UMA POLÍTICA TRANSNACIONAL DE CULTURA PARA O BRASIL DE HOJE
Introdução
A conferência que proferimos em julho dêste ano na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerias, a convite de professôres e estudantes, é agora publicada por iniciativa do nosso ilustre colega, especializado em Sociologia da Política, Professor Orlando M. Carvalho, da mesma Universidade. Não é trabalho sôlto mas tentativa de fixar um dos vários aspectos de um tema complexo. Êsse tema nos vem preocupando há anos; e em tôrno dêle continuamos a procurar reunir sugestões e documentação. Referimo-nos a sugestões e documentação que permitam a sistematização, em possível sub-ciência, de estudos, atualmente dispersos, sôbre o que vem sendo o especialíssimo desenvolvimento nos trópicos de uma civilização de origem portuguêsa, á qual se vêm acrescentando valores e técnicas de culturas encontradas por europeus, nos mesmo trópicos.
Convidado em 1956 a regressar no ano seguinte (1957-1958) á Alemanha,a fim de proferir conferências em algumas das suas Universidades - Bona, Colónia, Heidelberga - e dirigir um curso na Universidade de Berlim (Ocidental), pensamos em expor, nessas conferências e nesse curso, de modo quanto possível sistemático, nosso pensamento acêrca dessa possível lusotropicologia; e começamos a reunir notas com êsse objetivo. Compromissos com o nosso editor brasileiro não nos permitiram, entretanto, aceitar tão honrosos convites alemães. Daí, conferências como a proferida em Belo Horizonte e que são capítulos de um livro senão em organização, em projetos; e do qual foi nota prévia o ensaio, Integração Portuguêsa nos Trópicos, publicado recentemente em Lisboa, com um prefácio que, com algumas alterações, parece agora no Brasil sob a forma desta introdução àquela conferência, tão simpática e generosamente acolhida pelos mineiros.
Aliás, já esboçamos nosso pensamento sôbre o assunto em conferências proferidas, sob a forma de curso, em língua inglêsa, na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, em 1954: e em conferência lida, na mesma língua. No Third Programmne, da British Broadcasting Corporation, de Londres, em 1956, e publicada em The Listener: e ao que se deva entender por civilização lusotropical nos referimos na reunião havida, no mesmo ano de 1956, no Castelo de Cerisy, na França, em tôrno das idéias que vêm orientando nossos estudos e dos métodos pelos quais êles se vêm realizando - reunião que se efetuou por iniciativa do catedrático de filosofia da Sorbona, Prof. Henri Gouhier - assim como em conferências no Real Instituto do Trópico, de Amsterdão, no Colégio Pio-Brasileiro da Universidade Gregoriana, de Roma, em 1957, e na Universidade do Escurial, na Espanha. Também em artigo sôbre o "Brasil em perspectiva", escrito, ainda em inglês, para a nova edição de The Enciclopedia Americana e em ensaios para Cahiers, d'Histoire Mondiale, e Diogene, de Paris, e para Revista de História da América, do México, esta dirigida pelo prof. Sílvio Zavala, aquêles pelo Dr. Guy Métraux, Diogènes, por M. Roger Caillois.
Foi, porém, nas já referidas páginas escritas principalmente para um público português, e publicadas recentemente em Lisboa, em trabalhos submetidos em logos, juristas, economistas, homens públicos, geográficos, que constituem o Instituto Internacional de Civilizações Diferentes, com sede em Bruxelas - e em capítulo do livro escrito por nós em língua inglêsa e há pouco publicado em Nova York e em Londres, New World in the Tropics, que procuramos mais metòdicamente extrair da sistemática que vimos esboçando, em conferências para universitários, sugestões que se apliquem à administração, à higiene, ao ensino, às indústrias, à medicina, à alimentação, à interpretação e ã orientação das artes, a métodos de catequese, quer da parte do Brasil, nas suas áreas de autocolonização e nas suas relações com Portugal e com o Ultramar português. Com relação às artes, procuramos desenvolver tais sugestões em curso de Sociologia da Arte que professamos primeiro na Escola de Belas-Artes da Universidade do Recife, por solicitação do seu diretor - "Sociologia da Arte aplicada a situações lusotropicais"; depois no Museu de Arte de São Paulo e na Universidade da Bahia. O mesmo desejamos tenar um dia, talvez no Colégio Pio-Brasileiro da Universidade Gregoriana, num curso de Sociologia da Religião aplicada à análise as mesmas situações.
Ao nos referirmos a métodos de catequese, não pretendemos que os lusotropicais constituam um sistema à parte dos da Igreja Católica. Ao contrário: parece-nos que são êles os métodos que melhor correspondem às idéias mais genuinamente Católico-romanas de catequese e de assimilação de não europeus ao Cristianismo: um Cristianismo que, sendo, como é o da Igreja Católica Romana, laitno, europeu, ocidental, em várias das suas normas, é, sobretudo, universalista. E tende a expandir-se, à base de um universalismo cristocêntrico, distintos ou diferentes dos cristianismos etnocêntricos de feitio nórdico-prostentante. A êsse respeito - assim como a respeito de outros aspectos das especialíssimas relações biossociais e de cultua do homem com o meio e do adventício com o nativo que vêm caracterizando a integração do Hispano, em geral, e do Português, em particular, nos trópicos - na introdução que escrevemos para recente edição brasileira de antigos trabalhos de médicos portuguêses (que atuaram no Brasil colonial um tanto à maneira de missionários Católicos inspirados por velha política de Igreja) e no prefácio ao nosso ensaio Integração Portuguêsa nos Trópicos, publicado em Lisboa em 1958 pelo Centro de Estudos de Ciências Políticas e Sociais do Ministério do Ultramar, já esboçamos alguns reparos que nos parecem merecer a atenção dos mineiros : tão sensíveis à importância do Cristianismo no desenvolvimento da cultura nacional.
São vários os pontos em que a política de assimilação do Português no Oriente, na África e América tem coincidido com a política de catequese da Igreja, não só nessas áreas como nas próprias áreas européias cristianizadas pelos missionários de Roma. Vários são também os pontos em que essas duas políticas vêm merecendo a aprovação de antropologistas e sociólogos modernos, voltados para problemas de contacto de europeus com não-europeus.
É do nº 4, vol. 58, de agôsto de 1956, de The American Anthropologist, um ensaio em que o Prof. M. D. W. Jefreys, da Universidade de Witwatersrand, trata de Some Rules of Directed Culture Change Under Catholicism, sustentando a tese de que a IGREJA Católica Romana desde remotos dias vem mostrando "a remarkable comprehension of the reauirements for ensuring a successful and peaceful cultural change". Acêrca do que reocrda acerta em que o papa Gregório I - que morreu no ano 604 - deu instruções a Santo Agostinho sôbre como deveria agir quanto à conversão dos inglêses, então bárbaros. Nessa carta recomendava o Chefe da Igreja que não fôssem destruídos os templos dos ídolos entre os Inglêses, mas sòmente os ídolos; que nos templos conservados; depois deconsagrados à Igrejas fossem levantados altares e depositadas reliquias, convertendo-se assim êsses antigos templos dedicados aos demônios em casas de culto ou adoração do "verdadeiro Deus". Quando aos sacrifícios religiosos de animais dentro dos templos, deviam se substituídos por "solenidades festivas" em redor dos mesmos templos ao ar livre, mantendo-se então animais não para serem imolados aos demônios, mas para serem comidos pelas pessoas em festas. De modo que - resumia o papa sua técnica de conversão, na qual se antecipavam modernos métodos sociológicos de assimilação - reservando-se aos Inglêses algumas alegrias exteriores (semelhantes às do seu antigo culto), seria mais fácil obter-se dêles que consentissem em participar das "alegrias íntimas" que lhes comunicava o cristianismo. A propósito do que observa o Prof. Jeffreys conciliar-se essa técnica com a hoje corrente entre cientistas sociais, de que "a culture trait need not be extirpated; all that is necessary is to alter its orientation".
Precisamente a política seguida pelos hispanocristãos, em geral, e pelos lusocristãos, em particular, em seus estabelecimentos nos trópicos, dos quais vêm resultando as civilizações hispanotropicais, e, especialmente, as lusotropciais, algumas delas hoje tão vigorosas pelo que conservam de traços de culturas e civilizações pré-hispânicas e pré-cristãs que foram quase sempre - nem sempre, é certo - em vez de extirpados ou repudiados de todo, pelos hispanocristãos, reorientados. Essa política alcançou valores e técnicas que hoje ermergem não só da arquitetura, vestuário, da alimentação mais característica das mesmas civilizações, vigorosamente híbridas - o caso da indolusitana, da filipina, da brasileira, da mexicana, da paraguaia, para só falar nessas - como da medicina moderna do Ocidente, que, graças principalmente a hispanos e aos seus métodos de associação com os povos do Oriente e dos trópicos, enriqueceu-se enormemente de tçenicas e valores orientais e tropicais, alguns sob a forma de "substituições", desde velhos dias preconizados não por sábios como Hernández como por médicos simplesmente médicos, como o português Morão, cujos trabalhos, assim como os de Pimenta e Rosa, acabam de ser reeditados no Brasil, com interessantes notas do Prof. Gilberto Osório de Andrade e do médico Eustáquio Duarte, por iniciativa do Prof. Jordão Emerenciano.
Substituições das quais tem resultado uma integração tal, que nos autorizam a descrever ou caracterizar sociològicamente como simbiose - a simbiose hispano-trópico ou a simbiose luso-trópico - o desenvolvimento das sociedades e culturas fundadas pelos Hispanos em espaços tropicais. Sociedades e cultuas mistas que se distinguem das sociedades e culturas fundadas por outros europeus nos mesmo espaços, exatamente pelo muito que há neles de já integrado ou em processo de integração. Isto quer no conhecimento médico, quer no agronômico, quer noutros aspectos de um saber geral, todo êle experiencial. Todo êle expressão de um modo simbiótico de desenvolver-se o homem europeu nos trópicos, harmonizando o essencial da sua cultura européia como o existencial da sua situação de tropicais, e com o "saber de experiência feito" acumulado nos trópicos pelos indígenas das várias áreas pelos europeus que primeiro viveram perigosa e aventurosamente entre êles.
Os métodos de assimilação recomendados por Gregório I a Santo Agostinho - e há pouco comentados, em artigos de revista, pelo ilustre antropologista e sociólogo moderno a quem já se fêz aqui referência - têm sido característicos da parte considerável dos esforços de catequese entre populações tropicais por missionários hispânicos, em geral, e portuguêses, em particular. E é interessante considerar-se a crítica da parte de protestantes e ate de católico de outras origens européias a êsses métodos hispano-católicos.
Da leitura do capítulo "The Pernament Influences of the Native Religions of Mexico upon Roman Catholic Christianity", do livro do Prof. Charles S Braden, Religious Aspects of the Conquest of Mexico ( Durhan, 1930) conclui-se que o Prof. Braden está, de modo discreto, entre críticos dos métodos de catequese que foram seguidos pelos hispano-católicos na América. Nesse se destacam - a p. 281 - "numerous vestiges of the pagan cult in existence in Catholicism"no México, entre os quais "native dances in certain religious occasions", "the pagn custom of making offerings before the images, some times of flowrs, copal, and even animals", "the taking over of pagan shrines or divinities under Christian names, or in other words the exchange of duties"; e se transcreve, a p. 283, êste depoimento de um católico anglo-saxônico, horrorizado com aquelas sobrevivências: "The Mexican is not a Catholic"... On account of the lack of painstaking instruction, there appear in the Catholicism of the Indians numerous vestiges of the Aztec paganism". Generalização que o bom do Anglo-Saxão poderia Ter estendido ao complexo hispano-americano, substituindo a palavra "Asteca", aqui po "Inca", ali por "Guarani", ou mesmo por "Africano". Mas, em qualquer dos casos, a advertência do papa Gregório I a Santo Agostinho estaria sendo seguida antes pelos Hispanos em suas relações com as populações e culturas tropicais da América que pelos católicos tocados ou influenciados pelo anglo-saxonismo dos protestantes no seu critério missionário de substituir de repente e radicalmente tôdas as substâncias religiosas das culturas indígenas encontradas pelos missionários cristãos na América por substâncias desenvolvidas e apuradas pelo cristianismo europeu. Pelo romano ou pelo reformado.
Imagina-se assim a indignação do próprio Humgoldt - em página também citada pelo Prof. Braden - com relação a mexicanos que êle conhecera nos dias de sua viagem à América. O sábio escreveu Ter visto alguns dêles dançar "danças selvagens" em redor de um altar, enquanto um frade de São Francisco elevava o Santíssimo. A verdade é que tais danças, de acôrdo aliás com a velha orientação de Gregório I, foram animadas pelo quase santo Pedro de Gente, conforme sevê do estudo de AUGUSTO GENIN sôbre danças e cantos mexicanos, publicado em 1913 pela Révue d' Ethnographie et Sociologie, de Paris; e algumas dessas danças admitidas no próprio interior dos templos, sob o ap;auso de Juan Torquemada. Assunto que tem sido estudado por vários historiadores e etnólogos modernos, dentre os quais alguns franceses.
Admitindo ser o cristianismo, em suas expressões ainda hoje dominantes no México, o resultado de "the mutual interpenetration of the two types of religion"-o hispânico e o ameríndio - mas salientando que, sob pressão da cultura européia, através de "uma variedade de fôrças sociais", os "vestígios pagãos" no mesmo cristianismo tendiam a empalidecer, o Prof. Braden como que já reconhecia em 1930 ser tendência caraterística da colonização hispânica dos trópicos aquela interpenetração. O prestígio político e econômico da Europa, enquanto válido, decidiria a favor da civilização européia. A êsse jôgo de prestigios - o europeu em face de qualquer outro - acrescente-se, porém, que é justo considerar-se estranho o cristianismo hispânica da América, saliente-se de passagem que são valiosas fontes de informação, com relação ao Brasil as cartas jesuíticas. E com relação à América Espanhola, obras como a do franciscano Jerónimo de Mendietra, História Eclesiástica Indiana, escrita no fim do século XVI. E valiosos os testemunhos da parte de acatólicos.
O indiano Pankkar parece reconhecer o caráter sociològicametne entes cristocêntrico que etnocêntrico da preparação portuguêsa par a imensa tarefa mais de cristianizar que de europeizar os trópicos e o Oriente, ao assinalar no seu recente Asia and Western Dominance que, no século XVI, "algumas das maiores figuras na história da atividade missionária do cristianismo no Oriente adotaram Portugal como sua Segunda pátria: Xavier, Vagliano, Ricco". Êsse e vários outros europeus prepararam-se para ser missionários no Oriente, indo fazer em Coimbra e em Goa - tão cedo, centro de saber lusotropical - os estudos que hjoje chamaríamos pós-graduados de filosofia e talvez do que fôsse então, dentro da filosofia, uma parassociologia porventura já voltada para problemas extra-europeus de convivências humana; e para os de convivência de cristãos com os povos não cristãos. Que pioneiros de estudos etnológicos ou antropológicos sociais no Oriente, tropical e mesmo frio, aquêles missionários foram de modo notável; e pioneiros também da arte ou ciência, em parte sociológica, de os cristãos europeus educarem cristãmente meninos e adolescentes não-euroepus, sem deixarem de assimilar dêles e dos adultos tropicalismos ou orientalismos - inclusive os de natureza médica ou higiênica - que fôssem considerados valiosos a europeus decididos a se fixarem nos trópicos ou no Oriente.
Dêsse duplo empenho resulta o fato de modernos historiadores-sociólogos da expansão européia na Ásia, como o indiano Pankkar, reconhecerem virtudes no esfôrço português ou hispânicos que negam aos de europeus do Norte. Ao Holandês, por exemplo, que segundo o mesmo historiador-sociólogo, á p. 114 do seu referido livro, "took no interest in the education of the Indonesians", assim se explicando "tehe miserable degradation to which the people of Java were refuced" e da qual o salvaria "the virile inspiration of Islam". Ao que acrescenta, talvez com algum exagêro oriental: "The Dutch alone of the European nations of the East carried out a policy which systematically reduced the whole population to the status of plantation labour, without recognizing any moral or legal obligation to them". Isto por Ter, ao que parece, se requintado, no holandês, aquela convicção posta também em relêvo por PANKKAR, da parte do europeu, em geral, no Oriente, de "final and enduring racial superiority". Precisamente o ânimo etnocêntrico que no Português, em particular, e no Hispano, em geral, foi quase sempre superado ou ultrapassado pelo ânimo cristocêntrico.
De modo que se os modernos movimentos de panasianismo e pan-africanismo indigenista representam reações Àquele ânimo etnocêntrico da parte de europeus, essas reações não alcançam, senão em parte, os Hispanos: o que neles é europeu, que, a nosso ver, é inferior ao que neles vem sendo especìficamente hispânico desde dias remotos, e, nos séculos de sua maior atividade criadora, hispanocristão e até sociològicamente cristocêntrico. PANKKAR compreende que à antiga solidariedade européia sob a forma de "European-ness" se oponha agora uma solidariedade asiática ou asiana sob a forma de "Asina-ness". E é às vêzes lamentável ver-se um espanhol ou um português, desgarrado das melhores tradições hispânicas, pretender incluir a civilização hispânica naquela "solidariedade européia" à qual da fato essa civilização não pertence senão de modo secundário. Que sua constante em face dos povos não-europeus tem sido antes a hispânicamente cristocêntrica que a etnocêntrica européia é tese - para falar linguagem acadêmica - que não nos parece difícil de provar, jogando-se, é claro, não com todos os fatos que sejam trazidos a exame, mas com suas predominâncias ou suas tendências mais características. Nem difícil de ser justificada nos parece a sugestão, aparentemente paradoxal, que se levante, de virem, em geral - nem sempre, é claro, num mesmo quase sempre - as civilizações hispânico nos trópicos e no Oriente desempenhando do modo antropológico e sociògicamente mais científico do que as outras sua missão de civilizações cristãs junto às civilizações e culturas não cristãs.
Ainda há poucos meses, ao receber-nos em Oxónia com a melhores graças da hospitalidade oxoniana, o catedrático de Antropologia Social da mais antiga das Universidade inglêsa. Prof. Evans- Prithard, concordava conosco quanto a êsse caráter da colonização hispânica em geral e portuguêsa em particular, dos trópicos tida de ordinário, entre tropicalistas superficiais, por principalmente aventureira: ou por estreitamente teocrática. A verdade parece ser que nem o aventureirismo - presente, ano há dúvida, na mesma colonização, de modo às vêzes pernicioso - nem o teocratismo - também dela característico, às vêzes sob formas que se extremaram em durezas como que calvinistas, como as de Jesuítas no Brasil, em contraste com sua plasticidade no Extremo Oriente - foram sua tendência predominante. Essa tendência ou rumo predominante talvez venha a ficar claramente demonstrada à proporção que novos documentos relativos à mesma colonização forem aparecendo e que a reinterpretação de alguns dos antigos se fôr operando sob o critério de valorizar-se neles antes a parte considerada até hoje secundária que a sistemàticamente glorificada, Ter sido a tendência para se fixarem os Hispanos em áreas quentes e entre populações, culturas ou civilizações tropicais, absorvendo ou assimilando delas o máximo de substâncias compatíveis com as formas principais do seu cristianismo hispano-romano e do seu comportamentoe Europeu. Um cristianismo e um comportamento condicionados, entre hispanos, por uma civilização principalmente européia e até romana nas suas predominâncias, mas também árabe, isaraelita, oriental, africana, em várias das suas técnicas e em vários dos seus próprios valores, uns cristianizados, outros modificadores de práticas e artes cristãs, sem sacrifício essencial nenhum da teologia da Igreja Católica de Roma, em contraste com o etnocentrismo de outras igrejas. De outras igrejas e daquelas potências cristãs de hoje mais nacionais ou etnocêntricas na sua política internacional.
Em estudo recente sob o título The Agency of Man on tehe Earth pergunta o geógrafo Carl Sauer com ralação ao sistema anglo-americano de anglo-americanização do mundo: "the road they ( os Anglo-Americanos) are laying ort for the world"... "... do we know where it leads"? E êle próprio adverte com relação aos programas de auxílio agrário às chamadas populações retardadas: são programs que "pay little attention to native ways anda products". Pois "instead of going out to learn what their experiences anda preferences are, we go forth to introduce our pattern". E mais, ainda no severo inglês de geógrafo: "We present and recommend to the world a blueprint of what works well with us at the moment, heedless that we may be destroying wise and durable nativa systmes of living with the land. The modern industrial mood ( I hesitate to add intellectual mood) is insensitive to other ways and values".
A sensibilidade aos métodos, ás técnicas e aos valores dos povos tropicais raramente faltou aos Português e aos Espanhóis quando se espalharam por áreas quentes, não como transeuntes, mas - em grande número - como residentes. E residentes que começaram por tomar mulheres tropicais como companheiras e até espôsas: companheiras de suas aventuras de fixação e procriação nas mesmas áreas. Daí civilizações hispanotropicais como a mexicana, a brasileira, a paraguaia, a indo-portuguêsa, se apresentarem hoje com sistemas de arquitetura, de alimentação, de traje, e até mesmo de higiene, em que os valores e as técnicas européias nem sempre soa as dominantes, mas sob vários aspectos dêsses sistemas, as dominadas. Nesses exemplos - e no da assimilação de valores tropicais pela medicina hispânica, desde os primeiros contactos dos Hispanos com os trópicos no Oriente e nas Américas - talvez tenham que se inspirar anglo-americanos e russo soviéticos, para reinterpretarem e humanizarem seus atuais sistemas de expansão de valores imperiais entre populações consideradas atrasadas de modo absoluto. Incapazes - segundo alguns expansionistas - de ensinarem aos invasores ou dominadores técnicas que resultam de longa e profunda experiência: de longos períodos de identificação do homem com o meio.
Pelo ânimo de absrverem tal experiência, tais valores, tais tecnias - inclusive as médicas ou paramédicas - é que os Hispanos, em áreas violentamente diversas das européias como as tropicais, conseguiram fundar e vêm conseguindo desenvolver - êles ou seus descendentes - civilizações do vigor das modernas civilizações por alguns denominadas "hispanotropicais". Por lhes Ter faltado êsse ânimo, a não se para assimilações de superfície e aperfeiçoamento técnico em t6orno apenas de coisas o solos tropicais, é que outros europeus vêm-se retirando ùltimamente de áreas quentes, após século de domino político e econômico sôbre suas populações sem terem aí conseguido desenvolver civilizações que de longe se comparem com as hispanotropicais, em geral, ou com as lusotropicais, em particular.
Dêsse resultado desigual dos dois tipos de colonização européia nos trópicos - a hispânica e a não hispânica - parece ser em grande parte responsável o modo por que a hispânica foi e é animada, em suas expansões, de desígnios cristãos - aqui considerados apenas em seus aspectos psico-sociais e sócio-culturais -- delas podendo-se dizer, em face do seu comportamento em certas áreas, que, sociològicamente, foram antes cristocêntricas, empenhadas em cuidar de doentes ao mesmo tempo que de órfãos, de velhos, de meninos e adolescentes, assim de côr como brancos: da sua educação. Daí um historiador sociólogo da sagacidade do indiano K. M. Pankkar, em obra aqui já referida - a que se publicada em Londres em 1953 - associar os primeiros triunfos dos Portuguêses no Oriente tropical - Portuguêses dentre os quais sabemos todos Ter agido no interêsse da ciência mo médico português formado na Espanha, Garcia de Orta, contemporâneo do missionário Francisco Xavier: espanhol aportuguesado em sua formação intelectual para o trabalho missionário no Oriente - ao que chama "renascença da filosofia" nos centros lusitanos de estudo e ensino, principalmente Coimbra, no século XVI. Dá o erudito indiano particular destaque à obra de "comentário enciclopédico" de Aristóteles, elaborado em Portugal por Góis e seus colaboradores", lembrando vir essa obra designada como "coimbrensis" por Leibnitz e Espinosa; e salientando também a importância de Navarro; e a de Gouveia, êste em Évora. Nesses centros de saber filosófico é que se teria apurado em Portugal o espírito ou o zêlo religiosos que se refletiria na política portuguêsa com relação à Ásia, em particular, pensa o erudito indiano; com relação aos trópicos em geral, podemos generalizar, sem risco de exagêro. E por essa intensificação no Portugal do século XVI - nas sus Universidades - de espírito religioso em consonância com o desenvolvimento do saber filosófico - sem nos esquecermos de que o saber científico (principalmente o conhecimento técnico das coisas de navegação e das de geografia, completado pelo médico), graças principalmente aos Árabes e Judeus, já atingira entre portuguêses notável aperfeiçoamento -- é que parecer Ter-se ali apurado, de modo ainda mais completo do que noutra qualquer Espanha da mesma época, a preparação da Europa Hispânica par estender-se de maneira antes cristocêntrica que etnocêntrica por áreas ou regiões tropicais.
Os religiosos hispânicos em geral, e portuguêses, em particular, participaram na América, como participaram no Oriente, de esforços de interpenetração de culturas noutras esferas, além dos pròpriamente ditos, dos quais se sabe que vários eram cristãos-novos ou judeus. Mas cristãos-novos ou judeus condicionados quase sempre pela sua tradição ou situação de hispanos. Foram, assim, colaboradores valiosos da obra de expansão hispânica nos trópicos, dentro de predominâncias sociològicamente cristocêntricas.
Era aliás natural que cristãos-novos ou velhos, mas hispanos, animados pelo gôsto de alargar o conhecimento médico pelo contacto com outras gentes e terras, além das européias, se sentissem particularmente atraídos pelos trópicos. E que vários dêles tivessem seguido para o Oriente, para o Brasil para as Áfricas tropciais.
Compreende-se que, mesmo no século XIX, Santiago Ramon y Cajal, quando ainda jovem de vinte e poucos anos, tenha tido êste intenso desejo: "Mi ideal es America y sigularmente da America tropical, essa tierra de maravillas", sabe-se Ter êle dito então a seu amigo Cenarro. E é pena - do ponto de vista hispanotropical -- que não se tenha realizado o desejo de Famon y Cajl de integrar-se, como homem de ciência, especializado em medicina, no estudo dos trópicos americanos marcados pela presença hispânica: estudo em que os hispanos se revelaram deficientes no século XIX, depois de no XVI, no XVII e mesmo no XVIII terem desenvolvido notável ação pioneira ou criadora no sentido de estabelecerem êles próprios a base d e uma tropicologia hispânica - de saber o homem de procedência européia viver nos trópicos se ajuntasse e a do conhecimento da natureza tropical, pelo cientista empenhado platônicamente nesse conhecimento.
Êsse conhecimento, buscam-no hoje cientistas de várias especialidades, dos países boreais, não sem reconhecerem - como ainda há pouco geógrafos russos soviéticos em visita à Amazônia - a situação especialíssima em que se encontra o Brasil para desenvolver o que um dêles, o Prof. Guerassimov, teria chamado, em conversa com brasileiros de Belém, "ciência tropical" e que alguns de nós, no Brasil proferimos denominar tropicologia; dentro de uma tropicologia geral, um hispanotremar na ciência "eminentemente naiconal", segundo alguns, recomendada pelo mesmo sábio russo aos Brasileiros para seus estudos dos trópicos, seria uma ciência especializada na análise e na interpretação da simbiose hispano-trópico ou luso-trópico.
Ninguém estranhe o fato de Ter hoje a Rússia Soviética olhos voltados para os trópicos, tanto quanto os têm os Estados Unidos, êstes, atualmente, ainda mais que o Reino Unido, tropics minded em seus planos de política econômica. Um publicista anglo-americano especializado no estudo de assuntos tropicais, Mr. Charles Morrow Wilson, em livro intitulado significativamente The Tropics, World of Tomorrow e publicado em Nova Iorque em 1951, chega escrever, á p. 249, acêrca da rivalidade dos dois grandes poderes imperiais de hoje, em tôrno dos trópicos: "Inevitably the tropcs will have most to do with deciding which one will lead the world tomorrow. For at least twenty years past, the views and strategies of the Comintern have tended to acdept this truth". E ainda: "Determinedly anda audaciously Stalin's Kremlin has sought to penetrate the tropics anda win them not by costly trade lines nor costly conquests, bu rather by words, gestures and implications, by exploitations of grievances, prejudices, and emotion, and by other superbly skillful devices of play actinh". Seria aliás esta política continuação da seguida pela Rússia czarista, sempre ávida de domínio sôbre os trópicos: domínio também procurado por Napoleão e por Hitler à base de serem os recursos tropicais reservas inesgotáveis para os imperialismos boreais.
Do mesmo Mr. Wilson é a informação de vir a Escola Lênine, de Moscovo, dedicando especial atenção à formação de "membros do Partido"para os trópicos. E são célebres os programas em espanhol da rádio de Moscovo que se destinam principalmente às populações da América tropcial.
Vê-se por aí ser considerável o atual interêsse tanto da parte de russos soviéticos como de anglo-americanos pelos espaços ou áreas tropicais. Nos espaços tropicais marcados pela presença hsipânica, em geral, e lusitana, em particular, encontram-se já civilizações ecològicamente harmonizadas com êsses meios que não seriam fàcilmene desenraizadas dêles sob a pressão de nenhum outro sistema de civilização, boreal ou tropical - o caso da indiana - que se empenhasse em qualquer esfôrço dessa espécie. Mesmo porque tais civilizações formam hoje um complexo pelas semelhanças nos processos através dos quais se vêm integrando em espaços tropicais.
Em notável trabalho, "The Quality of Land Use of Tropical Cultivators", publicado na obra coletiva Man's Role in Changing the Face of the Earth - obra aparecida em 1956 sob a direção de William L. THOMAS Jr. Pela Fundação Wenner-Gren - o Prof. Pierre Gourou salienta o fato de os ambientes naturais por si sós não determinarem ou criarem civilizações que, por isto mesmo, surgem desigalmente nos mesmos espaços - os tropicais, por exemplo - conforme a "interpretação" e a " trasformação"que sofram de diferentes povos, neles residentes ou dêles colonizadores. Os espaços tropicais colonizados por hispanos, em geral, e pr portuguêses, em particular, vêm-se transformando segundo as mesmas formas de interpretação hispanocristã ou luso-cristã: as mesmas no Brasil que têm sido em Goa; as mesmas nas Filipinas que têm sido na América tropical de colonização espanhola; as mesmas na África que têm sido na América.
Compreende-se assim que a tôdas essas áreas venha sendo comum o aproveitamento de conhecimentos e técnicas de povos tropicais pelos colonizadores hispânicos eu com êles vêm-se amalgamando étnica e culturalmente. E que par o estudo histórica de males com as bexigas e o sarampo, no Brasil, médicos-historiadores como atualmente, no Brasil, o Dr. Eustáquio Duarte, possam recorrer a informações assim de médicos como de leigos, tanto da área brasileira, quanto de outras áreas de colonização hispânica, certos de encontrarem o mesmo tipo de relações entre os colonizadores hispânicos e os seus continuadores as culturas e as populações dessas várias regiões quentes: relações de reciprocidade no conhecimentos de doenças e nos modos de tratá-las. Sôbre a generalidade dessas relações, nesta e noutras zonas de conhecimentos e de técnicas, é que principalmente se apóia a possibilidade de uma subciência dos trópicos que se denomine "hispanotropicologia", da qual se destaque uma especilíssima "lusotropicologia".
Quando atribuimos importância política à "consciência de espécie" que porventura se desenvolve entre as várias sociedades hispanotropicais, em geral, e luso-tropicais, em particular, de hoje, que pela análise e pela interpretação do seu passado comum, dos seus problemas também em grande parte comuns e do seu destino, talvez igualmente comum, se tornem mais próximas umas das outras, de modo a formarem uma comunidade senão ostensivamente política, econômica e de cultura, pensamos na missão que êsse conjunto de civilizações afins pode desempenhar num mundo, com o atual, cada vez mais voltado para os espaços tropicais como zonas possíveis de expanhão dos seus valores imperialmente boreais. Os quais são hoje principalmente os anglo-americanos e os russo soviéticos.
Parece que nenhum dêsses dois sistemas imperiais - nem o chinês, se desenvolver igual élan imperial - se apresentará capaz de verdadeiramente superar os povos hispanotropicais como civilizações já simbiòticamente eurotropicais, se os povos hispanotropicais, tornando-se consciente do que valem juntamente com a Espanha e com Portugal, como civilizações novas, nem subeuropéias em suas possibilidades, em seus recursos e em seus desígnios, nem tão-pouco antieuropéias, se constituírem por sua vez num sistema que tem a seu favor não só uma teoria --- a esboçada sob a designação de "hispanotropicologia" --- como uma obra já realizada, de integração de valores europeus nos trópicos, em que êsses valores se vêm juntando, de modo harmônico e ecológico, a valores tropicais. Sendo assim, a articulação das civilizações hispanotropicais num sistema transnacional de cultura, de economia, de política, se apresenta como uma necessidade, não diremos geopolítica, mas, em face de expansões às vêzes intituladas de geopolíticas, como se sua articulação decorresse principalmente das situações chamadas naturais ou geográficas. Não depende e sim como sugere o geógrafo francês Gourou, de interpretações que às chamadas situações naturais dêem os homens, sob diferentes técnicas ou diferentes civilizações. Nenhum caso mais expressivo de quanto vale essa interpretação que o oferecido pelo conjunto de modernas considerações hispanotropicais.
A interpretação hispanotropical e, particularmente, lusotropcial, é uma interpretação que existe na prática de um modo que não há exagèro em considerar-se triunfal. Dela talvez venham a necessitar os próprios Anglo-Americanos e os próprios Russos Soviéticos par a reinterpretação de seus sistemas de relações com as áreas hoje consideradas retardadas: sistemas hoje animados de afã de aumento de produtividade econômica válidos nos espaços boreais; mas de cuja validade para o desenvolvimento da civilização humana, em geral, e de civilizações não coloniais nos trópicos, em particular, alguns dos próprios apologistas dêsse mesmos sistemas começam a duvidar.
Somos dos que acreditam ser a política chamada anticolonialista, não diremos oficial, dos Estado Unidos, mas de alguns dos seus políticos na África e no Oriente, uma preparação par seu domínio econômico e veladamente político em áreas tropicais ainda sob govêrno ou influência européia - inclusive hispânica: principalmente portuguêsa - e onde e vêm formando, como em Angola e Moçambique, sociedades ou culturas lusotropicais semelhantes à brasileira. Do mesmo feitio lusotropical de sociedades e culturas mistas, simbióticas, difíceis, por conseguinte, de poderem ser confundidas com os domínios coloniais de inglêses, franceses e holandeses nos trópicos. Como que se percebe já, através de evidências oblíquas, que a política, não diremos dos Estados Unidos, mas de certos anglo-americanos às vêzes influentes na definição de uma política nem sempre coerente como a inernacional, da grande república, é uma política que se assemelha à britânica, na América Hispânica, no comêço do século passado, quando inglêses anticolonialista com relação à Espanha e a Portugal favoreceram a independência das colônias espanholas e da portuguêsa no continente americano; mas para os seus grupos imperialmente econômico procurarem, e de certo modo conseguirem, logo após as separações das antigas colônias de suas metrópoles, privilégios que deram à Grã-rBetanha em grande parte do mesmo continente situação se não ostensivametne, veladamente imperial, só atenuada pela emergência de outro poder anglo-saxônico, os Estados Unidos, como nação também imperial. Foi aliás política imitada dos Inglêses pelos próprios Estados Unidos, ao concorrerem para que se desenvolvessem condições favoráveis à aparente independência política, pela separação da Espanha de áreas tropicais de colonização hispânica, como as Filipinas no Oriente e Cuba, Pôrto Rico, na América, que aos poucos se tornariam zonas de influência, se não ostensivamente política, econômica, dos mesmos Estados Unidos.
Quando antropólogos e sociólogos anglo-americanos, menos perspicaz em sua ciência política que eruditos na puramente etnológica, elamam contra a moderna política de assimilação dos Portuguêses nos trópicos, acusando-a de perturbar um desenvolvimento autònomo de culturas africanas em áreas como a anglona, põem-se ingênua e talvez românticamente a favor daqueles desígnios de imperialistas anglo-americanos, dos quais se mostram contagiados até publicistas independentes, como o há pouco referido MR. Wilson. Pois não se compreende de outro modo que no seu The Tropics, World of Tomorrow, chame à p. 133, Mr. Wilson, a uma nação como o Portugal moderno - nação que se faz respeitar na Europa e nos trópicos pela superior honestidade de suas práticas políticas e econômicas, em contraste com a desonestidade que se sabe macular hoje a vida política e administrativa de grandes civilizadíssima nações boreais, em algumas de suas esferas de atividade - "corrupt Portugal"; e à p. 139 refira-se à "tropical África" como "colony-ridden", não lhe ocorrendo melhor exemplo de colonialismo que o oferecido por Portugal e Espanha na mesma África, a qual -- segundo êle - "still suffers some extremely incompetent scolonies, such as those of Portugal and Spain, for example..." Injustiça das mais gritantes. Pois se é certo que, sob certos aspectos, quase todos superficiais, embora vistosos, cenográficos, brilhantes de eficiência de técnica européia aplicada às vêzes erradamente aos trópicos - assunto sôbre o qual Mr. Wilson faria bem em informar-se com mestres consumados de tropicologia, como o Prof. Pierre Gourou e o Prof. R. J. Harrison Church, o último dos quais, no seu Modern Colonization, publicado em Londres em 1951, desta à p. 337, para advertência dos ingênuos campeões da eficiência nórdica nos trópicos, estas palavras de técnicos europeus especializados no estudo de agricultura ou lavoura em terras tropicais: "European menm despite theri skill and power over Nature, have learnt only how to cultivate European soils in as Wuropean climate"-o Congo Belga, a África Britânica, a Francesa, a Boer, excedem a África Hispânica, amesquinham-se, ao lado dela, em exemplos de colonialismo do mais repugante às gentes africanas quando se examinam alguns dos seus métodos ou estilos de convivência humana: a dos Europeus com os nativos. Ou as atitudes dos Europeus ou dos Brancos para com os mestiços. Ou - ainda - as raras oportunidades de integração de novas sociedades aí concedidas a africanos desejosos dessa integração sem repúdio aos valores de suas culturas ecològicamente tropicais. Tão-pouco se compreende que outros anglo-americanos igualmente levianos, e poucos conhecedores das modernas sociedades lusotropicais - com tôdas suas imperfeições, tão mais democráticas, em seus estilos essenciais de convivência humana, que as sociedades essencialmente coloniais, mesmo quando polìticamente democráticas ainda orientadas ou dominadas por europeus no Norte e anglo-saxões nos trópicos - pretendam fechar os olhos ao que diferencia as sociedades e culturas hispano ou lusotropicais das apenas subeuropéias. Daquelas em que os valores essenciais de populações e culturas tropicais são despedaçados, conservando-se dêles apenas os pitorescos etnográficos; e sem que se construa com alguns dêsses valores, e não s6obre os destroços de todo êles, novas culturas ou civilizações, em que ao sangue das gentes tropicais se unte - como se vem juntando o das hispânicas - sangue europeu. Isto - repita-se - sem que se desconheçam da parte de modernos políticos portuguêses, responsáveis pela política lusitana na África, erros lamentáveis, em geral devifos à imitação, por alguns dôles, de "arianismos" em voga entre outros povos: inclusive entre sul-africanos da facção mais etnocêntricamente boer-calvinista.
Quando o Prof. Kirkwood, da Universidade de Oxford destacou o fato, perante colegas da 30 Reunião do instituto Internacional de Civilizações Diferentes, de vi o processo ou modo português e brasileiro de lidar com problemas de pluralismo étnico e cultural constituindo um exemplo que se impõe cada dia mais à atenção dos povos modernos, não se referiu apenas ao exemplo em bruto dêsse processo: também à sua interpretação científica por homens de estudo brasileiros. Daí Ter encarecido por escrito ao seu coleta brasileiro de Instituto a necessidade de expor, numa universidade como a de Oxford, e de modo sistemático ou metódico, a ciência especial que vem se esboçando no Brasil sob o nome de Tropicologia; e sua particularização em Hispano e em Lusotropicologia. Exposição já tentada, em síntese ou notas prévias necessàriamente arbitrárias, solicitadas mais por estrangeiro por nacionais.
Somos, os brasileiros, um tanto enfáticos, com relação a certos valores ou iniciativa nacionais, ao ponto de às vêzes quase resvalarmos na fanfarronice; com relação a outros valores, porém, somos excessivamente humildes ou reticenciosos. Enfáticos, por exemplo, com relação aos trijunfos de Rui Barbosa na Haia, que foram triunfos em grande parte oratórios e transitórios, obtidos não só pela extraordinária eloquência e pelo incomum saber jurídico do insigne brasileiro com pela propaganda desenvolvida na Europa, em tôrno do seu nome e da sua atuação, pelo 2º Rio Branco: principalmente através dos artigos de Willian Stead, o diretor da Review of Reviweis. Enfáticos, também - e sôbre os melhores fundamentos - com relação aos arrojos de Santos Domont e aos de Oswaldo Cruz. Mas reticenciosos em tôrnos dos trabalhos científicos de um Vital Brasil, a que, se deve a melhor defesa da vida do homem rural no trópico. Reticenciosos, em tôrno da atuação, no Congresso Universal de Raças, reunido em Londres em 1912, do entãodiretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, do sábio J. B. de Lacerda: a primeira voz de homem a ciência a chama a atenção de cientistas de filósofos de vários países do mundo, reunidos numa assembléia memorável, para a solução brasileira de problemas de relações de raças. Reticenciosos com relação à obra realizada no mesmo sentido e de modo mais sistemático do que Lacerda, por dos antropólogos de primeira ordem: Roquette Pinho e o Professor Fores da Fonseca. Reticenciosos com relação às contribuições de natureza sociológica trazidas ao esclarecimento do mesmo assunto por Sílvio Romero e José Veríssimo, Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Euclides da Cunha e Eduardo Prado. Reticenciosos com relação sistematização, ainda mais ampla que a dêsses pesquisadores ilustres, de experiência e estudos brasileiros em tôrno dos problemas de adaptação do homem civilizado aos trópicos, através, em grande parte, da miscegenação, no plano biológico, e de interpretação de culturas, no sociológico: sistematização que vem sendo empreendida por antropólogos e sociólogos nacionais; e em conseqüência da qual vem sendo reconhecida a necessidade de nova ciência ao mesmo tempo ecológica e antropológica - uma tropicologia - e de nova subciência - a Lusotropicologia - que dêem nova perspectiva a tais experiências e noa ordenação a tais estudos.
Quando nos dizem - como ainda há pouco de Londres, nos advertiu o Embaixador - que, nós, brasileiros, temos de aprender de tropicalistas holandeses - cujo Real Instituto dos Trópicos, de Amsterdão, é organização modelar que excede as dos próprios alemães em estudos sistemáticos sôbre economia ou agricultura tropical - não nos resta senão aceitar humildemente tal sugestão; e aprender de europeus - de inglêses, de holandeses, de alemães, de franceses, de belgas - o que sua ciência ocidental vem acumulando menos com interpretação que como análise de situações e possibilidades tropicais no plano econômico. No plano, porém, da interpretação dessas situações do ponto de vista da ecologia humana e não apenas do da economia; do ponto de vista humano, em geral, e não apenas do europeu, em particular, portuguêses e brasileiros têm que ser ouvidos em numerosos pontos em que seu "saber de experiência feito" - como diria Camões - se avantaja quer no tempo quer no espaço e quer, ainda, em profundidade, ao de holandeses, alemães, inglêses, franceses, belgas e italianos; e até ao de espanhóis. E se avantaja à ciência dêsses outros europeus pelo fato mesmo de ser um saber que vem implicando em participação íntima do europeu e do seu descendente na vida tropical; em experiência do trópico; em existência no trópico; em interpenetração com o saber e com a experiência de indígenas de várias áreas tropicais. Interpenetração tornada possível, em grande parte, pela miscegenação; pela comparticipação do europeu na experiência sexual do indígena; pela ligação, independente de convenções de casta euroupéia em face das populações tropicais e de suas culturas, do europeu e do descendente de europeu com o indígena e com o mestiço.
G. F.
Sto. Antonio de Apipucos, 1960.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Uma política transnacional de cultura para o Brasil de hoje. Belo Horizonte: Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1960. 117p.
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