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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



POESIA REUNIDA
Prefácio


Repetindo o que está no prefácio a Gilberto Freyre, Poeta a ser publicado, em edição de cem exemplares de seis poemas ilustrada por cinco notáveis artistas, pergunto: será mesmo poesia o que aqui se reúne? A iniciativa agora é de um grupo, que admiro e estimo: o das edições Pirata. Suponho ser uma sempre talvez poesia, quer como poemas diretamente poemáticos, quer desentranhados de trechos da prosa por poetas brasileiros dentre os maiores, com palavras do autor.

É verdade que para Manuel Bandeira não houve dúvida quando leu Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados: coisa da primeira mocidade do autor. Tanto que disse sentir até "dor de corno". Pois era um, para ele, poema que - vá o escândalo! - desejaria Ter escrito. E Antonio Carlos Vilaça consagrou "obra-prima" de poesia sintética, palavras escritas pelo talvez poeta em Heidelberg: sobre o tema difícil que é a morte. Repelindo uma idéia de a morte ser, ou não ser, doce. Mas desejando que ela venha sempre docemente aos pobres dos mortais.

Tanto "Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados" como "O meu Brasil que vem aí ", houve quem os considerasse arremedos de poemas do Ronald de Carvalho de Toda a América; ou do Noturno de Belo Horizonte de Mario de Andrade ou de Pau Brasil de Oswaldo de Andrade. Nada mais sem base. O que neles se projeta é influência recebida pelo autor, quando mal saído da adolescência, nos Estados Unidos, e na Inglaterra, do Imagismo e do próprio Walt Whitman, e na França, do Regionalismo de renitentes discípulos de Mistral, dos quais se aproximou tanto quanto de discípulos do anarquismo de Georges Sorel. Mas influência a qual se juntou o próprio envolvimento no trópico e no Brasil nativos - o Brasil com uma formação tão peculiarmente brasileira - ao regressar da Europa e dos Estados Unidos, depois de cinco anos de estudos universitários no estrangeiro.

O certo destes talvez poemas aqui reunidos - alguns deles tão intimamente pessoais - é que vêm servindo de pretexto a ilustrações que, estas, sim, são ou têm sido de arte da melhor. Arte de artistas a cuja arte não falta senso poético. Desta vez as ilustrações são de Marcos Cordeiro

Parte do texto é de toda inédita. Dormia em fundos de gavetas, por serem muito íntimos. Sobretudo os inspirados por Magda ou Madá. Apenas uma parte foi publicada no livro Talvez Poesia. Publicada com apresentação de dois dos maiores poetas brasileiros: Ledo Ivo e Mauro Mota. Este, junto com César Leal, tendo "retirado, sem redução ou aumento de uma só palavra, só com a ordenação dos seus componentes rítmicos," trechos de prosa do autor nos quais encontraram matéria, segundo eles, poematicável.

Com as ilustrações magníficas de artistas admiráveis, quer os da edição Ranulfo, quer os da edição Pirata, o texto quase ignorado viverá outra espécie de vida. Além da apenas aliteratada. Outra espécie de vida de um texto em que alguns dos poemas foram reduções à expressão poemática, por Mauro Mota e por outros autênticos poetas, de possíveis sugestões poéticas contidas na prosa de um escritor que chega aos 80 anos sobrecarregado do muito, do muitíssimo, do demasiado, que escreveu em tão longa existência.

Gilberto Freyre

Apipucos, 1980.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Poesia reunida. Recife: Pirata, 1980. 107p.

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