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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



O BRASILEIRO ENTRE OS OUTROS HISPANOS
Prefácio


     Nas Páginas que se seguem há diversidade sem deixar de haver unidade. O assunto é dos que admitem essa contradição mais aparente do que real. é que o mundo de cultura hispânica sendo um só é também plural. O modo de a gente do Peru ou do Equador ser hispânica é diferente do modo de ser hispânico do argentino ou do brasileiro. Mas essas diferenças não anulam o essencial de uma unidade porventura mais forte do que a característica do mundo de língua inglesa e de cultura originalmente britânica; ou a do mundo de cultura eslava; ou a do mundo islâmico; ou a do chinês.

O que o autor dos ensaios que se seguem procura principalmente sugerir é o que há de hispânico na cultura brasileira ao mesmo tempo que busca revelar outro aspecto essencial do assunto neles versado: o que há de transnacional na cultura hispânica. Ou, antes, pan-hispânica.

O autor pertence ao número dos que entendem ser o Brasil duplamente hispânico. Tendo sido exceção à formação especificamente espanhola de grande parte da América, não deixou de receber o impacto espanhol em dias decisivos de sua experiência pré-nacional. Recebeu- o . Recebeu- o menos ao lado que dentro da portuguesa. Mas recebeu-o.

Sendo assim pode o brasileiro dizer um tanto à maneira de Terêncio que nada do que é hispânico – espanhol e não apenas português – lhe é estranho. O brasileiro é uma gente hispânica. Sua cultura é hispânica

Como hispanos, parte daquele conjunto transnacional de culturas que pode ser denominado pan-hispânico com inteiro rigor sociológico. Parte ativa e não passiva desse conjunto. Dinamicamente solidária com o que nele é, ou vem sendo, mais característico do modo de uma cultura definir-se. Inclusive na sua atitude para com o ócio; na sua noção de modo algum depreciativa da pobreza; em várias outras das noções de valores que são tão do brasileiro quanto do espanhol; tão do colombiano quanto do português; tão do mexicano quanto do paraguaio.

A verdade é que raramente deixa de ser arbitrária, do ponto de vista histórico-social ou histórico-cultural ou sociológico, a separação que se faça do português do complexo hispânico a que ele pertence como pertencem o galego, o andaluz, o catalão. São várias as afinidades antropológicas no largo sentido da expressão : psicossomático.

O critério rígido de separação, que representa a projeção de um sentimento político sobre uma realidade histórico-social ou histórico-cultural, no sentido de sua deformação, vem alcançando os estudos brasileiros sobre o desenvolvimento brasileiros no sentido de seu isolamento dos demais desenvolvimentos hispânicos na América. E essa tendência vem prejudicando a perspectiva do conhecimento do Brasil – da sua sociedade, da sua cultura, da sua formação, da sua atualidade, do seu futura – pelos brasileiros.

Somos um desenvolvimento hispânico na América. Primeiro, porque ser português é ser hispânico, sem ser, é claro, espanhol ou castelhano; e sem que a condição hispânica implique subordinação cultural à condição espanhola ou castelhana.

Segundo, porque a própria Espanha castelhana, juntamente com outras Espanhas não-portuguêsas, participou, e vem participando, da formação brasileira, que se conserva, em seus traços essenciais, hispânica. Inclusive na noção de tempo social. é uma noção de tempo social que contrasta com a anglo-saxônica, a germânica, a francesa, de maneira tal que é como se não fosse uma noção européia mas extra-européia, que tivesse concorrido para criar no hispano a predisposição psicológica a acomodar-se melhor que outros europeus a noções extra-européias, extramecânicas, extra-industriais até, de tempo, que contrastam sobretudo com a chamada "hora inglesa".

Devemos notar que o assunto tempo-espaço, considerado do ponto de vista sociológico, é um dos mais atuais e vivos em sociologia: nas ciências do homem. Ainda há pouco, ocupou-se dele L. Bernot em notável estudo:" Contribution à l’étude internationale des structures sociales : l’espace et le temps". Aí salienta-se o seguinte: o espaço e o tempo apresentam denominadores comuns : um e outro são quantificados e qualificados pela sociedade e pela cultura dessa sociedade. São duas categorias mensuráveis e limitáveis que podem ser decompostas de diferentes maneiras.

Franz Boas já sugerira a necessidade de se escreverem gramáticas, não segundo noções exclusivamente ocidentais, européias, de tempo e espaço, mas segundo noções também extra-européias, conforme as quais nem sempre são claras nos tempos de verbo as diferenças entre passado e futuro, só pelo contexto se sabendo se as ações ocorreram ou vão ocorrer. Em língua hindu chega haver o absurdo, do ponto de vista europeu de tempo, de a mesma palavra significar "ontem" e "amanhã", no que se projeta uma noção de tempo completamente diferente da européia. Parece não haver dúvida de que de uma boa análise estrutural resultem noções de temporalidade capazes de nos levar a considerar, sob novo critério e de maneira eminentemente comparativa, conceitos que à primeira vista não parecem Ter nada a ver com o tempo. Conceitos como o de promessa, o de vingança, o de esperança, o de expectativa, o de rancor. São conceitos que correspondem a estados emotivos de duração diversa – isto é, de tempo diverso – em diferentes sociedades ou culturas, podendo essa diversidade de duração ou de tempo ligar-se a circunstâncias de ordem física como os ciclos ou estações de sol e chuva, nos trópicos; de primavera, verão outono e inverno, nos espaços boreais.

Os ameríndios do Nordeste do Brasil contavam o tempo pelas safras de cajus, que lhes dava alguma noção do que nós entendemos por passado. Mas sem muita noção de sucessão, entre essas safras, de dias, horas, muito menos de minutos ou de segundos. Só lhes valia a marcação de tempo pelas safras de caju em função de sua alimentação, ajuntando-se assim esse caso, familiar aos que conhecem alguma coisa da antropologia social dos nossos indígenas, aos chamados ciclos alimentares, importantes nos países tropicais pelo fato de regularem atividades e migrações recorrentes. A verdade é que os povos situados em espaços tropicais, ou nas proximidades desses espaços, parecem desinteressar-se, mais do que os outros, de rigores na contagem de tempo, só atendendo aos extremos de chuva e sol correspondentes a necessidades de alimentação.

Não terá a semelhança entre sentidos de tempo dos hispanos e dos não-europeus dos trópicos facilitados no século XVI – o século dos primeiros contactos maiores de hispanos com populações tropicais, principalmente na América – a aproximação entre eles, hispanos, e essas populações tropicais – aproximação dificultada pelo sentido cronométrico dos norte-europeus ? é sugestão que o autor vem fazendo há anos, tendo-a submetido na Universidade de Oxford à apreciação do seu eminente colega, o Professor Evans-Pritchard, que a acolheu como nova e lhe dispensou considerável atenção.

Talvez por aí se explique, até certo ponto, a maior integração de hispanos que de norte-europeus, nos trópicos. Uma integração que parece dar, atualmente, ao mundo hispânico, a missão de contribuir para reabilitar o trópico como espaço susceptível de servir de ambiente a civilizações não apenas modernas, mas pós-modernas, em que se desenvolvam, sob novos aspectos e formando novas combinações, valores semita-cristãos ou hispano-árabes. Essa missão precisa, para realizar-se de modo mais sistemático, de ser orientada pelas élites universitárias desse mesmo mundo. Inclusive pela élite universitária brasileira.

Não nos envergonhamos de empregar a palavra élite por temor aos demagogos que atualmente se encrespam contra o que ela significa de mais puro: o reconhecimento de superioridade de aptidão para a criação e para o saber, de quantos constituem autênticas élites universitárias ou intelectuais, recrutadas dentre indivíduos de todas as raças e de uma comunidade, nem todos aptos a se elevarem a essa criatividade e a esses saberes; nem todos, inteligências criadoras; nem todos capazes de altos estudos. Isso de as universidades serem, de modo absoluto, para todos, é simplismo demagógico. A oportunidade de atingi-las deve ser aberta a todos; mas governo algum pode por decreto dar a todos as aptidões necessárias à honesta aquisição dos saberes universitários mais altos e mais difíceis; como governo algum, seja ele qual for, pode dar a todos os jogadores de foot-ball as pernas por assim dizer geniais de um Pelé ou de um Garricha, ou a todos os pianistas as mãos quase mágicas de uma Guiomar Novaes. Pobre da nação que, deixando iludir-se por tal simplismo, deixe de cuidar dos seus indivíduos supradotados para submeter todos os seus jovens ao mesmo ensino. A União Soviética não teria Sputniks, nem a Inglaterra teria dado ao mundo a penicilina, nem os Estados Unidos estariam criando nas suas universidades novas formas de controle, por indivíduos de superior inteligência e de superior saber, de energia atômica: inclusive a que, tendo sido dirigida a princípio por comandos científicos e humanísticos saídos de institutos universitários: uma das grandes revoluções da nossa época.

Há uma reabilitação – a do trópico ao mesmo tempo que do mestiço; a do clima quente ao mesmo tempo que do tempo-lazer associado a esse clima e susceptível de tornar-se tempo-criador – que está sendo realizada em vários países quentes da América marcados pela presença hispânica. Mas é uma reabilitação que precisa de apurar-se, estendendo-se a todos aqueles países hispano-americanos mais cruamente tropicais e mais anarquicamente constituídos como populações mestiças, cuja patologia ninguém ignora poder ser dominada por técnicas de engenharia sanitária e de medicina, de antropologia e de sociologia, algumas das quais porventura mais desenvolvidas hoje no Brasil, graças às suas élites universitárias e para-universitárias dos últimos decênios, que grande parte mestiças. Graças aos Silva Lima, à chamada Escola Tropicalista Baiana, - que encontrou historiador seguro e apologista inteligente no médico-sociólogico Coni Caldas – aos Roquette Pinto, aos Pirajá da Silva, aos Oswaldo Cruz, aos Carlos Chagas, aos Manuel de Abreu, aos Clementino Fraga, aos Saturnino de Brito, aos Vital Brasil, aos Osório de Almeida, aos Afrânio Peixoto, aos Fróes da Fonseca, aos Silva Melo, aos Nelson Chaves, aos Osvaldo Gonçalves Lima, aos sábios de Manguinhos, aos cientistas de Butantã.

Muito se vem referindo o autor, em ensaios recentes, ao tempo-lazer – tão tradicionalmente hispânico – como susceptível de tornar-se tempo por excelência criador, além de pós-moderno : o transporte aéreo desmoralizou a hora exata – até há pouco tão moderna – dos trens ou comboios. Inevitável é que se refira também à automoção . A automação tende a reabilitar valores hispânicos em geral, e, no Brasil, estilos de vida do antigo tipo baiano em particular – valores e estilos semi-ativos, semicontemplativos – e a tornar arcaicos os valores e quaisquer outros, tanto pelo Comunismo ateu como pelo Capitalismo arcaísmo comum aos dois.

Se é certo que – como adverte Jean Daujat, pensador francês que vem estudando com tanta lucidez o conflito entre valores ativos – no mundo moderno, "a embriaguez da ação pura", a "obsessão única de atuar "- tão característica da filosofia comunista de orientação apenas marxista quanto da capitalista de formação cruamente calvinista – importa em desdém pelo afã da inteligência humana em amar uns tantos objetos através tão-somente da contemplação – inclusive da saudade do passado, mais sutilmente pessoal ou social, que é uma forma de amor, em grande parte contemplativo, de valores que pelo gosto do amante à la Ramón Lullio seriam superiores ao tempo –compreende-se que importe também na concepção tanto Comunista ateísta como Capitalista e Calvinista de ser o homem, apenas, trabalho; e não existir senão como modificador da natureza pelo trabalho, só havendo assim no homem, o trabalho: o agente daquela "ação material" a que se refere Marx identificando essa ação com o trabalho operário. E considerando o Homem um "dominador" da Natureza e, por conseguinte, antiecológico em quase todas as suas atividades dessa espécie.

Precisamente esta concepção de homem, que só se afirmaria homem pelo trabalho material realizado por ele dentro de determinado conjunto social, é que a automoção torna arcaica; e este arcaísmo implica inatualidade tanto do Comunismo ativista como das civilizações mais glorificadoras do trabalho, da ação e do tempo econômico: as anglo-saxônicas, burguesa e calvinisticamente capitalistas. "Não há outra verdade senão as exigências da ação material", escrevia Marx, sem prever que ao século da ação apenas material, animada magnificamente pelo capital e pela sua utilização do trabalho, em que ele, Marx viver, se seguiria não o século do Trabalho, senhor absoluto da ação material, mas o da automação desprestigiadora daquela suposta verdade absoluta: a simples vitória do Trabalhador sobre o Capitalista, como a culminância de um processo que nessa culminância se realizasse quase plenamente. Donde proletarismo, laborismo, o próprio trabalhismo, dixado na exaltação do trabalho e na glorificação do trabalhador como fins e não como meios de desenvolvimento de civilização, já começarem a ser, hoje, antes figuras de retórica que figuras vivas ou símbolos válidos de realidades em expansão. Falta-lhes – a todos esses ismos – projeção de vida sobre um futuro já quase presente. Falta-lhes força para resistirem, como valores apenas ativos, ou somente produtivos, ao impacto de valores contemplativos e lúdicos – estéticos, religiosos, éticos, recreativos, esportivos – que a automação já projeta sobre o fim da era ativista, iniciada com os Desenvolvimentos e desenvolvida com a Revolução Industrial.

Houve tempo em que se disse com excessiva ênfase a Espanha – ou Portugal – representa o problema, a Europa; - os Estados Unidos – ou a União Soviética – a solução. Hoje já não é despropositado dizer-se: Europa, Estados Unidos, União Soviética representam problemas para os quais a solução pode estar, em grande parte, em tradições ou valores, dos chamados de espírito, guardados pelo mundo ibérico ou hispânico, no seu ethos e na sua cultura. Valores esses, capazes de ser atualizados e adaptados, com o fracasso dos apenas ativistas, a novas condições de vida e de convivência humanas que a automação começa a criar.

Entre tais valores, a noção hispânica de tempo. O pendor ibérico para deixar o homem parte dos cuidados e das preocupações que o afligem para amanhã, saboreando quanto possível o dia de hoje, - requentando pela saudade a experiência de ontem, para conversar dela o que possa ter de superior ao tempo em que primeiro se verificou

Já não surge ao homem moderno, como inteiramente desprezível, a até certo ponto sabedoria – sabedoria ibérica ou hispânica – de encher o homem comum os seus muitos dias santos festejando os santos, confraternizando com eles, trazendo-os dos seus altares para o meio das suas casas e das suas praças; e fazendo do ócio um tempo digno de ser vivido criadoramente e não a indignidade que ainda hoje é para aqueles norte-europeus e norte-americanos mais impregnados da ética Calvinista, excessivamente glorificadora do contínuo, do incessante trabalho humano, quebrado apenas por week-ends também a seu modo ativistas. Glorificação – a do trabalho como fim e não apenas meio, de civilização – em grande parte tornada inatual, arcaica, obsoleta – repita-se – pela automação e pela cibernética; e em alguns países, desmoralizada pela inflação de que se vem fazendo acompanhar seu desenvolvimento industrial ou sua inchação urbana.

Houve tempo em que, dentro do Brasil, " a solução" parecia a muitos estar, fora de dúvida, e de modo absoluto, em São Paulo. O resto do Brasil era o " problema". Era o atraso, era a inércia, era a lentidão, em contraste com um São Paulo de todo exemplarmente ativista; e, por isto mesmo, em termos absolutos, "solução".

Já ninguém é hoje tão enfático a este respeito – embora ninguém deixe de proclamar o que o Brasil deve de bom ao ativismo paulista. A verdade, porém, é que os grandes arcaicos começam a ser agora os que põem de modo absoluto o tempo-econômico como o tempo superior. São os adeptos do "Time is Money". De modo que São Paulo já representa não só um modelo, sob vários aspectos digno de ser seguido pelos outros Estados do Brasil, como um problema, sob vários aspectos inquietante, no Brasil e para o Brasil: o de um ativismo, ligado ao tempo quase exclusivamente econômico, que é o tempo tanto dos Comunistas como dos Capitalistas, de modo absoluto, ativistas. Tempo prestes a ser desatualizado, como virtude absoluta, pela automação . A automação que não tardará a atingi-lo, em virtude da própria superioridade da sua economia e da sua tecnologia.

Repita-se: o que outrora foi "inércia baiana"(para ativistas brasileiros do século passado), já surge, sob vários aspectos, com todas as suas deficiências de caráter econômico ou tecnológico, como solução para aqueles excessos de ativismo em que se vem extremando, entre nós, a gente paulista – e agora a própria gente baiana- do mesmo modo que, na Europa, noutro plano, dentro da própria União Soviética, há hoje jovens que se insurgem contra os excessos de ativismo copiado pela Rússia Soviética dos anglo-saxões; e revelam-se se não saudosistas de alguns dos valores russos que viriam se extinguindo sob tais excessos de ativismo, desejosos de valores que ultrapassem tanto os do seu presente soviético como os do seu passado tzarista. Que se leia a este respeito o capítulo "Observations on the Soviet University Students" escrito por um russo nascido em Moscou em 1933 e atualmente em estudos especializados na Universidade de Cambridge: ensaio que é um dos capítulos do livro The Russian Intelligentsia, organizado por Richard Pipes e publicado em a 1961.

Note-se, a respeito das mais recentes aspirações de jovens não só na União Soviética como nos Estados Unidos que, com a automação crescente, diminuiu o poder das greves de operários em massa, que, até os nossos dias, se vinha manifestando como força por vezes decisiva na solução de problemas complexos por método simplista. Os atos de sabotagem serão, por sua vez, quase impossíveis, como expressão de poder operário contra o poder manajerial, como quase impossíveis serão os abusos de poder manajerial contra operários cada dia menos massa e mais élite técnica – por mais que a palavra élite repugne aos atuais trabalhistas habituados a jogar apenas demogogicamente com massas humanas.

De modo que os poderes políticos dos Estados se tornarão, provavelmente, mais fortes em suas funções de poderes, menos dominadores que coordenadores de atividades diversificadas em benefício daquele intercurso técnico que deva processar-se em proveito do conjunto social. Mas, ao mesmo tempo, a crescente civilização, isto é, os desenvolvimentos de especializações culturais supratécnicas que a automação tornará possíveis, contribuirão para que, sob aquela coordenação de caráter especificamente sociotecnológico, as sociedades se afirmem, noutros aspectos, sociedades complexamente pluralistas, necessitadas, mais do que as de hoje, de ser compreedidas em sua complexa pluralidade e não apenas descritas em termos simplificadores e simplificados como sociedades constituídas apenas por isto e por aquilo: por patrões e por operários, por exemplo; ou por exploradores e explorados; ou por governantes absolutos e governados também absolutos. Pois tais grupos assim definidos deixarão de existir, pelo menos nas suas formas atuais, com a crescente automação, prestando-se a todo diferente, tanto do previsto pelos marxistas esquemáticos, como do defendido hoje, quer por Comunistas, quer por anticomunistas dos tipos convencionais.

Com relação aos Estados Unidos de agora, atente-se no que na Michigan Alumnus Quarterly Review escrevia há pouco Mr. Frederic M. Scherer, caracterizando uns novos Estados Unidos onde "nem todos têm, como outrora, consideração pelo trabalho árduo." Ao contrário, o que ali se acentua é "o ritmo lento de muitas fábricas, onde cláusulas do contrato de trabalho proíbem qualquer aceleração do andamento de serviço. " De modo que já há "foguistas sem função em locomotivas a óleo diesel," além de outros" trabalhadores ociosos". Em "importante fábrica de aviões, " uma pesquisa recente mostrou que "a força de trabalho só permanece produtivamente ocupada durante 63% do chamado dia de trabalho".

Ao que acrescenta Mr. Scherer este reparo significativo: "Não se trata apenas dos trabalhadores manuais. Consideremos qualquer grande edifício de escritórios. Percorramos os escritórios e observemos os empregados de colarinho e gravata que arranjam jeito de passar um terço do dia conversando. " E mais : " A conclusão é que os norte-americanos estão desenvolvendo uma reação negativa com relação ao trabalho. Estão dando cada vez maior importância a fazer apenas o indispensável para ganhar a espécie de vida que desejam... " Por conseguinte, integrando-se num ritmo de vida mais hispânico do que anglo-saxônico ou russo-soviético.

Do atual conflito entre o chamado capitalismo ianque e o chamado comunismo russo-soviético parece que nenhum dos dois sairá vencedor: as semelhanças entre os dois cada dia se acentuam mais deixando os seus ideólogos a ver navios. O triunfo caberá à automação que está sendo desenvolvida tanto pelos russos-soviéticos como pelos americanos dos Estados Unidos. Ela é que criará condições tecnológicas para novos tipos de economia e de convivência humana, num tempo que será antes o ibérico que o anglo-saxônico – este, nos últimos anos, adotado pelos russos por motivos de competição econômica: a competição em que estão empenhados alguns dos seus líderes mais ortodoxos, com os Estados Unidos, no plano da produtividade.

Num mundo, como o atual, ainda de hoje e já de amanhã, o hispano já começa a surgir como possível mestre, de norte-europeus, daquela arte do lazer, susceptível de se tornar esplendidamente criador. Também daquela ciência de viver-se a vida devagar, saboreando-se o dia de hoje, adiando-se por vezes para amanhã, cuidados e preocupações se pela esperança do futuros tornados pelo esperar quase presentes, que são uma arte e uma ciência de que o homem civilizado, em transição rápida de moderno para pós-moderno, já sente que hoje a necessidade. À proporção que se automatiza o mundo em que vivemos – processo já em rápido desenvolvimento – maior será a consciência dessa necessidade. E maior a reatualização do sentido hispânico de vida e de tempo.

De onde a vivíssima atualidade de uma Sociologia e de uma Antropologia que se especializem em ser, por métodos tanto de compreensão como de mensuração do Homem, e do seu comportamento em sociedade, uma Sociologia e uma Antropologia do Lazer; e que sejam, mais do que uma Sociologia ou uma Antropologia apenas estatística, nos seus estudos apenas horizontais, lineares, contemporâneos, de problemas e de soluções criadas pelo crescente tempo-lazer entre os homens, uma Sociologia e uma Antropologia também de compreensão do Homem como um ser psicossocial em desenvolvimento simultâneo em três tempos e não num só. Sociologia Genética, portanto, e não apenas voltada para o atual. Psicológica, Filósofica até. é evidente, a esta altura, que nestas páginas vão repetidas, de certo modo, algumas das idéias apresentadas pelo autor no seu Além do Apenas Moderno.

Para o desenvolvimento de estudos antropológicos e sociológicos com essa especialização e conforme essa orientação, o mundo hispânico é, decerto, lugar ideal. Não nos deixemos perturbar nem de leve pelos neocientificistas mais estreitos que, com maior ou menor pedanteria, com maior ou menor engenuidade, com maior ou menor boa fé, levantam-se contra o que um deles chama, em livro recente – referindo-se a antropólogos e sociólogos insistentes na necessidade de serem os métodos compreensivos e até empáticos acrescentados, por sociólogos ou antropólogos idôneos, aos apenas quantitativos, estatísticos, antropométricos – " atrevida mania de intuições", afirmando não lhes agradar "semelhante processo de fazer antropologia." é de esperar que tais reações ainda se verifiquem, da parte daqueles neocientificistas de visão curta, mesmo quando honesta. Não só de esperar: de desejar. Pois que seria das Ciências do Homem, num país como o Brasil, chegado à literatice nas próprias ciências médicas, inclinado ao improviso oratório na própria Medicina, adepto, nos estudos históricos, de um generalismo irresponsável – muito diferente do responsável e, como tal, desejável, para conter excessos de especialismos – se aqui se espalhasse, sem qualquer restrição, a idéia de que, para estudar e procurar conhecer o Homem, nesta ou naquela situação socio-cultural, bastaria o sociólogo ou o antropólogo compreendê-lo – a ele, Homem, e a essa sua situação – por processos tão somente intuitivos ou impressionistas? Seria a negação, nessas Ciências, de todo o fundamento ou de toda a condição científica de estudo do Homem, para substituir-se esse fundamento ou essa condição por um vago arremedo de humanismo, apenas superficialmente científico.

Um dos mais argutos críticos de ideais dos nossos dias, John Courtney Murray, S.J. observava há pouco, no seu We Hold These Truths –já o recordei noutros ensaios – que, ultrapassados os "modernos", os pós-modernos já não acreditam em princípios como o da " harmonia automática" e o da "inevitabilidade do progresso". Já não acreditam no conceito de liberdade daqueles até há pouco modernistas e sim numa liberdade experimental que seja também um experimento numa como nova justiça. Já não acreditam na conseqüência do crescente domínio do Homem sobre a natureza como sendo necessariamente libertária do mesmo Homem, senhor, é certo, em parte – só em parte, aliás – da Natureza; mas não de si mesmo – Homem – nem do que é humano no mundo. Ao contrário : desorientado sobre sua identidade. Necessitado de maior conhecimento de si mesmo e de maior domínio sobre si mesmo. De maior compreensão de si mesmo e de maior compreensão, quer da chamada natureza humana, quer da natureza total de que é parte e não dominador absoluto.

O que só será possível – acrescente-se a Murray – através da sistematização, por um conjunto de Ciências do Homem que não se requintem em imitar as físicas e as naturais, daquele conhecimento e desse domínio: sistematização que venha a corresponder ao conceito de ciência moral de certos pensadores católicos e de certos pensadores ibéricos, isto é, o de ser ciência principalmente, experiência. Experiência que se processe através de compreensão. Em vez de um saber do Homem feito de deduções racionalistas, um saber que se especialize – acrescente-se a Murray – no estudo do Homem que seja definido como situado tanto no tempo como no espaço; e que para ser identificado, seja compreendido em sua dimensão humana em vez de apenas descrito e medido como são os animais e como são as coisas.

The End of the Modern World é o título do livro de outro arguto intelectual dos nossos dias, Romano Guardini, cujas idéias coincidem com as do cientista social inglês Michael Polanyi e com as do próprio Murray; e em certos pontos com as já publicadas deste autor brasileiro. Que dizem eles e que afirmam também W. Ernest Hocking e Eric Voegelin, dois outros atualíssimos críticos de idéias? O mesmo que no Brasil vimos afirmando, alguns de nós, há trinta anos: que o modernismo requintado em fazer das Ciências do Homem outras tantas ciências biológicas é um modernismo já substituído por um pós-modernismo para o qual é essencial que, nas mesmas ciências, à possível mensurabilidade se acrescente imprescendível compreensividade.

Para o Professor Eric Voegelin a redução, por aquele biologismo, da imagem do Homem a um puro conjunto de tendências biológicas, esgotou-se; e para Voegelin aí se encontra o índice mais importante de ter o modernismo, associado ao mesmo biologismo, igualmente se estotado: " has run its course". E para Paul Tillich, teólogo Protestante, estamos também diante do fim do que ele próprio chama "a Era Protestante", cujo racionalismo – pode-se acrescentar ao Professor Tillich – concorreu para a biologização das Ciências do Homem e cuja exaltação do tempo-trabalho contribuiu para a arbitrária simplificação do Homem em Trabalhador e, por conseguinte, em animal socialmente válido apenas pela sua capacidade econômica de produção: capacidade mensurável e susceptível de ser de todo racionalizada, desprezando-se suas outras disposições e capacidades e até enxergando-se neles tendências anti-sociais e estéreis à vagabundagem, ao anarquismo, ao misticismo, ao esteticismo, ao primitivismo.

Mais: para alguns historiadores-sociólogos estamos diante do fim da Europa como marco de história humana. Referem-se à Europa moderna. A Europa moderna que aliás começa a ser substituída por outra, pós-moderna.

Se de fato estamos no fim do modernismo, do eropeísmo, do biologismo, do economismo nas Ciências do Homem e no começo de outra era, pós-moderna mas ainda por classificar, é-nos lícito destacar, com relação às mesmas ciências, tendências em sentido contrário ao daqueles ismos. Inclusive a tendência que valoriza, nas Ciências do Homem, a compreensividade; e que importa na valorização de outras tendências nas ciências chamadas morais, que se mantiveram vivas entre pensadores ibéricos, tornando-os, e a todos os iberos, arcaicos com relação a quanto fosse moderno; extra-europeus, com relação à Europa; católicos místicos por excelência com relação a protestantes crescentemente racionalistas; antieconômicos com relação à economia baseada no conceito do tempo ser dinheiro.

Precisamente tais tendências é que estão hoje em processo de reabilitação; uma reabilitação que, atingindo vários dos valores mais característiscos do ethos e da cultura ibéricos, atinge, no Brasil, a vocação, de parte considerável de sua gente, para vir encarnando, mais que quaisquer outras gentes, aquela tradição em sentido contrário à fácil ou rápida adoção, por brasileiros do tipo mais ativista, de modernices importadas da Europa ou trazidas dos Estados Unidos. De onde, no momento, podermos considerar os brasileiros menos ativistas, o principal reduto de resistência brasileira a modernices já arcaicas; por outro lado, os principais agentes de pós-modernização de supostos arcaísmos que a cultura ibérica preservou durante os séculos em que resistiu um tanto quixotescamente à absorção dos seus motivos e dos seus estilos de vida pela Europa Protestante, racionalista e pan-economicista. O momento não é de regresso a tais valores mas de projeção da parte deles, por vários hispanos nunca repudiados, sobre um futuro que necessita do que neles é mais que moderno, sendo também elaboração de uma experiência posta, por algum tempo, quase de lado, sob a alegação de não corresponder às necessidades de um futuro hoje já transformado em passado. O que mostra ser sempre necessário ao homem distinguir no passado o que é efêmero do que pode transformar-se em futuro, quase à revelia do presente.

Há um saber inter-relacionado que as Universidades hispânicas poderiam desenvolver, em suas escolas e institutos, em estudos em torno do Homem, em geral, e do Homem hispânico, em particular. O desenvolvimento que aqui se sugere para essas Universidades é o de todo um conjunto de estudos, no setor imenso das Ciências do Homem, que se realize de modo dinamicamente inter-relacionado; com os métodos compreensivos juntando-se aos descritivos, aos quantitativos e aos estatísticos; com o saber humanístico concorrendo com o científico para o esclarecimento daqueles problemas que sejam objetos de estudos dos dois saberes. Quanto a existirem "antropólogos alongados em poetas", não há mal em que esses raríssimos monstros apareçam, uma ou outra vez, quando de fato unam goethianamente os dois poderes de conhecimento do Homem: o científico e o poético. O que é preciso é que as musas não façam mal a tais doutores, prejudicando-lhes a ciência; nem que a doutorice prejudique neles os amores com as musas, cientifizando-os naqueles amores pedantes dos versos que Martins Júnior pretendeu serem "poesia científica". O exemplo dos Goethes e dos Nietzsches, dos Santayanas e dos Cajal, dos Havelock Ellis e dos Frazer, dos Lawrence da Arábia, dos Huxley, dos Simmel, não é, quando seguido com prudência pelos indivíduos que apenas possam acompanhar vagarosamente e a pé cavaleiros tão nobres e tão raros, exemplo desprezível. Ele se concilia com o melhor sentido de compreensividade nas Ciências chamadas do Homem. Compreensividade que implica necessariamente ser, nessas ciências chamadas do Homem, o cientista, além de cientista, humanista. Um analista capaz, não apenas de registrar, descrever, medir reações de grupos humanos a determinados estímulos, mas de procurar compreender o que, nessas reações é, além de animal, especificamente e até sutilmente humano. Aquilo que está mais nos Cervantes, nos Shakespeare, nos Tolstoi – criadores geniais de novas interpretações do Homem – do que nas pesquisas já clássicas, de Terman, sobre o que sejam indivíduos de gênio; ou nos estudos de coeficientes de correlação, em torno desses e de outros assuntos, que vêm sendo realizados por psicólogos modernos voltados para o problema dos superdotados.

Educadores de hoje dentre os mais lúcidos, é com o que mais se preocupam no Ocidente – um Ocidente que, pelos seus líderes mais idôneos, sente ser do seu dever não acompanhar a Rússia Soviética num tipo de educação superior da sua mocidade apenas técnico-científico, com a redução à insignificância das Ciências chamadas do Homem. Ou com o que um deles, Gustave Arlt, denomina, em recente artigo em The Journal of Higher Education (vol.XXXIII,n.9, dez. 1962,pág.474), de "cisma" entre Ciências e Humanidades nos estudos, de "indivisibility of learning", considerando "the healing of that schism... the gravest problem that we face today". Tal gravidade se aguça – diga-se paradoxalmente – quando dentro daqueles estudos, analisados no seu todo, considera-se em particular o estudo do Homem, um estudo científico de todo separado do humanístico; a mensuração, separada da compreensão; a descrição separada da interpretação. Este o aspecto mais terrível do cisma que aflige, perturba, em certos pontos arruína, os modernos estudos universitários no Ocidente, em geral, e das Ciências chamadas do Homem, em particular: inclusive com relação à importância dos superdotados em estudos de compreensão quanto possível total do que seja humano.

As universidades brasileiras bem poderiam ser, no mundo hispânico, as primeiras das grandes universidades nacionais desse conjunto a procurar ou retificar o erro tremendo, que nos está atingindo os estudos sociais de nível universitário, de separar-se o que, nesses estudos, é científico – às vezes transitoriamente científico – do que neles é irredutivelmente humanístico. Como? Dando relevo, nesses estudos, à compreesividade. Para o que não é preciso que se despreze neles o conjunto de técnicas antropométricas e de métodos sociométricos que nos podem auxiliar, sob tantos aspectos, no esforço global de interpretação do Homem pelo Homem.

Não fique o Brasil, vítima da demagogia que procura atingi-lo nos seus melhores redutos de criação e de desenvolvimento de élites, indiferente ao problema de, em suas universidades, dar o máximo de facilidades no desenvolvimento dos jovens super ou supradotados, seja qual for sua origem ou seja qual for sua inclinação; e nos estudos sociais, àqueles que revelem talento misto, ao mesmo tempo científico e humanístico nas suas aptidões e nos seus gostos. O problema dos estímulos à criatividade nos vários setores de altos estudos – científicos e humanísticos – é versado de modo a merecer a melhor consideração dos educadores dos sociólogos e dos homens públicos brasileiros em livros recentes da importância da obra coletiva, organizada por Harold Anderson, Creativity and Its Cultivation (N. Y. 1959) e do livro de David C. McClelland e colaboradores, Talent and Society; e ainda mais recentemente pelos Professores Robert F. de Haan e Robert Havighurst, no seu Educating Gifted Children, (Imprensa da Universidade de Chicago, 1961); e no qual seus autores criticam, à página 89, a tendência, que vinha dominando seus compatriotas dos Estados Unidos com relação às ciências sociais, no sentido de "the social studies curriculum " vir se concentrando "on providing common citizenship for the majority of American youth" e concedendo "little provision for the development of leadereship for the gifted minority". é assunto a que o autor dá destaque no seu recente Além do Apenas Moderno.

Repete-se ele aqui, sem receio de parecer cortejar os hispanos da Europa que, por isto ou por aquilo, em universidades como a de Salamanca se vem concentrando, a olhos vistos, toda uma riqueza de jovens aptidões de várias origens para aquelas atividades, para aquelas artes no sentido mais amplo da palavra, que exigem dos seus cultores, além de perícia, compreensividade; ou seja aquele" complex talent made of many abilities, such as the ability to recognize problems, to be flexible in thinking" a que se referem os Professores De Haan e Havighurst. Pois a Espanha não é, neste particular, apenas a Espanha da caricatura dos seus políticos mais brilhantes que seriam exclusivamente notáveis pelo que modernos psicólogos de língua inglesa denominam "associate fluency": aquela espécie de fluência pela qual tanto se distinguiu o famoso Castelar. Ela é também a terra de não raros europeus notáveis pela "ideational fluency", que culminou em Ortega y Gasset; e principalmente pela "spontaneous flexibility" que, estendendo-se do "problem discovery" ao "problem solution", inclui todo um conjunto de aptidões para a compreensividade essencial tanto aos teóricos como aos práticos das chamadas Ciências do Homem.

Sob o critério de haver uma cultura transnacionalmente pan-hispânica a que o Brasil pertence, foram escritos os ensaios que se seguem. Alguns são de todo inéditos. Outros são semivirgens: ex-conferências transformadas em ensaios. Aliás, o autor, mesmo quando conferencista, tende a ser ensaísta e quando ensaísta guarda talvez certa oralidade de expressão própria dos conferencistas. Apenas duas dessas conferências foram publicadas. Mas essas publicação no estrangeiro – uma delas no The American Scholar e depois em revista universitária alemã – e não no Brasil.

Como conferências, foram os ensaios que tiveram essa origem, lidos, um na Faculdade de Direito da Universidade de Salamanca, outro, na Universidade de Princeton; um terceiro publicado em revista de Buenos Aires. O segundo – sobre o sentido hispânico ou ibérico de tempo – foi escrito e publicado em língua inglesa e a ele já se fez referência. Sua tradução à língua alemã destaque-se que foi promovida pela Universidade de Münster e teve forte repercussão na Europa continental.

Não pôde ou não soube o autor – e talvez não quisesse, viciado, como já é, em repetir-se – evitar que a matéria de um ensaio transbordasse noutro, tornando evidentes certas repetições. Certos excessos de ênfase dada a umas tantas idéias ou sugestões. Defeito que o leitor desculpará.

O autor considera oportuna a publicação no Brasil destes ensaios, que, mesmo repetindo-se em alguns pontos, talvez não deixem de ser, ao mesmo tempo, autônomos e complementares. O brasileiro precisa de adquirir uma mais viva consciência de sua condição de hispano para que se acentue sua posição única, singular – de gente duplamente hispânica – no mundo pan-hispânico. Um mundo cuja importância tende a acentuar-se por motivos que o autor procura destacar em algumas das páginas que se seguem. Nenhum futurólogo idôneo pode conservar-se alheio ou indiferente a esse provável avigoramento de importância de uma cultura que, quer pelo crescente número das populações conservadores ou portadores dos seus valores, quer pela qualidade e dinamicidade de vários desses valores, é uma cultura projetada gigantescamente sobre o futuro humano. Não parou nas suas famosas glórias históricas. Projeta-se sobre o mundo em perspectiva e em prospectiva como uma força capaz de contribuir para que a esse mundo não faltem virtudes que, sendo irredutivelmente hispânicas, se adaptarão, decerto, a novas circunstâncias de convivência humana e, ao mesmo tempo, influirão sobre elas. Pois o chamado "vento da História" – ou da Evolução - não é uma absoluta fatalidade: o Homem e suas culturas são dinâmicas e podem resistir a esse e a outros ventos, fazendo-os antes mover os seus engenhos que dominar tiranicamente suas vontades e dirigir despoticamente seus futuros.

Quem estuda ou considera o problema de relações inter-regionais dentro de um país ou entre países – porque há relações inter-regionais que excedem em importância sociológica as relações internacionais como, por exemplo, as crecentes relações entre regiões tropicais independentes do atual e precário colorido nacional ou subnacional de várias delas; quem estuda ou considera tais relações – as inter-regionais – que são relações entre espaços, não pode alhear-se ao fato de que são também relações entre tempos. O sentido de tempo varia consideravelmente de regiões para regiões, quer de um continente a outro, quer dentro de um país, exprimindo-se em diversas manifestações de existência, de convivência e de cultura.

Nós, brasileiros, temos vivido principalmente dentro de um sentido hispânico de vida, um tanto desdenhoso do cronométrico, anglo-saxônico, modernista. Isto nos permite nos aparentarmos, mais facilmente que povos com o sentido principalmente cronométrico de vida, de tendências e preferências cronometrizadas, com populações como as orientais e as africanas não de todo ocidentalizadas. Talvez se possa ver aí vantagem para o futuro das nossas relações com esses povos e da nossa possível missão de mediador entre eles e os povos rigidamente cronométricos.

Nenhum povo, dentre os modernos, se apresentam, tanto quanto o hispano, diferente dos outros povos – sobretudo dos outros povos europeus – em seu sentido de tempo. E em nenhuma civilização moderna esse sentido de tempo se transmite a tantos outros aspectos de vida, de convivência e de arte, como na civilização hispânica. Daí justificar-se a afirmativa de que a civilização hispânica é sobretudo uma resposta a um desafio no tempo. Mais no tempo que no espaço.

É assunto a que os próprios espanhóis mais introspectivos têm dedicado, em seus ensaios – nesses ensaios espanhóis que contêm mais filosofia que muitos livros ostensivamente filosóficos em suas páginas por vezes mais pretenciosas em sua sistemática que sugestivas em suas reflexões – uma atenção sintomática: sintomática da consciência de viverem, agirem, meditarem dentro de um tempo que não é hoje o dos anglo-americanos, nem o dos russos, nem o dos belgas, como não foi no século passado ou no XIX o dos ingleses, franceses, suíços e alemães nem, nos séculos XVI e XVII, o dos venezianos, o dos holandeses.

Um desses espanhóis, uma espanhola, Maria Zambrano, em página admiravelmente lúcida sobre esse espanholíssimo tema – também versado por Lain e Julián Marías – afirmou há pouco que mesmo pronunciando as mesmas palavras que outros povos europeus e executando ações análogas às deles, a Espanha o vem fazendo dentro de um ritmo próprio. Por conseguinte, dando a essas palavras e a esses atos um sentido específico, isto é, condicionado pelo fato de que a Espanha – e o mesmo é certo de Portugal – vem quase sempre se exprimindo como civilização, antes ou depois da Europa; e não simultaneamente.

Esse ritmo de comportamento especificamente hispânico da parte do homem peninsular o teria levado a conflitos com os demais europeus, mais graves do que aqueles já conhecidos por todos os estudiosos das relações entre esse homem – o peninsular – e o francês ou o inglês ou o alemão ou o anglo-americano, se esse seu ritmo, por assim dizer descompassado, de vir, ora se antecipando aos demais povos da Europa, ora se retardando com relação a eles, não fosse compensado por outra singularidade no sentido hispânico de tempo: o de ser um sentido em que presente, passado e futuro são menos do que, entre os europeus cronométricos, aspectos de uma mesma influência de vida: influência, recorrência, constância. O "tempo tríbio" consagrado, sob aspecto psicossocial, por avalista brasileiro do assunto.

É aspecto do problema de que não se ocupa María Zambrano. Mas que não deve ser esquecido nunca por aqueles que vêem na civilização hispânica a expressão de um sentido de tempo ninguém diz que superior ao cronométrico – pois não se trata de apurar a superioridade ou a inferioridade deste ou daquele sentido de tempo característico de uma civilização – mas diferente do das civilizações européias, há alguns séculos, civilizações de vanguarda: as industriais-capitalistas, glorificadoras do trabalho contínuo e valorizadoras da produção metódica, veloz, econômica de minutos e até de segundos. Da produção e do transporte.

Tanto que suas civilizações identificam o tempo com o dinheiro de um modo que nunca afastou os hispanos de sua identificação do tempo com a vida. Mas uma identificação em que o empo se tem conservado servo da vida e do homem, explicando-se assim a negligência do hispano em economizar segundos e até minutos; em perder – por amor quase sempre da vida – as próprias horas; em deixar trabalhos já iniciados para serem concluídos amanhã ou depois de amanhã, abrindo-se, entre o hoje e o amanhã ou depois de amanhã, abrindo-se, entre o hoje e o amanhã, horas incontáveis de lazer.

Com o mundo a caminhar, pela automatização cada dia mais rápida, para uma civilização antes de lazer organizado, ou coordenado, mas não dirigido, do que de trabalho arregimentado, o sentido hispânico de tempo ou o ritmo hispânico de vida pode vir a ser um sentido de tempo ou um ritmo de vida que os homens pode vir a ser o mestre de um sabedoria tida, durante séculos, no Ocidente, por hediondo vício: o vício da soberania do homem sobre o tempo, no gozo da vida e na apreciação dos seus valores, com as suas inevitáveis decorrências de impontualidade e de lentidão.

Este, um assunto de que, sob pontos de vista um tanto pessoais, e procurando estabelecer a imprevista atualidade de um suposto arcaísmo, vem se ocupando ultimamente o autor dos ensaios que se seguem. Também o tema que deveria Ter desenvolvido no "Seminário de 30 pensadores" – 15 do Ocidente, 15 do Oriente – que reuniu-se, já há alguns anos, em Bruxelas, para tratar das diferentes idéias de vida, morte e duração nas diferentes civilizações modernas: seminário para o qual foi generosamente convidado pelos seus organizadores belgas por saberem das suas preocupações com o assunto. Inclusive em ligação com a Hispanotropicologia de que vem sugerindo a conveniência de uma sistematização em ciência : tese, de modo geral, já aceita por sábios europeus e americanos, dentre os mais autorizados .

Que vem sugerindo o autor em conferências, em geral, e, especificamente, no referido ensaio escrito em inglês e intitulado "On the Iberian Concept of Time" – trabalho já comentado por sociólogos, psicólogos, historiadores, pensadores e por alguns deles considerado como que nova perspectiva para um confronto entre europeus ibérico e não-ibéricos, ou hispânicos e não-hispânicos, e suas projeções na América e noutras partes do mundo? Precisamente a reatualização de suposto arcaísmo: o sentido hispânico de ócio ligado ao de tempo .

Tenta o autor, no conjunto de ensaios que se seguem, um resumo dessas sugestões – simples sugestões – adaptando ao público hispânico, em geral, ao brasileiro, em particular, que possa ter do assunto um interesse, além de intelectual, existencial, ligado à sua própria e atual vivência, desde que um dos critérios de abordagem do problema de tempo, como tempo social, psicológica e não apenas histórico seguido pelo autor, é o de ser constantemente tríbio, isto é, expressão de uma afluência ou confluência de vida que só arbitrariamente pode ser separada em passado, presente e futuro. Admitindo esse critério, se houve um tempo hispânico, que teria condicionado o comportamento hispânico ou ibérico em dias decisivos para a projeção desse comportamento na América e noutras partes do mundo, esse tempo não morreu com as descobertas hispânicas de novas terras nem com a colonização hispânica de espaços não-europeus – desde então hispanizados – porém permanece entre sociedades neo-hispânicas em desenvolvimento nesses espaços. Permanece por vir resistindo, de algum modo, a sentidos de tempo não-hispânicos, em parte triunfantes onde quer que o imperialismo de povos europeus não-hispânicos tenha vigorado. Tendo resistido – de algum modo, repita-se – a esses imperialismos, agora quase extintos, e, com a crescente automação, quase invalidados, nas suas bases, na própria Europa nórdica, estamos, talves, diante deste paradoxo: o de um tempo – o hispânico – por alguns breves séculos arcaico em face do tempo anglo-saxão, germânico, suíço, nórdico: o tempo da Revolução Industrial, da Revolução Protestante, da Técnica cronométrica – apresentar-se como tempo pós-moderno. Pós-moderno e possivelmente mais em harmonia com o futuro humano condicionado pela automação e pelo aumento de tempo livre, do que o simbolizado pela "hora inglesa" e pela mística Calvinista do "tempo é dinheiro".

Este livro aparece no momento em que, ao lado de um mais generalizado, do que há vinte anos, sentimento de solidariedade hispânica, surgem, contraditoriamente, tentativas, da parte apenas de certos grupos, no sentido de erguer-se, com objetivos políticos imediatos, uma como barreira entre o Brasil, de origem principalmente portuguesa, e a América Espanhola. América, a espanhola, que, segundo demagogos mais ou menos simplistas, estaria sofrendo, da parte dos brasileiros, agora em fase de desenvolvimento mais acentuado, influência de caráter "imperialista". De onde a necessidade – para tais demagogos ou espanhola articular-se, sob a mística de uma espanholidade de origem todas elas, contra o estranho, o intruso, o não-espanhol, suspeito de intenções imperialistas, que seria o Brasil.

A tese que se defende nas páginas seguintes é precisamente a de ser o Brasil, embora de origem principalmente portuguesa, duplamente hispânico, tendo sua formação se processado, durante os dias coloniais, não só sob influência portuguesa como sob uma considerável orientação da Espanha que, senhora do Brasil tanto quanto de Portugal, esmerou-se, durante seu primado, em favorecer a futura nação brasileira. Sabe-se quanto o direito, as letras, o folclore espanhóis marcaram então o Brasil para onde também se transferiram da Espanha, como colonos, não poucos espanhóis que aqui fundaram famílias e se prolongaram – e com eles, valores intimamente espanhóis – em descendentes numerosos. Daí poder-se afirmar que se trata de nação – a brasileira – duplamente hispânica: a única a se caracterizar por uma singularidade que nela reforça, em vez de prejudicar, sua condição de herdeira direta tanto de valores espanhóis como de valores portugueses. Não é assim um intruso na comunidade hispânica – que inclui Portugal tanto quanto a Espanha – porém a expressão mais completa do que, nessa comunidade, é uma cultura ao mesmo tempo una e plural, quando considerada nos seus característicos sociológicos. As divergências de formas políticas e as diferenças de ritmo de desenvolvimento econômico de umas para outras das nações que constituem conjunto sociocultural tão nítido por aqueles seus característicos essenciais, são divergências e diferenças de importância secundária.

O Brasil está assim em família entre as nações americanas de origem principalmente espanhola . Compreende-as. Sabe que delas difere em algumas formas de comportamento e não somente na fala, porém não lhe falta a consciência de afinidades mais profundas que essas diferenças, aliás saudáveis. Dentro do seu próprio complexo nacional de sociedade e de cultura, o Brasil está habituado a ser uno e diverso. Não lhe custa, portanto, estender esse seu modo nacional de ser à sua forma de pertencer ao sistema ou conjunto transnacional formado pelas nações hispânicas do mundo: especialmente da América. O intercâmbio cultural-científico, literário, artístico, religioso, filosófico pode grandemente concorrer para esse entendimento mais prático. As afinidades simplesmente literárias podem se manifestar em repercussões de caráter prático.

Tem sido – e parece certo – que o espanhol não é por vocação ficcionista: um ficcionista puro. Thomas Mann, ao comentar o Don Quixote no livro que dedica a Cervantes, Goethe e Freud, observa, com acuidade rara, o que há de antinovalesco em grande parte da obra-prima hispânica: ou seja, D. Quixote e seu escudeiro a saírem da novela e andarem como realidades potenciais por um mundo que representa um grau mais alto de realidade, embora – acrescente-se a Mann – não seja a realidade. Não será este um característico de toda a grande literatura ou arte hispânica? Da de El Greco, da de Manuel de Falla, da de Machado de Assís, da de Villa-Lobos, da de Euclides, de Martin Fierro, da mística de Santa Teresa, das criações de Calderón, de Guimarães Rosa, de Jorge Luís Borges, de José Lins do Rêgo? Daí o que na obra de Cervantes, como no de outros hispanos, é combinação de um épico marcado de um humor que, sem ser o inglês, deixa de ser humor, embora pareça às vezes simples humorismo.

Daí ser também a máxima criação literária dos hispanos aquela mistura de nacional e de local, de hispânico e de universal, do histórico e do não-histórico, destacada pelo crítico alemão Karl Vossler em seu estudo de escritores e poetas de Espanha. Também esse característico de Cervantes em vez de uma sua singularidade, não será uma tendência de toda a mais autêntica arte ou literatura ou filosofia e até mística hispânica? O barroco em Don Quixote não seria nunca, segundo o crítico alemão, um obstáculo ao que nele se desenvolve em plano também "atemporal". O tempo dos artistas espanhóis e dos portugueses mais hispânicos é sempre um tempo que, sem deixar de ter marcas de uma época, está em processo de ser superado. Por isso Santa Teresa é tão espanhola em seu modo de ser Santa de Igreja; e o brasileiro Machado de Assis atinge o "atemporal" sem nunca deixar de ser carioca: sobretudo um carioca do fim do reinado de Pedro II.

Em Ensayos criticos acerca de la Literatura Europea (tr. de Eduardo Valente, aparecida em 1959), que nos diz Ernst Robert Curtius ao abordar esse problema do tempo considerado por escritores ? Recorda o desdém de Goethe por "decênios e vintênios". Não será característico do autor hispânico sobrepor a um tempo só histórico, outro social ou psicossocial? Não será este o tempo de D. Quixote? Sua época de cavalaria não será mais que histórica para confundir-se com toda a predominância do "sentido do honra", estudada magnificamente por Américo de Castro no espanhol de várias épocas históricas?

O crítico Curtius parece ir ao ponto central do assunto quando identifica o sentido de tempo – tão hispânico – que Unamuno considerou "intra-histórico" com o "eternamente humano". O extra-histórico é efêmero. Daí em Don Quixote o tempo ser principalmente o intra-histórico, concepção contra a qual os argumentos dos seus críticos parecem a alguns de nós precários. Acrescente-se que se pode dizer do tempo intra-histórico da concepção de Unamuno que é, talvez, aquele que permite maior interpenetração de compreensões entre os homens, à revelia de suas condições estritamente nacionais . é que o cotidiano – tão considerado pelos que procuram compreender o Homem e os homens, sem se aterem a exterioridades históricas ou convencionalmente históricas – é existencial e essencialmente intra-histórico. Daí escritores aparentemente só de ficção, como o meio espanhol – no seu modo literário de ser – o francês Balzac, revelarem da França burguesa intimidades que não transparecem das histórias convencionais e extra-historicamente históricas. O caso também do brasileiro Machado de Assis e o do espanhol Pio Baroja; e podem ser citado o exemplo de outro francês com alguma coisa de confessor jesuíta espanhol – Marcel Proust – e o de seu rival literário, irlandês de formação jesuítica, James Joyce. é aliás tendência que está a transparecer de recentes livros de memórias, brasileiros, de boa qualidade como os de Gilberto Amado, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nova, Rachel Jardim. E que já se antecipara em livros brasileiros de uma história social – ou antropológica – de ilustres brasileiros . Obras pioneiramente brasileiras da chamada "autobiografia coletiva".

As literaturas da América Espanhola, tanto quanto a brasileira – infelizmente desconhecida, ao que parece, por Suas Excelências os acadêmicos suecos que, encartolados e em solenidades muito deles, distribuem o Prêmio Nobel de Literatura – vêm adquirindo ultimamente novos vigores. Já se foi o tempo em que Unamuno podia dizer com quase inteira razão no seu Contra Esto e Aquello: "La imitación, mas o menos disfrazada, reina alli [na América Hispânica] en soberana". E dizia preferir de Literatura da América Espanhola "las obras de Historia, de Política, de Jurisprudencia, hasta de Ciencia", às de "pura literatura". Discutível a expressão – também Unamuno por vezes cochilou – "pura literatura", evidentemente desconhecida ele Don Segundo Sombra, e os contos e romances em português – com alguma coisa de história – do brasileiro Machado de Assis.

As modernas literaturas do mundo hispânico se apresentam, tanto na Europa como fora da Europa, nas obras dos seus melhores escritores e poetas, livres de retórica. Alguns, como o brasileiro João Cabral de Melo Neto, chegam a ser prejudicados pelo excesso de anti-retórica que lhes dá menos uma verticalidade grecóide – tão espanhola – do que uma magreza extremamente angulosa. Machado de Assis, como Joaquim Nabuco, foram modelos – como é hoje Carlos Drummond de Andrade – na literatura brasileira, de linguagem enxuta – a de Federico García Lorca – não de todo antibarroca por excesso de palavras apenas friamente ou secamente ossos. O mesmo se diga dos modernos oradores hispânicos, quer da Europa, quer de fora da Europa, nenhum dos quais, dentre os mais notáveis de hoje, segue o exemplo do, no século passado, tão famoso e tão influente na América Hispânica, Castelar. Atualmente, já pode ser considerado representativamente hispânico um orador como o admirável mestre argentino de Direito que é o professor Mario Amadeo. O estilo afinal não é só o homem como indivíduo: é também ele como parte de uma cultura e até de um tempo social vivido com maior ou menor intensidade por essa cultura. Quando o crítico Leo Spitzer, nos seus estudos de lingüística e história literária, repudia a generalização de Buffon, na sua forma extrema, para destacar quanto são marcados pelo que chama o " espírito da época" os estilos de escritores que representam uma cultura nacional e, dentro dessa cultura – acrescente-se ao crítico – tempos sociais, como que introduz, no trato do assunto, uma justa consideração psicossocial, além de histórica. Por esse critério, há afinidades de estilo entre modernos escritores hispânicos – sem se deixar de admitir a singularidade de uns poucos, mais intensamente pessoais – como houve entre os dos séculos coloniais e XIX. Mas sem que, desde os velhos dias, pareça ter deixado de haver na literatura como nas artes hispânicas e no próprio modo dos hispanos mais idôneos serem, como foi Ramón y Cajal ou, mais recentemente, Gregorio Marañon, cientistas, alguma coisa de caracteristicamente pan-hispânico. Alguma coisa que como os identifica como sendo de uma categoria à parte da européia e da anglo-americana e superior às repercussões de tempos sociais sobre constantes atemporais e, por conseguinte – repita-se – pan-hispânica. De modo particularíssimo, haveria um modo de ser e de ver, de sentir e de pensar, hispanotropical.

Quando o mesmo Spitzer, ao analisar o caso espanholíssimo do "Arcipreste de Hita", como um autor em quem o respeito pelo tradicional teria impedido o desenvolvimento de valores pessoais, toca num problema interessantíssimo para a interpretação da cultura hispânica; e parece nos levar à conclusão de que essa predominância do tradicional, do convencional, do acadêmico teria sido particularmente forte nas regiões hispânicas mais sujeitas ao imperialismo cultural – pode talvez dizer-se assim – de universidades fortes, como, na Europa, Salamanca, e, na América, a do México e San Marcos. O Brasil, sem universidades na época colonial e de algum modo no século XIX, de centros assim imperiais de cultura intelectual, de feitio acadêmico – intransigentemente acadêmico – teria tido nessa singularidade, ao mesmo tempo uma desvantagem e uma vantagem. A desvantagem teria sido a de lhe ter faltado disciplina superiormente acadêmica, que não fosse a transoceânica, a várias de suas expressões intelectuais. A vantagem teria sido a de com a falta dessa disciplina – houve apenas a representada pelo ensino jesuítico quase de nível universitário – terem alguns brasileiros coloniais e do século XIX desenvolvido formas quase autônomas de cultura – inclusive a médica – sentindo-se livres, como por vezes se sentiram, para adotar não-europeísmos, indigenismos, africanismos, com os quais se enriqueceram as bases pré-nacionais da cultura nacional, sem o elemento germinal hispânico deixar de ser o predominante. O exemplo do sábio José Bonifácio que o diga. Antes de seguir para a Europa, impregnou-se de indigenismos úteis aos seus estudos científicos – inclusive o referente à tão brasileira pesca da baleia. Na Europa, freqüentando os mais altos centros de estudos científicos da época, pôde juntar os dois saberes: o acadêmico, universitário, europeu e o não-europeu; "de experiência feito" como diria Camões. Pôde ser assim um hispano que criou, como sábio, e não como caudilho, nem como herói militar, nem como político do tipo convencional, uma nova nação hispânica, na qual às bases européias juntaram-se ativamente, e não passivamente, valiosos elementos não-europeus. Parece que nem Bolívar nem San Martin tiveram igual vantagem ao se tornarem fundadores, na América, de outras nações principalmente – mas não exclusivamente – euro-hispânicas nos elementos básicos de suas futuras culturas, sociedades e instituições nacionais.

Note-se ainda, a propósito de Don Quixote, como expressão de ethos hispânico, que é na literatura ocidental nos seus começos de moderna – ou transmoderna – livro que se antecipa àquela recente busca em várias literaturas européias e americanas: a "busca de nova linguagem coloquial" a que se refere o poeta-crítico admirável que é T.S. Eliot numa de suas melhores páginas sobre poesia e poetas de hoje e antigos. O hispano Cervantes, e os teatrólogos na Espanha, Gil Vicente, Fernão Lopes e o próprio Fernão Mendes Pinto, em Portugal, se anteciparam nessa dignificação do coloquial, em que se valoriza a contribuição popular, cotidiana, vinda direta da boca do povo, para a literatura, sem que essa valorização importe em cortejar-se no povo o que é vulgarmente popularesco. São antecipações que desde velhos dias aproximaram nas Espanhas suas literaturas mais características de suas línguas, de umas das quais – a espanhola – diria George Borrow, o autor de The Bible in Spain – que era maior que sua literatura. Exagero talvez. O exato talvez seja dizer-se que uma é digna da outra: a língua, da literatura; a literatura, da língua. Saliente-se a propósito que a cultura hispânica se exprime em várias línguas menores mas que a maior – a castelhana – se impõe como pan-hispânica, sem que as menores sejam desprezadas. Já rival da maior se está tornando, pela crescente importância, a língua portuguesa, que é a de cem milhões de brasileiros e de portugueses ou aportuguesados de outras partes do mundo que, literariamente, cada dia adquire maior prestígio, possuindo talvez, hoje o Brasil, os melhores poetas hispânicos além de escritores de uma prosa que combina com característicos portugueses, característicos espanhóis. O ensaísmo brasileiro parece ser atualmente superior ao espanhol que, no século XIX, teve período de tão grande esplendor. Permanente entretanto, um fato significativo o da tradição espanhola de literatura, com possibilidades de desabrochar-se em novas ou renovadas expressões, ser muito mais rica, estética e psicologicamente, e mais universal nos seus apelos e nas suas seduções, do que a portuguesa, embora seja preciso recordar, da língua portuguesa, que teve na nossa época um renovador – Eça de Queiroz – como não surgiu até hoje outro, superior, na língua espanhola.

Por menor que seja a importância do grupo de ensaios que este livro reúne, um superlativo talvez lhe caiba; é mais que oportuno, oportuníssimo. Mesmo que se discorde da idéia do autor de ser o Brasil parte de uma comunidade de crescente importância no mundo emergente – importância tão grande, sob vários aspectos, do que nela é essencialmente antropológico ou existencialmente sociológico, com projeções políticas, quanto a da Comunidade Anglo-saxônica, a da Eslava, a da Chinesa – dificilmente se poderá recusar a oportunidade de ser o assunto considerado ou versado.

O brasileiro começa a tomar maior conhecimento de suas relações com a Espanha e com a América Espanhola. Por sua vez a América Espanhola, mesmo quando, em alguns meios, afetada pelo mito de um "imperialismo brasileiro" com relação a seus vizinhos do continente, principia a ter consciência de um valor brasileiro, de cujas afinidades e contrastes com o que é espanhol na América precisa de inteirar-se em seu próprio interesse. Pode-se acrescentar, a propósito de uma unidade pan-hispânica, que poderá vir a ser benéfica ao futuro tanto da América Espanhola quanto ao Brasil. Uma unidade para a qual as diferenças entre os dois – o Brasil e América Espanhola – concorrerão, completando-se e evitando-se aquele excesso de semelhanças que, segundo Angel Ganivet, viria a separar de modo, sob várias aspectos, indesejáveis, Portugal e Espanha.

Há um começo, da parte de alguns dos melhores escritores da América Hispânica, de interesse inteligente pelos seus vizinhos. De desejo de compreensão de suas diferenças. Nesse sentido permanece expressivo o exemplo deixado por Alfonso Reys, mexicano – ensaísta tão lúcido – com relação ao Brasil. é necessário que tal espécie de interesse se acentue, aproximando os vários hispano-americanos, sem exclusão – acentue-se – do Brasil. Exclusão a que são inclinados uns tantos indivíduos e instituições ilustres da América Espanhola. De parte dos brasileiros com relação a seus vizinhos da América Espanhola ou a Espanha, quase não existe antiespanholismo defensivo. Informam-me que o país da América Espanhola que importa da Espanha maior número de livros – técnicos, científicos, (originais ou trazidos) – literários, é o Brasil . Admiradíssimo no Brasil é um Federico García Lorca como é um Jorge Luis Borges: um espanhol e um argentino. A reciprocidade parece não vigorar. Fora o escritor do século XIX, Eça de Queiroz, parece que nenhum outro, português ou brasileiro, tem repercussão forte na Espanha e na América Espanhola. O que está significando uma perda, tanto para os hispanos de língua portuguesa – para o seu prestígio nos países da América Espanhola : para aqueles, nesses povos que permanecem desconhecedores de valores portugueses e brasileiros de várias espécies – e não apenas literários e artísticos – capazes de enriquecê-los na sua cultura em geral e na hispânica, em particular. Capazes de aproximá-los para constituírem até política e economicamente uma comunidade vigorosa na sua unidade, sem sacrifício da sua saudável diversidade. Essa aproximação inter-hispânica precisa ser a mais extensa possível. E incluir não apenas entendimentos políticos, na defesa de direitos e interesses pan-hispâncos e convênios econômicos o mesmo sentido, como um muito maior intercâmbio nos setores literário, científico, tecnológico, filosófico, artístico, arquitetônico, incluindo o combate à poluição de águas (algumas internacionais), de ares de solos, defesa de reservas florestais. Sobretudo as de países, como o Brasil, hispanotropicais, com interesses comuns ou inter-relacionados, em áreas como a amazônica, nessa defesa.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Brasileiro entre os outros hispanos: afinidades e possíveis futuros nas suas interrelações. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. 161p. (Coleção Documentos Brasileiros, 168).

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