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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



TEMPO DE APRENDIZ
Prefácio


A iniciativa do sempre generoso, além de sempre lúcido Professor Nilo Pereira, logo apoiada pelos seus colegas do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco - especialmente por Mestre, e Mestre já insigne, Gonsalves de Mello - de publicar o mesmo Conselho uma seleção dos muitos artigos escritos para jornais e revistas - sobretudo para o "Diário de Pernambuco" - por um então adolescente e, depois, jovem brasileiro do Recife - a princípio, quase um menino - resultou em livro. No livro que agora aparece com prefácio de Nilo Pereira e introdução de Gonsalves de Mello : publicação em convênio com o Instituto Nacional do Livro, tão inteligentemente dirigido pelo escritor Herberto Sales.

A tão eruditos comentários se junta esta nota - simples informe - do autor dos artigos. Artigos pacientemente copiados por Durval Mendes, secretário do Conselho. Copiados de números já tão antigos de jornal que, de tão velhos, só faltam se esfarelar como que cansados de sobreviverem em coleções caridosamente guardadas em tristonhos fundos de bibliotecas. Daí Ter havido recomposições de certos trechos ilegíveis.

O mérito desses velhos artigos estaria, segundo os dois ilustres historiadores, principais responsáveis por sua publicação, nuns casos, em suas antecipações - algumas pensam eles que, além de ousadas, significativas - de idéias e de conceitos só algum tempo depois estabelecidos ou aceitos. Quase sempre - ainda segundo eles estaria em suas inovações de expressão, além de jornalísticas, literárias. Estilísticas, ainda segundo eles.

Contribuição, portanto, partida do Recife - pensam os dois - para um novo e, também ousado, modo brasileiramente literário de escrever-se a língua portuguesa. Novo e anterior ao que, com maior repercussão, procederia em grande parte anos depois dos artigos do recifense, dos modernistas de São Paulo. Inovação, a desses brilhantes "modernistas", na língua literária do Brasil que, de tão violentamente radical, quase vingaria nos seus extremos.

O autor dos artigos que agora se republicam, lendo-os depois de tanto tempo, lembra-se do seu empenho de adolescente de procurar atingir novas formas de expressão literária na sua língua, numa época em que começou, também, a escrever artigos de jornal em língua inglesa. Tentativas de ser literariamente bilíngüe nele animadas por seu professor de Literatura na Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, A . Joseph Armstrong: aquele que, como já foi recordado, noutra oportunidade, insistiria para que o desajeitado bilíngüe se concentrasse na língua literária por excelência - a inglesa - abandonando a portuguesa. Abandonando o próprio Brasil, para tornar-se - segundo o imaginativo Armstrong - um "novo Conrad" ou um "novo Santayanna". Pois escrever em português era escrever - acrescentava o anglófilo - em língua desconhecida. Clandestina, até.

Desprezando tal conselho, o desde os dezoito anos colaborador do "Diário de Pernambuco", através de artigos nesse jornal a princípio - quando escritos nos Estados Unidos - intitulados Da Outra América, concentrou-se no esforço, através de tais artigos, de procurar escrever português, além de jornalístico literário, que, dentro de suas fracas forças de um ainda quase menino, fosse um arremedo daquele do ideal do Fradique de Eça: como ainda não existia. Ou, talvez: como não pudesse haver. Impossível. Inatingível. Mas, mesmo assim, digno de ser buscado. Busca sugerida pelo grande escritor português em rompante de imaginação irônica. E tentada pelo brasileiro de dezoito anos com um quixotismo de adolescente desvairado.

De modo que isto é o que foram os artigos Da Outra América publicados no "Diário de Pernambuco" de 1918 a 1922: uma quixotesca busca. Experimentos de adolescente. Adolescentismo. Aventura de um adolescente brasileiro de província, estudante universitário no estrangeiro. Aventura. A procura de uma expressão literária diferente das consagradas. Nova sem repudiar sugestões por ele encontradas mais em clássicos considerados secundários como Fernão Lopes, como Fernão Mendes Pinto e em Gil Vicente e em Vieira, em Alencar, em Eça, em Oliveira Martins, do que no excelso Camões, ou nos egrégios Castilhos e no, para tantos, exemplar, Camilo. Aberto também foi o pequeno experimentador a influências vindas das línguas inglesa, francesa e espanhola para a portuguesa. Principalmente da inglesa. Isto sem importar em traição à língua materna representada por aqueles clássicos "secundários" mas, na verdade, germinais. Procurou o experimentador ainda adolescente tais influências ao seu modo de ser começo anglo-saxonizado de homem sem deixar de conservar-se fiel ao que fora quando brasileiríssimo menino de engenho: do Engenho São Severino do Ramos.

Foram influências, as daqueles estranhos e as daqueles clássicos, que procurou adaptar ao seu próprio respirar, ora inquieto, ora tranqüilo. E que se projetasse, como um personalismo até biológico, fisiológico, físico, assim adaptados, ora em frases curtas, ora em longas, das que procurou desenvolver como criações suas, através de pontos, de pontos e vírgula, de dois pontos, de travessões. Desenvolvê-las, individualizando-as, modernizando-as, diferenciando-as das convencionais. Gilbertinizando-as nos seus ritmos e na sua possível musicalidade.

Que buscava, como expressão literária, o autor de artigos que, por vezes, talvez se aproximavam, assim experimentais e aventurosos, de pequenos ensaios? Buscava exprimir-se principalmente através de imagens - um tanto por influência do Imagismo da então já sua amiga Amy Lowell - constituídas por palavras que no sentido lógico juntassem o mágico, sensual, quase físico, juntando a um aspecto ou a um contorno que pudesse ser visto pelo leitor, som, cor, sabor e até olfato. Som, cor, olfato que o leitor viesse a Ter a sensação de captar mais do que lendo, absorvendo das palavras puras esses contornos e esses gostos como que de carne. De verbo que fosse também carne, como o que viria descobrir ser tão detestado pelo lógico e abstrato Maurras.

Só por sua pontuação assume, além de fisiológica, rítmica e, nos seus ritmos - alguns inspirados por músicas brasileiras ouvidas na meninice - o adolescente porventura tornado mais brasileiro que menos brasileiro pelo seu contacto com o estrangeiro: contacto que, ao mesmo tempo, o pôs em contacto, nas suas fontes, com novíssimas formas de pensar, de sentir, de viver, de escrever, de pintar, de esculpir, de construir, então desconhecidos no Brasil - teria desenvolvido, através dos seus artigos para o "Diário de Pernambuco", escritos pouco depois, na Europa, um muito seu modo de escrever a língua portuguesa. Modo diferente dos convencionais. Contrário, até, aos convencionais.

Por um lado, utilizava-se de arcaísmos à base, repita-se, de muitas leituras de Fernão Lopes, de Fernão Mendes, de Vieira, de Gracian, de Santa Tereza, de Unamuno, de Cervantes, por ele, além de modernizados como que gilbertianizados. Por outro lado, sob sugestões de modos, além de escrever, de pensar, nada portugueses, como o de Montaigne, o Pascal, o de Swift, o de Defoe, o de Stevenson, o de Lamb, o de Pater, o de Newman, o de Baudelaire, o de Miclhelet, o de Huysmans, o dos Goncourt, o de Ganivet, o de Unamuno, o de Baroja, o de Santayanna, juntava aventurosamente sugestões desses renovadores da ensaística àqueles arcaísmos.

A expressão, senão literária, paraliterária, que, aos poucos, se foi acentuando como nova, moderna, e logo chamada por alguns, ora pejorativamente, ora não, "gilbertiana", nesses artigos, repercutiria entre não poucos jovens brasileiros. Teria imitadores.

Alteraram seus modos de escrever para assimilar o do inovador mal saído da adolescência. José Lins do Rego, Olívio Montenegro, o próprio Aníbal Fernandes, todos já escritores mais consagrados do que ele. Seguiram-no principiantes em todo o Brasil. Em língua inglesa, além do admirável tradutor Samuel Putman, Francis Butler, Simkins : um Simkins que também adaptou idéias manifestadas naqueles artigos e em tese universitária, a na sua corajosa reinterpretação do passado do sul dos Estados Unidos. Atitude que honestamente confessou de público. Outros imitadores, literatos, como nos seus começos brilhantes de jornalista e de escrito, Manuel Lubambo, de certa altura em diante, se tornariam opostos menos ao modelo estilístico do inovador que às suas idéias e às suas percepções. Como Manuel Lubambo, vários outros.

Imitações nem todas felizes as deles; porém algumas, pontos de partida para uma nada insignificante renovação estilística entre jovens brasileiros na década vinte; e anterior à notável revolução lingüística que viria de São Paulo : da semana da Arte Moderna.

Notou a antecipação recifense neste particular o paulista Monteiro Lobato, ele próprio escritor literário de um novo feitio, embora nada simpático aos seus conterrâneos "modernistas", ao perguntar, em carta a Oliveira Lima, quem o autor de artigos, segundo ele, impressionantemente tão novos pelas idéias como, para ele, Lobato, pelo "estilo". Um desses artigos, o " Notas a lápis sobre um pintor independente" ( sobre a moderníssima pintura de Vicente do Rego Monteiro), por ele próprio, Lobato, publicado em relevo na então sua "Revista do Brasil" (São Paulo). Referia-se, porém, Lobato, também a artigos aparecidos no "Diário de Pernambuco" do jovem então quase desconhecido, recém-chegado da Europa, depois de estudos universitários aí e nos Estados Unidos.

Admitida a originalidade da expressão literária desses artigos (1918-1926), em que se salientaram eles, sob a forma de antecipações de idéias? Ou de atitudes modernas, embora não sectariamente "modernistas", paradoxalmente juntas às "regionalistas" e "tradicionalistas" ? Ou de conhecimentos, para a época surpreendentes, em autor ainda jovem, de novas correntes norte-americanas e européias e até indianas e africanas, de pensamento, de saber e de arte - Ganivet, Rilke, Sarojini Naidu, Maurras, Mencken, Amy Lowell, por exemplo - ignorados então por quase todos os brasileiros? Este é outro aspecto sob o qual os artigos agora republicados devem ser considerados, como possível justificativa à idéia dos Professores Nilo Pereira e Gonsalves de Mello, de representarem tais artigos uma das primeiras presenças, em alguns casos, a primeira, em nosso País, quer de uma moderna expressão literária, quer de uma antecipação de tendências e de conhecimentos só depois generalizados entre brasileiros.

Pode-se surpreender nos artigos agora republicados, além do conhecimento, a revelação, adaptada ao Brasil, de uma então desconhecida Psicanálise adaptada - como não se fosse apenas clínica ou médica - à interpretação em literatura de autores como Gonçalves Dias : em conferência de 1924, no Recife, que não consta desta reprodução de artigos devendo fazer parte de outro livro a ser intitulado Antecipações. A revelação de uma então, entre brasileiros, de todo desconhecida Amy Lowell, Imagista; de um então ignorado William Butler Yearts, Regionalista e Tradicionalista irlandês; de um então mais que ignorado no seu moderno modo de ser poeta-trovador, Vachel Lindsay; de uma então acabada de aparecer, nos Estados Unidos, "New History"; de um então a surgir na Alemanha, Expressionismo - na pintura e no teatro, na literatura: de umas então a apenas afirmarem-se novas ciências sociais aplicáveis ao Brasil; da poesia e da filosofia de um no Brasil, então quase só conhecido de nome, Tagore; de um então, entre brasileiros, ignorado, Príncipe de Mônaco, como oceanógrafo interessado nos mares do litoral brasileiro: de uma crítica literária vulcanicamente nova e acompanhada de crítica social, do tipo da recém-iniciada nos Estados Unidos por Henry L. Mencken; de uma crítica política e social à então retoricamente exaltada democracia liberal: crítica representada a seu ver, mais do que por Marx pelo anarco-sindicalista Georges Sorel e, mais especifimente, no plano político, (sem entrar-se no mérito dos modelos sugeridos pela mesma crítica) por Charles Maurras, do qual foi, talvez, o primeiro a falar no Brasil : de uma então desconhecida, no Brasil, nova literatura africana representada por Batouala; de uma então nova paisagística valorizada das árvores dentro das cidades e em redor das casas; de um então novo tipo de planejamento, além de urbanístico, regional; de novas idéias católicas aplicáveis, como as de Maritain, à interpretação das relações entre moral e arte, de uma nova Antropologia ( a do seu Mestre Franz Boas, na Universidade de Colúmbia) valorizada das chamadas raças inferiores, inclusive a negra; de uma nova Sociologia ( inclusive a de Giddings), também seu mestre na Universidade de Colúmbia: de um então novo teatro - o de O’Neil entre outros. E, ainda, a apologia, sobre base científica de uma, a seu ver, estética, além de eugênica, miscigenação criadora de novas, belas e eugênicas formas de mulher e de homem; de uma. No Brasil, ainda pouco conhecida pintura mural do tipo da mexicana, glorificadora de figuras não-européias - em artigo no livro comemorativo do 1º centenário do "Diário de Pernambuco"; a sugestão com originalidade e prioridade, para que se desenvolvesse no Brasil a valorização de tipos inclusive mestiços, de trabalhadores de campo das várias regiões do Brasil e de mulheres brasileiras, dentre os mais miscigenizados e mais tropicais na expressão, como expressões de beleza e de graça.

Acrescente-se como talvez originalidades de sabor, ora principalmente moderno, ora principalmente regionalista ou tradicionalista, o empenho do jovem com audácias de remar, por vezes, contra a maré na defesa da conservação, sempre que possível, em países tropicais como o Brasil, de simples ruas, em vez da absoluta adoção de avenidas largas; a que se seguiria a defesa de arcadas nessas ruas, protetoras contra chuvas e sóis tropicais; na defesa de valores da arquitetura tradicional e regional brasileira; na defesa das árvores e plantas brasileiras ou tropicais nas ruas e nos jardins brasileiros; na defesa de assuntos e de linguagem atraentes para crianças, ao mesmo tempo de regionais, tradicionais, em livros brasileiros para meninos, em oposição aos livros de linguagem arrevasada e em torno de assuntos e ambientes estrangeiros; na defesa das cozinhas tradiciomais e regionais do Brasil; na defesa da doçaria; a defesa de jogos e brinquedos tradicionais e regionais. O clamor em prol do encanto não só das velhas árvores como do velhos portões recifenses de ferro rendilhado, de velhas varandas de sobrados coloniais do Nordeste, de velhíssimos abalcoados e janelas mouriscas de Olinda e do Recife como sugestões para arquitetos com imaginação capaz de os adaptar a novos modelos de edifícios regionais: a repulsa a uma então dominante exaltação, no Brasil, de motivos, temas ou modelos humanos europeus, na estatuária, na pintura, na literatura de ficção, inclusive a colocação desses modelos em ambientes também estritamente brasileiros, em vez de europeus e antibrasileiros; a defesa dos nomes regionais e tradicionais de ruas, a defesa do campus universitário como valor estético, lúdico, recreativo a ser incorporado às futuras e, ao seu ver, necessárias universidades brasileiras ( a primeira só tendo sido criada em 1922); a defesa de perspectivas brasileiras nas literaturas de ficção e nos estudos sociais brasileiros; a exaltação no Pátio de São Pedro do Recife como o mais estético e valioso da cidade, com a sua igreja até então admirada menos que a incaracterística e, até banal, da Penha; a exaltação dos arcaísmos - para a época escandalosa - de uma Salvador afro-brasileira como sendo mais característicos de uma cultura nacional do Brasil que as então modernices urbanas do Rio ou de São Paulo; o clamor a favor do rio Capibaribe e de sua valorização pelo Recife; o destaque dado à História da Civilização, de Oliveira Lima, como novo e superior tipo de livro didático; o destaque dado à Paraíba e seus Problemas, de José Américo de Almeida, como exemplo de um também novo e superior tipo de ensaio regional; o destaque dado à Amazônia Misteriosa de Gastão Cruls, como, em português, outro exemplo de novo tipo de literatura. este de ficção ao mesmo tempo científica e regional; a exaltação em artigo do ainda adolescente escrito em inglês para uma revista de Boston, de Augusto dos Anjos que, como poeta, devesse ser situado dentre os maiores em língua portuguesa, dada sua audácia ao mesmo tempo regional e modernizante, uma das suas audácias modernistas sendo a de juntar a doces vogais consagradas como lusitana ou brasileiramente líricas, consoantes de polissílabos científicos quase antilusitanos ou antibrasileiros na aparência quase que deixavam de conter novas possibilidades, além de líricas, dramáticas.

Esses alguns dos característicos do modo de começar a escrever, ainda adolescente, ou ainda muito jovem, a sua, a nossa língua portuguesa - que buscou tornar a seu modo, mais plástica, mais fluída, mais flexível - de um recifense cujos estudos universitários feitos no estrangeiro não o afastaram nem dessa língua materna nem de outras preocupações de nativo ou de filho com outros valores também maternos: os brasileiros, os portugueses, os hispânicos, de cultura e de comportamento. Pois no estrangeiro cedo principiou a sentir que sua pátria maior era a hispânica: incluía aquela de que saíra o Don Quixote. Aquela que produzira Santa Teresa. Aquela em cuja língua escrevera Gracian. Em que vinham escrevendo Unamuno, Ganivet, Azorin, Baroja, Ortega. Começou a sentir que esses e outros autores, ao mesmo tempo pensadores e artistas ou cientistas e artistas como Ramon y Cajal, lhe pertenciam tanto - e deviam pertencer ao Brasil - quanto a castelhanos ou galegos ou andaluzes ou bascos ou catalães. Daí ter encontrado num Ganivet, até então completamente ignorado por brasileiros, afinidades a que não tardou a render-se com entusiasmo. Como se renderia aos então moderníssimos franceses Valery Larbaud, a Maritain de Art et Scholastique (de quem foi, talvez, o primeiro a falar no Brasil, separando-o de certo modo do teólogo neotomista) a Joyce e a Santayanna, dos quais seria um dos primeiros, senão o primeiro, a falar no Brasil, tanto quanto dos modernismos representados pelo freudismo, pelo Imagismo em linguagem inglesa e pelo expressionismo alemão.

Tampouco sua anglo-saxonização, através de estudos nos Estados Unidos e contacto com Oxford e com Londres, o desprendeu de sua condição de, além de hispânico, latino, para quem a França nunca deixou de ser um viva, vivíssima inspiração. Isto, pelos seus Montaignes e pelos seus Pascais, pelos seus Michelet e pelo seus Proust: dois descomprometidos do mito de ser a mesma França um reduto só de lógicos e de racionais.

Note-se que os velhos artigos da adolescência e da extrema mocidade do autor que, por iniciativa do Conselho Estadual de Cultura, seguindo idéia de Nilo Pereira e apoiada por Gonçalves de Mello, aplaudida pelo Conselho inteiro e acolhida pelo Instituto Nacional do Livro, são agora publicados, o livro-ônibus os apresenta como foram escritos naqueles remotos dias. Sem outras alterações, senão as que corrigem erros de revisão. Ou procuram tornar claras expressões que, para o leitor de hoje, seriam, talvez, obscuras. Ou recompor truncamentos. Ou deteriorações pelo tempo nos textos impressos há meio século em papel por vezes do pior.

Respeitando o autor, além de modos de escrever, idéias suas em dias distantes. Idéias com as quais nem sempre se conserva solidário. Afinal, o eu, como diria Ortega, se altera com as circunstâncias. E as circunstâncias, com o tempo, são sempre outras. O que não significa deixar de haver no eu alguma coisa de irredutível.

Várias as idéias de hoje do autor que madrugaram no muito jovem ou no adolescente, ao escrever os artigos reunidos agora em livro, expressas em palavras pela primeira vez aparecidas na língua portuguesa. Entre elas, empatia. São artigos, portanto, em que já surgem, como antecipações, alguns dos pendores que se acentuariam no homem de todo feito e permanecem no idoso. Junto com neologismos, teriam lançado as primeiras sugestões para abordagens empáticas de assuntos diversos. O "ecologismo" ou o "regionalismo", por exemplo, já presente no adolescente entusiasta de verdes, de árvores, de paisagens características e, mais do que isto, desejoso de ajustamentos que depois se classificariam como ecológicos. Desejosos de harmonização do homem com o meio ou com o ambiente. Inclusive do brasileiro com o Brasil e do brasileiro do Nordeste com o Nordeste. A visão do homem como ser, independente de raça, com aptidões semelhantes : o repúdio à idéia de um negro como inferior, pela condição de sua raça, embora, em certa altura, se apresente o adolescente ou jovem preocupado como que vinha acontecendo no Brasil sob este aspecto: resvalando em lamentação em torno de descendentes de aristocracias - como a das regiões da cana - a se amigarem com pretas: uma contradição nomeio de uma tendência quase sempre negrófila. Certo aristocracismo ou elitismo sob evidentes influências nesse sentido: a de Nietzsche, a de Mencken, a de Carlyle. Isto em contraste com uma extrema simpatia por artes e coisas populares.

Talvez, por vezes, revele um excesso de repúdio a simplismos prodemocráticos. Atitude crítica ante esses simplismos.

Há nos artigos muita menção de escritores, pensadores, artistas, então de todo, ou quase de todo, desconhecidos no Brasil, chegando a haver quem - em cartas anônimas que recebia - considerasse invenções nomes como o de Angel Ganivet, o de Santayanna, o de Carco, o de Apollinaire, o de Joyce.

Registre-se que, durante os oito meses passados na Europa, o autor dos artigos até então intitulados Da Outra América - e agora reunidos em livro - deixou de escrever para jornal brasileiro, colaborando, apenas, de Paris, em particular, ou da Europa, em geral ou já do Recife, em diário de Lisboa, na "Revista do Brasil", de São Paulo, e na "Stradford Monthly" de Boston. Nesta com um já referido ensaio em inglês pondo em relevo a figura um tanto desdenhada de Augusto dos Anjos, como poeta de novo tipo na língua portuguesa. Na "Revista do Brasil"(fase Lobato) com um também já referido artigo sobre o modernista Vicente do Rego Monteiro, acentuando a independência do seu modernismo de homem do Recife do pregado como único e messiânico pelos inovadores de São Paulo. Ensaios ou artigos de outro tipo literário. Com eles e com seu silêncio, ausentou-se então, o recém-pós-graduado da Universidade de Colúmbia: coisa esse seu status universitário, ignorada durante longo tempo no Brasil- durante quase um ano, do muito seu "Diário de Pernambuco".

Entretanto, não deixara de registrar, quando na Europa, suas impressões daqueles contactos europeus que mais o impressionaram. Decisivos para sua formação. Alguns inesquecíveis como sensações estéticas: Charles, Nuremberg, Oxford. Outros, como impactos sobre a definição de uma filosofia de vida harmonizadora de antagonismos. Mais pessoal que seguidora de qualquer escola ou sistema. Daí a importância das cartas então escritas para o Alfredo Freyre, Pai, para Dona Francisca, Mãe, para o irmão, Ulysses, algumas perdidas no saque. Seguido de incêndio, da casa da família na Madalena (Recife). Foram como que artigos em forma de cartas pessoais, como se vê lendo aquelas duas ou três de que Aníbal Fernandes, tendo publicado trechos no "Diário de Pernambuco", supôs serem uma espécie de caras De Uma Nova Europa. Isto é, de uma Europa ainda quente da guerra de 1914-1918 mas já a recuperar-se e a renovar-se: inclusive no seu comportamento humano e nas suas artes e letras. Perderam-se, entretanto.

Várias as cartas - talvez quase todas - com esse possível interesse, dentre as que se extraviaram, deixando sem registro um período, na formação do autor dos artigos agora reunidos, tão importante. Pois seus oito meses de Europa teriam atuado, nessa formação - Oxford, Paris, Berlim, Munique, Lisboa. Coimbra - por vezes um contraste com os quatro anos e meio de estudos universitários nos Estados Unidos. O silêncio na Europa seria, segundo carta a Aníbal Fernandes, o de quem sentia precisar "a aprender a escrever", embora "com os olhos escancarados para ver o mais possível". Para ver, como um "cigano de beca", gente e coisas européias - Paris, Oxford, Munique, Coimbra, principalmente - quase ignoradas no Brasil. Por exemplo, a literatura de jovens franceses como Carco, o Jean Cocteau em quem logo teria surpreendido "um toque de gênio wildeano", a "forte personalidade" de renovador de Apollinaire, contactos com os anarco-sindicalistas adeptos do então emergente Georges Sorel e com "Comunistas tolstoianos", com os Imagistas ingleses irmãos dos seus já conhecidos dos Estados Unidos (podendo ter feito o conhecimento em Paris, graças à sua amiga Amy Lowell, de Joyce e de Ezra Pound ), por um lado, e, por outro lado, movimentos surpreendentes pela sua mistura de defesa de tradição, no caso a monárquica, e de renovação através de um novo e revolucionário federalismo, como a Action Française, contactos na aristocrática Versailles, apresentando por Oliveira Lima ao velho Grandprey em almoços e jantares que viria a considerar proustianos, com figuras já um tanto arcaicas, mas ainda significativas da antiga nobreza francesa e da já desfeita aristocracia russa. E nesses contactos, tomando conhecimento até de mexericos elegantes como o de Ter o então glorificadíssimo Foch, como sua nova amante, a já idosa Cecile Sorel.

O "aprender a escrever" exprimia um afã sincero. Sinceríssimo. Não se deixaria de todo iludir - de todo, note-se: pois que jovem ainda um tanto menino não se deixaria tocar pela doçura dos elogios? - por elogios como o do na época tão prestigioso no Brasil. Monteiro Lobato, de que era já um "estilista". Ou o de um mestre tanto da ciência histórica como do bom escrever - o português João Lúcio de Azevedo - de que já devia ser considerado, também pelo estilo, um já "escritor" e este "dotado de um senso de humour em grau superior". Ou pela insistência do seu mestre da Universidade de Baylor o famoso Browningista, A . J. Armstrong, em dizer-lhe que lhe bastaria passar, tornando-se americano ou inglês, da ignorada língua portuguêsa para a inglesa, imperialmente literária, para adquirir renome internacional, como - dizia, exagerando-se. Armstrong - um novo Santayanna ou um novo Conrad. Belas e doces palavras. Mas o adolescente, a tornar-se jovem - a passar dos dezoito aos vinte e um, vinte e dois anos - não só duvidava de si mesmo como repelia a idéia e as possibilidades de europeizar-se ou de norte-americanizar-se, desbrasileirando-se, por amor a um futuro literário que não teria, mesmo se viesse a afirmar-se o escritor proclamado por Lobato e esperado por Armstrong um dentro da língua portuguesa, outro na inglesa.

Há contradições nos artigos do adolescente e do muito jovem agora reunidos em livro? Várias. Por exemplo: entre o apologista dos "direitos da mulher" e o adimirador de um tipo feminino antes íntimo que público. Repúdio às inssurreições brasileiras de 22 como a afirmarem nele um conformista - que, entretanto, não havia - com a ordem política estabelecida no Brasil. Simpatias pela tradição Católica em divergência com o que, como ânimo um tanto tolstoiano, parece Ter permanecido nele do ainda quase meninote por ano e meio, cristão evangélico de tipo antiburguês.

Além de contradições, injustiças. Intemperanças verbais. Contra Ruy Barbosa, por exemplo. O repúdio ao na verdade, por vezes ramalhudo - nunca "xaroposo", como se diz num dos artigos - verbo barroco, do insigne Ruy, sem se destacar o válido, o valioso, o admirável, não só desse verbo, como expressão literária, como de Ruy sob o aspecto de bravo homem público dentro do seu feitio um tanto arcaico de liberal. Outras intemperanças. Por vezes um quase anti-semitismo. Num artigo, certo tecnocratismo. Em alguns, namoros ou simpatia pelo Maurrasismo monárquico-federalista, como afim do anarquismo construtivo de Sorel, que tanto o impressionou em Paris. Excessos que, entretanto, não vão corrigidos. Atenuadas, mas não repudiadas, vão inúteis referências demasiadamente ásperas - e injustas - a pessoas ou a intelectuais. E num único artigo - o relativo à linguagem dos advogados - foram alteradas certas expressões : menos enfáticas e não atingidas no essencial.

Quanto ao estilo - isto é, o modo de escrever - o dos dezoito aos vinte e poucos anos é mantido. Respeitado. De modo algum atualizado como imaginou certo crítico literário ítalo-paulista Ter o autor feito com o seu Tempo Morto e Outros Tempos: diário íntimo também dessa época. O crítico ítalo-paulista enganou-se. Não houve nenhuma atualização como não há agora. O adolescente já escrevia quase de modo todo igual ao que viria a ser o modo de escrever - ou estilo - do homem feito.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor, 1918 a 1926. Organizado por José Antônio Gonsalves de Mello. São Paulo: IBRASA, 1979. 2v.

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