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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



O VELHO FÉLIX E SUAS "MEMÓRIAS DE UM CAVALCANTI"
Prefácio


Desde pequeno me habituei ao nome de Papai-outro, citado tantas vêzes nas conversas de família. Papai-outro contava isso da cheia de 56; Papai-outro contava aquilo do mata-mata-marinheiro; Papai-outro tinha nisto um muleque cair do alto da tôrre da Igreja do Carmo sôbre a praça cheia de gente, esmagando duas velhas; Papai-outro sabia de cor livros inteiros, poesias que ouvira recitar uma só vez.

Um dia quis conhecer o extraordinário Papai-outro; soube que tinha morrido há anos e que se chamara Félix. Continuei a ouvir histórias do velho desconhecido que minha meninice imaginava de barba mais branca que a de qualquer dos meus tios-avós e de unhas mais compridas do que as da minha tia-avó Sinhá, sua filha Lisbela.

Só há cinco ou seis anos aquela figura vaga de parente velho se avivou diante de mim: li então, junto com outros papéis velhos da família, seu "Livro de Assentos"-um vasto caderno guardado com carinho por sua filha Maria Cavalcanti de Albuquerque Melo (Iaiá). Foi êsse caderno que o bisneto do velho Félix e meu primo Diogo de Melo Meneses decidiu publicar, por sugestão minha, tendo escolhido comigo, par essa publicação, os trechos mais característicos, conservado o registro dos fatos miúdos mais típicos e omitidas sòmente transcrições e repetições sem interêsse, ou notas ainda hoje indiscretas. Nesse trabalho de seleção e revisão do caderno do pachorrento memorialista da família, Diogo Meneses tomou ainda a liberdade de uniformizar a ortografia de Félix Cavalcanti e a de omitir ou resumir comentários, de todo supérfluos.

O caderno - que é quase diário - traz a história exata do tal negro que cair da tôrre do Carmo, esmagou as duas mulheres e dias depois foi visto passeando na ruas do Recife: de tôdas as histórias ligadas ao nome de Papai-outro a que mais me maravilhou na meninice. Traz a história, ainda mais extraordinária, da barcaça que ia naufragando no mar furiosos da costa das Alagoas com a irmão e os sobrinhos pequenos de Papai-outro, quando de repente o mar serenou como por milagre e a barcaça, vencido o temporal medonho, entrou docemente no pôrto de Maceió. Traz a história do mata-mata-marinheiro: Papai-outro, nesse tempo regente no Arsenal de Guerra, abrindo a casa aos pobres portuguêses da Rua da Praia e conseguindo salvar 30 da fúria do povo do Recife. Fala das grandes cheias: a de 32, a de 56, a de 97. Do primeiro cólera. Do segundo. Da Revolta Praeira. Da hecatombe da Vitória. Do assassinato de Bodé. Da chegada de Dom Vital. Das façanhas de José Mariano e da capangada marianista de São José. Dos efeitos da proclamação da República em Pernambuco.

Ao lado disso, notas de nascimentos, casamentos, morte, formaturas, nomeações, demissões, embarques e desembarques de gente da família; a idade com que se iam casando filhos e netos; o número de filhos que cada um ia tendo; as crianças que morriam - um dêles Ioiôzinho, primeiro neto de Félix Cavalcanti; os nomes dos meninos; as doenças; s remédios; tia Sinhá doente de cólera e o remédio que salvou da morte certa; as numerosas casas e sobrados que a família - sempre em mudança - ocupou no Recife, na Vitória, em Escada, em Olinda. Mas principalmente no Recife.

Porque o velho Félix passou a vida mudando de casa. Era como se tivesse carretéis nos pés o fôsse sòzinho no mundo; e não um patriarca com enorme família, escravos velhos, crias dentro de casa; com imensa mobília de jacarandá maciço, guarda-louça e aparadores de amarelo, camas de conduru, santuário, armário, baús, mesa de jantar para vinte pessoas, a coleção inteira dos romances de Alexandre Dumas, a História Universal de César Cantù, os romances de Eugênio Sue, o retrato do Visconde do Rio Branco. Mais e vinte vêzes muda de casa. Mudança de casa-grande do Engenho Jundiá onde nascera na opulência, o pai ainda vivo senhor de muitas terras de massapê e de muitos negros da Angola, para a casa-grande de Jussarazinho; desta para a de Quitinduba; daí para uma casa de sítio no Arraial e depois para outra em Beberibe entre pés de tamarindo, mangueiras, goiabeiras e dendêzeiros. Da casa de quatro águas de Beberibe veio para um sobrado do Recife. De um sobrado mudou-se para outro, às vêzes de um sobrado para o outro na mesma rua: na Rua Imperial, na Rua Augusta, na Rua da Praia, na Praça Conde d'Eu morreu sua mulher. Na Rua da Praia aos quatorze anos, o seu adorado Ioiôzinho que era então pela inteligência quase de homem e pela beleza ainda de menino, a flor da família. Na Rua da Praia: num daqueles sobrados velhos e talvez mal-assombrados, com misteriosos "barulhos na escada", que ainda hoje estão de pé; com fantasmas de padres magros aparecendo de noite às pessoas para dizer que na sala de visitas há dinheiro escondido; com vozes de almas-penadas pedindo missa.

Era morrer ou adoecer uma pessoa da família e Papai-outro mudava de casa. Estava sempre morrendo alguém na família ou entre os escravos; ou havia sempre alguém doente e precisando de "mudar de ares"-o que os médicos da época tanto aconselhavam - e, por conseguinte, de casa.

A bexiga era um pavor para as famílias no Recife do tempo de Papai -outro. No seu álbum - ou antes no que resta do seu álbum - está um sonêto, O Recife, que diz:

"Enfim, pátria da morte e do extermínio
Firmaram no teu solo seu domínio
As febres, a varíola e a colerina."

A casa onde morria bexiguento, sem sofrer desinfecção séria depois de desocupado, ia passando a terrível doença aos novos moradores. A bexiga, a tuberculose, a peste bubônica, a febre amarela, a colerina, se instalaram, com os mal-assombrados e as almas do outro mundo, nos sobrados velhos do Recife, por trás de suas janelas mouriscas, no escuro de suas camarinhas, nos sues buracos de ratos, nas águas podres dos pântanos dos sítios e dos fundos de quintal, à espera das famílias que viviam mudando de casa, peregrinado de um bairro a outro em busca de melhor saúde ou de melhores ares, mas às vêzes indo-se contaminar de doenças mais sérias do que aquelas de fugiam.

A tuberculose comia centenas de pulmões por ano. De preferência pulmões de môças solteiras, de adolescentes pálidos, de iaiás franzinas. Em 11849 um grande médico do Recife, o Dr. Aquino Fonseca, escrevia, alarmado, que a tuberculose estava aumentando na cidade; e uma das causas dêsse aumento lhe parecia o desleixo dos proprietários de casas já não fechavam por um ano pelos menos a casa onde morrera tuberculosos; já não rebocavam as paredes e pintavam as madeiras da casa contaminadas; nem levavam as fechaduras ao fogo; nem as famílias queimavam e lançavam na rio tôda a mobília, roupa e mais coisas o uso do tuberculoso. Além de que o Recife estava ficando sem árvores, as casa sem quintais.

Num lançamento do seu "Livro de Assentos", em 1847: térreas, 7.165, de um andar, 798, de dois andares, 465, de três andares, 258, de quatro andares, 29. Poucas as de cinco ou seis andares. Total: 8.875. Êle poderia Ter acrescentado, no fim do livro, que tinha morado em 24 casa das 8.875. morou antes em Jundiá, Jussarazinho, Quitinduba - casas-grandes de engenho; morou em Beberibe, Apipucos, Afogados, Várzea, na Vitória, Escada, Olinda, Chã de Carpina; e no Recife nas Ruas da Praia, Imperial, Glória, Augusto, Praça Conde d'Eu, Camboa do Carmo, Ruas Princesa Isabel, Aurora, Vidal de Negreiros.

Mudanças de casa. Foi quase sòmente de casa que Papai-outro mudou durante a vida. De casa, de rua, e um pouco de cidade. De idéias, muito pouco. De profissão, também pouco. E muito pouco de hábitos, de sentimentos, de preconceitos. E muita coisa conservou-se no Recife do século XIX o aristocrata de engenho do Sul de Pernambuco; o Cavalcanti de Albuquerque Melo de outros tempos; o matuto fidalgo desconfiado do Povo, da Cidade, da Democracia, da Abolição, da República. A pobreza, o ofício de regente dos educandos do Arsenal de Guerra, o de escrivão, o de amanuense da Santa Casa, o cenário burguês da vida de burocrata, nada disso alterou profundamente nêle o feitio aristocrático que lhe dera sua herança moral e de sangue.

Não que faça gala, em parte nenhuma do livro, da origem boa ou dos parentescos ilustres; as suas atitudes, seus modos de ver os acontecimentos e os homens, sues preconceitos que revelam nêle o aristocrata imperecível. Principalmente os preconceitos. Preconceitos de caturra colonial, de parente pobre mas orgulhoso, dos Cavalcantis, dos Albuquerques e dos Melos mais opulentos porém não mais nobres do que êle, de Cavalcanti matuto, incapaz de acompanhar Joaquim Nabuco na adaptação magnífica do descendente dos morgados do Cabo ao espírito democrático do Recife e ao abolicionismo radical que nos fins do século XIX se generalizou entre a gente mais instruída das cidades brasileiros.

É curioso mas não há no caderno do velho Félix uma nota de admiração pela figura de Joaquim Nabuco - o Pais Barreto de Maçangana que, democratizando-se, aristocratizou as causas populares que defendeu um tanto teatralmente das varandas dos sobrados do Recife e do palco do Santa Isabel. Félix Cavalcanti de Albuquerque Melo finge não ver o vulto, não ouvir a voz, não escutar os triunfos daquele que tendo também nascido fidalgo desertou para as fileiras liberais e até populistas.

O antigo Cavalcanti de Jundiá chegou à velhice sem nunca ter sido de nenhum partido político. Na política pernambucana da primeira metade do século XIX, nem foi Cavalcanti, nem cavalgado, seguiu com admiração o govêrno de Francisco do Rêgo Barros; mas sem fechar os olhos às franquezas do Barão e depois Conde de Boa Vista, e aos excessos de sua parentela: Regos Barros Cavalcanti insolentes ou sôfregos de vantagens, alguns dos quais denunciados com tanto ardor panfletário pelo Padre-Mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama como "contrabandistas", "ladrões de negros"e até "assassinos".

Félix Cavalcanti não incorreu na denúncia do padre; não foi daqueles que "não tendo com ela [a família Cavalcanti] parentesco, ou tendo-o já muito remoto, e nunca até entaão dando-se por tal começaram a denominar-se também Cavalcanti". É que êsse nome era então "um título valioso para se obter tudo". Félix Cavalcanti não se aproveitou - senão em emprêgo medíocre: o de regente dos educandos do Arsenal de Guerra - de sua qualidade de Cavalcanti legítimo. Não foi dos que de 1835 até 1844 cavalgaram política e socialmente a Província de Pernambuco, constituídos numa das oligarquias mais poderosas que já houve no Brasil: dominando o govêrno; empolgando títulos de nobreza; fazendo a maior parte das leis provinciais de acôrdo com seus interêsses; repartindo entre si os comandos da G. N.; criando divisões e subdivisões de freguesias para efeitos eleitorais que assegurassem o Domínio político da família; obtendo da Côrte as melhores colocações na magistratura da Província - o Juizado de Direito de Pau d'Alho para José Tomás Nabuco de Araújo casado com uma Pais Barreto, o de Limoeiro para João Maurício Cavalcanti da Rocha Wanderley, o do Cabo para Afonso Artur de Almeida e Albuquerque, o de Rio Formoso para Álvaro Barbalho Uchoa Cavalcanti, o Juizado Cível de Pau d'Alho para Manuel de Holanda Cavalcanti e também a administração da Repartição do Sêlo - lugar importantíssimo - para Francisco Xavier Cavalcanti; assenhoreando-se dos altos cargos provinciais, dos empregos rendosos nas freguesias, das arrematações dos melhores contratos; obtendo todos os favores par as suas emprêsas e negócios, de uma assembléia provincial que lhes perdoava as multas porque se compunha quase tôda dêles, Cavalcantis, Regos Barros, Albuquerques, Melos, Wanderleys, Pais Barretos. Era decerto a isso que o Padre Lopes Gama chamava com alguma verdade e muita retórica "o gótico castelo Rêgo Barros - Cavalcanti": espécie de Bastilha que foi preciso a Revolta Praieira par demolir.

Félix Cavalcanti foi entusiasta - repita-se --- da administração do seu ilustre parente Francisco do Rêgo Barros; mas não da oligarquia Rêgo Barros - Cavalcanti. No seu diário, em nota sôbre o mata-mata-marinheiro e no lançamento da morte do Conde --- onde registra com grande candura ter o ex-presidente recebido do comércio do Recife o modesto presente de um palacete - êle se revela sempre contrário aos abusos que Cavalcantis e Rêgo Barros cometeram durante o govêrno daquele político "amante do Progresso de sua Pátria" mas, ao que parece, amante também do progresso de sua família. Pelo menos demasiado condescendente com ela. Daí as violências contra Cavalcantis e outros aristocratas de engenho praticadas por Chichorro da Gama quando a presidência da Província passou dos oligarcas para os "liberais", sues adversários terríveis. Daí a grita do panfletários contra a família Cavalcanti. Grita à que Nabuco de Araújo, na sua Justa Apreciação do Predomínio Praieiro opôs em 1847 argumentos refletidos embora nem todos persuasivos: que a influência da família Cavalcanti não era um fato de 1835, mas datava de tempos remotos; que essa influência não era obra do poder ou da revolução, mas procedia da "natureza das coisas"; que era a influência que sempre teve uma mília numerosa, antiga e rica e "cujos membros sempre figuraram nas posições sociais mais vantajosas; na primeira Legislatura de 1824 cinco membros dessa família foram eleitos deputados; na Segunda e terceira Legislaturas seis Cavalcantis detiveram essa honra popular; essas eleições foram anteriores à presidência do Sr. Barão de Suaçuna..."Eainda: "Êsses Cavalcantis antes da nossa emancipação política já figuravam como capitães-mores, tenentes-coronéis e oficiais de ordenança e em todos dos cargos a governança; os engenhos que a maior parte dêles tem foram havidos por herança, transmitidos por seus maiores e não adquiridos depois da revolução; enumerai os engenhos da Província e vos damos fiança que um têrço dêles pertence aos Cavalcantis..."

Invadindo os engenhos, as propriedades dos grandes senhores de terras e escravos, a polícia Praieira pareceria largos anos depois, ao historiador Joaquim Nabuco, ter Quebrado "o vínculo entre os moradores e os senhores de engenho", concorrendo assim para o desprestígio da aristocracia territorial que tão grandes serviços prestara à Capitania e à depois Província de Pernambuco. Mas já em 1846 escrevia o Padre Gama, como que em antecipação ao reparo de Joaquim Nabuco, que era verdade que "está má policia praieira" tinha "cercado e varejado certos castellos feudaes, ou engenhos, donde tem tirado escravos furtados"; verdade, também, que a polícia dos Praieiros, "que os homens do partido da ordem dizião, porião tudo em anarchia, roubando e matando a torto e a direito, se chegassem a empolgar o poder", perseguia "os ladrões d'escravos, alguns dos quaes foram roubados e guabirús e são restituidos a seus senhores". "Sim"--- acrescentava o Padre Gama - "na bem-aventurada presidencia do Barão quadrilhas de salteadores capitaneados por seu proprio irmão roubavão e matavão impunemente nas vizinhanças da cidade; uma companhia numerosa de ladrões d'escravos sob os auspicios, direcção e conivencia de parentes seus havia-se tornado escandalosamente um dos maiores flagellos da Provincia." E ainda: "Todo o mundo não ignorava, muita gente sabia, que seus escravos repentinamente desaparecidos da sua casa, achavão-se futados no engenho tal e tal; mas quem seria tão ousado, quem teria em tão pouco a sai vida, que os fosse lá buscar, ou recorresse para isso á policia, ou aos meios judiciaes... Ninguem diz que o Barão (justiça lhe seja sempre feita) entrasse nesse trafico infame; mas o que rigorosamente se conclue de taes factos é que elle não podia, ou não queria reprimir as ribaldarias, as violencias e perversidades desses seus parentes, e que por isso ou por aquilo era incapaz de governar a Provincia".

Mais de uma vez o Padre Lopes Gama cita no Sete de Setembro (1845-1846) nomes de3 parentes fidalgos do Barão que ao seu ver comprometeram o domínio político das famílias Rêgo Barros - Cavalcanti merecendo ser perseguidos, como o foram, pela polícia de Chichorro da Gama : "o famigerado José Maria Paes Barretto que no dizer dos seu correligionarios, isto é, dos homens da espelunca da Rua do Sol, é um dos maiores fomentadores da Agricultura, foi pronunciado por furtos d'escravos, crime como se sabe inafiançavel"; "[...] tendo por principal agente desta sua industria o seu parente o Chico-macho"; "[...] José do Rego, pelos seus crimes commettidos no Arraial"; [...] um Lacerda e outros muitos, cujos enormes crimes estão escondidos". Não é que nas famílias capazes e honrados"; o panfletário reconhecia que sim, que os havia, "sem duvda": mas o diabo do örgulho nomiliario por huma parte, e a idea do dominio exclusivo de outro cegarão a muitos, e lhes metterão na cabeça que o todo o custo de devião ser ricos par ser mais respeitados". Daí procurarem viver "não do seu trabalho" mas de "traficancias e violencias"[...] "adagargados com a proteção da familia".

Desde o dia remoto do século XVI em que certo colono, talvez despeitado, denunciou Felipe Cavalcanti como pecador nefando, que não se faziam acusações tão violentas aos Cavalcantis, em Pernambuco. Mas o certo é que dessas e de outras incriminações, muitas delas injustas, os Cavalcantis brasileiros podem refugiar-se não só no dece "orgulho nobiliario"-que a tantos anima - como na convicção de já muito terem contribuídos para a grandeza de Pernambuco e do Brasil. Aliás quase não se encontra hoje recanto brasileiro onde deixa de haver um Cavalcanti de boa origem pernambucana e preocupado com a história ilustre da família. No Rio Grande do Sul, um magistrado antigo, hoje residente em Pôrto Alegre, tem em preparo um livro inteiro sôbre o assunto.

"Orgulho nobiliario". Ao Padre Lopes Gama, homem de boas letras e não panfletário vulgar, nunca pareceu que houvesse motivo sólido para os Cavalcantis se gabarem tanto de nobre como, "ainda há pouco [...] um tal João Mauricio Cavalcanti da Rocha Wanderley"e freqüentemente "muitos matutos que tem este appellido".

Ora, escrevia padre em 1846 no seu O Sete de Setembro, "si perguntarmos aos Srs. Cavalcantis d'onde lhes vem a nobreza, elles com uma imparciabilidade espantosa nos firão que de Felippe Cavalcanti, fidalgo florentino evadido daquelle antigo grão-ducado por se ter envolvido em uma conspiração contra Cosme de Medicis, da qual era chefe um Pandolfo Pucci. Mas si lhe pedirmos algumas provas dessa nobreza que por muitas razões se pode contestar sem replica elles nos dirão ainda que consultem a nobiliarchia Pernambucana de José Victoriano Borges da Fonseca, cujo manuscripto existe na Bibliotheca de S. Bento de Olinda com folhas arrancadas e outras substituidas". "Si porem recorrermos aos documentos historicos" - acrescentava o Padre, depois de grifo tão enfático e desprezando a "certidão, que conservam na Bahia os seus descendentes" [de Felipe] certidão publicada por Borges da Fonseca como sendo a "certificação de nobresa" do mesmo Filipe concedida por Cosme de Médicis - " não encontraremos fidalgo algum florentino que tivesse o appellido de Cavalcanti", nem Guido nem Bartolomeu Cavalcanti - ambos literatos, nada mais que literatos - tendo tido foros de nobreza. E depois de literatos - tendo tido foros de nobreza. E depois de discutir longamente o caso da "conspiração contra Cosme de Medicis", Borges da Fonseca: "Os Srs. Cavalcantis não satisfeitos com quererem passar por aquillo que não são, isto é, por fidalgos de uma das maiores e das mais nobres casas de Florênça ainda se agarrão com unhas e dentes aos Albuquerques [...]"; "mas niguem ignora que Jeronymo d'Albuquerque tendo vivido deshonestametne com a cabocla filha do Cacique d'Olinda Arco Verde, tão deshonestamente que a Rainha de Portugal mandou que elle, par aque o escandalo cessasse, se cazasse com a filha de Christovão de Mello (de cujo appellido tirarão alguns a nobreza), teve dessa cabocla, além de outros muitos filhos, uma filha de nome Catharina, que cazou com Felippe Cavalcanti". De modo que para usarem as armas dos Albuquerques - armas a que os Albuquerque, Melos tinham direito, por Ter sido Jerônimo de Albuquerque fidalgo e se haver casado, por ordem da Rainha, com a filha de Cristóvão de Melo, também, fidalgo - os Cavalcantis estavam na obrigação, dentro da heráldica, de apresentar "no escudo o signal de bastardia". Considerando fracassados os Cavalcantis nas suas pretensões a nobres, por falta de documentação idônea, o Padre Lopes Gama queria que também os Wanderleys provassem que "eram fidalgos d'alguma casa de Hollanda". Não lhe satisfaziam as evidências de nobreza, até então aceitas, de Gaspar van de Lei - o capitão holandês do séquito de Nassau que aderindo Ao Catolicismo e casando com uma Melo, de Pernambuco, no século XVII, fundara a família de que descendia o "tal João Mauricio Cavalcanti da Rocha Wanderley". Ainda hoje - acrescente-se não ficaria mal aos nossos genealogistas um tanto ingênuos - como aliás quase todos os genealogistas --- aprofundarem suas pesquisas sôbre a "nobresa dos Cavalcanti de Florença" e mesmo sôbre "a fidalguia dos van der Ler" da antiga Holanda, chamados por Borges da Fonseca de "nobilissimos" sôbre o fundamento da "certificação de nobresa" do capitão de nobresa" do capitão de cavalaria Gaspar van der Lei e, em geral, dos Van der Lei: certificação atribuída por Borges ao Conde Maurício de Nassau. O certo parece ser que poucas famílias brasileiras se podem gabar de um passado tão ilustre no Brasil e de tão boas raízes européias como as duas família visadas pelo Padre Lopes Gama: os Cavalcantis e os Waderleys. A não ser os Albuquerque.

Félix Cavalcanti de Albuquerque descendia de algumas das mais velhas famílias do Sul de Pernambuco; não era só Cavalcanti - dos que o caturra do Padre Gama queria que só usassem escudo de família com o distintivo de bastardia - mas também Albuquerque Melo e Barros Wanderley. Neto de Antônio Bezerra Cavalcanti de Albuquerque e de D. Missia Manuela de Barros Wanderley. Só de passagem - a propósito de sua irmã - êle se refere ao fato de Ter vindo de um dos engenhos mais opulentos da Capitania - Jundiá - engenho de seus avós até 1832 e depois propriedade dos Santos Dias que no tempo do Major dariam à velha casa-grande brilho extraordinário, hospedando nela com muito gasto de comida e de bebida, caçadas de onça, banhos de cachoeira, estrangeiros ilustres da marca de Lord Carnarvon - o descobridor do túmulo de Tutankamen - e do almirante português Ferreira do Amaral. Com a morte do pai, Francisco Casado de Albuquerque, no Engenho Quitinduba, em 1836, a família de Félix se arruinara. Os tempos não eram favoráveis a viúvas e órfãos - a não ser quando a viúva tinha alguma coisa de virago ou os órfãos, padrinhos generosos. Félix, meninote de treze para quatorze anos, veio em 35, com a mãe viúva e os irmãos, para o Arraial, arrabalde do Recife, de onde logo se mudariam para a povoação de Beberibe. Mal começara o predomínio político dos Rêgo Barros - Cavalcanti, que melhor consolidado, talvez tivesse permitido a Félix continuar no engenho do pai e conservar-se aí dentro das tradições rurais da família. Ou por inclinação própria, ou por fôrça das circunstâncias, êle foi, desde novo, dos Cavalcantis bons que o próprio Padre Gama, com todo o seu ódio político à ilustre família, reconhecia existirem: capaz e honrado; procurando viver do trabalho, e não de negociatas ou ou traficâncias; do esfôrço próprio, e não simplesmente de proteção política; medianamente instruído e não quase analfabeto, como tantos dos Cavalcintis e outros filhos dos senhores de engenho mais ricos da época. Os críticos dos costumes pernambucanos na primeira metade do século XIX, quando queriam citar exemplo de família rica mas mal-educada era a família Cavalcanti que citavam de preferência. Um dêles escreveu que "os nossos presumidos de fidalgos pela maior parte nunca se occupão da educação dos filhos". Donde o grande número de Cavalcantis "ignorantes, mal sabendo assignar o nome. Fama que tinham também os Pais Barretos do Cabo: inclusive o Marquês do Recife.

Sempre com muita retórica e alguma verdade escreveu o Padre Gama em 1846 que o próprio Barão da Boa Vista era "quasi analphabeto e seu irmão Sebastião completamente ignorante". Invocava "o testemunho de quantos os conhecem de perto", e a verdade é que o engenheiro francês L. L. Vauthier, que muito tratou com Boa Vista, teve dêle impressão de mediocridade intelectual que registra no seu diário íntimo. O "quasi analphabeto" e " o completamente ignorante" eram, porém, expressões enfáticas do padre. Afinal, Francisco do Rêgo Barros se educara em Paris e o irmão, Sebastião, em Coimbra e depois em Gotingen, onde se bacharelara em Matemática.

Félix Cavalcanti vindo para o Recife ainda novo pôde adquirir regular instrução, tomando gôsto especial pelo estudo de Geografia: a ponto de ter tentado escrever um compêndio dessa matéria. E, na adversidade, acostumou-se ao trabalho e à leitura. O que conservou de suas origens, de sua formação, de suas tradições rurais de família, já disse que foram aquêles preconceitos furiosos e às vêzes ingênuos contra o liberalismo, contra o "Povo do Recife", contra os radicais do Abolicionismo, depois contra a República. Preconceitos que repontam mais de uma vez do seu "Livro de Assentos".

Teve suas simpatias pessoais por chefes "Prairiros"e Liberais e até por agitadores republicanos como Borges da Fonseca: soube, já velho, prestar suas homenagens à ilustre figura de agitador caraterìsrticamente recifense que foi José Maria de Albuquerque Melo. Mas sem prejuízo do gôsto de ordem e do sentimento de hierarquia que o inclinaram sempre para a Monarquia e para os homens de Estados da índole conservadora do Visconde do Rio Branco - seu grande ídolo político - e, na política provinciana, do Barão da Boa Vista. Se desejou que Pernambuco se levantasse contra Barbosa lima é que Barbosa Lima era para êle a República e a República dos homens de 89 não só lhe parecia a negação dos princípios de ordem e de hierarquia como se apresentava aos seus olhos saudosos do Imperador e da Monarquia como uma aventura que quanto mais cedo gorasse, melhor. Tivesse vivido mais tempo e talvez se houvesse reconciliado, por espírito ou gôsto de ordem, com a República de Campos Sales e de Rodrigues Alves. Prudente de Morais sente-se que já não lhe era tão antipático quanto o Marechal Floriano; e não chegou a entusiasmar-se pela aventura monarquista de Saldanha da Gama.

O que aquêle seu espírito ou gôsto de ordem repelia de modo absoluto era a política rasgadamente popularista e delirantemente liberal de José Mariano, compadre e amigo de mulatos arreliados e de capoeiras célebres; era a política violenta de José Maria; era, por outro lado, o republicanismo de bacharéis do tipo aliteratado de Martins Júnior. Do povo êle preferia viver a distância, nos primeiros e segundos andares dos sobrados senhoriais ou mesmo burgueses. Deus o livrasse de viver entre a canalha como José Mariano; de comer sarapatel ou mungunzá nos quiosques de pé de ponte, como aquêle político pitorescamente democrático e sinceramente liberal e por isso mesmo tão querido da gente do povo do Recife; de sai pelas casas dos pardos pedindo voto e botando mulecas no colo; de proteger capoeiras como Nicolau do Poço da Panela que perto da Rua da Praia - a velha Rua da Paria tão ligada à vida de Félix - um belo dia do ano de 1886 travou luta com Bentinho do Lucas ou Bentinho da Madalena - pai do muitos anos depois meu cozinheiro José Pedro (negro velho adamado que ninguém diria filho de valentão tão terrível) morrendo no combate entre os dois grupos - o de Nicolau e o de Bentinho - Pedro Canhoto e Severino do Pombal. Luta a cacête e depois a faca de ponta. O pretexto foi se ter sabido no Lucas que Nicolau andava dizendo que Bentinho não tinha homem de coragem do seu lado. O motivo não deixou de ser político: Bentinho tinha simpatias pelos "Conservadores". Dizem que o pachola do negro até usava pêra que era o distintivo "Conservador": pêra, barba ou cavanhaque.

São José - em cujos sobrados morou tantas vêzes Félix Cavalcanti com a sua família enorme, com as suas bilhas e quartinhas de água esfriando nas janelas, com os seus filhos pequenos e depois com os seus netos empinando papagaios de papel das varandas - "tapiocas" tristonhas que não subiam tão alto como os "baldes"ou os "gamelos"dos muleques darua - era, e é um pouco ainda hoje, lugar de muito mucambo perto de sobrados de azulejo; de muita casa de cabra valente e de negra catimbòzeira e, naquele tempo, de preta da Costa rica e fazedora de mandinga ao lado de habitações de burgueses pacatos, irmãos do Santíssimo Sacramento, alguns com verdadeiro horror a barulho e a feitiço, as senhoras só faltando desfazer-se de mêdo quando descobriam areia de cemitério ou sapo de bôca cosida à porta de casa. São José era isto: a Rua da Jangada e a Gameleira, a poucos da Rua Imperial. A Rua dos Sete Pecados Mortais emendando com a Direita.

No tempo de Félix a capoeiragem ostentava ainda todo o seu viço; e da Rua da Jangada e Gameleira estavam sempre descendo rêdes não só de bexiguentos como de feridos. Rêdes brancas de mortos. Rêdes vermelhas de gente esfaqueada e gemendo: quero água, quero água! Mal começara a campanha do Inspetor José de Lima e dos seus soldados de facão rabo-de-galo contra os reis a faca de ponta protegidos e até compadres de José Mariano e de outros políticos importantes; gente arranchada pelos mucambos e "quadros" de São José, de Santo Amaro, do Coculo, da Aldeia do Quatorze, da ilha das Ostras, dos Sete Mucambos, do Pombal, do Lucas.

A capoeiragem eram então uma fôrça a serviço da política partidária, tão intensa no Recife do século XIX. O burgo lìricamente comparado pelo poeta a Veneza:

"Veneza americana boiando sôbre as águas"

Era naqueles dias e tem sido quase sempre antes uma Florença que uma Veneza. Florença americana ardendo no fogo das revoluções, das lutas entre partidos, das revoltas de cavalgados contra Cavalcantis, dos combates entre bianchi e neri. Se a capoeiragem é, com pretende Adolfo Morales de Los Rios Filhos, "uma criação dos fracos - o negro e o mestiço - contra o forte, isto é, o branco", onde ela se apurou melhor que no Recife de cavalgados contra Cavalcantis: que nesta nossa Florença americana de cabras afoitos e de negros arreliados, ao serviços de vagas reivindicações políticas, encarnadas ora por um Pedroso, ora por um Nunes Machado ou por um José Mariano e a encobrirem aspirações sociais também um tanto imprecisas, turvadas por muito ressentimento de natureza pessoal, mas no fundo sociais?

Capoeiras negros e mulatos, cabras ligeiros na arte da rasteira, do rabo-de-arrais, do arrastão, no manejo do cacête, da navalha, da faca de ponta, tornaram-se guarda-costas não só de homens do govêrno mais violentos como de políticos oposicionistas mais irrequietos. Os capoeiras do Recife, como os do Rio, eram quase sempre mulatos de gaforinha, andar gingado, lenço encarnado no pescoço. Por debaixo da camisa, raro era o que não levasse oração fechando-lhe o corpo às balas da polícia e às facas dos outros cabras. Às vêzes ostentavam tatuagens no peito, no braço ou noutras partes do corpo: corações, signo-salmão, âncoras, sereias e nomes de mulheres. Quase todos gostavam de sua branquinha ou aguardente de cana; de seu violão; de ostentar seu dente de outro; e todos tinham nomes de guerra pitorescos: Canhoto, Sabe-Tudo, Bode-Ioiô, Pé-de-Pilão, Rabo-de-Arraia, Bentinho do Lucas, Nascimento Grande.

Nascimento Grande foi o último grande capoeira do Recife: morreu há três quatro nos, já velho e doente, no Rio de Janeiro, num sítio de Jacarepaguá onde o acolhêra José Mariano Filho. Passara da Monarquia à República; eu próprio ainda ovi, com olhos de menino de onze anos, seguindo como guarda-costas o carro triunfante - carro aberto, a capota arriada - em que o General Dantas Barreto, duro, pequeno e de pince-nez, entrou em 1972 no Recife ao som da Vassourinha:

"Salvai, salvai, querido general !"

Bem interessantes são os argumentos de Félix Cavalcanti - inimigo de tôda essa política de rua - a favor da Monarquia: causa a que se conservou fiel até à morte. Se é original aquêle seu "quem nos garante que o Brasil se torne uma Suíça grande e não uma outra Venezuela", me parece das melhores coisas que se têm dito ou escrito a propósito da mudança de regímen no Brasil em conseqüência do pronunciamento de 15 de Novembro de 1889. Afinal, a Monarquia não caiu no Brasil como "defunto sem chôro" a que se referiu uma vez certo ironista melancólico. Teve quem a chorasse; se não alto de pelos diário públicos, baixo e em páginas recatadas de diários - ou quase diários - de família, como o que se vai ler. Chôro aliás desinteressado, que é o melhor.

Destruída a Monarquia, Félix Cavalcanti, seu entusiasta talvez um tanto ingênuo, ficou chorando por mais de dez anos, com o desconsôlo de um órfão político, a morte do sistema não simplesmente político mas social a que desde pequeno se afeiçoara; e que lhe parecia ligado ìntimamente à estabilidade, à ordem, ao bem-estar do Brasil. Posso, aliás, adiantar, nesta introdução às memórias de Félix Cavalcanti, que das autobiografias que já recolhi de brasileiros de várias profissões e de diversas regiões, homens e senhoras maiores de cinqüenta, anos, como respostas a um inquérito organizado para servir de lastro a trabalho próximo - Ordem e Progresso - sôbre a paisagem social dos últimos anos da Monarquia e do comêço da República no Brasil, grande número das pessoas, não revelando sebastianismo nenhum, nem desejo, mesmo vago, de restauração do Império, lamentam tanto quanto o velho Félix Cavalcanti a substituição da Monarquia pela República em 1989: Donde se concluiu que a Monarquia ou o Rei, ou melhor, o Imperador ou, melhor ainda, Dom Pedro II, tem sido e é ainda um defunto chorado no Brasil. Chorado por juízes, desembargadores, professôres, homens do povo, advogados, padres, funcionários públicos, médicos, senhoras ilustres. Choradíssimo por Félix Cavalcanti de Albuquerque Melo, obscuro contemporâneo do monarca e que não tendo recebido de Sua Majestade nem sequer pretendido do seu augusto govêrno, nenhum favor especial, nem nenhum título u crachá, nem nenhuma comenda, foi apenas um provinciano de tendências conservadoras e de feitio aristocrático que se identificou com a causa monárquica por gôsto e por princípio.

Mesmo assim parece-me haver algum interêsse em comprar a parte de apreciações políticas do caderno de memórias provincianas do velho Félix com o que, na mesma época, escrevia no Rio de Janeiro, não um amanuense desconhecido mas um político em evidência na Côrte e o país interno: o Conselheiro C. B. Otoni, Capitão-Tenente da Armada, lente da Escola de Marinha, fundador e primeiro diretor da Estrada de Ferro Central, dignitário da Ordem do Cruzeiro, Oficial de Leopoldo da Bélgica, deputado em quatro legislaturas e senador do Império. Homem com o mesmo hábito de Félix de "registrar de quando em quando as minhas impressões sobre os acontecimentos politicos em que me cabe qualquer parte de responsabilidade e ainda sobre aquelles de que sou mera testemunha, quando me parecem importantes"; e que em 1980 publicou êle próprio tôdas aquelas suas "memorias intimas".

Sôbre a Lei do Ventre Livre, por exemplo, tão admirada por Félix Cavalcanti, escrevia Otoni, com mais realismo, nas suas "memorias intimas": "É nobre o pensamento da libertação dos ventres; o principio - ninguem mais nascerá escravo - inicia realmente a emancipação"; mas "contem ella dous defeitos capitaes, que me fazem augurar mal de seus effeitos . 1º. Abandona á sua sorte os actuaes escravos. 2º deixe as crianças, que diz libertar, escravas de facto até 21 annos".

De onde vinham aquêles cabras e mulatões, aquêles capangas cada dia mais numerosos que, de 1880 a 1885, Félix notava nas ruas do Recife, nos comícios, nas manifestações promovidas por José Mariano? O aumento dêles resultava precisamente da lei de 1871, tão louvada pelo entusiasta do Visconde do Rio Branco. O Conselheiro Otoni profetizara o desenvolvimento daquela classe de negros e mulatos livres mas desordeiros, turbulentos, insatisfeitos: "O que serão aos 21 annos os ingennuos da lei, declarados repentinamente cidadãos, analphabetos, sem officio, sem peculio, sem familia, cheios de odio naturalmente contra os que conservam sua mães no captiveiro? E dizer que cada anno lançará na sociedade 20.000, 8.000, 15.000 individuos naquellas condições!" E anos depois, Otoni escreveria que a lei de 71 tornara "indispensavel a resoulução radical de 13 de Maio de 1888": resolução que, tanto quanto Félix, Otoni consederava não se "a melhor, fallando economicamente".

Quanto à ação de Pedro II no movimento abolicionista, Otoni reconhecia nas suas "memorias intimas" que o monarca tivera a iniciativa da Abolição; mas só a iniciativa. E quanto ao caráter e às virtudes do Imperador é interessante contrastar as opiniões dos dois memorialistas que, escrevendo na mesma época, viam o monarca de modo tão diverso: Otoni de perto e talvez com algum ressentimento a aguçar-lhe a crítica inteligente. Félix de longe e com entusiasmo um tanto romântico; mas sem motivo nenhum para ressentimento pessoal ou político. Para Félix não se podia desejar melhor imperador que Pedro II; nem melhor regímen para o balanço de qualidades e defeitos do monarca, namorava com a República. Nesse balanç, "o activo em seu favor [ de Dom Pedro II] é importante": 1º "a sua infatigabilidade, e o interesse que sempre mostrou pelo desenvolvimento da riqueza publica", 2º "a sua clemencia", 3º "a sua iniciativa para a libertação dos escravos". E animado de umapretensão que o pobre o Félix, memorialista provinciano, nunca teve, isto é, de fazer suas "memorias intimas" influírem nos julgamentos da História com H maiúsculo ""mas o seu passivo foi a pessima foi a pessima direcção dada á politiva, e foi o que o perdeu, a sua dynastia, e a instituição monarchica, desacreditando ao mesmo tempo o regimem parlamentar. Este processo a Historia há de fazer-lho; é seu direito contra todos os reis; e eu pretendo auxiliar a Historia". Depois de censurar em Dom Pedro II a preocupação de anular partidos e grandes homens "para fazer sobrenadar a vontade imperial" recordava Otoni a frase célebre de Eusébio de Queirós: "Quem foi Ministro do Sr. D. Pedro II é preciso que não tenha vergonha para sê-lo segunda vez.

São muitos os pecados de omissão no "Livro de Assentos" de Félix Cavalcanti - a que aliás faltam, segundo dizem as pessoas mais velhas da família, outros cadernos, perdidos talvez em mudanças de casa. Não diz uma palavra sôbre Canudos, por exemplo; apenas transcreve o discurso de um neto, de regozijo pela vitória do Exército sôbre Antônio Conselheiro. À questão religiosa - Dom vital versus maçonaria - faz sòmente uma referência vaga. De Joaquim Nabuco apenas fala uma vez de passagem. Seus necrológios literários limitam-se a escritores franceses e portuguêses e a César Cantù: não se refere a José de Alencar nem a Gonçalves Dias ou Castro Alves. E é pena que tendo vivido tanto no Recife não no fale do primeiro ônibus ou diligência suburbana - que foi novidade do seu tempo de môço; das carruagens que adiante dos seus olhos substitíram os últimos palanquins; nem do primeiro lampião a gás; nem do primeiro bonde de burro; nem do primeiro trem; nem as modificações na arquitetura doméstica - casa novas em estilo gótico, italiano, suíço, nem dos teatros, das procissões, das festas a que comparecia e onde às vêzes recitava versos.

Foi numa festa de aniversário - não no Recife mas em Santo Antão - que Papai-outro, depois de ouvir calado certo poeta novo recita muito ancho versos da própria lavra, pregou-lhe esta peça: levantou-se, bateu no ombro do poeta e disse-lhe muito sério: "Não, meu velho, isso de versos inéditos é conserva: eu conheço sua poesia há muito tempo." E recitou, melhor que o autor, os versos que acabara de ouvir. Diante o assombro do poeta, e do espanto da sala é que êle esclareceu, muito enganjento de sua memória, que decorara os versos naquele instante, felicitando ao vate por Ter produzido poesia tão bonita.

Também não nos fala - êle que gostava tanto de peixe, ou das marés, como se dizia na linguagem particular da família - de pescarias nem de ceias da Semana Santa, acontecimentos de enorme importância no Recife de sua época. Principalmente par quem como êle morou mais de uma vez perto da água: na Rua Imperial, à beira dos grandes viveiros de Afogados e Jiquiá - donde nas vésperas das grandes ceias da Semana Santa se retiravam barricas de camorins, carapebas, curimãs; perto das pescas de marisco de Fernandinho; perto dos mangues e dos alagados cheios de gaiamum e caranguejos; e em Olinda, perto do mar, com o excelente peixe de água salgada dos pescadores de jangada à porta de casa.

Seu gôsto literário ninguém deve esperar que fôsse apurado; nem eram profundas suas leituras; nem sutis seus comentários sôbre livros e escritores. Dumas e Sue foram os romancistas de sua predileção. Cantù, seu mestre de História e, até certo ponto de filosofia da Hsitoria. Sabia dêles - dizem as tradições da família - trechos inteiros de cor. Também poesias de Vítor Hugo e de Gomes do Amorim. E o Dicionário Popular de Pinheiro Chegas era-lhe particularmente caro.

Quando os telegramas no Jornal do Recife - que se tornou, ano sei por que, sue jornal predileto - anunciavam a morte de um Dumas ou de um César Cantù, Félix Cavalcanti registrava o acontecimento no seu "Livro de Assentos" com frases comovidas, às vêzes exageradas. No registro sôbre a morte de Dumas termina por tratar o morto glorioso por tu: "deixaste saudades". O mesmo faz com parente mortos: conserva com êles, despede-se dêles, como se os mortos o estivessem ouvindo.

Era crente e bom Católico. Ia às missas aos domingos na Igreja de Afogados e às quintas na Boa Vista. Pertencia à Irmandade do Santíssimo Sacramento e acompanhava a procissão dos Passos e os enterros de irmãos, primeiro às igrejas - alcançou o tempo dos sepultamentos nas igrejas; depois ao cemitério. Não saía à rua que não fôsse de corisé ou sobrecasaca preta. As roupas de mais luxo mandava fazer no Silva Cardoso "alfaite da Casa Imperial"ou no Pavão, à Rua da Imperatriz. Era freguês do armazém de fazendas do Martins, que vendia também camisas de linho e gravatas de sêda. Mas sobretudo fazendas que o velho Félix preferia escolher por si sem sugestão nenhuma de caxeiro. Era ranzinza neste ponto: o caixeiro devia ficar calado enquanto êle escolhia o pano ou a gravata.

Calçava botinas pretas. Andava de bengala ou guarda-chuva. Principalmente de guarda-chuva: insígnia de autoridade já mais burguesa do que aristocrática. Usava apenas uma fêlpa de pêra.

Sua sala de visitas estava sempre se iluminando, o chão ou o soalho da casa se amaciando de fôlhas de canela, para festas de família: de casamento e de formatura dos filhos, de batizado e primeira comunhão dos netos. A mesa se cobria então de bolos, pastéis, doces, passas e figos. Bolos feitos em casa. Passa, biscoito e figos dos armazéns, que em 1848, em franca competição com a arte doméstica o bôlo, já vendiam para as festas de família muito "bolinho francês"e biscoitos inglêses em lata. Tomava-se vinho-do-pôrto - do pôrto fino que em 1884 custava 1$000 a garrafa no pequeno Armazém de Gêneros Alimentícios. Seu bôlo predileto era o pão-de ló. Seu doce, o de goiaba. Gostava de bom rapé: tinha caixa de tartaruga com as inicias. Às vêzes, por influência de amigos, fumava um charuto. De ordinário, contentava-se com o rapé. Uma vez por outra, também por influência de amigos, comia o seu bife e bebia seu borgonha no Hôtel de l'Univers, do Leinhardt, à Rua do Comércio, onde em 1870-80 se almoçava magnìficamente com vinho por 3$000.

Como chefe de família, Félix não era dos que desciam êles próprios à porta do sobrado ou ao portão da casa - como na família o segundo José Antônio Gonsalves de Melo - para comprar do matuto a cavalo, com grandes garajaus cheios de aves, o peru para o jantar de dia de festa ou a galinha par o caldo do filho doente ou par a canja do resguardo da mulher; ou do balaieiro, a laranja, o abacaxi, a manga, a jaca, a geléia de araçá; ou o próprio bôlo de tabuleiro da negra limpa e conhecia, para algum netinho mais guloso.

Por falar em bôlo par netinho guloso: houve tempo em que Félix, já velho, começou a levar de casa para a Santa Casa, tacos de queijo do Reino para um ratinhoque sempre aparecia na sala da secretaria. Até se pensou que êle estivesse ficando caduco; mas era para observar a gula do catita que despertara a sua curiosidade e também a sua ternura um tanto franciscana pelos bichos, capaz de se comover até pela "gratidão" de um urubu: " o urubu de Chã de Carpina", de que fala numa das páginas mais ingênuas do livro. Gostava de bichos. Criava galinhas em casa, quando a casa tinha quintal ou era de sítio. Teve cachorros: mas tendo sido preciso matar um, que ficou doente de raiva, nunca mais quis saber de ter outro. Nunca teve foi a mania por cavalo de corrida e por passarinho de alguns de seus filhos e netos, cujas casas pareciam mercados de aves; nem tampouco a paixão por galos de briga. Não jogava no "bicho"; mas bilhete comprava um décimo ou um vigésimo uma vez por outra, na Loteria de S. Pedro Mártir ou de N. S. do Rosário. O vício sob disfarces piedosos.

Quando morria alguém de casa, êle e a família inteira vestiam luto fechado: até os meninos pequenos. O luto se estendia aos escravos domésticos ou crias de estimação já elevados a pessoas da família e houve tempo em que incluiu a própria casa ou sobrado que passava dias e até semanas com as portas e janelas da frente tôdas fechadas, um grande laço de crepe sôbre a porta principal.

Havia aliás no Recife na primeira metade do século passado - ainda conhecido por Papai-outro - mulheres quase tão familiares das casa como as "comadres" ou parteiras: viviam de vestir defuntos e anjos. Principalmente anjos. Profissão rendosíssima numa cidade onde se morria tanto. Uma das irritações do nativismo pernambucano da época contra os portuguêses teve por motivo o fato de virem do antigo Reino para esta cidade vestidores de anjos e de defuntos competir com os brasileiros em profissão que os patriotas intransigentes, sob a influência de preconceitos patriarcais, entendem dever caber exclusivamente aos nacionais e - o vestir de anjos - às mulheres.

Félix Cavalcanti era mais alto do que baixo, bem apessoado, alvo, olhos castanhos, o cabelo também castanho muito claro, quase alourado e aos trinta anos já quase todo branco - traços que se transmitiram à maior parte dos seus filhos e netos e ainda hoje se vêem nos seus bisnetos e tataranetos dos ramos menos exógamos da família. Sua mulher era também alva, os cabelos pretos: usava-os em casa soltos ou armados em cocó. Era sua prima e da família Galvão ligada aos Melo.

Em seus primeiros anos de morador do Recife, Félix Cavalcanti fôra freqüentador do Cais do Colégio, tão apreciado de 1839 a 1850 por todo o bom recifense que ali ia tomar fresco, ver os navios e conversar sôbre política. Alguns namorar com as mulatas. Pelo que escreve o Padre dO Carapuceiro, o novo cais - obra de um francês, engenheiro das Obras Públicas, chamado Boyer, depois os hábitos recifenses, fazendo os rapazes e os homens se recolherem à casa mais tarde do que dantes e a se desculparem às avós mais caturras, aos pais mais severamente patriarcais ou às sinhás mais ciumentas, dizendo que "estiverão no caes em huma grande roda de amigos que os não quizarão largar".

Félix não era muito de festas de rua ou de pátio de igreja, como as de "bandeira" e "novena" de santos, tão ruidosas em Pernambuco durante do século XIX; nem nunca apreciou o entrudo. Gostava de divertimentos mais sossegados, modinhas e recitativos ao piano, jogos de salão: e pelo São João, desprezando os foguetes e os busca-pés que se soltava na rua, não dispensava seu pão-de-ló com vinho-do-pôrto ou seu sequilho com chá verde. Nem desdenhava o livro de sortes; e com sua faculdade para versejar teria sido capaz de repetir, quando novo, a brincadeira que se atribui a outro recifense do seu tempo; o qual lendo por São João as sortes para a iaiá sua predileta, substituiu, de improviso, o

"Sede freira e desta sorte
Matareis quem vos mal quer"

por

"Sede freira, porém não Melhor ;é casar commigo."

Rapaz, brincou de padre-cura e de chora-manénão-chora:

"chora-mané-não-chora
chora porque não vê o limão
o limão anda na roda por culpa deste babão bestalhão"

jogos que os rapazes e as môças de seu tempo se regalavam em brincar, nas noites de lua, no Poço da Panela, no Monteiro no Caldeireiro, em Apipucos, em Ponte d'Uchoa, -- os lugares, á beira do rio, até 1845 preferidos pelas famílias pernambucanas mais finas para o "passamento de festas"; e só depois substituídos por Caxangá e principalmente por Olinda. Por Olinda quando começou a voga dos banhos de mar: depois que se construiu a estrada de Tacaruna. Nesse jogos e brinquedos de tempo de festas, no Poço da Panela, e depois em Olinda, é que alguns dos filhos e algumas das filhas de Félix Cavalcanti acharam noivo o noiva. Já não se estava na época dos casamentos feitos tranqüilamente pelos pais, por puro interêsse de família. Até mesmo algumas irmãs de Félix casaram românticamente com moços pobres. Casamentos de amor - aliás já numerosos no Brasil de 1850. O Padre Lopes Gama, nas suas crônicas nO Carapuceiro, põe na bôca de uma iaiá pernambucana de 1839:

"Hum pae não pode privar
A filha quer bem
Si as leis dos paes são sagradas
As do amor mais força têm."

Não é de admirar: no próprio século XVII môças brasileiras das mais istintas - Cavalcantis até - ligaram-se por amor, e fora das "leis dos paes", uma com Bernardo Ravasco, D. Filipa Cavalcanti - outra com D. Francisca Manuel de Melo - D. Maria Cavalcanti; várias - diz-nos o Marquês de Basto que com holandeses hereges.

Félix Cavalcanti procurou dar instrução adiantada aos filhos e às próprias filhas; e prepará-los da melhor maneira para uma nova época social, embora dentro das tradições religiosas e de família em que crescera em Jundiá. Daí, talvez, não Ter pôsto as filhas nas escolas religiosas, não se deixando, por outro lado, atrair pelos novos colégios de senhoras francesas ou inglêsas que desde 1830 se foram estabelecendo no Recife com suas novidades de educação física e de talho de letra, provocando a indignação de tradicionalistas da marca do Padre Gama: "qualquer francez, qualquer inglez, qualquer suisso, qualquer abelha mestra desses paizes aporta a Pernambuco e não tendo outro genero de vida diz que vem repartir comnosco das suas muitas luzes, fundando collegios". É curioso, porém, que nenhum filho ou filha de Félix - de educação dirigida opor êle nos primeiros anos e depois completada - a dos meninos - no Colégio das Artes - desse para religioso - frade ou freira; nenhum filho para padre. Pr outro lado, nenhum resvalou no comércio. Vários dos seus filhos, genros e netos fizeram carreira na Alfândega, onde alguns atingiram aos postos mais altos.

No seu tempo de menino, Félix - que mesmo sem as novidades da educação inglêsa, foi homem robusto - tomara seus banhos de cachoeira nos engenhos de Escada; depois, banhos de rio em Beberibe onde morou adolescente. Aí aprendera a nadar e a dar mergulhos. Adulto, o seu banho tornou-se de gamela com cuia. Montava bem a cavalo - o que aprendeu também durante sua meninice em engelho. Gostava de andar a pé. Mesmo porque, homem de recursos limitados, só rodava de carro nos grandes dias de casamento ou batizado dos filhos ou parentes. Às vêzes, andando a pé, pelas ruas do Recife ouvia vir de dentro de alguma casa ou do fundo de algum sobrado, gritos de "me acuda, me acuda!" Gritos de escravo castigado pelo senhor. Parava, batia à porta o pobre negro. Era uma praxe, entre os senhores de negros de todo o Brasil, atender a êsses pedidos de misericórdia de "gente distincta" que passasse pela rua. Foram dos seus primeiros anos de residência no Recife posturas municipais proibindo que se castigassem negros em casa depois de 9 horas da noite; outras proibindo aos matutos entra na cidade de ceroulas e camisa sôlta. Restrições ao patriarcalismo e ao mesmo tempo ao ruralismo colonial. Progresso do urbanismo.

Não são as reações aos acontecimentos políticos às atualidades literárias de um filho de senhor de casa-grande degradado em amanuense da Santa Casa de Misericórdia, de um Cavalcanti nascido em engenho e a vida inteira mal adaptado à demagogia do Recife, que nos parecem a parte mais interessante das memórias do velho Félix. E sim o registro de fatos de família: nascimentos, casamentos, mortes, nomeações, formaturas, doenças, embarques, desembarques, mudanças de casa, fuga de crias, idade em que as filhas e netos se casavam e os velhos e as crianças morriam. Repetições: muita repetição; fatos se repetindo tanto o interêsse dramático, tôda a graça; mas ganhando, ao mesmo tempo, com a recorrência, significação sociológica; oferecendo-se ao leitor mais sério como material miúdo, é certo, mas bom e puro para o estudo de alguns dos aspectos mais caraterísticos da vida de família no Brasil no século passado. Para o estudo também do que se pode considerar a formação de "constantes" ou "regularidades" da vida e do caráter brasileiros.

O registro de ocorrências e recorrências de família feito tão cuidadosamente por Félix Cavalcanti no seu "Livro sociológico e histórico-social, como ilustração do processo de desruralização da antiga aristocracia pernambucana, tão intenso durante o século XIX. O caso de Félix e dos irmãos, perdendo o engenho por morte do pai, e sendo forçados a vir para a cidade com poucos recursos e em circunstâncias difíceis e amparando-se então no emprêgo público, de modo a poderem criar e educar patriarcalmente numerosos filhos, é o caso. Norte, de vários outros Cavalcantis, Albuquerques, Melos, Wanderleys, Pais Barretos, Fêgo Barros, Aciolis Lins.

Típica é também a sua preocupação de fazer dos filhos, bacharéis e doutôres e das filhas, professôras, procurando no prestígio, então ascendente, do saber, das letras, dos títulos intelectuais e científicos, compensação para a perda ou o declínio do outro prestígio: a posse de terras, de escravos, de engenhos, de títulos G. N. Outras distinções, outras vantagens, outras formas de domínio ou de decoração social em lugar das velhas e tradicionais.

Vários dos filhos e netos de Félix regressaram à terra e a engenhos; mas sem as raízes profundas do avós, sem o antigo bom ânimo rural. A maior parte dêles e a mais bem sucedia urbanizou-se, integrada no serviço público, na magistratura, no magistério, na política, tendo um dos seus filhos, o Dr. Demócrito Cavalcanti de Albuquerque, atingido posição de relêvo nacional.

O processo de desruralização e ao mesmo tempo de sofisticação da família sob o estímulo de contatos novos no meio urbano, manifesta-se de modo pitoresco nos nomes que Félix Cavalcanti foi dando aos filhos: nomes gregos e romanos; nomes cheios de erudição profana; nomes com certo travo de paganismo e até de irreverência pela tradição católica, como insinuou, nO Carapuceiro, o Padre Lopes Gama: Licurgo, Demócrito, Heráclito, Tales, Teócrito. E não mais os nomes simples e lìricamentecristãos dos meninos batizados nas capelinhas das casas-grandes de engenho; os Antônios que ficavam Tonicos e Toinhos, os Franciscos que ficavam Chicos, os Pedros que ficavam Pepês, Pedrocas, Pedrinhos, os Manuéis que ficavam Nèzinhos, as Marias da Conceição, as Marias da Anunciação,as Mairas das Dores, as Marais dos Anjos, de Jesus e da Glória, as Teresas, as Franciscas, as Manuelas, as Joaquinas, as Simoas, as Genebras, -- nomes de santo, de santas, de Nossa Senhora, da Historia Sagrada, de folhinhas aprovadas pelas autoridades eclesiásticas. Nomes repetidos dos das mães, das avós, das bisavós dos primeiros tempos coloniais.

Com relação aos nomes de menino tirados da História profana, e não mais da Sagrada nem da folhinha, deve-se notar que nem Félix Cavalcanti nem o velho José Antônio Gonsalves de Melo - outro que só deu aos filhos nomes gregos e romanos - foram jamais ao extremo dos seus parentes, os Fonsecas Galvão. Dessa família pernambucana houve um ramo que, por exagerado nativismo, substituiu o Galvão por Carapeba; e por liberalismo ou francesismo deu aos pobres dos meninos nomes então aterradores como o de Voltaire. O velho José Antônio contentou-se em chamar a um dos filhos Cícero Brasileiro e a outro Uliasses Pernambucano, conciliando assim o romantismo nativista com o classicismo greco-romano.

A tradição dos nomes gregos e romanos conservada, de modo geral, nos nomes dos netos de Félix Cavalcanti - como também nos dos seus primos, os netos de José Antônio Gonsalves de Melo - foi se perdendo na quarta geração, que foi tendo nomes inspirados por novelas e romances e pela História menos antiga: Egberto, Roberval, Nélson, Alice, Clarice, Albertina, Gilberto, Abelardo, Adolfo, Oscar, Valdemar, Humberto, Mário, Guimoar, Nadir, Nádia, Cármen. Dos nomes de meninas, deve-se notar que se conservaram, na maior parte, até o romantismo literário da quarta geração, os tradicionais, os de santas, os de avós - adoçados na intimidade em "Iaiá", "Sinhá", "Teté", etc.: Maria, Francisca, Joaquim, Teresa, Manuela. Escaparam - com uma exceção ou outra - ao classicismo greco-romano que encheu a família de Licurgos e Cíceros, de Demócitos e Ulisses. Escapou também a família de Félix - como a de José Antônio - ao americanismo, isto é, ao ianquismo rapublicano dos Washingtons, dos Lincolns, do Benjamins ranklins, dos Jeffersons, dos Hamiltons. Também ao hispno-americanismo dos Bolívares e dos Juarez.

Efeito talvez - essa imunidade - do horror que a ideologia republicano-democrática, representada tão salientemente pelos Estados Unidos e pelas repúblicasa hispano-americanas, inspirava ao patriarcalismo intransigentemente monárquico de Félix Cavalcanti. Dos norte-americanos êle só admitia as virtudes particulares: as que êles conservavam - a seu ver - dos avôs inglêses engrandecidos pela monarquia.

As notas que Diogo de Melo Meneses acrescentou ao diário - ou quase-diário - do bisavô, como as que aparecem nesta introdução já tão longa, baseiam-se umas em cronistas e jornais da época, outras em papéis e tradições orais de família. Principalmente as conservadas pela filha do velho Félix: nossa boa parenta Maria Cavalcanti de Albuquerque Melo ( Iaiá).

Recife --- 1939-1957.
G . F.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Velho Félix e suas "memórias de um Cavalcanti". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. 142p.

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