TEMPO MORTO E OUTROS TEMPOS
Prefácio
Tempo morto e outros tempos de primeira mocidade (1915-1930) que só agora se publica — iniciativa de um amigo do autor, Renato Campos. Publica-se de modo extremamente incompleto: faltando-lhe numerosos registros. Registros de acontecimentos e de experiências, para o autor, importantes. Importantes para o que foi sua adolescência, para o que constitui a sua primeira mocidade e para a projeção, dessas duas fases decisivas de sua vida, sobre as que a elas se vêm seguindo.
É uma projeção, essa, não de todo passiva: guardado pelo autor um tanto do ânimo de aventura dos seus dias de adolescente e de muito jovem e o gosto de experimentação que foi, então, muito seu. Ainda hoje, há vezes em que amanhece e, até, nasce de novo, dentro das próprias tardes e mesmo das noites mais longas da sua vida de agora, com o ânimo de adolescente, assim guardado, reverdecendo com o verde de que falava o grande alemão.
Sucede que das notas em que foram sendo registradas, pelo autor, reações íntimas, pessoais, secretas, até àqueles acontecimentos e àquelas experiências, perdeu-se boa parte, devorada pelo cupim. Deixadas em velho baú, juntamente com cartas e com outros papéis pessoais, aí permaneceram alguns anos, após a chamada " Revolução de 30" . Até que, aberto um dia o baú, só alguns dos papéis que ele guardava se apresentaram em estado de ser lidos e copiados, isto é, datilografados, como foram, com um mínimo de revisão pelo autor: respeitadas, em simples apontamentos, alguns quase em sinais taquigráficos, palavras de adolescente de quinze e de jovem de vinte anos. Feito um ou outro acréscimo para esclarecer obscuridades. Conservadas repetições. Respeitadas espontaneidades um tanto desordenadas.
Do título — sugerido por certos registros do próprio diário em que se fala da relação do homem com o tempo — o autor é o primeiro a reconhecer a inexatidão. Haverá, afinal, de modo absoluto, tempo morto? Ou homem é que morre, como indivíduo biológico, para, como pessoa, por vezes sobreviver a si próprio e ao seu próprio tempo, num transtempo, este como que imortal? Imortal como superação do tempo apenas histórico.
O que morre no tempo parece que é apenas uma parte, maior ou menor, dele: e não o todo que passa de uma época a outra. épocas que sejam mais que a existência de um homem só. De um simples indivíduo.
Mesmo assim, esse homem só é, por vezes, capaz de, pelo que fez ou criou, sobreviver, de certo modo, noutras existências e noutras épocas. O homem de uma época pode, pela arte ou pelo gênio criador de valores, transmitir parte do seu tempo a outros tempos. O que, sendo certo, daria a certos homens o poder de evitar a morte total, no mundo, quer de si próprio, quer do tempo por ele vivido. Enquanto o tempo vivido por vários outros homens poderia sobreviver, em grande parte, a cada um desses homens. Um processo dialético.
Diários, autobiografias, memórias, cartas, estão entre os transmissores, alguns extremamente modestos, outros magníficos, de um tempo a outro. Nem todos os diários são como o de Amiel ou de Pepys. Mas até os registros de um simples colegial podem ser documento de considerável importância para a transmissão de um tempo a outro: a transmissão do que é imortal nos tempos que em parte morrem, uns mais, outros menos do que os homens. Vários são aqueles diários que, não sendo obras-primas, têm contribuídos para um sempre maior conhecimento do Homem pelos homens.
Relendo o que escreveu há anos, o autor não deparou com nenhum auto-elogio ostensivamente deselegante, que o escandalizasse. Nem com excessos de complacência do introspectivo para com sua própria pessoa. O que há, no diário, de deselegante e às vezes, ridículo, é o registro de muito louvor de pessoa importantes ao adolescente inseguro e ao jovem também incerto acerca de suas aptidões e de seus rumos. Louvores por ele recolhidos com um cuidado de quem absurdamente considerasse o seu diário íntimo possível instrumento de publicidade ou de reclame de pessoa ainda obscura: e que, talvez, por morte prematura de autor tão insignificante, viesse a revelar nele características insuspeitadas até pelos seus íntimos. Inclusive talentos e saberes. A adolescência é um misto de insegurança tímida e de vaidade, por compensação, enfática.
A verdade,
porém, é que o diário foi mantido durante anos como um
documento estritamente íntimo, por ninguém lido ou conhecido.
Espécie de substituto de um confessor Católico ou de um
psicanalista profissional de quem o autor se socorresse em benefício de
sua saúde de espírito, exposta, em período de
transição tão aguda—ante-Guerra, Guerra e
pós-Grande Guerra—a tantos ricos. Foi esse um tempo cheio de
contratempos. Se hoje são mais pungentes esses contratempos, naqueles
dias foram mais surpreendentes, mais imprevistos, mais inesperados: vinha-se de
um mundo relativamente estável. Vinha-se de " Pax Britannica"
com todas as suas implicações. Inclusive as de uma imperial
cultura anglo-saxônia, ao impacto da qual o autor, em grande parte educado
por anglo-saxões, de tal modo se tornara sensível que, ainda
adolescente, seria talvez o único brasileiro a estudar, em
universidade—substituição ao estudo da língua
alemã, então proibida—o Anglo-saxão, juntando esse
estudo ao lastro latino e um pouco grego da sua cultura e do seu verbo. Foi um
estudo, esse que, como o do Grego, lhe terá deslatinizado um pouco a
formação, projetando-se sobre o que viria a ser, no autor, se
não um estilo, um modo de escrever, além de uma maneira de ser.
Inclusive fazendo-o mais Anglicana do que Catolicamente e menos latinamente que
anglo-saxoniamente, confiar alguns dos seus segredos, várias das suas
dúvidas, umas tantas inquietações, a um diário
íntimo e durante anos secreto. Pois nunca se confessou a padre.
São várias as omissões no diário que é agora publicado: dezenas de anos depois de escrito. Na verdade, não se trata da publicação de um diário na íntegra, com relação ao período que nele se reflete; e sim, repita-se, de fragmentos desse diário—tantos foram os registros que se perderam Além do quê, nem todas as experiências do autor como adolescente e como indivíduo ainda muito jovem, confiou-as ele ao seu caderno de confissões. Não porque evitasse ser de todo sincero consigo mesmo. Mas por não se considerar com o direito de envolver, nas suas confidências assim extremas, pessoas de tal modo participantes de alguns fatos autobiográficos de caráter íntimo que, revelados esses fatos, poderiam sugerir identidades mesmo, sem serem anotados nomes ou iniciais de pessoas. Vários, porém, os casos em que pareceu ao autor poder conservar registros de fatos assim íntimos, e iniciais e até nomes de pessoas, sem prejuízo para participantes ainda vivos ou conhecidos atualmente nos seus meios.
Um diário não é só registro de sucessivos encontros—ou desencontros—de um indivíduo, alongado em pessoa, consigo mesmo. Envolve outros indivíduos. Outras pessoas. Instituições. Conflitos de indivíduo—ou de pessoa—com grupos, convenções, tendências do seu tempo e do seu meio sociais. Revoltas. Resistências a esse tempo e a esse meio. Quixotismos. E também pancismo: acomodações, transigências, subordinações.
De onde nem sempre os seu registros serem de todo expressões de um indivíduo que se pudesse exibir, além de se sentir, como um soberano—o soberano que desejaria ser—com relação ao seu meio e ao seu tempo. À sua família. A outra instituições. A outras convenções.
Ninguém até hoje, por mais Santo Agostinho ou por mais Da Vinci ou por mais Cervantes ou por mais Tolstói, ou, vindo até dias recentes, por mais Picasso—grandes individualistas—foi um soberano absoluto em relação com o seu tempo e com o seu meio. Dom Quixote acabou morrendo como um Sancho, transigindo com a mesquinharia dos sobrinhos. Nenhum diário, até hoje publicado—sobretudo tratando-se de indivíduos ou pessoas de menor porte—se apresenta como expressão completa de uma vontade individual ou de uma independência pessoal, que, nos conflitos com as forças coletivas, dominantes, no seu tempo e no seu meio, emergisse deles de todo triunfante, nos seus desacordos.
Do
título para a publicação do diário—voltando a
este ponto—talvez deva o autor sugerir que, inspirado em alguns dos seus
próprios e remotos registros, não é de todo nem
arbitrário nem literário. O freudismo como que o justifica; e de
um freudismo apenas sugestivo o autor continua adepto. Adepto de um como que
pós-freudismo ou transfreudismo como, aliás, de um
pós-marxismo ou transmarxismo.
Por esse
pós-freudismo ou transfreudismo compreende-se que todo homem, ao
voltar-se para o tempo vivido, procure rejeitar parte dele: matá-lo,
até. Eliminá-lo da sua memória viva. Ou considerá-lo
morto. O que nem sempre consegue. Toda memória de homem parece reter, a
contragosto, recordações que esse homem vivo preferiria que
não o acompanhassem. Preferiria que se conservassem mortas constituindo,
com outra recordações semelhantes, uma espécie de tempo
verdadeiramente morto. E como tal, inatuante. Pelo menos em confronto com os
tempos vivos e com as memórias atuantes.
Algumas dessas, saudades: " gosto amargo... delicioso pungir de acerbo espinho" como as definiu o poeta. Um poeta português. Especialista, portanto, no assunto " saudade" embora deficiente em aventuras de introspecção mais profunda: forte, de místicos, de dramaturgos e de ensaístas espanhóis ou nórdicos mas não de portas nem de escritores portugueses ou brasileiros de qualquer gênero. Dos espanhóis se observe que sem se revelarem em diários como é o caso das próprias reflexões de Gracián; e de certas projeções de Cervantes—sempre tão autobiográficas, característico de resto bem espanhol nas aventuras imaginárias que apresenta em forma novelesca em sua obra-prima: exageros de experiências vividas pelo autor—o Quixote e o Sancho como contradições que se completam.
Contradição e complementação tão do diálogo que se estabelece entre o autor de um diário e o próprio diário. Entre o autor de um diário e o Tempo.
Cabe aqui referência a um moderno escritor francês em quem vim a descobrir afinidade profunda com o meu modo de considerar o tempo. Com o meu modo de procurar captar momentos vividos. Esse francês é Valéry Larbaud. O pouco conhecido Valéry Larbaud.
É um dos escritores franceses cuja personalidade e cuja a obra mais me seduzem. Creio que não sou o único a ter desses entusiasmos por escritores ou por artistas de pouca repercussão no grande público. Por um Gerge Gissing, por exemplo—dentre escritores ingleses do século XIX e autor de um dos mais sugestivos diários já publicados na língua inglesa. Ou por um Vermeer, dentre pintores já antigos. Por um Valéry Larbaud, dentre modernos escritores.
Talvez se dava enxergar nesses entusiasmos algum esnobismo. Mas é possível que eles sejam expressão de uma coragem cada dia mais rara: a de admirar num indivíduo valores que nem sempre são os consagrados pelas academias, por um lado, e pelo grande público, por outro lado. Individualismo do chamado ibérico ou hispânico. Personalismo do que chega a ser anárquico no bom sentido da palavra.
Porque tenho esse particularíssimo interesse por Valéry Larbaud (como lamento não ter conhecido pessoalmente !), é que li, não faz muito tempo, com o maior encanto o artigo que apareceu a seu respeito num jornal de Lisboa; e que é assinado por Manoel Poppe. Intitula-se o pequeno e admirável ensaio—o primeiro de uma série—"Valéry Larbaud e a ficção em prosa portuguesa—Uma poesia da memória".
O crítico primeiro destaca, dentre as produções discretamente revolucionárias da literatura moderna, deixadas por Valéry Laubaud—a quem se deve aliás esforço extraordinário de ter traduzido para a língua francesa o Ulysses de Joyce—o Enfantines.
E de Enfantines não salienta apenas o " confessionalismo psicológico"—tão de alguns outros escritores desde Montaigne; e sim esta quase originalidade de escritor francês que o aparenta de portugueses: "uma nostalgia, uma saudade... uma poesia de memória... que particulariza a visão psicológica do autor, jamais lhe roubando objetividade..."
Essa poesia, segundo Poppe, Larbaud não a atinge deixando de ser o prosador pungentemente francês que é: atinge-a através dos caminhos muito franceses da prosa. A poesia que ele atinge é aquela sensação havida pelo artista, diante de objeto imaterial ou material, nas suas linhas fundamentais " e que pode ser alcançado através de uma forma, seja prosa ou verso, com que se identifique o artista. Seja qual for a técnica a que recorra".
Valéry Larbaud recorreu sempre à técnica da prosa; e se atinge, tantas vezes, através da prosa a poesia, não o faz valendo-se da chamada " prosa poética",; e sim descobrindo, na própria prosa, novos elementos de expressão; ou " novas combinações possíveis, geradoras de inesperados efeitos". Larbaud, sublinha o seu crítico português, " atinge a poesia sem deixar de ser um prosador"; e sempre sob um saudosismo da espécie que um arguto crítico brasileiro—Franklin de Oliveira—descobriu ser hoje, no Brasil, método—cuja invenção atribui ao autor deste prefácio—de interpretação um tanto sociológica mas sobretudo psicológica do passado-presente-futuro de um povo. Método que vem se definindo com crescente nitidez.
Também em Valéry Larbaud, memorialista, a saudade à portuguesa—atitude que ele parece ter adquirido dos portugueses, cuja língua conhecia—é uma saudade que " informa o próprio presente, uma saudade que se manifesta mesmo antes de ser tempo para haver saudade desse mesmo momento que se está a viver e que de forma alguma já se esgotou". Uma saudade sem prazo fixo. Talvez seja o diário que se segue, em alguns dos seus registros, um tanto tocado dessa espécie de saudade: a de um tempo ainda em fase de estar sendo vivido.
Contraste-se o memorialismo de Valéry Larbaud com o de Proust. Proust nos daria sempre—segundo Poppe—uma " sensação de vida intensa e claramente ressuscitada e posta em movimento". Larbaud seria menos rico, menos intenso, menos dinâmico no seu de recapturar o tempo morto, revivendo-o. Seu ponto de vista seria constantemente o de um " Presente Histórico". O presente a se dissolver em Passado em vez de o Passado a se movimentar em Presente. De modo que em Larbaud a saudade " é evocação de tudo e de todos". Do passado como do presente e do futuro. Precisamente a saudade que muitas vezes se encontra na literatura portuguesa, vindo desde Bernardim Ribeiro a Eça e a Camilo, passando por Rodrigues Lobo; e frequentemente se aliando a outro característico da gente portuguesa, que seria " o aceitamento resignado da infelicidade." é uma saudade que inclui " a saudade do instante que sabemos não poder reter". Que temos que nos contentar em evocar. Ou em registrar a sensação que nos deu, como instante logo desaparecido como instante singular; e perdido num conjunto plural de instante.
Essa saudade talvez seja, de todas as saudades, a mais pungente. A mais " gosto amargo de infelizes" para nos lembrarmos, a propósito desse francês de algum modo aportuguesado que foi Valéry Larbaud, das já citadas palavras de portuguesíssimo analista da saudade que foi Garrett.
As notas que constituem o diário que se segue, depois de adormecidas em fundo de gaveta, foram, algumas delas, datilografadas há uns bons quinze anos; e novamente abandonadas. Voltando a interessar-se por elas, o autor voltou a viver vários dos momentos de sua vida registrados, alguns deles, em sinais quase taquigráficos; outros, com certo amor literário; todos, com uma sinceridade consigo mesmo de que agora quase se orgulha.
Esses registros
foram afinal registros de conversa de um homem consigo mesmo. De um homem
desdobrado em dois: ele e o seu diário. De um homem analítico e,
ao mesmo tempo, com uns instantes tão antianalíticos de devaneio
poético, que o diálogo parece adquirir, por vezes, aspectos quase
líricos. Há nas notas um misto de lirismo anárquico e de
tentativa de organização: a de um adolescente e depois um jovem na
sua primeira mocidade a buscar dar alguma ordem aos começos do seu
pensar, do seu sentir, do seu viver, do seu existir. Ao seu preexistir e ao seu
pós-existir—dadas suas preocupações com seu futuro e
até com o futuro de sua gente, em particular, e do Homem, em geral.
Feitos os necessários descontos entre as dimensões dos personagens, como um Ezra Pound menor o autor do diário que se segue poderia ter dito a si mesmo, naqueles seus dias de tanta contradição, quanto de antecipação, o mesmo que o grande—e há pouco falecido—antes autografara um postal enviado ao autor, de Rapalo—disse ao seu amigo William Butler Yeats—e por ele quase adorado Willie: " O que me incomoda em tuas idéias(ou em tua maneira de ser) é a incoerência. Tens que organizar-te..." O que já fez um crítico-biógrafo dizer, a propósito de W. B. Y., que sua suposta incoerência, sendo indefinição, seria a presença do mistério poético em suas análises do Homem, da Irlanda e de si mesmo. O plenamente definido, o exaustivamente explicado, o de todo ordenado—são triunfos que só se obtêm repelindo a indefinição poética. A qual, nos diários—quer nos grandes, quer nos menores—se faz, quase sempre, em diálogos em que o introspectivo, conversando com o próprio diário, duvide de suas razões e da própria razão. Admite contrários. Joga com antagonismos. Torna-se por vezes dois para sempre procurar votar a ser um. Um só. Pungentemente um e pungentemente só. Que sem alguma capacidade para a solidão, que complete, num indivíduo, a vocação oposta, para a variedade de contactos com paisagens e com pessoas, com culturas e com artes de diferentes configurações, não se escreve diário.
O material deste diário foi organizado par publicação, sob as vistas do autor, por Maria Elisa Dias Collier, depois de datilografado por Maria do Carmo Lins e, em definitivo, por Gleide Guimarães Carneiro. Revisão dos originais de Adalardo Cunha. O autor agradece essas valiosas colaborações e também o estímulo do escritor Renato Carneiro Campos, tão generoso e lúcido.
Na decifração de iniciais de pessoas referidas em registros do diário podem ocorrer equívocos da parte de leitores. Semelhanças entre tais pessoas e figuras reais podem significar puras coincidências.
Um dos raros amigos que leram os originais deste diário pergunta: as referências a desvios—aliás, raros—de conduta sexual do autor não serão uma decepção para os que, lhe querendo bem ou o admirando, são intransigentemente convencionais no assunto?
Deve o autor dizer que criança e adolescente, não teve experiências que importaram em qualquer desvio de sexo, além da raríssima, e de modo algum de sua iniciativa—fato que recorda com toda a candura—com uma jovem, de idade então superior á sua, tendo ele seus quinze anos; e relações, quando menino, com uma vaca antes pacata que debochada. Primeira experiência do gênero. Foi criança e adolescente quase angelicamente puro. Quase casto. Normal ou convencional continuou na sua conduta sexual como estudante universitário nos Estados Unidos: em Baylor, em Columbia nos seus contatos com Princeton, Harvard, Boston e Canadá, o Sul dos Estados Unidos.
Se num dos seus registros do seu diário o autor se refere à evocação da figura materna, ao ter se separado dela, ainda quase menino—pode esse registro ser interpretado como fixação nessa imagem? é evidente que não. Nenhuma atitude mais normal.
Nem nessa fixação resvala o autor no registro em que descobre não ser o Pai " grande homem". Nem perfeito, nem de gênio. Nem mesmo de talento excepcional. Implicaria em um repúdio à imagem paterna? De maneira nenhuma. Pai e filho, após alguns desentendimentos normais entre as gerações, quando uma delas—a nova—começa a tomar consciência de si mesma, terminaram amigos como que fraternos. Foram, durante longos anos, amigos, sem que se afirmassem perfeitas as afinidades entre os dois, cada um tendo sua personalidade e sendo a ela fiel, como o filho por vezes parecendo o Pai, e o Pai, o filho. Contradição de que esse não terá sido o exemplo único. Que se leia, a respeito, o depoimento do neto de Renan, Ernesto, pretendendo se opor ao pai e ao avô, quando dele, pai, começou a sentir que divergia em certos pontos. De onde opor a esse Pai, aliás querido, os antepassados. Os ancestrais. Os precursores de futuros através da fidelidade do indivíduo aparentemente participante só ao passado, mas na verdade também ao presente e ao futuro. De passado ou de certos passados suscetíveis de se formarem futuros à revelia do presente.
Recife—Santo Antônio de Apipucos—1975.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Tempo morto e outros tempos: trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade, 1915-1930. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. 268p.
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