PERFIL DE EUCLYDES E OUTROS PERFIS
Prefácio
A Região e Tradição, feito quasi todo de páginas de adolescencia recolhidas de folhetos, revistas e jornais velhos, se junta agora Perfil de Euclydes e outros perfís. O material reunido aquí é, na sua maior parte, mais recente: artigos escritos aos vinte e cinco, aos trinta e aos trinta e tantos anos. Não deixa, porem, de incluir páginas remotas. Remotas são as páginas sobre Dom Pedro II, nas quais se reflete um entusiasmo quasi de menino pela "realeza efetiva" que, mesmo assim, de modo nenhum deve ser identificado com inclinação por nazismos, fascismos ou ditaduras de feitio nazista ou fascista; pois a monarquia eletiva a serviço do povo e completada pela aristocracia intelectual e técnica, sugerida por Lemaitre, está longe de confundir-se com as soluções simplistas que são os tais "ismos" autoritarios. Ainda mais remoto é o artigo acerca de Augusto dos Anjos, há tanto tempo esquecido e tranquilo na revista, hoje morta, de Boston, The Stratford Monthly, onde fizeram-me o galanteio de publicá-lo em 1924. Galanteio raro naqueles dias, tão longe dos de hoje, de "boa vizinhança" às vezes derramada nos agrados e festas que a gente do Norte do continente dispensa a escritores, cantoras, políticos, publicistas e artistas do Sul. Traduzido do inglês por Miguel Lopes Vieira Pinto o artigo sobre o poeta paraibano aparece agora pela primeira vez em português mais como simples curiosidade do que como valor de qualquer especie. Aliás essa é a desculpa com que se apresenta a coletanea inteira da qual é possivel que se salve - para consolo do autor - uma ou outra antecipação de adolescente ou de moço que coincida com as conclusões de críticos mais velhos ou autorizados; ou com as dele proprio, passados os quarenta anos.
Joaquim Nabuco escreveu uma vez que "já antes dos quarenta anos, o brasileiro começa a inclinar a sua opinião diante dos jovens de quinze a vinte e cinco anos". Pelo que o Brasil lhe parecia quasi uma França que se deixasse governar pelo Quartier Latin: um
país de "prematuridade abortiva em todo campo da inteligencia". " Será dificil a um estudante nosso de mérito - observou o Nabuco de 1985 - servir-se a primeira vez do microscopio sem longo descobrir um novo organismo que os sabios estejam procurando em vão há anos, nos diversos laboratorios da Europa". E irônico, revelando um humour que depois perderia toda a sua malicia sob a impossibilidade olímpica do Plenipotenciario - e por fim Embaixador do Brasil - e do Católico Prático, Nabuco concluia seus reparos à "neocracia" brasileira, para ele responsavel pelos nossos defeitos de improvisação, de indisciplina, de precipitação: "Eu receio muito o dia em que tivermos um cardeal nosso. O representante no Sacro Colegio da nossa impulsiva mentalidade, se o Conclave não ceder às suas vistas superiores, ameaçará vir para a imprensa contar as irregularidades da apuração das cédulas, perturbando a eleição que há dois mil anos se faz tranquilamente do sucesso de S. Pedro. Se por acaso um nosso patricio recebesse um dia a tiara então, sem blasfemia, nem o Espírito Santo conseguiria contê-lo na reforma geral da Igreja. Certamente com papas brasileiros, a infalibilidade não teria levado tantos séculos para ser proclamada dogma".
Deliciosa malicia, decerto, a dessas palavras insuspeitas. Insuspeitas por virem de um homem que andava então perto dos cincoenta anos. Que tivera suas audacias de moço e, na campanha abolicionista, de tal modo se excedera como revolucionario, como reformador radical, como crítico dos senhores de terra e de escravos e do proprio clero, que ganhara fama de agitador perigoso. Que se revelaria, entretanto, capaz de escrever a obra admiravel não só pela inteligencia como pela pachorra às vezes quasi de frade do tempo antigo, na organização de papéis de familia e na utilização de documentos públicos que é Um Estadista do Imperio. Este é o ideal : que nos povos, ao Senado ou à Suprema Corte, ao Papado ou ao Sínodo Presbiteriano se junte o Quarteirão Latino; e nos individuos á paciencia, a originalidade; à prudencia, a coragem.
Coragem de idéias, de atitudes e até de palavras, que tantas vezes se perde sob o excesso de prudencia literaria, intelectual ou cívica; e mesmo de medo aos riscos simplesmente físicos. Coragem do homem de quarenta não de inclinar-se - para não cair no pecado, realmente feio, da "neocracia", denunciado por Nabuco - diante do de quinze, do de vinte ou do de vinte e cinco (ele proprio, outro individuo ou outra geração) mas de respeitar, no seu passado e nas pessoas mais moças, audacias de adolescencia e até de tolerar precipitações e exuberancias. Pois, num caso, o desrespeito pela mocidade - propria ou alheia - e no outro a intolerancia às suas audacias podem nos levar àquela dura prudencia que nos torna mais estatuas do que homens, tal o medo de comprometermos nossa dignidade intelectual ou nosso macio conforto burguês, intervindo na vida comum, participando das lutas entre os homens e colorindo com nossos proprios personalismos os acontecimentos da nossa época.
" My dear, audacious Moore", -- Walter Pater escreveu a George’’’ Moore, quando este lhe enviou um exemplar de Confessions of a young man. Um livro de algum interesse e muito brilho, mas exuberante e superficial, que por esse lado só pode ter desagradado o Pater que escreveu Marius the Epicurean, romance sem igual pela sua filosofia corajosa integrada na mais madura e repousada das artes. Mas o quasi monge de Oxford soube admirar no livro do irlandês meio estroina a unfailing liveliness de livro de mocidade. Esta me parece a atitude que toca ao homem de quarenta anos assumir em relação com o de vinte e com o menino de quinze; a atitude, tambem, do homem de quarenta consigo proprio, quando levado por curiosidade ou por exigencia de terceiro, lê o que escreveu quasi menino e adolescente. Perdoando a super-facilidade, a precipitação, a exuberancia, o homem de quarenta encontra no de vinte e até no menino de quinze o que admirar e às vezes até o que reter e conservar na madureza: liveliness, por exemplo. E sinceridade, franqueza, coragem - que tantas vezes murcham com a idade e o triunfo burguês. Nada de neocracia; mas, por outro lado, que a idade avançada não se constitua sozinha em senhor absoluto da vida do homem ou da vida dos homens. Que estes deixem sempre lugar para a adolescencia. Que ninguem deixe completamente de ser adolescente. Que povo nenhum perca o contacto com a adolescencia. Ideal a ser conciliado com a sabedoria individual de cada um e a social de cada povo: a sabedoria de sabermos envelhecer sem nunca nos estratificarmos. A sabedoria, entre os intelectuais brasileiros do nosso tempo, do mestre João Ribeiro - que teve há pouco esse seu traço destacado inteligentemente pelo sr. Alvaro Lins; e, entre os povos de hoje, do inglês.
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São artigos e trabalhos de datas diversas os reunidos aqui. Aos mais remotos, como a conferencia lida na Biblioteca do Estado de Pernambuco em 1925, quando se comemorou o centenario do nascimento do velho Imperador - conferencia dentro da qual aparecem agora trechos de trabalhos mais antigos: um deles o artigo que publiquei em 1923 no jornal manárquico de Lisboa, Correio da Manhã e que foi tão generosamente comentado no mesmo ano, em La Prensa, de Buenos Aires, por Oliveira Lima - juntam-se estudos recentes, como " O velho Felix". Outros foram recolhidos de simples revistas de estudante, quasi desconhecidas: quasi jornais de colegio.
O trabalho sobre Euclydes da Cunha é recente. Nas páginas dedicadas a Oliveira Lima vão aproveitadas notas de varias épocas, conforme as indicações que alí aparecem. As notas sobre Manuel Bandeira e Felippe d’Oliveira são a primeira de 1938, a Segunda de 1933, com acréscimos recentes. A sobre Julio Bello é de 1937, a nota sobre Farias Brito, de 1940 ( Correio da Manhã, Rio), a sobre Estacio Coimbra, de 1941 ( Revista do Brasil, Rio), a sobre Nina Rodrigues, deste ano ( La Nacion, Buenos Aires). As páginas a respeito de Odilon Nestor são tambem recentíssimas.
Esses dispersos - os mais antigos e mesmo os relativamente novos - são apresentados com algumas depurações e alguns acréscimos. Mas respeitadas sempre as idéias essenciais: até aquelas a que oponho hoje restrições.
Sei que a preocupação com palavras - responsavel principal pelas depurações; a preocupação com a relação de umas palavras com as outras, e até com as vírgulas e os pontos; sei que essa preocupação como que de estética, de estilo e de composição, há de fazer sorrir alguns críticos e mesmo alguns amigos habituados a meus "desleixos de linguagem". O professor Gilberto Amado costumava dizer generosamente de mim, a amigos comuns, que "o Freyre, tendo qualquer coisa de interessante, não sabe, coitado, escrever". E há pouco soube que mais ou menos a mesma é a opinião a meu respeito de notavel publicista brasileiro, meu camarada. Isto para me referir apenas a juizes respeitaveis, conhecidos e admirados pelo fulgor do verbo e pela elegancia da expressão literaria. Como eles, outros, de menor autoridade, desdenham das pretensões a escritor que me animam, embora admitam no ingenuo pretensioso que sou desde a meninice vocações porventura mais altas: de "sociólogo", de "filósofo", de "pensador", de "historiador" - os big guns da hierarquia intelectual, como os chamou uma vez Barrie. O leitor há de perdoar que, mesmo assim, o ingenuo ou pretensioso insista em se considerar escritor - mesmo sob a forma de aprendiz eterno; e se volte para seus esforços - talvez devesse dizer seu fervor, pois estamos em zona de salvação menos pelas obras do que pela graça ou pela fé - desde os dias de estudante, e até de menino de colegio, no sentido de novas combinações de palavras, umas com as outras, de nova valorização de substantivos e adjetivos velhos por meio de novas relações entre eles, diretas ou por intermedio de adverbios - talvez um anglicismo - e, ainda, de procura de expressão e ritmo brasileiro e pessoa, em lingua portuguesa, para experiencias de sensibilidade ou associações de idéias nem sempre inteiramente iguais às dos clássicos e dos mestres brasileiros e portugueses do idioma da literatura, como para uma das audacias, ou antes, uma das aventuras que mais o prendem ainda hoje à adolescencia. Não que julgue ter obtido, neste particular, vitoria ou sequer meia-vitoria digna de atenção; mas porque acredita estar ainda em luta contra convenções portuguesas e acadêmicamente brasileiras de "correção", "elegancia" e "primor" de arte literaria - ou talvez oratoria - às quais se houvesse docemente se submetido teria atraiçoado o sentido ou a concepção de estilo e de ritmo que melhor corresponde às suas tendencias. Para não atraiçoá-las é que se tem afastado daquelas elegancias e graças ortodoxas, caindo, é certo, em cacoetes e caprichos até de pontuação, como os lamentados pelo jovem e já austero mestre de português literario que é o sr. Aurelio Buarque de Hollanda.
Ao
crítico acadêmico repugnam repetições: o escritor que
repete palavras será tudo menos um estilista digno de
aprovação acadêmica. Repetição é
desleixo, descuido relaxamento. Quando a verdade é que na
repetição de palavras às vezes está a vida ou, pelo
menos, o vigor de uma mensagem ou de uma evocação; a
exatidão de uma análise. Que estas se apresentem decompostas,
é pecado que o acadêmico não perdoa; e com razão,
pois o seu rito, sua ortodoxia mesma, é a composição
perfeita, a frase de acordo com todas as regras da gramática e da
estilística. Ellis salientou uma vez que a maior fascinação
daqueles narradores desleixados da época elisabeteana que Hakluyt reuniu
em coleção hoje célebre, está justamente no fato de
sua maneira decomposta do escrever nada ter com a dos estilistas rigorosamente
literarios, geométricos, gramaticais. E entretanto, são
páginas cheias de vida as que recolhem aquelas palavras
inacadêmicas, de homens profundamente humano, as confissões de suas
aventuras de ingleses profundamente ingleses, os seus dramas de maiores
conhecedores do mar e dos trópicos que os proprios Conrads e Stevensons,
Lafcadios Hearns e Hudsons dos nossos dias. Ao lado de qualquer daqueles homens
sem graças acadêmicas de estilo mas cheios do poder de fecundar
assuntos virgens um Loti corretamente acadêmico se arrendonda em eunuco
literario, que é no que acabam todos os estilistas para quem escrever
é antes fazer renda segundo modelos fixos, que a expressão, a
evocação e a análise de experiencias proprias ou vividas
por empatia. Experiencias evocadas, analisadas ou exprimidas por uma
combinação de formas novas, pessoais e originais com as
tradicionais e clássicas.
Concordo com os que me acusam de escrever mal; com os que lamentam minha fraqueza na arte de composição. Não sou decerto literato - muito menos literato ortodoxamente acadêmico, senhor e voluptuoso da arte de construir convencionalmente bem suas frases. Que me perdoem, porem, a insistencia ingenua e final inocua em me considerar escritor, admitida a distinção entre escritor e literato; admitida tambem no escritor simples e sem pretensões a literato a liberdade de escrever literariamente mal, de desprezar um tanto exigencias da composição, de procurar até conseguir, como puro experimentador, pequenas vitorias de decomposição de regra, de estilo e de convenções literarias e de combinação nova de palavras que reatem às vezes tradições esquecidas. No idioma português, por exemplo - tão plástico e simples nos "primitivos" como Fernão Lopes e tão hirto e solene nos clássicos do sabor acadêmicamente literario do Padre Bernardes - as combinações aparentemente novas às vezes nos aproximam daquele primitivismo mais sensivel que o classicismo rígido às audacias de criação e da experimentação. Tais combinações novas nos permitem exprimir mais a nosso gosto e jeito aventuras de personalidade em que se alonguem experiencias de novo espaço físico e social e de novos contactos de uma cultura com outra: da européia com a amerindia e com a africana; da lusitana com outras culturas européias transplantadas à América e em igual processo de "transculturação". Aventuras já meio extra-européias, embora continuemos todos presos a tradições intelectuais e artísticas da Europa mais do que às da América ou da África. Mais isso é outra historia.
Gilberto Freyre
Santo Antonio de Apipucos, fevereiro de 1943
Fonte: FREYRE, Gilberto. Perfil de Euclydes e outros perfis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944. 233p. (Documentos Brasileiros, 41).
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