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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



SUGESTÕES EM TÔRNO DE UMA NOVA ORIENTAÇÃO PARA AS RELAÇÕES INTRANACIONAIS NO BRASIL
Prefácio


O Forum " Roberto Simonsen", instituição cultural do Centro e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, recebeu na noite de 14 de agôsto de 1958 a honra da presença, como conferencista, de uma das mais fecundas, penetrantes e operosas organizações de inteligência, cultura e independência mental do Brasil: o sociólogo Gilberto Freyre. Grande público acorreu ao Forum " Roberto Simonsen" para ouvi-lo, certamente o mesmo público, imenso e acrescido das gerações novas, que o lê, agora, através da sistematização editorial das suas obras reunidas.

Ao invés de uma apresentação descabida de tão consagrado mestre, cuja popularidade honra a sua inteligência e é índice auspicioso de penetração popular da cultura, desejamos assinalar nesta apresentação as aspirações que nos identificam, em sua vasta obra, o sociólogo e pensador social Gilberto Freyre e os industriais brasileiros, particularmente nós paulista.

Desde os estudos da civilização patriarcal, de " Casa Grande e Senzala, com as pesquisas subsequentes da formação urbana da sociedade nordestina, ao ideário de preservação dos traços de cultura luso-brasileira, há, em todo itinerário do seu espírito, a constante de um amor apaixonado ao Brasil, em suas feições originais, com as contribuições estrangeiras em processo de aculturação.

Há, pois, sua obra, um programa: não é o homem de pesquisa, armado dos melhores métodos e dos mais adequados instrumentos de investigação, e iluminado pela mais extraordinária lucidez de inteligência, que escolhe temas para os seus trabalhos como quem se exercita ou aplica processos de pesquisa em domínios abertos ao trabalho intelectual. Não. é um espírito que se apoderou de uma metodologia sociológica para melhor amar e servir ao Brasil.

A sua obra, de reconstituição histórica, do Nordeste, de sua economia, do seu patriarcado, de sua formação de miscigenação racial, da contribuição do negro, desde a cozinha até à suavização da língua falada e aos costumes, do formidável acervo sentimental, moral e econômico das técnicas colonizadores do português, tudo, nela é um programa de ação para o presente, na evocação do passado.

Não nos diz, na fascinação de um estilo de sabor brasileiro, apenas como fomos. Exorta-nos, sim, a manter as mesmas linhas de nossa formação: a tolerância racial; a compreensão dos valores sociais em mudança; a preservação e aprimoramento da herança luso-brasileira, formadora do nosso caráter e de nossa sensibilidade; a ousada coragem de vencer as adversidades dos trópicos, como o fizeram, com recursos tecnológicos primários e rústicos, os nossos antepassados.

Quem lê, atentamente, os escritos de Gilberto Freyre, não volta ao passado, ainda recente como recreação nos ócios e vagares de espírito. Antes é tomado de uma violenta consciência do que somos como raça, como cultura, como espírito, como vocação, como sentimento, nas mais vastas regiões de nossa formação e atuação histórica. é assim uma ética que pediu à história os testemunhos de sua verdade.

Não fôra, pois, outro o pensamento do nosso inesquecível Roberto Simonsen quando, nos conselhos de instrução do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, evocava as pesquisas de Gilberto Freyre, como um programa de ação e não apenas, ainda que do mais alto valor documental, como pesquisas de restrito interêsse histórico ou sociólogo.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Sugestões em tôrno de uma nova orientação para as relações intranacionais no Brasil. São Paulo: Forum Roberto Simosen, 1958. 88p.

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