SOBRADOS E MUCAMBOS
Prefácio
A tentativa de reconstituição e de
interpretação de certos aspectos mais íntimos da história social da família
brasileira, iniciada em trabalho anterior, é agora continuada, dentro do mesmo critério
e da mesma técnica de estudo.
Nestas páginas, procura-se principalmente
estudar os processos de subordinação e, ao mesmo tempo, os de acomodação, de uma raça
a outra, de uma classe a outra, de várias religiões e tradições de cultura a uma só,
que caraterizaram a formação do nosso patriarcado rural e, a partir dos fins do século
XVIII, o seu declínio ou o seu prolongamento no patriarcado menos severo dos senhores dos
sobrados urbanos e semi-urbanos; o desenvolvimento das cidades; a formação do Império;
íamos quase dizendo, a formação do povo brasileiro.
A principio, os processos mais ativos foram os
de subordinação e até de coerção. O Procurador do Estado do Maranhão em 1654, Manuel
Guedes Aranha, chega a ser tão incisivo na expressão de suas idéias de subordinação
dos índios ou dos pretos aos brancos, como qualquer arianista ou ocidentalista moderno:
"Si os nobres nos paizes civilisados" - pensava, ele - "são tidos em
grande estima, com maior razão devem ser estimados os homens brancos em paiz de hereges;
porque aquelles creados com o leite da Igreja e da fé christã". Além do que,
"sabido é que diferentes homens são proprios para diferentes coisas; nós [brancos]
somos proprios para introduzir a religião entre elles [índios e pretos]; e elles
adequados para nos servir, caçar para nós, pescar para nós, trabalhar para nós."
Mas ao lado de procuradores do tipo e das
tendências exclusivistas de Guedes Aranha, foram aparecendo, desde os princípios do
século XVII, teóricos da acomodação entre as raças. Estas não estariam destinadas
tão rigidamente por Deus - uma a dominar, as outras a servir. Um desses teóricos foi o
Padre Antônio Vieira - ele próprio neto de preta. Diante da invasão da colônia por um
povo mais branco que o português - os holandeses - perguntou um dia o grande orador se
"não eramos tão pretos em respeito delles como os indios em respeito de nós?"
Se podia "haver maior inconsideração do entendimento nem maior erro de juizo entre
homens, que cuidar eu que hei de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que
vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto?"
Era a dúvida em torno do próprio fundamento
da escravidão nos trópicos: a inferioridade das raças de cor. As duas tendências
continuariam, a ter seus apologistas francos, através do século XVIII e do XIX. Uns,
certos da necessidade de continuarem as raças de cor - pelo menos a negra - subordinadas
à branca, que seria a raça superior; outros defendendo, como Arruda Câmara, a livre
incorporação dos negros e mulatos à sociedade brasileira, sua ascensão às
responsabilidades políticas e intelectuais.
Em 1884, o Dr. Henrique Félix de Dacia, não
sabemos se negro ou mulato, mas "Bacharel e advogado publico" muito orgulhoso do
seu título e até de sua cor, aparece nO Censor Brasileiro, insurgindo-se contra o
preconceito de se reservarem "as sciencias e os cargos" para os brancos:
"querem que um pobre homem de cor não passe de um simples artista";
"querem antes dar-lhe uma esmola do que franquear-lhe aquellas condecorações, e
lucros, que por direito lhe pertencem: eu não tenho descançado; hei de ser sempre
victima desses soberbos, porém, jamais serei humilde com elles." Era a voz do
Bacharel de cor fazendo-se expressão já arrogante dos seus próprios direitos. Querendo
livrar-se quase revolucionariamente da subordinação ao branco.
Motivou o grito de orgulho e até de
arrogância do Dr. Dacia a circunstância de não o terem admitido às funções de juiz
de fato. Mas noutro jornal da mesma época surge-nos voz bem mais brasileira, isto é, bem
mais acomodatícia, discutindo o assunto. Embora o jornal se chame Sentinella da
Liberdade na Sua Primeira Guarita, a de Pernambuco, onde Hoje brada Alerta!! os termos
do artigo são todos no sentido da acomodação: "Pergunto qual he mais: ser Juiz de
facto, ou ser Padre, Deputado, Senador, Ministro d'Estado, Official Militar, Camarista,
Lente de Academias, Magistrado, Empregado em Tribunaes etc? Parece-me que todos estes
cargos são maiores do que ser jurado. Ora, nós vemos Padres Pardos e Pretos (o meo
Vigario na Bahia era Preto), vemos hum Senador Pardo, hum Deputado Rebouças Pardo,
Membros das Camaras Municipaes Pardos e o Senhor Canamerim de cor preta em circunstancias
de tomar assento na Camara da Bahia; vemos na Medicina e Cirurgia pardos, meos honrados
amigos e companheiros; vemos Lentes de Academias medicas Pardos em grande numero; temos
visto Ministros d'Estado pardos; e nos tribunaes estão Pardos; nas Rellaçoens tambem
Pardos; e nos Cursos Juridicos estudão Pardos; em todas as sociedades chamadas Secretas
estão Pardos nossos Carissimos Irmãons; & nada pois influe o accidente das cores
pois andamos iguaes em direitos, em tudo occupamos logares e cargos sem distinção mais
do que nas luzes e comportamento... He pois necessario dispir prevençõens e chamar os
animos á conciliação, evitando estimulos sem justo motivo; todos somos filhos da
Patria; ella pertence a todos; nós a devemos amar, soccorrer, defender e pôr em socego,
por que isto redunda em nosso beneficio; haja união bem serrada, em nossas almas..."
A situação, porém, não era idílica. A
subordinação da gente de cor, baseando-se na diferença de raça, era também uma
subordinação de classe. E a ascensão de uma classe a outra, embora muito menos áspera
que em velhos países europeus ou asiáticos, não se fazia tão facilmente, nem era
possível que se fizesse, num Império escravocrático e agrário como o Brasil. Em 1835
salientava o General José Inácio de Abreu e Lima, no seu Bosquejo Histórico,
Político e Literario do Brasil, que a nossa população, dividindo-se em dois grandes
grupos - pessoas livres e pessoas escravas - estes, por sua vez, se subdividiam em outros
grupos ou "familias distinctas", como ele chama aos subgrupos, "tão
oppostas e inimigas umas das outras como as duas grandes secções entre si." E
acrescentava: "Que somos todos inimigos e rivaes uns dos outros na proporção de
nossas respectivas classes, não necessitamos de argumentos para proval-o, basta que cada
um dos que lerem este papel, seja qual for sua condição, metta a mão na sua consciencia
e consulte os sentimentos do seu coração".
Essas distâncias sociais, se por um lado
diminuíram com o declínio do patriarcado rural no Brasil através do século XIX, e com
o desenvolvimento das cidades e das indústrias, por outro lado se acentuaram - entre
certos subgrupos, pelo menos - com as condições de vida industrial desenvolvidas no
país, outrora quase exclusivamente agrícola; com os maiores e mais freqüentes atritos
entre os homens, que a Revolução Industrial excitou em nosso meio. A casa patriarcal
perdeu, nas cidades e nos sítios, muitas das suas qualidades antigas: os senhores dos
sobrados e os negros libertos, ou fugidos, moradores dos mucambos, foram se tornando
extremos antagônicos, bem diversas, as relações entre eles, das que haviam se
desenvolvido, entre senhores das casas-grandes e negros de senzala, sob o longo
patriarcado rural. Entre esses duros antagonismos é que agiu sempre de maneira poderosa,
no sentido de amolecê-los, o elemento socialmente mais plástico e em certo sentido mais
dinâmico, da nossa formação: o mulato. Principalmente o mulato valorizado pela cultura
intelectual ou técnica.
O centro de interesse para o nosso estudo de
choques entre raças, entre culturas, entre idades, entre cores, entre os dois sexos, não
é nenhum campo sensacional de batalha - Palmares, Canudos, Pedra Bonita - onde os
antagonismos de raça, e, principalmente, os de cultura, tomaram, por vezes, formas as
mais dramáticas em nosso país. Nem mesmo as ruas, como a da Praia, que chegaram a dar
nome a algumas das nossas revoltas de povo das cidades contra os restos de feudalidade das
casas-grandes de engenho e de fazenda a se estenderem sobre o governo das províncias. O
centro de interesse para o nosso estudo desses antagonismos e das acomodações que lhes
atenuaram as durezas, continua a ser a casa - a casa maior em, relação com a menor, as
duas em relação com a rua, com a praça, com a terra, com o solo, com o mato, com o
próprio mar.
O sistema casa-grande - senzala; que
procuramos estudar em trabalho anterior, chegara a ser - em alguns pontos pelo menos - uma
quase maravilha de acomodação: do escravo ao senhor, do preto ao branco, do filho ao
pai, da mulher ao marido. Também uma quase maravilha de adaptação do homem, através da
casa, ao meio físico, embora, neste particular, o sobrado e o mucambo talvez tenham
superado o sistema inicial.
Quando a paisagem social começou a se
alterar, entre nós, no sentido das casas-grandes se urbanizarem em sobrados mais
requintadamente europeus, com as senzalas reduzidas quase a quartos de criado, as moças
namorando das janelas para a rua, as aldeias de mucambos, os "quadros", os
cortiços crescendo ao lado dos sobrados, mas quase sem se comunicarem com eles, os
xangôs se diferenciando mais da religião Católica do que nos engenhos e nas fazendas,
aquela acomodação quebrou-se e novas relações de subordinação, novas distâncias
sociais, começaram a desenvolver-se entre o rico e o pobre, entre o branco e a gente de
cor, entre a casa grande e a casa pequena. Uma nova relação de poder que continua,
entretanto, a ser principalmente o dos senhores, o dos brancos, o dos homens. Maiores
antagonismos entre dominadores e dominados. Entre meninos criados em casa e muleques
criados na rua (sem a velha zona de confraternização entre as duas meninices que fora a
bagaceira nos engenhos). Entre a dona de casa e a mulher da rua. Entre a gente dos
sobrados e a gente dos mucambos. Maior desajustamento econômico entre os dois extremos,
as casas-grandes com cacimba no fundo do sítio chegando a vender água à gente das casas
mais pobres como "a grande casa de pedra e cal, estribaria, bastantes cafeeiros que
dão annual 10 a 12 arrobas, algum arvoredo de fundo" que aparece num, anúncio de
jornal de 13 de abril de 1835.
Só aos poucos é que se definem não tanto
zonas como momentos de confraternização entre aqueles extremos sociais: a procissão, a
festa de igreja, o entrudo, o carnaval. Porque os jardins, os passeios chamados públicos,
as praças sombreadas de gameleiras, e, por muito tempo, cercadas de grades de ferro
semelhantes às que foram substituindo os muros em redor das casas mais elegantes, se
limitaram ao uso e gôzo da gente de botina, de cartola, de gravata, de chapéu-de-sol -
insígnias de classe e ao mesmo tempo de raça, mas principalmente de classe, no Brasil do
século XIX e até dos princípios do século atual. Ao uso e gozo do homem de certa
situação social - mas do homem, só do homem, a mulher e o menino conservando-se dentro
de casa, ou no fundo do sítio, quando muito na varanda, no postigo, no palanque do muro,
na grade do jardim. Porque o menino que viesse empinar seu papagaio ou jogar seu pião no
meio da rua tornava-se muleque. A dona de casa que saísse rua afora para fazer compras
corria o risco de ser tomada por mulher pública. Mme Durocher - um virago, uma
mulher-homem, vestindo-se de sobrecasaca, calçando-se com botinas de homem - foi uma das
primeiras mulheres a andarem a pé pelas ruas do Rio de Janeiro; e causou escândalo.
Não só aos negros de pé no chão - grandes
pés, chatos e esparramados, alguns de dedos torados pelo ainhum, outros roídos de
aristim ou inchados de bicho - como aos próprios caixeiros de chinelo de tapete e cabelo
cortado à escovinha e até aos portugueses gordos de tamanco e cara rapada estavam
fechados aqueles jardins e passeios chamados públicos, aquelas calçadas de ruas nobres,
por onde os homens de posição, senhores de barba fechada ou de suíças, de botinas de
bico fino, de cartola, de gravata, ostentavam todas essas insígnias de raça superior, de
classe dominadora, de sexo privilegiado, à sombra de chapéus-de-sol quase de reis.
Chapéus-de-sol de seda preta e cabo de ouro. Às vezes de pano de cor, os cabos formando
cabeças de bicho, os grandes bichos quase simbólicos do domínio patriarcal no Brasil,
os mesmos dos umbrais dos portões das casas: leões, gatos, cachorros, tigres.
Aqueles momentos de confraternização entre
os extremos sociais, a que nos referimos - a procissão, a festa de igreja, o entrudo - é
que foram fazendo das ruas e praças mais largas - da rua em geral - zonas de
confraternização. Marcaram um prestígio novo no nosso sistema de relações sociais: o
prestígio da rua.
A partir dos princípios do século XIX, a rua
foi deixando de ser o escoadouro das águas servidas dos sobrados, por onde o pé bem
calçado do burguês tinha de andar com, jeito sendo se emporcalhava todo, para ganhar em
dignidade e em importância social. De noite, foi deixando de ser o corredor escuro que os
particulares atravessavam com um, escravo na frente, de lanterna na mão, para ir se
iluminando a lampião de azeite de peixe suspenso por correntes de postes altos. Os
princípios de iluminação pública. Os primeiros brilhos de dignidade da rua outrora
tão subalterna que era preciso que a luz das casas particulares e dos nichos dos santos a
iluminasse pela mão dos negros escravos ou pela piedade dos devotos.
Ao mesmo tempo, a partir daquela época, as
posturas municipais começaram a defender a rua, dos abusos da casa-grande que sob a forma
de sobrado se instalara nas cidades com os mesmos modos derramados, quase com, as mesmas
arrogâncias, da casa de engenho ou de fazenda: fazendo da calçada, picadeiro de lenha,
atirando para o meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, às vezes
até a sujeira do penico. A própria arquitetura do sobrado se desenvolvera fazendo da rua
uma serva: as biqueiras descarregando com toda a força sobre o meio da rua as águas da
chuva; as portas e os postigos abrindo para a rua; as janelas - quando as janelas
substituíram, as gelosias - servindo para os homens escarrarem na rua. Ai também se
derramava o sobejo das quartinhas e das bilhas, ou moringues, onde se deixava a água
esfriar ao sereno, sobre o peitoril das janelas. Estas, em certos sobrados mais
desconfiados das ruas, eram raras no oitão - duas ou três, as outras sendo - apenas
fingidas, janelas falsas, pintadas na parede imensa.
As posturas dos começos do século XIX são
quase todas no sentido de limitar os abusos do particular e da casa e de fixar a
importância, a dignidade, os direitos da rua, outrora tão por baixo e tão violados.
Tão violados pelos proprietários de terras; tão violados, no Rio de Janeiro, pelos
Jesuítas que aqui se fizeram donos de muitos sítios e casas de sítios ou chácaras.
Alguns desses sítios compreendidos na sesmaria da cidade e estendidos ou explorados
contra o interesse público. O Padre Cepeda, em documento célebre, refere-se aos
"insignes ladrões que havia neste Collegio" (o Colégio dos Jesuítas do Rio de
Janeiro). Um deles, o "Padre Luiz de Albuquerque que em vinte e quatro annos foi
Procurador de Causas" [...] e "tantas terras furtou para a Religião". Era
vulgar, entre os mesmos Jesuítas - acrescenta a exposição de Cepeda - "que nunca
perdia uma demanda porque se via alguma mal parada, furtava os autos custasse o que
custasse". Por tais meios é que grandes sítios, verdadeiras fazendas de padres e de
particulares, se derramaram pelas sesmarias das cidades, encarecendo o terreno, obrigando
as casas menores a se ensardinharem ao pé dos morros e até nos mangues (depois por cima
dos morros) e concorrendo para o agarrado anti-higiênico das habitações pobres e mesmo
dos sobrados mais modestos. Os moradores das casas de sítio dos padres eram no Rio de
Janeiro simples caseiros; o trabalho desses caseiros beneficiava o solo e valorizava as
terras, também valorizadas - informa, João da Costa Ferreira em pesquisa recentemente
publicada sobre o termo da cidade - pela "proximidade em que se achavam do centro
urbano que prosperava incessantemente, pelo crescimento de sua população, pelo
desenvolvimento do seu commercio". Mas essa valorização, com sacrifício da parte
mais pobre da população e do patrimônio da cidade. Com sacrifício das ruas que deviam
existir e não existiam, seu lugar tomado e suas funções pervertidas pelos simples
caminhos dos sítios dos padres e dos particulares, pelos becos, pelas vielas sempre
fedendo a mijo.
Por muito tempo, as Câmaras, os juízes, as
Ordens Reais, quase nada puderam contra particulares tão poderosos. A sombra feudal da
casa-grande do rico ou do Jesuíta caía em cheio sobre as cidades. As ruas eram simples
caminhos a serviço das casas poderosas.
A partir dos princípios do século XIX é que
as leis foram proibindo aos proprietários de casas dentro das cidades uns tantos abusos:
as biqueiras que desaguavam, tão arrogantemente sobre a rua; as janelas e as portas que
se escancaravam, tão insolentemente sobre a rua; o abuso de certos moradores de criar
porco no meio da rua. Só o porco "com canga triangular e argola no beiço",
determinava em 1834 a Câmara de Olinda que se deixasse solto pelas ruas. As ovelhas e
cabras, também: só de canga.
As Câmaras foram também proibindo às negras
dos mucambos lavar roupas nas bicas do centro das cidades: que fossem para os riachos fora
de portas. Porque algumas cidades, como o Recife, tiveram seus arcos, fora dos quais
estava-se medievalmente fora de portas.
Vieram também outras restrições à
liberdade dos particulares: a dos senhores dos sobrados surrarem seus escravos depois que
o sino da igreja - de tão grande influência sobre a vida doméstica e até pública, das
cidades brasileiras, antes da vulgarização dos relógios - batesse solenemente nove
horas da noite. O sino da igreja batia nove horas da noite; acordava o burguês para o
banho de rio; batia, meio-dia; batia ave-maria; anunciava incêndio - algum sobrado
grandes o velho se queimando; anunciava missa, enterro, casamento.
Outras posturas foram aparecendo, no sentido
de se fazer respeitar a rua pelo matuto que descia da serra, dos sertões ou dos engenhos
e entrava pela cidade muito descansado de seu: no alto do seu cavalo de cangalha ou dentro
do seu carro de boi. Que descesse e puxasse o animal pela arreata ou pelo cabresto sob
pena, de vinte e quatro horas de prisão; os negros escravos, de duas dúzias de
palmatoadas. E ninguém tivesse mais a sem-cerimônia de entrar pela cidade de camisa e
ceroula; nem esquipando ou galopando a cavalo pelas ruas, por onde desde os fins do
século XVIII começaram a rodar carruagens: a princípio coches, seges, traquitanas;
depois cabriolets, cabs tilburys, balancés, todos aos solavancos pelas pedras e pelos
buracos.
Os construtores e os proprietários dos
prédios urbanos também foram sendo obrigados a respeitar a rua. Obrigados a levantar
seus sobrados com as testadas em alinhamento regular e não a esmo ou à toa como
antigamente. Obrigados a entulhar os buracos e as poças de lama defronte das casas com
caliça, areia, osso queimado. Obrigados a conservar o mesmo alinhamento nos passeios e
calçadas, acabando-se com, os constantes degraus e batentes de uma calçada para outra,
cada proprietário não fazendo senão sua vontade nem atendendo senão aos interesses de
sua casa.
E, por sua vez, a rua foi se desforrando do
antigo domínio absoluto da "casa nobre", da "casa-grande", do
sobrado. O muleque - a expressão mais viva da rua brasileira foi se exagerando no
desrespeito pela casa. Emporcalhando os muros e as paredes com seus calungas às vezes
obscenos Mijando e defecando ao pé dos portões ilustres e até pelos corredores dos
sobrados, no patamar das escadas.
Mas mesmo desprestigiada pela rua e diminuída
nas funções patriarcais (que manteve até no centro de algumas cidades); diminuída pela
matriz, pela catedral, pela fábrica, pelo colégio, pelo hotel, pelo laboratório, pela
botica - a casa do século XIX continuou a influir, como nenhuma dessas forças, sobre a
formação social do brasileiro de cidade. O sobrado, mais europeu, formando um tipo, o
mucambo, mais africano ou indígena, formando outro tipo social de homem. E a rua, a
praça, a festa de igreja, o mercado, a escola, o carnaval, todas essas facilidades de
comunicação entre as classes e de cruzamento entre as raças, foram atenuando os
antagonismos de classe e de raça e formando uma média, um meio-termo, uma
contemporização mestiçamente brasileira de estilos de vida, de padrões de cultura e de
expressão física e psicológica de povo.
O "sobrado de esquina" ou "com
a porta para a rua" representa o máximo de aproximação entre o patriarcalismo em
declínio e a rua já triunfal. O fim da fase de grande distância, de distância, quase
profilática entre os dois; de urupemas em vez de vidraça nas janelas; de muros e cercas
de espinho separando a casa, da rua. No Recife, no meado do século XIX, os burgueses dos
sobrados mais modestos já vêm cear na calçada aproveitando a luz da Lua.
Da habitação rigidamente patriarcal - como
foi entre nós a casa-grande de engenho ou mesmo a de sítio - pôde dizer Gustav
Schmoller, em página hoje clássica, que a sua arquitetura criara nos homens, costumes,
métodos de trabalho, hábitos de conforto. E não é sem razão, segundo o sociólogo
europeu, que em história econômica se faz da "economia da casa" o fim da
barbaria e o começo de uma cultura mais alta. Como não é sem razão, lembra ainda
Schmoller, que os povos civilizados designam ainda hoje toda forma de exploração e
atividade criadora, pela palavra que em grego queria dizer casa. Poderia, aliás, recordar
que também a palavra ecologia tem a mesma origem que economia.
Spengler quase repete Schmoller quando exalta
a influência do atrium patriarcal. Quando opõe a influência da casa, com tudo que ela
representa de "economia" - e, poderia ter acrescentado, como meio de adaptação
ecológica do homem ao meio - à influência da raça e à capacidade desta persistir,
estatuesca e brônzea, dentro, de estilos diversos de habitação e de vida e de climas
diferentes. E a casa é, na verdade, o centro, mais importante de adaptação do homem ao
meio. Mesmo diminuída de importância, como nas fases de decadência da economia
patriarcal, ou com a economia agrária substituída pela metropolitana, o antigo bloco
partido em muitas especializações - residência, igreja, colégio, botica, hospital,
hotel, banco - não deixa de influir poderosamente na formação do tipo social.
O brasileiro pela sua profunda formação
patriarcal e pela semipatriarcal, que ainda continua a atuar sobre ele em, várias
regiões menos asfaltadas, é um tipo social em que a influência da casa se acusa
ecológica e economicamente em traços da maior significação. Gosta da rua, mas a sombra
da casa o acompanha. Gosta de mudar de casa, mas ao pobre nada preocupa mais que comprar
seu mucambo; e o rico, logo que faz fortuna, levanta palacete bem à vista da rua. O
fenômeno de preferência pelo hotel, pela pensão, pela casa de apartamento - que aliás
ainda é casa - limita-se, por ora, ao Rio de Janeiro e a São Paulo. No resto do Brasil
ainda se prefere
"a minha casa, a minha casinha,
não há casa como a minha.
O privatismo patriarcal ou semipatriarcal
ainda, nos domina. Mesmo que a casa seja mucambo - o aliás tão caluniado mucambo.
* * *
Continuação de estudo já publicado, este
ensaio resulta da mesma série de pesquisas. De modo que os andaimes foram os mesmos, não
sendo preciso conservá-los todos agora em volta do desenvolvimento mais livre - porém de
modo nenhum autônomo, e sim, condicionado por aquelas bases que tomou o assunto, em, sua
nova fase. Nesta segunda edição as principais fontes de que se socorreu o autor, para
êste trabalho, vão, entretanto, indicadas; e indicadas com o máximo de precisão
possível, sempre que forem fontes utilizadas pela primeira vez. Verá facilmente o leitor
que este ensaio repousa em, grande parte em mss. de arquivos públicos e particulares e em
anúncios de jornais. Em material virgem ou quase virgem.
Impossível esquecer, num estudo que se ocupe
do desenvolvimento das tendências urbanas no Brasil do século XVIII e principalmente do
século XIX, em, contraste com as tendências rurais, os trabalhos de João Ribeiro e
Oliveira Viana sobre a formação das cidades entre nós; os de Pizarro e Baltasar Lisboa,
Haddock Lobo e Moreira de Azevedo, sobre o Rio de Janeiro; o de Felisbelo Freire, o de
Escragnolle Dória, os de Delgado de Carvalho, Noronha Santos, Morales do los Rios e
Gastão Cruls, também sobre o Rio de Janeiro; o de Luís Edmundo sobre esta cidade no
tempo dos vice-reis; os de Afonso de E. Taunay sobre a formação da cidade de São Paulo;
o de Oliveira Lima e o de Tobias Monteiro sobre o Brasil - particularmente o Rio de
Janeiro - no tempo de Dom João VI; o de Wätjen e o do Sr. José Antônio Gonsalves de
Melo, sobre o Recife durante o domínio holandês; os de Teodoro Sampaio e Silva Campos
sobre a Bahia; os do Sr. Ribeiro Lamego, sobre Campos. Mas o ponto de vista
especializadíssimo em que se colocou o autor diante do desenvolvimento daquelas
tendências - o ponto de vista quase proustiano, de estudo e interpretação da casa em
suas relações mais íntima com as pessoas - obrigou-o a socorrer-se menos desses
ilustres historiadores e dos cronistas do tipo de Macedo, de Vieira Fazenda e de Pereira
da Costa do que de material quase esquecido: arquivos de família, livros de assento, atas
de Câmaras, livros de ordens régias e de correspondência da corte, teses médicas,
relatórios, coleções de jornais, de figurinos, de revistas, estatutos de colégios e
recolhimentos, almanaques, álbuns do retratos, daguerreótipos, gravuras. Sem, desprezar,
é claro, diários e livros de viajantes estrangeiros.
Na tradução e na cópia de alguns desses
documentos ou livros, foi valiosíssimo o auxílio recebido de José Antônio Gonsalves de
Melo, que se vem especializando no estudo da língua holandesa, para melhor conhecimento
da história do domínio holandês no Brasil; também o de Manuel Diegues Júnior, José
Valadares, Diogo de Melo Meneses, nos arquivos da Bahia, do Recife e de Alagoas e o do já
ilustre escritor Francisco de Assis Barbosa, na cópia de anúncios das gazetas coloniais,
da excelente coleção da Biblioteca Nacional que tão gentilmente nos franqueou o seu
diretor, o velho e sábio mestre Rodolfo Garcia. Devemos também agradecer as gentilezas e
facilidades que nos dispensaram o Dr. Alcides Bezerra, antigo diretor do Arquivo Nacional
e o atual, Dr. Vilhena de Morais, e o Dr. José Maria C. de Albuquerque, diretor do Museu
e Olímpio Costa, diretor da Biblioteca Pública de Pernambuco. Valiosa, ainda, a
colaboração de D. Vera Melo Franco de Andrade, que traduziu do sueco, especialmente para
este trabalho, as páginas que Johan Brelin dedica à arquitetura doméstica da cidade do
Rio de Janeiro, no seu livro de viagens do século XVIII, obra rara outrora da coleção
Alfredo de Carvalho e hoje nossa por gentil oferta de um dos filhos do ilustre historiador
e bibliófilo. E não devemos nos esquecer da excursão a Minas Gerais - a visita a
algumas de suas casas-grandes mais típicas, a alguns dos seus sobrados mais
caraterísticos, o contato, embora rápido, com alguns dos seus arquivos - na boa
companhia dos Srs. Afonso Arinos do Melo Franco e Luís Camilo de Oliveira. Nem as horas
passadas no Museu Paulista, entre as reconstituições de velhos sobrados da cidade de
São Paulo e até do burgo inteiro, no fim da primeira metade do século XIX, trabalho de
inteligência e de pachorra, realizado por mestre Afonso de E. Taunay. Nem - ainda - as
excursões pelo interior do Estado do Rio, pelos Estados de São Paulo, Paraná, Santa
Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Alagoas, Sergipe. Ai e no Rio de Janeiro pudemos
entrevistar sobreviventes ilustres dos últimos dias de opulência patriarcal e
escravocrática em nosso país, cujos depoimentos e reminiscências de antigos residentes
de sobrados ou casas patriarcais de cidades foram elementos valiosos de esclarecimento do
material de arquivo. Recordaremos, entre outros, os Srs. Raul Fernandes, a Baronesa de
Bonfim, a Viúva Joaquim Nabuco, a Baronesa de Estrela, o General Moreira Guimarães, a
Viúva Oliveira Lima.
É considerável a massa de notícias, avisos
e principalmente de anúncios de jornal da época colonial e do tempo do Império em que
se baseiam algumas das generalizações, neste livro. Anúncios de escravo, de casa, de
móvel, de dentista, de sapato, de chapéu, de médico, de modista, de teatro, de mágico,
de colégio, de livros, de comidas e gulodices recebidas da Europa. Anúncios nos quais
vem se acusando, através do século XIX, a admiração quase supersticiosa do brasileiro
pelo estrangeiro, pelo europeu, pelo inglês, pelo, francês cujos nomes
"Edgar", "Lamartine", "Arthur" e até "Benjamin
Franklin!", foram substituindo, no batismo dos meninos, os "Thales",
"Ulysses" e "Themistocles", dos princípios do século XIX, e
competindo com os nomes indígenas - a ponto das melhores casas, as melhores criadas, os
melhores móveis, acabarem sendo anunciados "para família extrangeira", para
"casa extrangeira", para "senhor extrangeiro" - fato, aliás, que
ainda se observa em anúncios dos nossos dias. Há mais de cinqüenta anos o fenômeno já
servia de assunto a uma das crônicas mais interessantes e finas de França Júnior.
O estudo dos anúncios de jornal, nos quais
antes só se enxergava o pitoresco, parece-nos ter sido utilizado larga e sistematicamente
neste trabalho, pela primeira vez, dentro de técnica antropossociológica, para
interpretações sociológicas e antropológicas. A essa utilização e a essas
interpretações outras poderão se ajuntar com igual ou maior proveito: médicas por
exemplo. Amplamente filológicas. Folclóricas. Puramente históricas. Aliás, já o Dr.
Luis Robalinho Cavalcanti, em trabalho que escreveu sobre o ainhum, no Brasil, colheu
naquela fonte sua melhor e mais flagrante documentação histórica.
Se as possibilidades de utilização de
material, na aparência tão vil, ou apenas pitoresco, mas na verdade rico e até opulento
de substância do maior interesse histórico e da mais profunda significação social,
escapam aos que se compreendem os estudos sociais, solenes e grandiosos e servindo-se
apenas de documentos ilustres, mestres como Afonso de E. Taunay e Paulo Prado souberam
reconhecer a importância e o valor de riqueza tão grande e, até hoje, tão
desaproveitada. Distinguiu-nos Afonso de E. Taunay com boas palavras de animação, e mais
do que isso, de lúcida e simpática compreensão, primeiro em carta, depois em artigo,
justamente quando críticos menos autorizados e mais afoitos proclamavam não enxergar
senão "pitoresco" em todo aquele esforço de utilização à grande dos
anúncios de jornais para esclarecimento de zonas mais íntimas de nossa história social.
O presente trabalho tem, como o anterior,
defeitos de distribuição de material; repetições; às vezes a matéria de um capítulo
transborda no outro. Também fomos obrigado a insistir em certos assuntos já tocados no
estudo anterior; mas de ponto de vista diverso. Considerados em relação com outras
situações sociais e psicológicas.
O que João Ribeiro estranhou na primeira
parte do trabalho - a já publicada - também estranharia nesta: não conclui. Ou conclui
pouco. Procura, interpretar e esclarecer o material reunido e tem, talvez, um rumo ou
sentido novo de interpretação; mas quase não conclui. Sugere mais do que afirma. Revela
mais do que sentencia.
A quase-ausência de conclusões, a pobreza de
afirmações, não significa, porém, repúdio de responsabilidade intelectual pelo que
possa haver de pouco ortodoxo nestas páginas. De contrário ao estabelecido, ao aceito,
ao consagrado. Porque essa qualidade revolucionária vem da própria evidência do
material reunido e aqui revelado e interpretado dentro da maior objetividade possível, de
método e de técnica.
É tempo de procurarmos ver na formação
brasileira a série de desajustamentos profundos, ao lado dos ajustamentos e dos
equilíbrios. E de vê-los em conjunto, desembaraçando-nos de pontos de vista estreitos e
de ânsias de conclusão interessada. Do estreito ponto de vista econômico, ora tão em
moda, como do estreito ponto de vista político, até pouco tempo quase o exclusivo. O
humano só pode ser compreendido pelo humano - até onde pode ser compreendido; e
compreensão importa em maior ou menor sacrifício da objetividade à subjetividade. Pois
tratando-se de passado humano, há que deixar-se espaço para a dúvida e até para o
mistério: a história de uma instituição, quando feita ou tentada sob critério
sociológico que se alongue em psicológico está sempre nos levando a zonas de mistério,
onde seria ridículo nos declararmos satisfeitos com interpretações marxistas ou
explicações behavioristas ou paretistas; com puras descrições semelhantes às da
história natural de comunidades botânicas ou animais.
A "humildade diante dos fatos", a
que ainda há pouco se referia um mestre da crítica, ao lado do sentido mais humano e
menos doutrinário das coisas, cada vez se impõe com maior força aos novos franciscanos
que procuram salvar as verdades da História, tanto das duras estratificações em dogmas,
como das rápidas dissoluções em extravagâncias de momento.
Rio, 1936-1949-1961.
GILBERTO FREYRE
Fonte: FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936. 405p.
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