O ESCRAVO NOS ANÚNCIOS DE JORNAIS BRASILEIROS DO SÉCULO XIX
Prefácio
Dos anúncios lembremo-nos, de início, que visam estabelecer no leitor de jornal aquêles "tipos" de "familiaridade, associação, automatismo" me tôrno do objeto anunciado, a que se refere o Padre Bernard J. F. Lonergan, à página 570 da sua obra monumental Insight, A Study of Human Understanding (Nova York, 1957). No anúncio procura-se " atrair, prender, absorver" a atenção do leitor de jornal, do modo todo especial: com objetivos práticos e imediatos, através de palavras capazes de conquistar o leitor para o anunciante ou para objeto anunciado, à revelia de compreensão do assunto ou de reflexão sôbre o mesmo objeto da parte do leitor sugestionado. Objeto que tanto pode ser um tipo de calçado como um tipo de vinho; um cavalo ou uma casa.
No caso de escravos à venda, os anúncios, nos jornais brasileiros do século XIX, seguiram êsse modêlo, como que clássico, de anúncios. No caso de escravos fugidos, porém, afastaram-se dêle, para se dirigirem, à compreensão do leitor através de palavras que, estabelecendo " tipos de familiaridade" em tôrno do assunto – escravos – estabeleciam, também, nas relações necessáriamente francas e inevitàvelmente honestas que criavam entre o leitor, o anunciante e o objeto anunciado, alguma coisa de científico, dirigindo-se algum modo, à "experiência", " compreensão" e á "reflexão crítica" do leitor: característicos, segundo o Padre Lonergan, da linguagem científica. Daí ser possível uma utilização tôda especial, em Antropologia e noutras ciências, daquele gênero de anúncios. O que não significa que os anúncios de escravos à venda, ou para alugar, devam ser considerados de todo desprezíveis do ponto de vista cientìficamente antropológico. Apenas sua linguagem não é a "científica", da maioria dos anúncios de escravos fugidos que, no Brasil, começaram a aparecer logo que aqui se estabilizou a imprensa, nos começos do séculos XIX.
São os anúncios de escravos à venda sociològicamente interessantes pelo que sugerem das atividades dos anunciantes – brasileiros da cultura e a etnia dominantes – para com os valores físicos, econômicos, culturais – representados por indivíduos da cultura a da etnia dominadas. Relações que não deixavam de implicar em avaliações de qualidades de corpo e de comportamento de indivíduos servis, pelos senhoris.
Não consta aos modernos antropólogos brasileiros que tais avaliações já tenham sido consideradas através do estudo de anúncios de jornais. O mais que se conhece, em tôrno dêsse material e dêsse assunto, é a interpretação sociológica de anúncios de jornais empreendida pelo Professor Guy B. Johnson, para tentar surpreender por êsse meio a influência, nos Estados Unidos, da cultura dominante – a anglo-saxônica – sôbre a dominada: a dos negros e mestiços de origem africana.
O Professor Guy B. Johnson, num ensaio já antigo, " Newspaper Advertisements anda Negro Culture", publicado no vol III (1924-1925), do Journal of Social Forces, destacou a influência exercida pela cultura dominante, sôbre a dominada nos Estados Unidos através da consagração de traços peculiares à dominante que a dominada, sugestionada pelo reclame comercial, procuraria adotar. Assunto estudado também pelo Professor Melville J. Herskovits – à revelia de anúncios de jornais – no capítulo " White Values for Colored Americans" do seu The American Negro, a Study in Raxeal Crossing, ( Nova York, 1930). Mas sem recorrer – repita-se – ao estudo dos anúncios do jornal como material de importância além de antropológica, sociológica, pelas recorrências que nêles se encontram: recorrências válidas para tentativas de estabelecer-se a correlação entre traços da cultura dominante e a sua imitação pela parte mais culta da população de cultura dominada. é que a utilização sistemàticamente científica dos anúncios de jornais – de suas recorrências cultas – só se realizaria a partir de 1930 e no Brasil.
De H. Friedenwald é um estudo pioneiro, como estudo histórico-social, " Some Newspaper Advertisemets in the 18th century", vol. 6, Transactions of the Jewish American Society, N. Y. (1895) dos anúncios de jornais do século XVIII: das sugestões, da parte dos vendedores de então, sôbre a sensibilidade de um público indeciso ou mal informado a respeito de artigos à venda, entre dos quais é natural que já aparecessem escravos. Devemos nos lembrar que só no meado do século XVII os anúncios de qualquer espécie principalmente a ser admitidos como "lícitos" pela ética comercial predominante entre europeus.
Segundo Jules de Bock, à página 30 do seu Le Journal à travers les âges (Paris, 1907), foi em: 1667 e na Holanda – num jornal da Holanda: Ghentsch Post-Tijdingen – que apareceu o primeiro anúncio comercial na imprensa. Na Inglaterra, refere Henry Sampson, à página 76 do seu History of Advertisisng from the Earliest Times (Londres, 1875) ter sido só no fim do século XVII que " the merchant community of London became accustomed to utilizing the Press as a medium for advertising". E escrevendo no sec. XVIII, Posttewayt recordava que o anúncio de jornal, tendo se tornado prática corrente nos reinos da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda, até há poucos anos era considerado " mean and disgraceful... by people of reputation in trade..". A transformação que se operara de um século a outro fôra completa: " persons of great credit in trade experiencing it to be the best, the easiest and the chepeast method of conveying whatever they have of offer to the knowledhe of the wole kingdom" – escrevia M. Posttethwayt à página 2, do volume I, da Segunda edição de A Universal Dictionary of Trade and Commerce, publicado em Londres em 1741: obra difícil de ser consultada sendo, por isto, aqui citada através de W. Sombart, que a menciona nas suas notas ao capítulo VII de The Jews and Modern Capitalism: edição inglêsa de sua obra-prima de historiador-sociólogo.
É o arguto Sombat quem repara não constar a palavra réclame do Dicionaire du Commerce de Savary, publicado na França em 1726, como palavra com um específico significado econômico. E, é ainda, o historiador-sociólogo alemão quem recorda ter aparecido em francês, em 1751, o jornal de anúncios Les Petites Affiches, sem anúncios verdadeiramente comerciais. Afirmava que baseia no seu conhecimento da obra de P. Datz, aparecida em 1984, Histoire de la Publicité, na qual foi publicado um fac-simile de Les Petites Affiches.
Ainda de Sombat é outro reparo sagaz sôbre o assunto: o de poder admitir-se a pretensão de alguns judeus de ser o reclame ou a publicidade moderna uma invenção judaica. Pura probabilidade, é certo; válida apenas como probabilidade desde que, segundo o historiador alemão, à página 140 da edição inglêsa da sua obra principal, é ainda pouco ou deficiente o nosso conhecimento da história do anúncio ou do reclame. Certo é, porém, o fato de terem sido os judeus os inventores da imprensa moderna, isto é, da maquinaria de imprimir anúncios em jornais de preço baixo. Também teriam sido êles, segundo Sombart, uma espécie de Jesuítas do comércio, fazendo do anúncio, ou do reclame, instrumento de tôda uma política comercial: a de que os fins justificam os meios. O anúncio nem sempre seria exato com relação ao produto anunciado; mas com meio de persuasão do público facilitaria o objetivo do vendedor: vender o produto anunciado.
Essa espécie de política comercial, entretanto, não se pode dizer que tenha sido só empregada por comerciantes israelitas: também pelos comerciantes de outras raças e de outras credos. O anúncio tornou-se, da parte de vários dêles, uma arte de exaltação de virtudes, nem sempre reais – às vêzes fictícias – dos produtos anunciados e também um meio de competição de uns comerciantes com os outros, através de preços: preços mais baixos para os mesmos artigos. Semelhante competição atingiu, no Brasil, os escravos à venda ou aluguel, anunciados em jornais do século XIX como portadores de virtudes que nem sempre correspondiam à realidade, essa disparidade entre o anúncio de venda e o objetivo à venda permitindo preços sedutoramente baixos: sedução a que se abandonavam com freqüência compradores incautos.
Também no livro The Mechanical Bride. Folklore of the Industrial Man (N. Y. 1951), de Herbert Marshall Mc Luhan, se faz penetrante análise da influência dos anúncios sôbre o público: neste caso, o público angloamericano. Para Mc Luhan " no longer is it possible for modern man, individually or collectively, to dive in any exclusive segment of human experence or axhieved social pattern" (pag. 87). O que, aplicado às minorias étnicoculturais, significaria, dentro de civilizações européias ou para-européias – acrescente-se a Mc Luhan – que as sugestões dos modernos anúncios de jornais as atingiriam de tal modo que, no procedimento dessas minorias, estaria se acentuando a tendência no sentido de assemelhar-se ao da maioria culturalmente dominante. Daí – pode-se ainda acrescentar ao autor de The Mechanical Bride – o sucesso que vêm obtendo os anunciantes de produtos para amaciar cabelos encarapinhados, até torná-los semelhantes aos da gente caucásica – culturalmente dominantes; e de outros artigos como que arianizantes produzidos pela indústria moderna – quase tôda européia ou angloamericana – e consumidos com entusiasmo por grupos de outros stocks étnicos e de outras civilizações.
Nos anúncios de escravos de jornais brasileiros do século XIX, percebe-se a valorização dos escravos de tipos físico e de característicos culturais mais semelhantes aos da população culturalmente dominante. Pelo menos quando eram escravos destinados ao serviços doméstico: a pagens e mucamas, sobretudo. é evidente que, tratando-se de escravos destinados ao serviço agrário ou ao agro-pastoril, os preferidos eram os que representassem principalmente força ou vigor para o trabalho físico, independente de seus traços físicos ou de seus característicos culturais se assemelharem aos da população culturalmente dominante. Tais virtudes são por vêzes acentuadas ou mesmo exageradas. Dos escravos domésticos pode-se generalizar, à base do estudo dos anúncios de escravos fugidos, que fugiam menos que os de campo: talvez por se sentirem mais próximos da cultura dominante que, dentro das casas-grandes e dos sobrados patriarcais, os admitia à intimidade da mesma cultura, permitindo a pagens e a mucamas regalias de alimentação, de trajo, de recreação que faziam dêles uma espécie de parentes pobres dos brancos, seus senhores. " Nas cidades já se encontram escravos tão bem vestidos e calçados que ao vê-los ninguém dirá que o são", escrevia em 1866 Agostinho Marques Perdigão Malheiro à página 114 do seu A Escravidão no Brasil: ensaio histórico-jurídico-social ( Rio de Janeiro, 1866).
" Ils sentente trop bien qu’ils peuvent passer dans la population du pays, ou que cet avantage appartiendra à leur posterité", escreveu dos escravos que conheceu no Brasil dos começos do século XIX o francês Ferdinand Dénis, à página 141 do seu Brésil ( Paris MDCCCXXXIX). Acrescentando à página 145: " Hâtons-nous d’afjouter que se raffinement de cruanté dont on cite des exemples si effroyables à la Guyane hollandaise et dans les colonies anglaises elles-mêmes, est bien loin dans le régime intérieur de s habitations, ou, en général, les noirs sont traités avex humanité". O que não significa que não fôssem castigados, ás vêzes, duramente por senhores severos. Mas quase sempre paternalmente severos à maneira da época.
As multidões de escravos negros com os quais os anúncios de jornais brasileiros do século XIX nos põem em contacto não são multidões de anônimos. Raro o escravo que não aparece nesses anúncios designados pelo nome: pelo nome cristão. Distinguido, portanto, como pessoa, do puro animal que êle foi em outras civilizações: puro animal, quando muito chamado " boy" ou " pukinniy" ou "nègre".
É certo que em certos documentos brasileiros êle é apenas coisa: " peça de Guiné". Certo, também, que em alguns dos próprios anúncios de negros postos á venda ou incluidos entre objetos de leilão, o escravo é reduzido quase a animal: cabra. Mas do negro fugido, raramente do anunciante deixa de dar o nome cristão que abrasileira o negro em pessoa da família sociológica do seu senhor branco. E em certos anúncios se sente que o negro desaparecido era para o seu senhor quase um filho que deixara a casa do pai.
Um pai autoritário, severo, exigente, é verdade. Um senhor qua castigava os escravos; que os marcava com chicotadas; que os prendiam aos troncos; que lhes punha máscaras de flandres para não comerem terra; que os alugava a trabalhos de rua.
Mas êsse patriarca que punia assim os escravos, punia igualmente os filhos. Dentro do sistema patriarcal brasileiro, o menino branco e senhoril – o sinhôsinho – era também castigado com palmatória, com vara de marmelo; prêso nas cafuas; posto de joelho sôbre grãos de milho. O castigo ao escravo, como o castigo ao filho de família, fazia parte de um sistema de educação, de assimilação e de disciplina – o patriarcal – que não podia desmanchar-se em ternura para com os necessitados de educação, de assimilação e de disciplina. Para se integrarem nos papéis ou nas funções que deviam desempenhar nesse sistema, escravo e menino precisavam de ser disciplinados, assimilados e educados pelos brancos e pelos adultos á maneira da época, que era uma maneira da qual ninguém concebia que estivesse ausente a palmatória ou o chicote; o castigo que doesse no corpo; a punição cruamente física.
Pelo que não nos devem horrorizar demasiadamente, nos escravos fugidos, marcas nas nádegas de castigos ou sinais de punições; lubamdos nos pés; correntes nos pés. Tais castigos faziam parte da rotina de todo um complexo sistema de relações de escravos com seus senhores; e de escravos novos ou boçais com escravos antigos ou ladinos com os quais deviam aprender a cozinhar, a fiar, a lavar roupa, a costurar, a fazer renda, bico, labirinto, doces, geléias; a cuidar de cavalos, de ovelhas, de vacas, de bois; a remar, a pescar, a fazer pão, manteiga, queijo, sapatos, roupas, chapéus, móveis, a cuidar de meninos, de jardins, de hortas; a botar sentido em sítios; a construir casas; a plantar cana, algodão, café, tabaco, mandioca.
Aculturação dirigida. Trabalho forçado. Mas aculturação e trabalho dirigidos que preparavam o escravo para a própria liberdade dentro da nova sociedade ou da nova cultura de que êle passava a ser elemento ou membro; e à qual trazia ou acrescentava alguma coisa de seu, ao mesmo tempo que adquiria delá, juntamente com a língua portuguêsa, nem sempre bem aprendida, e com a religião cristã, nem sempre bem assimilada, todo um conjunto de ritos, de técnicas, de valores, de hábitos de trajo e de alimentação, que importavam na sua maior ou menor integração num nôvo gênero de vida.
Sabe-se, pelos anúncios de negros fugidos, de escravos que, tendo vindo ainda crianças da África, falavam, quando adultos, a língua portuguêsa, como se tivessem nascido no Brasil; de outros, porém, os anúncios informam terem envelhecido, falando atrapalhado. O mesmo sucedeu com a religião, com o trajo, com os adornos de corpo, que em alguns se tornaram a imitação quase perfeita da religião, dos adornos e do traje dos seus senhores, enquanto outros parecem não ter nunca querido desprender-se das tangas africanas, ostentando nos dorsos nus marcas, feitas a fogo, de suas tribos de origem que talvez fôssem para êle motivos de orgulho ao mesmo tempo étnico e cultural que os fizesse resistir não só ao trajo dos seus senhores como aos seus adornos, aos seus alimentos, aos seus santos, à sua música, às suas danças, às suas artes. Marcas ostentadas por alguns nas próprias faces.
Pelos escravos que passam de modo tão nítido pelos anúncios de negros fugidos dos jornais brasileiros do século XIX, vê-se que foi desigual, da parte dêles, a atitude com relação ao nôvo gênero de vida e aos novos estilos de cultura a que tiveram de submeter-se com escravos. Escravos num país, sob vários aspectos, diferentes das suas terras de origem, embora, tanto quando elas – e neste ponto seu destino foi evidentemente melhor que o dos escravos levados da África para países de climas frios – país de clima quente e tropical; de muito sol e de muita luz; permitindo-lhes que aqui cultivassem legumes e plantas africanas, tanto alimentares como de gôzo. O sistema patriarcal de sociedade a que passaram a pertencer raramente lhes proibiu suas danças, suas músicas, suas artes, suas devoções, seus trajos – contanto que não fôsse a quase completa nudez; e pelos anúncios se vê que foi considerável o número dos que, com pouco tempo de residência no Brasil, se abrasileiraram no trajo e na fala a ponto de alguns terem parecido a estranhos negros livres ou forros.
Muitos os que se conservaram em grande parte do seu aspecto, do seu comportamento e, principalmente, do seu modo de se divertirem nos dias de festa, africanos. Daí a impressão de "África" no meio de uma " civilização européia" que teve Ferdinand Dénis ao ver no Rio de Janeiro dos começos do século XIX ao lado de " noirs domestiques" em " livrées si bizarres et quelquefois si riches", " ces coiffures étranges qui distinguent les tribus entre elles, de même que le tatouage..." " Coiffures étranges" e " tatouage" que caracterizam vários dos escravos fugidos, anunciados nos jornais da época pelos seus senhores.
Os anúncios de escravos recolhidos por mim e, sob minha orientação, pelos meus colaboradores de pesquisa – José Antônio Gonsalves de Melo, Arquimedes de Melo Neto, José Valadares, Diogo de Melo Meneses, Manuel Diegues Junior, Francisco de Assis Barbosa – tanto dos dois principais jornais que, de 1825 a 1888 refletiram, sem interrupção, a economia e a vida patriarcais do Império – o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, e o Diário de Pernambuco, do Recife – como de outros diários e de outras gazetas brasileiras da mesma época, mostram sob que diversidade de critérios sociológicos e antropológicos pode ser utilizado êsse documentário. Utilizado para fixar predominância e utilizado para ilustrar tendências que caracterizam, quer o comportamento de uma população escrava, quer as relações dessa população operária ou servil com a sociedade patriarcal de que a mesma população foi, sob mais de um aspecto, o nervo, e, sob outros aspectos, o alicerce: o alicerce vivo.
Do valor dêsse material ricamente sugestivo – os anúncios de jornais – para o historiador, para o biógrafo, para o filólogo, para o folclorista, já vários estudiosos da cultura brasileira e de outras culturas, coloniais e nacionais, se tinham apercebido, antes da utilização sistemàticamente antropológica de material tão complexo, considerado nas suas recorrências. O inglês Walsh foi um daqueles estudiosos. O suíço Pradez, foi outro. Ainda outro, com relação à vida brasileira da época imperial, o angloamericano Fletcher. Dentre os homens de estudo brasileiros, o historiador, folclorista e dialetologista Pereira da Costa foi talvez o que mais se salientou no aproveitamento de tão valioso material.
Mas é no Brasil de hoje, e através de pesquisas no sentido de se identificarem ou se surpreenderem através de anúncios de jornal, predominância, tendências, recorrências antropològicamente expressiva e sociològicamente significativas, do físico, do comportamento e da atividade de todo um numeroso grupo de população, colonial ou nacional – o escravo de origem africana – e suas relações com a população livre ou senhoril que, pela primeira vez, se começa a verificar, em qualquer país, sistemática utilização científica de um material quase de laboratório, por muito tempo quase ignorado. Utilização sob critério antropológico e sob critério sociológico. Utilização que pode estender-se vantajosamente ao estudo, sob os mesmos dois critérios, dos mesmos e de outros aspectos do físico, do comportamento, do trajo, dos hábitos de alimentação e de habitação, das preferências por côres, móveis, livros, gravuras, jogos, da parte daqueles outros grupos da população brasileira cujos estilos representantes se distribuiram, uns, no decorrer do século XIX, pela classe senhoril – cujos estilos de vida alteraram ou modificaram de modo considerável; outros, pela ainda débil classe operária, de gente livre, que reforçaram de modo igualmente considerável, dando dignidade a ofícios como os de maquinistas, marceneiro, pedreiro, padeiro, cozinheiro, pasteleiro, dentista, cabeleireiro, barbeiro; e fazendo-se quase todos êles retratar por anúncios de jornais que pormenorizaram, com os de leilões, o interior de suas casas e de seus armazens, e detalharam, como os de profissões, suas atividades técnicas, industriais ou operárias. êsses grupos foram, principalmente, o inglês e o francês; o alemão e italiano. Para a reconstituição antropológica da figura e para a recomposição sociológica do passado de cada um dêsses grupos estrangeiros que mais ativamente participaram da modificação sofrida pela cultura brasileira no decorrer do século XIX, são os anúncios de jornais elemento valiosíssimo, contanto que o antropólogo ou o sociólogo saiba utilizá-los como expressão de recorrências ou de regularidades; vendo nêles o típico em contraste com o atípico.
Semelhante utilização – que do estudo dos anúncios de escravos vem sendo estendido ao estudo dos anúncios de negociantes inglêses e franceses ( Gilberto Freyre e Octavio Tarquinio de Sousa), de artesãos alemães ( Gilberto Freyre e Guilherme Auler), de operários italianos ( Gilberto Freyre), pode ser desde já considerada uma contribuição originalmente brasileira para as modernas Ciências do Homem não diz ciências que apenas tratem do Homem livre; também as que dêem atenção ao Homem escravo. Nem ciências que tratem apenas dos burgueses: também as que dêem atenção aos operários, aos artesãos, aos imigrantes.
Ao Homem escravo, como ao imigrante, muito deve a Humanidade, em geral, e o Brasil, em particular. é justo que os estudemos com o maior dos nossos carinhos. Justo que procuremos reconstituir de um, primeiro, depois, do outro, a figura por vêzes heróica embora obscura, revivendo ao mesmo tempo o seu drama e recompondo o seu passado. Para a reconstituição antropológica da figura e a recomposição sociológica do passado do escravo africano ou já brasileiro que durante o século XIX se integrou na vida ou na civilização brasileira, já se pode afirmar não haver material que ultrapasse os anúncios de jornais em importância e em idoneidade.
Nos grandes jornais brasileiros, não só da primeira metade do século XIX como da segunda, marcada pelo regime escravocrático, êsses anúncios chegaram a ocupar o melhor espaço. Foi o caso do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.
" The " Journal (sic) do Commercio", like the " Diario" is printed on wretched paper, and the typography so bad that it is hardly legible, though it is in more demand than any other. It is almost entirely filled with editals and advertisements; every publication containing from 80 to 100". é o que informa R. Walsh (Notices of Brazil, Londres, 1830, pag. 430). Quase meio século depois de Walsh, escrevia Charles Prodez, outro excelente observador:
" Chaque jour, dans cette grande ville de Rio Janeiro, quatre colonnes du Journal (sic) do Commercio sont consacrées aux announces des mutations de ce singulier genre de proprieté. D’abord, ce sont les esclaves à louer, puis ceux a vendre, sans compter les négres announcés en vente publique" ( Néuvelles etudes sur le Brésil, Paris 1872, pag. 105). E já o Rev. Daniel P. Kidder reparara dos anúncios nos grandes jornais brasileiros da primeira metade do século XIX; " The matter of the advertising columms is revewed almost daily, and is perused by great number of general readers, for the sake of its piquancy and its variety"... Not a few of these anuncious would appear very singular among us". ( Sketches of residence and travels in Brazil, Philadelphia, 1845, I, pag. 117). Note-se, a propósito de Kidder que, em trabalho recentemente publicado – " Slabery in Brazil as described by Americans" (1822-1888), separata do n. 3, vol. XVII, de janeiro de 1961, de The Americas( Washington, D. C.) -- o Professor Manoel Cardozo analisa as descrições do regime de trabalho escravo no Brasil do tempo do Império, por observadores angloamericanos.
Evidentemente, os perfis antropológicos que se sucedem nos milhares de anúncios de escravos fugidos que os jornais brasileiros publicaram, no decorrer do século XIX, com superabundância de pormenores identificadores, por mais de cinqüenta anos, não sugerem a homogeneidade antropológica do stock negro. As diferenças são ostensivas. As de sudaneses com relação a boshimanos ou a bantus lembram as que separam o judeu sefárdico do ashkenásico: inclusive as diferenças de forma de nariz e tamanho de pés e de mãos. Compreende-se assim que os sudaneses tenham manifestado a tendência para constituir um espécie de aristocracia dentro da sociedade escravocrática do Brasil, não só pela sua superioridade de cultura – a islâmica ou a islamizada – mas pela sua figura antropológica: a de africano quase sempre esbelto, nariz afilado, mãos e pés delicados que passa pelos anúncios de jornais beneficiado por essas suas semelhanças como os tipos clássicos de mulher, homem ou adolescente belo e aristocrático, consagrado pelas civilizações ocidentais. " Um judeu português de Bordéus e um judeu alemão de Metz nada têm de comum", escrevia o judeu português Pinto a Voltaire, no século XVIII, em carta que Werner Sombart transcreve à página 348, edição inglêsa do The Jews and modern capitalism, (Londres – Leipzig, 1973). O mesmo poderia ter escrito, em árabe, no século XIX, um escravo sudanês na Bahia ao europeu do Norte que, referindo-se à população escrava do Brasil, tivesse cometido o êrro, em livro ou em artigo de jornal, de referir-se à mesma população como vagamente "negra" ou indistintamente "africana".
Os anúncios de escravos, em jornais brasileiros do século XIX, confirmam esta generalização: a de ter variado consideràvelmente a procedência de negros importados como escravos, da África para o Brasil. Essa variedade reflete-se quer na figura física dos negros descritos pelos anúncios quer nos seus característicos de ordem etnográfica ou de natureza cultural, registrados nos mesmos anúncios: marcas de nação, penteados, barbas, xales, turbantes, tangas, vestidos. Por outro lado, acima dêsses característicos de ordem étnica ou de natureza etnográfica, se afirmam aquêles que podemos denominar de característicos constitucionais: os dos introvertidos ou calados ou de semblante carregado que se distinguem dos extrovertidos de aspecto alegre e de disposição brejeira, por exemplo. Os angulosos que se distinguem dos arredondados. E também – ainda noutro plano sócio-antropológico – os eugênios que contrastam com os cacogênicos.
Os eugênios são mais numerosos que os cacogênicos nos anúncios de jornais. E segundo o depoimento de observadores idôneos, eram êles – os eugênicos – o elemento dominante entre a gente de côr, nos dias da escravidão africana no Brasil. é bem expressivo o testemunho do já referido R. Walsh: " The superiority of the coloured population is not greater in number than it is in physical powers. Some of the blacks and mulattos are the most vigorous and athiletec looking persons that it is possible to contemplate and who would be models for a Farnesian Hercules" (op. cit., II, pag. 331).
Interessante é também êste seu reparo: " The negro population consists of eight ou nine different castes having no common language and actuated by no sympathetic tie"... " The difference of caste is very strongly marked in the colour of their skin and still more in the expression of their countenance, to a degree of which I had conception" ( op. cit., II, pag. 330).
Entretanto, é ainda do meticuloso observador inglês a advertência de ter havido, do ponto de vista que hoje chamaríamos eugênico, uma "deterioração" nos stocks africanos importados pelo Brasil, em virtude de um deslocamento, das fontes de escravos, de populações próximas das " cafres e hotentotes", estas assinaladas pela quase cômica – para olhos europeus – protuberância de nádegas: " From the operation of the abolition laws, and the activity of our cruisers to the north of the line in enforcing them, the trade for slaves, in the last tem years, has been directed to the coast of Africa on both sides of the Cape of Good Hope, and the negro race in Brazil has sensibly deteriorated; they seem to approach the character of Caffres or Hottentots; and I have more than once seen among them persons distinghuished by the peculiarity that marked the Venus from that country, exhibited in England some years ago". (op. cit., pag. 333)...
Mas não só por aquela protuberância: também por outros característicos de interêsse antropológico, quase todos, aliás, registrados em anúncios de jornais de escravos fugidos.
" They are distinghuished also by their extraordinary mode of tatooing; the flesh is raised into protuberances, so as to form a succession of knobs, like a string of beads, from their forehead to the tip of their nose..." escreveu Walsh (op. cit., II, pag. 334) daquêle tipo menos eugênio de negros importados pelo Brasil a partir do século XIX, com prejuízo para a estética – do ponto de vista europeu – da sua população africana.
Do estudo que se segue – uma das "antecipações" que teriam sido esboçadas por autor brasileiro tanto no campo dos métodos de análise e de interpretação do Homem, em geral, como do Homem situado no Trópico, em particular – destaque-se que, embora simplesmente sugestivo, parece ter precedido, em suas notas prévias, (1934 e 1935) o excelente e exaustivo trabalho de Adolfo Dembo e J. Imbelloni, Deformaciones intencionales del cuerpo humano de carater etnico, Buenos Aires s/d ( o prefácio é datado de 1938). Daí o fato de não ter havido referência naquelas notas prévias – uma sob a forma de conferência (1934), outra, de ensaio (1935), a obra tão importante, embora de todo alheia ao aspecto metodológico sob o qual os mesmos trabalhos brasileiros podem, ou devem, ser considerados pioneiros dentro das pesquisas antropológicas realizadas acêrca de tema tão sedutor. E juntamente com o trabalho de Dembo Imbelloni, deve ser mencionado o publicado em 1950 em Bissau pelo pesquisador português Antonio Carreira, Mutilações corporais e pinturas cutâneas rituais dos negros da Guiné Portuguêsa. Estudo deveras interessante.
É uma obra, a argentina em que os dois eruditos antropólogos depois de se ocuparem, de modo magistral, da "doctrina humanista de las deformaciones corporales", tratam especìficamente de " mutilaciones y deformaciones" quanto a sua "coloraction", "pintura corporal", "classificacion de los colorantes empleados para la coloracion y la pintura", ‘dibujo de cicatrices", "tatuaje", "deformaciones faciliares", " perforaciones", "aplastamento de la nariz", mutilaciones labiales", "alteraciones dentarias", " engorde artificial", " la plastica del tronco y del cuello", " extremidades", "mutilaciones sexuales", " deformacion cefalica". De quase todos êsses tipos de deformação do corpo se encontram exemplos entre os escravos que, através dos anúncios de jornais, foram estudados no Brasil de modo pioneiro, em ensaio que data do já remoto ano de 1934. No trabalho brasileiro, ao estudo das deformações de caráter étnico, acrescentavam-se as de natureza profissional ou as conseqüências de castigos, por vêzes sádicos, da parte dos senhores sôbre escravos, cujos corpos lhes pertenciam como se fôssem corpos de simples animais. Em vários casos de deformações de corpo registradas pelos anúncios de jornais – como as representadas por amputações, de falanges ou de dedos inteiros das mãos de um indivíduo – não é impossível estabelecer-se hoje qual fôsse sua origem, quando não especificada nos anúncios: se acidentes de trabalho (as moendas de engenho foram grandes devoradoras de dedos e até de mãos inteiras de negros), se sinais de luto ritual: luto rigorosamente seguido por tribos boschimanas ou bosquimas, cafres, hotentotes, como recordam Dembo e Imbelloni à página 203 do seu estudo. As alterações dentárias – sobretudo os dentes limados –talvez sejam, dentre as deformações de caráter étnico, as registradas em maior número nos anúncios de jornais brasileiros do tempo do Império acêrca de escravos fugidos, embora às que se referem a dentes extraídos faltem os pormenores que lhes dariam verdade antropológica: se seriam – os dentes extraídos – incisivos, superiores, médios ou inferiores; ou se os limados seriam incisivos superiores aguçados ou mutilados nos seus ângulos internos de incisivos superiores. Só com êsses pormenores, poderíamos classificá-los antropològicamente dentro do esquema do professor Dembo, de ligação dessas alterações dentárias a sub-áreas específicas de culturas africanas. Mesmo assim, através do considerável número de escravos de dentes limados e de dentes extraídos, podemos nos aproximar de conclusões interessantes quanto à procedência africana dos mesmos escravos.
Não são poucos os casos de tatuagens recordados nos mesmos anúncios, tanto de caráter mágico, como as de exibicionismo ou saudosismo erótico; ou talvez, simples ostentações de arabescos em moda, que pudessem ou devessem ser incluídas entre as deformações estudadas por W. H. Flower no seu Fashion in deformity ( Londres, 1881). O mesmo, talvez, seja certo de narizes que em vez de naturalmente chatos, fôssem achatados, por conformidade com padrões de estética da figura humana que, certos grupos de negros africanos, se extremassem precisamente na negação dos mesmos padrões, em vigor entre europeus e noutras sociedades. Daí termos de aceitar certas deformações como deformações relativas, isto e, de tal modo condicionadas culturalmente que correspondessem a ideais de beleza masculina ou feminina sob a forma não pròpriamente de deformações mas de intensificações de traços naturais ou étnicos.
Entretanto, motivos higiênicos podem ter orientado algumas deformações ou intensificações. O achatamento do nariz, por natureza chato, entre africanos, pode ter obedecido a motivo ou finalidade higiênico, dos admitidos por Dembo e Imbelloni para várias espécies de deformações. Lembram os mesmos autores, à página 60 daquele seu estudo, que " numerosos etnos confiesan que la deformacion tiene una finalidad estetica o que se vincula com la funcion social, jerarquica, de relacion entre los sexos, etc". Para, os autores de Deformaciones " las alteraciones corporales en razon del origen remoto de sua formas, de la naturalesa perenne de suas moviles iniciales y la variabilidade de suas adaptaciones secundiarias, oferecen un terreno particularmente fecundo para los descubrimentos del antropologo", o qual, segundo os Professôres Dembo e Imbelloni, " no debe ser um empresario de circo Barnum, sino ante todo e sobre todo um humanista".
Não foi sob critério, senão o humanista-científico, que, em " Deformações de corpo de escravos fugidos". ( Novos Estudos Afro-Brasileiro, São Paulo, 1935), aventurei-me a estudar pioneiramente, no Brasil – estudos realizados de 1932 a 1935 – na multidão de escravos africanos de várias procedências, de escravos crioulos e de escravos mestiços, retratados com surpreendente exatidão em anúncios de " negros fugidos", a variedade de suas deformações de corpo e, dentro dessa variedade, as constantes ou recorrências de porventura mais significativas, de deformações não só de caráter étnico como de caráter profissional. Tais constantes nos permitem chegar a conclusões valiosas quanto a predominâncias de tribos ou de sub-culturas africanas, no decorrer do século XIX, entre os escravos a serviço dos senhores brasileiros; e também quanto aos ofícios ou às atividades, exercidas por escravos, que mais ostensivamente deformavam o físico ou mais fortemente lhes caracterizavam o corpo e o andar.
Embora aquêle ensaio e a conferência proferida em 1934, no Rio de Janeiro, " O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império", tenham despertado, quanto surgiram, a conferência em 1934, o ensaio, em 1935, pouco interêsse da parte do público, foram acolhidos pelos especialistas – um dêles Roquette Pinto – como " contribuição original e pioneira para as ciências do Homem, feita por antropólogo brasileiro e sôbre material brasileiro". Em recente trabalho ( 2º ed. Universidade do Recife, Recife 1960), intitulado Notícias e Anúncios de Jornal, o Professor Amaro Quintas, confirmando juizo já manifestado pelo antropólogo Roquette Pinto e pelo historiador Otávio Tarquinio de Sousa, em prefácio ao livro Inglêses no Brasil, escreve ter se iniciado em Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e na conferência " O Escravo nos Anúncios de Jornal do Tempo do Império", Lanterna Verde ( Rio, 1934), " uma técnica de pesquisa" que, segundo êsse ilustre historiador, "iria revolucionar por completo os processos da nossa historiografia social". Note-se, a propósito, que a mesma técnica não foi nova apenas para os estudos sociais no Brasil mas para os estudos sociais, em geral: em qualquer país. Especialmente para os estudos de Antropologia, nos quais, por êsse meio, confirmou-se a presença de raquitismo no Brasil, constatando-se a freqüência do aimhum e a predominância, entre os escravos fugidos de longilíneos, em contraste com brevilíneos. Confirmou-se também – acentue-se mais uma vez – a predominância, entre os mesmos escravos, de indivíduos eugênicos em contrastes com cacogênicos, em apoio à generalização de Charles B. Mansfield ( Brazil, Buenos Ayres & Paraguay ( Londres, MDCCCLVI) que observara dos negros serem ‘the finest race in Brazil" (pag. 360).
O Professor Danton Jobin, da Universidade do Brasil, escreveu, em livro publicado em Paris (1957): " L’étude de I’histoire à travers les journaux ne se borne pas à l’analyse des doctrines ou des opinions dont ils se sont faits l’echo, comme nous l’a montré notre sociologue et historien M. Gilberto Freyre. Un examen minutieux des journaux du siècle dernier lui a fourni de magnifique instantanés des costumes de l’époque. L’auteur de Casa-Grande & Senzala ( publié en France sous le titre Maitres et Esclaves) a su exploter, avec succés, une nouvelle technique de recherches dont selon M. Octavio Tarquinio de Sousa, il fut le pionnier. Se servant des annonces des jornaux, soit comme orentation, soit comme element de base, il a réussi une oeuvre originale dans notre historiographie. Il est parvenu, par cette seule voie pour ainsi dire, à faire l’importantes révélations sur les aspects sociaux du Brésil au temps de l’esclavage ainsi que sur l’influence anglaise au début et dans et dans la première moitié du XIXe siécle". E depois de outros comentários, acrescenta que, de acôrdo com o método brasileiro de utilização antropológica e sociológica dos anúncios de jornal " ce n’est pas seulement le pittoresque, le dramatique, l’unique qui surgit des annonces", mas "c’est également ce qui dans certaines sciences s’appelle le démonstratif à l’opposè de l’atypique". ( Introduction au journalisme contemporain, Paris 1957, pag. 21)
Êste material, constituido por anúncios de jornais de escravos fugidos e à venda. Material nos quais dormia sono leve, à espera de quem os despertasse, variada multidão de homens, de mulheres e de crianças com suas mil e uma diferenças de caráter não só antropofísico como antropocultural. Inclusive as suas diversas e, por vêzes, significativas -- culturalmente significativas – deformações de corpo. Tão significativas que algumas delas sobreviveram aos escravos importados da África e se conservariam no Brasil até aos nossos dias, sob a forma de deformações de corpo entre marítimos, catraeiros, donjuans plebeus, malandros, criminosos, místicos, pervertidos sexuais.
Aquela conferência (1934) e aquêle ensaio (1935) aparecem agora consideràvelmente ampliados, com a publicação n. 2 do Instituto de Antropologia Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife. Surgem também com ilustrações que talvez dêem a algumas das descrições e interpretações esboçadas no texto aquela precisão e aquela nitidez que caracterizam o desenho verdadeiramente científico, tornando-o superior à própria fotografia. Foi trabalho em que tive a valiosa colaboração do Professor L. Cardoso Ayres, também da Universidade do Recife.
Sto. Antônio de Apipucos, 1961.
G.F.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX: tentativa de interpretação antropológica, através de anúncios de jornais, de característicos de personalidade e de deformações de corpo de negros ou mestiços, fugidos ou expostos à venda, como escravos, no Brasil do século passado. Recife: Imprensa Universitária, 1963. 224p.
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