra da agricultura ou antes, da monocultura da canna. O homem colonizador, em suas relações com a terra, com o nativo, com as aguas, com as plantas, com os animaes da região ou importados da Europa ou da Africa.

Tal estudo, mesmo schematico e quasi impressionista como é, exigiu incursões em varias especialidades, ligadas ao problema social da adaptação do colonizador – europeu ou africano – ao meio regional. Mas é claro que em nenhuma dessas especialidades o auctor fez mais do que recolher de trabalhos já classicos – o de Philipp von Luetzelburg sobre a botanica do Nordeste, por exemplo – ou de pesquisas ainda a meio, mas revelando aspectos ignorados ou despresados da pathologia regional, como as de Ulysses Pernambucano e as de Aggeu Magalhães sobre a aschistosomose de Manson nos rios de engenho – material necessario ao esclarecimento e á interpretação daquelle processo de adaptação do português e do africano ao meio regional ou do seu dominio sobre esse meio. Adaptação e dominio que se precessaram, quer atravez de ajustamentos, ás vezes tão felizes, quer de violenciais, nem sempre fecundas, antes de um valôr todo transitorio e este mesmo em beneficio de alguns individuos, de algumas familias ou, quando muito, de uma classe, de um sexo, quasi exclusivamente de uma raça, interessada na cultura de uma planta única: a canna de assucar.

Esse exclusivismo pode-se dizer que caracterizou, como nenhum outro facto, a civilização do assucar no Nordeste, depois de ter condicionado a sua colonização e a sua conquista pelos portuguêses. A monocultura latinfundiaria e escravocrata e, ainda, monosexual –o homem nobre, dono de engenho, gosando quasi sozinho os beneficios de dominio sobre a terra e sobre os escravos – deu ao perfil da região o que elle apresenta de aquilino, de aristocretico, de cavalheiresco, embora um aristocratismo, em certos pontos, morbido, e um cavalheirismo ás vezes sadico.

Impossivel afastar a monocultura de qualquer esforço de interpretação social e até psychologica que se emprehenda do Nordeste agrario. A monocultura, a escravidão, o latifundio – mas principalmente a monocultura – aqui é que abriram na vida, na paizagem e no carater da gente as feridas mais fundas. O perfil da região é o perfil de uma paizagem ennobrecida pela capella, pelo cruzeiro, pela casa-grande, pelo cavallo de raça, pelo barco á vela, pela palmeira imperial, mas deformada, ao mesmo tempo, pela monocultura latifundiaria e escravocrata; esterilizada por ella em algumas de suas fontes de vida e de alimentação mais valiosas e mais puras; devastada nas suas mattas; degradada nas suas aguas.

Quasi o mesmo que se passou no Nordeste do Brasil, e no Sul, na baixada do Rio de Janeiro, verificou-se noutros trechos da America onde a colonização européa teve por base o assucar; a monocultura, o latifundio e a escravidão prevaleceram tanto quanto aqui.

Barbados foi quasi um relento de Pernambuco.

Dizem os seus historiadores que o seu marinheiro inglês John Powell voltava de Pernambuco á Europa em 1625 quando tocou na ilha, já visitada por outros viajantes. As vantagens de lucro com o assucar, tão evidentes no Nordeste do Brasil, talvez actuassem sobre a imaginação de Powell que tomou posse da ilha para a Inglaterra. Mas só em 1640 começou-se a produzir exclusivamente assucar em Barbados, por quinze annos feliz sob a polycultura e a pequena propriedade. Diz o Professor Harlow que o primeiro plantador de canna na ilha foi o coronel Holdip; que elle e os demais iniciadores da monocultura em Barbados se utilizaram da experiencia dos monocultores brasileiros, alguns vindo até cá inteirar-se melhor do processo agricola e do industrial de fabrico do assucar. Barbados parece que gosou ainda das vantagens de emprego de capital hollandês e provavelmente judeu, depois da reconquista do Nordeste pelos portuguêses. (**)

Teve alguns annos de progresso extraordinario. Quasi o luxo de Pernambuco. Quasi o fausto do Reconcavo ou da baixada do Rio de Janeiro.

Mas luxo e fausto ainda mais passageiros do que no Nordeste do Brasil. A escravidão afastou a colonização livre que correra para a ilha de 1625 a 1640, attribuindo-se depois ao clima o exodo desses brancos que se viram de repente uns phantasmas no meio de tanta canna e de tanto negro . O latifundio venceu a pequena propriedade: certo capitão Waterman, senhor de engenho, entrou a occupar sozinho, com seus cannaviaes, as terras a principio occupadas por quarenta familias dedicadas a varias culturas.

Barbados, apezar da religião e da raça tão differentes dos seus colonos, ficou, por muito tempo, sociologicamente, quasi um pedaço do Nordeste do Brasil. A vida, a paizagem e o caracter da gente, marcados pelas mesmas influencias economicas e sociaes, cuja acção se estendeu ás varias Antilhas . Sempre mais duro que o colonizador português, o colono inglês de Barbados, de Jamaica, de Trindad, deu á monocultura da canna sabor ainda mais crú do que entre nós. O professor Mathieson – outro estudioso da colonização inglêsa das Antilhas – recorda que se chegou a gravar com pesado imposto a terra destinada á producção de alimentos. No Nordeste do Brasil, a administração portuguesa dos tempos coloniaes insistiu quasi sempre, pela necessidade das culturas ancillares, tão suffocadas pela da canna.

Em Cuba, a monocultura da canna, a escravidão africana e o latifundio deram á paizagem traços e côres que a aparentam, tanto quanto Barbados, da paizagem do Nordeste. A competição, a rivalidade dos engenhos entre si, disputando-se como inimigos a materia prima, foi um processo cubano bem parecido com o brasileiro, principalmente ao começar o predominio das uzinas nas terras do Nordeste. Nesse processo de imperialismo industrial, lá como aqui, teve acção poderosa a estrada de ferro particular, dando á uzina tentaculos com que ir buscar canna em trechos remotos. Só o custo do transporte impoz limites a esse imperialismo tentacular das uzinas, cada qual fazendo de extensões enormes, terras exclusivamente de canna e descuidando-se da valorização agricola das areas já desvirginadas.

Outro caracteristico commum ás varias regiões americanas de colonização monocultora, ou pelo assucar – tão intensa no Nordeste do Brasil – foi e, em certos trechos é ainda, o emprego do trabalhador apenas durante uma parte do anno, a outra parte ficando uma epoca de ocio e, para alguns, de voluptuosidade, desde que a monocultura, em parte nenhuma da America, facilitou pequenas culturas uteis, pequenas culturas e industrias ancillares ao lado da imperial, de canna de assucar. Só as que se podem chamar de entorpecentes, de goso, quasi de evasão, favoraveis áquelle ocio e áquella voluptuosidade : o tabaco, para os senhores; a maconha – plantada, nem sempre clandestinamente perto dos cannaviaes – para os trabalhadores, para os negros, para a gente de côr; a cachaça, a aguardente, a branquinha.

A sugestão ahi fica esclarecendo talvez um aspecto, até hoje esquecido, da pathologia social da monocultura. Não parece simples coincidencia que se surprehendam tantas manchas escuras de tabaco ou de maconha entre o verde claro dos cannaviaes. Houve evidente tolerancia – quando não mais-que-tolerancia – para a cultura dessas plantas voluptuosas, tão proprias para encher de langor os largos mezes do ocio deixados ao homem pela monocultura da canna. Largos mezes que sem um bom derivativo podiam resultar perigosos para estabilidade dos grandes senhores de terras de assucar. Estes, por sua vez, tornaram-se os maiores fumadores de charutos finos. Precisamente em dois fócos de civilização assucareira – em Cuba e na Bahia – é que se aperfeiçoou o fabrico dos charutos. O mesmo, talvez, se possa dizer dos cigarros de maconha que, nos portos do Nordeste, ainda hoje, nordicos viciados na liamba chegam a comprar por altos preços aos vendedores da terra.

O latifundio assucareiro, escreve Ramiro Guerra y Sanchez, referindo-se ás Antilhas, particularmente á Cuba, é "uma industria que cresce territorialmente e que gyra em um circulo vicioso do qual não pode escapar, vendo-se arrastada fatalmente á superproducção..." E ainda, escrevendo quasi na terminologia de Sorokin :" Si a empresa latifundiaria crescesse verticalmente, á maneira de um gigantesco arranha-ceu, em vez de fazel-o horizontalmente, talvez nada tivessemos que oppôr a ella ". Mas ella cresce em extensão; não se cansa de engolir terras para a pratica da cultura extensa da canna, despresando a intensa, que implicaria na solução de problemas como o do mosaico, no cultivo da canna de melhor rendimento; no desenvolvimento da irrigação e do adubo das terras mais comcentradas.

Entre nós, essa cultura por extensão se tem feito a grande e em prejuizo dos interesses geraes da região. Em Pernambuco ella occupa ¾ da zona chamada da matta – a mais fertil do Estado. Não se dá attenção á semente . Quasi não se liga importancia ás doenças da canna. Exceptuadas algumas uzinas modernas, nas outras e nos engenhos só se extrae da canna 6, 7 e 8 % de assucar. E é bem experssivo o seguinte facto: nos ultimos cincoenta annos construiram-se no Estado 2.000 kilometros de estradas de ferro de uzinas, sem que as vantagens de lucro tenham compensado despesa tão grande.

Aqui, como em Cuba, a industria de assucar quasi só tem feito crescer "territorialmente," ao mesmo tempo que o homem vem sendo diminuido por ella, que as aguas veem sendo degradadas pelas uzinas, as mattas devastadas pelo systema monocultor.

Este trabalho já disse que era quasi impressionista. A civilização do assucar no Nordeste exige uma analyse demorada, que só se poderá fazer, com inteira amplitude scientifica, juntando-se varios especialistas para um esforço commum; e reunindo-se toda a documentação possivel: a anthropologica; a geologica como a botanica.

Fica, entretanto, nestas paginas, uma visão da paizagem, da vida e do homem do Nordeste que a monocultura da canna feriu mais profundamente.

Como os estudos anteriores, este, apezar de mais impressionista, tambem exigiu pesquisas pelos archivos regionaes e portuguêses; esforços de investigação; varias excursões pelas velhas zonas de plantação de canna.

No trabalho de copiar documento, no de traducção e, ainda, no preparo do Ms, tive, como das vezes passadas, o auxilio de companheiros mais jovens de estudo: Diogo de Mello Menezes, Ivan Seixas, Clarival Valadares, Carlos Gilberto Cavalcanti, Archimedes de Mello Netto. A este, que passou a limpo o trabalho com tanta intelligencia e tanto esmero, os meus melhores agradecimentos.

Meus agradecimentos, ainda, ao Secretario da Agricultura do Estado de Pernambuco, o agronomo Lauro Montenegro, empenhado numa obra tão sympathica de renovação das praticas agricolas na zona pernambucana do assucar, e aos seus collaboradores. Agradecimentos pelos dados officiaes que me forneceram e que foram aqui aproveitados no texto e em mappas. Particularmente os dados da Directoria de Estatistica, preparados sob a direcção cuidadosa de Paulo Pimentel e Souza Barros.

A .M. Bandeira agradeço a valiosa collaboração artistica, principalmente o mappa, com que abre este ensaio, fixando os elementos mais caracteristicos da paizagem cultural do Nordeste agrario : o triangulo – engenho, casa e capella. A Augusto Rodrigues, os oito retratos destacados de sua colleção de photographias de titulares pernambucanos. A Alvaro Ferraz, chefe do serviço anthropologico da Brigada do Estado de Pernambuco, as photographias de mestiços eugenico do Nordeste.

(*) O estudo ecologico é aquelle que se occupa da planta, do animal ou do homem em relação com o meio ou com o ambiente. Completando pelo estudo cultural, poderá dar á sociologia as suas melhores condições de sciencia e á philosophia social a sua visão mais larga. Sob esse critério é que o autor prepara o seu livro, a sahir breve, Traços de sociologia regional (introducção á ecologia humana), trabalho didactico em desaccordo com os programmas officiaes. A bibliographia ecologica é nova e quasi toda em lingua inglesa e já inclue trabalhos de valor, entre outros: R. N. Chapman, Animal ecology, F. E. Clements, Research methodys in ecology, A . S. Pearse, Animal ecology, E. Warming, Oecology of plants, C. S. Elton, Animal ecology and evolution, R. Mukerjee, Regional Sociology, T. W. Bews, Human ecology. E ainda: R.Mukerjee, "Social ecology of a river valley," Sociology and Social Research, vol.XII, 1927-1928, L.L.Bernard, "Introductory statement regarding human ecology", Publications of the American Sociological Society, vol.XXIII, 1929, R.D. McKenzie, "The City, ed. Por Park e Burgess. Neste trabalho se define o sentido mais restricto de ecologia humana, segundo a Escola Sociologica de Chicago. Sobre o assumpto veja-se tambem R. E. Park, "The concept of position in sociology", Publications of the American Sociological Society, vol. XX,1925.(Volta)

(**) Veja-se Vincent T. Harlow, History of Barbados, 1625-1685. Oxford 1926. Tambem James A . Williamson, The Caribee Islands under the proprietary patents, Oxford 1926 e H. A . Wyndham, The Atlantic and slavery, Oxford 1935.(Volta)

GILBERTO FREYRE.
Engenho Queimadas, 1936
Recife, 1937.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influencia da canna sobre a vida e a paizagem do nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937. 267p.

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