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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



O OUTRO AMOR DO DR. PAULO
Prefácio


"O OUTRO AMOR DO DR. PAULO" é seminovela em continuação de Dona Sinhá e o filho padre. O autor a considera seminovela não por julgá-la, só por ser mista, inferior às novelas puras, mas por entender que, dentro de uma novela pura, não se realizaria sua intenção de juntar à ficção declarada, a larvada. Larvada pelo que nela tende a ser imaginativamente histórico. O semi é a admissão do ambíguo.

O Dr. Paulo desta outra seminovela é o mesmo Paulo Tavares de Dona Sinhá e o filho padre. O mesmo médico com alguma coisa de sociólogo. O mesmo provinciano com alguma coisa de cosmopolita. O tempo em que se desenvolve a ação seminovelesca é que é outro. Continua, porém, a ser tempo que o autor nem viveu ele próprio nem procura reconstituir como se fosse um memorialista; e sim, tempo anterior ao seu. Ou apenas tocado pelo começo do amanhecer do seu. O começo do século atual. Seus primeiros anos.

O espaço em que se teriam verificado os acontecimentos seminovelescamente imaginados é, ora a Europa, ora o Brasil. Quando a Europa, abrasileirado por presenças ou interpretações decisivamente brasileiras.

Aos originais desta nova seminovela sucedeu terem quase se perdido devorados pelas águas - águas ou lama? - da superenchente que em julho de 1975 flagelou de modo tão sinistro grande parte de Pernambuco. Estavam em mãos de uma datilógrafa, Dona Auxiliadora da Costa Barros, cuja residência foi invadida quase de repente por aquelas desembestadas águas. Águas que dentro dessa, como de outras casas, subiram, em poucos instantes, a dois metros. A brava pernambucana, diante do perigo mortal para esse e outros papéis, que considerou preciosos, colocou-os, num minuto decisivo, e servindo-se de um simples tamborete, no alto do seu guarda-roupa. Salvou-os assim de se tornarem, como se tornaram, naquele dia de horror, tantos papéis ainda virgens e tantos milhares de livros valiosos com pretensões a duradouros, de se tornarem lama da mais nauseabunda e da mais vil. O que aconteceu a móveis, a casas, a pessoas.

Vão aqui os agradecimentos de um autor a uma colaboradora digna de ser destacada como modelo ou exemplo de dedicação quase religiosa de datilógrafa ao seu ofício. Dedicação que poderia lhe Ter custado a própria vida.

Resta saber se o motivo de tão bela dedicação deve ser considerado, depois de conhecido de modo concreto, válido.

Lembre-se que da tradução ao inglês de Dona Sinhá e o filho padre (Mother and son) escreveu, em artigo de página inteira, o crítico do The New York Times (Book Review) que era "metaliteratura", significando que abria, como seminovela, novo caminho à ficção literária. O que deixou, é claro, o autor de livro tão desdenhado pela crítica literária - mas não pelo público - do Brasil, em estado quase de êxtase. Sendo esta nova seminovela ainda menos ortodoxamente novelesca do que Dona Sinhá, que dirão os críticos brasileiros (se disserem alguma coisa) a seu respeito? Talvez - e com razão, quem sabe? - que seja subliteratura.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Outro amor do Dr. Paulo: seminovela, continuação de Dona Sinhá e o filho padre. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977. 242p.

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