OH DE CASA!
Introdução
O complexo "casa" está à base do supercomplexo biossocial que constitui o ser brasileiro : o Homem nacionalmente, teluricamente, expressivamente brasileiro que já tanto se distingue pelos seus modos de falar, de andar, de sorrir, de amar, de comer, de sentir, de pensar, de jogar futebol, de dançar samba ou outras danças: a velha ciranda agora renovada, por exemplo. Também pela sua maneira de morar, de residir, de estar ou de não estar em casa: outrora um ritual em que o residente respondia ao "oh de casa!" do estranho que lhe batia à porta, acolhendo-o em pessoa ou dizendo da rede em que repousava ou da mesa em que almoçava "Oh de fora!" Ao que insistia o de fora: "Oh de dentro!" Era, quando se particularizava o jogo verbal em torno da casa: voz de dentro e voz de fora da casa. "Oh de fora!" e "Oh de dentro!"
Ter casa - casa própria - é ideal de quase todo brasileiro: mesmo que seja o que às vezes por modéstia se define como um mucambinho, visita bem acolhida: "a casa é sua". Enquanto velho folclore herdado pelo brasileiro da gente portuguesa consagra:
A minha casa A
minha casinha Não há casa Como a minha"
Por extensão : o apartamento que, em edifícios coletivos, faz as vezes da casa individual. Da casa isolada. Palacete ou "casa de caboclo". Contrários: além da casa de pensão, o cortiço, um e outro retratados em romances realistas de valor sociológico por Aluísio de Azevedo. A promiscuidade contra a privacidade característica quer do palacete de residência, quer da "casa de caboclo" ("um é pouco, dois é bom, três é demais") e do próprio mucambo ("nada como meu mucambinho"). Uma privacidade em termos líricos definida através de imagens como "ninho", "toca", "refúgio". E de tal modo personalizada que houve tempo, no Brasil patriarcal, em que, ao morrer alguém da casa ou da família residente na casa, o luto fechado - preto, crepe - das pessoas estendia-se às portas de entrada e às janelas da frente da casa, também elas revestidas, durante dias, de crepe. Elas e o papel de carta em que moradores da casa se comunicavam com o exterior. A casa de luto juntamente com seus moradores vivos do morador desaparecido. Morto. A casa chorando um defunto querido : pessoa que era parte dela. Reminiscência do tempo em que, nas casas-grandes mais grandiosas do Brasil patriarcal, a casa não deixava que o defunto ou o corpo do morador querido ou amado fosse sepultado fora de suas portas ou dos seus muros. Era sepultado dentro deles: nas capelas. Entre os santos. Os mortos continuando junto dos vivos. Os avós junto dos netos. Os mortos como quase uma espécie de santos ancestrais. Inspiradores dos vivos. Orientadores dos vivos. Como que melhores que os vivos, embora nem deles nem dos verdadeiros santos adorados dentro das casas se devesse esperar poder mágico igual ao dos santos dos altares das igrejas.
Contra o valora da casa para seus moradores, pode ser citado o muito popular "santo de casa não faz milagre". Mas sem que deva ser esquecida a confiança desses moradores em chás feitos em casa para remédios no tratamento de não poucas doenças. Alguns desses chás, feitos com ervas colhidas no próprio quintal ou no próprio sítio da casa. Portanto, literalmente caseiros. E não é difícil colher testemunhos a favor desses chás, alguns deles considerados "santos remédios", superiores aos de botica ou fabricados por laboratórios médicos ou importados da Suíça ou dos Estados Unidos.
A propósito de remédio caseiro, lembre-se que durante anos esteve ligada à casa a figura do médico de família. No seu cabriolé, vinha às casas ver doentes, sendo muitas vezes compadre do morador. Uma relação íntima a que prendia o médico a família à casa do cliente. Cuidava de doentes que conhecia desde eles crianças, dava conselhos receitava remédios, alguns dos bons doutores evitando que seus clientes gastassem com remédios de botica, admitindo a eficácia dos caseiros. Além do que, quase todo menino nascia em casa. A parteira de família quase sempre era, como o médico compadre, comadre.
Também vinha às casa o cabeleireiro cortar o cabelo e fazer a barba de ioiôs mais comodistas. A professora ou o professor particular de piano. A de canto. A de francês. A de inglês. A costureira. Em dias remotos, a chamada boceteira que vendia doces em bocetas. A vendedora de renda ou bico. O vendedor de bugigangas: sabonetes, loções perfumes. O de galinhas. O de verduras. O de vassouras. O de espanhadores. O de milho verde. O de melaço. O italiano da macaca: que ao portão fazia dançar sua macaca.
Do portão, quando se ouvia o grito" O palhaço o que é? é ladrão de muié!" meninos e empregados viam passar o palhaço montado no seu burrico e às vezes dirigindo pilhérias às cozinheiras ou copeiras em pé no portão ou debruçadas às janelas:" Olha a negra no portão, tem a cara de fogão!" ou:" Olha a negra na janela, tem a cara de panela!" Racismo humorístico que às vezes irritava donas de casa mais identificadas com suas negras de estimação. Ou mais ciosas da dignidade de suas casas em face da canalhice das ruas, da qual se esmeravam em resguardar os filhos pequenos. Aos quais recomendavam; " Nada de brinquedo com moleques de rua!" Moleques só os criados em casa. Os malungos. Os crias. Gente de casa.
Note-se a quase mística da "casa própria". Ao estenderem sua coleção de ex-votos, de partes do corpo humano a coisas, animais, plantas, máquinas - quase extensões vivas desse corpo - os organizadores do Museu de Antropologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, do Recife, criaram uma significativa originalidade em museologia; os ex-votos considerados numa extensão que não vinha sendo atendida. Verificou-se então serem numerosas as promessas pagas a santos - a São Severino, a Santa Quitéria, entre outros - por terem os crentes conseguido casas-próprias. Pagamentos sob a forma de miniaturas de casas em miniaturas de massa, de barro ou de madeira. Constatação de ser muito do brasileiro rústico o desejo de ter casa própria : mesmo que seja aquele mucambo de palha reabilitado por ecologistas - desde a notável tese médica sobre o assunto, há quase meio século, do hoje mestre Aluísio Bezerra Coutinho - como casa saudavelmente ecológica, quando situado em solo seco e dotado de sanitário. Tema em que eu próprio insistiria do ponto de vista antropossociológico. Critério esse, de brasileiro, em face de uma demagógica campanha "contra o mucambo", que merecia o apoio esclarecido do sociólogo francês Padre Joseph Lebret, ao visitar o Brasil e inteirar-se do problema chamado da "casa popular". Note-se a propósito que o mesmo Instituto Nabuco vem reunindo valioso material de construção de casas de palha - ou de mucambos - na qual, significativamente não entre prego nem material sofisticado, tão primitiva é e, ao lado dele, do de antigas e características casas-grandes, sobrados, casas médias de tijolo tijolo, telha, azulejo, madeira usada com diferentes fins: forro, porta, janela, soalho. Além de dobradiças, ferrolhos, aldravas, torneiras. E também banheiros, de madeira ou de mármore. Bacias. Sanitários de louça: desde os penicos aos aparelhos de madeira. E, ainda, coisas de cozinha. Pois quem diz casa, diz cozinha. Diz comida caseira. Doce feito em casa. Licor ou quitute segundo receita tradicional de família. Remédio também caseiro. Chás : de cidreira, de pitanga, de erva-doce. Do mesmo modo que diz, em grande número de casos, oratório. Oratório de jacarandá, aristocrático, ou nicho de cedro pintado com azuis e dourados vivos, segundo interpretações populares, rústicas, porém líricas, das relações da casa com Deus, com Cristo, com a Virgem, com os santos quase mais de família ou de casa de família que de igreja como Santo Antônio, São José, São Pedro. Nomes de santos por vezes nomes de "vilas" ou de "vivendas", algumas também com nomes de mulher amada: esposa ou mãe. Vila Anunciada, por exemplo. Ou Helena. Algumas "vilas" com nomes de cidades: Vila Paris, por exemplo.
A casa do brasileiro rústico está, quase sempre, associada a um ideal monogâmico de casal que repele a presença de terceiro. Não é só antipromíscuo: a promiscuidade dos cortiços ou das chamadas "cabeças-de-porco". é monogâmico. Assim, a casa de cabloco só seria perfeita quando idilicadamente morada de um casal:
"...dois é bom
três é demais"
Só assim ela seria aquela casa ideal que do folclore português transmitiu-se ao
brasileiro:
"A minha casa, a minha casinha
Não há casa como a minha"
Ao que se junta a filosofia, sobre o assunto, desenvolvida por certo tipo machista e até contraditoriamente donjuanesco e monogâmico de brasileiro médio: "posso ter vários casos, mas casa, uma só"
E se "quem casa, quer casa" - outra expressão folclórica - é que, para esse tipo de brasileiro, casamento e casa são instituições que se completam. Sem casa não há casamento sólido: só aventura com risco de logo dissolver-se.
O que parece indicar da casa que, para o brasileiro, significa menos liberdade absoluta, que segurança, conforto, pão, terra, mesmo que devam ser considerados relativos, dada a relatividade de todos os bens ou de todos os valores apenas existencialmente humanos: excluídos os teológicos ou abstratos. Além do que, ao sentido ecológico de casa como habitação se junta inevitavelmente o de espaço em seu redor: quintal, sítio ou chácara, jardim, água, pomar, horta. Mais do que isto: bairro, subúrbio, cidade, com todos os seus complementos públicos - igreja, loja, clube, teatro, museu, piscina, rio, parque, rua, praça, praia - do que, na casa, é caracteristicamente privado ou íntimo ou familial: cadeiras de balanço, cama, rede, mesa de jantar, rádio, televisão, santuário de família, quadro artístico à parede, móvel doméstico, banheiro, sanitário de família. Quem diz casa tipicamente brasileira diz móvel tipicamente brasileiro, além de cozinha tipicamente brasileira. Diz expressão de um estilo de vida que por importar em mulher e homem, donos de casa, em grande parte do seu tempo mais sentados do que em pé ou deitados, não significa serem homem e mulher esterilmente ociosos. O ócio caseiro no Brasil, sem vir significando aquela negação de ócio que é, literalmente, negócio, vem se exprimindo em formas nada insignificantes de criatividade. A começar pela do amor conjugal. Um amor sexo, além de um amor sentimento. O ventre gerador a mulher com vocação para mãe dentro da vocação para esposa e, como esposa, dona de casa, fecundado, no silêncio das noites docemente domésticas, pelo macho procriador: vocação para pai. Isto, ao ranger, por vezes de camas de lona ou de redes de casal. Nem sempre sobre quase majestosos tálamos: camas de conduru ou de jacarandá. Camas e redes tão das casas mais tipicamente brasileiras quanto mesas de jantar, das chamadas de elástico, podendo servir tanto a cinco ou a dez, como, em dias de casamento, batizado, casamento, a vinte, trinta pessoas. Ao que se acrescente a função das redes, fáceis de armar, em dias festivos: a de acolher, para o sono ou o repouso, convidados, visitas, parentes vindos de longe.
Ao observar-se a ligação do móvel acolhedor com a casa brasileira, tipicamente acolhedora, note-se, também, que é um móvel que favorecendo a sedentariedade, nem sempre favorece apenas o repouso. Também a atividade da mulher e do próprio homem, quando em casa e de chinelos. A atividade da mulher que costura, borda, remenda. A do homem que, sem sair de casa, pode escrever, como escrevia Tobias Barreto, até espichado em esteira de periperi; ou sentado; ou reclinado em rede. Era sentada, segundo tradição válida, que Dona Ana Rosa Falcão, madrinha de Joaquim Nabuco, dirigia toda uma vasta casa patriarcal, incluindo um engenho de fogo vivo; sentada numa cadeira de braços que, atualmente em casa de Apipucos, acolheu Aldous Huxley quando, desencantado de arquitetura e de móvel modernistas de Brasília, o inglês ilustre reconciliou-se com o Brasil. E exclamou da cadeira castiça que o acolhia; "isto é que é cadeira funcional". E da casa: "isto é que é casa para o Brasil".
Ainda a propósito de cadeira tipicamente doméstica, advirta-se que o assunto é versado, com maior atenção, em livro também brasileiro: Sociologia da Medicina. Livro que, publicado em Lisboa pela Fundação Gulbenkian, adquiriu renome europeu através de tradução italiana, publicada pela Editora Rizzoli.
O espaço imediato em torno à residência - seja esta a casa individual, ou parte de um conjunto, sob a forma de apartamento dentro do edifício - completa, amplia, integra a residência num todo além de residencial. Todo que pode ser definido como super casa. Que deixa de ser privado, para ser público. Solidário. Comunitário. E que, de imediato, se prolonga em espaços mais abrangentes, até a casa de uma família, tendo por vizinhos outras famílias, ser uma casa integrada primeiro num conjunto imediato - vizinhança - de casas, lojas, igrejas, clubes, parques, ruas, praças - depois num espaço regional capaz de formar, com outros espaços regionais, um mais ou menos vasto espaço multirregional ou já caracteristicamente nacional. A casa que se caracterize - ou se faça caracterizar - como brasileira será a que, como casa, quer de estrutura erudita, quer da "folk structure" da caracterização de Frank Lloyd Wright, apresente traços psicossociais, além de culturais, comuns a esses vários espaços, embora com adaptações a específicas ecologias diversas : no Brasil, a do Nordeste, a do extremo Norte, a do Centro-Sul, a do extremo Sul, cada ecologia dessas com peculiaridades regionais e sub-regionais projetadas nos seus tipos de casa.
De todas as casas situadas em tais espaços é desejável que apresentem, por mais urbanas ou metropolitanas que sejam, relacionamentos com o que Benton Mac Kaye, no seu notável The New Exploratio: a philosophy of regional planning (Urbana, IIIinois, 1962) - tão notável que Lewis Mumford o coloca ao lado de Walden, de Henry Thoureau - considera o que há de "indígena", de "nato" ou "inato", de "sinfônico" em espaços-ambientes. Ou com o que, há anos, vem se denominando no Brasil "ecologias telúricas", numa particularização brasileira do que seja, como conceito biossocial, ecologia e que o Professor Edmonds, da Universidade de Tulane, vem incluindo entre as, para esse sociólogo, oito mais importantes teorias sócio-ecológicas dos nossos dias. No que, tendo talvez se exagerado, não deixou de acertar, reconhecendo a importância do telúrico - Mac Kaye, com o apoio do insigne Lewis Mumford, chamaria "indígena" ou "inato" ou "sinfônico" - em caracterizações sócio-ecológicas de espaços por onde se estenda a ocupação humana: inclusive sob a forma de casa. Isto : sobretudo a ocupação de espaços por casas de residência. Por habitações. Pelo que em inglês se chama "shelter": teto, calor, luz, saneamento, água, flor, planta, animal, a serviço da casa-abrigo e como tal, ao mesmo tempo que relativamente autônoma - na sua privaticidade - interdependente na sua solidariedade com o complexo em que se integra. De onde serem cada dia mais indispensáveis planejamentos regionais através dos quais seja contida o que os Mumford e os Mac Kaye, segúindo Henry L. Mencken, consideram a "invasão metropolitana" de espaços. Espaços a ser resguardados como não-metropolitanos: quer sejam as suas ecologias definidas como "indígenas" ou "inatas", quer como "telúricas". O necessário equilíbrio entre um absorvente imperialismo urbano e um indigenismo ou telurismo espacial seria - ou é - tarefa para uma engenharia física que se fizesse - ou se faça - completar tanto por outra, humana, como por uma terceira, social.
A defesa do
verde contra o exclusivo domínio do cinzento, dado que ao homem - à casa que o complete - é preciso não faltar o cantacto com a natureza que, paradoxalmente, o humanize. Isto sem se desconhecer a vantagem daquelas modernizações, ou mecanizações, da casa - da cozinha, de banho, da iluminação, da aeração, da refrigeração - destacada por Giedion, em livro também clássico - Mechanization takes Command (N.Y.1948) - que se junta ao se Space, Time and Architecture (1941). Abordagens de assuntos de ocupação pelo homem de espaços - para habitação, para trabalho, par lazer, para recreação, para meditação - nas quais é evidente que o autor concordaria com a tese, proposta por brasileiro: a de ser necessário, no trato de matéria assim complexa, que se unam as três Engenharias: a Física, a Humana, a Social. Engenharias que, só unidas, poderão desempenhar suas tarefas, tanto científicas - ou tecnológicas - como humanísticas - e como tal ligadas àquele "pursuit of a higher estate in human development" a que não falte "spiritual form", da concepção Mac Kaye - Mumford de um progresso respeitador de valores aparentemente antiprogressistas: a defesa de águas, de matas, de solos, ainda agrestes, por exemplo. Aos quais pode ser acrescentado aquele resguardo de tradições, de experiências além de históricas, ecológicas, sob o aspecto de tradições válidas. Resguardo no qual vêm há anos insistindo brasileiros - desde José Bonifácio: exemplo magnífico de engenheiro ao mesmo tempo físico, humano e social - preocupados com o futuro de suas regiões e do seu país. Outro exemplo se recorde : o de Alberto Torres. Ainda outros: o de Euclydes da Cunha e o do seu mestre Teodoro Sampaio: um e outro engenheiros físicos desdobrados em engenheiros humanos e em engenheiros sociais com relação ao Brasil. Engenheiros tríbios, dado que essas engenharias sendo três constituem, pelo que é vital nas suas inter—relações, uma. E desta uma, pode-se dizer que é essencial e existencialmente ecológica, considerando-se a perspectiva ecológica uma ampliação daquela primeira relação biossocial do homem com o espaço que é o abrigo, a residência, a habitação: obra de engenharia física que, como tal, por mais primitiva, ou por mais tosca, de início, tende a torna-se, além de humana, social.
Como lucidamente sintetizada da casa - em prefácio ao livro de um seu conterrâneo, Contribuição para uma sociologia da biografia, aparecido em Lisboa e 1968 e até hoje quase desconhecido no Brasil - a Professora Maria do Carmo Tavares de Miranda, talvez, atualmente, ao lado do também Professor Miguel Reale, uma das duas mais altas expressões de saber autenticamente filosófico no nosso País, o complexo casa "é um lugar a partir do qual a existência se configura e se expande" podendo ser estudada (1) como habitação (2) como ponto de partida e referência das descendências..." Portanto, como uma presença tanto no espaço como no tempo e essa presença - acrescente-se - sempre biossocial. Mais, segundo este critério filosófico do que seja casa:... é todo um mundo de ethos, das
disposições fundamentais e experiências habituais que daí decorrem, e as influências culturais de heranças familiais e de meio, com vários espaços e várias datas". Daí a importância do estudo antropólogico da casa para - sendo a casa, a brasileira - que se tome "consciência da nossa originalidade ou seja, a nossa identidade, o nosso existir, exigência de uma análise do que somos e temos sido" e "também reflexão do que nos tornamos e estamos a ser". Análise e compreensão através do estudo do homem - no caso, o brasileiro - considerado na sua "existência concreta" e "para isto ciência, memória, intuição, poesia" a confluírem nessa busca de compreensão de um tipo de homem, através da sua casa e do desdobramento da casa em experiência num espaço maior. Experiência a ser captada em imagens, formas e - não esquecer-se nunca - símbolos, dado que - acentua a admirável mestra - só pela "linguagem simbólica" se chega a compreender o "mais que social, íntimo", no comportamento de uma gente e nas suas relações - acrescente-se - com um com um tipo expressamente seu de casa. Isto através de um passado projetado sobre um futuro, atravessando um presente, por um processo que "se configura em formas dialéticas..." Dialética de oposições e implicações entre contrariedades. Também "as convivências e as interpenetrações". Relações - considerada a formação mais que social, íntima, do brasileiro - características tanto do complexo casa-grande-senzala como no seu prolongamento sobrado-mucambo ou sobrado-rua ou sobrado e espaços fora de casa numa ainda maior extensão que a rua no seu sentido símbólico: mais que literal. Daí insistir a Professora Maria do Carmo Tavares de Miranda, com um saber de doutora da Sorbonne a que não vem faltando a imersão profunda da letrada no existir brasileiro, em destacar o que há de dialético na apresentação e no trato do complexo "casa brasileira" - inclusive a casa de caboclo, o mucambo a casa de porta-e-janelas - pelo colega de que prefaciou o referido livro: continuação de uma obra esse livro tendo por ponto de partida a casa patriarcal, completada pela senzala. Obra, que vem sendo, toda ela, análise e tentativa de "experiências vividas, concretamente carregadas de conflitos: dos homens com eles mesmos e pelas novas situações da terra e de homens, senhores e escravos". Isto sem que dos conflitos não tenham emergido acomodações no sentido sociológico de acomodação. Síntese. Acomodação e síntese em grande parte favorecida pela dinâmica da miscigenação, na qual é impossível deixar-se de reconhecer que vem sendo, no Brasil, um corretivo ou uma atenuante de excessos daquela "luta de classes ", consagrada como centro absoluto de marxismo menos por Marx - que era demasiadamente pensador e até parente de cientista par se expressar sobre coisas sociais em termos de todo absolutos - que por marxistas desvairados no seu sectarismo doutrinário, para eles substituto de fés teológicas com inteiro direito de ser absolutas, como processo radical na sua atuação sobre sociedades humanas. Uma dinâmica única e não uma dinâmica entre várias em torno dos conflitos sociais magistralmente estudados por Simmel. Estudos o desse pensador social alemão agora em fase de ressurgência, aos quais vem dando tanto relevo o Professor Hermann Strasser, do Instituto de Estudos (Sociais) Avançados de Viena e autor de livro - The Normative Structure of Sociology. Conservative and Emancipatory Thermes in Social Thoughtt - do qual tanto desejou que fosse o autor de Além do Apenas Moderno o prefaciador da edição em língua portuguesa. Desejo a que se contrapôs o editor brasileiro, talvez sinceramente convencido de ser o prefaciador escolhido pelo mestre de Viena "reacionário" do tipo em torno do qual quanto mais silêncio se faça em torno dele, melhor; silêncio deles, submarxistas, tanto quanto de beletristas também absolutos naquelas falsas histórias da literatura brasileira das quais se vem alimentando quem, por mais expressivamente que escreva, não for novelista ou poeta em termos convencionalmente beletrísticos. Ou silêncio ou a acusação de ser, em vez do antecipado em sugestões de caráter social, que alguns pretendem enxergar em seus escritos ou nos seus arrojos inacadêmicos, desde adolescente, de expressão literária em língua portuguesa, um superado em quanto vem escrevendo em torno de relações inter-humanas ou inter-raciais ou interculturais. Inclusive quanto à importância de um tipo regional ou nacional de casa como expressão ecológica de um processo de formação, além de pre-nacional, nacional, de uma sociedade.
A casa como mais que abrigo físico. Como mais que sentimentalmente ninho. Como caracteriza por um conjunto do objetos transobjetos que sendo universais são, por algumas de suas conotações, transobjetos marcados por uma mística brasileira que faz deles uns como brasileirismos ligados ao complexo casa como mais que apenas moradia como vivência ou como cotidiano expressivo de todo um modo brasileiro de homem, mulher, criança serem do seu país e de sua região. Entre esses transobjetos, assim sugestivos, o quase místico chinelo de andar-se em casa, o também quase místico relógio de parede que, segundo não poucas tradições aliás familiais, parava, em certos casos, no momento exato de morte de dono de casa, o cromo com a folhinha que seria outro marcador de tempo fora-de-casa, o cachorro, o gato, o papagaio, o passarinho, também, em vários casos, tão peculiarmente particulares e diferentes de outros animais, por característicos adquiridos na convivência com certas casas. O que parece vir sucedendendo com pianos, sofás, cadeiras, álbuns de retratos, por longo tempo de certas casas e de suas famílias; e quase sem sentido noutras casas. Ou quando passam a ser coisas de antiquários. Coisas que por passarem a ser de antiquários não deixam de guardar, como frascos de perfumes vazios, as fontes de velhos odores. O que é certo até de gamelas de banho, de bacias de louça de lavar o rosto, de panelas, de pilões, de espanadores, de aparadores, de guarda-comidas, de alquidares que, por muito tempo, foram de casas: se identicaram com casas.
Como há atualmente uma engenharia de alimentos muito ligada à economia da casa, há uma engenharia da própria casa com uma parafernália constituída por toda uma multidão de objetos úteis à vida da casa quando casa viva; e arqueologicamente valiosa para a compreensão da casa quando casa morta: a casa que simbolicamente pode ser denominada a casa do avô. A casa do avô evocada por Carlos Lacerda em livro que lhe assegura lugar de honra na melhor literatura brasileira. A casa de poema célebre de Manuel Bandeira de evocação do Recife. Casa de avô de que tanto se pode ter saudade do piano junto ao qual se recitava Casimiro de Abreu ao som da Dalila, como do tacho em que se fazia canjica, ou a panela, ou o pilão, ou o quarto para depósito de bugigangas, tão misterioso para os meninos, que no Recife se chamava antigamente pichelinga: palavra de origem holandesa que significa barco insignificante em comparação com os principais.
A casa como um todo pede sua biografia, exige sua sociologia, é tema antropológico, inspiração literária ou artística depois de ter dado motivo a uma "economia doméstica". Além do que é inseparável daquele complexo psicossociocultural que, para ser estudado, analisado, compreendido como expressão do ânimo construtivo do Homem tem que ser definido como concepção, plano, execução repita-se de engenharia. De Engenharia Física, decerto: lida com pedra, tijolo, madeira, telha, ferro que reunidos resultem numa construção - arquitetura - destinada a abrigo humano. Mas obra também a que é preciso que concorra uma Engenharia Humana, que cuide das relações entre formas de corpo e de característicos, como pessoa, do futuro morador de uma casa em construção e de Engenharia Social, que situe essa casa particular, privada, familial, no contexto socio-ecológico, sócio-econômico, sócio-cultural com que terá que relacionar-se ou conviver. é a casa da definição "máquina onde morar-se" considerada como uma mais-que-máquina não só onde viver-se mas de onde conviver-se. De onde ser de todo adequado considerar-se a casa - como parte básica, que é material e transmaterial - não só de vivências e convivências humanas - depende dessas três Engenharias, hoje bem definidas em termos antropossociais ou sócio-ecológicos. E que, entretanto, em potencial sempre terão existido - ainda indefinidas em suas construções de abrigos desde quando esses abrigos deixaram de ser cavernas naturais para serem, de modos os mais toscos construções. E essas construções, em relação com formas de corpo humano e com relações de moradores com o exterior. Em termos modernos, tanto intuitivos como racionais, as três Engenharias tendem a estar presentes, solidariamente presentes, em todas as construções que caracterizem civilizações desenvolvidas. Sem elas, assim solidárias, não se concebem desenvolvimentos ecológica e socialmente integrativos nessas civilizações. Desenvolvimentos que envolvam inter-relações, dentro desses cada dia mais complexos desenvolvimentos. Inter-relações entre suas partes que são as mais diversas e algumas variáveis de civilização para civilização. De nenhuma dessas civilizações, porém, está ausente a construção destinada a abrigo humano. A casa. A moradia. A residência: desde a que abrigue um só indivíduo à diversamente coletiva. Todas envolvendo problemas físicos, problemas de relações de pessoas com coisas, problemas de relações de casas com ambientes, comunidades, espaços: problemas sócio-ecológicos e sociais.
Não devem ser esquecidas as casas mal-assombradas. Os fantasmas, a tradição diz se agarrarem a certas casas, por vezes afugentando delas gente até letrada. Ou ciosa de sua ciência.
Contra tais assombros e tais fantasmas, nem sempre têm tido efeito as plantas que guardam as casas de mau olhado. Nem tampouco exorcismos de padres. Nem passes de espíritas. Casa brasileira que ganhe fama de mal-assombrada é casa, para sempre, para uns, prejudicada, para outros, poetizada por esse agouro.
Vários, aliás, os agouros que o folclore liga à casa brasileira. Entre eles, o da coruja que pouse, piando, no beiral do telhado. O do gato preto que dê para rondara a casa. O do besouro mangangá que voe em volta da luz do lampião ou do candieiro. O de plantas de jardim que em vez de profiláticas atraiam doenças ou má sorte para os moradores. Ou arrombadores ou ladrões contra os quais outrora guardavam-se papéis com palavras consideradas santas. Santas ou mágicas.
Dois costumes muito ligados à casa do brasileiro médio - nem a patriarcal casa-grande quase desaparecida, nem o hoje raro palacete ou solar, por um lado, nem a palhoça ou o casebre, por outro - devem ser considerados como traços do complexo brasileiro da casa: a outrora freqüente mudança de casa, por vários motivos, entre os quais o econômico, relativo ao aluguel, um e o higiênico, relativo ao local de residência, considerado pelo médico da família, insalubre, outro, conseqüência dessas mudanças e de viagens dos moradores, o leilão de coisas de casa - móveis, porcenas, pratas, utensílios, objetos de arte - quer por motivo também econômico envolvendo a decadência de uma família e a sua incapacidade de conservar tais valores, quer o desejo de substituição de valores tradicionais, considerados antiquados ou arcaicos, por valores novos, adventícios, estrangeiros, em voga. Os anúncios em jornais brasileiros do século XIX - da Segunda metade - e dos começos do século XX, documentam o que foi, nessa época, a voga de leilões, quase todos, pelos motivos aqui assinalados. E muitos deles, sociologicamente expressivos: quer como idealização de valores, por parte de todo um grupo ou de todo um tempo social, quer como expressão de situação econômica e de perda de status sócio-cultural de residentes de casas, dentro de tal grupo ou de tal tempo social. Relacionamentos que se estendem a atitudes no tocante quer à residência em casas de uma só família, quer, de diferentes modos, coletivas: hotéis, edifícios de apartamento, pensões, casas de saúde, cortiços. Opções nem sempre opções: várias residências involuntárias. Indesejadas. Sob a pressão de circunstâncias. Pois talvez seja predominante, entre brasileiros, o sentimento "a minha casa, a minha casinha, não há casa como a minha", embora tendo-se que admitir que a residência em edifício de apartamento não exclui de todo essa opção. Opção que já, em parte, vem sendo atendida pela mais moderna engenharia ou arquitetura de casa.
Ainda outro traço sociológico - no caso, além de sociológico, socio-ecológico, interessado de modo particular a casa situada em espaço tropical - dentre os vários que formam o complexo total "casa" : sua relação com o diurno e o noturno na vida do morador. Em que circunstâncias a luz artificial é a preferível quer ao bem-estar do morador de uma casa, quer à formação, à educação, ao aprendizado de artes do seu filho ainda menor, ou dele próprio, como membros de comunidades às quais precisem de adaptar-se? Pois não seja esquecido nunca o fato de que o complexo "casa" se associa, mesmo quando considerado nos seus limites, complexo social amplo, a um complexo social ainda maior: mais abrangente. Social, econômica, culturalmente mais importante. Esse muito maior complexo social total é a comunidade de que cada casa é parte: a própria casa isolada sendo afetada, de modo por vezes indireto, por esse complexo maior. Sendo afetada por ele e, por sua vez, direta ou indiretamente, o afetando. Não se admite hoje, do Robinson Crusoe romanceado por Defoe, ter sido um indivíduo, na sua choça de ilhéu solitário, de todo independente, antes do contacto com Sexta-feira, dos demais indivíduos e criador - ou engenheiro - de uma cultura individual. Essa cultura, ele a desenvolveu engenhosa e engenheiramente à base de um memória cultural coletiva, e as originalidades por ele desenvolvidas, desenvolveu-as à base de sua imaginação sócio-cultural, embora no vácuo. Um vácuo que rigorosamente não existe para moradores de casas isoladas em ermos que sejam indivíduos portadores de memórias coletivas.
Compreende-se que a casa seja tradicionalmente, no Ocidente, considerada "lume". Ou fogo. O lume doméstico. A luz que alumia a casa durante a noite. O fogo. O fogo em que o morador cozinha a comida ou ao pé do qual se aquece quando faz frio fora e dentro das casas.
Quais as relações de um morador ou residente de casa com a noite que contrastem com as suas relações com o dia? De suas relações de morador de casa particular com a eletricidade que lhe dê luz artificial, refrigeração, aeração? São problemas a ser considerados pelo engenheiro total - físico, humano, social - quer na construção de uma casa, quer quanto ao relacionamento dessa casa ou o morador seja, ou se torne, parte e parte vital. E não excrescência.
Problemas de relação social, humana, física da casa com a natureza e com a comunidade envolvendo aeração, ventilação, refrigeração, iluminação.
Quando se sugere que se sistematizem numa ciência que se denomine Tropicologia os estudos atuais, dispersos e até desajustados, sobre assuntos tropicais, é pensando-se em problemas de Engenharia Social, de Engenharia Humana e de Engenharia Física que, como problemas ecológicos, só poderão ser convenientemente resolvidos, para um sociedade ou população situada no trópico, dentro da ecologia que os condiciona. Por exemplo: a ecologia tropical deve ser considerada pelos engenheiros que pensam no que possa ser o papel da casa na valorização econômica e na valorização social de uma comunidade através de casas e de seus moradores. Por que essa relação que de física passe a humana e social? Porque tem se verificado que o brilho do sol tropical, o calor, a transpiração abundante, os insetos numerosos, tornam extremamente difíceis esforços mais delicados a moradores de espaços tropicais. Casas ou edifícios escolares em países quentes, nesses espaços, precisam de resguardar os moradores de tais inconvenientes. O aproveitamento, neste particular, do estudo ou da leitura ou do aprendizado de uma arte mais delicada, tem-se verificado, em pesquisas de "Engenharia Humana" realizadas em países quentes, que é maior durante a noite ou muito cedo - com luz artificial - do que durante o dia claro.
Sendo assim, deve-se considerar este ser nada insignificante aspecto, identificado por pesquisadores especializados na chamada "Engenharia Humana": a conveniência de se adaptarem certas atividades humanas, domésticas ou caseiras, nos trópicos ao noturno tropical. é um aspecto que vinha já sendo inteligentemente considerado pelos ingleses, em alguns dos seus planos de valorização de áreas e populações tropicais, através de várias engenharias ecológicas, anteriores ao atual movimento de independência política dessas populações.
Os governos do Egito e de Uganda vêm se empenhando em obras que prometem desenvolver-se na maior estação hidroelétrica da África e que, justamente por deverem não só beneficiar o trabalho mecânico em fábricas de tecidos de algodão, de açúcar e de fosfatos, como facilitar a refrigeração elétrica de residências ou casas de residência, beneficiando assim, as populações de espaços tropicais, através do que há de ecologicamente condicionado no processo do aprendizado não só de costura, de bordado, de culinária, como de leitura e de escrita no interior de casas. Daí a importância ecológica quer da refrigeração, quer da luz elétrica fácil, barata e abundante. Que eu saiba, é um problema - esse de "Engenharia Humana" e de ecologia tropical, em que o próprio desenvolvimento da alfabetização aparece condicionado pela abundância de luz elétrica nas casas de residência tanto quanto nas escolas - inteiramente ignorado no Brasil. E que, entretanto, é de particular interesse para a autocolonização da Amazônia e de outros espaços que, com suas crescentes populações, vão necessitar de abundância de eletricidade a serviço de casas particulares e de outros edifícios quase outras tantas casas por vezes entre particulares e públicas: escolas e hospitais, por exemplo.
Não se pode falar nem de Engenharia Física - a que constrói edifícios, inclusive casas de residência, pontes, levanta aquedutos, abre canais - nem da Social - a que procura inter-relações entre grupos sociais - sem considerar-se a Humana. A casa é o que é: criação de Engenharia Física ao mesmo tempo que de Engenharia Humana e de Engenharia Social.
A Engenharia Humana insiste em salientar que o tipo médio humano é uma ficção: o que os antropólogos físicos revelam é uma variedade de tipos médios humanos. Há predominâncias regionais de tipo humano médios que não devem ser esquecidas pelo engenheiro humano, quer se trate de construir escadas em edifícios de vários andares, quer de adaptar equipamentos e condições de trabalho a mãos, pés, troncos, braços, de seres humanos. As próprias nádegas constituem um aspecto importante dessa variedade de atributos físicos característicos de diferentes tipos médios de homem, e das suas relações com cadeiras, sofás, bancos de acordo com predominâncias de forma e de volume dessas partes do corpo em grupos humanos ou sociais.
Os cálculos de espaço ou de situação, quer vertical, quer horizontal, de trabalho, em edifícios, também precisam de considerar quais as predominâncias regionais de um tipo médio de homem de modo algum universal, desde que as relações entre tais espaços e esses tipos médios, os modernos engenheiros humanos consideram-nas interdependentes. Daí a importância para os modernos engenheiros humanos, dos dados antropométricos sobre populações regionais que lhes permitam calcular o alcance de movimentos de corpo em situações de trabalho industrial. E daí a importância para as nações industrializadas ou a se industrializarem, de especialistas em Engenharia Humana que orientem suas indústrias especializadas em produtos adaptáveis a formas de corpo de homens regionalmente diversas. De homens, de mulheres, de crianças.
Até que ponto, no Brasil, a construção de veículos, anunciados nos reclames de revistas como adaptados a condições brasileiras, vem atendendo a sugestões ou instruções de engenheiros dos chamados humanos? Ou será que semelhante adaptação se refere apenas à adaptação de dispositivos de motores e de formas de veículos de origem européia ou anglo-americana às más condições de muitas das ruas e das estradas brasileiras?
É possível que sim: que a adaptação venha sendo apenas a física, das máquinas, a condições apenas físicas de espaço, esquecido o homem, não só psíquico-social como puramente físico: além do motorista, o ocupante de assentos em veículos. Salientando os anúncios de vários dos veículos fabricados no Brasil: que são carros de suspensão por meio de barras de torção e por conseguinte praticamente inquebrável; que passam facilmente por onde outros atolam ou derrapam. Mas as adaptações a homens - as suas formas de corpo - ao lado das adaptações a solos brasileiramente tropicais :massapês, por exemplo?
O homem é entre nós o grande esquecido pelos progressistas e pelos modernistas : quer quando levantam Brasílias, quer quando constroem caminhões e jipes que os anúncios dizem ser adaptados aos Brasis mais rústicos. Ao Brasis, talvez o sejam; aos brasileiros é possível que ainda não o sejam, resultando daí deformações de corpo, sofrimentos físicos e até nervosismos perfeitamente evitáveis. Resultam de desajustamentos entre máquinas e o homem; entre assentos de trabalho e de viagem e o homem; entre escadas de edifícios - sobretudo entre sacadas chamadas de serviço em casas e edifícios - e o homem. O homem que possa ser considerado, no Brasil, não uma abstração mas um ser existencialmente situado; e que, sendo como é, de fato um pan-brasileiro no seu modo de sentir-se nacional, varia regionalmente não só em pigmentação - quase toda, aliás, brasileiramente morena em vários graus, constituindo já o que se pode denominar uma metarraça ou uma além-raça - como em estatura, formas de corpo, tamanho de mãos e pés. Variações de predominâncias regionais que não podem deixar de interessar às indústrias que se destinem, no Brasil, a populações marcadas por tais diferenças. Nem, tampouco, aos vários tipos regionais de casa.
A Engenharia Social lida principalmente com estruturas - mais do que com funções - e preocupa-se mais com a criação de novas formas e de novos estilos de convivência social do que com a adaptação do comportamento de um grupo social a normas pré-fabricadas de convivência. Nas palavras do sociólogo Fairchild, "as in the case of all forms of engineering,every social engineering project starts with a problem". O caso das Obras do Vale do Tennessee. E completando sua definição : "Social Engineering differs from other branches of engineering in that the materials with which it deals are human rather than inanimate and the forces which it utilizes are social forces"
Para os organizadores do sob vários aspectos prestimoso Dicionário de Sociologia, publicado pela Editora Globo, de Porto Alegre, a "Engenharia Social" outra coisa não é senão "Ação Social." Terão razão? Será a Engenharia Social apenas "um esforço organizado para modificar as instituições econômicas e sociais", como pretende o Professor Roger M. Baldwin, diferenciando-a, por esse esforço, do "Serviço Social", cujo campo de competência não abrangeria, "de modo característico, a realização de mudanças essenciais nas estruturas sociais?" Ou temos que considerar, como característico essencial, da Engenharia Social, aquela aplicação de princípios sociológicos a esforços de objetivos especificamente sociais a que se refere Fairchild que, de ordinário, ninguém associa à simples e difusa "Ação Social"? Sou dos que se recusam a identificar Engenharia Social com Ação Social; e insistem no significado específico da expressão, distinguido Engenharia Social não só de Ação Social, Reforma Social, Serviço Social, como, também, da Engenharia Humana.
Que é - insista-se neste ponto - "Engenharia Humana"? Define-a o Professor Ernest J. McCormick no seu Human Engineering , aparecido em 1957, mas desde logo um clássico na matéria, como "adaptação ao uso humano de espaço, equipamento e ambiente de trabalho". Alguns preferem a expressão "Engenharia Humana" a palavra "biomecânica"; outros, a palavra "ergonomia", ainda outros, a expressão "Engenharia Psicológica". A discrepância é significativa: indica que se trata de uma especialidade complexa. Interessa ao engenheiro físico. Interessa ao arquiteto. Interessa ao administrador. Mas interessa também ao antropólogo, ao médico, ao fisiólogo, ao psicólogo. Todos esses, segundo o Professor McCormick, vêm contribuindo para o desenvolvimento da nova especialidade através de conhecimentos diversos do ser humano e através de métodos diferentes de pesquisa em torno do assunto. Assunto que inclui a relação da casa com o homem regionalmente diverso na sua antropologia.
Trata-se de saber como as atividades motoras do ser humano e a sua visão e a sua audição se relacionam com o trabalho que cada um realiza dentro de um grupo social em diferentes situações ligadas a diferentes ocupações, as quais, inter-relacionadas, constituem um conjunto de atividades ao mesmo tempo individuais e sociais, susceptíveis de se desenvolverem num ritmo de eficiência mais ou menos vantajoso ao grupo total. Daí a importância de bancos ou cadeias de trabalho - por exemplo - que correspondam às formas de um corpo, não de um homem abstrato, mas, quanto possível, de um homem regionalmente diferenciado, condicionado por um conjunto de predominâncias de ordem étnica e de caráter constitucional, características de uma população regional. Não só o trabalho, através de ajustamentos dessa espécie, se torna mais eficiente. O bem-estar do homem aumenta em conseqüência de uma Engenharia Humana a serviço não só de indústrias, fábricas, usinas, que constituam um conjunto tecnológico de importância econômica e dependem das condições de trabalho dos seus técnicos e operários, como a serviço do próprio homem: do seu bem-estar físico e psíquico, social, ou sócio-econômico e cultural. A serviço do homem situado em sua casa.
Os objetivos da Engenharia Humana não são novos - reconhecem os modernos campeões dessa nova espécie de engenharia. E o mesmo pode dizer-se dos objetivos da Engenharia Social. São duas sistematizações modernas: moderníssimas até. Mas duas sistematizações modernas de conhecimento acerca de seres humanos e de grupos sociais, considerados em suas múltiplas relações de trabalho e de vida, uns com os outros e todos com o ambiente físico e com condições ecológicas sociais de vivência e de convivência, a que não têm faltado precursores.
Da Engenharia Física sabemos que vem sendo equivalente de mecanização. Há quem pense que o ritmo de mecanização do trabalho humano planejado, orientado - por vezes dirigido - pelo engenheiro físico se intensificou no período entre as duas grandes guerras: 1913 - 1939. é a opinião do Professor S. Giedeon num livro que se tornou famoso e ao qual não pode conservar-se alheio nenhum engenheiro ou sociólogo moderno. Nenhum arquiteto.
Para Giedeon,
foi nesse período - entre duas Grandes Guerras e em parte como
repercussão de avanços por experiências militares em certas
importantes áreas de conhecimento - que a mecanização
da cozinha se acentuou, embora a indústria de enlatamento mecânico
- obra de Engenharia Física - de alimentos viesse se desenvolvendo
desde o começo do século XX. Foi também o período da
substituição, em grande parte, do teatro convencional pelo
processo ótico-psíquico - obra da Engenharia Física
- de reprodução de imagens popularizado pelo cinema; o
período de mais intensa mecanização da música; o
período de mais intensa mecanização do transporte; o
período das primeiras intervenções de uma mais decisiva
ciência aplicada não só na substância do
orgânico como do inorgânico, com as primeiras
explorações da estrutura do átomo. Por conseguinte, o
início de uma penetração de concepção de
concepções apenas modernas por perspectivas
pós-modernas.
Foi nesse período que se acentuaram com um maior desenvolvimento da produção em massa, tendências à estandardização: um característico de concepções modernas de vida. Provocaram tais tendências reações maiores que as pernas românticas, de épocas anteriores, da parte de energias regionais decididas a apor a valores arbitrariamente universais, valores criadoramente regionais e potentemente tradicionais. Seriam estes à base de modernas conciliações entre imposições como que imperiais de uma mecanização irradiada dos grandes centros de produção capitalista e mecanizações adaptadas a condições regionais de vida, de clima e de convivência. Diferentes, portanto, das dominantes nas áreas de produção capitalista.
Compreende-se, assim, que os indianos europeizados, por exemplo, tenham passado a fabricar com material inglês de mecanização e servindo-se de equipamento de origem inglesa adaptado por eles - por seus engenheiros físicos completados pelos humanos e sociais - a novas funções, tecidos para trajos de homem e de mulher modelados na tradição oriental e opostos à arquitetura, com relação ao uso de material nativo de construção - inclusive de casas - com relação ao calçado, com relação ao móvel, com relação a técnicas de construção de estradas e a técnicas de urbanização ou de modernização de cidades. Começou-se a verificar aquilo que se vem considerando a aliança regional - da sua substância - com a forma mecanizada moderna, criando-se para o engenheiro, e não apenas para o artista, nas áreas de reação regional à estandardização mecânica, maiores responsabilidades que as de um passivo executor de ordens, receitas ou medidas recebidas do estrangeiro.
Datam daí alianças nem sempre ostensivas, de ordinário até inconscientes, entre engenheiros e antropólogos, entre arquitetos e sociólogos, entre pensadores e cientistas, entre cientistas e artistas, entre poetas e homens dos chamados práticos. Por quê? Porque engenheiros, construtores, industriais começaram a aperceber-se de que a engenharia para bem desempenhar suas funções precisava de corresponder a necessidades especificamente regionais - condições de clima, predominâncias de tipos antropológicos, predominâncias de heranças culturais já integradas em meios físicos - ao mesmo tempo que exprimir-se em linguagem, ou através de formas, em grande parte universais. Inclusive com relação à casa. é uma conciliação, a do regional com o universal, que interessando o artista, o poeta, o antropólogo, o sociólogo, o filósofo, interessa também ao cientista, o engenheiro, o urbanista, o arquiteto, o industrial, o administrador, o político. Todo o processo de integração de atividades modernas, umas nas outras, é um processo de integração de atividades regionais em atividades universais, com as universais não podendo desprezar as regionais. Nem as modernas podendo desprezar as arcaicas - os arquétipos - por um lado, ou as pós-modernas, por outro lado.
Note-se que aqui se coloca a ênfase na síntese universal-regional. Mas sem qualquer desprezo pela universal-nacional. Se o conceito nacional de vida é sociologicamente não só recente como dependente do regional, por um lado, e do transnacional ou do supranacional, por outro lado, não deixa de ser de importância máxima. Vivemos há já algum tempo num mundo dividido em nações e equilibrado internacionalmente.
Uma obra autenticamente brasileira de arquitetura - qualquer das deixadas por Henrique Mindlin, por exemplo - ou de engenharia hidráulica - a instalação, segundo informação idônea, não de todo ortodoxa, na sua técnica de Engenharia Física, de Paulo Afonso, antes modificada notavelmente por brasileirismos desenvolvidos pelo engenheiro Marcondes Ferraz, outro exemplo - não se opõe a quanto existe de universalmente consagrado em arquitetura monumental e em engenharia hidráulica pelo que, em qualquer delas, seja, ou tenha sido, deliberadamente nacional, no sentido político ou mesmo cultural de nacional, mas pelo que nelas é criação brasileira, de arte, ou afirmação brasileira, de técnica, em correspondência com condições especificamente regionais - ou ecológicas ou telúricas - de vida, de meio, de cultura, em divergência com o geralmente aceito ou seguido, noutras áreas, ou noutras regiões, para obras do mesmo gênero e do mesmo porte.
Compreende-se que acentuando-se a tendência no sentido da valorização do ecologicamente regional, dentro da combinação regional-universal, diminua a tendência no sentido da uniformização de obras de engenharia e de criações de arte - inclusive de tipos de casa ou de residência - segundo modelos vindos, como modelos sagrados e perfeitos, de áreas imperialmente culturais para as colonialmente culturais. Compreende-se que a tendência no sentido daquela valorização se contraponha à própria tendência para o produto fabricado especialmente para resistir ao tempo e às violências dos processos de exportação - a exportação de produtos das áreas imperialmente culturais para as áreas colonialmente culturais - seja considerado, por essas suas qualidades de resistência, produto ideal, desprezando-se os menos resistentes produtos regionais, superiores aos mais resistentes noutras qualidades de ordem artística ou noutras virtudes de ordem técnica.
É antes Engenharia Social - atenta a condições especificamente regionais de vida - do que reforma social, vaga ou doutrinária, o que se está fazendo hoje em países como a Alemanha Ocidental, a Rússia Soviética, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Holanda, com relação a novos tipos de pequenas cidades e de agrovilas, nas quais consideráveis espaços são dedicados a fins recreativos, lúdicos, esportivos, desinteressadamente culturais, na previsão do aumento de tempo-lazer e da diminuição de tempo-trabalho, em alguns desses países tecnicamente mais adiantados; e, por conseguinte, mais atingidos pelo efeitos de uma crescente automação. Em algumas das novas pequenas cidades da Grã-Bretanha, nos espaços dedicados a esportes e a outras recreações, considera-se a possibilidade de encontros internacionais numa freqüência muito maior do que a atual.
Precisamente este foi um dos pontos em que Brasília deixou de corresponder ao que se esperava dela como cidade projetada sobre o futuro: seus arquitetos, alheios ao que há de mais elementar em matéria de Engenharia Humana e de Engenharia Social, descuidaram-se de lançar pontes entre um tempo-trabalho, provavelmente a ser reduzido consideravelmente pela automação - mesmo numa cidade predominantemente burocrática - e o tempo-lazer; o crescente tempo-lazer. Sobre o assunto o autor escreveu, há alguns anos, um artigo na conhecida revista de Nova York, The Reporter, que lhe valeu a solidariedade de alguns dos mais competentes especialistas em Engenharia Humana e em Engenharia Social, embora, no Brasil, lhe custasse ataques da parte de adeptos mais estreitos do, aliás, seu amigo pessoal Juscelino Kubitschek. Um deles insinuou que o autor do artigo não criticava Brasília senão por despeito contra aquele ilustre homem público. O qual, quando Presidente da República, não lhe dera a Embaixada de Londres, sequiosamente - insinuava o apologista absoluto de Brasília - cobiçada pelo crítico. Assim se repudia, por vezes, no Brasil, a crítica dos independentes a iniciativas ou realizações arbitrárias, por mais honesta que seja essa crítica nos seus objetivos e nos seus métodos.
O que principalmente alegara o autor deste Oh de Casa! com relação ao modo por que se construiu a aliás admirável Brasília é que essa construção se fizera como pura obra - ou quase pura - de Engenharia Física ou, mais restritamente, de Arquitetura Estética: de magnífica e até esplendorosa Arquitetura Estética. Obra entregue exclusivamente e faraoescamente a dois, na verdade, magistrais arquitetos ou, para efeito de classificação geral de sua especificidade, de Engenheiro Físico. Que Engenheiro Humano fora ouvido? Que Engenheiro Social? Que antropólogo? Que ecólogo? Que sociólogo? Que psicólogo? Que educador? O resultado foi uma nova e fisicamente grandiosa cidade nova no seu físico; e na sua parte de Engenharia Humana e de Engenharia Social nem sequer adaptada brasileiramente à sua ecologia tropical: com um excesso de vidros de excessiva imitação de uma Engenharia Física concebida e desenvolvida pelo suíço Le Corbusier para a Europa Central: para as condições de luz, de atmosfera, de ar, de paisagem, de meio, de ambiente natural do centro, durante grande parte de cada ano, brumoso, sombrio, muito mais boreal do que tropical, da Europa.
Mais: despreza-se na construção de uma cidade nova, levantada com imensas despesas para o futuro mais do que para o que se considerasse presente, a consideração por novas perspectivas, nesse futuro de relações entre Homem e Tempo. De relações entre Homem e Trabalho a serem em parte substituídas pelas relações entre Homem e Lazer.
Não se cogitou, na construção de Brasília, de problema psicossocial tão importante. Não se reservaram de início áreas bastantes amplas para recreação, para esportes, para artes, para idílios, para meditação, para tempos desocupados. Para substitutos dos bons quintais das casas tradicionalmente brasileiras.
As relações entre tempo-trabalho e tempo-lazer, entre os espaços que uma comunidade moderna precise reservar à recreação, ao esporte, à música, ao teatro, ao lado dos espaços que precisem de ser dedicados ao trabalho, constituem, entretanto, um dos principais objetos de estudos e de ação conjugados das três Engenharias. é problema dos mais importantes dentre os que as três Engenharias atualmente enfrentam. Problema moderno e problema pós-moderno. Desprezá-lo em qualquer esforço atual de construção de caráter ou de projeção social é desprezar-se alguma coisa de essencial a um futuro humano menos remoto do que alguns imaginam: aquele em que o tempo-lazer será mais importante que o tempo-trabalho. Na Grã-Bretanha está o problema sendo enfrentado tanto por engenheiros físicos como por engenheiros humanos e sociais; e de um modo em que se concilia o universal com o regional; o uso da máquina com a preservação da saúde e da inteligência humana naquelas áreas em que a máquina - poluindo águas ou o ar, desequilibrando a ecologia - pode prejudicá-las, em vez de beneficiá-las. Daí problemas relacionados com o chamado equilíbrio ecológico e com a defesa de cidades ou de regiões contra a poluição do ar, a poluição de águas, a devastação de matas. Quebrando-se a relação saudável entre casas e natureza.
Destaque-se, de passagem, que tais problemas tiveram no Brasil quem desde a década de 30, começasse a considerá-los pioneiramente. Em livro brasileiro, de cientista social, publicado em 1937 - intitulado ecologicamente Nordeste -, já se clamava contra desequilíbrios ecológicos e contra poluições de águas no nosso País. E o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, órgão federal fundado no Recife em 1949, não tardaria a realizar pesquisas de caráter sócio-ecológico sobre poluição de rios do Nordeste por indústrias de todo descontroladas: pesquisa de que aquele instituto encarregou o então jovem e lúcido geógrafo, ainda hoje em brilhante atividade, Professor Gilberto Osório de Andrade. E não vêm tendo outro caráter as principais pesquisas que vêm sendo realizadas por aquele Instituto, tão atento ao problema da casa ecológica e da relação do homem com a natureza.
Observe-se dessas pesquisas que não vêm sendo realizadas segundo técnicas de investigação social importadas do estrangeiro e sim conforme adaptações dessas técnicas a situações brasileiras, nacionais ou regionais. Em alguns casos, segundo orientações de tal modo próprias a essas situações que têm significado inovações de base ecológica ou nacional. Pois também a esse setor aplica-se aquele pronunciamento recente do Ministro Severo Gomes segundo o qual o Brasil deve gerar o mais possível "sua própria tecnologia após a absorção de tecnologia importada", esta última refletindo "um universo econômico e social de onde foi gerado". Orientação do Presidente Ernesto Geisel. Lembre-se, a propósito, que, do Brasil, vêm partindo, no campo da Engenharia Social, no que essa Engenharia significa Ciência Social aplicada ou aplicável, várias conceituações originais de operação econômica ou social. Entre as primeiras, a de "valorização", iniciada em São Paulo com a valorização do café quando superambudante sua produção, através de técnica em seguida adotada por vários países; e mais recentemente, a chamada "correção monetária": outro brasileirismo. Brasileirismos são os conceitos sócio-antropológicos de "homem situado no trópico" - aprovado publicamente pela Sorbonne - de "ecologia telúrica", de "pluralismo metodológico em estudos sociais", de "tempo tríbio", de "metarraça", de "morenidade". E com o de homem situado no trópico, o de casa situada no mesmo trópico. O de casa que, em alguns casos, modernize a casa tradicional brasileira: modernização de tipo assim ecológico e até tradicional de residência seguida pelo próprio e brilhante Oscar Niemeyer ao construir, em Brasília, residência particular. Para sua família. Para seu ninho.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Oh de Casa! em tôrno da casa brasileira e de sua projeção sobre um tipo nacional de homem. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1979. 169p.
|