PROBLEMAS BRASILEIROS DE ANTROPOLOGIA
Prefácio
Um livro que reune todos os característicos de humanismo científico dos ingleses - The Social Function of Science (1938) - J. D. Bernal salienta que atravessamos uma revolução a que cientista nenhum pode ser indiferente. Revolução de que ele vê principalmente este aspecto; a luta pelo domínio tanto quanto possivel científico do destino humano.
Em nenhum plano a luta por esse domínio - domínio de modo algum absoluto, pois deve conciliar-se com o daqueles valores de sempre, às vezes superiores à própria ciência e guardados pelos clássicos, pelas igrejas e pelo próprio folclore - se apresenta mais rica de significados sociais e de possibilidades superiormente políticas do que nos estudos de antropologia em suas relações com os de genética, de biologia e de psicologia, por um lado, e com os de sociologia e geografia, por outro. A análise minuciosa - minuciosa e quanto possivel independente de preconceitos - das diferenças genéticas que existem na sociedade humana - análise cuja importância é proclamada por outro cientista inglês dos nossos dias: o professor Lancelot Hogben, no seu Genetic Principles in Medicine and Social Science (1932) - é tarefa em que a ciência moderna está empenhada vivamente. Pelo menos naqueles paises - hoje raros - em que a atividade científica e especulativa não foi ainda obrigada a refugiar-se da opressão política nos ramos mais abstratos da matemática pura ou nas sutilezas do jogo de xadrez: dois meios evasão a que se referia há pouco um humorista de Londres.
O estudo daquelas diferenças - Hogben o reconhece - precisa de ser feito ao lado do das influências de ambiente e de meio. Daí a importância dos estudos das duas antropologias - a física e a social - em relação com os problemas de relativo domínio científico do destino humano, em geral, e das populações de certas áreas da América, da África e da Ásia, em particular. Entre essas áreas, as marcadas pela sua condição de regiões tropicais e quase-tropicais habitadas principalmente por gente de cor ou mestiça. O caso do Brasil.
No que se refere ao clima em suas relações com a população, a teoria desenvolvida em 1926 pelo sábio fisologista nosso conterrâneo professor A . Ozorio de Almeida - Segundo a qual "o processo de civilização seria regulado pelo fator limitante clima"(1) - parece marcar o início de uma série de estudos brasileiros em que o critério fisiológico se junta, através da higiene, a preocupações que se acentuam em trabalhos recentes de médicos voltados para problemas de antropologia social. Desses médicos destacarei aqui, um tanto arbitrariamente, o professor Silva Mello, os drs. Gastão Cruls, O . B . de Couto e Silva, Josué de Castro, Paula e Souza, Dante Costa, Alexandre Moscoso e Ruy Coutinho, este empenhado principalmente em associar o problema da alimentação em nosso país a regiões tanto naturais como de cultura . Sob esse critério e com a colaboração do sr. José Bonifácio Rodrigues, o médico Ruy Coutinho prepara interessante mapa para orientação do Ministério da Educação e Saude.
Do professor Silva Mello está para
aparecer ensaio realmente notavel sobre o que ele denomina "instinto"
em suas relações com a alimentação, em particular,
e a cultura, em geral. Nesse ensaio o vasto material de interesse
antropológico-social (e não apenas médico nem
clínico) analisado e interpretado sob critério novo inclue
numerosos casos caracteristicamente brasileiros. O mesmo se poderá dizer
das sugestivas páginas que o professor Couto e Silva acaba de dedicar aos
processos fotobiológicos sob o ponto de vista higiênico (2) e nas
quais seu critério de fisiologista e higienista parece coincidir com os
dos sociólogos e antropologistas sociais que insistem na
conveniência de se considerarem os problemas humanos nos seus aspectos ou
diferenças regionais. Ele chega a admitir, com relação
à dieta, que esta, nos climas quentes, possa requerer "certos
elementos dietéticos especiais, ou reforços de alguns elementos
normais". E acrescenta: "no primeiro grupo estaria a questão
dos condimentos. Arthur Neiva fez-nos interessantes sugestões
teóricas, tiradas da observação da
alimentação regional da Baía: segundo ele o azeite de
dendê e a pimenta confeririam maior resistência contra certas
infecções, que por isto não existiriam naquele Estado.
Certamente a verificação experimental traria à luz muito
fato interessante ." (3) Aí está um problema cujo interesse
está longe de limitar-se aos seus aspectos fisiológico e
higiênico : transborda daí para torna-se assunto de ecologia humana
e material brasileiro de antropologia social e cultural. E no mesmo caso
está o problema do mecanismo da aclimatação, ferido de modo
novo e até surpreendente em médico nacional pelo professor Couto e
Silva quando sugere: " O nosso selvícola dá uma grande
lição na luta contra o sol: fugir dele. A luta contra os ambientes
tropicais lucrou enormemente com os climas artificiais, em espaços
confinados. Para o ar livre, entretanto, o máximo de eficiência
estará em aprender a lição dos índios. Ela
pressupõe toda uma organização de trabalho a ser
modificada. O horário sempre condicionado pelo sol. Muitas das
inovações, se inéditas para nós, são
correntes na América espanhola." (4) Comuns na América
espanhola são tambem certas proteções tradicionais contra o
sol nas ruas - as arcadas de sabor espanhol, por exemplo -
infelizmente raras no Brasil (tão necessitado delas); os pátios no
interior das casas; o hábito da siesta.
A experiência dos índios, a dos
africanos, a dos nossos vizinhos da América espanhola -
principalmente os povos caboclos como os paraguaios ( entre os quais são comuns os "alimentos naturais" e sobrevivência de cultura indígena mais de acordo com o meio físico que as importações européias) - merecem tambem nosso interesse ou, pelo menos, a consideração da nossa ciência investigadora, no que se refere ao uso brasileiro dos chamados "alimentos naturais ", prejudicando, entre nós, pela larga importação, desde os dias coloniais - e por imposição da economia monocultora, latifundiária e escravocrata - de alimentos europeus para a gente remediada e não simplesmente para a rica. O professor Silva Mello, em estudo recente, salienta outro aspecto do problema: a desvalorização que alguns alimentos vêm sofrendo com o aperfeiçoamento industrial do fabrico: o caso do açucar mascavo: "Esse açucar, em vez de ser prejudicial, como está sendo hoje admitido, é antes de vantagem, devendo ser até preferido tanto na alimentação do indivíduo são como na do próprio doente. Ele contem sais e substâncias nutritivas de natureza variada que lhe conferem um indubitavel superioridade ."(5)
E no mesmo caso do açucar parecem-lhe estar a farinha, os cereais as bebidas alcoólicas, o arroz: a preferência deve ser por esses alimentos na sua apresentação mais rústica e não pelos mais aperfeiçoados ou industrializados. "O aproveitamento do arroz não branco, não inteiramente despolido" - escreve o professor Silva Mello - "representa medida de tamanho alcance higiênico e alimentar que seu uso deveria ser imposto pela intervenção dos próprios poderes públicos, tanto à custa de esclarecimentos dados pela Saude Pública como de medidas de restrição e até de proibição em relação ao emprego do arroz branco completamente polido". (6) São ainda do professor Silva Mello estas palavras de interesse não somente médico como antropológico-social: "Aliás, já hoje existe nos paises mais civilizados acentuada tendência para se voltar aos elementos menos industrializados, aqueles que estão mais perto de sua preparação primitiva, tal como acontece com as farinhas menos alvas e purificadas, que vão tendo crescente aceitação mesmo para o preparo do pão, que médicos e higienistas preferem mais escuros, fabricado com farinha completa... Basta dizer que a difusão da cárie dentária, o aumento rápido e impressionante das doenças cancerosas, assim como das afecções dos sistemas nervoso e circulatório, dos pulmões e das vias urinárias, etc., têm sido atribuidos a alterações de nossa alimentação, tal como, nas últimas dezenas de anos, tem acontecido pelo seu preparo mais industrializado..."(7)
Diante dos brasileiros talvez esteja se esboçando hoje o perigo de maior artificialização, de artificialização quase maciça, dos alimentos em consequência das probabilidades de rápida e talvez desordenada industrialização da nossa vida e de sofisticação de populações até aqui rurais e semirrurais. Não que eu seja dos que supõem líricas as condições de vida dessas populações no seu estado atual nem que acredite na sabedoria absoluta dos povos primitivos e dos quase-primitivos na escolha dos alimentos - contra o que Harry Roberts nos adverte. (8) Mas por ser dos que receiam os efeitos de nova artificialização da dieta brasileira sob o surto de industrialismo intenso que se anuncia. Poderá romper-se assim o resto de associações como que instintivas que prendem algumas de nossas populações rústicas menos deformadas nos seus "instintos" pela artificialização de vida e de dieta. Artificialização inseparavel das economias monocultoras, tanto quanto das estreitamente industriais e urbanas. Por outro lado, é possivel que a intensificação na industrialização do Brasil resulte em melhor conhecimento do solo e das condições e possibilidades de diferentes regiões; e desse melhor conhecimento do solo e das condições regionais no interesse da exploração intensa de seus valores brutos mais estimados no momento talvez se derive algum proveito para as quase abandonadas populações rústicas do nosso país. Bem diz o povo que à sombra do cachorro a galinha bebe água; no caso a galinha seria o próprio povo.
Nos pequenos estudos que se seguem como aliás em todos aqueles a que me venho aventurado, o critério principalmente seguido é o regional, o ecológico, o histórico, de tentativa de fixação e às vezes de interpretação e até de avaliação extracientífica de característicos brasileiros de cultura e de "raça", através da consideração de problemas de relações interhumanas e interregionais entre nós. Sendo dos que acreditam a antropologia capaz de concorrer para melhor administração do Brasil e para sua articulação mais inteligente - articulação social e de cultura - com os demais povos americanos - todos eles com problemas semelhantes aos nossos: principalmente os relacionados com o indígena e a sua cultura - não hesito em ir até à sugestão ou esboço de uma filosofia intereamericana de política de cultura que teria nas ciências sociais - especialmente na antropologia - auxiliar poderoso, sem sacrifício, é claro, da dignidade científica das mesmas ciências.
Deste pequeno grupo de pequenos estudos - reunidos por insistência do diretor do Departamento Cultural da Casa do Estudante do Brasil e a que se seguirá nova série tendo por assunto principal o problema do ameríndio no Brasil do ponto de vista da antropologia aplicada e da referida filosofia de política de cultura - não sei separar um desejo; o de que seja dada ao brasileiro, no decorrer dos seus estudos secundários, a oportunidade de iniciar-se naquelas ciências sociais mais ligadas com os problemas do nosso tempo e do nosso país. A antropologia e a economia, por exemplo. Admito que a sociologia seja estudo alto de mais para o adolescente de colégio; mas o que não lhe deve faltar é a iniciação nas ciências sociais mais concretas e objetivas, entre as quais a antropologia se apresenta de interesse particular num país como o Brasil. Nossos problemas quase todos exigem o conhecimento da situação dos povos e das culturas aquí reunidas. Não se compreende, em face disso, um programa de curso secundário que só inclua a iniciação nesse conhecimento vagamente dispersa pela geografia e pela história: uma espécie de favor da pedagogia arcaica a ciências novas e vigorosas que não precisam de favor, nem caridade. Nós é que precisamos delas.
Para os britânicos - mestres sem igual na arte de articular a ciência com a vida e cuja escola antropólogica de Oxford é classificada pelo professor Hooton, de Harvard, como a dos "mais sociais dos antropologistas sociais" e a dos " mais humanos dos anatomista humanos" - o Memorandum of Native Police de 1930 abriu nova fase ao estudo da antropologia fazendo-o descer dos nichos acadêmicos e incluindo-o entre cursos práticos de exército e de administração coloniais. O mesmo se impõe ao Brasil, país com uma obra enorme de auto-colonização ainda por concluir. O contacto com os estudos especializados de antropologia em cursos técnicos ligados diretamente a necessidades brasileiras de administração, de industrialização, de defesa não tanto militar como sanitária e profilática - inclusive profilaxia social - das fronteiras, com a cooperação dos paises vizinhos, de regulamentação de imigração, de reforma da atual economia agrária, de reforma do atual sistema de ensino, poderia ser precedido pela iniciação de todos quantos passam pelos bancos dos cursos secundários nos rudimentos da antropologia : tanto da física como da social e cultural.
Em 1941, estando eu no Rio tive a surpresa de ser convidado pelo general Góes Monteiro, então chefe do Estado-Maior do Exército, para dirigir um curso de sociologia e de antropologia social do Brasil na Escola de Alto Comando. A dispersão de generais com o desenvolvimento da guerra não permitiu que se realizasse naquele ano, nem em 1942, a iniciativa do general Góes Monteiro. Creio, entretanto que o fato reflete honra sobre a inteligência de um militar para quem os problemas brasileiros de antropologia e de história sociais existem de fato, devendo ser objeto de consideração e de estudo dos que se ocupam da defesa do país. Não faltou quem sussurrasse ao seu ouvido que isso de ciência social é hoje manha de comunista. O general Góes Monteiro, porem, fez questão de me declarar que estava decidido a promover a realização do curso na primeira oportunidade: os tais sussurros não o afetavam. Recordando o fato, creio prestar justa homenagem a um brasileiro ilustre, de quem mais de uma vez tenho divergido sem nunca Ter deixado de estimá-lo e de distinguí-lo, tanto dos sargentões simplistas quanto dos paisanos arteiros de todas as Repúblicas: da velha e das novas.
Ninguem ignora o fato de que as ciências sociais sofrem neste momento, no Brasil como noutros paises, intensa campanha que se disfarça principalmente sob o pretexto pedagógico de que todo o tempo do estudante é pouco, primeiro para as humanidades e os "estudos básicos", depois para "os verdadeiramente científicos". As ciências sociais, não sendo nem "humanidades" nem "ciências básicas" nem mesmo "estudos verdadeiramente científicos", deveriam contentar-se em ser estudos de luxo.
É o que não é de modo algum a antropologia; estudo de luxo. Nenhum mais ligado à vida e aos problemas do homem moderno. Nenhum mais básico, mais vital, mais humano. Nenhum mais ligado ao Brasil, à América, à nova fase de organização social para que caminhamos - queiram ou não queiram os reacionários disfarçados em paladinos de uma pedagogia que dizem "antimodernista" mas na verdade contrária aos mais altos interesses de reorganização social mais necessitados de reajustamento, quer do ponto de vista da sociedade, quer do ponto de vista da pessoa .
Quem não sabe de onde vem a pressão contra as ciências sociais, a campanha contra a sociologia, a antropologia, os estudos de economia, a teoria de "estudos de luxo"? Vem precisamente daqueles cujo ideal seria que as novas gerações só estudassem o latim e a matemática. Ou - quando muito inquietos os moços - se confinassem à disciplina do xadrez. Do xadrez-jogo, de preferência; mas falhando este, do outro.
1.Deve-se observar que do mesmo fisiologista é o
conceito, estabelecido sobre experiências realizadas há cerca de
vinte anos, do metabolismo fixar-se em nivel mais baixo nos paises quentes.
Conceito de evidente interesse para os estudos brasileiros de antropologia e de
sociologia. O professor Couto e Silva relaciona-o com o nosso problema de
alimentação, afirmando: " Sendo mais baixo o metabolismo
brasileiro, a dieta deve ser calculada com menores valores calóricos. De
uma maneira esquemática, sob este ângulo admitidos dois
padrões, que designamos como "padrão norte" e
"padrão sul", aplicaveis respectivamente ao Norte e ao Sul do
país. " (Ensaios de produção contra os processos
fotobiologicos sob o ponto de vista higiênico, Rio, 1942, pág. 22).
é ponto que deve interessar os que, como o dr. Juan Comas,
antropologista mexicano, sugerem a conveniência do estudo intercontinental
dos problemas de alimentação do indígena, dentro,
aliás, de uma das recomendações mais importantes do
Primeiro Congresso Indigenista de Pátzcuaro: " Se recomienda a las
naciones americanas que al plantear y administrar sus respectivos programas para
el bienstar del indio, exploren y utilicen lo que sobre la materia puede
enseñarles la Antropología aplicada." (Juan Comas -
"El regímen alimentício y el mejoramiento
indígena," América Indígena, vol. II, n. 11,
págs. 51-60). Com relação ao problema de
alimentação como com relação a outros problemas do
indígena e do mestiço americano, parece que a antropologia
aplicada indica, antes de tudo, a conviniência de adotar-se o
critério regional de estudo.[voltar]
2.O . B . de Couto e Silva - Ensaios de
proteção contra os processos fotobiológicos sob o ponto de
vista higiênico, Rio, 1942.[voltar]
3.Couto e Silva - op. Cit., pág. 22 [voltar]
4.Couto e Silva - op. Cit., pág. 24. [voltar]
5.A . da Silva Mello - " Problemas de
alimentação". Separata do Brasil Médico, Ano LIV, n.
34, agosto 1940, pág. 7. [voltar]
6.A. da Silva Mello - loc. Cit., pág. 3. [voltar]
7.A. da Silva Mello - loc. Cit., pág. 7. - Sobre outros aspectos do problema veja-se o ensaio de Ruy Coutinho Valor Social da alimentação, livro cuja bibliografia e cujo material de interesse clínico e antropológico têm sido largamente
aproveitados por outros médicos e higienistas, que se vêm dedicando
ultimamente ao estudo de problemas de alimentação no nosso
país.[voltar]
8.Harry Roberts - "Modern dietetics ", Health Supplement, "The Spectator", Londres, 10 de outubro de 1931, pág. 9.[voltar]
Fonte: FREYRE, Gilberto. Problemas brasileiros de antropologia. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943. 208p.
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