NOVAS CONFERÊNCIAS EM BUSCA DE LEITORES
Prefácio de Edson Nery da Fonseca
Gilberto Freyre ou a conferência como obra de arte
I do not give lectures, disse Walt Whitman em Song of myself, explicando-se: When I give myself. De fato, quando proferidas sem o encanto de uma doação pessoal as conferências são insuportavelmente aborrecidas. Nada mais melancólico do que um conferencista que lê o seu texto sem aquela emoção que não deve se r confundida com a ênfase dos oradores convencionais.
Gilberto Freyre foi um orador sem eloquência, como queria Verlaine: Prens l'éloquence et tords-lui son cou ! Ele fez da conferência uma obra de arte. Lia de modo muito pessoal, com vagares voluptuosos, pausas apropriadas e sílabas escandidas. A própria voz era diferente: por influência do inglês aprendido muito cedo e praticado cotidianamente durante o período em que estudou nos Estados Unidos e na Inglaterra ( 1918-1923), e não falava labialmente, como os latinos, e sim de modo guturalizado, como os anglo-saxões. Assinale-se, a propósito de seu estilo de escritor, que tendia mais para a oralidade que para a literaridade.
Acontece que os primeiros textos em prosa de Gilberto Freyre foram escritos para ser lidos. Ele tinha apenas 16 anos quando proferiu, no Cine-Teatro Pathé da Parahyba - a capital ainda era homônima do Estado e assim se grafava - uma conferência sobre Spencer e o problema da educação no Brasil. Infelizmente, ainda não encontrei uma coleção completa do jornal O Norte, onde o texto foi publicado. Mas vi no livro de recortes de D. Francisquinha Freyre notícias sobre a conferência e elogios de Carlos Dias Fernandes, o insigne jornalista paraibano que a promoveu.
Oito anos depois e já graduado pela Universidade Colúmbia, Giblerto Freyre voltou à Paraíba para proferir, no Teatro Santo Rosa, a conferência Apologia pro generatione sua, mandada publicar, como diz o opúsculo de 29 páginas, pela comissão de intelectuais sob cujos auspícos esteve Gilberto Freyre na Paraíba: Carlos D. Fernandes, álvaro de Carvalho, José Américo de Almeida, Guilherme da Silveira, Matheus de Oliveira, Celso Mariz, Adhemar Vidal, Antenor Navarro e Padre Pedro Anísio Bezerra Dantas. Os anfitriões constituiam, como se vê, a fina flor da intelectualidade paraibana da época.
Em Apologia pro generatione sua - incluída por Gilberto Freyre em seu livro Região e tradição - ele fala principalmente de dois escritores prematuramente mortos durante a primeira Guerra Mundial: Randolph Bourne e Ernest Psichari. São os primeiros perfis escritos por quem se destacaria como inexcedível intérprete de personalidades. Os livros Perfil de Euclydes e outros perfis e Pessoas, coisas & animais são exemplos dessa vocação biográfica do autor. Recorde-se que Apologia pro generatione sua - o título, com se sabe, é uma paráfrase da autobiografia do Cardeal Newman, autor tão da estima de Freyre - também inclui magistrais considerações em torno dos conceitos de geração e de cultura.
Em 11 de novembro de 1924, Gilberto Freyre profere, no Colégio Salesiano do Recife, conferência sobre O Recife e as árvores publicada no dia seguinte pelo Diario de Pernambuco. O convite dos Salesianos se justificava pela defesa do meio ambiente feita sistematicamente pelo jovem conferencista em seus artigos semanais naquele jornal, de 1918 a 1926: artigos reunidos, por iniciativa de Nilo Pereira, na obra em dois volumes Tempo de aprendiz, organizada por José Antônio Gonsalves de Mello.
Em 2 de dezembro de 1924, comemorou-se no Recife, o centenário do nascimento de Dom Pedro II, sendo Gilberto Freyre convidado a proferir conferência na Biblioteca Pública do Estado. Disso resultou um de seus pensador social com aguda sensibilidade artística poderia penetrar de modo tão empático num tempo que não era o eu e numa personalidade alheia e até diferente da sua, para produzir um retrato que lemos como se estivéssemos contemplando uma tela de Rembrandt ou de Goya.
Em 1926, é o próprio Gilberto Freyre que promove o Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo, durante o qual profere conferência sobre as tradições da culinária nordestina. Trechos dessa conferência foram publicados em jornais recifenses daquele ano constituindo-se no posteriormente chamado Manifesto regionalista, injustificadamente negado pro alguns historiadores da literatura brasileira: os que não querem reconhecer, na década 20, outra renovação cultural que não seja a deflagrada pelo Modernismo do eixo Rio de Janeiro/ São Paulo.
Este breve retrospecto da conferências de Gilberto Freyre entre 1916 e 1926 mostra como ele era uma figura influente na cultura nordestina; e que sua consagração com conferencista é anterior à publicação de Casa-grande & Senzala, em dezembro de 1933. Esta obra produziu grande impacto na vida intelectual brasileira, como demostra a coletânea de artigos críticos Casa-grande & senzala e a crítica brasileira de 1933 a 1944 ( Recife, Companhia Editora de Pernambuco e Editora Massangana, 1985). Mas a verdade é que, antes de escrevê-la, o autor já se notabilizara pro seus artigos no Diario de Pernambuco - alguns dos quais reproduzidos por Monteiro Lobato na Revista do Brasil - pelas conferências aqui evocadas e pelo convite para se professor visitante, na primavera de 1931, de uma universidade prestigiosa com o Stanford.
A década 30 e as seguintes só fizeram confirmar a madrugadora vocação de Gilberto Freyre como conferencista: confirmação acentuada por novos convites tanto de instituições brasileiras como estrangeiras. Conferências na Europa é o título de um livro seu, publicado em 1938. Brazil, na interpretation reúne conferências lidas na Universidade de Indiana, no outono de 1944. Em 1961 publicou-se Sugestões de um novo contato com universidades européias. E em 1965, a editora José Olympio reuniu em volume de título pirandeliano 6 conferência em busca de um leitor.
Com estas 12 conferências procuro cumprir uma promessa feita a Gilberto Freyre, dentro do plano de publicação de seus inéditos e dispersos. Deste volume foram excluídas as conferências em livros - como além dos mencionados, Região e tradição, Perfil de Euclydes e outros perfis, Problemas brasileiros de antropologia e Vida, forma e cor - e as que integrarão volumes em preparo: Palavras repatriadas e Perfis de Pernambucanos e pernambucanizados, título muito gilbertiano.
Embora de datas diferentes e abordando vários assuntos, os textos reunidos no presente volume têm como denominador comum o toque pessoa de Gilberto Freyre: sua arte de pensar e de exprimir-se com originalidade e bom gosto, seu modo aliciante de comunicar-se através de uma doação pessoa, como queria Whitman.
Olinda, maio de 1990
Edson Nery da Fonseca.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Novas conferências em busca de leitores. Organizado por Edson Nery da Fonseca. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1995. 218p.
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