Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



PESSOAS, COISAS E ANIMAIS
Apresentação


Na primeira edição de Uma Cultura Ameaçada: a Luso-Brasileira (Recife, 1940) estão anunciadas, entre as obras subsequentes de Gilberto Freyre, algumas que não foram ainda e, talvez, jamais venham a ser publicadas, como Um Brasileiro na Espanha e guias práticos, históricos e sentimentais da Bahia, do Rio de Janeiro e de Belém do Pará, semelhantes aos dedicados ao Recife (1934) e a Olinda (1939). Esses dois guias foram - diga-se de passagem - pioneiros no gênero em todo o mundo. E no Brasil talvez tenham sido os primeiros livros para bibliófilos, assim chamados pela primorosa apresentação gráfica e tiragens limitadas.

Dentre os livros anunciados em 1940 havia com o título escolhido para esta coletânea de trabalhos inéditos e dispersos do autor, publicada pela MPM Propaganda no Natal de 1979, em continuidade a uma série de edições artísticas pelas quais a literatura brasileira lhe ficará para sempre devedora.

Tanto a seleção dos textos como sua sistematização ficaram sob minha exclusiva responsabilidade, por honrosa delegação do autor e da casa publicadora: delegação que, aqui, desvanecido, agradeço. Também são meus os títulos atribuídos à maior parte dos trabalhos escolhidos, embora o estilo gilbertiano seja neles evidente, pois foram colhidos nos respectivos textos, tal como os indexadores escolhem as palavras-chaves em determinado tipo de índice: o LWIC, ou Key World in Context.

Embora Pessoas, Coisas & Animais tenha sido o título genérico da colaboração de Gilberto Freyre em O Cruzeiro, este livro não se constitui apenas de artigos publicados na referida revista, mas também de outros que, em diferentes épocas, foram divulgados no Diario de Pernambuco, no Jornal do Comércio do Recife, em O Jornal A incluídos trabalhos inéditos como, por exemplo, a conferência sobre Emílio Cardoso Ayres e o discurso sobre Rodrigo Mello Franco de Andrade. As fontes e as datas estão indicadas no fim de cada artigo.

Destacam-se neste conjunto de inéditos e dispersos de Gilberto Freyre a variedade temática e a originalidade estilística. Tanto uma como outra podem ser observadas já nos artigos da primeira fase de sua atividade jornalística, recentemente reunidos em dois volumes da obra Tempo de Aprendiz (São Paulo, IBRASA, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1979). É pena que os editores da referida obra - graficamente elogiável - não tenham acrescentado ao texto um índice onomástico e temático. A omissão de índices até em obras de ficção, para que os leitores possam encontrar facilmente certos personagens e determinados episódios. O índice onomástico e temático é ainda mais indispensável em obras como Tempo de Aprendiz: tanto por seu caráter compósito como pela ordenação cronológica dos textos reunidos. Além de facilitar a consulta, um índice como o sugerido evidenciaria o generalismo que cedo madrugou em Gilberto Freyre. Não o generalismo superficial de quem trata de tudo sem se aprofundar em nada, nem o generalismo puramente conceitual dos pensadores abstratos, mas o generalismo como visão e global e interdisciplinar de cada tema ou problema estudado: a abordagem sistêmica de que tanto se fala hoje em dia.

Fosse Gilberto Freyre um generalista por puro e simples diletantismo e não teria certamente se antecipado a vários autores, brasileiros e estrangeiros, na defesa de certas idéias, conceitos e iniciativas. Há neste livro, por exemplo, uma antecipação que é oportuno salientar, face à publicação recente de uma obra que vem sendo insistentemente considerada pelos noticiaristas literários - neste ponto e em outros, melancólicos repetidores de press release - como pioneira em destacar a participação do povo na História do Brasil. Ou muito me engano, ou foi em 1933 e através de Casa-Grande & Senzala que o povo entrou em nossa História. Isto foi, aliás, reconhecido pelo antropólogo Darcy Ribeiro no inteligentíssimo prefácio que escreveu para a edição venezuelana daquela obra de Gilberto Freyre (Caracas, Biblioteca Ayacucho, 1977, p. XI et passim). Em artigo de 1942 - agora reproduzido em Pessoas, Coisas & Animais - Gilberto Freyre volta àquele sua tese de 1933. Comentando uma observação do Prof. Castro Rebelo endossada por Lídia Besouchet - a de que "em torno de Mauá pode-se escrever a história econômica do Império"-escreve ele: "Não é em torno de nenhum grande homem de fraque a cartola - nem mesmo o Imperador - que se pode escrever a história econômica do Império, mas - a termos que escrevê-la em torno de alguém - em volta do escravo negro. Poiso negro é que foi o alicerce vivo do sistema monocultor, escravocrata e latifundiário em que consistiu a economia - na verdade a civilização inteira - do Império".

Há várias outras antecipações de Gilberto Freyre que este livro recolhe. Duas delas estão na segunda parte e se referem ao fenômeno da criação científica e artística e ao problema das histórias em quadrinhos. Os dois assuntos vêm sendo ultimamente muito debatidos pelos especialistas em ciência da informação (information science) e em comunicação de massas (mass communication). No Brasil, a prioridade no trato de tais temas cabe, sem dúvida, ao autor deste livro; como se pode ver pelos anos de publicação do artigo "Citar ou Não Citar"(1943) e das crônicas sobre quadrinhos (1948 a 1951).

Embora graduado em Ciências Sociais apesar de suas importantes contribuições à Sociologia, à Antropologia e à História Social, Gilberto Freyre poderia ser definido como antiespecialista. Emprego o verbo no condicional porque o prefixo anti não me parece inteiramente adequado à Weltanschauung gilbertiana, que parece caracterizar-se antes pela conciliação do que pela oposição entre contrários. Admirador de Marx, por exemplo, mas fazendo reservas a muitas das idéias do genial pensador, ele sempre se considerou, não antimarxista, mas pós-marxista. E com a mesma disposição de tudo compreender, não se considera católico nem anticatólico, mas acatólico; não pró ou contra as academias, mas inacadêmico.

Um autor assim open minded, com uma Weltans-chauung tão generosamente abrangente, só poderia ter como lema o conhecido verso no qual Terêncio dizia que, por ser homem, nada de humano reputava alheio a si. Com 17 anos, em discurso de "Adeus ao Colégio" (depois incluído em Região e Tradição), Gilberto Freyre já citava em latim o verso de Terêncio: Homo sum: humani nihil ame allienum puto. Creio mesmo que a cosmovisão gilbertiana é mais amplamente integradora do que a terenciana. Sobre sua evolução intelectual existe significativa confidência, porventura esquecida em nota de abertura de um livro publicado em 1935: aquela em que o autor afirma terem suas idéias de adolescente se modificado em vários pontos, "num sentido que lhe parece mais humano e menos humanista" (cf. Artigos de Jornal. Recife, Edições Mozart, p. 9). Hoje ele talvez pudesse dizer, parafraseando Terêncio: sou vivo: nada do que é vivo reputo alheio a mim. Pois sua abrangente curiosidades se estende a pessoas, coisas e animais.

Num escritor mais cartesiano do que proustiano, a recordação ficaria reduzida À seguinte frase: "De uma adolescência passada quase toda nos Estados Unidos, recordarei hoje algumas experiências de possível interesse para os alunos desta Escola e para os seus amigos aqui reunidos". No estilo proustiano de Gilberto Freyre a enumeração exemplificativa - nele muito freqüente - está como que suspensa entre dois travessões que fazem a frase estender-se por quase três páginas (estou citando a primeira edição da conferência, adiante referenciada):"De uma adolescência passada quase toda nos Estados Unidos - em universidades, principalmente na de Colunbia - e um pouco por toda a parte, até por Greenwich Village, que é em New York o bairro de artistas e de intelectuais mais ou menos neuróticos, vítimas do puritanismo das cidades do interior, em busca de uma libertação que às vezes se resolve em pura libertinagem; em revivals de negros no Texas e em Kentucky; na Universidade Católica, entre Dominicanos e Beneditino, ascetas magros, angulosos, estudando química e teologia; em Salt-Lake City, a cidade onde no tempo de Josepy Smith se praticou tamanho excesso de poligamia, cidade quase vizinha da de Reno, que vive, ao contrário, de verdadeiro turismo de gente à procura de divórcio; de uma vida, na América do Norte, que me faz sentir o poema em eu Vachel Lindsay - uma das maiores vozes no jovem poesia americana - vasou todo o lirismo da mobilidade transcontinental:

They tour from Memphis, Atlanta, Savannah,
Tallahassee and Texarkana,
They tour from St. Louis, Columbus, Manistee
They tour form Peoria, Davenport, Kankakee
Cars from Concord, Niagara, Boston,
Cars from Topeka, Emporia and Austin
Cars from Chicago, Hannibal, Cairo,
Cars from Alton, Osweho, Toledo
Cars from Buffalo, Kokomo, Delphi,
Cars from Lodi, Carmi, Loami,
Ho for Kansas, land that restores us
When houses choke us, anda great boods bore us

e não só senti-lo às cidades e aos lugares, mas com relação às classes e aos grupos que às vezes numa mesma cidade grande, vertical, se distanciam mais que os continentes; senti-lo com relação às distâncias sociais - que ainda são enormes na suposta terra da democracia - conhecer poetas negros de Harlem, índios de Arizona, caboclos das Filipinas, John D. Rockefeller Junior no palacete de New York em que, mais de uma vez, no meu tempo de Columbia, ele recebeu os estudantes estrangeiros; Calvin Coolidge na Casa Branca; e num segundo andar de subúrbio de Brooklyn tomar chá de Rússia com o romancista Leon Kobrin, judeu da Lituânia que foi companheiro de jornalismo de Trotsky em New York, ver-se matar boi e se fazer chourço nos grandes matadouros de Armour e Swift e se imprimir o New York Times; e sobretudo conhecer a vida intelectual a artística na intimidade - poetas como Vaxhel Lindsay com quem mais de uma vez jantei no Brevoort - ele sempre com um olhar triste que talvez fosse de saudade do mundo que ia deixar tão cedo - aquele seu país de fords rodando de Norte a Sul, de Leste a Oeste, onde tantas vezes viajou sem dinheiro, cantando seus poemas pelos povoados, pelas granjas, entre os negros dos algodoais, entre os montanheses, tomando banho nos rios, dependurando as roupas para secar nas árvores; como Amy Lowell, de quem fui hóspede na sua casa de Brookline, a velha casa dos Lowell onde ela vivia rodeada de livros raros, de jarros chineses e de caixas de charutos de Manilla; críticos como Mencken; escritores como Carl van Doren; cientistas como Boas; sábios como Giddinhs e Selingman; de uma vida de estudante que incluir uma variedade de impressões e de contatos fora dos livros, das aulas, dos seminários, dos laboratórios - recordarei hoje algumas experiências de possível interesse para os alunos deste Escola e para os suas amigos aqui reunidos". (O Estudo das Ciências Sociais nas Universidades Americanas. Recife, Edição de Momento, 1964, p. 20-30, 2ª ed. Publicada na hoje extinta revista Rumo, Rio de Janeiro, v. I, n.º, p. 4-24, 1.º trimestre de 1943.)

Foi Álvaro Lins quem primeiro comparou o estilo de Gilberto Freyre com o de Marcel Proust, esclarecendo: "Ambos se afastam da linha dos estilos tradicionais das suas línguas. Ambos estão determinados pela introspecção e pela busca do ' tempo perdido', um no homem, o outro na sociedade. Ambos estão sustentados por uma unidade interior que contrasta com a desconexão. Ambos se destinam a exprimir nuanças e detalhes em literaturas dominadas pelas idéias gerais. Ambos apresentam um 'fio de Ariadna' no meio de construções às vezes verdadeiramente labirínticas" (cf. Jornal de Crítica. Segunda série. Rio de Janeiro, José Olympio, 1943, p. 212).

O estilo de Gilberto Freyre não é simples imitação do estilo de Proust, mas conseqüência do que há de proustiano em sua atividade criadora, definida por Diogo de Melo Menezes nesta síntese magistral: "Seu fim, o fim de sua atividade criadora, seira este: o de ressuscitar passados perdidos, ode revelar vida, o de compreender personalidade, o de ser fiel à realidade nesse esforço de ressurreição, revelação e compreensão da vida humana, tal como essa vida se vem condensando no Brasil" (cf. Gilberto Freyre. Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944, p. 249).

A disposição de compreender pessoas, coisas e animais leva Gilberto Freyre a como que introjetar-se no ser de cada pessoa, coisa e animal que, assim, acaba fazendo parte de sua circunstância, como diria Ortega y Gasset. Entre ele e o objeto de sua observação passa a ocorrer o que os gregos chamavam de empatia. Somente esse poder poética explica o seu estilo, assim definido pelo erudito, inteligente e sensível crítico Roberto Alvim Corrêa: " Estilo de poeta, por ser visual. De pintor, ou de homem entendido em linhas e cores, que, para existir, precisa olhar, ver, saber o que pensa e sente, vendo. Vendo a natureza com olhos de pintor, contando--nos como nele a mesma repercute, ou simplesmente falando-nos de pintura, para ele um modo de pôr ordem em si próprio" (cf. "Gilberto Freyre, Ensaísta", e Gilberto Freyre: Sua Ciência, Sua Filosofia, Sua Arte. Rio de Janeiro, José Olympio, 1962, p. 174-175).

É indispensável também recordar o fato biográfico dele só Ter conseguido aprender a escrever depois de muito desenhar. Eram desenhos expressionistas que irritavam o paisagismo realista de Telles Júnior. Lembrando tal fato, no ensaio sobre sue velho professor de Desenho, Gilberto Freyre informa que continua a haver dentro dele, secretamente colaborando com o escritor, "um aprendiz da arte de desenho que não se cansa de procurar reduzir a imagens suas sensações e até suas idéias. E não apenas suas observações de gentes e paisagens". Esse imagismo Luís Jardim já salientar em 1935, ao observar que Gilberto Freyre "emprega palavras como quem quer reduzir tudo, desde o mais abstrato ao mais concreto, ao máximo de sugestão ou mesmo de expressão plástica". E concluindo seu prefácio à primeira edição dos Artigos de Jornal, escrevia Luís Jardim que "neste uso de imagens para exprimir idéias, quase sensualmente, como se a palavra não bastasse, é que também em parte consiste a sua forma original e forte de expressão" ( op. cit., p. 31 e 33).

Neste livro - que organizei não apenas desvanecido com a confiança do autor e do editor, mas deliciado com a releitura de algumas das melhores páginas do ensaísmo em língua portuguesa - há exemplos abundantes do imagismo gilbertiano: um imagismo nada retórico ou superficial, justamente porque responde a uma necessidade íntima de expressão; imagismo "claro, preciso e sintético", tal como os poetas ingleses e americanos, que ele conheceu e com alguns dos quais conviveu na juventude, desejavam que fossem as imagens. Em seu livro The Poetic Image, Cecil Day-Lewis oferece uma definição de imagem que caracteriza muito vem a prosa poética de Gilberto Freyre: "pintura feita com palavras".

Veja-se como exemplo de "pintura feita com palavras" este pequeno trecho da obra-prima que é a evocação de uma "noite sinistra" em terras do Engenho S. Severino do Ramo: "Um desses passeios longos me fez voltar, tarde da noite, da cidade de Pau d'Alho ao engenho, à garupa do meu tio Dedé, num cavalo chamado Bandinha, devido ao seu jeito caviloso de só andar de lado. Noite para os meus sete anos, sinistra. Tudo escuro. Chuva grossa. Trovão. O rio já roncando de cheio. O vento gemendo nos pés de cana: gemidos de lamas penadas. O próprio tio com medo; mas - justiça lhe seja feita agora - não tanto da fúria dos elementos nem das almas do outro mundo como das senhoras furiosas e assustadas que nos receberiam na sala da frente do S. Severino, já com remédios caseiros contra os perigos do resfriamento e indignadas com a doidice daquele passeio em dia tão mau. Pois não vira o idiota do Dedé que a chuva estava se armando desde a hora do almoço? Não vira o aluado isso? Não vira aquilo? E patati-patatá".

O curioso é que esses achados surgem de repente nos ensaios sobre temas, por assim dizer, mais severos, como, ao demonstrar que já havia questão social entre nós, na época de Rui Barbosa, Gilberto Freyre fala de "um Brasil (...) já muito salpicado do negro e do pardo de bueiros de fávricas e de usinas; e não idilicamente verde em sua virgindade agrária ou sua castidade pastoril'.

Não sendo apreciador de retórica - "eu detesto teus oradores, Bahia de Todos dos Santos!" exclamou ele uma vez --- Gilberto Freyre quase não qualifica os substantivos, como observou Luís Jardim; substitui a superficialidade dos adjetivos pela força dos advérbios; ou pela adverbialização dos adjetivos e substantivos: adverbialização que, às vezes, se repete numa só frase, como por exemplo, ao salientar a dificuldade que teve Emílio Cardoso Ayres em "deseuropeizar-se para integrar-se numa trans-Europa para ele, tão sofisticadamente europeu, paradoxalmente sedutora"; ou, ainda no mesmo ensiao-conferência sobre Emílio Cardoso Ayres, ao se referir à "mais tecnicamente civilizada que artística e intelectualmente sofisticada Escandinávia".

A adverbialização em Gilberto Freyre daria pano para as mangas, isto é - falando menos gilbertianamente - forneceria material para toda uma dissertação de mestrado em língua portuguesa. Eis alguns exemplos, colhidos neste livro, aqui e ali: "monotonamente solene", "livremente crítico", "cruamente apologético", "um país virginalmente agrícola", um gato "orientalmente volutuoso", "cores volutuosamente vivas", "motivo rasgadamente ideológico ou ostensivamente político", "solenemente ortodoxo em religião e em política", "vitoriosamente solene", "cívica e talvez artisticamente perfeito", "rusticamente inacabado", "rigidamente acadêmico ou corretamente oficial", "figura convencionalmente heróica ou moral e civicamente exemplar", "melancolicamente secundárias", "monotonamente correto".

É, como se vê, uma adverbialização que surpreende e agrada, porque apesar de, por vezes, insólita, sempre se revela adequada. Inusitadas mas expressionisticamente oportunas soa, por igual, suas associações de elementos físicos e morais, de que forneço, colhido neste livro, um só mas genial exemplo: "verde fidalgo dos canaviais".

Talvez algum leitor preferisse que as pessoas, coisas e animais de que Gilberto Freyre fala neste livro se sucedessem sem qualquer critério de ordenação textual e como que aleatoriamente. O fator aleatório parece estar na moda, tanto em ciências exatas e biológicas como em ciências sociais e até nas artes: ide, como exemplos, o movimento browniano em Física, a biologia filosófica de Monod e a música estocástica de Xenakis. Ao próprio Gilberto Freyre não agradam o que considera como excessos de ordenação que acabam "abafando virtudes bem mais interessantes que a pura regularidade ou a simples boa ordem" (cf. Prefácios Desgarrados, v. II, p. 701). Mas a um bibliógrafo talvez deformado pelos estudos de classificação dos conhecimentos repugna misturar alhos e bugalhos: mistura gilbertiana de que resultaram - é forçoso reconhecê-lo livros interessantíssimos como Perfil de Euclydes e Outros Perfis (1944) e, mais recentemente, o próprio Alhos & Bugalhos ( Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978).

Optei, portanto pela ordenação do textos em três partes, subdividindo a primeira conforme cinco diferentes grupos de personalidades. Mas o classificador, como o antologista, acaba sendo o primeiro a reconhecer as imperfeições de seu trabalho. Creio, porém, que o critério sistemático é, no caso deste livro, muito mais expressivo do que teria sido o cronológico, adequadamente adotado, entretanto, em Tempo de Aprendiz. A classificação dos textos por matérias chega a dispensar, em Pessoas, Coisas & Animais, o índice temático.

O maior número de pessoas do que de cisas e animais deve ser atribuído ao grande interesse do autor pelo gênero biográfico, do qual já tratou em várias oportunidades: inclusive em páginas incisivas de Sociologia (1ª ed., 1945, v. I, p. 183-184;2ª ed., 1973, v. I, p. 228-229) e, posteriormente, nessa obra notável mas, infelizmente, quase desconhecida que é Contribuição Para Uma Sociologia da Biografia (Lisboa, Academia Internacional da Cultua Portuguesa, 1968, v. II; 2ª ed.; Cuiabá, Fundação Cultura de Mato Grosso, 1978, 404 p.). Vários dos perfis incluídos n primeira parte de Pessoas, Coisas & Animais foram escritos a propósito de biografias de brasileiros ilustres. Soa verdadeiramente magistrais os comentários de Gilberto Freyre sobre a ciência e a arte da biografia. O que ele espera do biógrafo é que esteja sempre "ansioso por conhecer, compreender, interpretar, revelar, reviver personalidades", e não que nos apresente uma estátua ou fotografia retocada. Procurando sempre o lado humano dos brasileiros que se destacaram nas letras, nas artes ou na política, Gilberto Freyre tornou-se autor de alguns dos melhores retratos desses nossos patrícios. Em notável ensaio publicado na edição de 2 de julho de 1979 do semanário Time (p. 40-41), depois de lembrar uma observação de Lytton Strachey - para quem era talvez mais difícil escrever uma boa vida que vivê-la - Gerald Clarke escreve estas palavras que se aplicam muito bem aos perfis de Gilberto Freyre: A good biographer should combine the skills of the novelist and the detective, and add to them the patience and compassion of the priest.

À maneira do Velásquez de Las Meninas - pintor e pintura que foram objeto de algumas de sus melhores páginas - Gilberto Freyre se coloca entre vários dos personagens que retrata, como que a espreitar-lhes detetivescamente as intimidades, a procurar em suas vidas o traço mais revelador, a qualité maîtresse de que falava Taine, as "sínteses dramáticas" a que ele mesmo alude nesta outra obra-prima de observação e de estilo com a qual concluímos a apresentação de Pessoas, Coisas & Animais:

"Symons me parece Ter inteira razão quando diz que o biógrafo do futuro não será o puro scholar mas o indivíduo avido de personalidade. Isto é - penso - ansioso por conhecer, compreender, interpretar, revelar, reviver, personalidades. E sendo as personalidades, até mesmo para os sociólogos, 'sínteses dramáticas' de épocas, meios, classes, raças, sub-raças, movimentos, reações, revoluções, o elemento dramático nunca lhes falta, embora às vezes se esconda dentro de grandes simulações ou aparências do que os ingleses chamam undramatic. Nem por não Ter havido tiro, duelo ou fome na vida de um Robert Browning ou na de um Thomas Hardym, deixaram eles de Ter sido personalidades dramáticas. E o mesmo é certo dos Mallarmé, dos Goncourt, dos Mark Twain, dos homens aparentemente mais tranquilos que têm criado obras literárias superiores ou realizado grandes experiências artísticas".



Fonte: FREYRE, Gilberto. Pessoas, coisas & animais. Organizado por Edson Nery da Fonseca. São Paulo: MPM Propaganda, 1979. 224p.

Topo
Voltar Página inicial