RETALHOS DE JORNAIS VELHOS
Prefácio de Luís Jardim
A publicação de Casa-Grande & Senzala deu de repente um relêvo nacional ao nome de Gilberto Freyre, que antes só era conhecido no Rio e em São Paulo entre um pequeno grupo de críticos e escritores modernistas: Manuel Bandeira, Rodrigo M. F. de Andrade, Prudente de Morais Neto, Couto de Barro, Sérgio Buarque e dois ou três outros.
Reunindo-se agora, neste volume, alguns dos artigos publicados, uns, no Diario de Pernambuco, em O Jornal (Rio), e em A Província (Recife), outros, na Revista do Brasil (São Paulo), na Revista do Norte (Recife) e em El Estudiante Latino-Amercano (Nova York), vários dêles quando o autor contava apenas dezoito anos, torna-se oportuno recordar os traços mais vivos de sua atividade em Pernambuco, de sua formação intelectual, de sua adolescência, desde cedo abafada pelo estudo e pelas preocupações e até responsabilidades de ensino.
Aluno por dez anos do Colégio Americano Gilreath, do Recife, onde entrou no Jardim da Infância, aos treze anos já era aluno mestre, com a responsabilidade de ensinar uma classe de Latim no curso secundário, além de outras, de História e Português, no primário.
Ensinando pagou as despesas dos seus estudos secundários. Êste fato deve Ter sido contraditòriamente uma vantagem e uma desvantagem para a formação: de um lado, deu-lhe uma como precoce independência; de outro, porém, foi a imposição de responsabilidades de adulto sôbre um menino de treze anos. Espécie de menino que êle mesmo lamentaria mais tarde em Dom Pedro II, em particular, e no menino brasileiro do tempo do Império, em geral: tão cedo "de luto da própria meninice".
Terminou o curso e Ciências de Letras no Americano, tendo sido paraninfo da sua turma o ilustre historiador Oliveira Lima. O discurso que pronunciou nessa solenidade, com dezessete anos apenas, merecia ser reproduzido hoje, tal o senso, o discernimento, as preocupações que já revelava, a clareza, o pitoresco e o ritmo com que já escrevia
O ambiente calvinista do Colégio Americano envolveu-o, por influência principalmente do diretor e professor de História, e sempre seu amigo - Mr. Muirhead-e também do professor de Grego-o Ver. Taylor - com quem se iniciou no estudo dessa língua, tornando-se um entusiasta das belezas do Evangelho de João, no original. Sua crise religiosa de adolescência foi intensa e, sob aquelas influências, no sentido do cristianismo evangélico, que logo depois sentiria contrário ao seu brasileirismo e às suas tendências intelectuais mais profundas. Deu-se nêle um regresso não religioso, muito menos doutrinário, à Igreja, sim à tradição Católica, hispânica e brasileira, nos seus aspectos culturais - justamente os aspectos que mais influenciariam depois, nas suas idéias de solução não simplesmente econômica ou política, mas cultural, do problema humano. Outra influência que agiu sôbre êle, ainda nos fias do colégio, foi a da Filosofia Positiva, na qual se iniciou por influência do seu pai e professor de Português e Latim.
Seguindo para os Estados Unidos, aí cursou primeiro a Universidade de Baylor, continuando a concorrer para as despesas dos estudos-feitas pelo pai e pelo irmão-com o ensino e com trabalhos de tradução e revisão, inclusive os que realizou para o sábio geólogo e professor da Universidade de Stanford, John Casper Branner. Terminou o curso de bacharel em Baylor-onde tivera por professôres, entre outros, A. J. Armstrong, figura de relêvo entre os "browningistas" americanos e inglêses, Pace (Geologia); Bradbury (Biologia); Dow (Sociologia); Wright (Economia); Hall (Psicologia); e onde também conheceu Amy Lowell, Vachel Lindsay, William Butler Yeats, Markham, tôda uma série de poetas, escritores, cientistas, de alguns dos quais fixou suas impressões em artigos para o Diario de Pernambuco ou para jornais americanos.
De Baylor seguiu para a Universidade de Colúmbia, ingressando na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, onde fêz estudos de Mestrado e Doutorado. Concluídos, nessa faculdade, o curso de Mestre e o estudo das matérias essenciais ao Doutorado, seguiu par a Europa, demorando-se principalmente em velhos centros culturais, como Oxford, visitando as velhas catedrais como Chartres, freqüentando museus de Antropologia e História Social da Alemanha e de outros países.
Teve mestres ilustres: o antropólogo Boas, que havia de lhe causar impressão profunda; o sociólogo Giddings, autor da obra clássica - Elements of Sociology-e célebre pela sua teoria de "consciência de espécie"; o economista Seligman; os historiadores Hayes e Fox; o jurista Munro; e, em cursos especiais, Carl von Doren, crítico do The Nation,; Zimmern, da Universidade de Oxford, e especialista em estudos sôbre os sistemas antigos de escravidão; Haring, da Universidade de Harvard.
Sua tese de Mestre na Universidade de Colúmbia versou sôbre Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century e foi publicada pela The Hispanic Amercan Historical Review, recebendo elogios de críticos como Mencken, Percy A. Martin, Oliveira Lima, João Lúcio de Azevedo, James A. Robertson. Em Colúmbia-onde alcançara um dos prêmios universitários de scholar-além dos cursos necessários ao grau de Mestre, seguira depois, sem nenhuma preocupação de diploma, vários dos chamados "graduate" ou "postgraduate studies" de sua especialização. Já aí se revelara o desinterêsse absoluto pela vida profissional ou pelas vantagens imediatas dos títulos, o que faria dêle figura tão estranha entre os seus conterrâneos. Um dêstes - ilustre juiz e estadista da Primeira República - nunca pôde compreender como alguém tivesse passado tanto tempo no estrangeiro, sem se Ter formado em Engenharia ou Medicina; ou que tivesse se formado em Ciências Políticas e Sociais - "que nos Estados Unidos incluem as Ciências Jurídicas" - sem se Ter diplomado em Direito.
Na Unversidade de Colúmbia fêz parte do grupo de estudiosos que se reuniam em Jones Street, n.º 30, em Greenwich Village, e entre os quais, sendo o mais môço, tornou-se um dos mais influentes. Basta ver a dedicat´ria que vem impressa no livro de Francis Butler Simkins, hoje professor derenome-Ther Tilman Movement in South Carolina-página onde o intelectual americano declara dever ao colega brasileiro de Colúmbia a compreensão do passado de sua própria terra, o gôsto em reconstituí-lo e interpretá-lo. Outra figura, brilhante daquele grupo, o alemão Ruediger Bilden, depois também professor e notável pelos seus estudos sôbre a escravidão na América, inclusive no Brasil, onde estêve em viagem de pesquisa-diria que o interêsse pelo estudo do nosso passado fôra nêle despertado pelo nosso conterrâneo e pela sua tese.
A mesma capacidade e irradiação de entusiasmo, o poder de comunicar aos outros um gôsto intenso, um gôsto quase físico, pelo estudo e pela interpretação das coisas, pelas leituras mais profundas, pelas preocupações mais sérias, faria que de volta ao Recife, depois de tantos anos no estrangeiro, Gilberto Freyre se tornasse o animador, às vêzes também o orientador, de alguns dos maiores talentos de escritores, artistas, estudiosos do passado, pesquisadores científicos que se vêm revelando em nosso país nos últimos dez anos. Uns de sua geração ou de sua idade, como José Lins do Rêgo, Olívio Montenegro, Sílvio Rabelo, Estêvão Pinto, Ascenso Ferreira, Antônio Freire, Ademar Vidal, Osíris Carneiro. Alguns de gerações mais antigas: Júlio Bello. E ainda outros de gerações mais novas: Valdemar Cavalcânti, Rui Coutinho, Evaldo Coutinho, Rubens Saldanha, Danilo Lôbo, Antiógenes Chaves, José e Luís Robalinho Cavalcânti, José Antônio Gonsalves de Mello, Manuel Diegues Júnior, Jarbas Pernambucano, tantos outros.
Mário Marroquim escrevendo sôbre Casa-Grande & Senzala disse: "[....] marcou, definitivamente, o nascimento de um mundo nôvo... Dir-se-á: vida intelectual brasileira antes e depois de Casa-Grande & Senzala." Poderemos acrescentar: vida intelectual brasileira antes e depois de Gilberto Freyre. Porque antes dêle não tínhamos, rigorosamente (pelo menos em Pernambuco), o sentido cultural brasileiro. Quero dizer, o sentido que nos devia dar um amplo conhecimento de nós mesmos, com tôdas as nossas qualidades e defeitos, aproveitando o que de mais puro e genuìnamente brasileiro escapava aos estudiosos a nossa história e formação social. Foi sem dúvida graças à sua sensibilidade aguçada pelos estudos e pelas viagens que tivemos tão desenvolvido o senso das nossas tradições de cultura, fora do exclusivismo europeu; o gôsto pelo estudo dos nosso hábito e costumes; danças e ritos de religiões africanas; das velhas ruas, becos típicos do Recife antigo e igrejas de Olinda; o interêsse pelos solares, casarões, sobrados de arquitetura solonial; o gôsto da fruta, do bôlo, do doce, do quitute do Norte; a sensibilidade ao colorido e ao mesmo tempo ao langor dos Trópicos. Tudo isso era nosso, estava em nós, mas na verdade não chegava a Ter um sentido social nem uma valorização artística. Quase que só uns brilhos de pitoresco.
Foi sua sensibilidade, voltada para aspectos que muito letrado, adstrito a miudezas históricas, supunha não Ter a menos significação, que conquistou, para muitos de nós, essa nova zona de valôres intimamente brasileiros.
Consulte-se por exemplo o artigo sob o título "Encanta-Môça", neste livro. Criticando a mudança sem propósito dum nome de rua, diz o autor: "Ora, a grande história é a social. É a história íntima, como a chamavam os Goncourt: 'L' histoire intime... ce roman vrai...' ... são as superstições e os mitos que animam a história, dando-lhe uma nota de poesia que é ao mesmo tempo uma nota de humanidade profunda."
A cada coisa, expressão da nossa "cultura", que ia passando despercebida, dava Gilberto Freyre um interpretação nova, de que resultava um encanto, um interêsse, um sentido especiais. É sua a descoberta da mulata, no nôvo sentido que lhe deu. Cantou-a mesmo no seu poema Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados: "parda, roca, morena, côr dos bons jacarandás de engenho do Brasil, madeira que cupim não rói, mulata de peito gordo como para dar de mamar a tudo que é menino do Brasil". Também é sua a reinterpretação, a do negro e a do mestiço, nas suas possibilidades culturais que tem procurado salientar do ponto de vista sociológico e histórico-social, como Roquette-Pinto, do ponto de vista antropológico. E tantas outras, já hoje generalizadas no gôsto dos mais inteligentes, por muitos às vêzes até perfilhadas.
Se parece exagêro atribuir-lhe decisiva influência sôbre tanta coisa a que deu nôvo sentido e quase nova vida, pode-se opor o argumento de que sempre é mais fácil influir sôbre o seu próprio povo e no seu próprio meio, do que num estranho e de vida e condições tão diferentes como o americano, por exemplo. Entretanto é do americano Francis Butler Simkins, em livro, o reconhecimento franco e honesto, como já vimos, da influência recebida de Gilberto. E Isaac Goldberg já salientara em artigo êsse poder de influência e encanto do nosso conterrâneo, mesmo sôbre estranhos. Do mesmo modo que Regis de Beaulieu, no L' Eetudiant Français, de Paris.
Talvez por essa qualidades, vieram a chamá-los alguns, muito impròpriamente, de "mestre". E "mestre do Recife" já se diz no Sul. Mas o fato é que de mestre, no sentido convencional da palavra, êle não tem coisa alguma. Nenhuma doutrina ou sistema rígido. Nenhuma preocupação de escola ou de impor idéias. Ao contrário: é enorme o seu respeito pela personalidade dos outros, principalmente pela dos mais jovens. Sua "Escola", se êle, sem querer, criou uma, consiste num processo e num gôsto nôvo de análise e de interpretação da vida brasileira, mais do que num esfôrço de síntese e menos ainda de doutrina ou sistema. Nada de objetivo e científico quanto possível, influenciado pelo cultural de Boas, segundo êle próprio salienta, é também plástico e artístico e introspectivo na maneira de procurar interpretar o sentido de certos fatos e tendências que escapam á análise objetivamente científica. Alguma coisa do "impressionismo" daquele pensador alemão de que êle também já nos falou-Simmel; e também, como já acentuou um dia, alguma coisa do método introspectivo que é uma tradição, entre os espanhóis, de análise não só individual como nacional.
Na concepção de vida de Gilberto Freyre entre, como valor decisivo, próprio vida na sua totalidade, na sua variedade, no seu movimento-superior a qualquer aspecto particular ou fixo, que lhe seja estética ou ideològicamente da maior atração. Uma espécie de vida pela vida-em oposição à fórmula "arte pela arte" ou à de ciência pura, puro intelectualismo, esteticismo, etc. certa ânsia de liberdade, de expansão-talvez solicitações longínquas de uma vida recalcada pelo pêso de responsabilidades maduras demais para a sua infância, refletindo-se numa personalidade sem transição através de responsabilidade maduras demais para a sua infância, refletindo-se nua personalidade sem transição através de responsabilidades cada vez maiores. Daí o seu "à-vontade", nos assuntos de que trata. No "condicionamento" a que sujeito as suas interpretações científicas, de rigor aliás nos espíritos não cientificistas, não parece apenas obedecer a êsse rigor, mas claramente admitir a liberdade para novas interpretações, sem nenhuma pretensão dogmática, ou de última palavra. Daí ser mais humana a sua ciência. Menos enfática, menos tecnológica. Nada de generalizações, de conclusões definitivas e estreitas. Um pouco do ceticismo que Bertrand Russell acha inseparável da ciência moderna.
Não tem sido sòmente um animador de inteligência ou do gôsto de pensar, de analisar, de estudar o passado ou os ambientes regionais; foi também um dos primeiros animadores e um dos mais lúcidos intérpretes que os pintores modernistas encontraram entre nós. O admirável pintor português Jorge Barradas, por exemplo, chegou a dizer que no Recife, por causa de Gilberto Freyre, fôra melhor compreendido do que no Rio ou São Paulo. Foi no Recife que De Garo se preparou para seu contacto com o Rio. Gagarin, hoje identificado com a paisagem brasileira, também-no Recife é que se inclinou para os aspectos mais característicos dessa paisagem, fugindo de um tropical de convenção, por influência, como confessou, de Gilberto. Isto há muitos anos, quando a pintura dêsse modernistas estrangeiros era recebida quase como um insulto pelos nossos críticos oficiais.
De nossos pintores, Vicente do Rêgo Monteiro, Cícero Dias, Manoel Bandeira e, embora em desproporção quanto ao valor dêsses artistas, até quem escreve êste prefácio, todos nós recebemos a animação de Gilberto Freyre, sua interpretação inteligente ou sua orientação no sentido de um Brasil mais profundo. Em pintura, o Recife é hoje, talvez, a cidade brasileira mais na vanguarda, e neste movimento êle tomou parte saliente.
Deve-se também destacar sua influência-tão grande aliás-na vida do Norte, particularmente nesta cidade, através de sugestões e iniciativas, algumas das quais recebidas a princípio como excentricidades, esnobismos, blagues, quando na verdade êle é quem encarnava o simples, o honesto, o autêntico; e os outros, o artificial, o postiço, a imitação do exótico, do contrário à nossa paisagem, às nossas tradições-portuguêsas, árabes, negras. Daí o seu "regionalismo", a princípio; e depis o seu "provincianismo" em oposição ao respeito exagerado das províncias do Norte À Metrópole; o seu "africanismo" e o seu "neo-indianismo" em oposição à predominância excessiva da tradição européia no Brasil, com sacrifício dos valôres negros e indígenas. Dentro dessas tendências tem sido um poderoso animador de estudos devida regional-da rural e a do Recife. Dêste doce Recife, que nunca teve um maior apaixonado de sua igrejas velhas, de seus mercados cheios de coisas tão nossas; de suas casas de sítio com mangueiras enormes, de sues banhos de rio; de sua mucambaria, de seus clubes de carnaval, de seus xangôs. Dentro delas ainda é que se tornou um animador e entusiasta dos estudos da influência negra sôbre a nossa vida, daí resultando Ter se reunido no Recife, no ano de 1934, o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, com aplausos de africanistas ilustres como Nancy Cunard e Herskovits, Roquette-Pinto e Artur Ramos; e de mestres de Antropologia como seu mestre Boas, sempre atento aos seus estudos e atividades. E ainda de acôrdo com elas é que nos deu n´A Província, jornal que dirigiu de 1928 a 1930 e onde colaboraram alguns dos maiores talentos do Brasil-Pontes de Miranda, os dois Manoel Bandeira, o poeta e o desenhista, Mário de ANDRADE, Prudente de Morais Neto, Cícero Dias, Múcio Leão, José Américo de Almeida, Ribeiro Couto, Jorge de Lima, José Lins do Rêgo, Aníbal Fernandes, Olívio Montenegro-um tipo de jornal provinciano, honestamente provinciano, refletindo de preferência a vida local em tôda a sua pureza de côr.
A Província foi uma reação contra o jornal de Estado estandardizado pelo modêlo do Rio-salientou uma vez Manuel Bandeira, o poeta. Gilberto Freyre, fugindo ao sensacionalismo da imprensa de ares dinâmicos, em províncias as mais pacatas, considera hoje o melhor jornal do Recife, não nenhum dos mais ricos e técnica e financeiramente mais poderosos--mas o Jornal Pequeno, dos irmão Medeiros, por ser o menos estandardizado e o mais provinciano no bom sentido, o mais local, o mais recifense.
Salientam-se ainda outros aspectos da sua atividade, de repercussão na vida prática, na vida de todo dia, de nossa gente. Sua campanha de jornal, desde 1924, em prol das nossas tradições culinárias, da velha confeitaria das nossas avós senhoras de engenho e das negras de tabuleiros, de vinhos de caju e de jenipapo, da água de côco-que nenhum café elegante então servia. A campanha a favor da arborização das ruas e dos quintais das casas com as velhas árvores, com as velhas plantas e jasmins de nomes tão lírico, tão deces, tão brasileiros-como êle mesmo uma vez destacou-a favor de jardins públicos e parques bem representativos da nossa flora e da nossa fauna, e dentro da tradição árabe e português, do que aliás está cuidando o govêrno atual de Pernambuco. A favor, também, de uma arquitetura mais honesta, de casas em harmonia com as nossas condições regionais e com a nossa paisagem e não copiadas de revista estrangeiras ou de cartões-postais do Rio. A favor ainda de play grounds nos nossos jardins-sugestão que foi inteligentemente aproveitada por um prefeito seu amigo, o bom velho Costa Maia, mas abandonada pelos estetas que lhe sucederam; de um museu que reunisse no Recife os nosso valôres tradicionais e regionais--velhos móveis, telas ilustres, ouro e prata das igrejas e das antigas casas nobres do Norte, mas também, e principalmente, as expressões da nossa arte popular-coisas de barro e madeira, chapéus de palha, quartinhas, jarros, santonofres de cajá, facas de ponta, balaios, cachimbos, tamancos, ex-votos, esteiras, rêdes, objetos de culto africano, etc. esta idéia foi aproveitada pelo Govêrno Estácio Coimbra, que fundou, dentro desta orientação, o Museu do Estado, mas quase abandonada pelo de Outubro de 1930, sem que se saiba bem o motivo. E ainda a campanha a favor das ruas com arcadas-que o urbanista Agache aprovaria com entusiasmo para o Recife; a favor da conservação dos velhos nomes de ruas, que se vão substituindo pelos de heróis e atas heróicas das últimas épocas. Essas idéias e sugestões foram por êle expostas em artigos assinados no Diario de Pernambuco, onde começou a colaborar aos dezoito anos, com as crônicas "Da Outra América", e depois n'A Província, em editoriais ou notas com vários pseudônimos. Mas não foi sòmente dêsses assuntos de interêsse social que se ocupou nos seus artigos de jornal; também de tendências novas na cultura estrangeira e, algumas vêzes, na brasileira. Foi quem revelou a muitos das gerações novas pensadores e escritores quase ignorados no Brasil: Santayna, Joyce, O'Neill, Angel Ganivet, Amy Lowell, Psichari, Randolph Bourne, vam Wyck Brooks, Chesterton, Mencken, Lafcadio Hearn, Baroja, Bertrand Russell, Soirel, Stratchey, Beard, Vachel Lindsay, Lawrence, Simmel, Lars. Foi também um dos primeiros a ocupar-se de tendências, idéias, métodos então quase desconhecidos entre nós, como o behaviorismo em relação com os estudos da Sociologia, as experiências antropométricas de Franz Boas e, posteriormente, de Herskovits; os estudos de Antropologia de Wissler, os da Histórica Social de Bilden, seu colega de Colúmbia. Deu a muitos de nós uma maior curiosidade intelectual, um entusiasmo nôvo pelas idéias, pelos estudos, pelas novas experiências em pintura, pela nova poesia, pelo nôvo drama, pelo nôvo romance em língua inglêsa, língua que, em grande parte devido à sua influência, tornou-se um instrumento mais poderoso de cultura em nosso meio.
Esses sues artigos se distinguem não só sob êsse aspecto, como pela riqueza, embora disfarçada, de sugestões e idéias próprias, que raros sabem expor com tanta simplicidade, de modo tão humano. É grande a contribuição de interpretações originais que já se deve a Gilberto Freyre, bastando recordar as que fazem de Casa-Grande & Senzala um livro não de erudição inerte, de mera acumulação de material, em parte ignorado, mas um dos livros mais vivos e até revolucionários que já se escreveram. Revolucionário não no sentido político e imediato mas, como diria o autor, "cultural". Êsse livro está cheio de páginas que trazem quase sem o leitor o sentir uma visão inteiramente nova do Brasil, interpretação às vêzes contrária, de modo absoluto, à história oficial ou dos mestres. Foi assim que acabou com a lenda de um Brasil colonial de mesa farta, o "país de Cocagne" em que acreditara o próprio Capistrano; a lenda igualmente de um Brasil patriarcal de fazendas e engenhos produzindo todo o alimento necessário a um passadio largo. Explicou "o nosso cristianismo ainda mais lírico do que português", nosso cristianismo de "santos compadres dos homens, de Nossas Senhoras madrinhas dos meninos", nosso "catolicismo de capela de engenho, o padre subordinado ao pater familias", destacou os efeitos do antagonismo entre a mobilidade do bandeirante e a sedentariedade do senhor de engenho, a "divisão balcânica" entre a monocultura (açúcar) e a pecuária, o valor social dos pequenos rios na formação social do Brasil, o sadismo-masoquismo que nos teria ficado do sistema escravocrata e patriarcal, a couvade pelo critério da bissexualidade. Tôda uma série de sugestões novas.
Nos seus artigos do Diário já se revelara sua originalidade no pensar, o encanto na maneira de escrever, a cultura equilibrada e profunda-modernista mas demostrando o contacto com os clássicos; científica mas sem nenhum exagêro cientificista; artística mas fugindo ao estetismo.
Os trechos que se vão ler e que os editôres submeteram à revisão do autor foram extraídos, vários, dêles, do Diario de Pernambuco. Principalmente da fase 1922-1925. Por essa época colaborou Gilberto também noa Revista do Norte, a excelente revista de documentação artística de vida regional fundada e dirigida no Recife por José Maria C. de Albuquerque.
Ocupando em 1928 a cadeira de Sociologia da Escola Normal de Pernambuco-que foi talvez a primeira, de feitio moderno e acompanhada da pesquisa de campo, a estabelecer-se no Brasil: iniciativa de A. Carneiro Leão, no Govêrno Estácio Coimbra-deu Gilberto Freyre a êsse estudo orientação regional e ecológica, iniciando com as suas alunas as primeiras pesquisas sociológicas, de ruas ou de bairros, em nosso país. A prática do field work americano iniciando-se num meio onde o ensino, processado intramuros, só conhecia os sistemas teóricos, rìgidamente livrescos, da sala de aula.
Quanto à sua forma de escrever, esta apareceu, entre nós, com a fôrça renovadora de quase um milagre de simplicidade e de ritmo.
Nesse tempo a nossa prosa oficial obedecia ainda a tôdas as regras do preconceito, a reação se fazendo pelo extremo oposto e igualmente artificial do "regionalismo" ou do "modernismo" literário.
Os têrmos corriqueiros-os bons, os simples, os fortes, os elementares, os mais expressivos do povo-eram evitados como gente pobre. Como se "ninguém" da prosa. Época do "requinte". Época odiosa do pronome, da gramática, contra o que, aliás, alguns espíritos interessantes ( às vêzes conhecedores bastante dêsses inúteis becos sem saída) já se vinham rebelando. Mas foi êle que fêz a verdadeira revolução, sem perder o sentido humano e brasileiro da língua sob o artifício "modernista" ou exagêro de "regionalismo" literário. O estilo de José Lins do Rêgo vem dessa revolução.
Certos críticos ligeiros, não sei baseados em que, chegaram a dizer que o sabor nôvo da prosa de Gilberto Freyre provinha do seu conhecimento íntimo da língua inglêsa. Decerto não é essa a razão, mas talvez uma delas e das remotas. Realmente Belloc, justificando a influência social da língua na formação inglêsa, salienta a sua flexibilidade e o seu lirismo, êste "the true test of a language". Êsse lirismo do inglês, a sua flexibilidade-tão familiares ao escrito durante a sua formação americana e inglêsa-fizeram talvez com que êle buscasse, na sua língua própria valôres correspondentes. Daí a plasticidade e o ritmo de sua prosa, sem sacrifício da precisão. Gilberto emprega palavras como quem quer reduzir tudo, desde o mais abstrato ao mais concreto, ao máximo de sugestão ou mesmo expressão plástica. Tudo isso, porém, com um sabor nôvo, um nôvo gôsto, muito brasileiro e muito pessoal.
O seu desdém, como o de muitos, pelas leseiras gramaticais não é a expressão de um simples bom gôsto. Vem também do conhecimento de uma língua mais profunda e mais rica, como a inglêsa. Gramáticos como Edgar C. Marshall e E. Schaap chegam a manifestar-se assim sôbre dúvidas gramáticais: "[...] is good grammar, but poor English". Um pouco pelo contacto com uma língua cujos gramáticos colocam acima das rígidas regras gramaticais a necessidade de melhor expressão-e êste talvez seja o seu segrêdo na prosa-é que, de certo modo, tornou-se o escritor um independente na linguagem. Mas sem propósitos de passar por cima de coisas estabelecidas, como certos valentões da prosa, nossos conhecidos, pelo gôsto de arrebentar a gramática; e sim quando é preciso. Nos momentos certos. Aliás, quando se fizer um estudo sério sôbre o Português falado no Brasil-não por um simples luxo nacionalista, mas como um fato social, "cujas normas não se formam a priori, de gabinete, ao sabor de gramáticos", como observa o filólogo Eduardo Carlos Pereira-e neste caso o Casa-Grande & Senzala, por exemplo, será uma magnífica contribuição para êsse estudo-então se notará até que ponto a expressão nova do seu autor modificou, juntamente com a de outros modernos, o eu podemos chamar os nosso hábitos gramaticais, os nosso preconceitos de linguagem. Nenhum preciosismo no que êle escreve . nenhuma retórica. Nenhum requinte. Nenhum "regionalismo" agressivo de têrmos arrevesados. Pelo contrário: têrmos, os do povo; os de todo o dia; os de quase todo o brasileiro. Escolhidos entretanto como sons necessários a um ritmo nôvo ou tons a um colorido mais expressivo e mais humano. Neste particular pode-se considerar Gilberto Freyre não pròpriamente um pobre, mas um sóbrio de vocabulário. À parte a terminologia científica, quando rigorosamente necessária, é bem pequeno o seu vocabulário. Mas êste, plástico, expressivo. Daí provém o seu horror, repugnância mesmo, por certos vocábulos "requintados". Há palavras que Gilberto Freyre jamais as escreveria. Não foi sem certa razão que Agrippino Grieco, creio, o considerou inimigo pessoal de determinadas palavras. Utilizando-se de tão pequeno número delas, êle não tem quase adjetivação. Gilberto pouco qualifica. Faz das comparações os seus adjetivos. E neste uso de imagens para exprimir idéias, quase sensualmente, como se a palavra não bastasse, é que também em parte consiste a sua forma original e forte de expressão.
Recife, 1934-Rio, 1964.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964. 176p.
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