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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



NÓS E A EUROPA GERMÂNICA
Prefácio


Reúne este livro um grupo de ensaios que podem ser, talvez, classificados, como de Sociologia da História, em tôrno de alguns aspectos das relações do Brasil, em geral, de Pernambuco, em particular, com a Europa germânica, no decorrer do século XIX. principalmente nos meados do mesmo século.

Na sua maior parte, é material de todo inédito. Parte dêle, é certo, foi objeto de uma pequena comunicação ao 1º. Colóquio de Estudos Teuto-brasileiros, reunidos em Pôrto Alegre, e de outra comunicação, mais extensa, ao 2º. Colóquio reunido no Recife em 1968. Trabalho, êste, que não foi até gora publicado. Tampouco foi publicada a parte utilizada num curso sôbre o assunto professado no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais durante o mês de março de 1970, no qual se inscreveram perto de 200 jovens, na maioria universitários, além de outras pessoas interessadas na matéria.

E matéria digna da melhor atenção brasileira. Inclusive a que, se refere a contatos pernambucanos, ou do Norte e do Nordeste, com a Europa germânica. Pois o que se tem escrito sôbre as relações brasileiras com êsses europeus vem deixando na sombra tal aspecto para concentrar-se na análise e na interpretação dos contatos dos brasileiros do Sul com aquela Europa. O que representa, de início, uma injustiça histórica, pois as relações do Brasil com a Europa germânica tiveram seu comêço em Pernambuco e foram aqui consideráveis no decorrer do século XIX – o século, inclusive, da Escola do Recife. Nos meados daquele século o Recife chegou a reunir europeus-germânicos de várias procedências e de diversos ofícios.

Sôbre os contatos do Sul do Brasil com a Europa germânica são já numerosos os estudos publicados, dentre os quais avultam La Colonisation Allemande et le Rio Grande do Sul, de Jean Roche (Paris, 1959), o de Aurélio Pôrto sôbre o Colono Alemão ( Rio, 1934), os de José Ferreira Da Silva sôbre Blumenau ( Florianópolis, 1940), Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil ( tr. S. Paulo, 1956), de Iva von Binger, a parte relativa a alemães que se encontra no trabalho de Manuel Diegues Júnior, Etnias e Culturas do Brasil ( Rio, 1963), O Alemanismo no Sul do Brasil, de Sylvio Romero ( Pôrto, 1910), os notáveis estudos sociológicos, quer de Egon Shaden, como " Aculturação de alemães e japonêses no Brasil" (Revista de Antropologia, S. Paulo, jun., 1956), quer de Emílio Willems, como a Aculturação dos Alemães no Brasil ( S. Paulo, 1946). Trabalhos aos quais se acrescentaram, nos últimos anos, os apresentados ao 1º. e ao 2º. Colóquios de Estudos Teuto-brasileiros, os últimos, infelizmente, ainda inéditos. O que é pena, pois contêm contribuições de alto valor, inclusive as de mestres da eminência de Helmut Schelsky, da Universidade de Münster, e de Jean Roche, da Universidade de Toulouse que, aliás, ao encerrar-se o mesmo Colóquio, na cidade do Recife, foram doutorados h. c. pela Faculdade de Direito – a de Tobias Barreto – da Universidade Federal de Pernambuco.

Sôbre os contatos do Norte e de Nordeste do Brasil com a Europa germânica – que incluem os do período da ocupação holandesa do mesmo Nordeste – é ainda pobre, embora de alta qualidade, a contribuição, quer da parte de estudiosos brasileiros, quer de procedência germânica. Podem ser mencionados os de Alfredo de Carvalho, incluídos na Biblioteca Exótica Brasileira e em Aventuras e Aventureiros ( Rio, 1930), o de Otto Quelle sôbre " A situação germânica no Estado da Bahia" ( Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, Salvador, 59, 1933 ) o de Artur César Ferreira Reis, " Participação alemã nos primórdios da Amazônia" ( Anais do 1º. Colóquio de Estudos Teuto-brasileiros, Pôrto Alegre, 1963), o de Alfredo Carlos Schmalz, " 400, anos de presença germânica em Pernambuco", aparecidos nos mesmos Anais; os de Guilherme Auler, A Companhia dos Operários, 1839-1843, ( Recife, 1959), e " Presença de alguns artista alemães no Brasil"( Anais, 1963), e " Os colonos de Santa Amélia, Pernambuco, 1829) ( Anais, 1963). E nos trabalhos globais de Carl, ou Carlos H,. Oberacker Jor., sôbre a contribuição germânica para a cultura brasileira e de B. Brandt, Geografia Cultural do Brasil ( tr. Rio, 1945), encontram-se interessantes considerações sobre a presença, ou não, de europeus-germânicos no Nordeste e no Norte – na obra do historiador, salientada a presença, na obra do geógrafo, destacada a ausência norte-européia nessas áreas e sua triunfante presença no Sul do país, com conclusões arbitrárias sôbre êsse contrate e o seu futuro. Também J. A. Gonsalves de Mello, à margem de seus trabalhos mais notáveis, tem, mais de uma vez, versado assuntos relacionados com a presença germânica em Pernambuco, tendo reunido, de notícias e anúncios de jornais, informes exatos sôbre datas da chegada ao Recife dos principais artistas, artesãos, técnicos aqui estabelecidos no decorrer do século XIX. Alguns desses informes, ainda inéditos, são utilizados neste livro, junto com os colhidos na mesma fonte pelo autor.

É um livro, o que agora aparece sôbre o assunto, em que a unidade do critério sociológico seguido – o de tentativa de interpretação menos de ocorrências, quase nada de ocorrências grandiosas, que de recorrências, quase tôdas destacado do cotidiano, embora com significados culturais possìvelmente valiosos para a compreensão do supracotidiano – se junta a verdade de pontos de vista com que a matéria é versada em alguns – sòmente uns poucos – dos seus vários aspectos. Não se trata de trabalho bem ordenado para fins didáticos: será, quando muito quase ou paradidáticos. Nêle avultam as repetições, aliás muito do autor: seu defeito, segundo críticos literários ilustres, como escritor. Mas é possível que sua quase virtude como quase ou paradidata bissextíssimo. Pois das repetições se sabe que, mesmo desagradáveis a quantos se esmeram em exigir dos autores pureza de elegância de composição, têm seus méritos, grandes ou pequenos, conforme a eminência dos mesmos autores. Grandes méritos, num Proust, por exemplo, que delas abusou como que sistemàticamente, sabendo fazer, dêsses abusos, aliados do seu poder de evocação genialmente analítica. Méritos bem menores em autores menos insignes. Das repetições, que aparecem deselegantemente neste livro, talvez algumas, servindo para acentuar, em recorrências de comportamento germânico no Brasil do século XIX sua generalidade de interêsse sociológico, cumpram sua missão. Mesmo assim, o leitor saiba desculpar as que, podendo ter sido evitadas, não o foram.

Em mais de uma página, das que se seguem, se sugere, dos alemães no Brasil, terem conseguido, no decorrer do século XIX, vantagens em vários setores em sua competição – especìficamente comercial, ao mesmo tempo que amplamente cultural, com inglêses e franceses. Conseguiram-nas, com relação ao piano, substituído pelo seu, -- até a década quarenta, dominante piano inglês: êsse triunfo não foi só do piano mas da música, que se tornou expressão significativa da projeção da cultura germânica no nosso país. Conseguiram-na quanto à cerveja: a cerveja de tipo germânica superior à inglêsa, por algum tempo dominante no Brasil. O presunto de Westfália – indicam-no os anúncios de jornais – tornou-se rival do de York, inglês. O móvel alemão tornou-se no Brasil, o dominante, entre os importados da Europa. Os vinhos alemães tornam-se os da preferência de não poucos brasileiros, entretanto assim em competição com os franceses. O mesmo se verificaria com relação aos brinquedos para crianças: os alemães ganhariam prestígio no Brasil sem se tornarem, porém, -- tanto quanto se possa verificar através de anúncios de jornais – os dominantes. êsse Domínio ou primado seria alcançado, já no comêço do século XX, pelos remédios, pelas drogas, pelos produtos químicos alemães. Também se verificou nesse período, ascendência na competição dos alemães com os inglêses, no setor dos motores de fôrça, cofres e de máquinas: competição vinda dos fins do século XIX. No setor mais abstrato da cultura, além da música, a filosofia germânica chegaria ao fim do século XIX – graças principalmente à explosiva ou revolucionária " Escola do Recife", animada pelo vulcânico Tobias Barreto mais do que por qualquer outro – em franca competição com a inglêsa e a francesa. Competição que também se acentuaria, no fim do século XIX, da parte de alemães, com relação a inglêsa e franceses, em tôrno de artigos de porcelana. Em tôrno também de tintas. E no comêço do século XX, a competição alemã, com os inglêses, se projetaria, desenvolvendo antecipações vindas do século XIX, sôbre setores ainda mais castiçamente britânicos: que o ferro, as máquinas, a porcelana: o transporte marítimo e os bancos. é o que indicam, de modo expressivo, anúncios tanto no Diário de Pernambuco, do Recife, como no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. Enquanto, num setor nôvo de produção técnica – os artigos fotográficos – os alemães desde o início se apresentam superiores ao seus competidores.

Assinale-se que, na competição com o vapor inglês de passageiros, a competição germânica se acentua, desde o fim do século XIX, ganhando relêvo no comêço do século XX, -- comêço do século XX por alguns historiadores sociais e sociólogos considerado século XIX até 1914 – favorecida pela música: anúncios da linha Hamburgo – América salientam que, nos seus vapôres, a música de orquestra e de piano – não era proporcionada aos passageiros sòmente à noite mas também a tarde, " quando todo passageiro" – sublinha um dêsses anúncios – descansa na sua espreguiçadeira no convés". E pormenoriza-se ser tal música proporcionada tanto ao passageiro de 2º. quanto a da 1º classe. Mais: no comêço do século XX o vapor Cap Polonio, da Hamburgo Sul, tornou-se, "o mais moderno paquête que travessa o Atlântico Sul".

Na mesma época. E acentuando também antecipações vinda do século XIX, o médico vienense tornar-se o rival do médico francês. Vence-o em várias especialidades. Em Viena, mais do que em Paris, criam, no comêço do século XIX, seus cursos de aperfeiçoamento médico, não poucos brasileiros. O primado de Paris estava findo.

No mesmo setor, -- o médico – os calmantes alemães, junto com vários remédios – inclusive injeções para o tratamento da sífilis – ganhariam prestígios entre os brasileiros nervosos ou neurastênicos da mesma nova época: brasileiros necessitados do que então se chamava "conciliador" e hoje se denomina "tranquilizante". é o caso do Bromurral.

Ainda noutro setor viria acentuar-se a presença germânica no mercado brasileiro do fim século XIX e do comêço do atual: no dos acordeões – espécie de filhotes daqueles clássicos e, ao mesmo tempo, românticos pianos que, majestosamente, haviam marcado triunfo tão significativo e tão complexo dos alemães no nosso país. Triunfo de qualquer modo; e triunfo como vitória na competição com o piano inglês.

São relações entre fatos, na maior parte aparentemente insignificantes, os principalmente considerados nas páginas que se seguem. Considerados em ensaios, cada um dêles autônomo, sem que lhes falte de todo um mínimo de unidade. Um mínimo de unidade capaz de justificar a apresentação de tais ensaios como um conjunto; e êste conjunto sob a forma de um livro que, sem pretender, de maneira alguma, ser exaustivo, terá talvez algum interêsse pelo que nêle é sugestivo e, em certos pontos, pioneiros. Abridor de caminho para estudos mais sistemáticos, quer como história, quer como Sociologia.

Qual o critério de considerar tais relações não só entre fatos como entre pessoas ou grupos humanos – os brasileiros – dentro de seu condicionamento por tempos, senão históricos, sociais, ou socioculturais, específicos ? O critério sociológico de procurar-se ajustar, nessas relações conteúdos, ou substâncias, a formas, sem que os conteúdos ou as substâncias sejam considerados puros objetos ou puras coisas ou pura matéria. Ao contrário: procurando-se descobrir ou surpreender ou identificar nessas aparentemente apenas coisas o que sofrerem – no Brasil com relação a coisas germânicas – de humanização ou de personalização; ou o que essas coisas trouxeram já de humano – o humano sob formas germânicas – de suas procedências européias. Mas, principalmente, como alguma dessas coisas se modificaram no Brasil para se adaptarem ou se ajustarem a formas já brasileiras – patriarcalmente brasileiras – de existências, de convivência, de cultura.

Coisas, algumas delas, que de materiais passaram a transmateriais: a transcoisas; e por êsse seu conjunto de matéria e transmatéria se instalaram nas próprias estruturas ou nos próprios sistemas de convivência, de vida patriarcal de família, de hierarquia de prestígio sócio-econômico. A família que possuísse, na sala-de-visistas ou na sala-de música, piano de cauda vindo de Hamburgo, constituia-se em expressão, por êste como por outros símbolos de status, por esta e por outras testemunhas de prestígio, em família socialmente superior nos seus estilos de ser família ao mesmo tempo tradicional e moderna. O fenômeno e, a interpretação dêle que aqui se sugere, confirmaria a generalização do sociólogo francês Jean Baudrillard, em recente estudo publicado no Cahiers Internacionaux de Sociologie ( Paris, vol. XLVII, 1969) sob o título " La genèse ideologique des besoins", de que o objeto de consumo " a valeur d’echange symbolique". Para Jean Baudrillard: "Les meubles et les objects y ont pas fonction de personifier les relations humaines". Outra idéia de que há antecipação brasileira.

É ainda o sociólogo Jean Baudrillard que, escrevendo de um ponto de vista que coincide com o seguido, há anos, no livro brasileiro Um Engenheiro Francês no Brasil, se insurge contra a qualificação de máquinas – e decerto incluía entre máquinas, o piano como objeto técnico – notando que, assim qualificadas, tais máquinas ou tais instrumentos, se desprendem de suas funções, isto é, de suas funções puramente técnicas, para adquirirem alguma coisa de sujeitos. Sabe-se, por tradições brasileiras de família – em Pernambuco, especìficamente – que certos pianos alemães de cauda, majestosos e conspícuos, tornaram-se em residências patriarcais como que pessoas de casa, que, tendo dado prestígio – função de sujeito-objeto – e não apenas recreação social ou prazer musical – aos seus possuidores, tornaram-se, por sua vez, alvo de um acatamento quase igual ao dispensado aos velhos oratórios ou santuários domésticos ou às velhas camas de casal: estas como que simbólicas de sublimação do sexo pela sua função procriadora-familial.

Como exímios fabricantes de móveis domésticos, além de pianos, os europeus-germânicos, durante a Segunda metade do século XIX, penetram na intimidade doméstica dos brasileiros – nas suas salas-de-visitas, nas suas alcovas, nas suas salas-de-jantar – comunicando a essas partes importante de conjuntos patriarcais de convivência e de existência, sugestões germânicas de estilização de formas já antigas de adaptação de indivíduos e de famílias às suas estruturas tradicionalmente luso-católicas. Estruturas fechadas, como diria Jean-Louis Tristani – de quem é inteligente comentário ao livro Le Système des Objects, no número de julho-dezembro de 1969 do Cahiers Internacionaux de Sociologie – que não deixaram de ser afetadas por aquelas penetrações germânicas: através de transcoisas. De transobjetos.

Entre êsses transobjetos ou essas transcoisas, móveis de uso pessoal, interno, doméstico, como cadeiras-de-braço, camas-de-casal, guarda-louças – que, de puros objetos passaram a objetos-sujeitos como centros de estruturas ou de sistemas, além de funcionais, simbólicos, de recheio de salas, salões, alcovas, de casas de residência patriarcal ou burguesa brasileira. é critério êsse, de transcoisas vizinho do que vem sugerido, com a maior lucidez na análise, por Roland Barthes, no seu Système de mode ( Paris, 1963), e por Jean Baudrillard no seu já citado Le Système des objects ( Paris, 1968). Mas critério nôvo.

Com relação ao tema dêste livro, poderá o problema – pois constitui um problema – ser encarado de modo especìficamente brasileiro. Assim, o triunfo ou domínio do piano alemão majestoso, de cauda, com lanternas de prata, de sala-de-visita, de mesa patriarcal, elástica, fabricada na Alemanha para família numerosa – mesa servida por cadeiras amplas, sólidas, bem alemãs – no Brasil dos meados do século XIX, sôbre seus competidores de outras procedências, teria aberto à cultura germânica outras áreas de influência sôbre áreas de vida e de cultura brasileiras, além das funcionais: as simbólicas. O piano alemão tornou-se, com efeito, em numerosas residências brasileiras daquela época, uma espécie de rei – de sujeito, portanto, além de objeto – de salas-de-visita, ou de salas-de-música. Símbolo de status social, senão sempre alto, médio, burguês. Símbolo de prestígio.

Através dêsse prestígio de móvel funcional, outros, prestígios germânicos de caráter culturas, e, além de funcional, simbólico, terão se firmando do nosso país: através do piano coisa mais do que coisa: o prestígio da música germânica; o do romantismo germânico; o da técnica germânica. Música, romantismo, técnica, ligados num complexo só, ao piano.

Já de um uso anterior – no livro Um Engenheiro Francês no Brasil – da abordagem seguida em Nós e a Europa germânica na consideração de relações entre pessoas e objetos, notava o Professor Arbousse-Bastide, no prefácio àquele livro, que essas relações eram tratadas como se as coisas ou os objetos fôssem transmateriais. é o que sucede, no livro atual, a respeito das relações de brasileiro do século XIX – principalmente brasileiros de Pernambuco dos meados daquele século – com objetos importados da Europa germânica que foram germanizando, de certo modo, sua vida, seu cotidiano, sua cultura, em vez de apenas se situarem como coisas nessa cultura receptiva. Repita-se que o piano alemão – para voltarmos a considerar objeto tão significativo na vida brasileira de tôda a Segunda metade do século XIX – foi o papel que desempenhou como se fôsse um sujeito além de um objeto, através do qual a cultura germânica se fizesse sentir na brasileira: o papel de um objeto, instrumento de cultura, que à sua função especìficamente musical juntasse outras.

A larga utilização, em alguns dos capítulos de Nós e a Europa Germânica, de jornais, confirma o que já se tornou uma constante em trabalhos de história social, antropologia cultural e sociologia da cultura, do autor. Desde o seu como que manifesto a êsse respeito – conferência proferida no Rio de Janeiro em 1934 – que o autor vem procurando sistematizar essa utilização em abordagem principalmente científica, em vez de simples exploração do que, nos mesmos anúncios, contêm de elemento pitoresco ou de informação episòdicamente histórica. Era o que ocorria com relação a êsse material utilizado, aliás, sob êsse critério, com inteligência e com humour por alguns dos observadores estrangeiros da vida brasileira no século XIX: um Pradez suíço, e um Fletaher, americano dos Estados Unidos, entre outros.

O que desde o livro Casa-Grande & Senzala, publicado no Rio de Janeiro no Natal de 1933, se vem fazendo, com aquêle afã de sistematização, marca uma originalidade brasileira em métodos de investigação sociocultural, já destacada por mestres estrangeiros. No referido livro, os anúncios de jornais de "negros fugidos" e de "escravos à venda" foram utilizados para a primeira tentativa objetiva, realizada no Brasil ou fora dêle, de identificação de origens tribais de escravos no século XIX distribuídos em algumas das principais regiões brasileira de economia patriarcal dependente da importação de mão-de-obra africana. Trata-se uma identificação de caráter antropológico de não pequena importância.

Também os mesmos anúncios permitiram ao analista que, pela primeira vez, no Brasil ou fora dêle, procurou sistematizar êsse meio de investigação, verificar o estado geral de saúde, de eugenia ou de cacogenia, de condição física, daqueles mesmos africanos recém chegados ao Brasil, ou aqui já fixados como escravos, podendo-se comparar com o positivo, eugênico e saudável – em maioria – o cacogênico, disgênico, mórbido – em minoria. Seguindo o mesmo método de investigação, jovens pesquisadores, médicos, colaboradores daquele analista – Ruy Coutinho e José Luís Robalinho Cavalcanti – puderam verificar a presença, no Brasil do século XIX e em sentido contrário e suposições então triunfante do raquitismo entre negros escravos; e precisar a freqüência, entre êles, do ainhem.

Que o método, entretanto, não se ajustava apenas a investigações de antropologia física ou linearmente cultural, mas era susceptível de outras aplicações, foi o que veio a revelar sua utilização nos livros do autor Um Engenho Francês no Brasil e Inglaterra no Brasil. é também o que acontece neste Nós e a Europa Germânica: os anúncios de jornais, a respeito da presença germânica no Nordeste do Brasil – especialmente em Pernambuco – foram examinados, analisados e comparados com não pequeno proveito, do ponto de vista da interpretação sociológica, além da antropológica e da histórica, do que nêles se contém de informação e de sugestões valiosas, em qualquer dêsses setores. Através dêsse exame tornou-se possível ao intérprete do que nessas informações e nessas sugestões, nem sempre é ostensivo, constatar substituições significativas, no decorre do século XIX, pelo consumidor brasileiro, de produtos das indústrias francesa e inglêsa, por produtos da então emergente – vigorosamente emergente – indústria germânica. Uma indústria ligada a uma ciência e a um tecnologia que então surgiram triunfalmente numa Europa germânica ainda dividida em vários Estados, fracos ou débeis como podêres políticos; mas que já começavam a constituir, pelas energias humanas e pelas aptidões de ordem cultural que reuniam, uma enorme fôrça extrapolítica.

Essa fôrça extrapolítica projetou-se, com crescente vigor, sôbre o Brasil – inclusive o Nordeste – desde a independência política do nosso país e como que favorecida pelo casamento do primeiro imperador com uma européia tìpicamente germânica. A projeção se revelaria já considerável nos meados do século XIX, para, sob vários aspectos, intensificar-se na Segunda metade do mesmo século. é o que se pode constatar através de várias evidências, entre as quais o maior espaço que foram passando a ocupar, nos jornais brasileiros, em geral – inclusive nos de Pernambuco: província até a década setenta tão importante dentro do conjunto nacional de economia de política e de cultura – anúncios relativos a produtos germânicos, a técnicos germânicos, a peritos germânicos e também notícias acêrca de acontecimentos de várias espécies – políticos, artísticos, tecnológicos, científicos – que começaram a dar relêvo internacional à Europa germânica. Exemplo: a 13 de dezembro de 1869 o Diário de Pernambuco noticiava que vinha aperfeiçoando na Alemanha "uma máquina que muito deve interessar aos povos que vivem em um clima quente como o nosso". O uso dessa máquina seria entre nós, brasileiros, de "grande vantagem, sobretudo para as fábricas e para a pobreza que vive abafada em pequenas casinholas, onde o calor é excessivo e origina grande número de enfermidades". Seria tal máquina germânica o gérmen dos modernos aparelhos de ar condicionado. E poderia ser caracterizada como teuto-tropical pela combinação da sua origem com o seu destino.

Trata-se de anúncios sociològicamente muito significativo, pois a esta altura – fim dos meados do século XIX – o produtor alemão ou germânico de máquinas – máquinas que, segundo evidências de anúncios de jornais, já situavam êsse produtor como forte competidor tecnológico-industrial do inglês e do francês – começava a desenvolver sua arte comercial, com a qual venceria concorrentes, de mercados não-europeus. Inclusive o mercado tropical-brasileiro. Consideraremos em capítulo próximo êste ponto: quanto foi marcante essa tendência, da parte do europeu-germânico, em sua atividade comercial, complementar da industrial e tecnológica, no Brasil.

Fôsse qual fôsse o produto europeu-germânico colocado no Brasil, essa colocação representou sempre a presença, entre os brasileiros, de um nôvo complexo cultural. Um produto de arte ou de indústria nunca é um objeto só e desacompanhado: é, senão sempre o centro, a expressão mais evidente de um complexo cultural ou sociocultural. Sua elaboração tendo envolvido uma variedade de esforços ou de atividades, desde a agrária ou a pastoril ou a mineira à sua apresentação em forma atraentemente e psicològicamente comercial, êsse produto é uma amostra ou uma miniatura de tôda uma cultura e de sua ecologia: da natural à social. Exemplo: o móvel alemão. Introduzido no Brasil, trouxe a esta parte da América tropical alguma coisa mais do que a sua pura condição substantiva de móvel. Trouxe implicações de sua origem – a floresta alemã já domesticada para fins industriais; do seu fabrico a perícia artesanal germânica imitada pela tecnologia transartesanal, também germânica; a inteligência do produtor através da adaptação de um produto tradicionalmente europeu a solicitações de gôsto e a condições de vida extra-européias, a que êsse produto germânico viria, mesmo assim, comunicar um gôsto, uma substância, uma estrutura de móvel caracterìsticamente germânico.

Outra implicação pode ser aqui destacada: a maior importação, por brasileiros, de pianos alemães como substitutos dos pioneiros inglêses. O maior interêsse da parte de brasileiros por músicas, composições, compositores alemães ou germânicos. Em maior influência da música alemã, ou germânica, sôbre a nascente música brasileira, que, por sua vez, desde a primeira metade do século XIX começou pelos seus germens a atrair a atenção de mestres europeus-germânicos na arte musical.

Ponto que merece ser desde logo destacado, tão significativo é êle para a sociologia das relações culturais do Brasil com a cultura da Europa germânica. Ficamos advertidos para considerar êste aspecto das mesmas relações: elas não se processaram no século XIX, nem se vêm processando desde então, no sentido único da influência da cultura européia – a mais adiantada, intelectual, artística e tecnològicamente – sôbre a não-européia. Também a não-européia influiu sôbre a européia. Também a mais rica em técnicas e valôres dos denominados civilizados recebeu influências da mais pobre nesses valôres, porém capaz de suprir a rica com inspiração e sugestões mistas, isto é, a um tempo civilizadas e primitivas, ou simplesmente primitivas. Tais as sugestões de música popular, primitiva, intuitiva, oral, brasileira, de origem principalmente africana, que, já naquele século, interessaram europeus de sensibilidade musical mais aberta ao, para êle, exótico, êstes europeus tendo sido, ao que parece, mais os germânicos, em contato direto com o Brasil, que inglêses ou franceses ou italianos. é um aspecto êste, da sociologia daquelas relações, que, deixado na sombra, nos impediria de ver uma dinâmica de reciprocidades para considerarar-se apenas uma corrente de influência européia sôbre importante setor de uma cultura não-européia, que devesse ser, por isto, considerada apenas passiva ou inerme na sua receptividade.

Ainda aqui pode-se sugerir ter sido o piano, a música, o canto, a arte, mediadores entre as duas culturas, a brasileira e a da Europa germânica, que, a despeito de suas diferenças, desde os começos do século XIX principiaram a entender-se particularmente neste setor: o musical. Substituindo o piano inglês nas salas de aristocracia das casas-grandes e da burguesia dos sobrados, o piano alemão ganhou, para a cultura germânica, uma chave capaz de abrir vários pontos da sensibilidade brasileira a germanismos de caráter cultura e psicossocial.

Ponto em que se insiste através de vários dos ensaios que constituem êste livro sôbre temas de Sociologia da História considerados inseparáveis de problemas de Sociologia da Cultura e de Sociologia psicológica. Apoiados no que as três nos podem suprir é que conseguiremos abordar um assunto complexo, indo além da mera história cronológica ou da simples sociologia.

Daí, nas páginas que se seguem, tentativas de estudos histórico sociológico de alguns aspectos das relações do Brasil, especialmente de Pernambuco, com a cultura germânica, que será um estudo constantemente incluído noutro, porventura mais amplo, de análise histórico-cultural, do mesmo assunto, completado por ainda outra abordagem: a da sociologia psicológica. Não se estranhe a insistência com que nesta atitude ou posição metodológica é posta em foco, no decorrer dos ensaios que constituem um livro a seu modo pioneiro. Não sendo de maneira alguma um didata, o autor dos ensaios agora reunidos sôbre assunto ainda tão pouco estudado nas suas inter-relações tem isto de comum com os didatas: repete-se. Não se esquiva a repetir-se. Considera certas repetições necessárias aos esclarecimentos dos assuntos que ousa abordar. Tais repetições podem ser deselegantes. Mas a seu favor se apresentam motivos mais fortes que a elegância no escrever à moda dos beletristas.

Se houve, desde a primeira metade do século XIX, um interêsse da parte de europeus-germânicos pelo Brasil tropical, quente, e não apenas pelo temperado, a recíproca é verdadeira. Tal interêsse se acentuaria nos meados do século e nos seus transbordantes como tempo histórico nas décadas 60 e 70. Décadas – logo viria a 80 – em que a tropical cidade do Recife passou a acompanhar, com atenção surpreendente, pela sua gente mais culta, acontecimentos culturais da Europa germânica. Inclusive a explosão da música de Wagner.

A 18 de outubro do ano de 1869, o mesmo Diário registrava com relêvo " grande barulho em Munich" : a nova ópera de Wagner, intitulada Rheingold, não pudera ser cantada no dia marcado, devido ao estranho fato de o regente da orquestra não ter se conformado com certas modificações de cena feitas por Wagner. Era o Brasil a inteirar-se de acontecimentos germânicos de caráter musical. A interessar-se por êles. Interêsse de caráter especìficamente cultural que se refletiria no setor econômico ou comercial.

Das substituições do artigo inglês ou francês pelo germânico, que foram se verificando naqueles dias, pode ser considerado típico o seguinte anúncio aparecido no Diário de Pernambuco de 14 de outubro de 1859: " Uma menina que é pianista, tendo recebido um nôvo piano da Europa, deseja vender o que tinha inglês, do afamado fabricante Broodwood, muito bom e bem conservado, quem quiser comprar procure na Rua Direita n.º 89. Primeiro andar". Não se diz claramente que "o nôvo piano da Europa" era germânico. Mas tôdas as probabilidades são nesse sentido e coincidem com outra voga, esta na moda infantil, em que a trajos inspirados em vestimentas de personagens europeus não-germânicos foram se juntando modelos de trajos germânicos. Inclusive os consagrados pela óperas: trajos ligados a tipos românticos, poéticos, líricos.

Seria inexato dizer-se do europeu-germânico no Brasil que êle tem sido predominantemente do tipo simbolizado, por Graça Aranha, em Lentz, em contraposição ao doce, compreensivo, goetheano, antiprussiano, quase tolstoiano, Milkau. A verdade é que o Milkau, personagem de romance do comêço do século XX, foi como que antecipado por indivíduos reais, concretos, históricos. Indivíduos que existiram. Que atuaram. Um dêsses, o austríaco, compositor ilustre, que no comêço do século XIX estêve no Brasil e aqui ligou-se à vida e à cultura brasileiras, enriquecendo-as, no setor da música, com germanismos de que foi portador mas, ao mesmo tempo, tonando-se campeão daquela fusão de música européia – inclusive germânica – erudita, com a folclórica, popular, telúrica, representada principalmente pelo africano já abrasileirado e de que resultaria a nossa música mais expressivamente nacional. êsse austríaco foi Sigismund Neukomn, acêrca de quem apareceu há pouco na Revista Brasileira de Cultura ( Rio) – no seu n.º 1, ano I, julho-setembro, 1969 – interessante estudo de autoria do Prof. Mozart de Araújo: " Sigismund Neukomn, um músico austríaco no Brasil".

Que nos revela êsse estudo? Que êsse alemão germânico, ilustre já como músico, discípulo de Haydn e amigo, na Europa, de gente notável:: inclusive Walter Scott – veio para o Rio de Janeiro no comêço do século XIX, acompanhando o Duque de Luxemburgo. No Brasil foi professor do Príncipe Real Dom Pedro e de Dona Leopoldina, também austríaca. Outro de seus discípulos foi Francisco Manoel da Silva, futuro autor do Hino Nacional. Brasileiro. Seria o primeiro a divulgar na Europa os méritos de compositor do brasileiríssimo mulato José Maurício Nunes Garcia. Aliás êle vinha pondo José Maurício em contato com as novidades musicais da Europa. Em sentido inverso, o austríaco tornou-se "pioneiro"—informa o Prof. Araújo – "na utilização de temas brasileiros" na música européia. é possível – sugere ainda o Prof. Araújo – que no seu " Capricho" Neukomn tenha utilizado a melodia do lundu do Domingos Caldas Barbosa "o amor brasileiro".

Acêrca do que o autor do recente ensaio sôbre Neukomn que aqui se destaca – o Prof. Araújo vai além; e lembrando "o enorme papel socializante que a música desempenhou no Brasil, atuando como agente de aproximação entre classes e fator de aproximação entre escravos e senhores", com " o lundu dos negros, sorrateiro e malicioso, galgando as escadas dos palácios e penetrando nos salões da gente branca" e ai "tocado e dançado" – segundo o depoimento de outro europeu-germânico, o meio Milkau Martius – "pelas sinhá-môças e até pelo príncipe herdeiro da coroa, que o executava ao piano e ao cravo", o Prof. Araújo destaca a atuação de Neukomn "dando revestimento erudito ao lundu que vinha das senzalas e harmonizando com a repontar nas esferas da capital brasileira".

Atuação de fato importantíssima cultural e socialmente. Nunca um europeu-germânico agiu mais lusotropicalmente do que o austríaco Neukomn a assim proceder durante sua permanência no Brasil. Nunca um europeu-germânico foi, apenas, na prática, entre brasileiros, mais Milkau e menos Lentz, faltando-nos apenas, para têrmos, que considerá-lo não só inteiro Milkau como completo lusotropical, o informe de ter tido por inspiradora e por companheira, nos seus dias no Rio de Janeiro, uma sábia, terna, amorosa, "baiana" ou mesmo africana, negra Mina, já abrasileirada. Experiência que não faltou ao seu discípulos de sangue não só germânico como nobre, o futuro Dom Pedro I; e que faria falta à brasileiridade de Dom Pedro II. Para ser brasileiro, e menos europeu – inclusive menos hirtamente germânico – D. Pedro II bem poderia ter sabido menos astronomia e mais música – inclusive música popular brasileira, além de se haver iniciado nas sutilezas tropicais do amor, nos braços de alguma "baiana" que o tivesse contagiado para sempre com seus quindins e sua toadas.

Nota-se, dentro dêste já longo e flexível prefácio, que estudos semelhantes ao que procurei realizar com relação a Pernambuco e seus contatos com a Alemanha nos meados e, um pouco, nos fins do século XIX, podem ser realizados noutras áreas brasileiras e com relação a outras épocas, através dos mesmos métodos de indagação de que me utilizei; e recorrendo ás mesmas fontes de informação a que recorri. Com tais estudos, estaremos reunindo material capaz de ser utilizado no inventário, na análise e na avaliação do que tem sido, em conjunto, a presença alemã em diversos setores de atividade – o comercial, o industrial, o operário, o técnico, o artístico, o literário, o científico, religioso, o educativo – nas várias regiões do Brasil e em várias épocas do desenvolvimento brasileiro. São estudos que virão juntar-se, por mais modestas que sejam suas contribuições, aos de pesquisadores idôneos, já especializados na matéria e autores de trabalhos de valor: Jean Roche, Carlos H. Oberacker Júnior e Guilherme Auler – êste sôbre colonos alemães estabelecidos no Rio de Janeiro e seus descendentes hoje espalhados, como brasileiros, em várias atividades e profissões. Aliás, do historiador Guilherme Auler são também estudos admiráveis sôbre atividades alemãs em Pernambuco na primeira metade do século XIX: assunto uma vez por outra versado por Mestre José Antônio Gonsalves de Mello, embora sua principal especialidade seja o estudo da presença holandesa no Brasil do século XVII, da qual também venho, eu próprio, tratando há anos. Porém, o que não é o caso do Professor Gonsalves de Mello, -- marginalmente: em função de estudos acêrca de contextos socioculturais que alcançam, por vêzes, as mesmas atividades holandesas no Brasil. Contextos em cuja análise venho me especializando com um sentido mais global do que particular das suas implicações.

A verdade porém é que não se concebe mais história ou sociologia da formação sociocultural brasileira a que falte, com o registro da contribuição alemã para essa formação, a análise, e a avaliação dessa contribuição. A qual, tendo sido considerável, e continuando a ser considerável no Brasil meridional, não tem deixado de fazer-se sentir noutras regiões brasileiras. Inclusive no Nordeste. Particularmente – no Nordeste – em Pernambuco.

Nós, os brasileiros de Pernambuco ou do Recife, às vêzes nos deixamos passar pela gata borralheira da história da cultura brasileira, permitindo que outros centros, irmãos do nosso, ostentem realizações à revelia das já verificadas nesta parte do Brasil. Mas estamos certos de que há uma justiça histórica que não nos faltará quando aquela história se traçar maior amplitude, reabilitando antecipações assim esquecidas.

Sociològicamente interessante, o fenômeno da adaptação, no século XIX, de adventícios alemães a sociedades já estàvelmente brasileiras como a do Nordeste do Brasil, a maneira, a gaúcha. Sociedades onde vários dêsses adventícios não tardariam a adotar costumes ou usos já tradicionais entre essas diversas gentes brasileiras, às quais por sua vez transmitiram germanismos ou alemanismos de vários tipos.

Pouco se dirá, nas páginas seguintes, em ligação com os contatos brasileiros, em geral, pernambucanos, em particular, com a Europa germânica nos meados e, só um pouco, nos fins do século XIX, que se refira a impactos germânicos de ordem especìficamente literária, filosófica ou jurídica sôbre a cultura brasileira mais sofisticada: impactos que viriam a verificar-se, tendo por vanguarda do Brasil inteiro, o Recife, nos últimos decênios do mesmo século. Viriam a manifestar-se então, de modo incisivo, com Tobias Barreto e com outros juristas ou intelectuais germanizantes que abriram consideráveis brechas no imperialismo intelectual francês e, até certo ponto, no inglês, sob, que viveu o Brasil desde a sua independência apenas política, em 1822.

Os aspectos de influência germânica sôbre o Brasil, considerados nas páginas dêste pequeno livro, são menos êsses, requintadamente isto ou aquilo, que os mais cotidianos ou mais comuns, sem que por isto tenham deixado de ser significativos do ponto de vista sociológico. Como significativas, do ponto de vista sociológico, foram influências sôbre a cultura brasileira, de caráter sofisticado: significados que podem ser, em parte, isolados do mérito, ou desmérito, estritamente intelectual ou artístico, dessas influências. Inclusive o que, nelas, foram sugestões de novos métodos de estudo, de formas de pensamento ou de crítica, de expressões de arte introduzidas no Brasil não só por mestres da importância dos Tobias como por transmissores mais modestos dêsses valôres ou dessas técnicas de conhecimento. Ou, ainda, de formas: formas estéticas e formas intelectuais características, junto em formas sociais, da cultura germânica no século XIX.

Formas, essas, projetadas em coisas, estilizadoras de substâncias, naturalizadoras, por vêzes, de conteúdos adventícios, porém por sua vez, influenciadas por essas coisas e por essas substâncias e por êsse conteúdo de origens estranhas. Não há formas, no sentido sociológico dessa expressão, que existam no vácuo. Abstratas. Desprendidas de todo de um meio ou de um tempo social ou sociocultural, embora várias sejam as formas que subsistem a meios e a tempos particulares e aos conteúdos que tiverem nesses meios e nesses tempos. A escravidão, por exemplo, é uma forma de relação de uns homens com outros, de grupos sociais com outros que têm tido vários conteúdos.

Existem as formas sociais em ligação com coisas, com substâncias, com sujeitos, objetos, com sujeitos-objetos, embora possam substituir a tais ligações, ultrapassá-las no tempo e no espaço sociais. Daí não ser materialismo histórico ou sociológico ou antropológico dar-se atenção máxima a tais coisas, sem que sejam esquecidas as formas que condicionam o conjunto nacional ou regional que elas porventura constituam; suas inter-relações; seus significados que, de tão imateriais, podem ser até místicos.

O estudo sociológico de um passado humano, como o estudo sociológico de uma atualidade social e hoje, com o crescente desenvolvimento de uma futurologia, possìvelmente científica ou sociológica, para o estado de possíveis futuros pan-humanos, nacionais ou regionais, não é um estudo de coisas ou de comunidades ou de personalidades ou de épocas ou de fatos isolados; e sim de relações. Relações entre fatos. Relações entre personalidades e comunidades. Relações entre personalidades e comunidades e coisas. Entre personalidades, comunidades e épocas ou, antes, em linguagem sociológica, e tempos sociais.

Estudo, portanto, principalmente de relações. De jogos de relações que variam com os sujeitos e objetos em posições de relacionamento. Jogos que constituem uma dinâmica tanto em espaços como em tempos sociais, com as coisas, aparentemente as mesmas, seja qual fôr o espaço ou o tempo de sua situação, tendendo a se deixarem personalizar, nacionalizar, regionalizar, temporalizar, até adquirirem característicos que as associam a grupos sociais a instituições e a culturas, de modo como se cada grupo tendesse a recriá-las à sua imagem e semelhança, embora a tendência oposta também atue: a de coisas importadas tenderem a alterar as relações de pessoas e grupos nativos com as coisas ou os valôres substituídos por coisas e valôres importadas. Exemplo: a substituição da viola, em geral, de rua, no Brasil, pelo piano norte-europeu, coisa própria de recinto fechado e de casa mais ou menos ilustre. Coisa ou objeto nobre, ou nobilitante, como símbolo, quer de cultura quer de status social. Ou sociocultural.

Nem sempre será fácil, sob o critério que acaba de ser esboçado, separar nìtidamente objetos de sujeitos. Ou formas, de conteúdos. Em vários pontos, êsses aparentes contrários podem apresentar-se ao observador menos simplista, inter-relacionados. Por vêzes inter-relações subtis. Mas, de qualquer modo, inter-relações. Inclusive – voltando a êste ponto – entre sujeitos e objetos. Entre pessoas e coisas susceptíveis de serem personalizadas.

Quase sempre, tais coisas ou objetos se transmaterializam em sujeitos: em objetos-sujeitos. O piano, sobretudo, formando como aqui a sugere, um complexo psicossociocultural constituído por um objeto técnico desdobrado noutro, estético, e num terceiro, êste já sujeito ou já transobjeto: o romantismo germânico. A música romântica. A música de piano aliada do canto e a música de ópera. A inspiração romântica nas artes e na literatura. O toque romântico nas modas. E de certa altura em diante, aparece a inovação wagneriana – neo-romântica, pós-romântica, de certo modo também anti-romântica – a projetar-se no Brasil, numa repercussão quase imediata. Surpreendentemente imediata.

Essa repercussão seria só de um tipo nôvo de música – escandalosamente nôvo para ouvidos brasileiros? Ou só de uma moda de música comum, na época, a vários países da Europa – a moda romântica ? Ou só de um estilo de arte, também supranacional ou transnacional – o romântico – a que pertencia essa moda de música ? Não : seria também a repercussão de alguma coisa de especìficamente germânico nesse tipo de música, nessa moda de música, nesse estilo de arte, na época, difusamente europeu, de modo que, sendo certo o que se sugere, se confirmaria um fato que precisamos de considerar importante através dessa tentativa de estudo sociológico de assunto quase virgem dessa espécie de estudo : o de que nenhum objeto ou sujeito de cultura germânica transmitido ao Brasil ou introduzido no Brasil aqui chegou desacompanhado ou isolado e sim, como expressão de algum complexo cultural. O que, sendo exata a sugestão, investiria cada um dêsses sujeitos ou dêsses objetos de uma importância maior do que aquela que estamos habituados a atribuir a importações de ordem cultural, consideradas em seus valôres isolados de contextos.

Isto com relação a coisas dinamizadas em transcoisas. Será que se pode falar em pessoas germânicas, ou de origem germânica, que o Brasil venham se constituindo quase em coisas estáticas e hirtas, em suas resistência a qualquer abrasileiramento, com inversão de um processo – o de coisas em trasncoisas ?

O que o ilustre sociólogo Florestan Fernandes empreendeu com relação a descendentes de negros numa das sociedades brasileiras – a paulista – mais neo-europeizadas, com elementos não-portuguêses, agentes de neo-europeização até de ianquização, consideràvelmente atuantes, dentro dela, desde os fins do século XIX, poderia empreender, indo a extremo oposto, com alguns dos descendentes, em subareas do Sul do Brasil, de europeus-germânicos; e considerá-los necessitados de integração na sociedade brasileira pròpriamente dita. Assunto que, aliás, em alguns dos seus aspectos, foi já considerado, páginas idôneas, por outro sociólogo, o Professor Emílio Willems. Tais implicações do problema da presença germânica no Brasil, entretanto, escapam aos propósitos com que foram escritos os ensaios reunidos neste livro: propósitos antes histórico-sociais, histórico-culturais e antropológicos do que sociológicos quanto às projeções atuais dos problemas considerados.

A verdade parece ser, no Brasil, esta : aos elementos étnico-culturais ainda não de todo integrados na sociedade e na cultura brasileira falta, evidentemente, aquêle ânimo minoritário rebelde, segregacionista por seus próprios desígnios em vez de segregado por fôrça de repulsas diretas ou indiretas da maioria à sua total integração. Ao autor não se afigura desejável, do ponto de vista panbrasileiro com que é notória sua identificação, uma integração que significasse uniformização absoluta, segundo os padrões luso-Católicos de convivências e de cultura que tornaram possível a definição do Brasil, quer como Estado-nação, quer como cultura nacional. Daí admitir que ao lado da língua portuguêsa como língua nacional pan-brasileira, essencial do Brasil, floresçam como línguas subnacionais, e dentro dos seus limites, a alemã, a japonêsa, a nagô.

Dos anúncios de jornais do Recife dos meados do século XIX já se disse que nos permitem surpreender os começos da competição do piano de fabrico alemão com o piano de fabrico inglês. Permitem-nos, também, surpreender outros começos de competição germânica com preponderâncias, até então absolutas, inglêsas e francesas: do vinho do Rheno com o Bordeaux e com o Bourgogne, por exemplo. Em 1869 êstes três vinhos aparecem juntos e já em caráter como que de bem estabelecida confraternização num anúncio que, pelo Diário de Pernambuco de 8 de abril daquele ano, fazia, de sua casa, situada à Rua da Cruz n.º 18, o comerciante Theodoro Christiansen.

Aliás, no mesmo ano, já estaria de todo consolidada em Pernambuco, a vitória da cerveja alemã, abrasileiradas, sôbre a importada da Inglaterra. A 22 de dezembro de 69 noticiava o Diário de Pernambuco que Henri Joseph Leiden, "proprietário da grande fábrica de cerveja da Rua do Sebo" acabava de ser agraciado por S. M., o Imperador, com o hábito da Rosa, por decreto de 10 do corrente, em atenção a ter sido êle o fundador da primeira fábrica de cerveja no Brasil no ano de 1842 e ao grande desenvolvimento que deu a essas indústria tanto na Côrte como em Pernambuco".

Acrescente-se que, ainda na mesma época, tinha início, no Recife, importante substituição de artigo germânico importado por artigo em que a matéria-prima brasileira, utilizada no seu próprio ambiente, acrescentava técnica tradicionalmente germânica – a da arte do móvel de madeira – inspiradas, porém, em motivos brasileiros de arte do móvel, a primeira tendo se manifestado, nos primeiros dias dos século XIX, com o francês Beranger. A Segunda foi a que se derivou da presença na capital da velha e sempre pioneira província do alemão W. Spieler, chegado da Alemanha a 29 de outubro de 1860 pelo brigue americano Annette; e que, no Brasil, se tornaria, na sua especialidade, não só produtor de móveis fabricados segundo a melhor técnica germânica como um nacionalista, adversário de qualquer importação de móveis da Europa por um país que dispunha de tão valiosas madeiras e de tão competentes mestres na arte do móvel.

Desde a década 40 que eram vários os alemães marceneiros e carpinas fixados em Pernambuco. Era então a marcenaria uma grande arte – dentre as artes menores – alemã. E o trabalho germânico, nesta como noutras artes, começava a revelar-se rápido que o tradicionalmente brasileiro.

A 3 de maio de 1850 um anúncio no Diário de Pernambuco informava que "João Baumann avisa a tôdas as pessoas q têm obras, isto é, instrumentos de músicas, ferramenta e outras obras de marceneiro q lhe foram dadas há muito tempo para fazer, a algumas há quase dois anos, q os mandem buscar até o dia 4 do corrente". Tratava-se de um europeu-germânico impaciente com aquela nonchalance brasileira que fazia seus fregueses deixarem para amanhã o simples esfôrço de mandarem buscar na oficina do alemão "obras de marceneiro" já concluídas. O sentido alemão o germânico de tempo teria, inevitàvelmente, que chocar-se o brasileiro.

Depreende-se de alguns anúncios em jornais do Recife dos meados do século XIX que alguns alemães, marceneiros e de outros ofícios, vieram para o Brasil daquela época numa condição não de todo diferente da de escravos ou servos. Que sirva de evidências êste anúncio publicado no Diário de Pernambuco de 20 de junho de 1844:

"Como consta do abaixo-assinado q Eduardo Gadecke, súdito prussiano, oficial de carpina, se acha trabalhando nesta cide, faz o presente anúncio pa declarar q êle se acha engajado pelo tempo 4 aos e q lhe pagou a passagem de Hamburgo na galiota Fortuna, onde recebeu dinheiro adiantado... e como êle se acha ausente da casa do anunciante desde o dia 13 do corrente, faz o presente anúncio... João Carroll." Além do que, houve pelo menos um mestre alemão de serralheiro, no Recife, Henrique Dey, vítima de um dos seus oficiais brasileiros: foi assassinado Dey, na sua própria oficina, por um seu oficial brasileiro em junho de 1858. é o que informa o Diário de Pernambuco de 11 de junho.

Mesmo assim, o marceneiro ou carpina ou serralheiro germânico ganhava em Pernambuco uma reputação de bom artífice, preferido, ao que parece, por vários brasileiros, aos discípulos dos Beranger. Pelo menos, é o que sucederia a Spieler.

O mesmo aconteceria com retratistas: gênero de atividade neo-européia no Brasil independente de que os europeus-germânicos, não tendo sido os pioneiros no Recife, se tornariam, entretanto, nos meados do século, os principais cultores. Vários os anúncios de jornais que se referem a êsse artistas ou técnicos e às suas atividades em Pernambuco nos meados do mesmo século XIX, um dêles tendo se apresentado aos recifenses como retratista "aprovado pelas academias de Munic (sic) e Dusseldorf". Estaria no Recife apenas de passagem para a Côrte. Chamava-se João Bindseil.

Pelo Diário de Pernambuco de 2 de janeiro de 1852 anunciava seus talentos de retratista outro alemão, êste vindo de Hamburgo, típico dos que, época, tornavam-se conhecidos e procurados pelos brasileiros de Pernambuco desejosos de serem retratados. O anúncio é êste: "Emílio Bauch, retratista de Hamburgo, tem a honra de recomendar-se ao respeitável público desta praça e Província, prometendo executar com prontidão e perfeição tôda e qualquer obra de sua arte. Quem quiser utilizar-se de seu préstimo é rogado de dirigir-se à casa de sua residência, no R. do Trapiche Nôvo n.º 15, 3.º andar".

Autor de uma série de 12 desenhos, vendidos em litografia, todos de temas recifenses e olindenses, Bauch não foi um retratista qualquer, mas um desenhista que, pelos seus trabalhos, está na história do desenho de temas regionais no Brasil.

Se o Recife é que atraiu o maior número de alemães que os meados do século XIX se fixaram em Pernambuco, não quer isto dizer que alguns não se estabelecessem então no interior. Havia agentes especializados em procurar transferir alemães da capital da Província para pontos do interior. Que o diga o seguinte " aviso" no Diário de Pernambuco de 17 de junho de 1848: " Precisa-se de alguns Alemães ou outros quaisquer estrangeiros, q se queiram engajar para marceneiro e carpina: na R. de Hortas n. 2."

E no mesmo Diário de Pernambuco já aparecera êste outro anúncio a 23 de setembro de 1845: "Oferece-se para feitor de sítio ou de engenho um Alemão, solteiro, e q entende perfeitamente de todo o serviço, o qual trabalha de enxada e sabe tratar de pomar e horta"... Um alemão com pretensões a rival de madeirense ou de açoriano. Não consta que dêsses alemães humildes que se transferiram do Recife para o campo alguns se notabilizassem pelos seus sucessos caracterìsticos rurais. Como não consta que os alfaiates de origem germânica vencessem no Recife, os de técnica inglêsa ou francesa, que continuariam, pela Segunda metade do século XIX, a dominar essa especialidade. Daí não terem alcançado fama os alemães, que, como Hunder, estabeleceram-se como alfaiates no Recife daqueles dias. Do Diário de Pernambuco de 5 de junho de 1854 é êste anúncio de Hunder: " Alfaiate de Hamburgo avisa ao respeitável público q reside na R. do Aragão n.º 19 e recebe tôdas as obras de sua arte".

Com êstes vários exemplos de pequenos fatos, aparentemente só pitorescos, destacados de considerável número de anúncios de jornais examinados sob critério sociológico, procura-se sugerir, desde logo – desde êste prefácio – o que parece ter havido de mais significativo em algumas das substituições de ordem cultural que se verificaram no Brasil dos meados do século XIX – especìficamente na Província: então a primeira, Segunda ou terceira em importância (conforme o setor sob considerações)do Império dos Pedros – tendo por agente, por veículos e, sobretudo, por valôres substitutos dessas diversas substituições, europeus-germânicos, produtos germânicos, técnicas germânicas de conquista do paladar, do gôsto, das ainda indefinidas tendências brasileiras no sentido da modernização de hábitos, usos, costumes. Produtos – os germânicos daquela época – cuja competição com artigos franceses ou britânicos ou tradicionalmente portuguêses, definiu-se, ou começou a definir-se, naqueles dias, numa competição que, evidente no setor dos valôres chamados materiais de cultura, não tardou a explodir no setor dos valôres denominados imateriais.

O exemplo mais evidente dessa explosão cultural no setor das letras, do pensamento, dos altos estudos, foi, em todo o Brasil, o da Escola do Recife, com seus teuto-recifenses do tipo dos pernambucanos Martins Júnior e Artur Orlando ( aos quais pode ser acrescentado, como do mesmo tipo, o cearense pernambucanizado Clóvis Bevilaqua) a se revelares, ao lado dos teuto-sergipanos do tipo de Tobias Barreto e de Sylvio Romero – que aliás viria a afastar-se do germanismo, por influência primeiro de Herbert Spencer, depois, de Le Play – expressões, por influência intelectual germânica, de uma nova – nova para o Brasil – figura de erudito: o erudito-científico. Se Tobias e Sylvio nunca chegaram a ser expressões exatas dessa figura – a do erudito-científico – Martins Júnior, Artur Orlando, Clóvis Bevilaqua, e também José Higino e João Vieira realizaram-na de modo bastante nítido pelo que, sem pedantismo nem sectarismo, souberam acrescentar de sugestões germânicas de orientação científica de pensamento jurídico – ou jurídico-filosófico – e de técnicas germânicas de estudo e de ensino, nessas especialidades, ao que nêles já era não só lastro intelectual de outras origens, como inclinações a atingirem áreas extra-germânicas – inclusive em Artur Orlando, a eslava – de inquietação cultural. Não nos antecipemos, porém, sôbre os assuntos aqui considerados de leve; e ao versar dos quais se dará maior, embora de modo algum, exaustivo desenvolvimento, nos breves capítulos que constituem o corpo dêste pequeno mas, talvez, oportuno livro.

Os anúncios e avisos de jornais relativos à presença de alemães no interior da então importantíssima província de Pernambuco, nos meados do século XIX, ou a solicitações, da parte de brasileiros do interior, de préstimos germânicos para a economia de comunidades rurais, indicam na o ter sido absoluta a barreira que, evidentemente houve, entre essa presença e o predomínio, então ostensivo, do sistema de novocultura latifundiária e escravocrática em grande parte da mesma Província, assim como de outras, do Império dos Pedros. A aventura agrária, no comêço do século, de uns tantos europeus-germânicos, nas matas de Cova da Onça ou de Catucá, tendo resultado em fracasso para os mesmos europeus-germânicos e para a sua tentativa de se fixarem em Pernambuco como agricultores, tal fracasso foi dramático: constituiu-se em sinal de alarme contra outras tentativas do mesmo gênero. Mas não contra contatos individuais, da parte, de europeus-germânicos estabelecidos em Pernambuco desde a primeira metade do século XIX, com a terra: contatos sob a forma de atividades agrárias, que, tendo sido em pequena escala, não deixaram de ser significativos. Registra tais sucessos o alemão germânico Lamberg no seu livro sôbre o Brasil, publicado já depois de instaurada, no país, a República, mas a base de observações anteriores domínio sôbre velhas províncias transformadas em Estados como Pernambuco, do sistema latifundiário e monocultor de agricultura, continuando, assim, difíceis quaisquer tentativas de fixação, nessas partes do Brasil, de europeus com vocação e tradição agrárias que, em terras brasileiras, desejassem se radicar como agricultores livres e independentes.

Não é de admirar que tal acontecesse então em Pernambuco quando no próprio Rio de Janeiro da década 50, o francês F. Biard observara ser "a vida do escravo no Brasil... bem mais suportável do que a dos infelizes colonos com os quais nem sempre se cumpre o que prometeu ao tentá-lo no seu próprio país". Viam-se então pelas ruas da Côrte, segundo Biard, desditosos colonos dêsse tipo de fracassados "pálidos, magros, pedindo pão". Observou Biard "dois chineses, um dêles cego, receber uma esmola de um negro"; êsse dois chineses poderiam ter sido dois alemães. Daí sua insistência neste ponto; "a vida dos negros (no Brasil) é mais suave que a dos colonos". O que vem escrito em bom francês no seu livro sôbre o Brasil publicado em Paris em 1862; e do qual existe excelente tradução à língua portuguêsa por Mário Sette, aparecida em S. Paulo em 1945. As observações de Biard sôbre dos colonos e negros, no Brasil dos meados do século XIX, se encontram à página 51 da edição brasileira; e confirmam o que aconteceu em Pernambuco nas matas da Cova da Onça onde negros fugidos, ou estabelecidos como lavradores mais ou menos ilegais, repetiram a tentativa de sua substituição por colonos germânicos, fazendo que vários dêsses brancos depois de mal se sustentarem como carvoeiros, se dispersassem, fracassados e desalentados, por vários pontos do país, apegando-se a atividades urbanas.

Veja-se, a êsse respeito, o interessantíssimo documento pela primeira vez publicado na edição de 1934 do Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, do autor dêste prefácio. Documento que nos permite identificar as desvantagens com que, na primeira metade do século XIX, tinham de arcar colonos europeus – inclusive europeus-germânicos – decididos a se estabelecerem como agricultores em províncias do Império dominados pelos sistema latifundiário, monocultura e escravocrático – a seu modo feudal – de grande lavoura. Obstáculo – êsse sistema – bem mais forte que o clima, àquela espécie de colonização. é assunto, êste de que, na época, ocuparam-se, com inteligência e desassombro, alguns publicistas brasileiros, tendo-se destacado, em Pernambuco, Antônio Pedro de Figueiredo e Abreu e Lima, pelas argutas considerações de caráter quase-sociológico, que desenvolveram sôbre o problema, quer colonização do Brasil com europeus, quer de substituição da grande propriedade pela média e pela pequena. "Tive contato com vários dêles" -- escreveu Biard naquele seu livro, referindo-se a europeus fracassados como colonos agrários no Brasil – "que depois de esgotar todos os seus esforços haviam caído no desespêro, ainda por cima doentes". E destacava que, mesmo havendo facilidades de ordem social, "muitos meses passavam" antes que as terras ficassem " em condições de ser arroteadas e de árvores agarrados ao solo, era impossível "o emprêgo da charrua"; que não se dispunha, para os animais agrários, de forragem como o feno na Europa. êstes, alguns dos obstáculos aos quais europeus encontravam no Brasil mais tropical. Obstáculos aos quais se juntavam as ainda mais terríveis de ordem social ou sócio-econômica. Obstáculos particularmente fortes numa velha província feudal como Pernambuco continuava a ser nos meados do século XIX.

Pode-se observar dos ensaios que constituem êste Nós e a Europa germânica, que em quase todos, o autor trata de gente antes comum do que incomum; antes de recorrências cotidianas do que de acontecimentos excepcionais; antes de relações entre fatos aparentemente insignificantes do que da apresentação de ocorrências grandiosas. é mais um trabalho, êste, produzido sob aquêle afã de interpretação, além de psicológica, sociológica e antropológica, de história social brasileira, seguido já há anos, pelo autor, à base, em grande parte da utilização de material desprezado por historiadores e ignorado por sociólogos mais convencionais.

Quase tôda as fontes de informação utilizadas na elaboração dos ensaios que constituem êste livro são virgens ou quase virgens: anúncios e notícias de jornais (principalmente no Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal em circulação no Brasil), referentes a europeus-germânicos fixados no Brasil, em geral, e em Pernambuco, em particular; e nunca dantes examinados, analisados ou comparados sistemàticamente; almanaques, correspondências de cônsules com presidentes de províncias arquivos de industriais ou de casas comerciais da época: o século XIX. também depoimentos de estrangeiros – inclusive de europeus-germânicos – acêrca da situação do colonos germânicos no Brasil daqueles dias.

Acentua-se que o material reunido neste livro é, quase todo, inédito. Apenas do ensaio sôbre Graça Aranha parte foi publicada como uma das introduções às Obras Completas do brilhantes maranhense, publicadas em 1969 pelo Conselho Federal de Cultura, através do editor Aguilar; e o capítulo "A propósito de colóquios de estudos teuto-brasileiros" apareceu, também em 1969, na revista do mesmo Conselho. O ensaio "Em tôrno de alguns contatos pernambucanos com a Europa germânica nos meados do século XIX" foi apenas lido no II Colóquio de Estudos Teuto-brasileiros reunido no Recife em 1968. Não foi publicado. Parte da "introdução" que se segue apareceu na revista da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Nós e a europa germânica: em tôrno de alguns aspectos das relações do Brasil com a cultura germânica no decorrer do século XIX. Rio de Janeiro: Grifo, 1971. 173p.

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