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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



SELETA PARA JOVENS
Apresentação: Gilberto Freyre e os jovens [por Maria Elisa Dias Collier]


Para alguém que já não seja um mestre é missão extremamente difícil organizar, apresentar e anotar a Seleta de Gilberto Freyre para os jovens. Faça-o por incumbência da Editôra, depois de Ter colaborado com o Autor a pedido dêle, representando, segundo êle, o ponto de vista do leitor jovem na escolha de trechos extraídos de vários trabalhos seus.

Essa colaboração - trabalho de alguns meses; o fato de ser formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia do Recife; o de vir sendo, nos últimos anos, assistente de pesquisa do Departamento de Sociologia do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Instituto fundado por Gilberto Freyre e sob sua constante inspiração; o conhecimento tanto de seus livros como de sua atitude pessoal de orientador de jovens, quer em estudos sociais, quer em literatura de interêsse artístico além de humanístico, permitem-me apresentar aos leitores novos alguns aspectos da obra, da personalidade do escritor, pensador e cientista.

Tendo nascido no Recife a 15 de março de 1900, Gilberto Freyre aqui fêz os primeiros estudos. Recorde-se que foi grande a influência sôbre sua meninice do inglês anglicano Mr. Williams com quem aprendeu a ler e a escrever, e também que estudou Latim com o Pai, latinista; e ainda adolescente, estudou Grego. Gosta particularmente de pinturas e desenhos. Quando menino desenhou muito. Reside numa antiga casa, em Apipucos, em que várias salas são ocupadas por estantes com seus 20.000 volumes - alguns dêles, raríssimos, vários raros. Tem também, nessas salas, quadros de pintores notáveis de sua particular admiração: Pancetti, Rosa Maria, Ismailovitch, os Rêgo Monteiro, Cícero Dias, L. Cardoso Ayres, F. Brennand, entre êles. E mais: jacarandás antigos - um Béranger, vários Spieler, algumas pratas portuguêsas e inglêsas, marfins orientais, alguns tapêtes persas. Guarda uma relíquia de São Francisco Xavier, que trouxe da Índia, uma caixa de sândalo que lhe ofereceu um sacerdote hindu, pulseiras com que o presenteou um soba da Guiné, várias esculturas africanas, um vaso pré-marojoara, presente de Gastão Cruls, um precioso pano da Costa africano, presente de Hilária Alberto Tôrres.

É nesse ambiente que Gilberto Freyre trabalha. Acorda cedo. Escreve pela manhã. Escreve de ordinário a lápis ou a lápis-tinta. Nunca a máquina. Não escreve convencionalmente sôbre mesa mas, muito à vontade, sentado numa cadeira de couro, com as pernas sôbre um dos braços da cadeira se servindo-se de tábua: tem ao seu dispor numerosas tábuas de pinho-de-riga. Durante a manhã, até meio-dia, não atende a telefones nem recebe visitantes.

É casado com Magdalena Guedes Pereira, que sempre o acompanha nas suas muitas viagens, e é excelente dona de casa. Gilberto prepara com as pitangas do sítio e aguardente velha uma infusão que tem sido muito apreciada por visitantes à sua casa de Apipucos, como Roberto Rossellini, Sir David Hunt, John Dos Passos, Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Mário Amadeo, Lincoln Gordon, o Príncipe da Baviera, Jânio Quadros. Em sua casa vem sendo distinguido com visitas de outras personalidades notáveis: Aldous Huxley, Lucien Febvre, Georges Gurvitch - que ao presidir sua conferência na Sorbonne, para numeroso público, teve palavras de grande admiração para o seu colega brasileiro - Arnold Toynbee, Robert Lowell, Jean Duvignaud, Robert Kennedy, Schelsky e vários outros.

Tem dois filhos, Sônia Maria e Fernando Alfredo, já casados e muito seus amigos. E dois netos, Ana Cecília e Antônio Pimentel Neto, que passam os fins-de-semana com os avós, quando os avós estão no Recife. Pois viajam muito.

O dono da casa aprecia quitutes brasileiros, sem deixar de gostar de alguns pratos estrangeiros: inclusive caviar. Tem predileção por feijoada. Gosta muito de sorvete de graviola. Há períodos em que fuma charutos: charutos baianos. Gosta de vinhos. Ficou entusiasta dos vinhos gregos, que conheceu na fonte, na sua recente viagem à Grécia. Há em restaurantes do Recife, Natal e várias cidades do interior do Nordeste, pratos ora de carne, ora de peixe, com seu nome.

É humano, simples, por vêzes comunicativo, outras vêzes silencioso, esquivo. Alterna entre extremos de solidão e de convívio. Tem sense of Hummour. Gosta de andar a pé, nadar, tomar baho de sol. Adolescente, destacou-se na arte-esporte da bicicleta. Admira Pelé. E, muito, Vila-Lôbos. Gosta de acrescentar alguma côr aos seus trajos. Defende um trajo ecológico para o trópico - especialmente para o Brasil.

Gosta mais de grandes amizades do que de camaradagens fáceis. Um dos seus defeitos é quase não responder cartas. É notável o prazer que lhe dá o convívio com jovens. Pelo seu lado, os jovens encontram nêle uma simpatia e uma compreensão raras.

É interessante assinalar-se a perene juventude já tão destacada, no Brasil e no estrangeiro, dos livros principais de Gilberto Freyre que, ao parecerem noutras línguas, anos depois de publicados na língua portuguêsa, vêm sendo saudados como atuais, modernos e até pós-modernos. A essa mocidade orgânica dos livros corresponde a do próprio autor em pessoa que acaba de chegar aos 70 anos com a energia, a vivacidade, o poder criador de um homem muito mais môço, como acentuou, aliás, o médico francês, professor da Faculdade de Medicina de Paris, que, clinicamente, lhe fêz há pouco um check up. Gilberto, êle próprio se felicita de, também nisto, ser um tanto espanhol. Essa sua "perenidade de juventude", não só de espírito, mas fisiológica ou biológica, parece explicar o seu fácil convívio com jovens e de jovens, no Brasil como no estrangeiro, com êle. Não faz muito tempo, na Universidade de Brasília, ao esperar-se que lhe seria hostil o grupo mais radical de estudantes, sucedeu o contrário: depois de um diálogo com êle, aclamaram-no, para espanto do então Reitor e de vários professôres. O mesmo sucedeu há poucos anos na Universidade de Harvard: tão empolgados ficaram por êle os estudante, já então agitados e agitadores, da famosa universidade, que para ser ouvido por uma multidão foi preciso transferir o local da conferência de Gilberto de um dos salões de conferência para o vasto refeitório. Tal é a afinidade que se estabelece, sempre que há convívio, entre o escritor e os moços, sem que êle, note-se bem, os adule ou corteje, pois é do seu feitio falar-lhes com a mais rude franqueza. Êle próprio se diz, por vêzes, "um tanto hippie". Já desenvolveu, em conferência, proferida em 1969 em São Paulo e em Lisboa, a teoria de haver uma afinidade especial entre os equivalentes, no tempo, de avós, e os dos netos, os intermediários "constituiindo uma espécie de grande burguesia no tempo, interessada em estraticar-se como tal e tendo por opositores aquêles extremos: os jovens de menos de 30 e os idosos de mais de 65 ". Essa conferência, " Geração e Tempo ", constará dos seu livro, a aparecer breve, Além do Apenas Moderno.

Outros informes sôbre Gilberto de interêsse para o leitor jovem de seus livros: e a chamar-se Telémaco e não Gilberto; quando menino quebrou um braço jogando futebol; aos 6 anos fugiu de casa pela manhã sendo encontrado ao anoitecer; sua avó materna faleceu certa de que êle era retardado mental, tanto custou a aprender a ler, escrever e contar; aos 13 anos foi redator do jornal colegial O Lábaro; aos 11 escrevia em Boa Viagem os primeiros versos: "Jangada Triste"; aos 9 teve a primeira namorada ( chamada Dulce ); seus primeiros entusiasmos literários foram por Swift ( Viagens de Gulliver ), Defoe ( Robson Crusoe ) e Tolstoi ( Guerra e Paz ). Em português, por Eça ( Os Maias). Estudou quando menino, além de Latim com o Pai, Inglês com o inglês Mr. Williams, Francês com a francesa Mme Meunier. Daí uma sua conferência na Sorbonne Ter tido o seu francês elogiado por mestres. Mas a sua Segunda língua é a inglêsa, em que já tem escrito livros e artigos.

Suas amizades de adolescente foram feitas principalmente nos Estados Unidos e na Europa: Francis B. Simkins, que se orgulhava de Ter sido seu primeiro discípulo, o alemão Ruediger Bilden, o ingês Esme Howard Junior, de Oxford, Regis de Beaulieu, da Sobonne. Seu irmão Ulisses foi um dos seus melhores amigos de mocidade. Também José Lins do Rêgo e Cícero Dias, Prudente de Morais, neto Rodrigo M. F. de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Olívio Montenegro, Sílvio Rabelo, Ulisses Pernambucano e com grande diferença de idade, H. Vila-Lôbos, Estácio Coimbra, Pedro Paranhos, Júlio Belo, Odilon Nestor, Otávio Tarquínio, Paulo Inglês de Sousa. A. da Silva Melo, Aníbal Freeire, Gastão Cruls. Grande foi a amizade que o ligou a Manuel Bandeira, poeta iniciado por êle na então poesia de vanguarda em língua inglêsa e na poesia afro-americana, e também na poesia dos Brownings. José Lins do Rêgo devia a êle a sua iniciação no romance de língua inglêsa, então desconhecido no Brasil ( Joyce, Hardy, Lawrence, etc. ) e êle, Olívio Montenegro e outros no ensaio, também em língua inglêsa, e vários outros como Artur Ramos e Ulisses Pernambucano, Gonsalves de Melo, Diegues Júnior, nos então novos estudos de Antropologia, Sociologia e História Social. Considerável foi sua influência sôbre o Jorge de Lima de O Mundo do Menino Impossível e de Essa Negra Fulô e outros poetas, romancistas, ensaístas, críticos, então jovens, e também pintores ( Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e o próprio C. Portinari), arquitetos (Henrique Mindlin e outros), urbanistas, médicos, psiquiatras, educadores (como A . Carneiro Leão), jornalistas como Aníbal Fernandes.

Gilberto considera-se pós-maxista e não antimarxista; pós-moderno, acatólico; e não anticatólico; inacadêmico e não antiacadêmico.

Nota sobre a Apresentadora

A apresentadora desta Seleta, Maria Elisa Dias Collier, nasceu no Recife, onde freqüentou o curso secundário, seguido de estudos especializados no Davis School, de Londres. É bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia do Recife. Durante o seu curso, apresentou um trabalho sôbre Gilberto Freyre. É assistente de pesquisa do Departamento de Sociologia do Instituto Joaquim Nabuco, com curso de pós-graduação dêsse Instituto e do Instituto de Ciências do Homem na Universidade Federal de Pernambuco.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Seleta para jovens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. 164p.

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