ORDEM E PROGRESSO
Prefácio
Com o ensaio Ordem e Progresso, a
série de estudos em torno da sociedade patriarcal no Brasil - das suas origens e do
seu desenvolvimento - iniciados em 1933, com o ensaio Casa-Grande & Senzala,
aproxima-se de conclusão, dentro do plano estabelecido pelo autor. Essa conclusão se
verificará com o ensaio Jazigos e Covas Rasas, cuja publicação deverá ser
acompanhada de três volumes de material ilustrativo dos assuntos versados nos vários
ensaios da série: documentos, mapas, fotografias, caricaturas. Acompanhada também da
publicação, na íntegra, de algumas das muitas autobiografias escritas em resposta ao
inquérito ou questionário, organizado pelo autor, e nas quais, sobreviventes da época
de transição do Império para a República, estudada nas páginas que se seguem, fixam
suas reações aos mesmos estímulos, isto é, às mesmas perguntas. Perguntas de caráter
geral e perguntas concretas ou específicas.
É tempo de exprimirmos nosso reconhecimento a
quantos generosamente nos auxiliaram na colheita de material tão difícil de ser colhido,
como o que constitui grande parte do lastro deste estudo; e facilitaram, assim, a
elaboração do terceiro dos ensaios que vimos nos aventurando a escrever nesta série; e
, nessas aventuras, tocando, por vezes, no que de mais íntimo guarda o passado do homem
brasileiro: sua vida sexual e de família; sua vida sentimental; as relações de menino e
de adulto com a escola, com o teatro, com a rua, com a Igreja; sua atividade econômica e
seu comportamento político em momentos às vezes decisivos da época que viveram; suas
manifestações intelectuais e artísticas; e, no caso das páginas que se seguem, sua
participação direta ou indireta na vida pública do fim do Império e do começo da
República.
Vários desses colaboradores já não vivem.
Alguns deles, barões do Império, senhores de engenho, fazendeiros do café, cônegos,
vigários, médicos, advogados, engenheiros, militares, comerciantes, caixeiros,
operários, industriais, funcionários públicos, parlamentares, políticos, jornalistas,
babalorixás, homens do mundo, mulheres das chamadas alegres, transmitiram-nos, já no fim
de vidas longamente vividos informações preciosas sobre o antigo viver senhorial da
gente brasileira. Outros, antigos escravos ou negros nascidos na época da escravidão,
eram também indivíduos já muito gastos pelo tempo quando os ouvimos; mas ainda lúcidos
e com excelente memória. Com voz arrastada de velhos, já no fim dos seus dias,
informaram-nos acerca das suas relações com os senhores; com as festas; com os ritos
religiosos; com as atividades rurais e urbanas no Brasil ainda escravocrático e
patriarcal.
Houve, dentre eles e dentre antigos senhores,
quem nos fizesse confidências como a um padre. Foi ouvindo-os, visitando suas casas
antigas, seus sobrados velhos, escutando o som fanhoso dos seus pianos de cauda, dos seus
bandolins, das suas flautas, há anos silenciosos, acariciando bonecas outrora louras e
brinquedos arcaicos da meninice guardados por alguns quase como fetiches, que conseguimos
nos contagiar do ambiente predominantemente patriarcal em que eles viveram, divertiram-se,
sofreram, trabalharam, amaram. Também lendo suas cartas, seus cartões-postais, seus
rascunhos de diários, seus testamentos, suas anotações a lápis ou a pena em
almanaques, em romances, em álbuns de retratos, em cadernos de receitas de bolo; seus
pensamentos ou seus versos escritos em leques ou ventarolas. Nossos melhores
agradecimentos vão para esses sobreviventes da antiga ordem social brasileira, muitos dos
quais tiveram a gentileza de pachorrentamente nos confiar por escrito suas autobiografias,
respondendo a perguntas por vezes indiscretas de um questionário que visava obter de
grande número, e não apenas de alguns, reações - repita-se - aos mesmos
estímulos ou às mesmas provocações de memória ou de sensibilidade. Por conseguinte
utilizáveis em interpretações antropológicas ou sociológicas de passado assim
especificado.
Alguns dos depoentes foram indivíduos
nascidos nos primeiros anos da segunda metade do século XIX. Outros, já no fim desse
século: nos últimos anos, até desse século - o XIX - ou no ano 0 do XX,
tendo visto a época que se pretende agora interpretar através de olhos de menino e de
adolescente: às vezes mais agudos no ver e no fixar as impressões ou observações.
Não foi contrariado, na elaboração do
estudo que se segue, a advertência do sociólogo espanhol Julian Marías, à página 52
do seu recente La Estructura Social - Teoría y Método (Madri, 1955), de que se deve
procurar estudar historicamente uma sociedade - "sujeito plural" -
considerando nela a presença, num mesmo tempo, de vários tempos distintos; e
identificadas com esses vários tempos, várias gerações. Uma época, considerada sob
critério sociológico, compreende a coexistência de várias gerações. Para o professor
Marías, "cuatro generaciones, ni más ni menos" formariam o que ele denomina
uma "época mínima". Portanto, uma duração de cerca de cinqüenta ou sessenta
anos. Dando-se como ponto de partida, para a época considerada no ensaio que se segue, o
fim da década 60 ou o início da 70, no século XIX, e como ponto de conclusão, o fim da
segunda década do século XX, procede-se um tanto arbitrariamente, é certo; mas
inclui-se na época evocada a presença de quatro gerações que com seus quatro tempos
distintos formariam um tempo sociologicamente único ou característico. Os homens que
constituem a época presente não são, como adverte o Professor Marías, "sino
parcialmente coexistentes, de manera que el hombre de "outro tiempo" - el
anciano - conviva com el de éste y se encuentrem lo dos o más tiempos cualificados
en un mismo presente". Tratando-se de época menos presente - o fim do século
passado e o começo do atual, num período de cerca de cinqüenta anos - resolvemos
considerá-la não através da coexistência de duas gerações apenas mas de quatro
- bisavô, avô, pai, filho - integrando-se assim o período, por um lado, na
época anterior, através do bisavô, e, por outro na posterior, através do bisneto,
conforme o extremo que sirva de ponto de referência.
Se todo o nosso esforço de colheita de
material para os estudos a que nos temos aventurado em torno das origens e do
desenvolvimento da sociedade patriarcal no Brasil, vem sendo, não apenas pesquisa igual
às outras, as convencionais, de campo e de arquivo - mas um difícil esforço, com
alguma coisa de aventura, de busca de documentos pessoais guardados em arquivos de
família: de descoberta de papéis esclarecedores, sugestivos e significativos, ainda que
obscuros; de conquista de pequenos nadas capazes, às vezes, de iluminar melhor do que as
grandes luzes, as sombras de um tempo morto - nenhuma parte desse esforço foi mais
essa aventura do que a última: a que se reflete no ensaio agora publicado, Ordem e
Progresso. Resultou enorme a massa de material autobiográfico que conseguimos, não
num ano ou dois, mas em mais de dez, na verdade quase em vinte, recolher daqueles
sobreviventes.
Estas novas confissões - não a austero
familiar do Santo Ofício mas simples pecador, igual aos depoentes - só nos foi
possível reuni-las num esforço aparentemente fácil, na verdade dificílimo, de
bisbilhotice disfarçada em investigação sociológica - ou o contrário - e
tendo por colaboradores, amigos dedicados e bons. A esses amigos, nossos agradecimentos. A
todos eles: inclusive "Doninha de Sigismundo" pecadora arrependida que velha e
vestida de preto, como a mais severa das viúvas, contou-nos há anos, durante meses a
fio, intimidades da vida sexual de ilustres homens de governo do fim da Monarquia e do
começo da República, suas informações confirmando as que com muita dificuldade
recolhemos sobre assuntos afins dessas intimidades, de eminente baronesa do Império.
Ninguém espere do ensaio que se segure que
seja história convencional do período de vida brasileira que principalmente considera.
De modo algum é este o seu propósito; e sim o de tentativa de interpretação antes do
passado íntimo que do público, do homem nacional, através do seu existir ou do seu
viver no mesmo período: um viver que foi nosso afã procurar surpreender em diversas
áreas e em diferentes tempos, sob a forma do que essas diferenças nos pareceu ter
concorrido para um ser sintético ou coletivo; e para um tempo composto embora plural.
Interpretação das relações do primeiro desses dois passados com o outro - o
público - em pontos por nós considerados psicológica e sociologicamente
significativos para a compreensão do que seja o ethos brasileiro, através de
constantes que pareçam vir superando, em suas formas de ser constantes, diferenças de
área e de tempo sociais.
Mais sobre este assunto se dirá na "Nota
Metodológica"; e outro tanto, na "Nota Bibliográfica". Na última se
registram as principais fontes de informação impressa de que nos servimos além dos
depoimentos escritos e das anotações daquelas confissões orais que constituem o lastro
ou a base principal em que se apóia quanto, no ensaio que se segue, pretende ser
generalidade nova ou interpretação também nova sobre tema já muito versado. Do ponto
de vista político, versado de modo admirável pelo escritor José Maria Belo na sua História
da República - destaque-se desde já; embora com algumas omissões; várias
delas graves em obra, como a sua, principalmente cronológica no seu critério de
apresentação e ordenação de fatos.
Neste prefácio, apenas desejamos exprimir
- repita-se - nossos agradecimentos não só a quantos nos auxiliaram com
aquelas suas informações - agradecimentos que serão renovados noutras
oportunidades, neste mesmo livro - como àqueles que mais paciente e inteligentemente
nos ajudaram no preparo do ms. para publicação. Injusto seria deixarmos de
particularizar Adalardo Cunha e Marina Nicolay de Carvalho, no Rio de Janeiro, Lubélio
Zirondi, em São Paulo, e Marco Aurélio de Alcântara, no Recife.
GILBERTO FREYRE
Santo Antonio de Apipucos,
julho de 1957.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso: processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre, aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. 2v.
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