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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



OLIVEIRA LIMA, DON QUIXOTE GORDO
Prefácio


Reúne êste livro - Oliveira Lima, Don Quixote Gordo - as conferências que o autor proferiu em dezembro de 1967, nas comemorações do centenário do nascimento de Manoel de Oliveira Lima. Ampliou-as todas as cinco, em ensaios: pequenos ensaios. Cinco pequenos ensaios: "Oliveira Lima, singular e plural"; "Don Quixote gordo"; "Oliveira Lima visto de perto"; "A propósito do biógrafo de Dom João VI"; "Cartas de Stockolmo e outras cartas".

A êsses pequenos ensaios, com pretensões a um tanto psicológicos no seu modo de ser biográficos, se acrescentam algumas das cartas que o autor recebeu, durante anos, do insígne historiador, sociólogo e ensaista, seu amigo e mestre; e com o qual muito conviveu, primeiro, em Pernambuco, depois em Washington. São cartas - em números de 60, incluídas uma dirigida a Carlos de Campos, outra a Nestor Rangel Pestana, apresentando o ator a êsses dois ilustres paulistas - que revelam aspectos pouco conhecidos e mesmo ignorados da personalidade de Oliveira Lima, também considerados, nos cinco ensaios, por quem conheceu de perto e no cotidiano o genuíno grande homem que foi o autor de Dom João VI no Brasil. Uma das cartas acompanhou expressiva mensagem que Oliveira Lima escreveu, em 1921, a pedido do autor, associando-se à "festa da língua portuguêsa", promovida por então estudantes da Universidade de Colúmbia - o autor, seu colega Philip Green e outros jovens universitários. Êste inédito é também publicado em Oliveira Lima, Don Quixote Gordo.

As conferências foram proferidas na Academia Brasileira de Letras, no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico, de Pernambuco, no salão nobre do Palácio do Govêrno do Estado de Pernambuco - em solenidade comemorativa presidida pelo Governador Nilo Coêlho - e no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e repetida na Argentina na Universidade de Rosário. De nenhuma delas foi publicado o texto ou sequer resumo de texto ampliadas em ensaios, perderam todo o caráter de conferências, menos aquela oralidade que o autor se habituou a comunicar a seus ensaios. Oralidade, note-se bem; e Não oratória. Que a oratória não está entre suas predileções mas, ao contrário, entre suas aversões. Seria, talvez, capaz de seguir Verlaine na violência que o poeta francês aconselhava contra a eloquência, se lhe fôsse dado, porém, distinguir entre formas de eloqüência. Não torceria o pescoço à eloqüência de Vieira, por exemplo.

Não são êstes ensaios as primeiras páginas que o autor dedica à recordação da figura ou ao comentário à obra de Oliveira Lima. Dêle são prefácios a edições póstumas de trabalhos de Oliveira Lima - a das suas memórias, Estas minhas reminiscências..., a das suas Impressões da América Espanhola - edições, ambas, de José Olympio, que também reeditou a obra monumental que é Dom João VI no Brasil ( com prefácio de Octávio Tarquínio de Souza ) - e ainda a tradução portuguêsa de Formation Historique de la Nationalité Brasilienne (conferências na Sorbonne), publicada no Rio de Janeiro pelo editor Barbosa; e, mais, antigo artigo, escrito em 1921, em Nova York, para um jornal brasileiro, sôbre a casa dos Lima, em Washington; e que consta, ampliado, do livro Perfil de Euclydes e outros perfis. Talvez não seja de todo descabido recordar o autor ter apresentado em 1967 ao Conselho Federal de Cultura, de que é membro, sugestões em tôrno das comemorações do centenário de nascimento de Oliveira Lima, que o Conselho decidiu prestigiar: inclusive quanto se fizesse pela conservação da casa, no Recife, onde nasceu o eminente historiador. Também quanto a voltar-se a representar a peça de Oliveira Lima, Secretário d'el Rei, elogiada por Machado de Assis : iniciativa que deveria caber ao Serviço Nacional do Teatro.

O autor agradece a Dona Maria Auxiliadora da Costa Barros o auxílio que lhe prestou, como exímia datilógrafa que é, na elaboração dêste livro; e também na por vêzes dificìlima decifração da letra em que Oliveira Lima escrevia suas cartas. Decifração que se processou palavra por palavra e através de lente de relojoeiro. Com pachorra um tanto suíça. Nem por isto deixam de aparecer, na publicação de agora, indicações de palavras ilegíveis. Quanto ao título dêste livro, supõe o autor não precisar de justificá-lo. Não trazem as páginas seguintes revelações tais sôbre Oliveira Lima que dêem para apresentar dêle, aos poucos que já o conhecem, uma imagem de todo nova. Ou inteiramente reformada. Mas não deixam de apresentar, da pessoa, da personalidade, do comportamento, na intimidade, do autor de Dom João VI no Brasil, aspectos ignorados e até inesperados. Alguns, surpreendentes. Afinal, de Oliveira Lima se pode afirmar que, a cem anos de distância do ano em que nasceu, continua, senão como intelectual, como pessoa humana, para muitos dos seus compatriotas, apenas um nome. Na verdade, um desconhecido Don Quixote, paradoxalmente gordo.

Desconhecido, para muitos. Caricatura do que realmente foi para outros tantos. Caricatura que o apresenta, ora como glutão, ora coo ambicioso ou, ainda, como invejoso. Invejoso de Joaquim Nabuco. Invejoso do Barão de Rio Branco.

Era a opinião de Graça Aranha, cuja maledicência, no seu último decênio de vida, não poupou o nome de Oliveira Lima. Lembra-se o autor de que, ao chegar ao Rio de Janeiro, pela primeira vez, em 1926, pelo rancor de Medeiros e Albuquerque ao autor de Coisas Diplomáticas. Segundo Graça Aranha os jovens - os jovens que êle pretendia então orientar - deviam Ter o maior cuidado com o autor: para o romancista de Canaan, sendo alguém "partidário de Oliveira Lima ", era "contra Joaquim Nabuco"; e devia ser êste o pensar mais íntimo de Graça : que maior sinal de inferioridade moral e intelectual do que ser um jovem "contra" o admirável Nabuco para colocar-se ao lado do abominável Oliveira Lima? Há também quem acuse Oliveira Lima de ter sido, além de imensamente vaidoso - e ficou célebre a charge de Emílio de Menezes: "eis em resumo essa figura estranha/ tem mil léguas quadradas de vaidade / por milímetro cúbico de banha" - tão ambicioso quanto gordo. O próprio acadêmico Josué Montello - atual Presidente do Conselho Federal de Cultura e, de ordinário tão cauto nas suas afirmativas quanto elegante nas suas atitudes de admirável homem de belas letras -resvala, em livro recente, nesse exagêro.

Ambicioso em excesso, por que terá sido Oliveira Lima? Por ter desejado ser ministro do Brasil em Londres - êle que fôra o único brasileiro recebido na Royal Society of Literature, ao mesmo tempo que Sarojini Naidu, poetisa indiana; que tinha relações com inglêses ilustres; que, como historiador, se familiarizara com o Museu Britânico; que havia sido iniciado na vida - e não apenas na sociedade - britânica por Sousa Correia - amigo da Família Real, particularmente do Príncipe de Gales? Que excesso de ambição havia nesse seu desejo? Ou no de ser Governador de Pernambuco - província brasileira cujo passado conhecia melhor do que ninguém na sua época, cujo desenvolvimento transhistórico acompanhava com o maior interêsse, cuja gente lhe era familiar, cujos problemas estudava com critério sociológico e aos quais poderia ter aplicado em tempo certo algumas das sugestões socialistas que trazia da Suécia, antecipando-se na solução de desajustamentos hoje tão agudos no Nordeste brasileiro?

Que outro excesso de ambição - ou de vaidade - se pode dizer que haveria no desejo de Oliveira Lima de chegar a Ministro das Relações Exteriores - êle que, em Coisas Diplomáticas, traçara, ainda no início da sua carreira diplomática, todo um programa de renovação da política exterior do Brasil e da atividade do Itamarati, fazendo substituir o cuidado pelas questões de fronteiras - quase tôdas já resolvidas pelo Barão do Rio Branco, com seu raro saber de geógrafo e de historiador político e militar - pela atenção aos assuntos econômicos e ao que hoje se chamaria diplomacia cultural; êle que, sem se Ter bacharelado em Ciências Jurídicas se constituira em mestre de Direito Internacional; que gozava do aprêço de internacionalistas da eminência de Brown Scott, de Estanislau Zeballos e de Clóvis Bevilaqua; que conhecera, como diplomata, países os mais diversos - a Venezuela e a Suécia, a Bélgica e o Japão, Portugal, a Inglaterra, a França e a Alemanha - em todos êsses países tendo servido ao Brasil com uma competência e u afã lúcido que nenhum outro diplomata brasileiro do seu tempo - nem mesmo Salvador de Mendonça, Nabuco, muito menos Domício da Gama ou Graça Aranha - reunira em tão harmonioso conjunto, excedendo, no conjunto de qualidades, ao próprio Barão de Penedo, ao próprio Barão do Rio Branco e ao próprio Sousa Correia, seus superiores em certas particularidades? Será, então, aspirar um indivíduo ao desempenho de tarefas para as quais se encontra apto ou maduro, excesso de ambição? Despropósito? Indignidade?

Oliveira Lima vem sofrendo, depois de morto, da tremenda fôrça desmoralizante das anedotas e das caricaturas que seus inimigos conseguiram, ainda êle vivo, atuante e temível, armar em tôrno do seu nome e da sua pessoa: da sua obesidade - seu "calcanhar de Achiles", segundo êle próprio - fácil de ser utilizada como base de tôda uma lenda: a de sua glutoneria; e de algumas das suas atitudes, por vêzes impopulares na época em que êle as tomou : suas restrições ao Pan-americanismo de Joaquim Nabuco, que, já vítima da surdez, teria presidido a conferência Pan-Americana no Rio de Janeiro - disse-o The Times de Londres e repetiu-o Oliveira Lima - como um surdo a uma assembléia de mudos; suas críticas ao Barão do Rio Branco, senhor inteligentíssimo de grandes verbas, inclusive as que asseguraram popularidade à sua política e à sua pessoa na imprensa do Rio de Janeiro e repercussão extremamente favorável ao Brasil, em algumas publicações estrangeiras; seu pacifismo em face da primeira Grande Guerra; seu repúdio a "slogans" simplistas qual o de ter rebentado a mesma guerra como luta da "Civilização" ( a França e a Inglaterra) contra a "Barbarie" ( a Alemanha); seu "monarquismo", contra o qual se levantou tão violentamente o republicanismo de Pinheiro Machado e de Antônio Azeredo - então duas potências. Junte-se a isto o fato de terem agido contra o seu nome e contra sua pessoa indivíduos prestigiosíssimos e, alguns, ostensiva ou sùltilmente atuantes, no Brasil de então, estando êle, Oliveira Lima, quase sempre ausente do país ou do Rio: Assis Brasil, com quem se incompatibilizara em Washington, sendo Assis, ministro, êle secretário de legação; Medeiros e Albuquerque; Emílio de Menezes; Capistrano de Abreu; Fontoura Xavier; Abelardo Roças (sem que êle soubesse das manobras contra seu nome, da parte dêsse aliás medíocre mas bem apessoado colega, a êle reveladas por Edmundo Bittencourt, quando da última viagem de Oliveira Lima ao Brasil).

Com tôda essa legião de intelectuais e de semi-intelectuais, de políticos e de semi-políticos a atuarem, como atuaram contra êle, através de silêncios de jornais em tôrno do seu nome e dos seus livros, de anedotas sôbre sua obesidade, à porta da Watson, de caricaturas até obscenas, como as de Bandeira Filho, da sua gordura, de versos grosseiramente satíricos como os de Emílio de Menezes, a propósito da sua vaidade, de reparos mordazes como os de Capistrano ao seu modo de ser historiador, de mexéricos inescrupulosos, no plano internacional, como os de Medeiros e Albuquerque, contra sua atitude com relação a um país de que era hóspede, de invencionices sôbre seu rompimento com Joaquim Nabuco, como as de Graça Aranha - como estranhar-se que Oliveira Lima - ausente durante anos do Brasil - tenha se tornado, ainda quando vivo, um desconhecido, para quase todos, um deformado, para muitos, e quase um monstro aos olhos de diferente classes de brasileiros? A verdade é que, sem Ter sido nôvo Santo Antônio - que êle poderia ter considerado seu colega na gordura, como considerava Eduardo VII e o Presidente Taft - Oliveira Lima teve, ao lado dos seus humaníssimos defeitos, virtudes realmente incomuns. Foi homem de personalidade inconfundível: corajoso nas idéias, bravo nas atitudes, insuperável na independência do seu pensar e do seu sentir. Quixotesco a seu modo. Dessa sua personalidade teria sido vão esfôrço procurar alguém separar o intelectual : foi um intelectual mais à espanhola ou à russa do que à francesa. O que não significa que lhe faltasse, como historiador, essencial de objetividade; nem que fôsse, como sociólogo, desvairadamente passional. Que o digam os livros que deixou : páginas que já se tornaram, algumas delas, clássicas.

Por vêzes explosivo, nunca foi nem pessoal nem intelectualmente desonesto. Vaidoso, ranzinza, teimoso, ao ponto de cabeçudo, isto foi com alguma freqüência. Com êsses defeitos, prejudicou-se. Prejudicou-se também, com a impaciência, com certas sofreguidões que lhe comprometeram mais de uma vez a perfeita serenidade pessoal que deveria caracterizar a conduta de um diplomata ideal. Mas quem fizer o balanço de qualidades e de defeitos, nêle mais evidentes, difìcilmente concluirá pela predominância dos defeitos. Mais de uma vez, nos ensaios que se seguem procura o autor situar Oliveira Lima em face de intelectuais brasileiros seus contemporâneos, de alguns dos quais tanto divergiu, tendo se harmonizado a vida tôda, ou quase tôda, com outros. Talvez seja êste um dos meios mais eficazes de conseguir-se dar vida ou côr de vida a um retrato retrospectivo: situar-se o retratado entre indivíduos afins e ao lado de indivíduos divergentes, com os quais mais tratou ou conviveu; com os quais mais se atritou; ou dos quais nunca chegou a ser íntimo, embora fôsse vizinho ou correligionário ou confrade. Ou com os quais tivesse tais semelhanças de temperamento que essas semelhanças criassem antes incompatibilidades do que aproximações; ou fôssem contrariadas pelos contrastes de orientação ou formação intelectual.

Com relação a Sylvio Romero - por exemplo - compreende-se que, não tanto o temperamento, como a orientação, o comportamento, o método de Oliveira Lima, como historiador e como crítico social, de idéias e de letras - do seu Aspectos da Literatura Colonial Brasileira, diz o mestre Augusto Meyer que o considera obra prima no gênero - não se conciliassem com os do sergipano, embora houvese entre os dois fortes semelhanças. É surpreendente Ter sido possível a um João Ribeiro - êste sim, com muitos pontos intelectuais de contacto com Oliveira Lima: foram amigos constantes - colaborar com aquêle seu estabanado comprovinciano, a quem entretanto se deve tôda uma renovação dos métodos de história e de crítica literárias entre nós.

Sylvio Romero, entretanto, viveu a ziguezaguear entre idéias verdadeiramente opostas. Ninguém mais contraditório. Ora acreditou nas possibilidades do mestiço, ora só enxergou na mestiçagem desvantagem para o Brasil ou ameaça para o futuro brasileiro. Ninguém mais inclinado a extremos: quis fazer de Tobias Barreto um gigante sem igual no Brasil intelectual de qualquer época e reduzir Machado de Assis a um quase medíocre escrevinhador. Não era de esperar que entre os dois - Oliveira Lima e Sylvio Romero - houvesse maior aproximação, embora não deixassem de haver afinidades de temperamento entre Oliveira Lima e Sylvio que não existiam nunca entre Oliveira Lima e José Veríssimo.

O natural, porém, era que se verificasse o que se verificou: a amizade de Oliveira Lima com José Veríssimo pela predominância de afinidades outras. Veríssimo sem ter tido o vigor, a espontaneidade, o sentido de totalidade social que envolve o fenômeno literário, a flama telúrica de Sylvio, foi, como crítico, um mestre brasileiro de equilíbrio, de sobriedade e de inteligência compreensiva. Daí terem se entendido tão bem, para convívios intelectuais e mesmo sociais, os dois: Veríssimo e Oliveira Lima. Mas quem sabe se, por arte ou ciência de bom mediador, postos Sylvio Romero e Oliveira Lima ao lado um do outro, no terraço da casa-grande de Cachoeirinha, não teriam se entendido sôbre assuntos para os quais parece ter faltado sempre sensibilidade, embora nunca inteligência, a Veríssimo?

Quem quiser ter idéia exata de quanto Oliveira Lima soube ser crítico literário de brasileiros seus contemporâneos, deve ler a sua série de artigos publicados em francês em La Revue, de Paris, intitulada Ecrivains brésiliens contemporains. Não terá sido, na crítica literária, um mestre apurado. Nem pretendeu sê-lo. Mas o modo por que, escrevendo para estrangeiros, retratou um João Ribeiro, um Ruy Barbosa, um Olavo Bilac, um Coelho Neto, mostra não lhe terem faltado qualidades ou aptidões para a crítica especìficamente literária: entre elas, a simpatia por escritores, por temperamento e por orientação, diferentes dêle - do seu temperamento - e até opostos à sua orientação. Simpatia compreensiva. Compreensividade, como se diria em inglês, dando atualidade ao compreensus dos latinos. E aqui devem ser recordadas as afinidades que ligaram Oliveira Lima a êsse admirável mestre da crítica literária e de idéias, na língua portuguêsa, que foi Fidelino de Figueiredo.

O modo de ser Oliveira Lima crítico literário - e a sua série de artigos em La Revue, sôbre escritores brasileiros, clama por tradução à língua portuguêsa - contrastava com o de Sylvio pela sua constante atitude de, em cada escritor considerado, procurar Lima o singular, sem esquecer-se da espécie; e o atual, sem esquecer-se da origem cultural ou da espécie; e o atual, sem esquecer-se da origem cultural ou da formação histórica do indivíduo. Com o que se resguardava de contradições sem evitá-las de todo. Não tanto quanto Sylvio Romero, mas a seu modo, Oliveira Lima foi, por vêzes, contraditório nas suas idéias e nas suas atitudes de crítico literário, de crítico social e simplesmente de homem. Mas, quase sempre - vá o paradoxo - harmoniosamente contraditório. Que nesse modo paradoxal de ser contraditório - harmonizando contradições - mais de um intelectual se vem antecipando há anos e até há séculos a compositores dos, dentre os modernos, chamados revolucionários; e célebres, como Stravinski e, entre nós, Villa-Lobos, para não recordar Wagner, justamente por arrojos dessa espécie. Arrojos na harmonização de contrários.

Desde o seu primeiro livro que Oliveira Lima se revelou, aliás, inclinado a combinar contrários. O livro foi para a época, inovador, sendo, ao mesmo tempo, impregnado de bom e honesto senso de tradição; e essa tradição, a regional dentro da nacional. Espírito tão seu quanto de Abreu e Lima, de Joaquim Nabuco, de Dom Vital.

No início do govêrno de Estácio de Albuquerque Coimbra, sendo o autor secretário do Governador, por êle ouvido como se fôsse indivíduo provecto e não o ainda rapazola que era, tratou de convencê-lo de que, como Governador, devia encarregar Oliveira Lima de atualizar o Pernambuco, seu desenvolvimento histórico. Estácio relutou: Oliveira Lima - dizia - não o tolerava. Pareceria, então, que êle queria, do alto do govêrno, cortejar o exilado ilustre, por temer as suas terríveis iras.

Contou Estácio ao seu então jovem secretário o porque - segundo êle - do desentendimento entre os dois. Em 1922, desavindas as facções em Pernambuco, em tôrno de um nome idôneo para o govêrno do Estado, surgira - parece que pela Segunda vez - a "solução Oliveira Lima". Políticos de várias facções reuniram-se para considerar o caso. O nome de Oliveira Lima viera à tona, lembrando por político astucioso: simples manobra tática o estratégica. Presente à reunião, Estácio Coimbra, então vice-Presidente da República e em delicadas relações com o muito mais poderosos Presidente, que era Artur Bernardes, dissera: "deixemos de poesia. Estamos aqui não para encontrar uma solução mas para homologar um nome". Pois já havia um nome escolhido para o futuro govêrno do Estado, com a aprovação de Artur Bernardes: homem de vontade firme e ostensivo na usa política de intervir nos assuntos estaduais. Seria poesia, no momento, qualquer solução diferente da já consagrada de tão alto e de modo tão decisivo.

Aos ouvidos de Oliveira Lima, por intermédio, ao que parece, do seu amigo Mário Melo - seu bom amigo, é certo, mas um tanto mexeriqueiro - chegou outra versão do que acontecera: ao ser mencionado o nome de Oliveira Lima como possível candidato de conciliação ao govêrno do Estado, Estácio Coimbra teria dito com ar superior: "nada de poetas!". Distorção completa do ocorrido.

Mesmo assim, acabou o secretário conseguindo a desejada reaproximação da qual teria resultado a atualização do livro Pernambuco, seu desenvolvimento histórico pelo próprio Oliveira Lima, se a morte não o tivesse levado, mal chegado aos sessenta anos. Desfecho que deixou contristado Estácio Coimbra.

Quanto ao govêrno do Estado, Oliveira Lima só teria chegado a essa posição, para felicidade, acreditam alguns, de Pernambuco - pois era homem a quem não faltava, além do senso administrativo, espírito objetivamente político unido a uma visão arrojadamente nova, pelo seu misto de "socialismo" e de "monarquismo", dos problemas de um Pernambuco ainda latifundiário, feudal e monocultor - pela intervenção, no assunto, a seu favor, de um Presidente da República como Floriano Peixoto ou Artur Bernardes; ou de um super-chefe estadual como fôra, em Pernambuco, Rosa e Silva; e nunca pela vontade de chefes simples e medìocremente estaduais de mesquinhas facções politicoides. Sôbre o desejo de Oliveira Lima de tornar-se governador de Pernambuco, diga-se de passagem que já escrever páginas esclarecedoras e prestou depoimento autorizado, o Embaixador Heitor Lyra, filho de ilustre político, na época muito atuante, no Estado: o velho Pereira de Lyra.

O autor espera das páginas que se seguem que também elas possam vir a ser consideradas um depoimento. Depoimento de quase discípulo sôbre mestre inconfundível.

Nas suas relações com Oliveira Lima, houve um mestre e houve, senão pròpriamente um discípulo, um aprendiz que, em convívio com o sábio, o homem de espírito, o homem do mundo no melhor sentido da expressão que era Oliveira Lima, assimilou dêle saberes, experiências, orientações: todo um conjunto de valores que difìcilmente teria adquirido de livros ou de viagens ou de professôres convencionais. Como negar dívida tão importante ou renegar passado tão agradável de ser recordado quanto honroso de ser confessado?

Repita-se dos que negam ou renegam influências recebidas de pessoas eminentes com quem na mocidade que, além de se mostrarem lamentàvelmente ingratos, brincam de esconder com realidades que mais cedo ou mais tarde esplendem à luz do mais claro meio dia. Não se deixam apagar por tais negativas. Ou por silêncios calculados. O autor vem tendo sempre o gôsto de se dizer influenciado na adolescência e na mocidade por Oliveira Lima: influência direta, pessoal, imediata. Sem ela, sua formação teria sido deficiente em mais de um ponto. A influência ou a ação de Oliveira Lima, assim direta ou pessoal, estendeu-se, aliás, a vários indivíduos e a vários setores. Em assuntos de diplomacia cultural, chegou a ser um pioneiro de formas modernas dessa espécie de diplomacia. Como exemplos da ação de Oliveira Lima, nesse setor - a diplomacia cultural - a favor de valores do seu e nosso país, recordem-se - de passagem - suas conferências, no estrangeiro, sôbre o Padre José Maurício e Sôbre Machado de Assis; seus discursos na Royal Society of Literature, de Londres, na Bélgica, na Argentina e em clubes literários do Japão, sôbre as letras e as artes brasileiras; seus artigos em La Revue e em La Prensa. O compositor mulato José Maurício foi objeto do seu grande e contagioso entusiasmo de revelador da cultura brasileira a europeus, a americanos e a orientais. É pena não ter sido seguido, com igual vigor, por nenhum dos seus sucessores em postos diplomáticos importantes - nem por nenhum sucessor do Barão de Rio Branco - com relação a um Villa-Lobos ou a um Manuel de Abreu.

De Machado de Assis falou a público intelectual estrangeiro em sua conferência Machado de Assis et son oeuvre literaire. Também é pena que não tenha sido seguido por nenhum dos seus sucessores - nem por nenhum sucessor de Barão de Rio Branco - com relação a sucessores de Machado de Assis dignos de terem suas virtudes literárias reveladas ao estrangeiro através de uma idônea diplomacia cultural que tivesse seu reduto no Itamarati: um Itamarati que, em vez de vir se omitindo ou só agindo a favor de intelectuais da casa, isto é, diplomatas de carreira desdobrados em escritores, viesse estendendo sua responsabilidade, nesse setor, ao empenho de prestigiar todos os grandes valores intelectuais e artísticos do país, por meios ao seu alcance.

Poderá, entretanto, dizer-se de Oliveira Lima que, pioneiro, como foi, em algumas das suas iniciativas, influiu diretamente sôbre a gente mais jovem do Itamarati, como pioneiro de uma moderna diplomacia cultural? Sôbre alguns dos seus compatriotas mais jovens - terá havido influência direta da sua parte? Terão sido vários os então jovens diplomatas ou intelectuais que receberam essa sua influência? Sob que aspecto? Até que ponto? O autor acredita que sim: que Oliveira Lima influiu sôbre alguns dos seus compatriotas mais jovens. E entre êsses repete que não hesita em incluir-se. Quase tanto quanto Boas, quanto Seligman, quanto Giddings, quanto John Bassett Moore, quanto o inglês Zimnerm, de Oxford, quanto Lucien Febvre, da França, e Max Dessoir, da Alemanha, Oliveira Lima foi um dos mestres da sua adolescência e da sua mocidade. Não se apresenta como seu discípulo, no sentido convencional ou específico da palavra, por Ter tido tantos mestres que não teve pròpriamente em mestre porém vários, uns contradizendo os outros, dentre os que influiram direta ou pessoalmente sôbre sua formação universitária.

Considerável parece ao autor Ter sido a influência de Oliveira Lima sôbre alguns jovens, brasileiros e estrangeiros, seus contemporâneos: um Assis Chateaubriand (que chegou a escrever páginas vibrantes em sua defesa), um Ciro Freitas Vale, um Barbosa Lima Sobrinho, um Antônio Carneiro Leão, um Múcio Leão, um Aníbal Fernandes, um Joaquim de Souza Leão Filho. E entre estrangeiros, Rüdiger Bilden e Francis Butler Simplins. Não foi, entretanto, Oliveira Lima, neste particular, um mestre carismático como parecem Ter sido, no Brasil, Tobias Barreto e Benjamim Constant.

De sua parte, o autor insiste em confessar-se influenciado não só por idéias e atitudes como pelo modo de escrever de Oliveira Lima - tão diferente do oratório e solene, de Ruy Barbosa. Mas, sobretudo, pela sua coragem de ser só, pelo seu destemor em ser, quando preciso, impopular, pela sua por vêzes ostentação do que êle próprio chamou seu "esprit de minorité". Que para Oliveira Lima o intelectual precisava de saber, quando em jôgo sua consciência ou sua dignidade, remar contra a maré. Precisava de saber desdenhar de aplausos de multidões ou de jornais. Precisava de saber ser independente de governos e de poderosos. Precisava de saber resistir, em vez de desistir ou de concordar. Nunca - para Oliveira Lima - o genuíno intelectual deveria desvirilizar-se num Maria-vai-com-as-outras. E neste particular o homem projetou-se no escritor.

Do seu modo de escrever repita-se ter tido alguma influência sôbre o do autor, que na primeira meninice fôra muito afastado pelo estilo como que telúrico de José de Alencar; e, só mais tarde, pelo de Nabuco e, dentre os clássicos da língua portuguêsa, pelo de Fernão Lopes, pelo de Fernão Mendes, pelo de Gil Vicente, pelo de Garrett - Lopes e Garrett tendo sido clássicos também da predileção de Oliveira Lima: descoberta que o autor sòmente faria depois de Ter se afeiçoado a êsses dois grandes escritores. Sob outras influências - inglêsas, francesas, russas, espanholas - a certa altura tornou-se o autor um tanto crítico das sentenças, a seu ver, demasiadamente longas de Oliveira Lima - mal de que êle próprio, autor, viria a ser acusado. Crítico do estilo - ou da falta de estilo - do mestre, sem nunca, entretanto, Ter deixado de admirar nos escritos do ensaista de No Japão o uso, quase sempre, de palavras simples, a ausência de pedantaria, os salpicos oportunos - nunca demasiados - de ironia, de humour e de pitoresco.

Pergunte-se: é ou não página de escritor dos que os espanhóis chamam de "garra", esta em que é evocada por Oliveira Lima, em "Vida Diplomática", a figura do seu diplomata-modêlo, dentre os nacionais, o Barão de Penedo: "Êsse ancião correto e genial, cujo corpo ainda esbelto a gente insensìvelmente reveste de uma dessas sobrecasacas-balões como as usavam Palmerston, Azeglio, Brunnow, os seus outros colegas de Londres nos anos de 1860, cujo rosto magro e pálido queremos à fôrça ver na penumbra de um dêsses chapéus de castor de abas largas como os traziam Marcy, Malmesbury, Clarendon, Drowyn, de Lhuys e outros famosos estadistas com quem êle privou, foi nosso ministro nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França e na Roma Papal a bagatela de 35 anos, de 1854 a 1889, e se não foi mais adiante não foi porque a República o dispensasse mas porque êle se dispensou de servir a desconhecida". E ainda, sôbre as oportunidades que a vida diplomática oferece, "de estudo e de aplicação", a indivíduos do tipo do Barão de Penedo: "No mesmo ano pode assistir a uma revolução sul-americana, ao centenário de uma universidade alemã e à agonia de um pontífice, volver os olhos de um vulcão andino para um pagode chinês e dêste para uma estepe russa, num curto espaço de tempo ver perpassar como numa lanterna mágica, mas com o relêvo da realidade, emplumados generais da América Central, anafados senadores do Oeste americano, empertigados alabardeiros espanhóis, grãos-duques barbados, espertos bonzos japonêses, bonacheirões políticos suíços, impassíveis rostos chilenos".

Páginas dêsse sabor, dêsse pitoresco tocado de graça literária, dêsse poder de caracterização de figuras humanas e de evocação de personalidades marcantes, não faltam aos seus livros principais - Dom João VI no Brasil e No Japão, por exemplo; e também não deixam de ser encontrados noutras das suas produções: em Nos Estados Unidos e mesmo em Impressões da América Espanhola e Na Argentina. Livros, êstes três, como No Japão, de impressões de viagens, embora sem o colorido que anima No Japão. Pois No Japão é livro de tal vigor literário que há quem diga de Aluísio de Azevedo ter desistido, em face de páginas de tão bom impressionismo, de publicar suas impressões daquele país do Oriente.

Quanto ao modo de escrever Oliveira Lima sôbre temas históricos, suas palavras sôbre Southey, historiador inglês do Brasil, na conferência que, ministrou na Bélgica, proferiu na Sociedade de Geografia de Antuérpia, parecem exprimir seu próprio ideal nesse particular: "Homem de letras até a medula (Southey), descreveu as viagens aventurosas, as conquistas arriscadas, as lutas sangrentas ( do passado brasileiro), não só na fé dos documentos extraídos dos arquivos portuguêses mas também com a ternura do artista por tôdas as belas manifestações da energia humana". E também se exprimindo (Southey), "numa língua sóbria e imaginosa, como a sabem escrever os inglêses quando se propõem a fazer estilo". Não creio que de Oliveira Lima se possa dizer que se propôs a "fazer estilo" na língua portuguêsa; ou na francesa; ou na inglêsa. O que há porventura de graça literária nos seus estilos será menos realização de estilista pròpriamente dito do que de escritor: escritor pouco preocupado em compor ou "fazer estilo" mas escritor. Pois não deixa, nas suas melhores páginas, de ser escritor literário a exprimir-se na língua portuguêsa de modo, por vêzes, tão imaginoso quanto sóbrio - menos imaginoso e mais gôsto do que Martins. Daí poder ser lido hoje com mais gôsto do que qualquer outro dos historiadores brasileiros máximos, do seu tempo ou de qualquer época, excetuando-se apenas o Joaquim Nabuco de Minha Formação e de Um Estadista do Império, já que de João Ribeiro não existe nenhum trabalho histórico ou sociológico de prol: apenas fragmentos ou retalhos da obra prima que, nesse setor, poderia Ter escrito com talento literário acrescentado ao saber de historiador e à ciência de sociólogo com alguma coisa de filósofo.

Um crítico mais severo poderá dizer, com alguma razão, de Oliveira Lima, Don Quixote Gordo, que é livro antes apologético do que analítico; antes afetivo que objetivo. Também que está todo êle escrito de modo extremamente pessoal, com o autor fazendo sentir mais de uma vez sua presença à sombra do assunto, como se fôsse essencial à tentativa de retrato impressionista - ou expressionista, por vêzes - a que se aventurou, essa sua freqüente intrusão. Crítica igualmente válida. É quase certo das páginas que se seguem que lucrariam em ser passadas a limpo sob critério mais analítico; mais objetivo e com o autor aparecendo menos nas evocações quase tôdas tocadas de afetividade. Saudosas, até. Mas é possível que, assim apurado, o simples depoimento que se contém nas mesmas páginas, ganhando em discreção e em objetividade, perdesse em espontaneidade. Que outros - uma Lídia Besouchet Freitas um Barbosa Lima Sobrinho, um Hélio Viana, um Américo Jacobina Lacombe, um Joaquim de Souza Leão, um Heitor Lira, um Jordão Emerenciano um Vitorino Nemésio, um Amaro Quintas, um Luís Delgado, um Heitor Lyra, um Nilo Pereira, - a propósito da recente ocorrência do centenário do nascimento de Oliveira Lima, analisem, estudem, avaliem em trabalhos mais impessoais, sua obra de historiador; sua atividade de diplomata; seus ensaios; seus artigos; suas idéias de sociólogo, de pensador, de internacionalista; sua importância como bibliófilo que já foi reunida por brasileiro ou estrangeiro. É a opinião de um perfeito entendido no assunto : Joaquim de Souza Leão.

De nenhum grande indivíduo já morto se pode esperar que alguém, evocando aspectos da sua vida ou da sua pessoa, trace um retrato completo ou autêntico. É expressiva a lenda que vem contada pelo imaginoso Rodó numa das suas melhores páginas e recordada por Josué Montello em livro recente : a do frade que ardia do desejo de ver uma imagem autêntica de Jesus. Disseram-lhe que muito longe do seu convento, havia uma executada ainda em vida do Mestre. Empreendeu o religioso longa e dura viagem até chegar ao lugar precioso: aquêle onde se defrontaria com uma efígie exata do Redentor. Que encontrou, porém? Uma imagem partida em muitos pedaços: alguns já desaparecidos. Só a imaginação poderia reconstituir tal imagem. Recompô-la. Reintegrá-la.

Temos que nos resignar a esta realidade: a de que o tempo despedaça efígies ou imagens copiadas de modêlos ainda vivos. Não destrói, é certo, senão muito lentamente, bronzes e mármores, Rembrandts e daguerreótipos, biografias como a de Johnson por Boxwell ou autobiografias como a de Rousseau ou, entre nós, a de Joaquim Nabuco. Mas quase sempre se apressa em reduzir a fragmentos o que nessas cópias de modêlos vivos teriam sido unidades absolutas.

É um gênero, o do retrato de uma personalidade já morta - ou ainda viva - em que a verdade conseguia por um retratista, mesmo genial, parece nunca ser completa. Nem a unidade por êle porventura alcançada logra permanecer, mesmo sem ser absoluta, através do tempo. O tempo é inimigo das unidades de qualquer espécie: despedaça-as. Decompõe os compostos. Dissolve as construções. Parte. Divide. Faz aparecerem contradições. Cria ruínas melancólicas ou grandiosas: as de estátuas gregas, as de deuses romanos, as de sacerdotes egípcios, as de príncipes indianos, as de filósofos chineses, as de cacíques íncas, a s de guerreiros astecas.

De onde o prudente ser quem esboça, ou tenta esboçar, qualquer retrato evocativo de pessoa ou de povo, contentar-se em apresentar, do indivíduo retratado ou da gente evocada, apenas verdades particulares, sem pretender fixar uma suposta verdade única e inteira; aspectos expressivos do todo, em vez de um todo monolítico; contradições significativas em vez de uma unidade perfeita e inautêntica. Retalhos; pedaços; fragmentos. Fragmentos susceptíveis de ser reunidos em conjunto mais ou menos ideais por quem, ao interêsse pelo indivíduo retratado ou pela figura ou gente evocada, junte, por êsse meio a evocação subjetiva que se acrescente ao documento objetivo, até alcançar o quase milagre de ressuscitar êste ou aquêle sujeito - objeto, em sua quase perfeita unidade e em sua quase completa autenticidade. Um quase maior ou menor :mas sempre, irredutìvelmente, interposto entre retratado e retratista.

A biografia sistemática de Oliveira Lima, como estudo histórico, é obra ainda a ser realizada bom especialista no gênero. Promete-nos o Professor Manoel da Silveira Soares Cardoso, conservador da "Coleção Lima" da Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica, de Washington, um estudo biográfico de Oliveira Lima, à base da farta documentação a seu dispor. Ao mesmo objetivo, começa a dedicar-se um erudito brasileiro a quem não falta sensibilidade ao assunto: o historiador Jordão Emerenciano. Sôbre a fase de Oliveira Lima, representante do Brasil na Bélgica, tem já pronto bem documentado estudo, Lídia Besouchet Freitas. Ainda, no Brasil, seria ótimo que se decidisse o Professor Sylvio Rabello a dedicar a Oliveira Lima estudo igual aos seus admiráveis ensaios, mais interpretativos que convencionalmente biográficos, sôbre Sylvio Romero e Euclydes da Cunha.

A matéria que se espalha pelos capítulos que se seguem - ensaios ex-conferências - em vários pontos se interpenetra, com inevitáveis repetições. Repetições tão características do autor. Para alguns críticos, um dos seus piores defeitos.

Terá, entretanto, tal defeito, seus aspectos positivos, a ser exata a observação de um mestre, e mestre da Sorbonne - o Professor Roger Bastide - de que, no autor, a repetição se faz sempre, ou quase sempre, sob pontos de vista diferentes do anterior ou dos anteriores. Quase proustianamente, portanto. Consideradas sob pontos de vista diferentes dos anteriores, pessoas e coisas se apresentam sob formas também diferentes das já vistas, embora sejam as mesmíssimas pessoas e as mesmíssimas coisas.

O método de Proust em novelas dentro das quais se movem biografias psicológicas. Retratado por Proust, Oliveira Lima se apresentaria ora gordo, ora magro, conforme circunstâncias de tempo superiores às constantes - estas mesmas flutuantes - de físico. Mas sempre, em essência, Oliveira Lima. Que o essencial persiste no existencial sem deixar de ser existencialmente condicionado ou alterado ou transfigurado.

Não pretende o autor ter trazido à comemoração do centenário do nascimento de Oliveira Lima senão breve comentário à obra do historiador, do publicista, do ensaísta, do sociólogo, do moralista que êle foi; ou à sua atividade de diplomata; ou aos seus namoros com a política. Simples evocações do homem, do indivíduo, da sua pessoa a um tempo singular e plural. Evocação sem a preocupação de excluir-se a afetividade.

Impossível, aliás, essa exclusão. Cresceu o autor admirando num Oliveira Lima que desde adolescente, conheceu de perto, não apenas um cosmopolita, mas até - vá a palavra arcaica - um patriota, um brasileiro, aos seus olhos de menino e de adolescente, exemplar, mesmo através dos seus fracassos; ou, talvez, maior à sombra dos seus fracassos quixotescos do que teria sido à luz de um fim de vida de todo triunfante como foi o de Joaquim Nabuco ou o de segundo Rio Branco.

Mais: conheceu-o romantizado pelo exílio. Exílio voluntário mas exílio. Exílio em país, no inverno, frio, brumoso, cinzento, em contraste com um Brasil que, entretanto, a despeito do seu muito sol, não soube nunca tratar brasileiro tão insigne com o calor afetuosamente materno que Oliveira Lima não só merecia como desejava. Desejava sem dizer que desejava: reprimindo seus desejos. Escondendo-os. Abafando-os. E por isto mesmo sofrendo mais do que se fôsse franco na expressão dêsse anseio de filho a vida inteira um tanto afastado do seu país : servindo-o no estrangeiro. "Longe da vista, longe do coração", diz a sabedoria popular que também insinua : "quem vai ao mar, perde o lugar".

Oliveira Lima, atravessando várias vêzes o Atlântico a serviço do Brasil, perdeu, na sua terra, grande parte do lugar que deveria, talvez, ter sido seu. Inconfudìvelmente seu. Viu-se esquecido por muitos e substituído por alguns. Mais: no próprio serviço diplomático outro tanto lhe aconteceu. Não só por ter sido êle vítima de ressentimentos, de mesquinharias, de invejas e de despeitos de chefes e de colegas, como por Ter sido sua própria personalidade, de homem por vêzes difícil, das que se contrapõem aos sucessos fáceis, provocando resistências de competidores e suscitando obstáculos de conservadores a arrojos de renovador. Personalidade angulosa em vez de redonda, isto êle foi. Quixotesca. Pernambucana: os pernambucanos mais autênticos raramente se destacam como homens psicològicamente redondos ou macios. Nenhum até hoje chegou a chanceler ou à Presidência da República: fato que pode ser apenas um acidente mas talvez represente um fenômeno psicológico mais que sociológico.

Como todo verdadeiro Don Quixote, Oliveira Lima teve, na vida - repita-se - mais fracassos do que triunfos. Também nos fracassos foi plural. Estêve perto da Legação do Brasil em Londres e do Ministério das Relações Exteriores: mas sem se Ter tornado nem Ministro em Londres nem Chanceler. Fracassando nessas suas ambições e na se ser - sua vaidade era capaz de modéstias paradoxais - Governador do seu Estado. Quixotescamente fracassando. Foi um singular Don Quixote: gordo por fora, magro por dentro.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Oliveira Lima, Don Quixote gordo. Recife: Imprensa Universitária, 1968. 192p.

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