TALVEZ POESIA
Prefácio
Alguns amigos querem que eu reúna em livro não só umas vagas tentativas (a que me venho entregando desde menino de onze anos) de dar forma poemática a umas tantas impressões individuais de paisagens e a outras tantas expressões pessoais de experiência, como a possíveis erupções da mesma espécie que se encontrariam, dispersas, em trechos da minha prosa de ensaísta; e por dois dêsses amigos, ou por mim mesmo, reduzidas agora, por êles, a forma, por mim, à aparência de forma, poemática. Para a reunião em livro dêsses experimentos de um mau porém insistente e já velho aprendiz de poeta (que, por amor a tais aventuras, vem às vêzes traindo sua prosa, sem substituí-la senão por arremedos de poesia), eu próprio adotei, mais por prudência que por modéstia, o título Talvez Poesia.
Os amigos que me auxiliaram na redução de trechos de prosa a forma poemática foram Mauro Mota e Ledo Ivo – poetas dos melhores, dentre os que hoje enriquecem a literatura brasileira com o vigor, a graça e a pureza do seu lirismo. Dêles são poemas autênticos a que a prosa do ensaísta serviu apenas de pretexto. O leitor fàcilmente identificará tais poemas, embora Ledo Ivo generosamente tenha escrito da sua contribuição para êste livro que é "poesia tirada por Ledo Ivo da poesia dispersa na prosa de Gilberto"; e o mesmo afirme Mauro Mota.
A primeira sugestão no sentido de serem realizadas reduções de trechos de prosa de um autor nem sempre ortodoxamente lógico, ou sequer sociológico, no seu modo de ser ensaísta – ao contrário: às vêzes anti-sociológico e mesmo antilógico – a poemas como os que formam grande parte dêste livro, partiu de outro notável poeta brasileiro do nosso tempo: Tiago de Melo. E à sua sugestão não faltou o apoio imediato de um Mestre: Manuel Bandeira. Nem o de outros poetas ilustres: Carlos Moreira, atualmente empenhado em reduzir a poema o Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, e Audálio Alves, que vem realizando o mesmo com a prosa de Olinda: o já citado Mestre Manuel Bandeira e César Leal.
Como bom crítico, além de excelente poeta, Manuel Bandeira estranharia, porém, que fôsse escrito pelo mesmo autor do por êle gentilmente louvado Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados o, segundo a sua crítica – crítica nem sempre complacente – execrável, O Outro Brasil Que Vem Aí. Neste, descobriu, ninguém saberá dizer porquê, influência do Ronald de Carvalho de Tôda a América, esquecido de ter Ronald se inspirado num poeta de língua inglêsa muito da predileção do suposto imitador daquele poeta brasileiro: Walt Whitman.
Ambos os poemas– o louvado por Manuel Bandeira o por êle repudiado – vão, entretanto, incluídos neste Talvez Poesia, à sombra de um título que permite licenças ousadamente antipoéticas. Tal inclusão representa, ora simples transigência sentimental do autor com o seu passado; ora transigência, também da sua parte, com as suas tentativas, talvez estimuladas por um dos seus amigos franceses de mocidade, discípulo de Péguy, de, em ano já remoto – e também sob a influência de poetas imagistas e de outras tendências, de língua inglêsa (nos quais teve, aliás, o gôsto de iniciar, logo após o seu regresso do estrangeiro, vários amigos brasileiros: um dêles, o próprio Manuel Bandeira), exprimir em versos evidentemente maus seus sonhos antes sociológicos à La Whitman ou à la Vachel Lindsay do que puramente líricos, com relação ao Brasil do seu tempo de jovem. Um Brasil, naqueles dias, em grande parte, artificial na sua organização política; e que por isso repugnava ao seu afã, talvez mais poéticos do que lógico – mas, mesmo assim, sociológico – de autenticidade.
Pelo mesmo motivo – transigência sentimental do autor com o seu passado – incluem-se, neste livro outros dos seus arremedos de poemas. "Jangada Triste" foi escrito por um menino ainda de onze anos, sob a influência de Camões sonetista abrasileirada pela de José de Alencar tropicalista: o Alencar dos "verdes mares bravios". "È a do Norte Que Vem", "Menino Desejado", "A Menina e a Casa" foram escritos noutras datas; mas não deixam de ser marcados por aquela ingenuidade que se encontra em versos de adultos e até de velhos, quando sempre aprendizes de arte poética. Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados chegou a receber, quando apareceu em edição particular, elogios ilustres. Mas o autor não se ilude nem a respeito dêsse talvez poema, nem das reduções, por êle próprio realizadas, de erupções de caráter lírico encontradas na sua prosa, considerando-as poesia indubitável.
A salvação certa dêsse livro, como livro de poemas, sabe êle que está nas intituladas reduções a forma poemática, de sua prosa, realizadas menos por êle que por dois autênticos poetas; e tendo as sugestões do pensador por simples pretexto às apenas intituladas reduções. Criações puras é o que são; e inconfundìvelmente poéticas.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Talvez poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962. 97p.
|