RURBANIZAÇÃO: QUE É?
Prefácio
Do livros Sociologia, Introdução ao Estudo dos seus Princípios, atualmente em 5a edição e prestes a ser na 6., pela Editora Globo so novo título - o autor, desta vez, tendo um brilhante colaborador: o antropólogo Roberto Motta - é o destaque, dado pelo autor, ao ambientismo, ou ecologismo social, como corretivo a pendore, em estudos de Ciências do Homem, par determinismos puramente biológicos: particularmente, o étnico ou racial. E são citados, como então novos cientistas sociais, socioecologistas, o indiano Mukerjee, e o sul-africano Bews e, como novíssimo, os de Chicago, com suas ênfases em situações sociais criadas por distribuições e movimentos humanos em espaços físico-sociais.
Essa perspectiva socialmente ecológica já caracteriza o livro Nordeste (1937), do mesmo autor, no qual é particularmente considerado um tipo regional de desenvolvimento brasileiro iniciado no próprio século XVI, em que teria predominado uma economia e, com ela, uma sociedade, predominantemente rural: a canavieira em torno de caas-grandes completadas por senzalas patriarcais situadas em espaços rurais, absorventemente, dominados pela monocultura, pelo latifúndio e pelo trabalho escravo. Através do que, nesses espaços, teria se definido, com positivos e negativos, a primeira civilização que, no Brasil, tendo passado de pré-brasileira - em sua fase colonial - a nacionalmente brasileira, deu repercussão européia ao nosso país.
Entretanto, nessa civilização regional predominantemente rural - e açucareira - já se fazia notar uma complementação urbana, com Olinda e o Recife - o Recife, como porto de mar, importantíssimo para a exportação do açúcar e par a importação de valore europeus e africanos, de escravos, sendo presenças essenciais com tão pioneira e percursora civilização. Precursora de instalações urbanas, ao lado das principalmente rurais, que se comunicariam a outras civilizações brasileiras: à do couro, à do café, à da exploração de ouro e de diamantes.
Se podem esses surtos de desenvolvimento sociocultural brasileiro ser denominados civilizações é que não lhes faltaram características urbanas de vivência e de convivência. Mas esses característicos, sobre bases ou sobre espaços principalmente rurais. De onde poderem ser considerados exemplos de ajustamentos toscamente rurbanos. Ou antecipações de toscos ajustamentos rurbanos.
Graças tocadas de urbanidade tocaram maneiras, hábitos, requintes de senhores e, sobretudo senhoras de casas-grandes do espaço ruralmente canavieiro do Brasil patriarcal se vestirem, repousarem, comerem, rezarem, praticarem ritos católicos, defecarem, jogarem cartas, conviverem, adorarem seu Deus, suas Virgens Marias, seus Santos, confessarem-se a capelães.
Toques urbanos a colorirem víveres ecologicamente rurais. Portanto começos de rurbanizações em espaços não só fisicamente rurais como rurais através das principais adaptações, quer de senhores, quer de escravos, patriarcais, a uma civilização canavieira, no trópico brasileiro. Através, por exemplo, dos mesmos banhos de rio. Através das domesticações - outro exemplo - dos mesmos cajus e sua utilização no preparo de doces, segundo estilos de origem civilizadas ou rurbanas de doçaria.
A ecologia; porém, a telúrica. A elementarmente rural, embora alerada, no seu avontade e na sua variedade tropical, pela monocultura uniformizadora de paisagens tropicais. Variedade expressiva de uma vocação para a diversidade de formas e de cores da natureza. Contrária, portanto, a uma uniformização perturbadora do que os ecologistas chamam "balança regional".
Isto, por um lado. Por outro lado, foi tendo por base dois ou três negativos, a saber, a monocultura, o latifúndio e a escravidão que se estabeleceu, no Brasil, uma economia rural produtiva e exportadora de produtos tropicais, e, com ela, uma sociedade estável, tendo por base essa economia. Mas essa economia não de todo rural nos apoios de que precisou par sua consolidação e sem desenvolvida por meio de cooperações de origens urbanas. Pelo que, pode-se dizer do Brasil, chamado, por muitos, essencialmente rural na sua formação, que assim predominantemente rural, nas suas bases, cedo começou a acrescentar, a tais predominâncias, alguma coisa de urbano. E a praticar algum rurbanismo, como Mr. Jourdain fazia prosa: sem o saber. Nisto, aliás, de acordo com a madrugadora vocação brasileira - acentue-se sempre - par a conciliação de contrários aparentemente inconciliáveis, que, vindo a conciliar valores senhoris com valroes servis, traços característicos etnicoculturais europeus com traços característicos não-europeus, oceanicidade com mediterranidade, também soube se antecipar em juntar alguma coisa de urbano a uma formação predominantemente rurbana, necessitada de sistematização, sem que lhe faltassem como que antecipações intuitivas.
O problema - ou o conjunto de problemas - ligado, no Brasil, ao relacionamento do Homem com o Ambiente, é inseparável de uma perspectiva socioecológica desse relacionamento. Pois quem diz ambiente diz ecologia.
Um dos meus orgulhos de pioneiro, junto com alguns outros, no Brasil, de estudos modernos de tais problemas, é, em livro de mocidade, o intitulado Nordeste - sem demora traduzido para o francês e publicado em Paris por Gallimard, para o espanhol, por Espasa-Calpe, para o italiano, por Rizzoli - é Ter sido o primeiro, nesses estudos, a usar, em língua neolatina, e não somente na portuguesa, a palavra ecologia no seu, depois autalíssimo sentido, antropocentricamente social: o de Ecologia Humana. Ecologia Social. Base, portanto, de toda uma moderna perspectiva e de todo um moderno estudo da relação o Homem com o Ambiente. Daí Ter também sido o primeiro a abordar, de ponto de vista socioecológico, a ameaça, para o Brasil, da poluição de rios ou de águas e da devastação de matas; águas e matas assim degradadas em nome de um progressismo descontrolado. Daí pioneiramente Ter adaptado a situações brasileiras novo conceito de Ecologia.
Aspecto de uma também nova expressão de Sociologia como ciência aplicavél ao trato de concretas ou existências ou específicas situações humanas em vez de Ciência ou Filosofia mais abstrata que existencial em suas projeções. Existencialidade que se definiria nesse ânimo de aplicação de saberes social ou psicossocioculturais, ao trato de situações concretas, através de propósitos de situarem-se problemas, em suas circunstâncias específicas e, por conseguinte ecológicas ou ambientais. Esses propósitos, para alguns dos sociólogos ou cientistas sociais desse novo tipo, possíveis de serem sistematizados por meios capazes, de em suas aplicações constituirem fusões de formas e de conteúdos, quase sempre através de três interrelacionadas Engenharias, cada uma delas voltada, de modo o mais possível objeto científico para relações do Homem com seu Ambiente.
Estas três Engenharias, a Física, a Humana, a Social. A Física, a Engenharia que lança pontes físicas entre o Homem situado em determinado local e outros locais, a que lhe constrói as habitações, os abrigos, os locais de trabalho e também os destinados a suas devoções, a sedes de seus comandos cívicos ou políticos, a escolas, a hospitais, a recreações; a Humana, a que harmoniza ou procura harmonizar com as formas de corpo dos homens e com a predominâncias, como participantes de determinado grupo social, de suas tendências psicossocioculturais, de seus modos físicos e cultuais de viver e de conviver, de suas atividades e de seus lazeres - também estes, além de físicos, transfísicos, sejam leitos ou assentos, veículos ou máquinas, trajos ou calçados, alimentos ou recreações; a Social, a que diz respeito à organização ou à sistematização, em planos transfísicos, de sua formas de vivência e de convivência, desde as econômicas, às políticas, às religiosas, às recreativas.
É evidente que, através três Engenharias, vêm se verificando, na formação brasileira, desde dias coloniais, desenvolvimentos além de socioeconômicos, psicossocioculturais, uns harmonizados a ambientes ou a ecologias, ora rurais, ora urbanos, outros em desarmonia com esses condicionamentos e prejudicados por essas desarmonias, algumas delas degradantes de ambiente e de cologias. Repita-se de rios, águas, matas áreas que têm sido vítimas inermes de dessas desarmonias - talvez se possa dizer que, de maneira geral, mais no espaços rurais que nos urbanos. Mas nos urbanos têm se verificado as mais violentas poluições de ares e de águas, em consequência de progressismos industrias descontrolados, é claro que mais presentes em concentrações verticalmente urbanas do que em instalações dispersamente horizontais em áreas rurais.
Aspectos dos problemas a que aqui se faz alusão, são abordados pelo autor em livro a ser publicado brevemente: Homens, Engenharias, Rumos Sociais. E também no prestes a aparecer, lançado pela Editora Globo, intitulado Insugências e Ressurgências Atuais. Não faltam a essa tentativas de análise e de interpretações modernas, e conflitantes, situações humanas, em geral, brasileiras, em particular, perspectivas socialmente ecológicas. Inclusive a sugestão de que sejam contidos o mais possível, descontrolados desenvolvimentos dos chamados progressistas e, por alguns estusiastas tidos como messiânicos, e com tal, glorificados. A riqueza do Brasil em minérios pode vir a importar, em dias próximos, no aparecimento de surto messiânico, desta vez, em torno de desenvolvimento descontrolado, sobre essa base, que resulte, inclusive, em quebra de balança ou de equilíbrio ecológico em áreas agrestes, de repente artificialmente urbanizadas em vez de equilibradamente rurbanizadas, pondo-se através dessa rurbanização, produtos de industrialização de minérios a serviço de uma mais ecológica agricultura brasileira.
Um problema de conjugação de destinos na utilização de espaços, rural e urbano, em países, como o Brasil, em grande parte, quer situados em trópicos, quer povoados, de modo considerável, por mestiços, sem que à miscigenação possam ser atribuídos efeitos negativos do duplo ponto de vista de desenvolvimento de uma civilização e da adaptação dessa civilização a ecologias tropicais. O que os estudos já realizados no Seminário de Tropicologia, da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, com participações as mais ilustre de estudiosos de assuntos relacionados com os trópicos - um deles, o sábio espanhol Julian Marias - vêm pondo em foco é a necessidade de se encontrarem e se utilizarem perspectivas socioecológicas no trato de problemas de desenvolvimentos, como o brasileiro, em grande parte condicionados por situações tropicais diferente das européias. A tal perspectiva, não pode ser alheia uma solução rurbana para o Brasil que harmonize valores urbanos - vários dele origens não tropicais - com espaços brasileiros, quer urbanos, quer rurais.
Editoriais e comentários em torno da sugestão, partida do Recife, de uma política rurbana para o Brasil, vêm refletindo o apoio a essa sugestão daquele jornalismo idoneamente consciente de suas responsabilidades construtivas, em torno de assuntos sociais e culturais brasileiros. Apoio a sugestão rurbana partida do Recife. Mas onde tal sugestão vem alcançando o máximo de sua concretização em termos inconfundivelmente positivos, vem sendo em Curitiba, capital do Paraná, no seu desenvolvimento: decerto o mais objetivo exemplo, no Brasil atual, de crescimento harmônico de cidade ou áreas, em termos, a uma tempo, socioeconômicos, socioecológicos e socioculturais. O que se deve a um Prefeito que na ovem hesitando em seguir, através de sua notável capacidade de executivo exemplar na sua objetividade, idéia, para outros, menos lúcidos, "platônico" ou, "coisa de sociólogo sonhador". Para ele, "reforma agrária viável" com pensava, desde dias já remotos, o rurbanista brasileiro do Recife, para que o Movimento de 1964, com sua vitória impressionante, pareceu Ter sido a oportunidade ideal par o começo, no Brasil, de uma ampla política de rurbanização. Com o que pareceu de acordo, ao tornar-se Presidente, por força daquele Movimento, o Marechal Castello Branco, não tendo tido, até hoje, explicação válida, o seu lamentável recuo. Por esse recuo, é para ser compreendida minha recusa, logo após a vitória do mesmo Movimento, dealtos cargos para os quais me convocou o mesmo e honrado Castello Branco: Ministro da Educação, um, Embaixador em Paris, junto a Unesco, outro. Sem a "reforma agrária", implícita numa corajosa política de rurbanização, que iria fazer, como Ministro de Estado, senão assinar papéis burocráticos na superburocrática Brasília, um intelectual convictamente revolucionários social, como era então, e continua a ser, o rurbanista do Recife? Que iria dizer em Paris, quando procurado por colegas da Sorbonne, do Instituto de França - para o qual já o haviam indicaod Lucien Febbre e Georges Gurvitch - e de jornais e semanários, em face de uma revolução que passava a alardear o seu "legalismo", o seu "continuismo", o seu "normalismo"? Normalismo a que, felizmente, se levantariam umas tantas exceções. Nenhuma elas, no particular em apreço, mais expressiva do que a série de iniciativas do refeito Jaime Lerner, com a concretização que vem realizando, de todo um plano objetivo de "Comunidades Rurbanas" como " uma reforma agrária viável", por ele anunciada como a tendo inspirado o rurbanólogo do Recife ao vir dizendo quase profeticamente: "a solução rurbana diz basta às urbanizações absolutas para juntar ao que é urbano a sobrevivência o teluricamente rural".
Do apoio concreto, efetivo, e já triunfante, do Prefeito Jaime Lerner à sugestão rurbana, partida do Recife, não vêm faltando, da sua partem, justificativas que, ao significado especificamente político - o de medidas administrativas postas em vigor - untam expressão sociológica honrosa para o Brasil: par seus mais lúcidos chefes de Executivos com o ânimo de seguirem sugestões teoricamente sociológicas em práticas administrativas pioneiras.
Justificativas como a que consta do notável discurso de posse do engenheiro Jaime Lerner no cargo de Prefeito da Cidade de Curitiba em abril de 1981 e intitulado "Comunidades Rurbanas: a Proposta e a Implantação". Ou como a que constitui o texto do audiovisual "Causas e Efeitos" sobre o mesmo assutno. E ainda o no. 8, da publicação Expresso, de Curitiba, de outubro de 1980, com o Texto "Uma Reforma Agrária Viável", "Projeto denominado Comunidade Rurbana de Campo de Santana" e " Relatório de Atividades da recuperação de indigente que tem com o dos seus programas o de Comunidades Rurbanas". Estes documentos acompanhados de informes de caráter técnico.
De editoriais idôneos em torno do assunto, destaque-se o intitulado " Agrovilas", aparecido no Diario de Pernambuco de 7 de junho de 1981: "Foi Gilberto Freyre, com sua aguda visão de antecipador, quem suscitou, entre nós, o debate, singularmente, importante do rurbanismo. A escalada quase mágica dos conhecimentos científicos e sua natural repercussão tecnológica anularam as clássicas diferenças das áreas, especificamente, identificadas como urbanas ou rurais. O modelo definidor de um futuro que já amanhece é o da integração de espaços, esforços, estilos, em que, por exemplo, atividades primárias e secundárias se complementam e integram no jogo econômico, sem vocações imperialistas, beneficiando-se o trabalhador, em quaisquer hipóteses, de idênticas vantagens do desenvolvimento. A ênfase que o Projeto Viver, do Governo do Estado, vem procurando dar ao processo das agrovilas nos parece ser um despertar de consciência a respeito desse problema, o dia integração do operário e do camponês no mesmo ciclo de assistência e promoção, como peças inseparáveis na construção de uma sociedade mais justa. Há que se modificar a imagem trágica do nosso homem do campo. A terrível imagem do trabalhador da Zona da Mata. Do homem triturado nas engrenagens do latifúndio e da monocultura, do qual órgãos de pesquisa - da mais alta qualificação - e cientistas sociais - do melhor quilate - nos têm oferecido retratos humilhantes e amedrontadores. O Governo pretende reabilitar o camponês, começando pela casa. Oferecer-lhe a segurança e a dignidade de um lar, arrancando-o da tapera da indigência envilecedora das tocas de barro, como se fosse mais animal do que gente, totalmente alienado do quadro de riqueza que ajuda a criar, com o s eu suor e sangue. Evidentemente, com a casa o Estado pretende levar todo um complexo de civilização, a água tratada, a fossa, a luz elétrica, o posto médico, a escola. É como se efetivasse um salto no tempo, espanando o lodo ignóbil de decênios de abandono e esquecimento. Há, assim, um encontro do Poder Público com os grupos mais progressistas da agroindústria canavieira num trabalho que já devia Ter sido feito e que não pode mais demorar. Conseguirá o governador Marco Maciel desenvolver o seu plano? Esperemos, pelo menos, que o torne irreversível, obrigando seus substitutos a continuá-lo. As agrovilas podem ser o começo do processo de reversão das injustiças seculares que vitimam o camponês da zona canavieira".
O exemplo do Prefeito Jaime Lerner mostra que a solução rurbana, indo além da sugestão de "agrovilas", é válida já em franco desenvolvimento como é a admirável Curitiba. Mesmo em espaços virgens de todo virgens de presença já urbanas, ou para-urbanas, como é grande parte do amazônico brasileiro, a instalação de "agrovilas" precisa de ser realizada considerando-se casos específicos e não seguindo-se um modelo único, com se vem fazendo na União Soviética - origem das agrovilas - através, é evidente, de medidas totalitariamente soviéticas, de modo algum convenientes a um Brasil de vocação sociodemocrática.
O que faz que se torne oportuno e, até, necessário, nesta Introdução, dar-se destaque ao fato - que voltará a ser considerado no decorrer do estudo que se segue, no qual se atualizam considerações pioneiras do autor de Rurbanização: -- que é ? - de Ter se repetido, no abrasileiramento do espaço amazônico brasileiro, erro já cometido em Brasília: o de tentar o Governo do Brasil a solução de problemas extremamente complexos, como é o de ocupação, além de socioeconômica, psicossociocultural, de espaços, num caso, o destinado a uma nova capital do País, no outro, à ocupação do maior espaço físico brasileiro aindavirgem de abrasileiramento decisivo, sem recorrer ao saber de cientistas sociais, ecologistas, geógrafos, historiadores brasileiros. Tal presença, teria significado, num e noutro caso, de uma Engenharia Humana e de uma Engenharia Social, capazes de completarem a Física, em Brasília, representada por dois admiráveis porém exclusivos mestres e Arquitetura Monumental e Escultural, na Amazônia, por outro notável, no caso, supertécnico, em Engenharia de Transporte, como é o aliás eminente Engenheiro Militar Mário Andrezza: o construtor da Transamazônica - às quais faltou, nos seus brilhantes inícios, a presença das outras duas Engenharias: a Humana e a Social. Num e noutro caso, a presença dessas outras duas Engenharias não teria sido luxo, nos inícios de tão importantes construções físicas. Dentro das suas especialidades, expressões de ciência, de arte, de criatividade brasileiras, das mais honrosas para a inteligência do Brasil em desenvolvimento.
Mas alheia ao fato de que esse desenvolvimento não pode ser abandonado de todo à Engenharia Física. É complexo. Imensamente complexo. Sutilmente complexo.
Mas é no que os desenvolvimentistas brasileiros, tão dignos, pelos seus arrojos, do apreço nacional, vêm fracassando: na sensibilidade a complexos. O fato dos economistas ilustres, aos quais o Movimento de 64 atribuiu tantos poderes, não terem correspondido às expectativas que, assim investidos de tão altos poderes, despertaram em não poucos brasileiros, ilustra, por sua vez, a mesma deficiência dos desenvolvimentistas brasileiros. No caso, a de terem se considerado não só de após 64m como antes deles o admirável economista Celso Furtado que viria entretanto a curar-se do economicismo fechado e, até, intolerante, os seus dias de poderoso Superintendente da Sudene - auto-suficiente, como economista. Economicismo de que o Professor Roberto Campos foi resguardado pela reserva, na sua formação - até certa altura - para sacerdote Católico - de humanismo transeconômico.
Quando se alude a humanismo transcientífico, reconhece-se numa política rurbana quase adote no Brasil em dimensão nacional - tendo por base, o triunfante experimento Lerner, no Paraná, uma expressão daquela Ciência chamada, pelos franceses, do Homem, que, sendo científicca, não pretende deixar de ser, como ciência - ciência no lato sentido de ciência - humanística. Quando são considerados espaços que, físicos, são também, pela sua ocupação por grupos humanos, sociais, e assim complexos só através dos saberes assim amplos, serem compreendidos e interpretados; poderem se interpretados, faz-se uma opção: a favor de uma abordagem científico-humanística.
Não se duvida da grandeza das competências especializadas em Economia no trato e assuntos públicos nacionais. Mas o espírito público, em tais casos, ode ser deformado pelo especialismo exclusivo: exclusivo de outros saberes que concorram, com o econômico, para uma espécie de frente única, em face de desafios complexos. Saberes e abordagens. O que marcou a superioridade do sábio Eugênio Gudin sobre os jovens economistas, mais que prestigiados pelo Movimento de 64, foi sua sabedoria de "experiência feita". Uma sabedoria que como percepção de fatores rebeldes a estritas mensurações, atendem ao que, vem havendo, há nos, dentro das Ciências do Homem, ou Sociais, de repúdio a perspectiva apenas positivistas ou somente matemáticas. Sem a complementação por percepções de realidades. Realidades que exigem compreensão do analista.
Aceita a tipologia que, com relação a ocupantes ou integrantes de espaços rurais, seja a classificação de ruralistas e a de integrantes de espaços urbanos, a de rurbanistas, é inevitável precisar-se de compreender, em cada um dos dois tipos, traços de personalidades contrastantes, só possíveis de ser mensuradas até certo ponto. De certo ponto em diante, o analista precisa de procurar, por empatia, comprendê-las. Compreender suas personalidades através de seus comportamentos. O analista precisa de juntar a observações, análises, interpretações dessas personalidades e dos comportamentos que as caracterizem, uma capacidade para a compreensão empátia: para identificar-se com os objetos ou sujeitos de seus estudos psicossociocultuais. A empatia compreensiva e interpretativa que, mais que a enumeração de traços mensuráveis, permite a um analista voltado para análise e a interpretação de tipos socioecológicos de brasileiros, poss distinguir um paulista, de um carioca, um pernambucano, de um baiano, um riograndense-do-sul, de um mineiro. E também noutra dimensão, mais ampla - um ruralista, de um urbanita.
Pesquisa socioantropológica realizada, há poucos anos, no Recife, em torno de heróis e vilões no romance brasileiro, foi o que constatou através de romances ou novelas do séculos XIX e XX: haver, nesse gênero de literatura, contribuições nada insignificantes não só par caracterizações de vilões, segundo suas situações nos dois espaços, ao lado de suas idades, suas etnias, suas profissões, suas classes, suas religiões.
Aso confrontos entre os dois tipos de brasileiros, condicionados por sua situações nos dois espaços - o rural e o urbano - é preciso que, admitidas crescentes rurbanizações que estariam ocorrendo obliquamente no País, acrescente-se a consideração de um tipo psicossocioculturalmente misto: o rurbanita. É um tipo que evidentemente já existe e tende a tomar maior relevo nos totais de sociedade e de cultura brasileiras. Como a avassalante morenidade do Homem brasileiro - previsão socioantropológica deste analista do assunto que o recente censo veio confimar - é possível que esteja para ser confirmada estatisticamente uma crescente presença, na população brasileira, de um tipo rurbanista, a caminho, talvez, depreponderar tanto sobre urbanitas como sobre ruralitas. É cedo, porém, para antecipação que cheguem tão longe. O que se pode com segurança prever é a crescente presença de um rival do moreno - o rurbanita - na população nacional do Brasil, como tipo psicossociocultural predominante.
Para acentuar-se, porém, tal presença, será preciso que se estenda e se intensifique, no País, uma política de rurbanização - ou rurbana - com apoios da população. De caráter socialmente democrático, portanto, em vez de imposição de governos ou de arbítrio de poderes oficiais.
Insista-se na importância do experimento paranaense, ligado ao nome do Prefeito Lerner, de Curitiba. Não é devaneio utópico. É experimento em grande parte socialmente científico, o desua iniciativa. Vem se concretizando de modo efetivo. Objetivamente. Realisticamente. E abrindo, ao Brasil inteiro, caminho seguro à conciliação de desenvolvimento com integração nacional. Uma concepção possível e necessária a um Brasil à beira de começar a ser a "potência emergente" entrevista pela argúcia do Professor Kissinger.
Uma das expressões mais características do caráter ou do ethos do brasileiro, personagem ou herói dessa possível epopéia, é a que vem se processando através do humor, das anedotas e das festas. Nessas expressões, pode-se dizer que as predominâncias são antes as urbanas que as rurais, sem que as totais deixem de absorver malícias de matuto ou sabedoria de sertanejo. Mesmo no setor da religiosidade, em que é evidente um mais generalizado vigor de mitos e de ritos desse caráter, entre ruralitas brasileiros, do que entre urbanitas. Porém só mais generalizado. Porque sob a forma de grandes, grandiosas explosões, as festas religiosas se juntam, as carnavalescas, como acontecimentos, desde velhos dias, brasileiramente urbanos. Basta que se recordem as festivas, dionisíacas comemorações de Nosso Senhor do Bonfim, na capital da Bahia, e as procissões de Nossa Senhora de Nazareth, em Belém. As de Nossa Senhora de Aparecida, em São Paulo, realizam-se com notável esplendor, em ambiente rurbano que é quase, também, o da famosa feira de Caruaru, em Pernambuco.
Entretanto, não se pode pôr em dúvida as menos explosivas, porém mais constantes e mais generalizadas devoções religiosas entre ruralitas cearenses e mineiros, para só citar esses. Pois vários exemplos pambrasileiros, inclusive de renovações de vigor nesse setor e, em setores semelhantes poderiam ser apontados. Entre eles, os de artesanatos com arrojos monumentais de que são exemplo as comemorações da Paixão de Cristo, na muito rural Fazenda Nova, no interior de Pernambuco, e a estatuária ecológica, telúrica rural que aí vem se desenvolvendo de modo notável.
Quanto ao humor ou o esprit brasileiro, observe-se que seus focos mais explosivos vêm sendo, evidentemente, os urbanos de onde se irradiam pelos Brasis rurais; se quem, dos Brasis rurais, deixem, ou tenham deixado, de surgir, brasileirismos nesse setor. O carioca, entretanto, continua um soberano criador de anedotas irradiantes, capazes de fazerem rir ruralitas. Caracterizado, porém, pelo seu tom o sabor urbanamente carioca. Continuam os cariocas - de modo algum superados por São Paulo capital ou por Brasília, "nova cup" - a serem, como reis do humor r da anedota, a inteligência brasileira dominante dos mais diversos Brasis, urbanos e rurais. Reis do humor e também de graças femininas e de modas em geral. Apenas, com relação a modas, é preciso anotar-se Ter havido pioneirismos de origem ou de inspiração rural que se têm transformado em usos com que rurbanos, embora com expressões socialmente diferentes. O ruralita brasileiro foi, no Brasil, pioneiro do uso, tão ecológico, da camisa de homem por fora das calcas. Vem sendo pioneiro do uso, crescente entre urbanitas, da sandália. E também de certas graças camponesas ou maturas ou sertanejas em adornos de mulher. A reciprocidade rural-urbana é um processo a que não faltam exemplos brasileiros, estendendo-se a doces, quitutes, batidas, refrescos. Entre os doces, o de origem muito pernambucanamente matuta ( Pau-d'Alho), de guabiraba, adotado por rurbanitas até do Rio de Janeiro e de São Paulo. Levado por alguns e Londres, e Paris, entre bebidas, o quentão, de reralitas paulistas adotado por urbanista. Entre refrescos e sorvetes de origem rural, adotados por urbanitas, os paraenses cupuaçu e assí. Vários outros exemplos poderiam se acrescentados.
E não nos esqueçamos darede que, de origem agrestemente ameríndia, passou a ser, tão caracteristicamente rural - tanto par ricos, como para pobres e tanto par criaças como par aadultos - que tornou-se, também, de uso urbano, podendo ser considerado objeto cultural dos mais polivalentes, no Brasil de hoje; tanto urbano como rural; tanto burguês como proletário; tnato par dormida como par recreação. Isto depois de Ter juntado a préstimos docemente caseiros, o de meio de transporte: inclusive o de transporte tanto de doentes, como de mortos. Branca ou vermelha, conforme o caso. E quanto aos seus adornos, constatam-se desde as rendas das chamadas "varandas", às penas de pássaros dentre os mais caracteristicamente brasileiros e de maior e mais vibrante colorido.
Se da rede pode-se dizer Ter se tornado, nos hábitos brasileiros, polivalentemente rurbana, tal a sua adoção por urbanitas, o mesmo pode-se dizer Ter ocorrido, desde velhos dias brasileiros, com a mandioca e comidas feitas de mandioca e, nas suas origens, coboclas e rurais; com o próprio charque misturado no torresmo à farinha de mandioca; com várias carnes de caça que de silvestre ou rústico passaram a quitutes de requintado uso urbano como a carne de paca, e da capivara, a de tucano, sem que sejam esquecidos o cará e a macaxeira e, à base de miho - que muito da mesa rural passou a ser de uso urbano - o cuscuz e a pamonha. Rurbano, portanto e de muita mesa requintadamente urbana, como acompanhamentos de café da manhã. E o mesmo se recorde de pitus, outrora só de mesas rurais e atualmente de requintado uso urbano até em finos restaurantes metropolitanos. Virados e quibebes de jerimum - ou abóbora - é que se vêm conservando quase exclusivamente rurais, junto com as paçocas.
A propósito de alimento que, de rurais, têm passado, no Brasil, a urbanos - portanto, a polivalentes - anote-se, de passagem, outra transferência das que vêm resultando em polivalência: a de alimentos originários de áreas brasileiras caracteristicamente tropicais, a áreas suas vizinhas. Tais transferências após algum, tempo, e, polivalências, vêm contribuindo para avigorar, na cultura brasileira, sua unidade nacional. Uma unidade que terá - acentue-se sempre - numa maior rurbanização, um reforço ao seu vigor: um vigor que se concilie com irredutíveis diferenças condicionadas por pernanências ecológicas, quer sob formas, mas saudavelmente tropicais, quer saudavelmente não-tropicais, ou saudavelmente rurais e saudavelmente urbanas. Pois a rurbanidade forçada, artificial, postiça não está, evidentemente, entre as conseqüências positivas da rurbanizaçãoe, sim, entre os seus negativos. Negativos, aliás, fáceis de ser distinguidos dos positivos e, assim distinguidos e evitados. Principalmente com relação a intrusões urbanas, ou urbanóides, em supostos aformoseamentos de praças, ruas, jardins, edifícios, residências, igrejas rurais, seguindo-se modelos ou a essas cópias e a essas sofisticações, autenticidades ecologicamente rurais. Daí ser sempre notícia preocupante a de haver planos intitulados de modernização ou de urbanização de tal ou qual vilarejo, há tempos, ajustado não só a uma paisagem agreste com à harmonização com um estilo de vida como que irredutivelmente rural. A verdade é que existem vilarejos rurais que, até para se beneficiarem de atuais vagas turísticas, conservando suas autenticidades é que poderão atrair visitantes e admiradores., inclusive preparando-se para receber esses visitantes em pequenos restaurantes rústicos nos quais os turistas encontrem quitutes e doces, além de bebidas, também autenticamente locais. Próprios não só da região como do vilarejo em particular.
Tais vilarejos, sem se acatitarem em arremedos de urbanices que os tornem, postiços, podem constituir-se em centro de artesanatos rural de grande atração turística. É o que vem acontecendo com Tracunhaém, em Pernambuco, que em criatividade rústica, no setor da cerâmica, vem ultrapassando Caruaru. O certo, também, de vilarejos, no mesmo setor, encantadoramente criativos do Piauí e, entretanto, vítimas de intermediários cearenses que atribuem ao Ceará a origem desses primores de artesanato de todo rústico. No Ceará, aliás, existem três primores no setor de rendas, chamadas da terra, tendo como rivais Deodoro e outros lugarejo alagoanos. Lugarejos que existem num Paraná, a que, a despeito de todo o progresso industrial do Estado, não faltam, além de centros de artesanatos, outros em que se encontram comidas deliciosamente rústico e vinhos caseiros de origem italiana. Comidas com seus acompanhantes rurais: vinhos da mesma criação rural: ítalo-brasileiro. Contribuições de imigrantes italianos vindos de Itálias rurais a se juntarem, no Paraná, às de colonos vinhos desde o século XVII de Portugais rurais ao mesmo tempo que para o Paraná, para Pernambuco, como portadores de hábitos e de criatividades que se enraizariam, para quase sempre, os mesmos, quando folclóricos, em ecologias físicas, tão diferentes. Em diferentes espaços brasileiros, mas dando aos futuros brasileiros desses espaços diferentes, idênticos bases lusitanas e estas predominantemente rurais. O que - de passagem seja notado - mostra ser importante, em estudos da formação psicossociocultural brasileira, atentar-se para elementos ou par sobrevivÊncias ou inspirações folclóricas nessas formação: cantos, danças, alimentos, crenças. Sobretudo alimentos. De onde a presença de, com o tempo, brasileirismos, com quibebe e paçoca, na alimentação tradicional de gentes rurais de um Paraná tão distante de Pernambuco.
Para o estudo de fatos antigos que, junto a sucessivas situações, justifiquem uma moderna política social, de extensão nacional, de rurbanização, em que valores urbanos sejam introduzidos entre gentes rurais, sem que essas introduções importem em urbanizações e sim em conciliações de seus valores com permanências rurais, lembre-se tal política, precisam de ser, menos ocorrências singularmente hitóricas - em geral ligadas a datas ilustres - do que recorrências socioantropológicas, em geral obscuras e até anônimas. O s valores rurais raramente têm atingido relevos especificamente histórico: o caso, entretanto - entre outros --, da revolta de escravos de Palmares, no século XVII, o de Quebra-Quilos, no Nordeste do começo do século XIX, o de Canudos, no fim do mesmo século. As recorrências, porém, são ricas como materiais ou constâncias que permitam interpretações em profundidades de situações nacionais ou, dentro das nacionais, regionais. Que permitam constatações de comportamentos tipicamente rurais de brasileiros, em face dos urbanos, os rurais, quase sempre de resistências menos ostensivas e até sutis a como que explosões de seus recursos naturais e humanos por urbanistas mais do que eles, quase sempre, donos de poderes - como diria o magistral Raimundo Faoro - de poderes: políticos a sustentarem poderes econômicos.
Mas não somente isso: mais vítimas inermes, os ruralitas, do que urbanitas, de impactos de progressismos, ou tecnologismos que sejam introduzidos em espaços rurais com prejuízos para suas gentes e seus moradores mais valorosos Poluições. Degradações de recursos naturais. Desequilíbrios ecológicos: isto é, desequilíbrios na relações de ruralistas com seus ambientes ou com suas ecologias. Vêm se constatando, neste particular, até morte de rios. Devastações de matas protetoras, quer de águas, quer de gentes. Extinções de fontes já antigas de alimentação de ruralistas como peixes e aves. Introduções de exóticas doenças terríveis em consequência: das alterações em interrelações regionais de vida. Ao que se acrescento que vêm sendo desequilíbrios, através de explorações por poderes econômicos, do braço trabalhador. Restrições a oportunidades de trabalho remunerador para ruralistas jovens, causando emigrações consideráveis deles para outros espaços do País.
"Os dois maiores clamores dos homens mais idôneos e mais lúcidos dos difentes países que constituem, o mundo de hoje são estes: contra a poluição de terras, de águas, de ares em que estamos nos degradando: contra o crescente desequilíbrio entre as populações humanas e seus ambientes naturais: suas ecologias. É do que mais falam atualmente livros, publicações, programas de televisão e de rádio". Isto dizia, há anos, o autor deste novo livro que tem por título Rurbanização: que é ?
Dizia-o no Instituto de Pesquisas Sociais, fundado em 1949 e, desde o seu início - é hoje parte da Fundação Joaquim Nabuco - empenhado em associar seu esforço de pesquisa, sua obra de ciência, sua preocupação com destinos humanos, nacionais, regionais, a esses dois temas, agora tão em voga e então tidos por muitos bem pensantes como totalmente romanticóides, absurdamente quixotescos, quase cômicos, até: o harmonizar-se a vida de um população com seu ambiente natural. A de considerarem-se indispensável uma contenção daqueles progressos que, economicamente vantajosos, se façam à revelia da condição humana ou com o sacrifício aos lucros de uns poucos, da saúde, de vida, da economia de muitos. Sobretudo de abandonadas gentes de trabalho rurais.
Referia-se o autor, nessa ocasião, no Instituto Nabuco a um então recente pronunciamento da Academia Mundial de Artes e Ciências de Telavive - de que era e é membro - e que reúne a quase totalidade dos modernos homens de saber, de estudo e de inteligência ou de gênio criador dos vários países de hoje, quer desenvolvidos, quer em desenvolvimento. Que pronunciamento? Este: em significativo documento que continua atual, o que se destacava era a necessidade de, quanto antes, serem considerados, ora em estudos regionais, ou nacionais, ora em conjunto, e através de abordagens que se completem, os problemas atuais de desajustamentos entre populações humans e ambientes, entre homens e ecologias. Problemas que são físicos e são psicossociais; que são psicossociais e culturais; que soa regionais e nacionais; que são nacionais e transnacionais. Que são econômicos e políticos. Que são éticos e estéticos. Que são religiosos e educacionais. E cujas soluções dependem de pesquisas que considerem situações específicas em sua complexidade".
Apelo que não nos chegava então, nem no chega hoje - aos brasileiros que nos achamos ligados a esforços como os que se vêm realizando em centro de Pesquisas Sociais como os da Fundação Nabuco - numa linguagem, para nós, estranha ou nova. Dentro dos nossos modestíssimos limites, essas preocupações vinham sendo - antes do Manifesto de Telavive - crescentemente as nossas desde os primeiros dias de atividade do Instituto, de início particularmente atento a situações rurais dos carentes de valores já em vigor em espaços urbanos do Nordeste. Que o digam algumas das pesquisas realizadas pelo Instituto: sobre migrações de espaços rurais para cidades: sobre habitação na região: sobre a ecologia da habitação brasileira.
O de procurar controlar-se a ação desordenada de progressismo sobre rios através da poluição de sua águas; e sobre aquela economias regionais como do Nordeste brasileiro entravada pela monocultura e pelo latifúndio açucareiro; sobre hábitos ligados ao uso de aparelhos eletrodomésticos no Nordeste; pesquisa admiravelmente conduzida; sobre o abastecimento de víveres frescos à cidade do Recife; sobre mercados de peixe no Nordeste; toda uma série de pesquisas realizadas, de modo exemplar por um economista a quem não falta sensibilidade a aspectos psicológicos e sociológicos de problema aparentemente só econômico. Orientacão que atualmente é também a da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste.
O Instituto de Pesquisas Sociais, da Fundação Nabuco - dizia o autor deste Rurbanização : que ? há anos - já é "o começo de uma elite brasileira de pesquisadores em Ciências Sociais. É uma elite que, como outras elites reclamadas pelo Brasil em desenvolvimento, precisa de ser aperfeiçoada e desenvolvida. É uma elite que precisa de constante acréscimo de jovens sem que lhe deva faltar a presença, quanto possível prolongada, dos já provectos: contantos provectos conservem a seu modo aprendizes, em vez de se endurecerem em mestres estatuescos. Pois idela é que a todos anime o propósito de se autalizarem nos saberes e de continuarem atentos a quanto seja trepidação arritmia social nova ou insólita dos nossos idas. Atitude que não importa em repúdio ao que, nos conhecimentos que constituem as chamadas Ciências do Homem, seja saber, além de acumulado, criticamente apurado pelo tempo e, assim apurado, capaz de subsistir as novos tempos e de servir de ase ou perspectiva a novos saberes e, por vezes, de motivação a novas pesquisas". E comentava; "aliás, todo homem de hoje, seja um intelectual ou umempresário, um técnico ou um industrial, um político ou um educador, seja jovem ou provecto, é um indivíduo em luta com o tempo para evitar não a velhice, nem a morte, que ninguém as evita, mas a obsolescência. Somos uma geração - descreve à página 18 James T. Me Cay, no seu The Managment of Time ( N. Y. 1959) - cuja educação mal termina, já corre o risco de se haver tornao obsoleta. Tanto é assim que o técnico que seja encarregado de dirigir um reator nuclear, por mais sábio que seja nessa especialidade ao graduar-se nela, em curso pós-graduado de universidade, precisa de conservar-se - na palavra de Mc Cay - no seu estudo das relações de tecnologia moderna com o tempo - "a perpetual student". Não é de asmirar. De 1945 para cá, de quatro em quatro anos, tem havido exemplo - um novo tipo de avião, cada um dos quais exige do moderno técnico em aviação que seja outro "perpetual student". Daí o comentário dramático de Mc Cay "the most striking aspect of obsolencence today is its suddeness". Contra o que, a seuver, única garantia está na inteligência que se mantenha viva, atual, criadora, inclusive nos estudos e nas pesquisas sociais em torno das repercussões, sobre sociedade e culturas, dos avanços tecnológicos. Essa criatividade só é possível, pelo estudo incessante, que não deixe, em momento algum, nessa corrida do Homem com o Tempo, que o saber pare de acompanhar o tempo e, se possível, ultrapassá-lo, projetando-se, pelo estudo animado da imaginação científica, sobre o futuro. Sobre o além do apenas moderno. Pois há atualidades que anoitecem e não amanhecem. Nada do que é puramente científico, ou só tecnológico, resiste ao tempo sob a forma de obras soberanamente imutáveis. O privilégio de se perpetuarem como clássicos é um privilégio dos autores de obras poeticamente científicas do tipo da dos de Da Vinci, da dos Bacon, da de Vives, da dos Darwin, da dos Marx, a parte, sua projeção em política fechada e sectária, da dos William James, da dos Freud. Obras que são, por sua própria potência, além de científicas, poéticas, isto é, criativas. Desafios constantes ao tempo. No caso das próprias obras sistematicamente filosóficas, o triunfo do Tempo sobre o Homem se vem fazendo sentir, se não de todo, em parte, em constates renovações. Renovações, algumas delas, radicais: o platonismo se atualizando em neo-platonismo, por exemplo".
E acrescentava: "seria estranho que, após Ter sido pioneiro, dentro e fora do Brasil, do interrelacionismo nos estudos, nas pesquisas e nos cursos de preparação par as pesquisas sociais, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, para acompanhar uma voga, como já observou o sociólogo Renato Campos, "retardatária no Brasil" - uma voga em torno de algo já faisandé como é o economicismo puro - resvalasse. Ainda há pouco era o que salientava, um artigo em The New Society, de Londre, autorizado crítico inglês, Christopher Roper: o pioneirismo brasileiro neste particular, isto é, abrangentes abordagens plurais de assuntos complexos. Um pioneirismo que o crítico inglês salienta estar presente em obra brasileira de pesquisador social, em que a abordagem múltipla, segundo ele, tanto quanto segundo o conhecimento Existencialista francês Jean Pouilln, madrugara - par Roper com para Pouillon, no livro Casa-Grande & Senzala - tendo se tornado moda nos Estados Unidos e na Europa - ainda segundo expressão literalmente de Roper - só mais de "viste anos depois" do livro brasileiro. Tal primado no tempo, tal antecipação tal projeção sobre o futuro de um complexo, além de metodológico, de Rilosofia de Ciência, e honroso para a cultura do nosso país; e se filia à mesma nova perspectiva em estudos sociais a que se pode, ou se deve, filiar o aparecimento do Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais em 1949.
Compreende-se, assim, que aos diretores, pesquisadores e assistentes de pesquisa do mesmo Instituto, sempre voltados para problemas de desequilíbrio ecológico nas relações entre Brasis rurais e "cidades inchadas", identificados com o que, no programa do Instituto, é germinal, caiba especial responsabilidade na ampliação, na intensificação e na sistematização de um arrojo já há nos em vigor no Brasil. O desenvolvimento, no nosso país, de pesquisas cientificamente sociais, vem concorrendo par que nossos Legisladores, parlamentares, homens de governo, deixem de acastelar-se apenas num já arcaico Direito Público ou menos numa nova mas exclusiva Ciência Política ou numa estreita Ciência Econômica, supondo poder recorrer a soluções convencionalmente jurídicas ou somente políticas ou exclusivamente econômicas para o esclarecimento ou a solução do problemas complexamente sociais; e desdenhando da Sociologia, da Antropologia, da Psicologia Social. da Demografia, da Ecologia, como ciência tão somente de cursos pedagógicos destinados mais a moças, futuras professoras de escolas secundárias, do que a futuros homens públicos. Esta uma das dseorientações, até há pouco, do ensino superior no Brasil". Palavras de há anos que parecem continuar atualíssimas, o mesmo podendo-se sugerir destas outras, da mesma época:
Quando George Gurvitch, após segundo contato com o Brasil em grande parte com o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais - observou da maioria dos políticos, juristas e economistas brasileiros, que eram gente necessitada de iniciação em Sociologia, destacando a perspectiva nova que lhes abria o mesmo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, não exagerava. Sabemos até onde chegava então - nos idas dos Presidentes Kubitsehek, Quadros, Goulart: governos não de todo destituídos de aspectos positivos - a empáfia de alguns desses juristas-políticos, empoleirados em chefias disto ou daquilo, em presidência de institutos, em conselhos, em ministérios, em delegações a reuniões internacionais; e, ao mesmo tempo, até onde ia a ignorância, de alguns deles, de elementos ou de rudimentos sociológicos ou antropológicos ou psicológicos-sociais ou demográficos e mesmo geográficos e históricos-sociais. O que seria apenas cômico se essa empáfia e essa ignorância não fizessem de uns tantos desses homens públicos - dentre os mais influentes - elementos ativamente perniciosos ao seu e nosso país, pelo que seu bacharelismo arcaicametne jurídico ou apenas políticos - numa época um tanto rebelde à "politique d'abord" pura e simples, e de todo destituído de informação sociológica ou antropológica, tendia a resultar, ou já chegava a resultar, em dano para a legislação, a política, a diplomacia, a economia, as finanças nacionais. Estudos como os que se realizam no Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Nabuco e, particularmente, os que se voltam par os Brasis rurais em relação com os urbanos, é o que concorrem para evitar: a continuação do domínio, no nosso País, de saberes, quer somente abstratos, quer apenas importados; e perigosos pelo extremo está, principalmente, em pesquisas sociais; além de interrelacionistas, situacionais, ecológicas - atentas a espaços e a tempo sociais - e na preparação, sob o critério interrelacionalista, situacional e ecológico, de pesquisadores idôneos".
Pesquisadores idôneos. Será que, em torno da matéria aqui em foco - o relacionamento ou o desencontro do rurbano com o rural - eles vêm faltando? Idoneamente científicos, no sentido de objetivamente científico, sim. Porém vários os que, sem essa objetividade sistemática, mas através de instituições, rara vezes, predecessores dessa espécie de objetividade, e até não ultrapassadas ou não atingidas por ele, têm deixado páginas já clássicas sobre o assunto : Atônio Pedro de Figueredo, Inglês de Sousa, Silvio Romero, José Veríssimo, o próprio Joaquim Nabuco, talvez os principais. E mais do que qualquer outro, Euclydes da Cunha. O Euclydes não só de Os Sertões como de Contrates e Confrontos e À Margem da História. Impossível ser ele subestimado com relação ao que nos Brasil se tem pensado e escrito de mais valioso sobre o relacionamento do urbano com o rural na formação brasileira.
Lembre-se que par Euclydes, da Cunha o tipo ideal de brasileiro o, por excelência, virtuoso, bravo, telúrico e até racialmente aprimorado pela mistura branco-ameríndio - teria sido um ruralita: o sertanejo. Tenho em mãos os originais de excelente trabalho de "Brazialista" não estadunidense mas britânico - jovem britânico cuja formação intelectual se fez esmeradamente em Cambridge, Mr. Henry Bacon, intitulado A Epopéia Brasileira: uma Introdução. Nesse estudo admirável, ainda inédito, o pesquisador inglês pretende que Euclydes da Cunha descreve em Os Sertões "uma sociedade heróica" da qual ele, Euclydes brasileiro do litoral, não fazia, aliás, parte. Mas com a qual - como eu próprio sugeri em ensaio sobre Euclides - o grande escritor, brasileiro do litoral - procurou enfaticamente identificar-se e solidarizar-se até fisicamente : solidarizar-se com esse já antigo "caráter heróico". Identificar-se empática e enfaticamente com ele. Como que sentindo-se não só nas formas de corpo magro e anguloso do homem ruralmente sertanejo como nas também formas magras e ásperas dos vegetais do ambiente: os mandacarus, entre outros.
E na sua identificação com essas formas tanto de homem como de paisagem ruralitas, o autor urbanita de Os Sertões, narcisisticamente, não hesita em escolhê-la par considerá-las "rocha viva de nossa raça", "o cerne da nossa nacionalidade". Escolha arbitrária, é certo. Mas significativa.
E nessa glorificação ruralista do sertanejo, Euclydes vai a este extremo surpreendido pelo seu apologista britânico: o Ter havido, no Brasil, um primeiro cruzamento de sangue feito entre a população indígena e os brancos: um cruzamento a dois, sem intrusão de outros elementos e do qual, nos "sertões", teria evoluído um tipo estável. E se procurássemos um tipo que concretize entendemos por brasileiridade se quiséssemos uma amostra do que seira a nossa raça, então não acharíamos na amostra mais perto da verdade do que o homem dos sertões baianos. Nas próprias palavras do autor de Os Sertões, "aquela socieade, incompreendida e olvidada, era o cerne vigoroso da nossa nacionalidade" com "um caráter de originalidade completa". De onde a interpretação de Mr. Bacon: a de - importaria em reconhecer-se num ruralita particular - o sertanejo - e num mestiço só de indígena e branco - excluído o negro - o tipo ideal de brasileiro, sendo par lamentar o seu oposto: o homem do litoral, urbanita ou ruralita, ao que parece.
Evidentes excessos, por arroubo eloquentemente retórico, quer de emotiva parcialidade a favor de um tipo arbitrariamente idealizado de ruralita brasileiro, quer de um tipo arbitrariamente idealizado de ruralita brasileiro, quer de um tipo também arbitrariamente reduzido de mestiço nacional. Mas não deixa de ser digno de nota, o fato - salientado por Mr. Bacon e muito destacado por mim no ensaio sobre o grande autor de Os Sertões no livro Perfil de Euclydes e outros Perfis ( Rio) - de não Ter escapado ao escritor, meio poeta, meio científico, que foi Euclydes, na sua ficação de um par ele brasileiro ideal, a integração desse brasileiro num complexo ecológico. E esse complexo - acrescente-se - rural. Pastoril.
A parcialidade de Euclydes da Cunha, com relação a um sertanejo ruralmente pastoril, parece estar na glorificação, nos espaços rurais brasileiros apenas um dos seus tipos humanos mais característicos: o sertanejo baiano. Uma glorificação exclusiva. E os outros sertanejos? E o cacaueiro? E o desbravador da Amazônia do caucho? E o gaúcho? E o matuto ? E o jangadeiro, tão exaltado por Nabuco?
Euclydes da Cunha como que deixa essas outros ruralitas numa como sombra, embora seu desapreço se requinte quanto ao mestiço neurástico do litoral, um mestiço bastante tocado, em algumas áreas, de sangue afronegro, que, em termos socialmente ecológicos, seria antes um urbanita que num ruralita. Todos, porém, sem se aproximarem em virtudes do sertanejo vaqueiro dos ermos baianos: "... forte, esperto, resignado e práticos". O que, sendo exato, Euclydes da Cunha teria razão em considerá-lo modelo para o brasileiro total. Ou como ele próprio se justifica, conforme lembra seu brilhante intérprete inglês: "era natural que, admitida a arrojada e animadora conjectura de que estamos destinados à integridade nacional, eu visse naquelas rijos caboclos o núcleo de força da nossa constituição futura". Um Euclydes da Cunha, futurólogo e otimista, a admitir uma venturosa ruralização, pela sertanejação - através do tipo de sertanejo de sua superestima - dos brasileiros vindouros, fosse qual fosse sua situação ecológica diversa da do seu tipo ideal. De onde a conclusão de Mr. Bacon: a de ser o livro Os Sertões "um livro patriótico". E mais: a crença num brasileiro idealmente vindouro como um mascrosertanejo que viesse a expressar valores universais. E poderia ser mais socioantropologicamente ou sociologicamente aceito se, como sujeito, nos nossos dias, por atuais analistas do Homem brasileiro, e, sobre essas suas análises, futurólogos, se admitisse vir a ser esse brasileiro, de valor universal - como admite, concordando com tais analistas brasileiros, Arnold Toynbee - por ser um miscigenado nos seus sangues e síntese de interpenetrações de caráter cultural: inclusive - sugira-se aqui - a interpenetração rurbana. A que junte os positivos tanto em suas experiências, já seculares, urbanas, com nas rurais, estas tendo tido antecedentes épicos ou heróicos, antes dos surpreendidos no vaqueiro pelos olhos apologéticos de Euclydes, vários nos Bandeirante, principalmente nos Paulistas. Nos desbravadores de espaços dando-lhes, já como precursores instintivos, destinos nacionalmente brasileiros. Vastos espaços a clamarem hoje por uma política social de urbanização que leve até eles - insista-se nesse ponto - valores urbanos que não lhes destrua o essencial da ruralidade ecológica ou telúrica. Inclusive a potência, de repercussão sobre homens e populações, sentida por Euclydes em árvores sertanejas, como aquelas, para ele, até "misteriosas", como recorda Mr. Bacon, como aquela anacardia humilde, soterrada, que outra coisa não é senão um mágico cajueiro sertanejo. Mágico e suscetível de ser humanizado, dentro da tendência de Euclydes par conferir vida mais que vegetal a vegetais: tendência, no autor de Os Sertões, já surpreendida tanto pelo arguto Cavalcanti Proença como pelo lúcido Franklin de Oliveira e confirmada por Mr. Bacon. Ao qual passou despercebido o fato de Ter outro estudioso brasileiro da relação de Euclydes com o Brasil agrestemente rural - par ele representado por certo tipo de ecologia serteneja, Ter ele próprio, particularizado a antropomorfização - ido ao extremo de euclidizar autobiograficamente essa relação, encontrando-se de modo personalíssimo na ecologia baiano-sertaneja.
Mas não foi só ao vegetal sertanejamente brasileiro - rural, portanto - que Euclydes da Cunha estendeu seu modo de fazer de coisas, seres humanos: estendeu-o aos, nos seus dias, já terríveis canhões Krupp, para ele "monstruoso fetiche". Por que o aço e o ferro são considerados em Os Sertões, segundo assinala Mr. Bacon ? Por terem sertanejos bravos, um sobretudo, tentado um assalto, com os próprios braços de ingênuo ruralita, aos Krupp de origem superurbana lançados contra eles; abarcando o engenho sofisticado "nos braços musculosos como se estrangulasse um monstro". Mas um monstro superurbano antiecológico. Tanto que, com lembra Mr. Bacon, dificultava as expedições do Exército de todo - acrescente-se urbanita. Urbanita - acrescente-se mais - nas ecologias a que se destinava como engenho de arte econômica européia para espaços semelhantes aos europeus e urbanita por ser manejado por urbanitas desgarrados em, para ele, traiçoeiros, ermos rurais. O ferro ou o aço a capitular - destaque-se - diante de energias primárias associadas a um ecologia rural com elas solidárias.
Canudos pode ser considerado uma antecipação a Vietnans dos nosso dias. E a lição é que, com ruralitas senhores dos seus espaços telúricos e com ecologias diferentes das susceptíveis de ser dominadas violentamente ou por sofisticações civilizadas ou superurbans, não se brinca sem mais aquela. Sabedorias instintiva liadas a ecologias agrestes e até misteriosamente rurais representam força como que mágica em face das racionais. O que, sendo exato, é uma das vantagens para o Brasil, dos seus espaços rurais e das sabedorias instintivas dos seus ainda muitos ruralitas.
Através de Os Sertões - sobretudo e sua expressão literária - Euclydes da Cunha deu a seu tipo ideal de ruralita brasileiro, destaque máximo entre valores humanos do Brasil. E o fez, ele próprio - repita-se - identificando-se com esse tipo ideal de ruralita. Quando se diz expressão literária, toca-se, é evidente, no problema da língua: ou do abrasileiramento da língua por um Brasil já, hoje, mais senhor dessa língua que a do trono europeu. A do tronco europeu, na sua projeção sobre o vasto continente ou arquipélago sociocultural que é, como espaço, além de urbano, rural, o Brasil, aquela língua, par a boca brasileira, sob medida e, como tal, a desabrochar plenamente em ar e terra brasileiras, a que se refere o sociólogo da linguagem, inteligente desaparecido, Herbert Parente Fortes, de quem acabam de ser republicados pioneiríssimos estudos, por iniciativa de Gumercindo Rocha Doria, sob o título O Ensino da Língua e a Crise Didática na Expressão e Comunicação ( São Paulo, 1981). Que dizia há anos esse clarividente Herbert Parentes Fortes? Que "a língua do Brasil é a que abriu a Euclydes da Cunha o segredo do nosso esquecimento ( do Brasil Rural) e o converteu do litoral para Os Sertões".
Sem de modo algum, concordar em que se passe a falar numa "língua brasileira" a pretender ser assim oficialmente chamada, compreende, o autor de Rurbanização: que é ? com Fortes, que o brasileiro não hesite em continuar a abrasileirar criativa e ecologicamente - uma sua ou nossa - língua portuguesa castiça e artificialmente subportuguesa. Sublíngua da de Portugal ou da Europa portuguesa em vez de solidária com desenvolvimento luso-tropicais paralelos aos do tronco europeu como os que vêm ocorrendo, fora do Brasil, sob inspiração brasileira, em Goa, em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde. E não só nos sertões brasileiros e nos espaços brasileiro teluricamente rurais, como nos urbanos cuja mais genuína deseuropeização ou descolonização vem ocorrendo através de processos por vezes sutilmente rurbanos. As mesmas sutis ifluências descentralizadoras, no sentido e deseuropeizantes, em casos de centralizações opressoras de energias, formas devida, estilos de cultura, modos de falar, de rezar, de escrever, que sem repudiarem raízes euro[éias, ou valores de civilizações maternalmente européias, lhes vem acrescentando vigores não-europeus e até espontaneidades não-civilizadas, e, com esses vigor e essas espontaneidades, enriquecendo a criatividade pan-humana. Processo que, em ponto grande, é, essencial e existencialmente o mesmo definido pelo conceito e pelo neologismo scociológico: rurbanização.
Um explicação: o porquê de ser este livro dedicado à memória de Mário Travassos. Não sei de militar brasileiro mais merecedor do apreço de sua gente. Conheci-o de perto. Admirei-o. deu-me a honra e o gosto de prefaciar um dos seus valiosos livros: Geografia dos Transportes. Livro pioneiro de uma geografia parenta de uma nova Sociologia. E que interessa aos que consideram essencial, ao Brasil de hoje, uma política social de rurbanização.
Quando me foi concedido, pela Escola Superior de Guerra, o título, que muito prezo, de Doutor H. C. em Estudos Brasileiros, foi de quem mais me lembrei: de Mário Travassos. Dele e do também militar brasileiro, homem de estudo, que nos aproximou: Inácio José Veríssimo. Militares - homens de estudo, esse dois, que vêm tendo continuadores brilhantes: um deles, Jonas Correia. Outro, Lira Tavares. Vários. As Forças Armadas do Brasil podem Ter, além de seus medalhões, seus quase completos inocentes de assuntos culturais. Mas não estão deixando de contribuir, através de estudiosos idôneos de problemas brasileiros, par o maior conhecimento, em vários setores, de realidades nacionais. Um reparo ao que possa ser considerado irregular no modo do autor de referir-se a si próprio: ora, como "o autor", ora sob a forma pessoa de "eu" uma sem cerimônia talvez deselegante. O autor resolveu que as duas maneiras coexistiriam, conforme seu maior ou menor personalismo nas suas intervenções diretas em assuntos abordados.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Rurbanização: que é? Recife: Massangana, 1982. 153p.
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