SOCIOLOGIA
Prefácio
Um teólogo, depois de ouvir o sermão de outro teólogo, comentou: "A teologia daquele homem é a minha demonologia. O que ele descreve como Deus corresponde à minha idéia do Demônio".
Não está a sociologia em situação tão plástica e flutuante que possa servir a jogo de contrários tão violentos. Mas não se podem gabar os sociólogo de estarem tão superiores aos teólogos em matéria de invariabilidade e exatidão de conceitos a ponto de suas definições terem todas aquele rigor matemático ou aquela pureza geométrica em torno da qual cessam as variações e morrem as divergências. A própria sociologia de seus é a antropologia ou a economia de outros; ou é para os mais exigentes de condições científicas, pura filosofia social, arte política ou ética. As seitas sociológicas são quase tantos as religiosas, sem deixar de haver entre elas lutas que correspondem à guerra de monoteistas contra politeistas: os partidários de uma sociologia só contra os que admitem várias. Os partidários de uma lei única - a evolução ou a imitação, por exemplo - contra os que vão a extremos de casuística que hoje irritariam Pascal ainda mais que a Teologia Moral do Padre Escobar.
Daí aparecerem uma vez por outra céticos como outra, no Brasil, Tobias Barreto, e quase nos nossos dias, João Ribeiro, a duvidarem de que exista sociologia; e a acreditam só em sociólogos, cada um dos quais seria uma sociologia com idéias, expressões e até cacoetes pessoais. Nós próprio somos dos que se inclinam a supor que à sombra da antropologia, a sociologia poderia Ter-se conservado, por longo tempo, em estado de amadurecimento científico, adquirindo qualidades e condições de ciência da sua irmã mais sólida e, como antropologia social, estendendo-se do estudo dos primitivos ao dos civilizados.
Sucede, porem, que a sociologia vem desde Comte e Spencer estabelecendo-se entre as ciências e adquirindo entre elas fisionomia própria. Alguma coisa como uma nova nação ou uma nova república fundada por separatistas. Trata-se, com efeito, de obra de independentes, de desertores da filosofia e das ciências naturais quase heróicos nos seus esforços para estabelecerem uma ciência nova. Um tanto quixotescamente e sós veem êles fundando a sociologia ou assegurando-lhe status de independência entre as ciências. Uns supõem que entre as ciências naturais. Outros que entre os estudos denominados pelos alemães de ciências de cultura e chamados "ciências morais" pelos franceses. Desde já confessamos que nos inclinamos a considerar com alguma originalidade e maior audácia a sociologia, ciência mista, híbrida ou anfíbia, em parte natural, em parte cultural; e não simples ou definidamente a ciência natural que alguns sociólogos mais ousados pretendem já estabelecida. Diante de tal sociologia - ciência natural - nos sentimos até tentado a repetir o reparo do teólogo: "... é sociologia e a antropologia tenham crescido separadas, quando unidas poderiam talvez ter-se desenvolvido com vantagem recíproca; e tambem com maior vantagem para as demais ciências sociais, para a filosofia social e par a arte política. Dentro de melhore condições de disciplina e de controle científicos. O que não implica em desconhecermos a importância da obra realizada pelos sociólogos quixotescos e sós e nem sempre cientificamente disciplinados que veem assegurando independência à socioloiga, nem em negarmos interesse sociólogico das sistematizações prematuras porem sugestivas apresentadas pelas seitas sociológicas, cada uma das quais se julga senhora da verdade social inteira só por ser lógico seu sistema.
Somos dos que não compreendem conhecimento sociológico ou esforço de criação sociológica independente do estudo, evidentemente básico, da antropologia - da física como da social e cultural - da ecologia ( e quem diz ecologia, diz geografia), da história social, da biologia, da psicologia. Não há ciência mais dependente de outras ciências que a sociologia. Daí ser impossivel ao arrivista improvisá-la ou simulá-la, por mais facil que seja fantasiar-se alguem de sociólogo; e sob esse dominó amplo e ilustre dizer quanto lhe apetece sobre os problemas sociais do dia. A verdade, porem, é que dentro do dominó de sociólogo como dentro da fantasia de romancista tanto pode estar hoje um fracassado noutras atividades que busque na aventura de beletrista ou na simulação sociológica seu último recurso de expressão ou de sobrevivência intelectual, como algum pensador, humanista ou poeta autêntico que, sob tais aparências ou fantasias, nos comunique idéias e sugestões novas, antecipações e observações de interesse humano, social e cultural; de interesse particularmente sociológico ou literário. Não é certo que humanistas como Walter Pater se fantasiaram outrora de romancistas? Que humanistas científicos como Aldous Huxley se fantasiam hoje de novelistas? Que do hábito de romancista se reveste um George Santayana para escrever The Last Puritan? Que entre nós, pensadores políticos do fulgor do sr. Gilberto Amado já no outono da vida tomam o mesmo hábito como que franciscano de romancista, procurando fazer dentro dele filosofia política e até sociologia em torno das sedas pretas de uma toga de filósofo ou de uma beca de cientista? Por outro lado, há quem chame de sociólogo um Angel Ganivet - o Ganivet espanholíssimo que nunca pretendeu ser senão escritor espanhol, intérprete de si mesmo, de Granada e da Espanha. E não se concebe, na verdade, estudo sobre os sociólogos espanhóis ou a sociologia na Espanha que despreze Ganivet. Ele é que, rigorosamente, não fez nunca sociologia da científica ou sistemática mas filosofia social alongada em arte política e às prosa de Mr. Jourdain. O caso, tambem na mesma Espanha, de Costa, de Unamuno, hoje de Ortega y Gasset. O caso, entre nós, do Joaquim Nabuco que escreveu o Abolicionismo. E de Euclydes da Cunha, José Verissimo e Nina Rodrigues.
De modo que nem sempre se encontra autêntica sociologia nos escritos ostensivamente sociológicos: tantas vezes simulações por maus dilettanti. Em compensação, mais de uma vez, ele está em escritos na aparência só literárias ou médicos; só geográficos, etnográficos ou psicológicos. No esforço de impor à sociologia limites objetivos ou naturalistas de objeto e de método e de procurar dar-lhe nitidez ou pureza científica absoluta, podemos correr o risco de desprezar tudo o que seja impura ou difusamente sociológico. Nos trabalhos de pura teoria sociológica, explica-se e até justifica-se esse afã; mas não nos de aplicação ou análise. No estado atual das ciências ou dos estudos sociais dificilmente pode fazer-se obra mais ousada e menos pedante de criação ou interpretação social ou sociológica - o estudo de uma região, de uma época, de um movimento, de uma instituição, o levantamento do perfil social e cultural de um grupo - guardando-se da primeira à última página rigidez ou exclusividade de método, castidade sociológica, pureza científica absoluta. Mais de uma vez o sociólogo entregue a tal aventura terá de valer-se de estudos ou de ciências vizinhas da sociologia e até de outras formas de experiência humana - a história, a psicológica, a filosófica, a folclórica -, de métodos extra - sociológicos de aprofundá-la, para melhor exploração e3 compreensão de matéria virgem ou complexa. Mais de uma vez, em estudo da sociologia genética, em torno de instituição ou áreas, por exemplo encontrará o sociólogo no método chamado histórico-cultural e no denominado funcional dos antropologistas, ou no psicológico, dos psicólogos-sociais, no próprio método psicoanalítico, pontos de apoio científico extra-sociológico para indagações que excedem os limites do método rigorosamente sociológico-genético.
Dessa falta de suficiência dos métodos sociológicos diante de problemas que nunca são puramente sociológicos porem complexamente sociais resultam vantagens, e não apenas desvantagens, para os sociólogos empenhados em obras de criação e interpretação. Se não forem sociólogos estreitamente de seita ideológica ou metodológica, eles se encontrarão aptos para esforços de interpretação dos quais raramente cogitamos puros teóricos ou os pedagogos mais rígidos da sociologia quando, muito lógicos e precisos, dividem nos seus compêndios a matéria sociológica em capítulos certos e os métodos e as doutrinas sociológicas, em face das antropológicas e psicológicas, das econômicas e das políticas, em inimigos que se defrontassem com inimigos. Nada de cooperações comprometedoras da pureza sociológica - pensam tais puristas da sociologia.
Vivo como é o empenho de quantos se preocupam hoje com a ordenação da matéria sociológica em fixar-lhe limites, par que não se percam os sociólogos modernos no imperialismo sociológico de mais de um sociólogo do século passado - para os quais economia, arte política, antropologia, ética eram simples domínio sociológico - nem no extremo oposto: no de considerarem sua especialidade uma espécie de simples doce ou sobremesa de ciências mais substanciais - não podemos, por outro lado, no estado atual da sociologia, nos desinteressar nem das zonas de confluência da sociologia com as ciência vizinhas nem das vantagens de confluência de métodos - sociológico, antropológico, psicológico - na análise e na interpretação de problemas regionais ou específicos de formação ou de estruturação social. Teórica e pedagogicamente, o desejavel é que a sociologia se desenvolve sempre sobre matéria própria e com métodos de estudo e de explicação científica puramente seus. Na prática - nas obras de criação predominantemente sociológica e de interpretação principalmente sociológica de matéria social - nem sempre é possivel, no estado atual das ciências sociais, absoluta pureza na delimitação da matéria e dos métodos.
Dentro desse critério, dentro dessa idéia de necessidade de íntima cooperação do sociólogo com os demais especialistas de ciência social para íntegra compreensão, em trabalhos de sociologia aplicada ( que são, afinal, a parte viva e criadora da sociologia), da realidade social, é que está escrita esta nova tentativa de introdução à sociologia. Daí o seu carater nem sempre ortodoxo.
São tanto hoje os compêndios e os manuais de sociologia em nossa língua que diante deste novo esboço alguem poderá dizer com enfado e mesmo enjôo: para que mais um? E para que mais um justamente agora quando os inimigos da sociologia conseguiram esmagá-la no Brasil dentro dos programas de ensino secundário, não por ser matéria complexa e de digestão intelectual dificil par ao aodlescente dos antigos liceus e ginásios, hoje não sabemos bem porque denominados arbitrariamente 'colégios", mas por ser assunto incômodo par os interessados em se assenhorearem da humanidades entre nós, reduzindo-as o mais possivel a matemática e a latim de seminário jesuítico?
E' que este esboço de Sociologia se apresenta menos com intenções convencionalmente pedagógicas, de tentativa pura de ordenação e de estabilização dos conhecimentos sociológicos ou de divulgação dos já estabilizados pela maioria das escolas sociológicas, do que como companheiro de estudo e inquietações par os estudantes e professores de curso superiores e normais desejosos ou mesmo necessitados de contacto com a matéria degradada. Desejosos ou necessitadas de contato mais com a língua instavel e em formação que é a sociologia do que com sua gramática ainda precária na estabilidade de regras e de leis, muitas delas ainda prematuras, pelo menos. Os gramáticos sociólogos - que os há e terriveis --, os pedagogos e mesmo os mestres da sociologia, que perdoem a estas páginas sua orientação pouco pedagógica e, dentro da gramática sociológica, pouco gramatical. A verdade é que as ciências - pelo menos as sociais - e as línguas modernas se assemelham em mais de um ponto: principalmente aqueles ciências e línguas que se acham ainda em estado de formação. Assemelham-se tambem no fato de terem todas seus "gramáticas" ou "puristas", cujo interesse sacerdotal está na ordenação e na estabilização dos conhecimentos de cada uma, enquanto as necessidades de expressões e de combinações novas se manifestam não diremos antigramaticalmente ma alheias às exigências e aos ideais de fixidez e quase possivel perfeição, dos puristas e dos gramáticos.
Os pedagogos, os gramáticos, os puristas estão sempre dizendo à ciência ou língua de sua estimação a frase célebre: "pára, és perfeita". São apolíneos. Mas a tendências das ciências e das línguas é não pararem nem ouvirem esses reis Canutos. A tendências das línguas e das ciências vivas é se moverem. São dionis;iacas a seu modo. A sociologia, desejaram os comistas que parasse no sistema e na terminologia de Augusto Comte: para que mais do que o Positivismo? Era perfeito. Mas a sociologia não parou no comtismo. Como não parou em Spence. Nem em Durkheim, Tarde, Ward, Giddings; nem em Simmel ou em Weber ( Max), nem em Thomas ou em Pareto.
Invadindo a zona de sistematização de conhecimentos e métodos sociológicos, obras de criação sociológica da força e da audácia da de Le Play, da de Burkle, da de Marx e Engels, da de Westermarck veem sendo como enchentes que alterassem, no curso da matéria sistematizada, o chamado perfil de equilíbrio; e perturbassem as sistematizações não só dos pequenos sociólogos - que são os mais rígidos nas suas idéias e os mais ingênuos nos seus ideais de estabilidade - como dos grandes. Po8is mesmo os grandes sociólogos - referimo-nos aos sistemáticos - quando supõem Ter estabilizado conhecimentos ainda tão confusos e inquietos como os que possuimos do homem social e das relações interhumanas, interpessoais e inter-regionais, se veêm submetidos a revisões, retificações e correções às vezes até da parte de pequenos sociólogos, com as quais assuntos que pareciam fechados pelos mestres voltam a ser questões abertas. O caso atual do Professor Pitirim Sorokin que imaginou - segundo parece - chegado o tempo de uma suma sociológica, definitiva e enfática, e se julgou apto a desempenhar o papel de novo São Thomaz de Aquino, desta vez da sociologia e sob o hábito de doutro de Harvard, esquecido de que nas ciências sociais não há ainda concílios que fixem, por antecipação, tendências do doutrinas em dogmas, nem Roma nenhuma - nem mesmo Harvard - que depois de faltar, feche todas as questões abertas e fixe todos os assuntos flutuantes: Roma locuta, causa finita est. O resultado é fracasso, como sua sociológica, do Social and Cultural Dynamics do Professor Sorokin, tudo parecendo indicar que na hitórica da sociologia, o lugar do Professor Sorokin venha a ser mais o marcado pr Social Mobility do que por Social and Cultural Dynamics.
No esboço de introdução que se segue, afoitamo-nos a dar nova ordem à exposição e discussão da matéria sociológica. Os fanáticos e mesmo os ortodoxos de seitas sociológicas hão de escandalizar-se. Os monoteistas da sociologia nos acusarão de politeista sociológico e os politeistas de monoteista; e os críticos alheios à sociologia talvez sussurrem: " Este sociólogo não é uma coisa nem outra - parece que não tem carater, que não e fiel a princípios, que não é leal a métodos, que se abandona a contradições". E não deixam de Ter razão.
Acreditamos, ao mesmo tempo, na pluralidade de sociologias e na sua tendência à unidade. Para nós as sociologias especiais de que vamos nos ocupar - reduzindo-as arbitrariamente a seis - antes de chegarmos à sociologia geral, pura ou sintéticas, são como outros tantos personagens de Piradelo em ponto grande e a procura não de um autor, nem e mesmo de um coordenador, mas de coordenação ou de unificação lenta, a ser realizada por vários autores e coordenadores. Elas existirão por muito tempo e talvez para sempre: mas sem que nenhuma se baste a si mesma nem corresponda, sozinha, a todas as aspirações científicas da sociologia. Nem sozinhas nem juntas - sem uma sociologia geral de coordenação ou de síntese - elas satisfazem essas aspirações, mais de uma vez já comparadas com as que, nas ciências naturais, resultaram na biologia, havendo ao mesmo tempo zoologia, botânica e histórica natural.
Insistindo no estudo de sociologias especiais, não nos recusamos a reconhecer a necessidade da sociologia geral: enquanto não houver sociologia gera, a sociologia estará incompleta. Mas não podemos continuar no caminho, ao nosso ver errado, aberto pelos sociólogos que supuseram poder improvisar uma sociologia geral, pura, sistemática, sintética, racional, universal, sem antes se aperfeiçoarem as sociologias especiais e se exprimirem em obra de criação chamadas às vezes de aplicação, cada sociologia especializada na análise de seu trecho ou da sua talhada da totalidade sociológica ou da realidade social. Não se trata de negação da verdade universal e racional: a negação em que se extremam tragicamente aqueles "anti-hegelianos" ou 'hegelianos" especialíssimos para os quais não há nem poderá haver nunca verdade universal, mas apenas, e sempre, diversas espécies de verdade, que cada grupo interessado em sobreviver ou em dominar outros grupos deverá desenvolver, racionalizar, idealizar, tornar absoluta a seu modo e através, tão somente, de seu maior dinamismo ou de sua maior vitalidade. Pois só a vitalidade é que contaria no meio do niilismo desse relativismo. Só o fato de existirmos - nós, homens particulares e talvez se possa dizer o mesmo delas, sociologias especiais - seria essencial. Nada de sistemas nem de leis de validade universal nem para a humanidade nem para a totalidade social; nem baseadas em uniformidades de comportamento que condicionem a normalidade social sobre a qual se possam firmar generalizações.
Estaríamos em pleno desenvolvimento de filosofias sociais "anti-hegelianas", ou "hegelianas" a seu modo, aplicadas às ciências sociais e de cultura, tanto quanto aos homens, aos quais as mesmas filosofias negam a condição de homem racional e universal, para exaltarem, nos mesmo homens através de teorias "étnicas" ou "nacionais" de antropologia, de economia, de direito, a sua condição particular de raça, de homens nacionais, políticos, econômico e a sua situação de telúricos e mesmo de irracionais. Pois a tanto vai a teoria jurídico-social de Staatsnotstand, de Carl Schmitt, em que se desprezam com igual repugnância o direito natural e o positivo, pelo direito decisionista, isto é, e direito imposto pelas necessidades de existência expressas em situações extraordinárias, únicas ou anormais e executado por quem tenha força política para decidir criá-lo e executá-lo em correspondência com tais situações. As situações anormais, excepcionais ou extraordinárias é que seriam as decisiva e não as normais, reconhecidas ou consagradas pelo direito chamado das gentes, pela moral ou pela sociologia, e objeto de pretendidas leis de validade universal: "leis jurídicas", "leis morais", "leis sociológicas".
Nas expressões sociológicas, tanto quanto nas jurídicas, do decisionismo de Schmitt, do vitalismo de Spengler, do existencialismo de Herder, do politique d'abord de Maurras, do telurismo de Barrès, do etnocentrismo de Guenther, devemos enxergar reações exageradas e por vezes mórbidas, mas coompreensíveis e até certo ponto necessárias, às pretensões igualmente excessivas ou, pelo mesmo, prematuras, à universalidade e à racionalidade da sociologia, da moral e do direito, desenvolvidas pela civilização européia e oficialmente cristã, ou de origem cristã, durante o século XIX e os princípios do XX. Pouco preocupado com a diversidade de situações humanas ( por ela esquecida no afã de nos oferecer sísteses de uma normalidade humano-social ainda por estabelecer e, entretanto, reduzida a objeto passivo de leis e generalizações) a sociologia geral européia vinha provocando, tanto quanto o direito, a revolta do particular contra o absoluto, do Oriente contra o Ocidente e das colônias e das regiões contra os impéiros e contra as metrópoles exageradamente paternais ou filípicas, e, ao mesmo tempo, da mística guerreira, de civilização cosmopolita e pacífica. Antagonismo que tomaria em nossos dias aspectos bizarros e trágicos.
Dentro da sociologia, essa espécie de revolta do particular contra o absoluto e, de certo modo, de Dionísio contra Apolo, se exprimiria no desenvolvimento de sociologias especiais considerado por alguns sociólogos o único desenvolvimento possivel dentro de condições científicas de estudo sociológico. Nenhuma dessas sociologias especiais é mais caraterística daquela atitude de reação do particular contra o geral que a regional ou ecológica, tida por alguns dos seus cultores como sociologia suficiente. Atitude extrema. A verdade, porem, é que nos parece razoavel admitir não uma sociologia especial, única, mas várias sociologias especiais, com maiores possibilidades de desenvolvimento científico imediato que a geral, sem desconhecermos a necessidade da garal, da pura, da sistemática, da sintética, nem a possibilidade do seu desenvolvimento científico, necessariamente mais lento que o das especiais do qual depende, mas ao qual, ao mesmo tempo, dá perspectivas e possibilidades mais largos. Como a biologia com relação à ecologia vegetal ou animal - para nos servirmos de uma analogia.
Admitindo a coexistência de sociologias especiais e da sociologia geral, expomo-nos, não há dúvida, à crítica dos que julgam inadmissivel concilias, a pluralidade com a unidade de critério sociológicos: o "politeismo" com o "monoteismo" sociológico, com já dissemos. Seria, porem, nada menos, nada mais, do que admitirmos, em sociologia, a concepção da história de Hegel, segundo a qual a vida humana se desenvolve sob contradições ou sob polaridade. Ano nosso ver a sociologia é, por excelência, um estudo de contradições. No que ela estuda se contradizem a natureza e a cultura. Ela tem de ser anfíbia ou mista para alcançar a natureza e a cultura. A sociologia que pretende ser só naturalista e a que se diz só culturalista são por certo mais lógicas do que a mista, aquí proposta. Mas essa superioridade lógica com sacrifício da vida que procuram estudar, a social, principalmente a do homem, que na sua totalidade é natureza e é cultural, é uniformidade e diversidade, é irracional e racional, é objetiva e subjetiva.
De contradições, não cremos que esteja livre esta nossa tentativa de introdução ao estudo da sociologia e da filosofia social de que aparece hoje o primeiro volume. Que nos console um mestre: o contraditório Renan. Ele escreveu uma vez: "Ici je plaide un peu contre moi-même; mais je ne suis un prêtre; je suis un penseur; et, comme tel, je dois tout voir". Ver sobretudo "les deux faces opposées dont se compose toute verité".
Não opomos, no estudo sociológico, as muitas sociologias à sociologia única, nem a natureza à cultura, nem a diversidade à universidade, nem a objetividade à subjetividade como inimigos inconciliáveis, mas como antagonismos que podem, ao nosso ver, ser harmonizados; e que, de qualquer modo, possam ou não ser harmonizados, existem. Não traimos a sociologia geral pelas sociologias especiais, nem a cultura pela natureza, nem a universalidade pela diversidade, em a objetividade por inconstância o versatilidade intelectual: apenas reconhecemos que, em sociologia, são inevitáveis as especialidades e a subjetividade. O objeto de estudo sociológico nos parece ser a sociologia assim complexamente compreendida; e classificada como ciência ainda imatura.
"Traição à sociologia", lembra-nos uma voz irônica vinda de nós próprio. E com tanta insistência que nos faz ir a autor mais querido e alto do que Renan para de uma de suas páginas recolher palavras mais de proteção intelectual que de simples consolo ou regalo. Foi Pascal quem escreveu - Padcal, o pensador duramente geômetra, e não o sempre ondeante Renan: "L'attachement à une même pensée fatigue et mine l'esprit de 'homme. C'est pourquoi, pour la solidité du plaisir de l'amour, il faut quelquefois ne pas savoir que l'onaime,; et ce n'est pas commettre une infidelité; car l'on n'en aime pas d'autre; c'est reprendre des forces pour mieux aimer".
É assim que "amamos" a sociologia: esquecendo às vezes que a "amamos". Atento às suas deficiências ou insuficiências. Achando na biologia, na antropologia, na psicologia e noutras ciências vizinhas - sobretudo nas mais maduras - motivo pura "amar" melhor a sociologia ainda incompleta: para desejar seu lento desenvolvimento num estado não diremos de suficiência ou pureza absoluta, mas de maturidade, que não atingiu ainda.
Já que falamos em "amor" à sociologia, falemos agora daqueles dos nossos ódios, preconceitos e talvez complexos - de alguns, pelo menos - que possam nos afetar mais de perto da pretendida condição científica de sociólogo. Pois que adianta dedicar um autor páginas inteiras à tentativa de fixação dos limites e da posição da sociologia, como ciência, sem confessar seus limites e sua posição de sociólogo primeiro científico, depois filosófico. Ainda de Pascal é a frase 'si le nez de Cléopâtre eûte été plus court toute la face de la terre aurait changé", que vem no tomo II, p.115, da edição de 1921, das Lettres Provinciales. Parece-nos, às vezes que dos narizes mais curtos ou menos curtos de sociólogos, de usa estatura maior ou menor, da conciência de seu status de classe, de raça, de sexo, de religião, de profissão, dos interesses e condições de geração ou de época de cada um, teem se derivado preponderâncias de doutrina e de método em sociologia, nem sempre conforme a condição e as aspirações da sociologia científica.
Parte dessa projeção da personalidade do aspirante a sociólogo científico sobre a ciência em formação é, por certo, inevitavel. Inevitavel em sociologia como noutras ciências que tratem do homem: a neutralidade ou a impassibilidade absoluta é impossivel nessas ciências. Outras parte da interferência é evitavel e depende, principalmente, da disciplina de método a que se sujeite com maior ou menor rigor o sociólogo. Depende, tambem, da sua formação científica: da capacidade por assim dizer heróica que adquira, através dessa formação, de chegar a conclusões, ou simplesmente a interpretações, diversas das por ele desejadas ou antecipadas; das convenientes aos seus interesses de classe, raça, nação, geração ou às suas predileções religiosas e éticas. No sociólogo, a validade do intuitivo mais de uma vez terá de humilhar-se diante da experimentação miuda e da verificação prosaica a que possa sujeitar-se uma série de fatos, por ele apresentada, sem que por isso o mesmo sociólogo deva esmagar dentro de si todo o poder de intuição, de empatia e de compreensão intelectual de que disponha para, numa vã imitação dos cultores das ciências naturais puras, encortiçar-se em cientista inteiramente experimental a impessoal ou apenas descritivo e objetivo, como se a história e o comportamento do homem social fossem história e comportamento apenas naturais.
Não há, ano nosso ver, sociologia totalmente objetiva, a que bastem a mensuração, a descrição e a experimentação como às ciências físicas e naturais. Sendo uma ciência tambem de compreensão, a presença do sociólogo na ciência é necessária; é inevitavel; inevitáveis seus próprios preconceitos. Ao desejo de Ranke de "apagar seu próprio eu' para mostra os fatos históricos em sua "pura realidade", objetou muito bem Georg Simmel q eu apagado ou eliminado esse detestado "eu", nada restaria a Ranke com que compreender o "não-eu". Em sociologia, como em história e em psicologia, grande parte do "não-eu' só se deixa esclarecer pelo "eu" do indagador: pelo seu poder de compreensão, de empatia, digamos mesmo de imaginação - imaginação científica e mesmo poética - e não apenas pelas técnicas de experimentação e mensuração.
Daí, talvez, a opinião, aparentemente absurda, de Maunier e de outros críticos da sociologia com pretensões a exclusivamente objetiva de que não há método nem técnica sociológica superiores ao sociólogo. Do sociólogo pequeno, fraco ou medíocre seira inutil esperar grandes e fortes coisas em sociologia, por mais aproximado dos métodos das ciências naturais e das técnicas das ciências físicas que fossem seus métodos e suas técnicas. E não é exato que um romancista como Proust, cuja técnica de histórica o mais possivel natural da sociedade se assemelha à dos sociólogos ou para-sociólogos ingleses e norte-americanos, consegue nos dar melhor que todos os discípulos de Durkhein juntos, o retrato psico-sociológico da aristocracia francesa no fim do século XIX e no começo do XX, apresentando-nos cada figura típica de aristocrata francês na variedade de situações psíquicas e sociais, condicionadas pelo desenvolvimento de sua personalidade em relação com o meio e com a época e fazendo-nos, pelo seu poder extraordinário de empatia, compreender grande parte do que há de compreensivel nos seus atos, ou ações, das quais surpreende pequenos nadas significativos e relações, em geral desprezadas, dos mesmos atos ou ações com nariz de Cleopatra de cada um. Ora, o que há em Proust é história sociológica, história quase natural das inter-relações de determinado grupo humano em determinada área e em determinada épocas, surpreendidos sob circunstâncias favoráveis à captação ou à recaptura de um passado social paralelo ao pessoal e que o próprio historiador - historiador, sociólogo e psicólogo a um tempo - ligeiramente disfarçado em romancista, recompõe através do seu próprio "eu" poderosamente empático e poderosamente compreensivo. Se sua história psicológica ou sócio-psicológica da aristocracia francesa é mais viva que qualquer estudo de discípulo de Durkheim sobre aspecto mais restrito da vida social francesas, não vem essa superioridade da "fantasia literária" nem da "graça de estilo'-tão fracas em Proust - mas da sua superioridade sociólogo psicológico à maneira de Mr. Jourdain. Apenas menos ignorante que desdenhosos do fato de sê-lo.
O que avançamos sobre Proust, poderíamos dizer do Sr. José Lins do Rego e dos romances --- se é que são romances e não memórias com a aparência de romances - em que vem fixando o fim do patriarcado no Nordeste agrária do Brasil: uma sucessão de situações sociais típicas em que o próprio memorialista procura recompor o desenvolvimento de sua situação atual. Tambem nessas páginas há "história natural" de instituições. E o mesmo é certo de Aluizio de Azevedo: outro romancista com alguma coisa de sociólogo criador - de Lima Barreto, do Sr. Jorge Amado, do próprio Machado de Assis. "When the artist is faithful to his conception of reality" - escrevem os professores Nels Anderson e Eduard Q. Lindeman no seu excelente Urban Sociology - "he runs no greater risk of misleading his followers than does the calculating scientist with his own brand of hunches which he labels "hypotheses". E citam como obras de sociologia urbana as obras literárias 1001 Afternoons in Chicago, de Bem Hexht, New York Nights, de De Stephen Graham, Slag, de John McIntyre. Pois "the life of the city and the emotions that disturb it are facts as real as those we can count and measure". Não se pode dizer o mesmo da vida rural de regiões definidas, tal como vem recordade em memórias literalmente memórias como as do Sr. Julio Bello sobre o sul de Pernambuco ou disfarçada em romances coo os de Knut Hamsun sobre a Noruega e as do Sr. José Lins do Rego sobre a Paraiba?
Na fase atual da sociologia criadora - e talvez na sociologia criadora de sempre - do sociólogo e do seu método - ou dos métodos por ele combinados e adaptados a estudos especiais - depende, em grande parte, a importância que seu trabalho ofereça como interpretação e compreensão do grupo, problema, região, instituição, situação ou época por ele estuda. Do sociólogo e dos métodos como que recriados por ele, dentro de condições científicas; em ao apenas do método nem da técnica por ele empregada muçulmanamente ou seguida passivamente.
Daí o interesse de conhecermos de um sociólogo não só sua escola, sua técnica e sua técnica e sua formação sociológicas mas sua personalidade quanto possivel inteira, incluindo seu "nariz de Cleopatra" para sobermos descontar-lhe os excessos de subjetividade, seus possiveis complexos freudianos ou adlerianos, quando esse se manifestem no seu trabalho. O nariz israelita de Durkheim não é detalhe que se despreze ao considerar-se a obra de Durkheim, com toda a sua objetividade; muito menos, o nariz israelita de Karl Marx. O fato de ser o Professor Sorokin um russo branco que não sua mocidade de catedrático de universidade bateu-se contra Lenine, não deve ser esquecido nunca ao lermos suas páginas de pretendida "sociologia" científica estão mais presentes que o sociólogos; nem o fato de Ter o Conde de Gobineau sido castigado no Brasil por um médico brasileiro cuja esposa ( talvez brasileiramente morena) o francês pretendeu cortejar deixa de Ter interesse para os que hoje lêem não só as páginas para-sociológicas de Gobineau sobre o arianismo como toda a literatura sociológica por elas estimulada. De Byron se sabe, que por motivo idêntico, disse horrores da gente portuguesa: proclamou-a 'raça de escravos" l tivesse Byron sido menos feliz como porta do que Gobineau como romancista e escrito, para compreensão de seu fracasso literário, algum estudo semifilosófico ou para-sociológico, e talvez tivesse se antecipado ao mesmo Gobineau como criador da moderna sociologia arianista. E' tempo, porem, de procurarmos cumprir a promessa -- promessa dificil de ser cumprida - de confessar alguns dos nosso próprios preconceitos: aqueles que supomos de projeção mais frequente sobre nossas tentativas de estudos sociológicos quando sucede ser burlada, dentro de nós, a vigilância do censor íntimo ou superconciente destacado para os reprimir ou enxotar. Mesmo porque é tempo de concluirmos esta introdução já tão longa.
Mais de um crítico nos teem dado como africanófilo ou indianófilo; ou parcial, sempre que se trata de mestiço de país quente e de clima tropical: seria uma forma de sermos patrioticamente brasileiro diante de certos fatos ou problemas sociais. Talvez se trate, aquí, de reação, e reação exagerada, desenvolvida em nós - filho de país em grande parte tropical e mestiço, embora de família de ascendência européia com remoto toque de sangue indígena mas nenhum, segundo parece, africano - contra a mística de pureza de "raça", de "superioridade" do anglo-saxão ou do nórdico sobre os demais povos e contra o desdem, tambem místico, dos mesmos anglo-saxões ou nórdicos pelos climas quentes, pelas terras tropicais e pelas populações mestiças. Mística com que entramos em contato na adolescência. Fomos então do Brasil para uma universidade norte-americana do sul dos Estados Unidos, situada num dos centros mais vivos de mística etnocêntrica anglo-saxônica. Aí estivemos dois anos, em ambiente para nós, indivíduo, o mais favoravel, cordial e simpático: tanto que nos preconceitos dos anglo-saxões ou brancos, com os quais convivíamos intimamente, se alongaram a princípio os levados por nós do meio brasileiro em que nascemos e nos criamos - o de famílias orgulhosamente brancas ou quase brancas, uma delas até nórdica, com avós rurais e escravocratas salpicados, como já foi dito, de remoto sangue indígena tido tambem por honroso nesta parte da América, E' tambem possivel que naquele meio mais vivamente etnocêntrico que o da meninice no Brasil, tenha começado, em nós, a reação menos sentimental que científica, aos preconceitos dominantes, os quais, sem nos atingirem como indivíduo nem como família, nos faziam pensa intensa e constantemente na situação e no futuro de um povo em grande parte mestiço. E este povo, o brasileiro: o nosso. Reação que poderia nos Ter levado ao pessimismo absoluto do bacharel, no Canaã de Graça Aranha. Só por efeito de sugestões de estudos científicos inclinamo-nos para o relativo otimismo que consiste simplesmente em reconhecer-se no mestiço e no africano capacidade para tornarem-se iguais ao branco quando favorecidos pelas mesmas oportunidades e condições sociais e de cultura. Iguais em aptidões gerais.
É curioso mas na fase de transição que então atravessamos não tivemos quase contato nenhum com escritores e cientistas brasileiros empenhados em qualquer daquelas rehabilitações de valores tropicais ou nacionais: nem com J. B. de Lacerda, nem com o Nabuco d'O Abolicionismo, nem com Eduardo Prado, nem com Alberto Torres, nem com o Professor Roquette Pinto, nem com o Sr. Gustavo Barroso. Muito pouco com Euclydes da Cunha, com Sylvio Romero e João Ribeiro. Acreditamos que nossa correspondência de estudante com Oliveira Lima e com o sábio geólogo norte-americano John Gasper Branner (então Presidente emeritus da Universidade Stanford e às voltas com o preparo do texto português de sua Geologia do Brasil, trabalho para que pedira a nossa colaboração), tenha concorrido para nos desembaraçar, ainda na Universidade de Baylor, do complexo de inferioridade brasileira em que resvaláramos, quer sob os preconceitos dominantes nos Estados-Unidos - especialmente no Sul - a respeito de povos mestiços, quer sob o prestígio de escritores e cientistas ilustres norte-americanos, europeus e mesmo brasileiros lidos na adolescência. Dentre os brasileiros, Graça Aranha e o prórpio Sr. Monteiro Lobato. Com relação a este acreditamos possuir ainda a carta em que Branner, elogiando com veemência não só as virtudes literárias como a coragem intelectual do escritor paulista, criticava-o, entretanto, pelo seu excesso de pessimismo com relação ao caipira brasileiro. A Branner, o brasileiro parecia um povo capaz de desenvolver-se em grande povo. Ele próprio fora surpreendido no Brasil - no Brasil tropical - por demonstrações eloquentes de inteligência e de capacidade de trabalho da gente do povo : inclusive de mestiços descalços.
Quando na universidade de Columbia, em cuja Faculdade de Ciências Políticas ou Sociais nos matriculamos para estudos post-graduados depois de feito o curso de bacharel na universidade de Baylor - onde, por preconceito antibacharelesco, não nos demoramos para receber o pergaminho que, por excepção, nos foi enviado por portador do mesmo modo que pelo correio ê que nos seria enviado o de Magister Artium pela universidade de Columbia - entramos em contato com o antropologista Franz Boas e com seus discípulos e nossos companheiros de estudos, Rudiger Bilden e Ernest Weaver, já agiam sobre nós sugestões de Oliveira Lima e de John Gasper Branner no sentido da reação contra o pessimismo de tantos outros em face da situação geofísica do Brasil - país, em grande parte, tropical - e de sua situação étnica, de povo em grande parte mestiço. Mas foi sob a orientação de Franz Boas que nossos estudos de antropologia nos permitiram continuar, na Graduate School da Universidade de Columbia, os de sociologia (iniciados em Baylor com Wright e Dow, depois dos de biologia com Bradbury e de geologia com Pace), sob o critério nitidamente científico quanto à discriminação entre "raça" e "cultura" e, quanto possivel, entre "raça"e "meio": meio físico e social. De Boas, porem, devemos dizer que era judeu: judeu alemão. Mais de uma vez, acusado de desprezar o fator biológico "raça" para exaltar o cultural, é possivel que o "nariz de Cleopatra" lhe afetasse as idéias e o comportamento. Mas a formação científica tornava-o largamente superior ao "nariz".
Outras influências recebidas por nós nesse novo período de formação universitária, em sentido contrário ou favoravel ao da influência de Boas, foram as dos tambem Professores de Columbia, Giddings, de Sociologia, Seligman, de Economia, Dewey, de Filosofia, Shepherd e Clarence Harring (hoje de Harvard), de História da Colonização da América, John Bassett Moore e Munro, de Direito, Fox e Kendrick, de História Social dos Estados-Unidos, o primeiro sob critério individualista-capitalista, o segundo, sob critério socialista, Brander Mathews e Carl Van Doren, de História da Literatura Inglesa e Norte-americana, Carlton Hayes - nosso bom amigo até hoje mesmo depois de Embaixador dos Estados-Unidos na Espanha - de História Política e Social da Europa moderna. Conhecido pelo seu catolicismo que era e é, entretanto - se bem o interpretamos - antagônico ao daqueles Jesuitas mais identificados com as formas de organização social e de governo hoje extremadas no chamado racismo, em geral e no fascismo ou no nazismo, em particular, o Professor Carlton Hayes deve ter-nos comunicado mais de uma sugestão forte no sentido de nos desembaraçar, quer de preconceitos liberalistas e individualistas, quer de preconceitos aanticatólicos, adquiridos na meninice, em colégio protestante. Mas é possivel que sob a influência de Hayes, outros preconceitos tenham se aguçado em nós: o preconceito anti-imperialista, por exemplo, que se refletiria no nosso estudo Casa-Grande & Senzala e, desde então, em trabalhos e atitudes que nos teem custado até a prisão. Por imperialismo deve-se compreender aquí o regime de exploração do povo tutelado pelo tutelar, sem nenhum aspecto criador que importe em compensação à exploração econômica.
Outras influências recebidas no nosso período de formação intelectual - e não apenas científica - na europa e nos Estados-Unidos, julgamos do nosso dever recordar, por nos parecerem associados à gênese ou ao aguçamento de preconceitos de que temos sido acusado com ou sem razão: o preconceito antigurguês norte-americano, por exemplo, possivelmente estimulado em nós pelo nosso amigo e terrivel anti-Rotariano e antiacadêmico Henry L. Mencken, que deve Ter tambem contribuido para nosso desdem, talvez exagerado, pelo purismo gramatical ou linguístico, ou o preconceito hispanófilo, que vem do nosso contato com Valle-Inclan, em Nova York, continuado pela convivência, em Oxforfd, na Inglaterra, com o Professor Francisco de Artega, grande conhecedor de coisas hispânicas. Devemos a Arteaga e tambem a Esme Howard, filho de Lord Howard (então Sir, Esme e embaixador da Inglaterra em Madrid) e ao sr, George Kolckorst - todos de Oxford - algumas das indicações de fontes espanholas de estudo que primeiro nos aproximariam da cultura e da vida da Espanha e de Portugal como raizes das predominâncias de ordem cultural na vida e na paisagem brasileiras a começar pelo tipo de casa cujo estudo já nos interessava. Foi de Oxford que fomos para Portugal, via França e Espanha, tendo em Versailles conhecido, por apresentação de Oliveira Lima, o velho General Clement de Grandprey, grande colecionador de coisas do Oriente e dos trópicos e a pessoa de quem ouvimos o primeiro elogio aos mucambos do Nordeste do Brasil - esses mucambos do Nordeste que se tornariam um dos nossos "preconceitos" ecológicos. A Oliveira Lima devemos tambem a aproximação com o Conde de Sabugosa. Com João Lucio de Azevedo e com o Sr. Fidelino de Figueiredo. João Lucio se tornaria para nós um mestre e amigo afetuoso, que talvez tenha despertado ou avivado em nós o "preconceito" contra os métodos de catequese dos Jesuitas no Brasil. Mas sobre estes já ouvíramos, menino, este reparo de Alfredo Freyre, igual, aliáis, ao de Antonio Henriques Leal: "Os Jesuitas no Brasil teem fabricado sua própria história". Leal salientara "a conveniência de se ler refletida e criticamente a sua [dos Jesuitas] história, de que eles são os próprios escritores, e por consequência não isenta de grande soma de parcialidade ..." ("Apontamentos para a História dos Jesuitas no Brasil", Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo XXXIV, parte Segunda, página 49).
Não sabemos a que preconceito específico associar o curso que seguimos, ainda em Columbia, do Professor de Oxford, Alfred Zimmern, sobre a aristocracia escravocrata na Grécia antiga: cremos que concorreu para avivar nosso interesse, então ainda vago pelo estudo quanto possivel cientifico das aristocracias escravocratas, um tanto à maneira do curso seguido por aquele estudante americano, depois historiador famoso, que pretendendo especializar-se no conhecimento da historia do Código de Teodósio. Perguntado por que, explicou que se preparava para lidar cientificamente com a história de sua própria gente estudando antes com intensidade as instituições de um povo bem distante do seu e ao qual fosse indiferente.
Em nosso caso, resultaria daquele estudo de instituições gregas e remotas nossas especialização: a tentativa de análise e interpretação histórica, sociológica e psicológica do patriarcado escravocrata no Brasil. Especialização erradamente confundida por alguns críticos brasileiros e estrangeiros com a especialização africananologista. Quando a verdade é que o africano nos tem interessado muito menos per se que pelos traços de sua influência na formação social dos povos hispânicos, em geral, e na do Brasil, em particular. Na do Brasil, como escravo, como malungo, como mucama, como mãe de família: situações sociais predominantes sobre as condições étnicas e que se explicam antes sociológica e culturalmente que étnica e biológicamente.
Mas aquí talvez se revele outro dos nossos preconceitos: o de virmos atribuindo tamanha importância, em nossa tentativas de sociologia aplicada, e agora em nosso esboço de teoria sociológica, às situações sociais. Pois é sobre um conceito, em parte novo e nosso, de situações sociais, desenvolvido do de status, e de situações vitais, de sociólogos e de psicólogos modernos notadamente Thomas, Markheim e Nicol - que repousa principalmente nossa tentativa de introdução ao estudo de sociologia, cuja publicação se inicia com o presente volume.
Para alguns dos nossos preconceitos, de possível projeção sobre nossos estudos sociológicos, devem Ter concorrido, ao mesmo tempo que a ação pessoal e direta dos mestres e amigos recordados, a influência de leituras que fizeram do nosso período de formação intelectual nos Estados-Unidos e na Europa - cinco anos maciços de ausência do Brasil - uma fase de constantes aventuras de descobertas de autores até então apenas entrevistos ou ignorados. E esses autores, não só clássicos dos estudos de nossa especialidade, isto é, as ciências, a filosofia e a história sociais - Platão, Aristoteles, Hegel, São Thomaz de Aquino, Santo Agostinho, Waitz, Bastian, Tylor, Maine. Galton, Le Play, Saint-Simon, Comte, Tarde, Ratzel, Morgan, Durkheim, Rivers, Ward, Adam Smith, Nietzsche, Marx, Michelet e vários outros - como experimentadores, inovadores, renovadores, vários então ainda vivos, dos mesmos estudos e dos estudos vizinhos: Simmel, Pareto, o Padre Schmidt, Freud, Jung, Sorel, Thurnwald, Croce, Tonnies, Max Weber, von Wiese, Ganivet, Ortega Y Gasset, Leo Frobenius, Malinowski, os Webb, o Padre Pinard de la Boullaye, os Professores Park, Thomas, Marett e Westermarck, Frazer, Havelock Ellis, Veblen, Lapouge, Métraux, Lewis, Wissler, Kroeber, Geoldenweiser, Nordenskiold, o Professor Rivet, Brunhes, o Professor Carl Sauer. Esquecemos alguns, com certeza; mas os principais acreditamos que tenham sido recordados. Pela lista se vê que foram leituras contraditórias - algumas completadas pelo contato com os museus de etnologia e culturologia da Alemanha e de outros paises, depois de conhecido o Aschmolean, de Oxford. Mas é possivel que se possa identificar, entre influências tão diversas, uma corrente preponderante, espécie de gulfstream, ao sabor da qual tenham se conservado mais quentes que outros, certos preconceitos: talvez aqueles para os quais no predispunham o temperamento e a formação brasileira, as leituras da meninice e da adolescência, as influências de família. Ainda há pouco alguem, em São Paulo, nos caraterizava o modo de estudar e interpretar a história brasileira como "historismo grande burguês", que não sabemos exatamente o que seja. Por outro lado há quem nos considere pura e simplesmente "materialista histórico". De qualquer modo, o leitor versado na bibliografia sociológica e na dos estudos vizinhos, há de encontrar, no trabalho que se segue, traços de influências diversas e - somos o primeiro a admitir - possíveis resíduos de preconceitos de mestres e contramestres, absorvidos por nós na mocidade.
De um trabalho semelhante ao que agora empreendemos adverte o autor, em prefácio, que em sua composição entrara "leite de muitas vacas"; mas que o queijo era do seu fabrico: criação sua. Idéia de que vamos encontrar antecipação num clássico da nossa língua: em Frei Amador Arrais. São do autor dos Diálogos ( Lisboa, 1846) as palavra: "Confesso que as mais das iguarias com que vos convido são alheias, mas o guizamento delas é de minha casa".
Poderíamos dizer outrotanto deste trabalho escrito sob influências e sugestões de vários mestres - embora nenhum deles reconhecesse aquí páginas de discípulos: nem de bom nem de mau discípulo - se esta tentativa de Introdução à teoria e aos métodos, às doutrinas e à história da sociologia não se apoiasse principalmente em trabalhos de sociologia genética e de cultura por nós mesmo realizados no Brasil e com material brasileiros. Pois deste censura parece que estamos um tanto a salvo: a de que só conhecemos da sociologia a teoria que nos foi ensinada. Desajeitadamente, é verdade, já procuramos abrir sobre matéria brasileira, em alguns trechos virgem, os primeiros sulcos indecisos de análise e de interpretação antropossociológica e sócio-psicológica; e por meio desse esforço, desajeitado mas afoito, antecipamo-nos em praticar a sociologia de que agora procuramos recortar o perfil de ciência teórica.
Ainda uma palavra sobre a questão de objetividade. Há quem pense que todo livro com pretensões a científica precisa de ser absolutamente objetivo e impessoal, de modo a não se refletirem nele idéias, sentimentos ou preconceitos do autor. O autor de livro com pretensões a científico deveria ir ao extremo de começar por não Ter estilo, desde que o "estilo é o homem" ou "expressão de personalidade". Deveria ir alem: deveria fazer-se esquecer de todo pelo leitor, através de páginas anônimas como as de uma "enciclopédia" ou de um "dicionário". E' o ideal - esse de "enciclopédia" ou de "dicionário" - pregado por paretianos mais paretianos do que Pareto. Entretanto, tão dificil de ser alçando é esse ideal que os próprios dicionários e enciclopédias não o realizam de modo absoluto. No dicionário de Morais, por exemplo, encontram-se preconceitos anti-reinóis do senhor de engenho de Muribeca cuja obra, mesmo assim, é para a língua portuguesa do Brsil, como a de Webster para a língua inglesa na América, verdadeiro clássico: uma obra científica de história quase natural do idioma transplantado de Portugal para o Brasil. Na Gramática de la Lengua Castellana Destinada al Uso de los Americanos reflete-se o pancastelhanismo de Bello, Enquanto o simples fato da Academia Espanhola Ter mudadoem 1922 não só o nome o critério de redação do antigo Diccionario de la Lengua Castellana, desde então denominado Diccionario de la Lengua Española, implica na substituição de um sentimento ou de uma mística da função da língua espanhola, por outro sentimento ou mística, menos nacional e mais transnacional, menos imperial e mais federal, de espanholismo.
Nos próprios compêndios de matemática, de física, de química, de geologia, as idéias, os sentimentos, os preconceitos do autores podem ser encontrados. Na "sociologia matemática" de Pareto e na sua economia, encontram-se germes do fascismo que depois da morte do grande sábio se desenvolveria na Itália: e os preconceitos antidemocráticos de Pareto parece que se explicam principalmente pela reação do seu "realismo' contra o "idealismo" ingênuo do próprio pai. J. B. S. Haldance vai alem: procura comunicar ostensivamente seu marxismo de aristocrata desencantado da ordem atual à biologia: ciência em que é um dos maiores mestres de hoje. O Professor J. D. Bernal transmite igualmente sentimentos ou preconceitos marxistas à física e à química. E o Professor Haldance, quando acusado pelo Professor A. P. Lerner, da Escola de Economia de Londres, de pretender subordinar a biologia ao marxismo, não hesita em responder-lhe com toda a cortesia, toda a fleugma e todo o humour britânico, Ter lido e apreciado a "crítica estimulante" do professor; mas que a consideraria mais valiosa se tivesse partido não de um economista, mas de um biólogo empenhado nas mesmas pesquisas que ele, Haldane, e que como ele, Haldane, já tivesse aceito os princípios marxistas e deles se beneficiado. Resposta que alguem já disse lembrar as ods místicos ou dos convertidos, ao incrédulos.
De sectarismo, seja ele qual for, supomos estarem livre as páginas que se seguem. Mas não de preconceitos, sentimentos, personalismos. Marxistas não são, sentimentos, personalismos. Marxistas não são, decerto, nossos preconceitos principais; nem anti-marxistas. Reagimos contra aquele como imperialismo marxista nos estudos sociais ou na investigação de problemas sociais que pretende fazer da sociologia simples domínio da economia e, esta, uma "ciência" marxista ou socialista; mas nos levantamos igualmente contra a tendência de certo cientificismo ou ortodoxismo sociológico para considerar a obra de Marx extra-sociológico ou extra-científica; ou suplantada pela de Pareto: pelo seu matematicismo. O lugar de Marx nos parece ao lado de Hegel, de Saint-Simon, de Comte, de Ward, de Spencer: ao lado dos fundadores mesmos da sociologia moderna. Sua atualidade, maior que a de qualquer deles com excepção de Spencer. Simplesmente pelo fato d eque Spencer, sem Ter tido o gênio de Marx, excedeu-o na consideração de outras culturas, alem da européia ou ocidental, com base de generalizações sociológicas. Faltou de todo a Marx o critério antropológico-cultural ou antropológico-social de aproximar-se dos problemas sociais do homem. Enquanto Spencer, embora sob a ação de preconceitos evolucionistas, reconheceu a necessidade das pesquisas etnológicas para o desenvolvimento da sociologia.
Haverá na tentativa que se segue de introdução ao estudo das principais tendências sociológicas de hoje - que para nós se resumem em conflitos e esforços de conciliação entre sociologias e sociologia, isto é, entre as sociologias - especiais e a síntese ou a generalização sociológica - influência nítida de mestres norte-americanos e ingleses. Menos, porem, de sociólogos - embora tenhamos sido discípulo por ano e meio, na Universidade de Columbia, de um dos mairoes: Franklin Giddings - do que de cientistas sociais, eminentes noutras especialidades, como os tambem nosso professores Franz Boas, antropologista, Seligmen, economista, Alfred Zimmern, historiador social, Carlton Hayes, tambem historiador social, e como Veblen, Carl Sauer, Malinowski, Loowie, Westermarck, os Webb, Havelock Ellis.
Cremos que com relação a sociólogos propriamente ditos, nossas maiores afinidades são com os alemães e com aqules russos que nos tem sido possivel ler através de traduções completas ou de simples resumos. Dos norte-americanos, a sociologia propriametne dita nos parece empobrecida pela como que endogamia técnica e nacional em que vive a maioria dos sociólogos dos Estados Unidos: raramente se cruzam com os filósofos, com os antropologistas, com os psicólogos com os historiadores e com os sociólogos europeus, para aquelas interpretações sociólogicas profundas e largas dos fenômenos sociais que caracterizam a parte criadora da sociologia alemã ( os dois Wber, Tonnies, Simmel, Sombart, von Wiese). Cremos, entretanto, que em nenhum país - nem mesmo na Alemanha - a antropologia social e cultural, a psicologia social, a geografia cultural, se apresentam hoje tão ricas e criadoras como nos Estados Unidos.
Embora se diga que é tão absurdo falar-se de sociologia alemã, de sociologia norte-americana ou de sociologia chilena como de física alemã, de biologia norte-americana ou de química chilena, não nos parece exata essa equivalência de supranacionalidade: as ciências sociais não podem Ter supranacionalidade igual à ddas físicas e naturais. Se o Professor Gentile ousou dizer de todas as ciências que nenhum deixa de ser de algum modo "nacional", essa "nacionalidade" se afirma mais fortemente nas ciências sociais; e dentro da sociologia, talvez se manifeste mais na sociologias espciais do que na sintética ou geral. Que o diga o Professor Nicholas J. Spykman versado em sociologias européias e não penas na dos Estados-Unidos: "American, Enbglish, French, German and Russian sociology each has characteristics of its own". Não é que os objetos irredutíveis de estudo sociológico se modifiqeum de nação ou, segundo preferimos dizer, de cultura para cultura ou de língua para língua; nem se pode com exatidão dizer que há uma "sociologia russa" do mesmo modo que um romance russo; ou uma "sociologia mexicana" do mesmo modo que uma pintura mexicana; mas as tendências de estudo sociológico são diversas nesses vários planos ou espaços socais e culturais e mesmo físicos, quer devido aos problemas que se apresentem com diferente vigor ou intensidade, quer devido às condições de ambiente e às sugestões do passado nacional, cultural ou linguístico sobre o estudioso. Embora muitas vezes os que faltam em "sociologia russa" ou "mexicana" ou "brasileira" queiram dizer sociologia da Rússia, do México ou do Brasil, há um estilo russo, um estilo mexicano, em estilo brasileiro de sociologia ou, pelo menos, de sociólogo. Na cultura e na língua inglesa, a tradição mais poderosa que atua sobre o estudioso sociológico de fenômenos sociais é antes a prática que a especulativa - carateristicamente germânica; é antes a psicológico-social que a objetiva, geométrica e logicamente sociológica, para a qual se mostram, talvez, mais predispostos pela estrutura de sua língua e pelo carater de sua cultura - Gentile diria por certo de sua nação", conceito, ao nosso ver, transitório, crescidos dentro da tradição de Pascal, de Descartes, de Condorcet, à qual pertencem Tarde e Durkheim, este marcado tambem pela tradição israelita de filosofia.
Essa diversidade atual de pontos de vista "nacionais" ou linguístico-culturais no estudo da sociologia não nos parece perniciosa, a não ser quando o sociólogo se fecha dentro do seu grupo cultural ou da sua língua, alheio ao que se faz e se produz nas outras. Precisamente para que não se verifiquem essas endogamias extremas é que nos parece necessário ao sociólogo transnacionalizar-se quanto possivel - o que não significa desnaciolanizar-se nem mesmo internacionalizar-se - através da combinação de métodos e do sincretismo de teorias desenvolvidas em vários paises. Para tanto é-lhe indispensavel o conhecimento de outras línguas, alem da nativa. Ou pelo menos de outra língua: instrumento da "intensive cross-fertilization of thought" desejada pelo Professor Spykman para que, do que ele denomina "international discussion of fundamental presuppositions" resulte a sociologia que nós consideramos transnacoional: acima das balcanicamente nacionais mas sem destrui-las sistematicamente. Federalizando-as.
No "instrumentalismo" e no "pragmatismo" que marcam. Talvez, a maioria dos estudos de sociologia nos Estados-Unidos surpreende-se alguma coisa de carateristicamente anglo-americano: a superação do gosto especulativo pelo prático. Tambem a noção fundamental de ser a "organização social essencialmente a de uma democracia social contra todas as formas de hierarquismo", que o "pragmatista" e "instrumentalista" A.. W. Moore não hesita em considerar inseparavel do Pragmatismo. A nota "nacional" ou "etocultural" (etocultural e não etnocultural) que Moore faz soar tão alto no seu Pragmatism and its Critics (Chicago, 1910), B. H. Bode no seu Fundamentals of Education (N. Y., 1921), o próprio John Dewey no seu The School and Society (Chicago, 1910), J. H. Tufts em "Individualism and American Life" in Essays in Honor of John Dewey (N.Y.,1929) é a mesma que se encontra, menos afirmativa do que nesses filósofos mas tão à raiz dos conceitos principais quanto neles, na maioria dos sociólogos norte-americanos. Na Inglaterra, apresenta-se com raizes pragmáticas a obra, sob vários aspectos notavel, do Professor Harold Laski: sua crítica sociológica à teoria absolutista de soberania nacional e de estado que o coloca entre os sociólogos da política e do direito. Antimetafisicista no sentido de opor-se ao método de razão a priori da antiga metafísica, mas muito ingles em suas contradições de conciliador de extremos, é outro pensador dos nossos dias cuja obra vem tendo repercussão nos estudos sociológicos de ética, de moral e religião: o Professor C. E. M. Joad. Para ele, a moralidade historicamente considerada significa, em grande parte, o domínio dos impulsos dos moços pelos dos velhos, isto é, o domínio dos impulsos positivos e criadores, de aventura pelos impulsos negativos, de medo e de censura. Donde a necessidade de um equilíbrio de tais impulsos, em vez do domínio absoluto de uns sobre os outros. Pois é bastante denominarmos o medo, prudência e a censura, crítica, para nos convencermos de que nem só da aventura, por mais criadora, pode viver o homem. E outra não é a tendência do Joad de hoje senão esta: a de "medo" ou "censura" diante de certos excessos neófilos. E' o que indica o seu recente e contraditório The Young Soldier in Search of a Better World (Londres, 1943).
Estávamos talvez a caminho de uma conciliação de critérios carateristicamente europeus de organização e de estudo das relações sociais com o critério carateristicamente norte-americano, de que o pragmatismo ou instrumentalismo parece a expressão mais nítida, quando rebentou a guerra de 1939. Não entramos no assunto para penetrar em zonas da filosofia social de que pretendemos nos conservar o mais possivel ausente nesta primeira parte do nosso trabalho; e sim para desenvolver um ou dois aspectos da idéia, já esboçada, de que a sociologia traz marca "nacional" ou "etocultural" em suas principais escolas. Aquela conciliação estaria principalmente no reconhecimento do fato ( que não somos o primeiro a salientar pois já o destacou o lúcido professor canadense Henry W. Wright, em sua obra Ethics and Social Philosophy, N.Y., 1927) de que a organização e o estudo da conduta humana, no que essa organização depende de direção ou de inteligência humana e esse estudo admite de indagação sociológica ao lado da filosofia, não podem resultar apenas da análise das "inter-relações lógicas de julgamentos morais" (pretendido na França, e de modo muito carateristicamente francês e racionalista por Durkheim e pelos sociólogos seus discípulos) mas precisa, ao contrário, de experimentação em que as puras conclusões racionais sofram embate com as condições físicas, fisiológicas e sociais de ação humana. Estes últimos aspectos, acentuados por sociólogos norte-americanos e russos, sendo que de forma exagerada pelos behavioristas, foram desprezados por longo tempo pela maioria dos europeus, extremamente racionalistas como os franceses ou excessivamente especulativos como os alemães. Só nos últimos anos vinha se dando a conciliação dos dois critérios, de algum modo perturbada pela guerra atual. Para essa conciliação de critério e conciliação de métodos desenvolvidos dentro de ambientes e tradições nacionais, linguísticas ou etoculturais diversas é que nos parece desejavel que a sociologia tenha hoje sua língua geral ou transnacional, como a filosofia medieval teve o latim. A língua geral da sociologia moderna - da sociologia sintética e das sociologias especiais e, tambem das sociologias "nacionais" - parece-nos que é, cada dia mais, a inglesa.
Talvez o trabalho que se segue venha até a merecer censura pelas muitas citações em inglês. Mas já não será o inglês para a sociologia moderna o que o latim foi até quase os nossos dias para os estudos filosóficos e científicos mais antigos ? Através do inglês é que se veem universalizando, como sociólogos, hindús como Mokerjee, russos como Sorokin, alemães como Simmel e von Wiese, polacos como Znaniecki e Malinowski, italianos como Pareto, filandeses como Westermarck. De modo que o estudante de sociologia moderna pode ignorar todas as línguas mortas e das vivas até a própria; mas não a inglesa. O que dizemos sem pretender que a veneranda British Boradcast Corporation nos ouça do alto de suas torres e nos aplauda com a sua imperial voz.
Admitido que o inglês seja o latim moderno, ou, pelo menos, o latim da sociologia moderna, pode-se admitir, num jogo um tanto arbitrário de equivalências, que o francês seja para o sociólogo de hoje o que o grego foi para os humanistas antecessores dos sociólogos modernos; o alemão, o que foi o árabe; o russo, o que foi o hebraico. A tendência é hoje transbordar no inglês o que vem das demais línguas em que as ciências sociais se desenvolvem sob o impulso de gênios criadores e de circunstâncias particularmente favoráveis ao desenvolvimento desse e de outros estudos.
Entre os chamados anglo-saxòes, as ciências sociais, como as outras, veem-se desenvolvendo dentro daquela quase anarquia intelectual característica de povos interessados tambem no lado ativo e prático e não no puramente contemplativo e teórico dos estudos científicos e filosóficos. Daí a convivência de não perderem os sociólogos modernos o contato com os mestres e as obras vindas de povos atualmente melhor ordenados que os anglo-saxões em seus estudos, embora a ordenação germânica de princípios e de métodos sociais sacrifique às vezes nos seus adeptos aquela especial capacidade de transigência com o particular que é uma das vantagens dos anglo-saxões no trato de problemas sociais. Da chamada escola antropológica inglesa tem-se dito muito mal nas academias da Europa continental: mas a verdade é que os trabalhos realizados pelos seus Tylor, pelos seus Frazer, pelos seus Westermarck, abriram caminhos à sociologia científica que dificilmente teriam sido abertos por estudiosos mais logicamente metódicos das realidades ou dos fenômenos sociais.
Contra o inglês como "latim", "língua básica" ou "língua oficial" da sociologia moderna pode-se dizer, isto sim, que é língua que peca pela imprecisão em contraste com a extrema nitidez didática e com a quase perfeita exatidão lógico - científica da língua francesa. Sob o ponto de vista didático, a língua francesa é que seria o latim ideal para a sociologia moderna; tambem sob o ponto de vista lógico-científico de fornecer às línguas particulares equivalências exatas e fórmulas inequívocas para suas caraterizações o mais possível livres dos "emotional undertones" que, na opinião do sr. Harold Nicolson, prejudicam o inglês como língua política ou diplomática; e ainda mais - acrescentamos ao sr. Harold Nicolson - como língua supranacional da sociologia científica. Como, porem, a sociologia moderna dificilmente se deixa separar da psicologia e do conceito sócio-psicológico de personalidade, e inclue entre os seus métodos quase biográfico da "life-history", há pelo menos uma zona, e zona essencial, nos estudos sociológicos de hoje, que pode antes o inglês que o francês para expressão de suas aventuras de exploração das relações da personalidade com o meio, com a cultura, com a comunidade. Basta ler alguem um estudo como o de H. A.. Murray, Explorations in Personality (Oxford, 1938) ou como o de J. S. Plant, Personality and the Cultural Pattern ( N. Y., 1937) ou como de J. C. Johnston, Biography, The Lite rature of Personality ( N. Y.; 1927) para verificar até que ponto essa zona de pesquisas psico-sociológicas é trabalhada e fecundada pelos chamados anglo-saxões.
O Sr. Otto Maria carpeaux escreveu há pouco, num dos seus penetrantes artigos de crítica, que "justamente isto - a expressão da personalidade - é a índole da literatura". E nisto, "a literatura não pode ser substituida por coisa nenhuma: nas literaturas não se encontram fórmulas feitas, mas homens". Com o que nos encontramos de inteiro acordo. E sendo assim, das grandes línguas modernas a essencialmente literária, por ser tambem a mais profundamente psicológica, é a inglesa com todas as suas ambiguidades e todos os seus meios-tons. É tambem esse inglês cheio de meios-tons para captar as complexidades sociais e principalmente psíquicas que envolvem problemas aparentemente só sociológicos, a língua que convem àquela parte as sociologia voltada para a personalidade e para o estudo das "situações" e "atitudes", posto em relevo pelos Professores Thomas e Znaniecki em pesquisa célebre. Semelhante parte da sociologia não sendo literatura nem filosofia líquida, onde possam flutuar as palavras, não se acha, por outro lado, pronta para a cristalização em ciência matemática, com fórmula inequívocas de expressão. E' mesmo possivel que um longo trecho da sociologia se mantenha sempre nesse estado amatemático, incapaz de cristalizar-se em ciência convencionalmente exata, presa à filosofia, à história, à biografia e à própria literatura. Os próprios ensaios, predominantemente intuitivos, ou impressionistas, de etologia, podem conter material ou sugestões valiosas para o esclarecimento de problemas sociológicos, vizinhos dos de psicologia e história ou biografia. Estariam neste caso aquelas páginas sobre a Espanha e a América hispânica do escritor norte-americano Waldo Frank que repugnam a alguns críticos pela sua escassez de documentação.
Entretanto, o Professor Pitirim Sorokin talvez se exceda quando diz que obras extra-sociológicas como Considerations sur la France de J. de Maistre e Bysantinism et Slavism, de Leontief, conteem em sua "parte empírica" .... "mais sociologia que uma dúzia de compêndios de sociologia reunidos". A não ser que erudito russo, professor de Harvard, tenha em mente o que de pior existe na bibliografia ostensiva ou especificamente sociológica. Neste caso não lhe devem ser estranhos alguns compêndios escritos em língua portuguesa. Nem é de estranhar que seu conhecimento subsociologia venha até idioma tão remoto: os russos são poliglotas espantosos.
Insistindo num ponto já ferido nesta introdução, concordamos com o Professor Sorokin em que a parte que ele denomina "empírica" de estudos do tipo de Considerations sur la France contem, muitas vezes, material a que pouco falta para ser plenamente sociológico. Mesmo quando escritos em línguas menos lógicas, menos precisas, menos sociológicas - digamos assim - que a francesa, tais estudos filosóficos, literários, psicológicos, históricos, biográficos apresentam aspectos ou trechos de carater predominantemente sociológico. E' o caso, na língua portuguesa, de mais de um trecho de Os Sertões, de Euclydes da Cunha. O caso, na língua espanhola, da "parte empírica" do Facundo, de Sarmiento, e de Radiografia de la Pampa de E. Martinez Estrada, para citar apenas dois livros argentinos que são parentes próximos d' Os Sertões. O caso, na língua inglesa, de obras numerosas, uma delas The Bible in Spain, de George Borrow. Outra: Travels in Brazil, de Henry Koster.
O que buscam os autores desses livros, que são não apenas anfíbios, mas tríbios, no sentido de juntarem à exploração do aspecto sociológico dos assuntos a exploração do aspecto psicológico e do histórico ou biográfico ( mesmo sob forma literária ) é captar a realidade social ou psico-social. Agem independentes de fidelidade à seita que se tornaria para eles a exclusividade de critérios ou de método diante do problema total: o sertanejo do nordeste do Brasil, o gaucho dos pampas argentinos, o espanhol do interior da Espanha, o brasileiro do Norte. Ou o puro método sociológico, psicológico ou histórico de pesquisa ou estudo.
Que nos perdoem os leitores mais uma vez falarmos de nós mesmo; mas não tem sido senão uma tentativa de ataque tríbio à realidade brasileira - psico-social e cultural - condicionada ecologicamente em região e limitada historicamente em época pelo maior domínio de uma instituição - o patriarcado escravocrata e agrário - sobre as fontes e sobre o desenvolvimento de todo brasileiro, o estudo por nós iniciado em 1933 com o ensaio Casa-Grande & Senzala. Mal compreendido pela maioria dos que no Brasil se entregam à crítica de idéias e de métodos de indagação social e que, ainda hoje, discutem gravemente se aquilo é sociologia, se não é, o referido ensaio vem encontrando melhor compreensão da parte de sociólogos e antropologisstas estrangeiros, um dos quais, o Professor Francisco Ayala, destacou generosamente há pouco, em artigo na revista Sur, de Buenos Aires, ( Dez. 1943, pp. 18-25 ) não limitar-se o trabalho com que iniciamos nosso estudo genético da "realidade social" brasileira a "captala en cuadros desprovistos de sentido, como acaso los que resultan de ciertos métodos norteamericanos de descripción social; sino que su construcción de la realidad está dirigida en forma concreta hasta posiciones que, por supuesto, se abstine de formular en forma programática - cosa que excederia a la missión de la ciencia - pero que, contenidas en la estrutura social que reconoce al Brasil, tienden a desprenderse por si solas ...." E aproxima nosso critério de um conceito de sociologia a que teríamos chegado - o que de fato se verificou - intuitivamente. Pois só depois de esboçado se esclareceu a coincidência do mesmo critério com a teoria sociológica de conhecimento de realidade social desenvolvida na Alemanha por Hans Freyer.
Já o Professor Roger Bastide tinha atinado com a predominância do critério de "situação social" nos nossos estudos acerca do escravo negro no sistema patriarcal do Brasil (estudos que pouco ou nada teem de africanologia) ao escrever em La Revue Internationale de Sociologie (jan.-fev., 1939, pp. 77-89) ser o nosso método de indagação "la méthode proprement sociologique...."; "ce qui l'intéresse c'est la situation sociale des négres dans leur nouveau pays, c'est leur rapport avec le maître blanc, c'est le négre esclavigé". Observação comentada por outro ilustre mestre francês de sociologia, o Professor Paul Arbousse-Bastide, para quem nossas tentativas de estudo da socidade brasileira, em vez da análise apenas dos produtos de cultura, colonial ou contemporânea, são estudos doutras realidades (mais difíceis de surpreender que a material) através - simplesmente através - dos mesmos produtos. De modo que nessas tentativas "les éléments matériels ne sont jamais.... que des signes d'autres réalités, plus difficiles à saisir, mais plus essentielles. Il serait ridicule de chercher à discréditer une telle méthode en la taxant de "matérialiste"; elle ne trahit même pas ce qu'on pourrait appeler un favoritisme du matériel. Au contraire, les objets matérieles, dans une telle conception, n'ont de sens, ne d'intérêt, que dans la mesure où ils traduisent des réalités immatérielles, des mentalités, des croyances, des préjugês,des inventions". (Prefácio a Um Engenheiro Francês no Brasil, Rio, 1940, p. XIV ).
Justamente por ser o nosso estudo de coisas sociais e de cultura não um fim mas um meio, é que a sociologia, como a compreendemos e a procuramos praticar ou aplicar `a sondagem e à explicação do desenvolvimento social brasileiro, nos está sempre levando ao estudo da personalidade: da personalidade humana, em geral, da do brasileiro, em particular. Explica-se assim que sejam frequentes nossos encontros com psicólogos e até psiquiatras: com os psicólogos e psiquiatras mais sociais em seus interesses e tendências e em seus métodos de estudo de problemas que preocupam tambem os sociólogos. E não apenas com aqueles sociólogos que veem desenvolvendo, como o Professor Karl Mannheim no seu Mensch und Gesellschaft im Zeitalter des Umbaus ( Leiden, 1935 ), uma psicologia sociológica, ao lado de uma psicologia histórica, de consideravel importância para os estudos sociais.
É, na verdade, de todo interesse para os estudos sociais, a tendência de uma das correntes de psiquiatras modernos no sentido de aproximar-se da sociologia, em torno de casos de personalidades neuróticas consideradas expressões do sistema de competição que, principalmente na Europa ocidental e em grande parte das Américas, regula há séculos as relações interpessoais. Tambem nessa zona de investigação é copioso o material que flue de estudos inicialmente só de personalidades mas de certa altura em diante tambem de situações sociais e de espaços e ambientes sociais, para o campo de domínio da sociologia, por sua vez obrigada a estender sua investigação, ou pelo menos sua curiosidade, às origens psicológicas e até clínicas do mesmo material. Vem-nos carateristicamente de Londres o ensaio em que Karen Horney estudando The Neurotic Personality of our Time ( 1937 ), traz sua análise de personalidades neuróticas para o próprio interior da sociologia, sugerindo que a reintegração de muitas dessas personalidades só parece possivel com a alteração do mecanismo social de competição hoje dominante, de tal modo ligadas estariam ao mesmo "mecanismo".
Com a psiquiatria a socorrer-se francamente da sociologia para compreensão total dos seus casos de personalidades desintegradas não é de estranhar que se aguce no sociólogo o interesse por material que lhe possa vir não só dos já referidos estudos psicológicos, históricos, biográficos e autobiográficos como até dos romances ou das novelas chamadas "psicológicas", "sociais" e "policiais", em que apareçam revelações de personalidades que não se encontram tão francas nos contactos ou estudos da vida real. Ainda há pouco apareceu em língua espanhola um ensaio de Roger Caillois, Sociología de la Novela (Buenos Aires, 1942), que pode ser classificado de notavel. Sustenta o autor que a novela proporciona aos homens o que a sociedade lhes nega; que a novela apresenta as rebeliões do homem contra o estabelecido ou organizado; que acentua conflitos latentes entre o homem e o meio e as instituições sociais. De modo que - acrescentemos as Sr.Caillois - através dos estudos das personalidades neuróticas das clínicas psiquiátricas, o sociólogo pode, com extremo cuidado, completar seu próprio estudo - por meio de métodos ordinariamente sociológicos - das relações interpessoais e das relações de certos tipos de personalidade com o meio. Ou pode Ter sua atenção despertada por sinais como que de alarme para conflitos latentes de personalidade com o meio - conflitos que talvez lhe passassem desapercebidos no seu estudo do quatidiano e do normal que dispense cuidados psiquiátricos. O que dizemos aquí da novela, em comentário à tese de Caillois em seu recente ensaio - e não nos esqueçamos, com relação à novela e sua influência no desenvolvimento das ciências, do reparo feliz do Professor Fideelino de Figueiredo de que "Dostoivski precedeu à criminologia", enquanto "o romance francês trouxe o divórcio" e "a análise proustiana" resultou "numa reforma psicológica pela via literária"( Últimas Aventuras, Rio, s/d, p. 180 ) - poderia ser dito tambem do drama, do teatro, da dansa dramática e do próprio cinema.
Da novela, do drama, do teatro e do cinema, o inglês, com sua riqueza extraordinária de entretons, é hoje a língua oficial; e em todos esses gêneros de literatura a chamada aventura da personalidade prepondera sobre qualquer outro motivo, seja a personalidade a dos rebeldes ao meio ( o Don Quixote, os heróis de Ibsen ou de Lawrence, por exemplo, e, em nossa literatura, vários dos heróis de Aluizio de Azevedo e de Lima Barreto, alguns dos de Jose Lins do Rego, de Graciliano Ramos e de Rachel de Queiroz, quase todos de Jorge Amado ) ou mesmo a conformada com o meio e passiva ( o Bloom, de James Joyce, por exemplo o Sancho Pança, de Cervantes, os "corumbas", de Amado Fontes, o Jeca Tatú, de Monteiro Lobato ). Insistimos neste ponto para acentuar o fato de que se o inglês perde para o francês ( conforme já sugerimos ) como língua idealmente sociológica, não deixa de ser, sob vários aspectos, a língua mais adequada ou conveniente a uma ciência do homem ainda em estado de formação como a sociologia, cujas fronteiras mais movimentadas são hoje precisamente as que lhe trazem da ciência e da literatura psicológicas subsídios para o estudo cientificamente sociológico das relações da personalidade humana com o meio social e com a cultura. Pois para o sociólogo tanto quanto para o psicólogo, para o historiador, para o biógrafo, para o dramatrugo, para o romancista, para o poeta, "personality, humanly speaking"é "the highest value known to us" a que se refere o Professor Eubank ( The Concepts of Sociology; N. Y., 1932, p. 106).
Devemos salientar que a tentativa de introdução ao estudo da sociologia, cuja publicação se inicia hoje, não é obra de sociólogo que faça profissão do ensino ou da prática especializada ou exclusiva de qualquer ramo de ciência social, mas de alguem cuja situação é, bem ou mal, a de escritor. Escritor cuja atividade para-sociológica se baseia largamente no fato de Ter, em seus cursos universitários e em viagens na Europa, se especializado com algum rigor e algum gosto no estudo da antropologia social ( em que teve por mestre principal, como já foi dito, o Professor Franz Boas), da sociologia, da história social, da economia e do direito público. Esse estudo especializado durante anos decisivos na formação intelectual do autor - estudo que ele de algum modo conserva atual pelo contato com atividades universitárias e com revistas e publicações especializadas, embora não como professor de carreira nem como membro de academias e associações de carater profissional - talvez sirva de desculpa à sua ousadia de publicar um trabalho do gênero do que se segue. Não sendo livro de professor - título por muitos atribuido erradamente ao autor - nem de acadênico, é natural que não seja rigorosamente didático nem ortodoxamente acadêmico. Uma de suas deficiências estará decerto na ausência dessas virtudes; mas é possivel que seja, às vezes, compensada por pontos de vista libertos de compromissos ou responsabilidades didáticas; e tambem po um contato mais livre com a vida extra-acadêmica.
Em tal afirmativa não vai, nem de longe, qualquer idéia de desconhecimento ou negação da importância, sob vários aspectos suprema, dos professores, das faculdades e das academias. Que seria dos estudos sociológicos e antropológicos sem professores e sem academias empenhadas na obra indispensavel de ordenação e sistematização dos mesmos estudos?
Entretanto, à margem do professorado e das academias, há lugar para indivíduos que a própria sociologia chamaria de marginais: semi-sociólogos capazes de uma vez por outra contribuir para o desenvolvimento do estudo de problemas sociológicos com pontos de vista e arrojos extra-acadêmicos e extradidáticos, embora de modo nenhum antiacadêmico ou antididáticos. Arrojos raros e difíceis, ainda que não impossíveis, dentro das academias ou à sombra das cátedras regulares. Pois o hábito tende a fazer o monge, embora nem sempre o faça; e há casos de rebeldes, experimentadores, indivíduos dominados pelo espírito de aventura intelectual, que a cátedra ou a academia tem amaciado em didatas e acadêmicos incapazes do mais simples arrepio contra as regras estabelecidas e as convenções triunfantes. Daí a conveniência atual de marginais que, sem serem antiacadêmicos ou antididáticos - excesso sempre lamentavel - nem tampouco autodidatas - gente quase sempre zangada com os didatas - não tomem o hábito acadêmico nem o de catedrático ao estudarem problemas intelectuais e de ciência, mas os estudem com aquele espírito de aventura, embora não de boêmia nem de irresponsabilidade, de que vamos encontrar exemplos magníficos em vários ingleses de formação universitária mas de atividade extra-universitária e extra-acadêmica. Quanto a nós, em particular, não sabemos se nos toca antes a designação de amador ou diletante com que os professores de carreira e os especialistas fulminam os independentes que a de marginal, no sentido aquí sugerido, se formos considerado amador, que nos console Havelock Ellis: o maior apologista dos amadores ingleses e do seu "unsystematic method of thinking".
O esboço de sociologia que agora nos aventuramos a publicar se baseia em lições dessa matéria e de Antropologia Social, professadas, de 1935 a 1937, na Universidade do Distrito Federal ( Rio) a laquigrafadas pela Sra. Vera Teixeira. Dessas notas taquigrafadas de aulas já se serviu, aliás, o Professor A. Carneiro Leão, nosso ilustre substituto na cátedra de Sociologia da mesma Universidade, para organizar seu Fundamentos de Sociologia ( Rio, 1941). E' ele quem o declarou com exemplar probidade intelectual: virtude nada comum, nesses pontos muidos, entre nós, brasileiros. Aquelas notas acrescentou, porem, o Professor Carneiro Leão tanta coisa sua ou de leituras novas, que Fundamentos de Sociologia, embora se tenha antecipado na publicação de algumas das nossas sugestões e das tentativas de combinações de doutrinas e de métodos aquí esboçados - sugestões e combinações que representam esforço próprio e até audácia pessoal e não simples reflexo de influências ou de teorias norte-americnas, francesa ou alemãs - afasta-se, em mais de um ponto essencial, da orientação que procuramos dar de 1935 -1937 àqueles dois cursos - o de Antropologia Social e o de Sociologia - e procuramos comunicar, agora, a este simples esboço de introdução ao estudo da Sociologia.
Por sugestão nossa ao Sr. Anisio Teixeira, fundador daquela Universidade e figura admiravel de renovador do ensino no Brasil, os dois cursos - o de Sociologia e o de Antropologia - foram considerados inseparáveis, e o de Antropologia Social passou a ser completado pelo de Antropologia Física. Isto de pois de deslocado, ainda por sugestão nossa, o curso de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Letras - onde fora situado pelos organizadores da Universidade - para a Faculdade de Economia e Direito. Aí se manteve o curso de Sociologia - é verdade que quase reduzido à apologética católico-direitista - após a campanha dos Reverendo Padre Jesuitas contra o Sr. Anisio Teixeira, contra a Universidade do Distrito Federal e contra o próprio ensino da Sociologia e da Antropologia a moços e adolescentes brasileiro. Até que se fechou de vez a Universidade do Distrito Federal: a única tentativa séria de universidade que até hoje se esboçou no Rio de Janeiro. E' possivel que aos poucos à Universidade do Brasil reate o trabalho alí iniciado. Possivel, mas dificil.
Aos primeiros estudantes de Antropologia e Sociologia que teve a finada Universidade e que acharam jeito de sobreviver à lama mater organizando-se, com donativo generoso do Sr. Affonso Penna Junior - por algum tempo Reitor daquela casa - numa sociedade de estudiosos de sociologia, agora a expandir-se em Instituto Brasileiro de Estudos Sociais, este livro é afetuosamente dedicado. A eles e à Professora Heloisa Alberto Torres hoje diretora do Museu Nacional e que tendo dado, como professora de Antropologia da extinta Universidade, decisivo amparo ao estudo científico de sociologia no Brasil, favorecendo-o por os meios ao seu alcance, continua a prestigia-lo numa como homenagem constante, discreta a piedosamente filial à memória do seu Pai, o ilustre iniciador, ao lado de Euclydes da Cunha, de Sylvio Romero e de Tito Livo de Castro, dos modernos estudos sociológicos no Brasil: Alberto Torres. Delatemos recebido sempre estímulo valioso para nossos estudos de sociologia. Dela e do Professor Roquette Pinto, o maior mestre de antropologia que tem hoje o Brasil.
Vários são, porem, os amigos a quem devemos agradecimentos pela colaboração ou auxílio direto e indireto com que nos veem animando para os nossos estudos; e para o trabalho que se segue, em particular. Em primeiro lugar o Professor Fernando de Azevedo, cuja autoridade de sociólogo dia a dia se acentua dentro e fora do Brasil. O Tenente-corenel Harvey Walker, catedrático da Universidade do Estado de Ohio, atualmente a serviço do seu país no Exército, o Tenente William Mekenna, graduado da Faculdade de Direito da Universidade de Yale e hoje da Marinha dos Estados Unidos e o nosso bom amigo Antonio de Barros Carvalho, residente no Rio, facilitaram-nos a aquisição de livros essenciais ao preparo deste trabalho: livros difíceis de obter em temo não só de guerra como, na parte do Brasil em que residimos, de extravio e desbragada violação de correspondência: mesmo quando correspondência estritamente científica.
O por algum tempo Consul de Sua Majestade Britânica em Pernambuco, Sr. C. A. Edmond, que é um graduado de Oxford, forneceu-nos recentes publicações inglesas de interesse sociológico, várias das quais fazem parte da bibliografia mencionada nas notas aos vários capítulos do trabalho que se segue. E ao por muito tempo Consul da Alemanha no Recife, Sr. Karl von den Steinen, devemos a gentileza de mais de uma vez Ter se encarregado de nos fazer vir da Alemanha obras de aquisição dificil, mas indispensáveis aos nossos estudos de provinciano: uma delas, o estudo monumental de Ploss e Bartels, Das Weib in der Natur und Volkerkunde. Noter-se, passagem, que as datas de publicação das obras citadas são as das edições nossa conhecidas: nem sempre as primeiras ou as últimas. A situação de guerra em que nos achamos desde 1939 veio dificultar grandemente o preparo do trabalho que se segue, cuja bibliografia está longe de apresentar-se completa e atual.
Ausente do Rio e sendo precários nossos meios de comunicação, do subúrbio de província onde nos encontramos com aquela e com outras cidades do país e do estrangeiro, aceitamos o amavel oferecimento de nossos amigos Srs. Adalardo Cunha e Helio Athayde para se encarregarem da leitura e revisão das provas. A esses bons colaboradores, nossos agradecimentos.
Dona Gasparina Freyre-Costa foi infatigavel no esforço de datilografar com esmero e nitidez o MS. José Antonio Gonsalves de Melo, neto muito nos auxiliou na tradução de trechos mais difíceis de obras escritas em alemão e nos franqueou os resultados de seus estudos, em MSS holandeses antigos, alguns virgens do contato da cultura luso-brasielria com a holandesa no Brasil do século XVII: contato tão interessante para a história social quanto para a etnológica do Brasil.
G. F.
Sto. Antonio de Apipucos
Fevereiro 1945.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Sociologia: introdução ao estudo dos seus princípios. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945. 2v.
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