BRASIS, BRASIL E BRASÍLIA
Introdução
Houve tempo em que na imprensa inglesa o Brasil apareceu mais como "os Brasis" do que como "o Brasil". Reconhecia-se assim um pluralismo que de facto era tanto, deixasse de haver entre nós uma unidade nacional que contrastava com a fragmentação da América Espanhola em várias e turbulentas repúblicas, inimigas de morte umas das outras. Os chamados "Brasis" formavam polìticamente um império; e social ou culturalmente um sistema de convivência em que a unidade e a diversidade se completavam. Tinha esse sistema a língua portuguesa por principal expressão de suas unidade e os contrastes regionais de predominâncias étnicas - o ameríndio na Amazónia, o branco no Sul, o negro na Baía - eram as afirmações mais ostensivas de sua diversidade ou pluralidade étnica. Étnica e cultural.
Hoje, sem ser Império, mas República federativa, o Brasil continua a ser um conjunto de Brasis. Mas esse conjunto de Brasis só tem sentido - social, cultural, étnico, económico, político - sob a forma de um vasto e só Brasil que, por ser plural, não deixa de ser uno. Trata-se de uma das combinações sociològicamente mais expressivas, de unidade com pluralidade, que o mundo moderno conhece. Só a Rússia moderna parece apresentar-se como exemplo de país extenso em que se verifique combinação, semelhante à brasileira, de unidade com diversidade, em largo espaço contíguo. A China não oferece a mesma pluralidade étnica que o Brasil; e os Estados Unidos são um país em que a mística de americanização devora actualmente com grande rapidez as divergências ou a variações de ordem cultural: quer as regionais mais antigas - o "velho Sul", por exemplo - quer as representadas pelos grupos de adventícios tão hospitaleiramente acolhidos pela Deusa da Liberdade depois de ouvida a Deusa da Saúde. Hospitalidade que continua condicionada, porém; e uma dessas condições, a de se tornarem os adventícios, sem demora, cidadãos da República segundo os modelos anglo-saxónicos não só políticos, de "cidadãos", como sociológicos, de "americanos".
É certo que semelhante mística nem sempre vem impedindo tais "cidadãos" ou "americanos" de participarem das eleições nacionais como americanos "irlandeses" ou americanos "alemães" ou americanos "italianos" ou americanos "polonêses"; mas é igualmente certo que a americanização desses adventícios quase sempre se processa com intensidade maior do que sua resistência às forças de assimilação. Forças irresistíveis; e que agem no sentido de uma estandardização à qual pouco falta para poder ser descrita como absoluta.
No Brasil, havendo uma mística de abrasileiramento, sob a forma de um também quase irresistível luso-abrasileiramento ( que entre nós parece vir significando principalmente a adopção, por adventícios de outras procedências, além da portuguesa, de métodos ou de técnicas de adaptação do europeu ao trópico americano, já desenvolvidas com êxito pelo luso-brasileiro), há, por outro lado, uma tradição actuante no sentido de se conservarem, ou de se desenvolverem, dentro da mística de abrasileiramento, variações regionais de culturas associadas a predominâncias étnicas regionalmente diversas: a do ameríndio, na Amazónia; a do italiano, em S. Paulo e no Rio Grande do Sul; a do alemão, em Santa Catarina; a do polonês, no Paraná; a do africano, na Baía. Através dessas predominâncias, regionalmente diversas, de étnica e cultura - ou da tradição delas - vários Brasis se fazem sentir dentro de um só Brasil, já bastante seguro de sua singularidade como sistema nacional de convivência, para temer semelhantes variações. Ao contrário: elas - e mais a japonesa, a síria, a libanesa, a húngara - são hoje antes estimadas que lamentadas pelo brasileiro: pelo brasileiro médio e não apenas pelo superior em inteligência política ou em saber sociológico.
A estrangeiros ilustres que ùltimamente têm visitado o Brasil não vem escapando o facto de ser o nosso país uma nação ao mesmo empo una e plural. Um Brasil e, ao mesmo tempo, vários Brasis. E em semelhante combinação parece-lhes haver antes vantagem que desvantagem para o desenvolvimento, entre nós, de uma cultura pluri-regional. Uma cultura de que Brasília seja a cúpula, reunindo em seu modo novo, mas não - livre-nos Deus ! - incaracterìsticamente internacional, de ser cidade, a expressão do que há na sociedade e na cultura brasileiras, de étnica e regionalmente diverso, vários, plural.
Foi precisamente este tema - a combinação, no Brasil, do que no seu sistema de convivência é étnico e culturalmente plural com o que no mesmo sistema é unidade, mas unidade viva e dinâmica - que procurei apresenta aos sábios do Instituto Internacional de Civilizações Diferentes, com sede em Bruxelas, que me convidaram para, na suas 30 ª reunião, em Lisboa, actuar como relator geral dos trabalhos apresentados ao mesmo Instituto sobre assuntos de pluralismo cultural nas mais diversas áreas: no Oriente, na África, na América. E representou evidente triunfo para a ciência brasileira a aprovação unânime, por aquele conclave de sábios - mestres da Sorbone, de Oxford, de Londres, de Roma, de Heidelberg, de Lisboa, da Holanda, da Bélgica, dos Estados Unidos, da Ásia, da África - das reses sobre especialíssima situação pluralista do Brasil ali submetidas a discussão ou debate.
Também so a impressão dessa especialíssima situação pluralista do Brasil é que o escritor John Dos Passos visitou há pouco o nosso País. Encontrámo-nos no Rio. O autor de Three Soldiers me esclareceu que só viria a Pernambuco quando eu estivesse de volta à velha Província.
Antecipei meu regresso do Sul ao Recife, contanto que o escritor John dos Passos não deixasse de vir a Pernambuco, tocando também na Baía. Pois sou dos que lamentam o facto de muitos serem os estrangeiros notáveis que, vindo ao Brasil, vêem apenas o Rio: quando muito, além do Rio, um pouco de S. Paulo e um pouco de Minas.
Será sempre incompleta a visão do Brasil de um estrangeiro culto ou de espírito que se limite a ver o Rio e, quando muito, acrescente, ao contacto com o Rio, o rápido conhecimento das novas e grandiosas indústrias paulistas e hoje também mineiras e dos sobradões velhos e pitorescos de Ouro Preto, das igrejas de Minas. Já que atravessou o Atlântico, esse estrangeiro, curiosos do Brasil, deve incluir no seu itinerário brasileiro visitas rápidas, mas esclarecedoras, ao extremo Sul do Brasil, ao centro ainda agreste - e onde agora se ergue a monumental embora desordenada Brasília: expressão magnífica do que há actualmente de boémio e de improvisado em quase tudo que se faz de grande e mesmo de pequeno no Brasil-e também ao Leste e ao Nordeste ( Baía, Pernambuco) e, se ainda lhe sobrar algum tempo, à Amazónia. Nada de desprezarmos a Amazónia: sem um contacto com Manaus, Belém, a selva amazónica, ninguém pode considerar-se ou dizer-se completo em sua visão do Brasil.
Do escritor John Dos Passos ninguém imagine que no Brsail se maravilhou com o que no actual progresso brasileiro é imitação de progresso ianque ou de progresso burguês-industrial da Europa. Ao contrário: creio não ser indiscreto revelando seu desencanto pelo que lhe parece haver de aburguesamento de vida ou de cultura tanto no actual progresso brasileiro como no actual progresso mexicano. E ou muito me engano, ou o que para ele há de lamentável em tal aburguesamento exprime menos um desencanto de apologista de uma cultura "proletária" ante uma nova cultura "burguesa", que um desencanto de artista ante a substituição deformas autênticas por formas postiças de vida e de cultura.
Semelhante substituição estaria a ocorrer de modo por vezes brutal nas grandes cidades em que estão se expandindo no Brasil, como no México, burgos outrora equilibrados entre o que neles eram valore qualitativos e grandezas quantitativas. O Rio foi decerto - e já não o é - uma cidade assim equilibrada. O seu aburguesamento é no sentido de sua inchação numa grandeza burguesa que pouco tem a ver com o sentido marxista da expressão; e sim com o artístico: com um sentido de desprezo artístico pelas formas antiartísticas de vida e de paisagem que torna a expressão "burguês" expressão pejorativa entre os homens para quem os valores estéticos situam-se entre os valores supremos de uma existência ou de uma cultura.
No Brasil, interessa, é claro, ao escritor John Dos Passos, o admirável experimento arquitectónico e urbanístico que Brasília representa. Empolga-o música de Villa-Lobos. Creio, porém, ano exagerar dizendo que mais do que a arte, talvez mais internacional que tenúrica, dos modernos arquitectos brasileiros, prende-lhe a atenção e conquista-lhe a admiração o que, na carta de despedida que me escreveu ao regressar aos Estados Unidos, chama de "perícias artísticas" dos brasileiros rústicos.
Perícias artísticas que na verdade, através de formas regionais ou populares de vida alongada em arte, integram esse homem rùsticamente brasileiro nos seus vários Brasis e integram esses vários Brasis num Brasil que se distingue de qualquer outro país por essas várias perícias brasileiras. A perícia das cozinheiras, por exemplo, exímias no preparo de quitutes especìficamente brasileiros. A dos jangadeiros. A arte da rede. A da faca de ponta. A dos contadores de desafios. A dos papéis recortados que enfeitam os tabuleiros das baianas. A dos artistas que esculpiram na pedra e talharam na madeira das igrejas criações caracterìsticamente brasileiras. A dos artistas que ainda trabalham o barro com uma espontaneidade que encanta todo estrangeiro de espírito que nos visita.
Daí o interesse especial que o escritor norte-americano me diz ter encontrado nos azulejos de Francisco Brennannd e nas pinturas de Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Aloísio Magalhães animadas pelo mesmo sentido de integração do homem num meio que é, de modo particularmente íntimo ou amoroso, o seu meio: o meio regionalmente diverso, mas todo ele tropical, do homem brasileiro. É uma integração de que não necessita a arte, nem " burguesa", nem "proletário", que no Brasil pretenda ser internacional; e que, como arte internacional, esteja no Brasil sem ser nem do Brasil nem sequer do trópico.
Mas nessa não me parece ter o escritor John Dos Passos encontrado o "it" especialíssimo que seus olhos de artista encontraram nas chamadas perícias dos brasileiros rústicos. Os jangadeiros que, nas águas de um ballet de que nem os bailarinos russos conhecem o segredo, talvez tenha sido a impressão mais forte que Dos Passos levou do Brasil.
Talvez seja oportuno transcrever aqui, em português, a carta que me escreveu em inglês o escritor John Dos Passos, ao deixar o Recife de volta aos Estados Unido. Porque nela o escritor insiste em alguns dos pontos feridos nas nossas conversas sobre assuntos brasileiros.
Dr. Gilberto Freyre
Por mensageiro
Boa Viagem
21 de Agosto
Gilberto Freyre:
Descobrimos não haver avião da Varig no Sábado para Belém. De modo que estamos partindo hoje, conforme o plano original.
V. nos deu ontem um dia maravilhoso. Sempre nos recordaremos do Engenho S. Francisco e dos passarinhos de um azul escuro beijando as flores e do desafio ( dos contadores ao violão). Por favor agradeça de novo aos seus amigos que nos receberam de modo tão hospitaleiro.
Cada lugar por nós visitado nesta viagem, nós o deixámos sob uma grande impressão de visita incompleta. Meu apetite pelo Brasil continua insatisfeito. Em nossa próxima viagem, evitaremos as cidades de mais de cinquenta mil habitantes para nos fixarmos no interior, no campo, no subúrbio.
Encantou-nos Igarassú. Poderíamos ter passado lá uma semana.
A perícia dos jangadeiros a pescarem, de suas jangadas, perto da praia de Boa Viagem, permanece, como impressão singular, a mais absorvente das nossas impressões. É a mesma espécie de perícia que produziu as obras de talha nas velhas igrejas. O mundo moderno, de técnicas automáticas que estão rápidamente envolvendo o Brasil, é exactamente do que tem fome: dessa espécie de perícia.
Venha ver-nos na sua próxima visita aos Estados Unidos. Nosso endereço continua Westmoreland, Virgínia. Se estiver em Washington, chame, pelo telefone "long distance". Nós lhe mostraremos nosso "sertão".
Nossas lembranças a sua encantadora senhora e aos garotos, agora já "brotos".
Cordialmente seu,
John dos Passos
Logo após Dos Passos, o italiano Roberto Rosellini e o inglês Aldous Huxley, visitando o Recife e o Nordeste depois de contactos com outros Brasis, concordaram com o escritor norte-americano e comigo-em longas conversas nesta casa de Apipucos, que honraram com sua visita - em haver, no Brasil, alguma coisa de específicamente brasileiros devem procurar resguardar dos excessos de estandardização quase inseparáveis das "técnicas automáticas". Velha ideia de "regionalistas" brasileiros para os quais há Brasis dentro de um Brasil com o qual se podem conciliar arrojos de modernidade como o agora representado por Brasília. Contanto que essa modernidade seja a primeira a procurar, em vez de recusar, tal conciliação. Para este ponto é que eu estimaria as voltasse a atenção daqueles apologistas mais entusiásticos de Brasília que parecem pensar, como, em livro há pouco publicado, o Ministro Meira Pena, ser possível desenvolver-se saudàvelmente a nova capital do Brasil como puro arrojo de aquitectura ou de urbanismo modernista.
O escritor Aldous Huxley, depois de Ter visitado Brasília, insistiu em apoiar as críticas que já me aventurara a fazer àquela grandiosa cidade em construção: a devir essa construção se processando como pura obra de arquitectura e de engenharia a de vir faltando a esse esforço a contribuição do cientista social com o sentido ecológico de sua ciência e de seus objectos de estudo: ecológico e genético. Mais do que isto: Mr. Aldous Huxley parece vir também faltando a Brasília a presença de biólogos que juntem sua cooperação à dos arquitectos, à dos urbanistas, à dos cientistas sociais, concorrendo, como biólogos, para a integração literalmente ecológica da nova cidade num meio - o tropical - inseparável, talvez - acrescente-se a Mr. Aldous Huxley - em tudo que hoje se faça no Brasil, de uma tradição viva e útil, representada pela experiência ibérica, em geral, e portuguesa, em particular, do europeu, nas áreas tropicais e entre populações e civilizações - ou culturas - tropicais. Populações com as quais o hispano e especialmente o português se vem misturando quase sem preconceitos de raça ou de cor.
O livro que agora entrego ao editor Souza-Pinto, empenhado em obra de evidente sentido cultural, para que o publique numa das suas séries de estudos sociais e o divulgue em Portugal e no Ultramar Português, reune um grupo de trabalhos em torno de assuntos brasileiros considerados sob duplo critério: o da unidade e o da pluralidade. Daí o título: Brasis, Brasil e Brasília. Pois se conseguirmos reorientar a construção de Brasília no sentido sugerido nestas páginas, a nova cidade será a cúpula de um esforço de profunda, mas flexível, integração do que no Brasil é plural no que no Brasil é uno. Ou o contrário: de integração do que se pretende ordenadamente uno no que é desordenadamente plural.
Que interesse terão as páginas que se seguem para o leitor português ? Talvez este: o de despertarem sua atenção para problemas de pluralismo e de unionismo que, sendo problemas brasileiro, são também portugueses. Também o Portugal de hoje não é, nem deve querer ser, um Portugal monolítico em sua unidade e sim uma constelação de Portugais - o da Europa, o do Oriente, o das Áfricas - dinâmicamente inter-relacionados.
Além do que, é nessa combinação do que é uno com o que é plural, na vida de uma comunidade regionalmente diversificada, que se apoia a ideia de formarem Brasis e Portugais um conjunto, além de transnacional, binacional, de cultura, de economia e até de acção política e de defesa militar, que faça sentir no mundo moderno a sua força - a força dos valores, das tradições e das aspirações que lhes são comuns - contra a dos imperialismos hoje devoradores dos povos pequenos e das nações fracas; mas, mesmo assim, arcaica e estreitamente nacionais.
Santo António de Apipucos, 1960
G. F.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Brasis, Brasil e Brasília: sugestões em tôrno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural. Lisboa: Livros do Brasil, 1960. 239p.
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