Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



REGIÃO E TRADIÇÃO
Prefácio


OS dois ensaios, os varios artigos, o discurso ainda de collegial e o outro, de "regresso de nativo" á provincia, a conferência de "tradicionalista" - por algum tempo enamorado, de longe, da propria Igreja de Roma - reunidos agora em livro, foram escolhidos dentre aquelles trabalhos dispersos ou ineditos do autor, que, embora de datas differentes - o primeiro escripto aos dezeseis annos - teem por assumpto principal problemas de região e de tradição e theorias de regionalismo e internacionalismo não só literario e artistico como cultural e, por inclusão, politico.

São problemas e questões que, de modo menos evidente, serão encontrados tambem nos proximos livros do autor - livros de ensaios, de conferencias e de artigos de jornal - da serie a ser publicada pelo editor José Olympio - Perfil de Euclydes e outros perfis, Pessoas, Coisas e Animaes, Aventura e Rotina, Um brasileiro na Espanha - e de que este - Região e Tradição - é o primeiro.

É que taes assumptos estiveram sempre entre as preoccupações do autor, attrahido, desde a meninice, para a aventura intellectual, para a experimentação artistica, para a innovação literaria e, ao mesmo tempo, para os encantos da rotina, da tradição e da continuação - nos limites do possivel - das coisas familiares, quotidianas e de provincia. Essa constancia talvez explique o quasi alheamento em que se conservou, ao regressar ao Recife em 1923 - depois de cinco annos de estudos no estrangeiro - do movimento "modernista" brasileiro, tal como surgiu no Rio, em São Paulo e nos Estados menores: radicalmente contra a rotina - embora só a rotina literaria e a artistica; inimigo de toda a especie de tradicionalismo e de toda a forma de regionalismo.

Se os bons antiquarios de provincia sentiram nas idéas e na forma experimental do autor - no seu uso de brasileirismos e ao mesmo tempo de anglicismos, e, às vezes, de hellenismos, talvez um tanto pedantes, e na sua pontuação de accordo com um rythmo um tanto pessoal phrase - alguma coisa de agrestemente contrario á "devoção pela Patria" e ao "culto pelo Passado" e "pela Lingua", a ponto de considerarem o estreante perigoso iconoclosta, "modernista", "futurista" e "blagueur", por outro lado, a mesma hostilidade encontraria elle da parte dos "modernistas" mais orthodoxos do Rio e de São Paulo, na phase como que evangelica - e evangelismo paulino - de acção literaria daquelles excellentes moços contra tudo que fosse gosto de tradição, espirito de região ou amor de provincia brasileira. Todo o afan da politica literaria dos "modernistas" de então era estabelecer pontos de combate aos Coelhos Nettos e ás Academias. De modo que, nos Estados, a admiração daquelles renovadores das letras e das artes brasileiras era pelos "novos" que lhes imitassem, mesmo desajeitadamente os methodos de renovação e de experimentação. Aos outros davam como suspeitos de "passadismo". E se havia actividade antipathica aos mais orthodoxos dentre os "modernistas", era a pesquisa historica e anthropologica. Consideravam-na - na expressão de um delles, com referencia ao autor - "remexer muafos".

Dentro de tal espirito "modernista", a maior parte das actividades do autor foram condemnadas ou desprezadas: era um individuo sem a visão do "Todo Universal", pensavam uns; um passadista que não enxergava a necessidade de desprezar as "obras sepulcraes dos classicos", sentenciavam outros.

Artigos a favor da cozinha tradicional brasileira e das cozinhas regionaes do país; a favor não da simples conservação mas do aproveitamento, pelos architectos mais jovens, dos valores da architectura tradicional e tambem dos estilos tradicionaes de jardins e de parques á portuguesa, já accommodados á natureza e á vida brasileira; a favor dos estudos de historia social e até intima, nos archivos publicos, de conventos, de irmandades e de familia; a favor dos assumptos negros, amerindios, populares, regionaes, folcloricos, provincianos e mesmo suburbanos como os melhores assumptos para os novos pintores, musicos, romancistas, pesquisadores e photographos - tudo isso foi motivo de irritação dado pelo autor a alguns "modernistas" mais zangados; de risadas gostosas, a outros; de sorrisos, aos mais subtis. Que o autor era um idiota, diziam os mais radicaes; que era um blagueur, diziam os mais tolerantes.

O autor lembra taes coisas - com risco de resvalar na mais despudorada e apologetica das autobiographias - para explicar o seu "regionalismo" e o seu "tradicionalismo" em face do "modernismo" dos seus dias de estreante no jornalismo literario de provincia. "Regionalismo" e "tradicionalismo" tão distantes daquelle "modernismo" como das convenções então dominantes, quer de modo particular, nos estudos da sua predilecção - os de historia, de anthopologia e de psychologi sociaes, e, tanto quanto possivel, os de sociologia genetica e de philosophia social; quer na historia, na arte, na literatura e na philosophia, em geral. Deve, entretanto, salientar as affinidades profundas que sentiria desde 1926 - data de sua primeira viagem ao Rio e a São Paulo - com personalidades de "modernistas", como elle interessados no folclore luso-brasileiro, em coisas de negros, de caboclos, de mestiços do Brasil: Manuel Bandeira (poeta), Prudente de Moraes, neto, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Sergio Buarque de Hollanda, Couto de Barros, Rubens Borba de Moraes, Jayme Ovalle, Affonso Arinos de Mello Franco, e dois ou três outros, aos quaes continuam a ligá-lo preoccupações e modos de ver communs.

Deve tambem lembrar que os três annos que se succederam áquelle regresso foram tambem os de sua phase de reaproximação mais intensa - em certo momento, quasi mystica - das tradições catholicas e hispanicas do Brasil em geral, e de Pernambuco em particular. Reaproximação que sendo uma das bases do seu "tradicionalismo" e do seu "regionalismo" - do de ontem como do de hoje - não o impediu nunca - nem naquelles dias, nem nos mais recentes - de ser tambem um universalista, a quem o gosto pelo catholicismo não impôs, em momento nenhum, limites de seita religiosa ou de estreito systema moral; nem o lusismo, ou antes, o hispanismo, fronteiras de mystica ethinicocentrica ou de politica de raça. Nem de exclusividade de cultura.

Como organização ou confederação de culturas regionaes - organização com existencia apenas no espaço social e apoiada sobre tradições e estilos de vida e de arte communs - é que sempre entendeu o hispanismo; e dentro delle - com existencia mais concreta, é claro - o luso-brasileirismo; e mais concreto, ainda, o brasileirismo de que estão impregnados alguns dos seus escriptos de possivel sabor literario.

O "regionalismo tradicionalista" que desde 1923 se affirmou no Recife chocou-se em mais de um ponto - desde aquelle anno ao de 1930 - com o "modernismo" official do Rio e de São Paulo. Teve entretanto com o mesmo "modernismo" affinidades, ou antes, coincidencias, quanto á technica experimental; um tanto como o "modernismo" das duas metropoles do Sul, aquelle movimento de provincia foi tambem, e por si mesmo, uma reacção contra as convenções do classicismo, do academicismo e do purismo lusitano. No Norte - é certo - apenas contra aquellas convenções em conflicto mais forte com a espontaneidade popular, comprehendidas na espontaneidade popular as tendencias da fala quotidiana de todo o brasileiro e não apenas da gente chamada do povo. Mas em todo o caso, reacção de caracter meio primitivista e meio romantico, contra os abafos do classicismo academico.

Teve assim o movimento do Norte seu bocado de naturalismo, de primitivismo, de romantismo, logo estendidos, sob o estimulo literario, á pintura e á musica. Principalmente á pintura, na qual se notam signaes daquelle estimulo no primitivismo regionalista, mas de modo nenhum anecdotico, e no naturalismo lyrico, mas de modo nenhum ethnographico, e, ainda, no universalismo com raizes apenas poeticas nas terras de canna do Nordeste, da pintura de Cicero Dias; no lyrismo em torno de assumptos brasileiros, de preferencia os regionaes e tradicionaes do Nordeste, de M. Bandeira (pintor); no gosto pela interpretação e pela estilização desses mesmos assumptos em que se vem affirmando, com um vigor cada dia mais pessoal, a arte do pintor Luís Jardim.

Na ficção, foi nos romances de ambiente regional de José Lins do Rego - obra ao mesmo tempo de critico social e de criador poetico - que aquellas tendencias tiveram sua expressão mais forte e mais pura. Ellas se encontram tambem, com extraordinario viço literario, nas melhores paginas dA Bagaceira, de José Americo de Almeida - o primeiro escriptor moderno da região nordestina a ser lido pelo grande publico brasileiro; nos melhores contos de Luís Jardim; no romance autobiographico - infelizmente ainda inedito - de Cicero Dias, cujo titulo é um nome de engenho de Pernambuco: Jundiá. Em Jorge de Lima e em Ascenso Ferreira: no Jorge de Lima de Essa negra Fulô e no Ascenso de Mulata sarará.

Do movimento "regionalista" e "tradicionalista" do Recife - se é que se pode chamar de movimento aquella phase de actividade literaria e artistica de provincia, no Norte, que de modo nenhum se deve confundir com o "modernismo" do Rio e de São Paulo - resultou, ainda, a affirmação - ou a renovação - de personalidades, algumas bem vigorosas, de criticos e pesquisadores preocupados com o lado regional e tradicional dos problemas sem prejuizo de seu gosto não só pela experimentação intellectual como pelo contacto com as letras européas e norte-americanas de vanguarda: Olivio Montenegro, Sylvio Rabello, Estevão Pinto, José Americo de Almeida, Mario Morroquim, Luís Cedro, Odilon Nestor, Julio Bello, Annibal Fernandes, Antiogenes Chaves, Ademar Vidal, Antenor Navarro, Ruy Coutinho, Antonio Freire, José Antonio G. de Mello, neto, José e Clarival Valladares, para não falar nos mais recentes. E, ainda: Valdemar Cavalcanti e Aurelio Buarque de Hollanda, estes dois muito pela influencia directa de José Lins do Rego. Primeiro no Recife, depois na Parahyba e em Maceió, José Lins do Rego exprimiu, em artigos e chronicas incisivas, a tendência para a conciliação do regionalismo literario ou artistico com o modernismo, tão caracteristica da renovação intellectual e artistica operada, desde 1923, no Nordeste do Brasil. "Influencias", dentro do movimento, é natural que tenha havido - sobre as idéas, as leituras, a maneira de escrever. Mas não influencias deformadoras dos mais novos pelos mais influentes.

Desses "renovadores" do Nordeste - aos quaes pode-se decerto accusar de muita deficiencia - difficilmente se poderá dizer, como um critico escreveu de Strachey e de seus companheiros de renovação da technica biographica na Inglaterra, que se revelaram mais enthusiastas da analyse do que da caracterização; mais enthusiastas do methodo do que do elemento humano. Ao contrario: a tendencia actual na literatura brasileira, "no sentido da humanização" - salientada recentemente pelo sr. Almir de Andrade, ao lado do "brasileirismo" - vem, em boa parte, do Nordeste de 1923-1930, através de tentativas, da parte daquelles provincianos, de caracterização historico-social da região; de critica literaria e de arte baseada no estudo das regiões e tradições brasileiras, e não inteiramente aerea ou puramente esthetica; e ainda, de realizações - estas verdadeiramente notaveis - no romance, na poesia, no conto, na pintura, no desenho. A começar pelA Bagaceira, de José Americo.

É que naquelles "renovadores" o regional nunca esteve separado do humano; nem par nenhum delles o gosto pela experimentação literaria artistica, sociologica ou psycologica foi, ou é, maior que o gosto pelo assumpto vivo - os homens vistos de perto, tanto no tempo como no espaço: os paes e os avós; os antepassados directos, os conterraneos ou os contemporaneos dos proprios experimentadores. Gente da sua carne, do seu sangue, do seu tempo. Isso, de preferencia aos themas distantes do classicismo convencional ou do romantismo, igualmente convencional, ambos dominados pelo prestigio da distancia, um no tempo, outro no espaço.

Naquella especie de endogamia intellectual e artistica o risco seria o do experimentador resvalar para o extremo narcisismo regional ou para o tom patrioticamente apologetico. Tendencia, entretanto, que não se tornou dominante nos "regionalistas" ou "tradicionalistas" do Recife, embora o bairrismo de que teem sido accusados alguns escriptores mais fracos do movimento. Alguns dos mais fortes, ao contrario, teem ido, talvez, ao excesso opposto, na analyse de assumptos de que elles proprios são parte viva.

O que é certo é que desde A Bagaceira, desde os primeiros poemas de Jorge de Lima e as primeiras paginas de prosa ao mesmo tempo realista e poetica de José Lins do Rego, se nota, naquelles "renovadores ", uma tendencia para conciliarem o regional com o humano, a tradição coma experimentação, o gosto pela renovação do methodo literario, cientifico ou artistico com a sympathia humana pelo assumpto regional e pelo publico brasileiro. Tendencia que só mais tarde - com os "post-modernistas" - se accentuaria nas "zonas de influencia" do chamado "modernismo" brasileira.

Á parte duas ou três excepções notaveis, os "modernistas" brasileiros endureceram-se deante dos assumptos brasileiros e do proprio publico nuns ironicos, nuns superiores, nuns humoristas, raramente attingindo o ponto em que o humorismo chega ao humour e alcança ao proprio humorista. Foi essa attitude ironica e superior deante dos assumptos que fez dos melhores dentre elles, outros tantos Stracheys - em ponto menor, é claro. E por influencia de taes Stracheys o leitor brasileiro mais fino, desejoso de se tornar elite e de se identificar com o superior contra o inferior, foi desprezando os assumptos nacionaes e regionaes - pelos quaes começara a interessar-se com o sr. Monteiro Lobato; e interessando-se apenas pelo brilho, pela audacia, pela originalidade, quando não da experimentação em si, dos experimentadores, em pessoa: poetas, criticos, chronistas, romancistas. Todos elles subtis, ironicos, trocistas.

Os "renovadores" do Nordeste, não. Justiça lhes seja feita. Desde o principio, embora sem procurarem o publico, não o desprezaram nunca. Esforçaram-se por se exprimirem de modo o mais simples possivel - sem resvalar no simplismo, nem no populismo ou na vulgaridade. Procuraram escrever de maneira a mais proxima possivel da lingua falada - embora introduzindo palavras novas, formadas do inglês e até do grego, na nossa lingua. Pedanteria da provincia que vae aqui recordada só para mostrar que não houve naquella aproximação de lingua escripta da falada o populismo salientando há pouco por um professor estrangeiro, neste ponto - como em outros - mal informado por critico brasileiro. Alguns dentre elles, versando assumptos até então tratados em português um tanto esoterico, buscaram o contacto com o publico intelligente em geral, e não com uma simples e rala elite de bachareis afrancesados. E isto não só por meio daquella simplicidade de expressão como em consequencia da sympathia humana pelos assumptos quotidianos e pelo passado mais proximo de todos nós: o nosso passado intimo.

Pela extensão do criterio de historia ao folclore, á historia do povo, do escravo, do negro, do indio, do mestiço, da mulher, do menino, do parente pobre, os "renovadores" do Nordeste contribuiram desde 1923, dentro dos seus limites de provincianos, para a renovação de methodos de estudo, de analyse e de interpretação da vida e do passado do Brasil; para o esforço - hoje tão livre, mas há quinze annos ainda perro, deante das muitas difficuldades - de criação literaria e artistica com material regional, tradicional, quotidiano, familiar, que encerrasse o mesmo tempo valores universaes. Nisso elles se anteciparam a "post-modernistas" de outras regiões brasileiras.

Foi um ponto, esse, em que a acção dos "renovadores" do Nordeste teve - e continua a Ter - alguma coisa de parecido á daquelles intellectuaes russos conhecidos por eslavophilos para se distinguirem dos inteiramente europeizados ou dos europeizantes a todo o pano. Como na Russia os Lavrov, os Leontieff, os Danilevsky, alguns daquelles escriptores, sociologos e artistas de provincia do Nordeste clamaram - e clamam ainda - contra a excessiva europeização ou ianquização do trajo popular regional, da casa regional e tradicional, do jardim, do movel e da culinaria luso-brasileira, com sua riqueza de côr tropical e oriental, com suas reminiscencias de arte indigena, da africana, da moura, da indiana, da chinesa e japonesa, já assimiladas pelo genio de assimilação do exotico do colonizador português.

Quando o autor escreveu, em 1924, referindo-se ao Brasil - "a Russia americana que somos" - não fez phrase inteiramente á toa mas deu expressão - embora mal - ao sentido de parallelismo cultural e psychologico que parece nos aproximar, de facto, dos russos do seculo XIX. Sentido que foi tambem accentuado por ensaistas de relevo como Vicente Licinio Cardoso e o sr. Octavio de Faria.

O parallelismo suggerido - repita-se - é com a Russia do seculo XIX e dos começos do seculo actual . A Russia que procurava por intermedio dos seus sociologos, dos seus poetas e dos seus romancistas uma solução russa e ao mesmo tempo social, largamente, christã e fraternalmente humana para os seus problemas especialissimos - nem europeus nem asiaticos. E não a Russia de hoje, entregue ao simplismo da solução massiçamente marxista de todo o complexo drama de seus desajustamentos historicos, de cultura e de região - e não apenas de classe e de economia. E reduzida, em certos pontos, a uma caricatura dos Estados Unidos da America do Norte - que não é, decididamente, uma organização ideal de sociedade e de cultura. é certo que, na Russia, as ultimas tendencias dos seus sociologos e economistas dirigidos são no sentido de respeitar as regiões, conciliando-lhes os interesses com os do todo sovietico. O reatamento, pelo "stalinismo", de uma velha e boa tradição partida com violencia pelo extremismo revolucionario de 1917. Tradição que, existindo tambem no Brasil, precisa de ser preservada daquellas tendencias brasileiras, que se baseiam na excessiva centralização politica e economica ou numa mystica absorvente de "unidade nacional" ou de exclusividade de cultura.

*

O autor participou daquelle movimento "regionalista" e "tradicionalista" de 1923-30, que agora contrasta, talvez com certo espirito de partido e certo preconceito de grupo, de que elle proprio talvez não se aperceba, com o dos "modernistas" do Rio e de São Paulo, no mesmo periodo. Que lhe seja perdoado tudo quanto porventura diz de injusto dos grupos alheios. Que lhe seja descontado todo o exaggero a favor do proprio grupo.

Em geral, só se fala de um dos grupos de renovação de vida intellectual e artistica do Brasil: o dos "modernistas", a cujo critico official, o erudito sr. Tristão de Athayde, há quem attribua, com evidente exaggero, o estimulo á energia literaria regionalista e tradicionalista do Nordeste, de que resultariam romances como A Bagaceira e Banguê, poemas como Essa negra Fulô. Por outro lado, há quem supponha, como o illustre ensaista sr. Sergio Milliet, que a influencia do sr. Mario de Andrade é que foi responsavel pelo desabrochar daquella energia.

Parece que nenhuma das duas influencias se verificou de modo decisivo sobre a gente do Nordeste, a não ser em casos quasi individuaes ou isolados: o do sr. Joaquim Inojosa, por exemplo, por algum tempo discipulo intransigente, no Recife, de "modernistas" do Sul; discipulo amado do então, como hoje, meio apostolico sr. Mario de Andrade - o extraordinario poeta do Nocturno de Bello Horizonte e critico de Castro Alves, que será lembrado na historia literaria do Brasil não só por essas suas solidadas virtudes como pelos seus brilhos de General Booth do "modernismo" de 1922.

O movimento do Nordeste, no sentido de um novo regionalismo, de um novo brasileirismo e de um novo humanismo, no Brasil, se fez, em grande parte, com suas proprias forças e em consequencia dos seus proprios contactos com a Europa e com os Estados-Unidos. A repercussão do "modernismo" do Rio e de São Paulo foi insignificante sobre aquelle grupo regional. Graça Aranha - como mestre "renovador" - nunca foi levado em conta por nenhum de nós; e disso queixou-se uma vez, amargamente, a certo amigo do autor no Rio. Ao seu ver, tal indifferença - para elle hostilidade - devia ser obra de Oliveira Lima: "inimigo" - dizia o bom do Graça - de Joaquim Nabuco e delle, Graça; e que não perdia occasião de o intrigar com os moços.

Ingenuidade do velho Graça. A verdade é que entre nós, provincianos do Nordeste que, "renovadores" ao nosso modo, nos conservamos quasi indifferentes aos "modernistas" do Rio, nunca houve sacrificio de temperamento ou individualidade a alguma personalidade absorvente ou imperial, do grupo ou alheia. Nem sacrificio de temperamento nem de idéas proprias e de methodos de escola ou de seita. As affinidades e coincidencias accentuaram-se naturalmente entre aquelles provincianos sempre juntos; o sentido de equilibrio - especie de acacianismo - do gosto pela tradição com o enthusiasmo pela experimentação, tornou-se, do mesmo modo, caracteristico geral dos "renovadores " do Nordeste. E nunca, regra ou convenção de escola ou de seita literaria ou sociologica.

Não que fosse já, aquelle sentido, o gosto pelo classicismo, que hoje esta sendo apontado como condição única de "criações duradouras" e de "verdadeira grandeza em nossa literatura", como escreveu há pouco, talvez com certa emphase literaria, o sr. Almir de Andrade, que é hoje um dos melhores criticos de idéas que tem o Brasil. Ao contrario. Ao autora - participante do movimento - o "movimento do Nordeste" parece Ter sido antes neo-romantico do que classicista, nas suas tendencias geraes; emquanto nas particulares chegou a um naturalismo, ou antes, a um realismo, que ainda não fôra attingido nos estudos brasileiros.

Foi, talvez, uma antecipação vaga, mas em todo o caso antecipação, do "realismo romantico" que o sr. Jorge Amado, em lucidas observações sobre as tendencias actuaes de nossa literatura, dá como o rumo que está tomando o romance brasileiro. Poderia accrescentar: a literatura brasileira em geral. A propria cultura brasileira, inclusive os estudos - fundamentaes para a nossa cultura, e mesmo para a nossa politica, nacional e internacional - de anthropologia, de sociologia genetica, de psychologia, de economia, de geographia, de historia. Que todos podem ser "romanticos" no sentido, que anima esse calumniado adjectivo, de opposição ao classicismo academico, nas letras, é á concepção unilinear, nas sciencias.

É opportuno salientar, a esta altura, a moderna accentuação, no Brasil inteiro, do factor temporal, regional, tradicional, e, até certo ponto, do individual, naquelles estudos; a accentuação do factor historico, do factor cultural - sociologicamente comprehendido - e do factor ecologico, em opposição áquelle "universalismo" impreciso de muitos dos sociologos antigos, da Europa e dos Estados-Unidos, que os primeiros philosophos da historia nacional e os primeiros cultores dos estudos sociaes no Brasil adoptaram com enthusiasmo e - feita uma excepção ou outra - sem muito discernimento. Tal accentuação é, em sua essencia, expressão de modernissima revolta que se pode denominar de neo-romantica. Revolta neo-romantica contra o "classicismo" greco-romano, contra o rigido "universalismo" do Direito Natural, contra o "evolucionismo darwinista", isto é, unilinear. Três tendencias estas - diversissimas e até contraditorias mas unidas neste ponto: em terem fundado suas theorias e seus methodos hoje em crise agudissima - sobre a chamada "continuidade de institinctos fundamentaes"; sobre a supposta "estabilidade da natureza humana" que seria tambem condição para uma anthoropologia ou, antes, uma facil sociologia, normativa, racional, estatica.

Foram os velhos romanticos alemães do "historismus" que, primeiro com Justus Moser, depois com Herder, com Jakob Grimm, com Ranke, com Savigny, oppuseram á philosophia de "universalidade estatica" dos anthropologistas e dos poetas classicos um criterio "romantico"de interpretação e expressão dos factos desenvolvimento e da actividade humana. "Romantico", por ser um reconhecimento, nesses factos, daquella espontaneidade, daquella diversidade, daquella variedade no tempo e no espaço que os romanticos de toda a especie - sociologos, historiadores, romancistas, poetas - teem destacado, alguns com certo escandalo individualista até com excessos morbidos de subjectivismo, em differentes epocas, contra a orientação rigida e a technica inflexivel dos chamados "classicos": contra a tendencia exaggerada da parte destes para a crystallização, em leis universaes de conducta e em formas universases de expressão, do que é, por natureza, e em grande parte, vario, flexivel, inconstante no tempo e diverso no espaço. Existe, é certo, o geral, o universal; mas - em grande parte - como residuo do regional e do temporal. Estes merecem, portanto, ser estudados, interpretados ou exprimidos pelos artistas e pelos scientistas, ao lado daquelles; ou mesmo antes daquelles.

No sentido de se voltarem para o passado brasileiro e a vida regional - inclusive o elemento irracional, nesse passado e nessa vida - como condição de uma verdade humana mais solida, os "renovadores" do Nordeste foram - e são - romanticos e ao mesmo tempo realistas: antecipação, como já se disse, dos "realistas-romanticos" da feliz expressão do sr. Jorge Amado, com relação ao movimento literario brasileiro de hoje. Aliás, há muito que existe um romantismo realista: oppondo a diversidade á unidade temporã ou á uniformidade absoluta por uma questão de realismo e não por capricho subjectivista o individualista.

O autor foi, no Brasil, dentro dos seus limites de provinciano, um daquelles "realistas-romanticos" mais remotos e, por conseguinte, sem a nitidez dos de hoje. O longo periodo de estudos no estrangeiro fê-lo ver sua região e a tradição brasileira não só com a sympathia endogamica de nativo que regressa, mas com olhos de exogamo: enxergando no familiar certo encanto do exotico e, ao mesmo tempo, vendo-o na sua pureza de linhas e na exactidão de suas proporções. Vendo-o criticamente e tambem com sympathia humana a mais intima. Isso talvez explique parte do seu "romantismo" regionalista e tradicionalista. é possivel que explique tambem o reverso: seu possivel realismo.

Já houve quem desse como condição ideal do pesquisador sociologico - ou do interprete da realidade social - precisamente esta: o individuo Ter sido participante intimo e activo da vida e dos valores do grupo e Ter se afastado delles por muito tempo. No regresso - dado, é claro, que reunisse a essa vantagem as de preparo techinico - estaria singularmente apto para aquella interpretação. O autor (não por nenhum merito de sua parte, mas pelo favor das circunstancias) teria voltado para o Brasil nessa condição ideal para estudá-lo e interpretá-lo, se nessa questão de methodo nos estudos sociaes o principal não fosse, afinal, o próprio pesquisador: seu conjunto de qualidades pessoaes, intellectuaes e scientificas.

O pesquisador, no caso, está longe de Ter se revelado ideal - tanto nas suas primeiras tentativas de estudo e de interpretação da realidade regional e do passado brasileiro - que acaba de reler sem nenhum enthusiasmo, ás vezes até com certa repugnancia - como nas suas ultimas iniciativas. E não só o pesquisador: o experimentador literario á procura de uma expressão nova, fraternalmente humana, brasileira, pessoal, mas não extravagante, que até hoje não conseguiu.

No gosto contraditorio pelo familiar e pelo estranho, ao mesmo tempo; no interesse por theorias e figuras contraditorias - por um Joyce ao lado de um Maritain, por exemplo, e por um Pascal ao lado de um Proust, por um Lucas evangelista ao lado de um Pater - tão daquelle grupo, e tão do autor, há evidentemente a marca romantica. Pois todo bom romantico está de accordo com Pascal - o maior dos romanticos do seu tempo e, ao mesmo tempo, um realista agudo - em que a contradição signal de verdade.

Do autor, já houve quem perguntasse como é que sendo tão enthusista de coisas de arte, estrangeiras e modernissimas, mostrava ou, pelo menos, affectava interesse pelos bonecos de barro das feiras e pelos bolos de tabuleiro das ruas do Recife. Evidente contradição. E como essa haverá nelle varias outras contradições de romantico. Romantico elle é, ainda, no gosto de falar de si proprio á sombra de qualquer pretexto; e mesmo sem pretexto nenhum.

A verdade é que um bocado romantico o autor sempre foi; e continua a sê-lo, depois de attingido o meio caminho da vida.

Talvez a primeira expressão de ordem academica e de rotina classica com que se chocou seu romantismo de menino tenha sido a figura secca de mestre do grande pintor brasileiro Telles Junior, por algum tempo seu professor de desenho. O aprendiz tinha sete ou oito annos. O mestre, sessenta ou cincoenta e tantos. Marcava-lhe o rosto uma dessas vastas barbas louras de avô flamengo que nunca foram raras em rostos pernambucanos. Já glorioso, o mestre não tratava o discipulo: "Seu menino ", isso, "seu menino", aquillo. Um dia elle disse ao discipulo: "Seu menino, você tem a mania de não copiar os modelos, de querer inventar... Seu irmão copia direito, você altera."

O mestre falava zangado. Defendia, zangado, o classicismo academico. O aprendiz era aos sete annos um deformador.

É verdade que o deformador maior talvez fosse o mestre não querendo que o menino romantico se afastasse coisa alguma dos modelos. Tendencia que fôra animada nelle por um Mr. Williams, inglês com quem se iniciara no estudo do desenho e da lingua inglesa. De qualquer modo, foi aquelle o primeiro choque do experimentalismo romantico do autor com o classicismo academico dos mestres.

No que ambos - Telles Junior e elle - estavam de accordo, era no amor á região e á tradição: aos seus valores mais caracteristicos. Ás arvores, ás matas, ao mar, aos rios, ao céo de Pernambuco. E o aprendiz foi depois o primeiro a reconhecer a necessidade de disciplina academica recommendada pelo velho pintor regionalista e tradicionalista em suas aulas de desenho, evitando, embora, o rigido classicismo academico. Estudantes de universidade, muitas vezes lembrou-se de mestre Telles, ao Ter que desenhar de microscopio, no curso de biologia. Desenho scientifico que não lhe pareceu de todo antiromantico.

Discipulo, annos depois, em meio cosmopolita, de um mestre ainda maior que Telles - o velho Franz Boas - o autor recolheria desse scientista intransigentemente scientifico e fortemente logico nos seus methodos estas palavras: " Tentaremos debaixo desse criterio [o estrictamente logico, o scientificista] criar novas gerações só de logicos, supprimindo aqueles cuja vida emotiva é a mais vigorosa e procurando que a razão domine absoluta e as actividades humanas sejam reguladas com a precisão de machinas ? " Pergunta que tem de ser respondida por nós, os desta geração, attingidos por uma guerra cujas consequencias terão uma importancia decisiva para os destinos da cultura humana em todas as suas expressões. Inclusive nesta: a pessoa humana em face da mechanização da vida.

*

Os trabalhos aqui reunidos - repito - são de datas differentes : o primeiro é um discurso de collegial escripto aos dezeseis anos e lido em novembro de 1917 no Collegio Americano Gilreath, do Recife, na solenidade de conclusão do curso secundario e publicado depois no Diario de Pernambuco e em folheto, hoje esgotado, saído da typographia do mesmo collegio; seguem-se: Apologia pro generatione sua, conferencia lida no Theatro Santa Rosa, da capital do Estado da Parahyba, a 5 de abril de 1924, e publicada no mesmo anno em brochura, hoje esgotada; Algumas notas sobre a pintura no Nordeste e Aspectos de um seculo de transição social, no Nordeste, ensaios publicados no Livro do Nordeste, commemorativo do 1ª. Centenario do Diario de Pernambuco, a que foram accrescentados trechos de outros artigos publicados de 1925 a 1927 no mesmo jornal; Região, tradição e cozinha, que consta de trechos de conferencia lida no 1ª. Congresso Regionalista do Nordeste, reunido no Recife em 1925, e da qual alguns extractos foram publicados no Diario de Pernambuco no mesmo anno; Região, tradição e casa, que reune trechos de artigos publicados naquella epoca, no mesmo diario, e recentemente - em 1939 - no Correio da Manhã, do Rio; Fidalgos pernambucanos, reproducção de artigo publicado em 1937 no Correio da Manhã; Regresso á provincia, reproducção do discurso lido num jantar de amigos no Recife, em 1936, e publicado no mesmo anno no Diario de Pernambuco.

O primeiro e os ultimos apparecem quasi sem alteração nenhuma: nem mesmo de pontuação. Da conferencia de 1924 e dos dois ensaios, publicados em 1925, é que o autor retirou trechos, já aproveitados em livros recentes, e resumiu outros, alterou-lhes a pontuação e a forma, ou accrescentou-lhes por-menores, no desejo de maior clareza de expressão ou de melhor documentação dos assumptos.

Recife  1940

Gilberto  Freyre



Fonte: FREYRE, Gilberto. Região e tradição. Ilustrado por Cícero Dias. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1941. 264p. (Documentos Brasileiros, 29).

Topo
Voltar Página inicial