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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



OBRA ESCOLHIDA

Gilberto Freyre
Tradição e Modernidade
Prefácio de Antonio Carlos Villaça



O primeiro livro, que li, de Gilberto Freyre foi Perfil de Euclides e outros perfis, no mesmo ano de sua publicação pela Casa de José Olympio, 1944. Tinha eu 16 anos e senti logo a força de certas passagens (realmente admiráveis) dos ensaios a respeito de Euclides e de Pedro II.

Hoje, poso dizer que li toda a obra de Gilberto Freyre e reli grande parte dela. Um tal monumento nos leva a recordar a palavra tão justa de um Anísio Teixeira, que assim depôs sobre a vasta criação gilbertiana, em notável prefácio, que escreveu para Sociologia:

Tenhamos a agradável coragem de reconhecer um Gilberto Freyre a grandeza que o futuro lhe irá reconhecer, em seu retardado processo de canonização. E o ajudemos a ser ainda maior aqui mesmo, entre nós, e em nosso tempo, com a nossa quente e viva admiração.

Todo os brasileiros fazemos nossas as afirmações de Anísio, em tão lúcido prefácio.

São mais de sessenta livros publicados, ao longo de quarenta e dois anos, e mais de cinqüenta opúsculo, num total assim de mais de cem títulos. Inspirado em Casa-Grande & Senzala, o compositor Capiba produziu em 1961 uma Suíte Nordestina, cujo quarto movimento se chama "Casa-Grande & Senzala. José Carlos Cavalcanti Borges fez uma adaptação teatral do mesmo livro, drama em três atos, 1970. E em 1962, no Carnaval carioca, a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira inspirou-se para seu enredo em "Casa-Grande & Senzala e dramatizou parte do contexto, sob forma de poema música e dança populares.

Em sua obra, há diversidade sem deixar de haver unidade, como ele próprio dizia a respeito de O brasileiro entre os outros hispanos. O Brasil é o grande e constante motivo de Gilberto Freyre, viu José Lins do Rego, desde o prefácio de Região e tradição. Nada do Brasil, é a ele estranho ou indiferente, como observou Lourival Fontes. E, assim, desde o primeiro estudo, desde Social life in Brazil in the middle of the 19th Century, de 1922, traduzido por Valdemar Valente e publicado em nossa língua em 1964, ( a sair em Palavras Repatriadas), o tema fundamental de Gilberto Freyre é a formação do Brasil).

No prefácio, ainda inédito, que escreveu para nova edição de Ingleses no Brasil, nosso Autor resume o sentido global da sua obra:

Transmitir uma experiência, em larga escala singular, dos brasileiros-a de se virem constituindo um novo tipo de sociedade e de civilização, de origem principalmente mas não exclusivamente européia, em, espaço tropical, através da miscigenação, da mistura, da interpenetração de culturas.

Ao grandioso, ao oficial, ao acadêmico se antepõe outra perspectiva. São palavras dele:

Creio que, nesse particular, terei senão suscitado quase sozinho, nos estudos histórico-sociais mais sistemáticos com relação a formações de sociedades como a brasileira, uma não de todo desprezível (nas suas projeções) alteração de perspectiva. E talvez contribuído de algum modo par uma quase revolução em profundidade, nessa espécie seja de ensaística ou de história social.

Preocupação maior com uma história como que íntima ou interior, e certa despreocupação com o passado oficial ou público. Análise e interpretação das influências menos ostensivas e às vezes mais significativas. O humilde, pequeno, o modesto, o aparentemente insignificante atraiu sempre a atenção proustiana de Freyre, o que foi deixado na sombra pelos historiadores e sociólogos convencionais.

Eis o sentido da sua obra de escritor, sociólogo e antropólogo. No discurso de formatura, 1917, no Colégio Americano do Recife, dizia Gilberto (e o paraninfo era Oliveira Lima):

Não sejamos meros ideólogos nem simples utilitários, mas idealistas práticos. é tempo de o Brasil despegar-se das fórmulas vagas, procurando ver s observar os seus problemas, em vez de ater-se ao que está escrito no livros estrangeiros.

Na sua obra imensa de análise e interpretação do Brasil, o programa dele será este.

Um idealismo prático, um objetivismo, um realismo profundo. Em dezembro de 1933, aparecia Casa-Grande & Senzala, editado por Schmidt. Rodrigo Melo Franco de Andrade foi quem o estimulou a escrever esse livro pioneiro, obra-prima de Gilberto e marco nos estudos sociais ente nós. Venderam-se até hoje no Brasil dezoito edições de Casa-Grande. Encontro na correspondência de Manuel Bandeira a seguinte carta sobre o êxito do livro: Rio, 10 de janeiro de 1934.

O sociólogo está na ordem do dia com a publicação da grande Casa-Grande. Ficou um bichão de bom aspecto, que já está ficando conhecido como o Ulisses pernambucano... A piada deve ser invenção do Murilo Mendes. O que ficou bem safadinho foram os clichês das fotografias.

As informações dos livreiros é que o livro esta tendo muita saída. O Cruls não esperou o exemplar dele e comprou e leu logo e ficou estarrecido de admiração pelo sociólogo. Disse que apesar de esperar muita coisa nunca pensou que fosse assim, que pensava que fosse mais literário...

O Roquette também está no auge da admiração. Recebeu o livro há três dias e ontem à noite, na hora educativa a Rádio-Sociedade, encheu todo o tempo falando do livro, classificando-o de obra monumental. Eu e o Rodrigo ficamos inconsoláveis de Ter perdido isso. Quem nos informou foi o Cruls. Disse o Roquette que à parte qualquer outro valor da obra só a bibliografia que vocês reuniu representa uma contribuição inestimável. Fez grandes elogios às suas opiniões sobre miscigenação. Não esqueceu a linguagem e leu trechos inteiros do livro.

Por enquanto, é o que sei. Mas, à proporção que for sabendo mais, irei fazendo a reportagem.

O calor aqui está brabo. Anteontem, jantei em casa do nosso Rodrigo, que continua ainda nas dores do parto da Casa-Grande, num grande paraísmo de amizade, interessadíssimo pelo sucesso do livro. O Joaquim Pedro está cada vez mais bonito, calmo, acho que vai dar um scholar.

Gastão Cruls e Roquette Pinto vibravam com o livro. Era um novo Os Sertões, de Euclides. 1902, 1933. O consenso geral, resumiu-o João Ribeiro, já no fim da vida, mas sempre perspicaz:

Um pernambucano da estatura de Nabuco. Não sabemos se houve outro brasileiro que com tanta acuidade nos observasse.

Era um ensaio, na plenitude do termo. Octávio Tarquínio de Sousa notou no prefácio a Ingleses no Brasil ( e repetindo Julien Benda) que uma característica do ensaio é a ausência do peremptório.

Em Casa-Grande & Senzala, livro de estréia, estão as raízes, da obra inteira. Todos os livros posteriores são desdobramentos e complementos. Pois a obra de Freyre é uma obra com unidade e harmonia. Casa-Grande é uma descoberta do Brasil. A reabilitação do negro no Brasil e a compreensão do papel do mulato na sociedade brasileira, devemo-lo em grande parte à sociologia de Gilberto Freyre.

Na diferenciação entre raça e cultura reside ou assenta todo o plano do ensaio, di-lo expressamente o Autor. Não usa ele pontos de exclamação. Usa pontos de interrogação. A pesquisa. O inquérito. A tendência à análise. Seu material, como ele próprio o declara ( em Sobrados e mucambos), são menos os historiadores do que os arquivos de família, os livros de assento, as atas de câmaras, os livros de ordens régias, as correspondências, teses médicas, relatórios, coleções d jornais, figurinos, revistas, estatutos de colégios, almanaques, diários e livros de viagens estrangeiros. O seu método é a compreensão.

Para fins histórico-sociais, Giblerto Freyre foi o primeiro a usar os anúncios de jornais no Brasil. Veja-se Um engenheiro francês no Brasil. O centro de convergência da sua obra é a casa, o eixo de tudo. Estuda a formação social do Brasil por intermédio da casa. E em 1971 nos dará o ensaio a respeito de A casa brasileira, tentativa de síntese de três diferentes abordagens - a antropológica, a histórica, a sociológica.

Método histórico-cultural na consideração de fatos e documentos e psicológico na interpretação das pessoas e da sociedade. Que é Casa-Grande & senzala? Uma introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil. Gilberto estuda "uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de operação econômica e híbrida de negro, índio e branco na composição." São palavras do sociólogo:

A Casa-grande completada pela senzala representa todo um sistema econômico, social, político: de produção ( a monocultura latifundiária), de trabalho ( a escravidão), de transporte (o carro de boi, a rede, o cavalo), de religião (o catolicismo de família), de vida sexual e de família ( o patriarcalismo poligâmico).

Universalismo combinado com regionalismo, assim mestre Freyre quis resumir o sentido da sua obra. As antinomias do sociólogo-antropólogo, Álvaro Lins as fixou admiravelmente: solitário e companheiro, místico e céptico, poeta e cientista, objetivo e introspectivo, tradicionalista e revolucionário, lírico e pesquisador, regionalista e universal. Porque Gilberto Freyre é um artista. Álvaro Lins o aprocima de Proust. E é hoje um lugar-comum dizer-se da sociologia de Gilberto Freyre que é uma sociologia proustiana.

O que caracteriza a sua linguagem é certo dom de transmitir das coisas e a sua realidade uma sensação como que de caráter físico e direto [escreveu Álvaro Lins com argúcia).

Compare-se esta citação com aquilo de Renato Carneiro Campos, no belo prefácio à obra Vida, forma e cor:

Não escreve e lê só para criticar e analisar, porém para viver e participar, por prazer, num sentido em que a literatura seja também vida e não apenas fichário de idéias e registro de fatos.

Grande parte do livro de estréia de Gilberto foi escrita na casa do psiquiatra Ulysses Pernambucano, primo dele, sobre quem escreveu por ocasião da morte súbita, no Rio, em dezembro de 1943. Casa da Rua Cardeal Arcoverde. Sobrados e mucambos foi redigido no casarão dos pais de Gilberto, Avenida Rosa e Silva 317, antiga Estrada dos Aflitos, e também no Hotel das Paineiras, aqui no Rio, no Hotel Paissandu e na fazenda São Martinho, de Paulo Prado, em Ribeirão Preto. A esse tempo, foi Gilberto hóspede por dias do famoso edifício Olinda, no Posto Seis, Copacabana, apartamento de um irmão de Cícero Dias, o médico Manuel Santos Dias, e no mesmo edifício morava Múcio Leão. Era todo um grupo de freqüentadores do edifício Olinda, Gilberto Amado, Alfonso Reyes, Gastão Cruls, Octávio Tarqüínio de Sousa, Cícero Dias, Felipe d'Oliveira.

Nordeste se escreveu numa paria muito primitiva de Pernambuco, São José da Coroa Grande, perto de Alagoas, na casa de Júlio Bello, e também na casa-grande do mesmo Bello, em Queimadas. Foi Gilberto quem fez Bello publicar o seu livro Memórias de um senhor de engenho. Os outros livros de Freyre, redigiu-os na casa dos pais, na Estrada dos Aflitos, ou já na sua casa de Santo Antônio de Apipucos, bela e sóbria mansão senhorial, cercada de jardins rústico, como fixou Joaquim Pedro de Andrade, filho de Rodrigo, no seu célebre documentário, a cuja primeira exibição assisti, no Rio, em 1959.

A estas casas se junte a do Carrapicho, na Estrada do Encanamento, perto da Casa Forte, casa mourisca, que pertenceu ao irmão de Gilberto, Ulysses Freyre.

A casa do Carrapicho, onde Gilberto Freyre morava, era para mim como um refúgio, que procurava com ansiedade e timidez [depõe José Lins do Rego, no prefácio de Região e tradição]. Deu-me a ler os seus poetas e os seus grandes romancistas. [E José Lins resume]: A minha aprendizagem com o mestre da minha idade.

Gilberto escreve mais pela manhã. Acorda cedo. Lê mais à tarde e à noite. Sai pouco de casa. Escreve a lápis. Gosta de escrever sentado em poltrona, com a perna sobre o braço da poltrona. Escreve sobre uma tabuinha. Gosta de nadar a pé, como Alceu Amoroso Lima. Gosta de andar de bicicleta. E de banho de mar. Fuma charuto e cachimbo.

Trabalha ao mesmo tempo em dois ou três livros.

Vive como uma espécie de monge, todo entregue ao trabalho intelectual. E há realmente alguma coisa de sacerdotal e de monástico na personalidade complexa, múltipla, do autor de Dona Sinhá e o filho padre. Quem não lhe percebe o fransiscanismo?

O fim da sua atividade criadora, notou-o muito vem Diogo de Melo Menezes, é o ressuscitar de passados perdidos, revelar vida, compreender pessoas, ser fiel à realidade no esforço de revelação, ressurreição, compreensão da vida humana no Brasil.

Monteiro Lobato viu com agudeza que certos livros de Gilberto são capítulos e uma História do Brasil, por dentro. Gilberto Freyre tem o destino dos grandes esclarecedores, diz Lobato. Para logo acrescentar:

O futuro vai conhecer o Brasil através da obra de Machado de Assis para a parte psicológica, através da obra de Euclides, para a parte dos lineamentos gerais e grandes contrastes, e sobretudo através de Gilberto Freyre, para a pare vida como a vida foi.

Fernando Azevedo chamou-lhe o maior intérprete da nossa formação social.

Pelo rigor de seus métodos, pela argúcia de sua análise, pela lucidez de sua conclusões, iniciou nas suas sínteses de interpretação sociológica um movimento verdadeiramente fecundo, senão definitivo, para a orientação de nossos estudos sociais.

Livro único, chamou Métraux a Casa-Grande & senzala.

Gilberto possui como seu método a análise das situações concretas. A sua história da sociedade brasileira parte da família, como instituição básica. João Camilo chega a pedir-lhe que nos dê, depois de Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e progresso, Jazigos e covas rasas, nada menos que - Apartamentos e favelas. Depois do período pré-urbano de Casa-grande, do período urbano de Sobrados e mucambos, a fase industrial de Apartamentos e favelas.

Sociologia aberta, como se compraz em dizer Kujawsky, sociologia em processo, dominada pela problemática da transição, uma abertura em profundidade sobre a vida social brasileira. Humanismo barroco? Não renunciar a nada, eis a formulação literal de um humanismo barroco, observa Kujawsky. O humanismo hispânico, de Freyre, é um humanismo barroco.

Pertenço ao número daqueles para quem o fato histórico importante não é apenas o grandioso, mas principalmente o significativo; e o fato histórico significativo às vezes é a negação mesma da grandiosidade [leio na página 124 de Seis conferências em busca de um leitor, 1955].

Uma sociologia mais humana do que sistemática.

Compare-se Casa-grande & senzala com Lições de clínicas propedêutica médica, de Francisco de Castro, o médico de Rui Barbosa, propunha Bento Munhoz da Rocha no prefácio a Quase política. Que longo caminho percorrido, como evolução da língua literária.

"O Sociólogo na correnteza política", chamou o paranaense Munhoz da Rocha a essas páginas. E ele nos diz:

"Sabe Gilberto Freyre o que o Nordeste representou a representa na civilização brasileira". E justamente um homem do Paraná é que nos vem afirmar isto.

Não haverá exatamente em Gilberto Freyre um perspectivismo pluralista? "La sola perspectiva falsa es esa que pretenda ser la única", ensinou Don Ortega, que Gilberto cita. Explicando Ordem o progresso, dirá Gilberto:

é a projeção no plano da história não só social como sexual e íntima do brasileiro mais recentemente histórico daquela Antropologia experiencial ou Sociologia existencial que o Autor tem procurado opor às sociologias não apenas abstratas na sua concepção de homem, como somente estatísticas, sociométricas e quantitativas no seus métodos e às Antropologias só descritivas.

Releia-se o notável prefácio de Paul Bastide a Um engenheiro francês no Brasil. Gilberto não reduz ao social ao material. Sua obra é mais sugestão que afirmação. O rumo é a análise ecológica. O sociólogo nele é sempre concreto e eminentemente ecológico. Há a primazia dos fatores da Antropologia cultural sobre os a Antropologia somática. O que o preocupa é a situação social do negro. E Paul cita Roger Bastide. Havia o método lingüístico, de um Renato Mendonça e um Mário de Andrade. Havia método etnográfico, de um Nina Rodrigues e um Artur Ramos. Vem Gilberto e nos traz o método sociológico pluralista, abrangente. O método sociológico de Gilberto quanto ao estudo do negro na civilização brasileira ultrapassa o problema do negro para caracterizar um aspecto importante da obra gilbetiana ( Ver Roger Bastide, études afro-brésiliennes - Revue Internationale de Sociologie, fev. 1939).

Do mesmo modo que não teve o propósito de concluir, muito menos o de julgar. Fique para os pensadores atarefa de concluir [ são palavras de Freyre, no prefácio à Segunda edição de Casa-grande].

Ainda esse prefácio nos traz uma frase que me parece fundamental para a correta compreensão da metodologia de Gilberto:

Como método de interpretação do material, o Autor procurou seguir o objetivo principalmente, mas em alguns pontos o introspectivo, à maneira de certos estudos espanhóis em que sente uma como extensão da vida nacional. A concentração dos Exercícios Espirituais aplicada aos fatos mais íntimos da História até sentir-se a vida vivida por nossos antepassados no seu contorno por assim dizer sensual.

Não é admirável? E não é a pura verdade?

Curioso como um homem do tipo de Gilberto Freyre, sempre tão ocupado, solicitadíssimo para viagens, conferências, encontros, artigos, simpósios, ainda encontre em si tempo e gosto para em sucessivos prefácios (às vezes, longos) explicar e defender a própria obra. Trata-se de um grande prefaciador, não só de si mesmo, um prefácio para cada edição, mas dos outros. Ainda agora, o fino gilbertólogo que é o professor Edson Nery da Fonseca, tão dedicado à obra do mestre de Apipucos, reuniu em grosso volume os muitos prefácios escritos pela generosidade cultural de Gilberto de Mello Freyre, ao longo de mais de quarenta anos de tão intensa atividade criadora. Será livro interessantíssimo, como o em que se coligiram os prefácios que escreveu François Mauriac.

A casa-grande, embora associada particularmente ao engenho de cana, ao patriarcalismo nortista, não se deve considerar expressão exclusiva do açúcar, mas da monocultura escravocrata e latifundiária em geral: criou-a no sul o café. Assim, ele se defende de uma visão meramente regionalista. Trata-se de uma interpretação global do patriarcalismo brasileiro. "Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal". Limites de perspectiva? Localismo? Não. A verdade é que na colheita de dados o Autor não seguiu critério rigorosamente ou exclusivamente geográfico ou histórico, embora sempre fiel ao regional. Seu critério, a um tempo, genético e regional, fez que desse relevo ao açúcar. Palavras de explicação, estas, de abril de 1942, a que juntou o seguinte:

Conservando-se distante do chamado determinismo étnico, o Autor continua a inclinar-se para a interpretação cultural dos fatos da formação social.

Interpretação cultural completa pela psicológica, sem que ao determinismo de raça se substitua o de cultura.

Franz Boas foi a figura de mestre que lhe ficou até hoje maior impressão, confessa ele em prefácio. Conheceu-o nos primeiros anos de estudante em Colúmbia. Foram duas notáveis presenças no destino de Gilberto: a e Boas e a de Oliveira Lima, cuja casa Gilberto tanto freqüentou como se fosse um filho. As cartas de Oliveira Lima a Gilberto estão hoje publicadas. tive, aliás, o prazer de assistir à conferência que Gilberto leu na Academia Brasileira de Letras, nas festas do centenário de nascimento de Oliveira Lima, texto quase publicaria com outros no volume que o discípulo glorioso consagrou à memória de seu mestre pernambucano, Oliveira Lima, Doma Quixote Gordo 1968, com reedição em 1970.

Respondendo a Afonso de Taunay, insiste dizer que faz Sociologia genética, não História cronológica ou convencional. Quanto à crítica um tanto severa do erudito padre Serafim Leite, da Companhia de Jesus, deixou que o padre Alves Correia respondesse por ele, defendendo-o de sectarismo ou sistemático antijesuitismo. Limpamente, reconhece, com Nabuco, Prado, Capistrano e Oliveira Lima, a importância da obra missionária dos jesuítas.

No prefácio à terceira edição de Sobrados, volta Gilberto a explicitar seu pensamento a respeito da família:

Formou-se entre nós uma civilização em que a família sociologicamente cristocêntrica foi a unidade civilizadora. é ponto em que divergem de nós por motivos de orientação ideológicas, quer os mais destacados intérpretes marxistas da formação brasileira, Caio Prado Júnior, Astrojildo Pereira e Nelson Werneck Sodré, autores, aliás, de ensaios valiosos sobre o assunto, quer alguns historiadores-sociólogos, de tal modo empenhados, como Raimundo Faoro, em seu recente Os Donos do poder, em negar qualidades feudais das grandes família patriarcais.

é impressionante a minúcia, a meticulosidade com que examina e reexamina críticas e controvérsias em torno de uma obra complexa, que tem sido uma das mais discutidas de toda a história cultural do Brasil. Em Sobrados e mucambos, fala da técnica de utilização de anúncios:

O estudo dos anúncios de jornal, nos quais antes só se enxergava o pitoresco, parece-nos ter sido utilizado larga e sistematicamente, pela primeira vez, dentro de técnica antropossociológica, para interpretações sociológicas e antropológicas.

Na vasta introdução à Segunda edição de Sobrados e mucambos, volta aos característicos do sistema patriarcal brasileiro: patriarcal, monocultural, latifundiário, escravocrata, feudal. Dirá:

Mais o que a própria Igreja, foi a família patriarcal ou tutelar o principal elemento sociológico da unidade brasileira.

Assim, Alceu Amoroso Lima, ao escrever sobre Gilberto Freyre, no livro coletivo Gilberto Freyre, sua ciência, sua filosofia, sua arte, de 1962, com que a Livraria José Olympio Editora celebrou os 25 anos de Casa-grande & senzala, que ocorrera em dezembro de 1958, viu na obra do mestre sociólogo cinco presenças --- o franciscanismo, Portugal, a família, o regionalismo e a mestiçagem. Seriam os grandes temas da sua obra.

Leia-se A propósito de frades, de 1959, sobre a ação dos franciscanos, para compreender-se que a simpatia de Freyre vai toda para o franciscanismo, com sua primazia do poeta sobre o lógico, do intuitivo sobre o racional. O tropicalismo que é afinal a não ser a lúcida e objetiva apologia da colonização portuguesa no trópico? Trata-se de uma Lusotropicologia. Um dos livros mais importantes de Gilberto é Aventura e rotina, em que nos fala da sua experiência a respeito. Alceu reconhece muito vem que o método sociológico gilbertiano é mais dos entretons do que dos tons. Mas a afirmativa se mantém: nenhum outro povo europeu conseguiu lançar as bases de uma civilização tropical de tipo universalista, como o português. O reconhecimento do papel do português na criação de uma civilização universalista é um traço capital da sociologia interpretativa de Gilberto Freyre, na opinião de Alceu.

Gilberto é um familista decidido. A sua sociologia realista não se desdobra numa filosofia social, como que lamenta Alceu. Toda a Antropologia de Freyre, como a de Artur Ramos, a de Roquette Pinto, a de Sílvio Romero, se baseia na fusão racial como um dos elementos fundamentais de uma civilização brasileira.

E Alceu conclui que Casa-grande & senzala é um dos dez livros essenciais para a compreensão da cultura brasileira.

Abra-se Novo mundo nos trópicos:

O segredo do êxito do Brasil em erguer uma civilização humana, cristã e moderna América Tropical foi o seu gênio de acomodação.

Há um admirável anti-racismo na interpretação sociológica de nossa formação nacional, por Gilberto Freyre, como salientou Amoroso Lima.

Ouçamos a voz de Manuel Bandeira, de quem Gilberto arrancou a magnífica Evocação do Recife, de 1925:

GILBERTO FREYRE / OBRA ESCOLHIDA

Casa-Grande & Senzala,
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira.

Mas com aquele forte
Cheiro e sabor do Norte
- Dos engenhos de cana
(Massangana!)

Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs.
Com sinhôs.

A mania ariana
Do Oliveira Viana
Leva aqui a sua lambada
Bem puxada.

Se nos brasis abunda
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns
Octoruns,

Que importa? é lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
- Diz o Boas -

é coisa que passou
Com o Franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
Não está nisso.

Está em causas sociais,
De higiene e outras que tais:
Assim pensa, assim fala
Casa-Grande & Senzala.

Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado revoca
E nos toca

A alma de brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!

Não é uma delícia este poema do Mafuá do malungo? Síntese da obra gilbertiana, no seu aspectos de miscigenação.

Justíssima esta verificação de que em Freyre o espírito científico e o espírito poético se unem.

Respondendo a Ivan Lins ou a Daniel de Carvalho, no longo prefácio à Segunda de Ordem e progresso, Gilberto Freyre é sempre o escritor, o artista, o homem capaz de ironia alada, o espírito arielesco, o poeta. Tome-se Nordeste, talvez a obra-prima do ensaísta, livro de um impressionismo sedutor, impresionismo ecológico, e logo salta aos olhos o elemento propriamente poético. As relações entre a cana e a terra, a água, a mata, os animais, o homem, e a dedicatória a Cícero Dias, "o grande pintor dos canaviais do Nordeste". No prefácio à edição espanhola, Freyre se explica; convém ouvi-lo.

Escrito dentro do critério de ciência alongada em arte e mesmo em poesia, resultou Nordeste um esforço de compreensão e interpretação do Brasil como é: um drama regional de monocultura latifundiária e escravocrática, semelhante em sua formas e outros drams regionais de monocultura latifundiária e escravocrática.

Ainda:

Dado o dinamismo cultural e social do homem em face da natureza, de meio físico, do clima, não há ecologia social que possa limitar-se a ciência física ou a história natural. Daí, zonas de estudo, nas pesquisas de ecologia social ou humana, em que o ecologista se alonga - repita-se-em psicólogo e até em artista...

Nordeste mereceu o louvor de um crítico da categoria de um Roberto Alvim Corrêa:

Do livro Nordeste, copiei um dia as primeiras páginas, cuja força lírica não tem igual na prosa brasileira. E, todavia, texto minucioso, de geografia humana. Casamento espontâneo da ciência com a poesia. Texto vasto, rico, viril. E plástico, pictórico, cinematográfico. De oposições. Analítico e sintético. De participação.

Vínculos violentos entre o homem, o mar e a terra, vínculos de amor de vida.

"Um tempo vivido em diferentes ritmos, de acordo com diferentes espaços", diz Gilberto em Aventura e rotina. E é verdade Diz Roberto: "Um ensaísta mais de interrogações e problemas, revisões e investigações do que de soluções". Leio o depoimento de Octávio Tarqüínio de Sousa e me parece relevante: "Não sei de escritor eu mais domine a língua portuguesa, que mais atenha a serviço das suas idéias".

De todos os testemunhos e críticas de mestres estrangeiros em torno da obra de Gilberto, nenhum me agrada tanto como o de Roland Barthes:

Giblerto Freyre apresenta o homem histórico quase sem o desprender do seu corpo vivo, o que importa na quase realização da quadratura do círculo os historiadores, o ponto último da investigação histórica, o empenho de Michelet e de Bloch, agora atingido por alguém que possui o senso obsessional da substância, da matéria palpável, do objeto vivo. Nisto, parece ultrapassar os historiadores-sociólogos da Europa como Marc Bloch e Lucien Febvre, e na verdade excede Keyserling, podendo ser comparado apenas com Michelet. é lamentável na o ter tido ainda a França um intérprete assim dos primeiros séculos da sua formação.

Seriam volumes e volumes os artigos de crítica que saíram na Europa e nos Estados Unidos sobre Gilberto. Cito apenas mais três fragmentos, expressivos. O de Georges Gurvitch:

O do jesuíta padre André Rétif, na revista études, dos jesuítas de Paris:

Este ensaio - Maitres et esclaves, tradução francesa de Casa-grande & senzala, sobre a formação histórica do homem no Brasil é de uma penetração, de uma amplitude de erudição, de uma segurança de método que dele fazem uma grande obra. Procedendo por sucessivos retornos e círculos concêntricos, não faz história abstrata do homem abstrato, mas uma história do homem no Brasil.

O que coincide com observações de Roger Bastide, citadas por Fernando Azevedo:

Mas geralmente procede de maneira que lembra o Taine das Origens da França contemporânea, com sua acumulação de pequenos pormenores característicos, e o Proust dos longos caminhamentos, das transições sutis e dos remoinhos. Procede com efeito por acervos de pequenos fatos, análises minúsculas, quase infinitesimais, vem e revém sobre certos fatos importantes, cada vez com novas luzes a projetar, o que pôde suscitar que atinge perfeitamente desse modo o fim que se propôs - de ressuscitar dessas centenas de parágrafos, comprimidos, compactos, pesados de minúcias, uma atmosfera, um clima desaparecido, o do velho Brasil.

Negligência aparente, rigor secreto, conclui belamente Fernando Azevedo.

Leia-se o que escreveu Gilberto Freyre sobre José de Alencar, em Vida, forma e cor. Ou as considerações sobre seu modo de ser escritor, em Como e porque sou e não sou sociólogo, 1968. Leia-se Como e porque sou escritor, edição da Universidade da Paraíba, 1965. Considera-se Gilberto um ibérico na sua maneia de ser escritor.

O que principalmente sou? Creio que escritor. Escritor literário. O sociólogo, o antropólogo, o historiador, o cientista social, o possível pensador são em mim ancilares o escritor. [Para adiante esclarecer]: Sou escritor acreditando pertencer principalmente à tradição ibérica de escritor. O hispano é escritor sendo principalmente pessoa ou principalmente homem.

Que é Casa-grande & senzala a não ser uma sociologia do cotidiano em profundidade? Gilberto fundou a Sociologia do Tempo. Casa-grande é um texto autobiográfio, uma tentativa de autognose. Quais os trechos de Freyre que eu escolheria, se tivesse de fazer uma seleta? Certamente, o poema "Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados" e o pequeno poema "Em Heidelberg: pensando na morte", obra-prima, o português que se desgarrou na Etiópia, em Aventura e rotina, livro tão significativo, o capítulo "Ascensão do bacharel e d o mulato", em Sobrados e mucambos, "a cana e a água", de Nordeste, o trecho sobre a influência do escravo negro na infância do brasileiro, o estudo sobre Euclides, em Perfil de Euclides e outros perfis, o seu prefácio às Farpas: o paralelo Eça e Ramalho.

Um dos livros de Gilberto por que tenho maior xodó á a sua coletânea de ensaios Perfil de Euclides e outros perfis, livros esplêndido, que não se edita desde 1944. Reuniu ele nesse volume uma dúzia de textos, sobre Augusto dos Anjos (artigos de 1924), Dom Pedro II, Euclides, Estácio Coimbra, Oliveira Lima, Felipe d'Oliveira, Nina Rodrigues, Manuel Bandeira, Júlio Bello. Odilon Nestor, Félix Cavalcanti. E Farias Brito, através do ensaio de Sílvio Rabelo. Aqui, está o Gilberto crítico, todo sensibilidade agudíssima e simpatia. A distinção entre escritor e literato, no prefácio, é um momento relevante do livro. O trecho sobre Pedro II menino parece um capítulo da História do Menino no Brasil, que Freyre imaginou escrever, um dia.

Outro livro dele, que me impressiona pelo seu poder de síntese, é o ensaio de 1947, Interpretação do Brasil, traduzido do inglês por Olívio Montenegro. Diz-nos Olívio na sua introdução:

Um dos encantos da sua análise sociológica do Brasil - a arguta visão em que se alongam as suas observações do nosso folclore, das nossas danças de Carnaval, do nosso futebol, das artes populares. [Olívio, crítico notável, anota ainda]: O que encanta na sua linguagem é a docilidade com que as palavras parecem render-se voluptuosamente aos apelos menos discursivos e mais musicais da idéia. Por isso, nos seus livros, as idéias mais abstratas perdem todo o ar especulativo, e se humanizam, tomando a cor r o movimento da vida.

Palavras de setembro de 1946, há 30 anos.

Interpretação do Brasil são conferências lidas em 1944, a convite da Fundação Patten, na Universidade do Estado de Indiana.

Era outono. Gilberto se entrega a uma obra de síntese. São aspectos da formação social brasileira como processo de amalgamento de raças e culturas. Sempre o mesmo tema, com variações quase infinitas, desde o curso que deu em 1931, na Universidade de Stanford, Califórnia, a convite do professor Percy Alvin Martin. No capítulo sobre literatura do Brasil, avultam as observações sobre o Aleijadinho e sobre Gregório de Matos. As obras de Gilberto se completam. O eixo do livro é a miscigenação, a democracia racial, a síntese de culturas. O mesmo método de reconstrução histórica através dos valores mais íntimos da vida social. Identificação. Empatia, sim. "Poder justamente de simpatia, de união mais que intelectual, afetiva, com a vida histórica do país".

Devo concluir. Valho-me ainda da palavra nítida de Olívio Montenegro.

Não sei de obra brasileira, de pensamento e ciência, mais aguçada pelo senso estético do que a de Gilberto. E não apenas quanto à sua linguagem de uma penetrante sugestão, mas quanto ao poder de simplificar em símbolos formas largamente complexas de vida cultural-social. De unificar o múltiplo, de situar a diversidade de um tema num foco de irradiante luminosidade. Mesmo em temas de um sentido mais literário, quando Gilberto nos dá o perfil de uma qualquer figura de nossa história e de nossas letras, é fácil observar como nela se encontram e completam a visão do artista e a do sociólogo ou do psicólogo.

A edição inglesa de Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso chama-se História do Brasil. The History of Brazil. A História do Brasil, saiu em 1971. Lamento que um estudo importante como Contribuição para uma sociologia da biografia, em dois volumes, edição da Academia Internacional de Cultural Portuguesa, 1968, não tenha tido repercussão ou circulação no Brasil. Trata-se da figura admirável de Luís de Albuquerque, governador de Mato Grosso no fim do século XVIII.

Esta edição reúne os grandes livros Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos, Ordem e progresso, quando a epopéia antropológica e literária, ou o drama, se suaviza em close-ups, Nordeste, Interpretação do Brasil, Perfil de Euclides e outros perfis, Tempo morto e outros tempos, o diário da adolescência e mocidade, de 1915, a 1930, Além do apenas moderno, o ensaio de futurologia (sugestões em torno de possíveis futuros do homem em geral e do homem brasileiro em particular) e a novela a que chamou seminovela, Dona Sinhá e o filho padre, que se traduziu em Nova Iorque como Mother and son.

O tempo vivido pelo homem, diz Gilberto, é tríbio (neologismo dele), é simultaneamente passado, presente e futuro. E não separadamente. O homem é, assim, tríbio.

Contemplo nesta hora noturna, em que escrevo, numa velha casa de Santa Teresa, batida agora pela chuva, o retrato algo diluído de Gilberto Freyre, como está na página de Tempo morto e outros tempos. Não, não é retrato em Baylor, aos 19 anos, todo futuro, expectativa. Nem o dos 15 anos, ainda tão menino, em pleno Colégio Americano. é Gilberto ao voltar da Europa e dos Estados Unidos, em 1923, no limitar dos seus 23 anos já muito vividos. Olho este retrato, esta figura leve, este rosto em que o rápido sorriso irônico, vem transfigurar o silêncio. Aqui, sinto o rapaz, o ser Gilberto Freyre, à procura de si mesmo. Há uma tensão neste retrato de um moço, as mãos estão inquietas e apalpam a própria resistência e até os pés e as pernas estão como que inquietos, parece que ele vai levantar vôo, o frágil ser que, no entanto, nos contempla graciosamente em silêncio e esperança, neste ser. Nós logo nos deixamos comover por ele, frágio menino, que seria logo depois responsável pelo número comemorativo do centenário do Diário de Pernambuco, em 1925, diretor de A Província por dois anos, articulista e conferencista, do governador Estácio Coimbra. Estranho ser que recusaria tantas cátedras universitárias no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. E que sorri mais do que fala (a observação é de Gilberto Amado). Agora, o vejo na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, maio de 1959, a ler conferências a que estiveram presentes Lúcia Miguel Pereira e Octávio Tarqüínio que poucos meses depois iriam partir par o país desconhecido. E parece que no quase velho de 59 está realmente - na inquietude e na timidez, ou na fluidez --- o rapaz de olhos triste, corpo esgueirou até a tribuna, flutuando em si mesmo. Algo de aquoso, até marítimo, uma sensação de busca, de insegurança. Não, ele não se instalou neste mundo. O adolescente parece um pássaro.

Muitas vezes o vi e sempre me dá a impressão de que procura. é um ser que busca incessantemente. Ainda agora, em O brasileiro entre outros hispanos, diz o seguinte:

A compreensão plena da matéria especificamente antropológica ou sociológica pode exigir do analista social não apenas uma, mas várias compreensões formais, que o conduzam à do conteúdo. E não ;e certo do método diltheyano que exclua a investigação espitemológica dos fatores envolvidos no processo de compreensão, como o método espanhol de Vives não o excluía. O próprio Dilthey se utilizou das duas formas de investigação: a chamada metodológica e a intitulada epistemológica. O approach, ou a abordagem, metodológico supriria o epistemológico do que o professor Rckamn chama concrete content: conteúdod concreto.

Foi numa pequena pensão aqui no Rio que Gilberto Freyre começou a redigir o seu livro Casa-grande & senzala. Era o ano de 1932 e ele voltava da aventura do exílio. Aqui, foi hóspede por uns dias de Assis Chateaubriand, na casa da avenida Atlântica. Mudou-se depois para a pensão. E, estimulado por um Rodrigo Melo Franco de Andrade, começou a escrever a obra por excelência da sua vida: "Quando em 1532 se organizou civilmente a sociedade brasileira"...

Note-se o caráter épico, cervantino, de Casa-grande & senzala. Sublinhe-se a originalidade, a criatividade da sua filosofia social, com reflexos tão amplos e duradouros sobre a cultura brasileira, Originalidade proclamada, reconhecida, louvadíssima pela N.R.F., por exemplo, ou por um André Rousseau, um Lucien Febvre, um Lord Francks e pelos italianos que lhe concederam o Prêmio Madoninna. A grande editora Vintage, de Nova Iorque, ainda há pouco incluía Novo mundo nos trópicos, de mestre Freyre, entre os clássicos modernos.

Foi precisamente o caráter filosófico, humanístico, da sua obra de sociólogo, antropólogo, escritor independente e corajoso que mereceu o louvor da comissão que lhe conferiu o Prêmio Aspen. Uma obra toda ela a serviço do homem, da pessoa concreta, num espaço e num tempo, o homem como dignidade, como valor, como desafio, como presença abrangente e perene.

Rio de Janeiro, 1976.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Obra escolhida: Casa-grande & senzala, Nordeste e Novo mundo nos trópicos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977. 1090p.

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