COMO E PORQUE SOU E NÃO SOU SOCIÓLOGO
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Prefácio
Gilberto Freyre dispensa um tipo (o mais comum) de prefácio, que êle, tantas vêzes, redigiu com generosidade e elegância. Refiro-me ao prefácio-apresentação, introduzindo no mundo intelectual certas figuras novas ou desconhecidas e recomendando-as à atenção de todos.
Não tem cabimento uma apresentação do autor, já acolhido e consagrado por um côro internacional, desde os primeiros trabalhos. Nêles, logo se fixou a imagem daquele escritor que oferece u'a associação equilibrada dos ingredientes "vividos", em têrmos de "região" e "tradição", e, simultâneamente, enquadrados em têrmos dum cosmopolitismo de formação e informação, sempre atualizadas.
Mas essa própria complexidade, finamente assinalada e glosada pelo arguto Wilson Martins, traz a sugestão de outro tipo de prefácio, talhado para servir à obra, que, todos, admiramos. É o prefácio-interpretação, ao qual há de ser aplicada uma diretriz metodo, lógica de auspiciosa afinidade com a orientação cientifica do autor. Nêle, a tônica é de cunho nítidamente culturalista, desenvolvido com firmeza e originalidade; requer, portanto, um prefácio-compreensão, na linha que parte de Dilthey, com o "hineinversetzen, nachbilden, nachleben" (transferir, reproduzir, reviver), para livrar-se, gradualmente, da primitiva nota de mera "einfühlungi" subjetivista - sobretudo a partir de Max Weber. O método de compreensão já ganhou vigorosas sistematizações, desde as teses de Aron e o grito de Monnerot na França, ou a prática sociológica de "reconstrução imaginativa" de Mac Iver e da apreensão do conteúdo da realidade cultural em seus aspectos imateriais, com Znaniecki. Duas revisões atualizaram os procedimentos: a de Perpiña Rodriguez, laureada com o prêmio Sturzo, e, recentíssima, a de Rickman, que Gordon Macrae definiu como "chave de muito do que é importante no passado da sociologia e igualmente chave do que, com tôda probabilidade, será de importância no seu futuro imediato".
Não estou certo de que Gilberto Freyre tenha sido compreendido, sobretudo entre nós, apesar de algumas contribuições isoladas, que, embora lúcidas e sugestivas, mais convidam à análise de tôda a obra multidimensional do que realizam, adequada e exaustivamente, essa tarefa .
Quando o ilustre prof. Edson Nery da Fonseca (ilustre, mesmo, devolvida à palavra gasta tôda a prístina carga semântica) resolveu sugerir que eu redigisse êste prefácio, pretendia, decerto, que oferecesse a execução dum velho projeto. Há muito, penso escrever um longo ensaio sobre Gilberto Freyre, discutindo sua construção epistemológica, tanto no sentido mais comum desta palavra, como naquele em que oportunamente insiste Lalande, no seu clássico vocabulário, ligando a epistemologia à teoria, da ciência. Comecei a reunir fichas de leitura e anotações esparsas, mas os compromissos da vida universitária não me permitiram, ainda, levar a têrmo o empreendimento. Limitei-me, portanto, a fazer constantes referências ao veio cuja riqueza pretendia explorar. Assim é que, no meu livro mais recente, documentei, por exemplo, a fecundidade da abordagem interrelacionista, que ensejou a Gilberto Freyre antecipações relativas às fronteiras entre psiquiatria e sociologia, hoje registradas em documento da Sorbonne uma orientação que, no Brasil, vem sendo desenvolvida pelo prof. Gilberto de Macedo, em notáveis trabalhos, após as atividades, precursoras da escola pernambucana, diretamente orientadas por Gilberto Freyre. Dentro da mesma faixa, o provocante volume de Thomaz Szasz, "Law, Liberty and Psychiatry", que a Macmillan Company editou em 1965, avança, conceitos muito aproximados das idéias já conhecidas pelos brasileiros e cuja prioridade, devida a Gilberto Freyre, foi registrada, oficialmente, na França.
Ainda não será esta a oportunidade para pagar o débito, espontâneamente contraído, de um ensaio sobre a epistemologia, freyreana. O prefácio deve ser entregue com data certa, cortando o ritmo da investigações da reflexão, forgosamente lento. Aqui, procurarei, apenas, retomar, brevemente, o fio da meada, insistindo em uma advertência: o leitor que desconhecer o panorama das controvérsias epistemológicas das ciências humanas corre o risco do proferir juízos simplistas, no gênero daqueles a que o autor, com suave ironia, opõe o saboroso coquetismo intelectual de ser (ou não ser) sociólogo, antropólogo, historiador e escritor. Gilberto Freyre é tudo isso - e o fato de sê-lo, simultâneamente, é que caracteriza seu estilo científico -; mas, para compreender-lhe, inclusive, a malícia diante do primarismo intelectual de certas posições, é preciso uma dose de sofisticação que não está ao alcance dos ingênuos ou dos mal informados.
A organização do trabalho intelectual do escritor é, pela variedade das matérias, um apêlo ao leitor premunido. Ele aplica, na própria redação, um jeito muito seu de combinar "intuição lírica" e marcha discursiva, empatia e objetividade, fundo cientifico e forma literária (sem a dicotomia que mutilaria qualquer dos dois aspectos) - tudo isso, dentro dos padrões daquela complementar "finesse" pascaliana. A sua visão antropológica tem, ademais, raízes filosóficas, e não apenas no emprêgo do tempo tríbio, mas, inclusive, no aceno à ontologia que Kluckhohn reclamou, para evitar que a apresentação das diversidades culturais e suas projeções ecológicas viessem a desembocar num relativismo. No "background" das culturas está a natureza humana, cujas dimensões escapam à pura análise quantitativa, sendo, a um só tempo, espirito e natureza, porém nos moldes: dum real não totalmente matematizável. "A intervenção de liberdade humana", observa, insuspeitamente, um matemático, "introduz fator que diferencia nitidamente as ciências humanas das ciências da natureza. Pode-se afirmar, paradoxalmente, que as ciências humanas correm o risco de se tornarem mais falsas, nos instantes mesmos em que se tornar-se mais exatas".
Uma leitura apressada de qualquer texto de Gilberto Freyre só poderia ofender o praticante da compreensão matizada com doses de incompreensão rombuda. Querendo evitá-la, já que me aventuro ao prefácio e não posso deixar de encarar êste trabalho como uma espécie de môcho desajeitado à porta da airosa construção, trato de dar ao môcho, pelo menos, um. aspecto simbólico, apelando para a coruja filosófica.
"Como e porque sou e não sou sociólogos" é, principalmente, um livro de filosofia; nêle, ganham relêvo as questões epistemológicas, em cujo debate se prolongam, elucidam e atualizam as sugestões originais (em dois sentidos) da obra "Sociologia", cuja profundidade e sutileza tenho acentuado, com outros colegas de maior projeção e autoridade.
A fatura do volume, inclusive na feição estilística e na disposição caprichosa do material, lembrando Ortega, pelos giros concêntricos do pensamento e da expressão, desnorteia o leitor desprevenido, que só registra a presença marcante e ostensiva do autor. Daí ser necessária uma visão mais penetrante, para divisar, sob sua forma característica, uma subestrutura impessoal e objetiva, uma discussão de métodos e perspectivas, diante das ciências do homem, nas suas interrelações, um exame aprofundado e uma opção coerente, debaixo da indumentária a que Mário de Andrade talvez aplicasse aquêle adjetivo tio do seu gôsto: "arlequinal". Tomar, porém, a veste pela substância, é entender mal Gilberto Freyre, êsse "pied piper", cuja música vai atraindo todos os pequenos, "entes", sociais, para a dança "tout en rond", na qual se organiza o caleidoscópio e, sùbitamente, faz ver uma filosofia.
Os sucessivos "como e porque sou e não sou", na sua rotulação dialética, poderiam resumir-se num título, que o autor suprimiu, por modéstia - como e porque sou e não sou filósofo. Não quis intitular-se filósofo, ainda mais, por outra razão: é que não visou, nunca à prática da filosofia, diretamente, como "ofício", embora, enfrente a reflexão filosófica (e o livro, todo, é exemplo disto) como cientista e artista, que faz aquêle retôrno especulativo sôbre os seus próprios; instrumentos de trabalho, hipóteses e resultados, para fundamentá-los, operação em que Parodi via a essência mesma do afazer filosófico, enquanto distinto do científico.
Gilberto Freyre é, e não é, filósofo. Não o é, certamente, no sentido profissional ou acadêmico; é, porém, filósofo, naquele outro sentido, que Cuvillier definiu: "o cientista puro visa, ùnicamente, ao resultado e, quando o obteve, seu trabalho propriamente científico terminou (...) O filósofo intervém - e a experiência mostra que, muitas vêzes, o próprio cientista se torna, então, filósofo, - quando, por uma atitude reflexiva, o espirito colhe, para objeto de seu estudo, as próprias operações do pensamento pelos quais obteve êsses resultados".
Não temos aqui propriamente uma "apologia pro sociologia sua" - esta é mais uma elegante negação do autor - e, sim, plenamente uma "apologia pro sociologia" (entendida, no sentido amplo, como a matriz das ciências do homem, nas quais o "gentleman" de Apipucos transita com invariável desembaraço e esboça uma filosofia das ciências sociais). Gilberto Freyre não faz, porém, epistemologia por impotência ou infecundidade, como aquêle escritor que se dedica à critica literária por ser um "poète manqué". A sociologia, é sua, ao contrário na medida em que se revela um cientista do homem totalmente "réussi". É assim., aliás, que êle mostra a capacidade para nutrir o moinho especulativo com substância nova. O aspecto mais destacado dessa epistemologia advém, precisamente, da autenticidade metodológica, não postulada, apriorísticamente, mas, por assim dizer, moída, "a posterior". Ao contrário do que vem proclamado na ascética proposição, de cunho kantiano - o método cria a ciência, aqui se descobre uma substancial revisão da diretriz oposta -, o objeto dita o método, criado "in actu exercitu" para o ato gnoseológico e a "reconstrução imaginativa", sem sacrifício da multidimensionalidade ontológica à camisa de força da epistemologia idealista. É a orientação que segue os melhores padrões do pensamento brasileiro, sempre atraído pela saúde intelectual do realismo, que Gilson diria metódico, para afastar os pressupostos do criticismo.
É claro que a percepção das fronteiras, entre as disciplinas cientificas, não prescreve a admissão dos clássicos objetos formais, enquanto recursos da divisão do trabalho, cedendo, apenas, é, ênfase correlacionista e à adequação do saber à "objetualidade" multidimensional. Essa fidelidade ao, objeto, tendente à melhor flexibilidade metodológica, em oposição aos "purismos" idealisticos, opera como fusão ou integração que (convém insistir) muito claramente se distingue do simples ecletismo, no sentido de "agregado e justaposição", em virtude das "preferências subjetivas do filósofo".
Entra nesse ponto aquêle apêlo aos "anfíbios", que é característica das ciências sociais na perspectiva freyreana. E aqui caberá, talvez, voltar a Kluckhohn. O antropólogo lembra que "a cultura tem sua origem na natureza humana, e suas formas estão limitadas, tanto pela biologia do homem quanto pelas leis naturais". Nesta visão, a indole anfíbia está, seguramente, fundamentada. O biopsiquico vincula-se ao sócio-cultural, exigindo que a pesquisa se desenvolva em estudos caracterizados pela "complementaridade polarizada".
É preciso notar, porém, que a posição de Gilberto Freyre se encaminha para uma ênfase, cada vez maior, do procedimento compreensivo. Nem outro desfêcho seria admissível, em tão fino, analista. O homem não é uma pedra que cai; atua teleológicamente, voltado para um fim e governado por valores; não pode ser "explicado", em têrmos de pura causalidade natural; há de ser "compreendido". Num ângulo criminológico, insisti, com Ebmer, que o mero "eklaeren" bastaria, por exemplo, para desvendar processos do cérebro, inervações, movimentos de órgãos, aspectos fisio-quimicos, mas isto não esgotaria o sentido de uma conduta, que só, é compreensível através da valoração sócio-cultural. Exner insiste em que o vingador de sangue medieval é algo completamente distinto do homicida de hoje "e não só em. relação a valores éticos, mas precisamente em relação ao estado psicológico positivo que temos de investigar". A êsse respeito, é muito sugestiva, aliás, a contribuição, não só da metaclínica, mas da própria terapêutica de Frankl, que eu já citava e aplicava, em criminologia, antes de sua maior divulgação atual, agora chegada às colunas da imprensa, nos Estados Unidos e na França, onde se lê o "significado da vida" com interêsse característico do nosso "désarroi" contemporâneo.
A intencionalidade, armada axiológicamente, nos têrmos do homem como ser-em-comunicação, trouxe, nos trabalhos da escola de Utrecht, um eco jasperiano. Mediante o ser-com-o-outro, o homem realiza sua condição biológicamente preordenada (natureza humana e, não, naturalismo na visão do homem); na ação reciproca ininterrupta com o meio, êle se "cria", sociológicamente, desenvolvendo projetos vitais no espaço social. As antigas "Anlage" (disposição) e "Umwelt" (mundo circundante) redispõem-se, estruturalmente, num "Mitwelt", e os velhos determinismos naturalísticos cedem à idéia só aparentemente paradoxal da liberdade necessária, a liberdade de opção, frente às encruzilhadas da vida.
A reminiscência orteguiana traga uma ponte entre o trabalho filosófico (antropologia filosófica) e o, cientifico (antropologia cultural). Os ingredientes da cultura são, predominantemente, um rol de crenças (em que estamos) Mais do que de idéias (que temos). As "suposições fundamentais" de Kluckhohn ou as evidências não refletidas" de Leclorcq aparentam-se As "crenças" orteguianas e referem-se ao mapa cultural, na parte que "há de ser deduzida pelo observador, baseando-se nos paralelismos entre o pensamento e a ação".
Para entrar nesse mundo de crenças e referi-las aos valores, que cristalizam, só a abordagem compreensiva é adequada. Apesar da incidência de elementos naturalísticos, no próprio homem, a passagem ao limite, na ontologia humana, exige um instrumento especial. Não se trata, lembra Rodriguez, de "pôr-se no lugar do outro para fazer ou dizer, de fato, o que êle realiza e intenta, nem para pensar o que eu, sendo o que sou, faria ou diria, mas para conhecer idealmente o que êle pretende ou faz". E o procedimento de compreensão, subjetiva. (teleológico, endopático, integral) e objetiva, esta captando os sentidos objetivo elementar (interindividual, social) e fundamental (coletivo, societal), tragam o roteiro global da compreensão, evitando o "subjetivismo", do observador e, não, a subjetividade do homem. Daí a análise do sinal ou símbolo, de forma controlável, transmissível, conceptualizável.
Pondo, desta maneira, a obra de Gilberto Freyre num confronto das afinidades e entrosamento de sua contribuição e das posições da moderna teoria da ciência, ela emerge com vigor nôvo, assimilando e aplicando as sugestões colhidas, nas raízes filosóficas, mas, simultâneamente, afinando, com originalidade, as suas próprias ferramentas para traduzir as virtualidades dos fatos sociais brasileiros.
Atuam, conjuntamente, o sociólogo, o antropólogo, o historiador e também o escritor. É que a aderência à "objetualidade" concreta vai à procura não só do método adequado, mas igualmente da insubstituível expressão literária de seus achados, isto é, o veiculo exato, que não deixa de ser (aliás, é, por isso mesmo) a tradução da personalidade do escritor. Visão e "dição" fundem-se, croceanamente, ligando os golpes intuitivos às estruturas discursivas, a que não é estranha certa iluminação lírica; o discurso traz, muitas vêzes, engastados, em sua trama, os diamantes da poesia.
Todo o capítulo dêste livro sôbre a atividade do escritor manifesta a experimentação de efeitos estilísticos, em prolongada maturação artesanal, donde brota a forma artística - "sugestiva, interpretativa, provocante, epifânica".
Se balancearmos, agora, todos os ângulos da obra de Gilberto Freyre, veremos que sua atração, particular está no fôlego capaz de trazer, juntos, a interrelação das ciências do homem; o substrato filosófico, demonstrando que o autor opera em dois planos, (a construção dos instrumentos de trabalho e a reflexão sôbre êles, aliada ao e proveniente do contacto direto e da "identificação" com a matéria sociológica); o enquadramento da visão culturalista e dos próprios elementos da natureza presentes no homem; a criação estilística, em que a intuição lírica" do artista serve às análises do cientista; a assunção consciente do que êle próprio chamou um "nariz de Cleópatra" - e que seria o ângulo pessoal de observação e o repertório vivencial à disposição do afã compreensivo -; a "reconstrução imaginativa". dentro, do âmbito de suas possibilidades empáticas; o domínio e o emprêgo, lúcido dos dados oferecidos por sua própria "situação", numa auto-investigação apta a compreender-se, reflexivamente, no próprio ato de compreender, transitivamente, a realidade social - e, assim, a capacidade de fugir ao subjetivismo e ao relativismo perspécticos, através da escolha e disposição do material "empatizável". Com tal esquema interpretativo, o cientista é, também, ator, mas a objetividade vai garantida, por não ser alterado, o drama.
Nessa iluminação, é possível reler não só êste livro, porém tôda a obra de Gilberto Freyre; e, ao, final da leitura, é importante concluir que sómente um cientista e artista de superlativo talento, com rasgos francamente, geniais, poderia fundir todos aquêles aspectos num só monumento de, arte, e ciência, para nossa alegria e orgulho de brasileiros.
ROBERTO LYRA FILHO
Universidade, de Brasília
Instituto Central de Ciências Humanas
Páscoa de 1968.
Prefácio do Autor
Não sou nem pretendo ser sociólogo puro. Mais do que sociólogo creio ser antropólogo. Também me considero um tanto historiador e, até, um pouco, pensador.
Mas o que principalmente sou creio que é escritor. Escritor - que me perdoem os literatos a pretensão e os beletristas, a audácia - literário. E ao lado do sociólogo reconheço haver em mim um anti-sociólogo.
Nas páginas que se seguem não procuro explicar tais contradições: apenas constatá-las. Aceito-as em vez de me envergonhar delas. Aceito sua coexistência.
Se aqui destaco minha condição de sociólogo - sociólogo, é certo, impuro e nada ortodoxo - é que essa condição é, em mim, irredutível. Só sendo, um tanto, sociólogo eu me poderia dar ao luxo de ser também antisociológico em várias das minhas tendências.
São essas contradições que nêste pequeno livro procuro expor e, por vêzes, comentar. Quase apologótico apologia pro "sociologia sua" - não chego nunca à autocrítica. Apenas, em certas páginas, me aproximo dessa atitude. Simples aproximação, porém.
Reúnem-se aqui notas um tanto desconexas sôbre o como e porquê da minha, aliás, incerta condição de sociólogo: tão incerta, para uns tantos sociólogos, como, para outros, críticos de belas letras, a de escritor literário: condição que também procuro considerar.
Ao tentar explicar-me como possível sociólogo, não poderei deixar de referir-me ao que, ao lado dessa minha discutida condição, há, bem ou mal, de antropólogo, de historiador e, talvez, de pensador, tornando ainda mais difícil a classificação que se pretenda fazer de homem tão desajeitadamente orquestra. Tão múltiplo sem que tal multiplicidade signifique mérito ou virtude superior.
Foi para o livro de homenagem ao Professor Isaias Alves, que se organiza atualmente na Universidade Federal da Bahia, que escrevi o breve ensaio intitulado "Como e porque sou mais antropólogo do que sociólogo". E já foi publicado, pela Imprensa da Universidade Federal da Paraíba outro ensaio, de tipo semelhante - "Como e porque sou escritor" -, que reaparece, revisto e aumentado, nêste livro. O caso, também, de "Como e porque procuro ser historiador social", do qual vários trechos aparecem como prefácio à edição brasileira do meu trabalho de mocidade Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century.
O possível sociólogo - como o antropólogo, o historiador, o pensador também possíveis - só existem, no meu caso, ligados ao escritor. Quase nada como didatas. Nem como pesquisadores profissionais. Nem efetivamente burocratizados nisto ou naquilo: consultor, assessor, perito, acadêmico, funcionário, de instituto.
As notas inéditas que se seguem sôbre como e porque sou sociólogo - apenas algumas delas foram utilizadas em conferência proferida na Sociedade de Cultura Germânica Hans Staden de São Paulo - refino-as a pedido do meu querido amigo Edson Nery da Fonseca, professor da Universidade de Brasília, cujo ex-Magnífico Reitor, o Professor Laerte Ramos de Carvalho, gentilmente deseja publicá-las pela Editôra da Universidade. Desejo também do então Coordenador do Instituto Central de Ciências Humanas da mesma Universidade, o ainda jovem e já notável sociólogo que é o Professor Roberto Lyra Filho.
G. F.
Sto. Antônio de Apipucos, 1968.
Introdução
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"Parece, pues, evidente que en la realidad social, materia de la Sociología, concorren con simultánea necessidad Naturaleza y Espíritu ..." Francisco Ayala
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Procurando definir seu estilo de ser sociólogo - um estilo que me torna o de um anti-sociólogo aos olhos de vários outros sociólogos - não aborda o autor matéria fácil. Primeiro, porque a sociologia, atualmente, ainda mais que há, quarenta ou há cinqüenta anos, atravessa um período critico de indefinição e até de contradição e de confusão de objetivos e de métodos. Segundo, porque tem sido sempre característico do anarquista filosófico que, desde jovem, o autor tende a ser, criar o seu próprio ritmo ou o seu próprio estilo, tanto sociológico como, até, filosófico, de ser ou, como diria o espanhol, de "estar sendo" quanto tem sido. Daí ser e não ser sociólogo. Daí ser, talvez, menos sociólogo que antropólogo. Daí ser, também - ou procurar ser - historiador social: um historiador social que junte "simbióticamente" - como diria o Professor Peter L. Berger, lamentando, em livro recente, como eu há tanto tempo lamento, a pobreza de história na sociologia anglo-americana e sustentando ser essencial à sociologia essa simbiose - a história social à sociologia. Daí, ainda, ser dos que não hesitam em procurar abrir comunicações da sociologia com a literatura e com a filosofia, admitindo aquela validade do "modo poético de conhecimento" como complementar, nuns tantos casos, do "modo cientifico"; validade discutida e aceita pelos sábios europeus, que, em 1956, reuniram-se no Castelo de Cerisy, na França, em tôrno de uma obra de brasileiro por êles considerada "pioneira" e "origina", pela sua própria complexidade; e, no seu próprio, pais, acusada, então, por mais de um critico de "literatice" e, aqui e nos Estados Unidos, de misturar alhos e bugalhos, juntando à sociologia, a antropologia, a história, o folclore, a literatura, a filosofia.
Entretanto, uma das tendências mais vivamente atuais nos estudos sociológicos e para-sociológicos é a que se afirma no sentido dêsse como, que inter-relacionismo e dêsse como que generalismo, corretivo de excessos, em sociologia, tanto de especialismo - a princípio característicamente germânico, depois, anglo-americano - como de cientificísmo. Basta que se considerem obras mais ou menos, recentes, do valor da do Professor Peter L. Berger, Invitation to Sociology: a Humanistic Perspective (N. Y., 1963), da de C. Wright Mills, The Sociological Imagination (N. Y., 1959), da de Reisman e outros, The Lonely Crowd (New Haven, 1950), do ensaio de Robert A. Nisbet, "Sociology as an art form" (Pacific Sociological Review 5, n. 2, 1962, do estudo de Wayne Shumaker, Literature and the Irrational (Prentice Hall, 1960), do de Erving Goffman, The Presentation of Self in Everyday Life (N. Y., 1959), do de Robert Redfield, The Little Community (Chicago, 1955), do de Ely Chiney, Sociological Perspective (N. Y., 1954), do de Maurice R. Stein, The Eclipse of Community (Princeton, 1960), do ensaio do mesmo Stein, "The Poetic Metaphors of Sociologyv, incluido em. Sociology on Trial (Prentice-Hall, 1963), da ricamente sugestiva Introduction a la Sociologie, de Jean Duvignaud (Paris, 1967); e ainda dos estudos sociológicos em língua espanhola, dos Professores Francisco Ayala, Medina Echevarria, Recassen, Julíán Marías; dos Professôres Arnold Gehlen e Helmut Schelsky, em língua alemã.
Obras, quase tôdas, de caráter principalmente humanistico-cientifico. Para o Professor Berger onde a sociologia, parece melhor se situar é na imediata vizinhança das chamadas Humanidades, se é que não "belongs fully to them". Pois o social sendo, como é, dimensão crucial da existência do Homem, a sociologia - ou o sociólogo - está sempre tendo que considerar o que significa ser homem, nessa dimensão, e principalmente, o que significa ser homem numa situação particular "in a particular situation"). Principalmente numa situação especifica de espaço ou de tempo ou de espaço-tempo, acrescente-se a Berger. Ponto em que êsse sociólogo, em obra recentíssima, adota um critério de definição da sociologia que coincide com o que ousei delinear em obra já antiga de sociologia com alguma pretensão a sistemática e também a didática: o meu Sociologia, publicado no Rio em 1945 e agora em 4ª edição; e, se acusada por uns de obra prejudicada pela "literatice", ou de "anticientífica" ou de "superada", por outros consagrada como antecipação às tendências mais vivas e atuantes na sociologia contemporânea: no seu estudo e no seu, ensino. Tanto que é obra didática adotada pela Escola de Altos Estudos de Defesa Continental, em Washington, como também, por iniciativa do Professor Júlio Gonçalves, pelo Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Lisboa e por várias faculdades brasileiras de ciências sociais; e recomendada, no Brasil, por mestres universitários da autoridade e do valor do Professor Roberto Lyra Filho, da Universidade de Brasília, e do Professor Freitas Marcondes, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo; e ainda, por chamados "esquerdistas" como o historiador social Professor Amaro Quintas, do Recife, e o sociólogo Professor Machado Neto, da Bahia, além do Professor Anísio Teixeira, que magistralmente a prefaciou.
A mais chega a coincidência de pensar do Professor Berger, em seu recente Invitation to Sociology, como o autor brasileiro de Sociologia: admite o Professor Berger ser necessário ao sociólogo possuir uma especial sensitividade aos significados humanos da matéria social que procura compreender, analisar e interpretar. Sensitividade que seja não apenas um equivalente do bom ouvido em música ou do bom paladar em culinária, mas que tenha "direct bearing upon sociological perception itself". Uma concepção, portanto, humanistica e não apenas cientifica, da arte-ciência do sociólogo, exigindo-se, de acôrdo com essa concepção, do mesmo sociólogo, "openness of min" e "catholicity of vision". Donde ao sociólogo assim aberto na sua arte-ciência e assim católico na sua visão repugnarem. os sistemas sociológicos ou econômicos ou filosóficos ou políticos fechados que ofereçam interpretações com pretensões a de todo lógicas ou com pretensões a de todo cientificas da realidade humana geral ou particular. Entre êsses sistemas, o marxísta.
Para o Professor Berger, em páginas atuais, como para o autor brasileiro de Sociologia, desde de há vinte anos, o sociólogo aberto tem que admitir brechas "through which other possible horizons can be perceived". Do mesmo modo que tem que admitir "an ongoing communication with other disciplines which are vitally concerned with exploring the. human conditionl". Critérios, êstes, muito deste autor brasileiro em tentativa já antiga de nova sistemática sociológica; e para a obra em que apareceu, escandaloso. Sobretudo com relação ao primeiro ponto aqui destacado: a incompatibilidade da Sociologia, quando humanistico-científica, com sistemas fechados.
Outra vez saliente-se coincidência de pensar do Professor Berger, em livro recente, com o do seu colega brasileiro, em obra que há vinte anos vem se conservando mais ou menos viva e atual: quanto à mesma sociologia humanístico-científica e antes situacional que abstrata, em. desenvolvimento ao conceito famoso, de Thomas de "definição de situação" - ser sociologia que, como possível fonte de orientação de efeito prático, - político ou econômico -, "do not demand the sacrifice of one's soul and of one's sense of humor". Excesso - a exigência dêsse sacrifício - em que se vem extremando, quanto sistema sociológico que, apresentando-se como sociologia única ou total, de total passa a totalitária; e, assim totalitária, exige dos seus adeptos práticos e não apenas teóricos, a renúncia da própria alma e do "sense of humor". Duas preciosidades - a alma e o "sense of humor", - que a pessoa ciosa de sua personalidade precisa de resguardar de quanto sistema sociológico pretenda absorvê-la totalmente como sistema orientador de pensamento e de ação humana, fazendo dêle um "positivista" ortodoxo ou um "Comunista" ainda mais ortodoxo em, sua sociologia ou um Tomista absoluto tanto na sua sociologia como na sua teologia.
Por isto mesmo, sociólogos como já há anos o brasileiro, autor de Sociologia e o autor da recente Invitation to Sociology, vêm escandalizando alguns dos seus colegas mais totalitáriamente sociologistas com a atenção que dispensam, sob critério sociológico, à biografia ou à autobiografia, com o ajustamento ou o desajustamento de individuos-pessoas a normas coletivas revelando, através das suas biografias e autobiografias, quer a maior ou menor força de ideais, ritos e símbolos, característicos de uma sociedade e de uma cultura, sôbre os participantes ou membros dessa sociedade e dessa cultura, quer os desvios dessas normas por influência de "boêmios", (da classificação de Thomas), ou de "criadores",, "boêmios", ou não, mais atuantes ou carismáticos.
É para supreenderem - ou procurarem surpreender - intimidades nessas relações entre pessoas e sociedades, pessoas e culturas, que sociólogos assim biográficos vêm praticando aquelas técnicas mais ou menos sutis de observação de tais inter-relações que já foram qualificadas como "sublimated voyorism". O Professor Berger chega a admitir haver futuros. sociólogos dêsse tipo nos meninos que, através de buracos de fechadura, procuram ver suas tias solteiras quando nuas e a sós nos banheiros. Pelo que, interessado na "infinita riqueza do comportamento humano", o sociólogo biográfico do feitio consagrado por aquêle sociólogo brasileiro, em páginas já antigas, e pelo Professor Berger, em páginas recentes, encontra proveito na companhia ou na intimidade tanto de padres como prostitutas: trewarding the company of priests or of prostitutes, depending not on his personal preferences but on the questions he happens do be asking at the moment. Num dos capitulos dêste "<Como e porque sou e não sou sociólogo", o autor recorda autobiogritficamente aventuras de experiência ou de vivência dêsse tipo, associadas a algumas das suas tentativas de análise psico-social êste ou daquele objeto-sujeito de estudo: aventuras a que vem se dedicando desde a sua mocidade de "voyeur sublimado". E que, como aventuras de estudo em parte cientifico, têm sido também aventuras um tanto artísticas ou literárias de tentativa de compreensão do comportamento humano por meios em páticos ou intuitivos e até poéticos ou novelescos, complementares ou predecessores dos científicos.
Palavras heréticas para os ouvidos de quantos sociólogos sejam rigidamente tão científicos que cheguem, alguns dêles, ao extremo do cientificismo, fechado. Não pretende, porém, o autor dêste Como e porque iludir-se, nem iludir leitor algum, proclamando a morte ou anunciando a agonia da sociologia assim cientificista, só por não ser a sua sociologia; ou por não corresponder ao seu ideal ou à minha idéia de sociologia.
Considera-se mesmo obrigado a registrar aqui que há, entre sociólogos modernos, quem pense justarnente o contrário; e anuncie a morte próxima da sociologia, que não seja a exclusiva e estritamente cientifica ou por êsses assim considerada. Sem ir a tal extremo, o Professor Ralph Thomlinson, no seu aliás excelente livro, Sociological Concepts and Research. Acquisition, Analysis and Interpretation of Social Information (N. Y., 1965), honestamente reconhece que, na sociologia moderna, a "presence of a scientific approach does not necessarily eliminate other approaches". E lamente que atuais sociólogos estatísticos tratem pessoas humanas como, se fôssem coisas, em prejuízo da compreensão dessas pessoas pelo sociólogo. Destaca, porém, de tal modo, a importância da quantificação em sociologia, "ciência, do comportamento humano", que parece tender a um tanto desdenhosamente - do ponto de vista sociológico considerar "filósofos sociais", os, sociólogos que não sejam principalmente quantitativistas em seus métodos de análise. Dai ser enfático em afirmar que a sociologia não é parte das chamadas humanidades, sem por isto deixar de reconhecer que a sociologia continua a conter "elements of both science and cleverly contrived nonscience". Se destaca - talvez um tanto arbitràriamente - que tendo oscilado entre as tendências para o quantitativo e o qualitativo, o cientifico e o verbal filosófico, o empírico e o intuitivo, a marcha atual é da sociologia na direção do qualitativo, do cientifico, do empírico, não se inclui entre os sociólogos que, cientificistas absolutos, constituem uma espécie de seita sociológica fechada. E se tornam passíveis, alguns dêles, de ser atingidos pela ironia do Professor Berger com relação aos que sacrificam "alma" e "sense of humor" a adesões assim extremas, quer ao cientificismo puro, quer ao cientificismo ou ao sociologismo a serviço de ideologia ou de causa política.
O autor é dos que pensam. que a sociologia, para ser constantemente germinal ou criadora, precisa de considerar-se a si própria, não filosofia do que deve ser ou ciência do que é; e sim, como diria Ortega, do que está sendo. E o que está sendo e susceptível de mudar de forma - inclusive de forma sociológica - de função e até de processo, e não apenas de substância, - matéria extra-sociológica - sob diferentes pressões, continuas ou descontinuas, de espaço e, sobretudo, de tempo. Um tempo que, como sugeriu numa das conferências que proferiu num curso de introdução à Futurologia, na Universidade de Brasília, em 1966 - curso realizado por iniciativa do Professor Roberto Lyra Filho - precisamos de considerar sempre tríbio; e não particularmente passado ou presente ou futuro. O tempo social é sempre um encontro dêsses três tempos num só, com, ora um, ora outro, dentre êles, mais dominante, embora nunca exclusivo.
Tal conceito de tempo sociologicamente tríbio talvez possa ser estendido a uma conceituação amplamente tríbia do que seja sociologia. A sociologia, tôda ela, e não o tempo a ser considerado sociológicarnente pelo sociólogo, seria tríbia. Não só anfíbia porém tríbia. E a sua dinâmica tríbia se juntaria sua dinâmica situacional. Tríbia e situacional é o que seria, seu caráter de situacional completando, sua condição de tríbia.
Do conceito esboçado por êste autor, no livro agora em 4ª edição, Sociologia, de ser a sociologia, ciência anfíbia, ou mista, ou mesmo tríbia, pode dizer-se que coincide com o daqueles: sociólogos principalmente alemães, que vinham já insistindo na coexistência, na sociologia, de duas sociologias: a Kultursoziologie, que seria uma sociologia voltada para superestruturas, lidando com entidades "ideais", e a Realsoziologie, que seria uma sociologia voltada para subestruturas e lidando com a chamada realidade empírica. Lembremo-nos de que dualista é a concepção de sociologia oferecida por Max Scheler no seu Die Stellung des Menschen in Kosmos (1929),na qual Já se admitia o exame sociológico tanto - por um lado - de ações com objetivos mentais ou "ideais", como - por outro lado - de ações condicionadas por impulsos biológicos de sexo e fome. Tôda ação humana concreta seria um misto dos dois elementos: o "ideal", e o biológico ou "natural".
Através do conceito brasileiro de sociologia como ciência anfíbia e até tríbia, o que se procura é dar maior inter-relação entre as duas ou três sociologias cujas duas ou três vidas seriam na verdade uma só, conforme um jôgo apenas de ênfases na consideração de objeto-sujeitos de análise e de interpretação sociológica de situações: situações umas mais, outras menos, condicionadas ou afetadas por impulsos ou por condições, fisicamente biológicas. Inclusive, até certo ponto, as ecológicas. Pois da sociologia que se considerasse tríbia repita-se que seria, uma sociologia dinâmicamente situacional. E aberta em sua sistemática, nisto se diferenciando da sociologia, quer marxista, quer Católica, mais fechadas. Inclusive as praticadas no Brasil.
O marxismo chamado cientifico e, por alguns, dos seus apologistas, identificado com "a sociologia cientifica" ou com "a história objetiva" - mel de que estão agora se lambuzando, por terem vindo a prová-lo com grande retardamento, uns tantos historiadores e sociólogos norte-americanos, principalmente os cornelianos -, é atualmente representado com inteligência e brilho, no Brasil, no campo dos estudos sociológicos, pelos Professôres Caio Prado Júnior, Gláucio Veiga e Florestan Fernandes; e pelo discípulo do professor Fernandes - porventura mais lúcido que o mestre - Fernando Cardoso, e com menor inteligência e maior ânimo, faccioso, pelos professôres Octavio Ianni e Nelson Werneck Sodré. Até há pouco, representou-o também - com rara honestidade intelectual - o critico, literário e, por vêzes, sociólogo da literatura, Astrogildo Pereira.
É uma contribuição, a que, da parte dêsse sistema fechado, vem sendo feita aos modernos ou atuais estudos sociológicos no nosso pais, nada desprezível, uma vez depurada do seu cientificismo, sectário; e evidentemente superior à que até agora lhe trouxeram sociólogos representantes de outros sistemas sociológicos fechados, como o Positivismo francês - com o Professor Ivan Lins - e o Catolicismo romano, com o Professor Alceu Amoroso Lima e, em plano cientificamente mais elevado, os Professôres F. Bastos de ávila, S. J., e Pedro Calderón Beltrão, S. J.
A êste propósito, é oportuno que o autor de Como e porque sou e não sou sociólogo destaque, neste prefácio, que vem se defrontando, nos últimos anos, no Brasil e em Portugal, com expressões as mais simplistas de intolerância da parte de certas alas Comunistas, quer no Brasil, quer em publicações estrangeiras, em tôrno de suas idéias e de seus trabalhos.
Acontece que êsse seu choque de agora com o simplismo intelectual de intelectuais - ou intelectuários não é, para êle, experiência de todo nova: teve-a com o fascismo, nos dias de maior explendor dêsse outro sistema fechado no Brasil e no estrangeiro.
Tais experiências, supõe que não o vêm levando ao perigo extremo do ódio com ódio se paga. Nunca deixou de considerar a importância para a sociologia, das idéias e dos trabalhos, de fascistas, reais ou supostos, como um Pareto, um Georges Sorel, um Spengler e, dentre brasileiros, um Plínio Salgado, um Gustavo Barroso, um Miguel Reale. Tampouco tem deixado de estimar obras sociológicas, mais ou menos, recentes, da autoria de Comunistas ou de marxistas tão fechados, dentro dos seus sistemas, quanto dentro das suas clausivas, carmelitas descalços, só por virem sendo, por vêzes, caricaturadas por êles suas idéias ou mesmo insultada sua pessoa. Mesmo porque, da parte de marxistas ou Comunistas esclarecida e intelectualmente honestos, vem recebendo o melhor dos tratamentos, sendo colaborador da excelente revista marxista em língua inglêsa, Science and Society, a convite ou por convocação dos seus redatores; e tendo merecido de marxistas como o sociólogo, cubano Juan Antonio Portuondo e o sociólogo brasileiro Astrogildo Pereira estudos muito mais generosos a respeito das suas idéias e muito mais compreensivos das suas interpretações sociológicas do passado do Homem brasileiro que da parte de sociólogos Católicos como o Professor Alceu Amoroso Lima e o falecido Manuel Lubambo.
Uma das Interpretações do passado social brasileiro, em confronto com outros passados euroamericanos, ou eurotropicais sugeridas pelo autor de Como e porque sou e não sou sociólogo e que hoje se situa entre as mais discutidas por sociólogos e por historiadores, é a que se refere a uma maior benignidade nas relações de senhores com escravos no Brasil patriarcal do que em algumas de outras sociedades igualmente escravocráticas e patriarcais: a anglo-americana, a franco-americana, a holando-oriental, a holando-áfricana, a belgo-áfricana, algumas das espanholo-americanas. Interpretação A base da leitura critica de numerosos depoimentos de estrangeiros, idôneos e não, que, nos séculos XVII, XVIII e XIX tiveram contacto com uma, duas ou várias dessas sociedades e a brasileira, concluindo, quase todos os idôneos - no século XIX, o século do vigor máximo da escravidão patriarcal no Brasil, estrangeiros das excelentes credenciais, como observadores idôneos e como críticos independentes, do feitio de um Clark e de um Koster -, por aquela benignidade. Esboçou o autor tal interpretação, ainda estudante da Universidade de Colúmbia, e após estudo sistemático, quer da maior coleção de livros, inclusive alguns raros e até raríssimos, de viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil - livros que constam, da Brasiliana de Oliveira Lima -, quer de pouco conhecidos documentos parlamentares britânicos: evidências reunidas por comissões britânicas de inquérito sôbre matéria tão delicada, com depoimentos de várias procedências e de várias tendências. E dessas comissões, como de vários daqueles viajantes, o mínimo que se pode dizer quanto à sua atitude ou à sua perspectiva - fontes de tanto interêsse para o sociólogo cientifico ou o historiador objetivo - é que, no seu maior número, não morriam de amôres nem por Portugal nem pelo Brasil.
Não só o inglês Koster mas vários outros estrangeiros, dentre os mais respeitáveis pela sua ciência ou pelo seu saber e pelo seu honesto espirito critico, de põem a favor da relativa, benignidade no tratamento de escravos por senhores no Brasil: do francês Frazer ao inglês Lindley; do sábio St. Hilaire à cosmopolita Ida Pfeiffer; no norte-americano Comandante da U. S. N. Wilkes (de Wilkes é êste comentário, representativo de numerosos outros, à situação dos escravos no Brasil, em livro publicado em seu país em 1825: "In general they (os escravos) are kindly treated and become firmly attached to their masters") ao clérigo inglês Clark. De Lindley, em livro publicado em 1805, é êste raparo mais que expressivo, por proceder de inglês de todo hostil a Portugal e ao Brasil colônia: "From the unusual quantity" (de escravos negros no Brasil) ... "one would conceive the public tranquility to be somewhat endangered, on a recollection of the late, events in St. Domingos. But it is otherwise: for indulged to licentiousness, not overworked, and enjoying their native vegetable food, the negroes are cheerful and content". Situação que Lindley atribuiu ao fato de terem os portuguêses no Brasil recebido "terrível lição" dos negros de Palmares, supondo que antes de Palmares (século XVII) os escravos negros no Brasil não eram tratados com tanta benignidade. Mas escrevendo sôbre o que vira no Brasil no próprio século, XVII Frazer, francês, já abolicionista, notara, em livro publicado no remoto ano de 1699, que a condição de um escravo negro, naquela época, no Brasil, nada tinha de idílico, mas honestamente destacando do tratamento que aos escravos dispensavam aos portuguêses ser menos cruel que o dispensado aos seus cativos, também negros, pelos espanhóis e pelos inglêses: "les Espagnoles & les Anglais les traitent encore plus cruellement". Observação repetida pelo Sieur D. na sua Voyage do Marseille a Lima, publicada em Paris alguns anos depois. São inúmeros os depoimentos dêsse teor provenientes de observadores insuspeitos: pouco simpáticos aos portuguêses, uns; outros francamente hostis a Portugal, como bons franceses ou inglêses do século XVII e dos séculos XVIII e XIX.
Porque repelir-se agora o que, nessas evidências, é histórica e sociológicamente válido, nunca como tentativa de reavivar-se contra Portugal e contra portuguêses, ainda mais do que contra a Espanha e espanhóis, a lenda negra inventada e mantida durante séculos por autores anglo-saxônicos e Protestantes? Parece a alguns de nós haver em tal tentativa, com aparências de objetivista e cientificista, algo de suspeito: suspeito de ser, ao contrário, esfôrço subjetivista, subjetivismo. Coloca do por preconceitos de tempo presente projetados sobre tempo passado.
As páginas que se seguem, o autor admite, desde logo, serem, várias delas, prejudicadas por um personalismo por vêzes petulante e até vizinho do que um critico mais severo possa considerar tendência à autoglorificação. Essa autoglorificação, através de exageros em reclamar o autor para si, e para o Brasil, antecipações em estudos sociais - filosóficos, históricos e antropológicos - e até em técnicas novelisticas - quando melhor seria que êle deixasse o cuidado de reconhecê-las exclusivamente a pensadores, cientistas sociais e críticos literários e de idéias, estrangeiros. Os quais, quando um Georges Gurvitch, um Fernand Braudel, um, Roland Barthes, um Jean Pouillon, um Jean Duvignaud, na França, um Asa Briggs ou um Philip Mason, na Inglaterra, um Ortega y Gasset, na Espanha, um Helmut Schelsky, na Alemanha, um Connolly, nos Estados Unidos, um Alberto Peseetto, na Itália, não têm faltado a êste autor brasileiro com êsse reconhecimento. Pelo que, mesmo um tanto significativas e não de todo insignificantes, tais antecipações, ao autor tocaria aquela modéstia que caracterizou o maior dos pioneiros nacionais Alberto Santos Dumont - sem ter deixado de estar presente no menos retraído Heitor Villa-Lobos e, mais recentemente, no também menos retraído Gilberto Amado e no insigne mineiro cosmopolita e, por conseguinte, songamonga, Guimardes Rosa.
A uma nação ainda obscura como o Brasil, convém aos seus possíveis ou reais pioneiros não seguirem. estritamente o belo exemplo de modéstia de Santos Dumont, cujo nome vem se sumindo ao lado do dos irmãos Wright, prestigiados constante e amplamente por forte publicidade da parte dos seus compatriotas. As nações obscuras precisam de fazer sentir no estrangeiro o valor dos seus pioneirismos de caráter cultural, como vem fazendo o México com relação à sua pintura, à sua arquitetura e à sua música. O Brasil de hoje abandona as feras da competição internacional os seus próprios Pelés.
O autor, muito identificado por enfatia, com o que considera os valores da sua gente - embora, suponha, sem resvalar no excesso de etnocentrismo: antes para interpretá-los ou reabilitá-los, do que para exaltá-los vai, decerto, a extremos, na ênfase por vêzes deselegante que dá a antecipações suas, em particular, e brasileiras, em geral, em filosofia, letras e ciências humanas. Extremos que o leitor inteligente relevará.
De um critico de idéias, notável pela sua agudeza de percepção, é a afirmativa de que, no trabalho que venho realizando - quer o sociológico, quer o não-sociológico - o que avulta é "o método". Apenas não define que "método". Ou que seja "método" em geral.
Talvez mais exato seja o reparo, sôbre o, mesmo assunto, de outro critico sagaz, o francês Jean Pouillon, de que o característico das análises e das interpretações sociológicas e não-sociológicas, que venho tentando, de Homem Situado, seja não um método, no singular, porém uma conjugação de métodos, no plural. Mas importando essa pluralidade de métodos: num como método coordenador de vários métodos que seria a criação de uma abordagem nova; uma espécie de meta-método; e até um repúdio a métodos convencionais como métodos específicos ou puros. Uma miscigenação metodológica tal que só revelaria criação de nova forma de abordagem nova, uma espécie de meta-método; e até um repúdio a métodos convencionais como métodos específicos ou puros. Uma miscigenação metodológica tal que se revelaria criação de nova forma de abordagem de tais ou quais assuntos; e na qual fôsse tal a projeção do criador de nôvo método sob a forma de combinação de métodos, que êle pudesse dizer dêsse meta-método: "c'est moi". Ou: "o método sou eu".
Não se suponha haver nestas sugestões de personalismo ou individualismo de método - ou de métodos vários num método singularmente coordenador a ponto de ser criação do coordenador e de suas relações com assuntos com que empàticamente se identifique - bizarria da parte dêste autor com relação a estudos - os do Homem - que êle vem considerando anfíbios ou tríbios naturais e culturais, dentro da parte cultural havendo o prolongamento da ciência em filosofia; ou da Antropologia física e da Antropologia cientificamente cultural em Antropologia Filosófica.
Já com relação a estudos físicos escrevia em 1947, Como autor de um dos capítulos do livro organizado por E. P. Wigner, Physical Science and Human Values, o Prêmio Nobel P. W. Bridgman "não haver método cientifico como tal". O "chamado método cientifico" seria apenas uma expressão especial do "método da inteligência": "tany apparently unique characteristics are to be explained by the nature of the subject matter rather than ascribed to the nature of the method itself". êste seria um procedimento da inteligência ou da mente do cientista, para com o sujeito ou objeto de estudo. E mais recentemente, C. P. Richter, considerando em artigo, "Free Research versus Design Research", em Science (CXVIII, 1953), o problema de método, não hesitou em considerar aquêle procedimento mental "a state of mind that would not lend itself to any accurate verbal description". E tratando do assunto do ponto-de-vista especificamente sociológico, o Professor Melville no seu excelente capítulo para a obra coletiva Sociologists at Work (N. Y. - Londres, 1964), destaca serem muitos os físicos, químicos, matemáticos, dentre os mais eminentes, que duvidam haver um método susceptível de ser plenamente reproduzido, de modo a poder ser usado ou empregado por todos os pesquisadores. Dai o testemunho dêsses cientistas físicos - que não poucos cientistas sociais pretendem seguir como modelos ideais - ser no sentido de que nas suas pesquisas êles têm tomado, rumos metodológicos diversos e muitas vêzes inclassificáveis ou identificáveis ("unascertainable"), chegando por êles às suas descobertas e às suas soluções de problemas.
O que parece deixar à vontade sociólogos que lidam com sujeitos-objetos sendo mais complexos, mais sutis, do que os problemas físicos ou químicos, para serem, quando, animados da criatividade, como que mais pessoais e até mais plurais, em sua metodologia, que os puristas dêste ou daquele método. Puristas nesta ou naquela maneira convencionalmente cientifica - quase sempre, na verdade, cientificóide - de ser sociólogos.
E em páginas atualíssimas - para ensaio quase filosófico - em que há coincidências de pensar de autor europeu-anglo-americano com autor brasileiro, Mr. Peter F. Drucker, no seu ensaio de futurologia, Land marks of Tomorrow (N. Y., 1952), escreve das modernas ciências e artes com maiores tendências a pós-modernas, que nelas os conceitos de totalidades não são mais os de "somas de suas partes" - partes de todo mensuráveis ou matemàticamente analisáveis segundo os métodos clássicos, isto é, cartesianos - mas o de configurações. Tanto mais pós-moderno vá se tornando o cientista - o biólogo, por exemplo - maior a sua tendência para exprimir-se em, têrmos tais como "munidade",, "metabolismo", "ecologia", "síndroma", "homeostatis", "formas" - têrmos que - descrevem menos propriedades de matéria, ou qualidades isoladas ou quantidades, como somas de partes, do que "ordem harmônica". Têrmos "estéticos", segundo Drucker, como têrmos "estéticos" seriam, noutras Ciências do Homem, "gestalt", "forma", "cultura", "integração". Pois configurações, integrações, formas são expressões ou símbolos de realidades que o sociólogo ou o antropólogo ou o historiador não consegue apreender tendo as partes de um todo como seus pontos de partida; e sim pela contemplação dêsses todos.
É o critério que tem orientado êste autor, como sociólogo e como não-sociólogo, em suas tentativas de identificação de um Homem situado - o lusotropical, o hispanotropical, o brasileiro - considerado nas suas configurações ou nas suas formas de comportamento.
Anuncia-se para breve a profissionalização, da atividade do sociólogo no Brasil. Verificada essa profissionalização é provável que o modo mais generalizado de o sociólogo ser sociólogo no nosso pais se torne o "prático" o que corresponda ao médico clinico com relação ao médico cientifico. O sociólogo orientador de "relações humanas" nas indústrias. O sociólogo orientador da parte sociológica de atividades educacionais. O sociólogo-demográfico, a serviço de órgãos governamentais. O sociólogo - em alguns dêsses casos - mais intelectuário, isto é, funcionário, burocrata, técnico institucionalizado, do que intelectual; ou do que pensador ou cientista ou humanista livre-atirador.
Mas mesmo que se tornem numerosos, por um lado, com os sociólogos técnicos ou os sociólogos intelectuários, os sociólogos apenas didatas, por outro lado, os sociólogos que se dediquem ao estudo ou ao esclarecimento de assuntos sociológicos, criativamente, isto é, abrindo-lhes novas perspectivas, não desaparecerão, enquanto o Brasil se conservar Estado mais ou menos democrático, em vez de tomar-se totalitário. Serão êles os críticos dos excessos ou das deficiências dos sociólogos principalmente oficiais, práticos, doutrinários, engajados, comprometidos. Serão êles os inspiradores de pesquisas. êles, os que escreverão livros renovadores sob um critério quanto possível independente de compromissos de ordem institucional ou doutrinária ou mesmo metodológica. Os sociólogos profissionais serão, assim, de vários tipos, tendendo a completar-se com suas diferenças.
Como e porque sou sociólogo. I
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"The sociologist ... is a person intensively, endlessly, shamelessly interested in the doings of men... He will naturally be interested in the events that engage men's ultimate beliefs, their moments of tragedy and grandeur and ecstasy. But he will also be fascinated by the commonplace, the everyday... He will find rewarding the company of priests and prostitutes..." Peter L. Berger
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Quase todos os brasileiros conhecem desde meninos, desde o colégio, alguns, até desde a escola primária, as paginas de antologia em que o, ainda hoje tão discutido José de Alencar - há quem, não o considere digno de figurar como romancista na história da literatura brasileira - conta "como e porque" tornou-se "romancista". Ninguém estranha, entre nós, que um indivíduo, mesmo, sem ser nôvo Alencar, mas apenas por escrever arremedos de romances, se diga romancista. Dizer-se alguém romancista é hoje quase tão natural, em, língua portuguêsa, como dizer-se alguém botânico ou químico, agrônomo ou urbanista.
O mesmo não é certo, do indivíduo que em língua portuguêsa se diga sociólogo. O título é pomposo. É pretensioso. É majestoso. É quase o mesmo do que dizer-se algum filósofo. Soam mal em língua portuguêsa as palavras: "Sou filósofo". A não ser quando o sentido da palavra é o irônico e até o autodepreciativo: o de considerar-se o indivíduo a si mesmo e a vida despreocupadamente. "Eu cá sou filósofo, sabe?" A entonação é tudo, em, tais casos.
Com o título de sociólogo acontece coisa semelhante. É certo que se conta de um distinto brasileiro que diletantemente resolveu ocupar-se de assuntos de, urbanismo, construções e arquitetura, que uma vez confessou, defendendo-se da acusação de ser um intruso em tais matérias: "minha gente, eu reconheço que não sou urbanista nem arquiteto nem engenheiro: eu sou apenas um modesto sociólogo".
Confissões dêsse teor são raras porém. A palavra "sociólogo", mesmo precedida do adjetivo "modesto", sugere entre nós a pretensão de ser o indivíduo nôvo Augusto Comte ou nôvo Herbert Spencer. Não caracteriza no indivíduo sua simples condição de especialista em estudos ou em técnicas de estudo sociológicos, como acontece já há anos entre os anglo-saxões, tornando o sociólogo profissional - com exceções notáveis, é claro, como a de um Lewis Mumford, a de um Talcott Parsons, a de um Afills - especialista de status semelhante ao, do químico, ao do botânico, ao do economista, ao do biólogo: na verdade, por escala de prestígio, publicada há poucos anos, inferior a qualquer dêsses profissionais.
Só ultimamente está se verificando no Brasil, mesmo que em Portugal, uma como anglo-saxonização do sentido da palavra "sociólogo". Só nos últimos anos. Só à sombra dêsse comêço de anglo-saxonização de sentido de palavra até há pouco de implicações as mais majestosas, em língua portuguêsa, é que, não fôsse eu profissionalmente escritor, ousaria intitular-me sociólogo, embora, dentro das Ciências Sociais, - considerando-me principalmente antropólogo. Antropólogo em primeiro lugar; sociólogo, em segundo. Antropólogo-sociólogo de formação sistemática em Ciências Sociais, desde os estudos de Bacharelado aos do Doutorado; e não diletante.
Como fui atraído, ainda adolescente, para êsses dois tipos de estudos sociais, ao meu ver inseparáveis, de tal modo se completam? Porque, durante minha formação universitária, especializei-me nêles? Como os venho compreendendo e fundindo? E praticando? Essas perguntas me têm sido feitas com alguma indiscrição e muita insistência. Elas me obrigam a ser deselegantemente autobiográfico.
Em conferência autobiográfica na Sociedade Hans Staden, de São Paulo, comecei a responder à pergunta - "Por que se tornou sociólogo?" - por uma recordação de infância: a de que aos seis anos fugi de casa para conhecer o mundo, voltando à casa vencido pela saudade. Saudade da mãe, principalmente. Mas também do pai e dos irmãos, da casa e do próprio gato. Desde então venho repetindo essa fuga e repetindo esse regresso. Fugindo do Brasil pela atração de quanto seja diferente do Brasil e voltando ao Brasil pela sedução do familiar. De modo que minhas tentativas de estudo de temas sociais vê alternando entre essas duas atrações. Tornei-me um tanto sociólogo, por um lado, pela curiosidade em tôrno do que é social no mundo, por outro, pelo interêsse do que é social em mim próprio: na minha família, na minha casa, no meu passado.
Muito cedo fui por Meu Pai iniciado na leitura de Augusto Comte, de Taine e de Pierre Lafitte. Não que ele fôsse Positivista. Mas considerava boa disciplina intelectual para um adolescente a leitura da chamada Filosofia Positiva vizinha da Antropologia e criadora da moderna Sociologia.
Vinha eu já me inquietando, como tantos outros durante a adolescência, em tôrno de problemas das origens e do destino do Homem com outras leituras antropológicas, filosóficas e para-sociológicas em língua francesa, em língua inglêsa e em língua portuguêsa: Pascal, que antes do que qualquer outro pensador, me pôs diante dos desafios mais fundos da Antropologia Filosófica; Kant, Goethe e Nietzche, em traduções francesas; Montaigne; Swift; Darwin; Thomas Huxley; Herbert Spencer; Fustel de Coulanges; Havelock Ellis; Vives, Gracián, Ganivet, dentre os espanhóis; Oliveira Martins, dentre os portuguêses; Alberto Sampaio, Fonseca Cardoso. A leitura dêsses autores, de saber sociológico ou antropológico, em inglês, em francês, em espanhol, em português, acrescentaria, ainda estudante de bacharelado universitário, a de outros como, a de Lombroso, Ferri e Pareto, em italiano, a de Vilar, em catalão. Iniciado desde menino, por meu Pai, no estudo do latim, e logo depois, no do grego, pelo Professor Wiliam Carey Taylor êsses conhecimentos me permitiriam, mais tarde, luxos sócio-filológicos: introduzir em, língua portuguêsa neologismos como empatia, cacogenia, eutenia e tríbio.
Devo a esta, altura lamentar que me venha faltando desde então - desde a adolescência - urn conhecimento da língua alemã igual ao que desde menino me foi dado obter das línguas inglêsa e francesa. Explica-se: passei de menino a homem no período em que a língua alemã, em virtude da Primeira Grande Guerra, deixara de ter quem a ensinasse regular e sistemáticamente tanto no Brasil como nos Estados. Unidos - país, onde fiz os principais estudos superiores. Nos Estados Unidos, substitui por isto o estudo do idioma alemão, até então requerido para os cursos pós-graduados, nas grandes universidades daquele País, pelo estudo, do anglo-saxão.
Creio ser o único brasileiro que até hoje estudou anglo-saxão: língua, como se sabe, afim da alemã e mãe da inglêsa. Graças ao anglo-saxão que aprendi, pude ler Chaucer apreendendo em. quase tôda a sua plenitude o sabor ainda adstringentemente verde de sua expressão inglêsa de escritor que foi a seu modo um antropólogo. Um antropólogo pelo modo por que soube retratar nos peregrinos de Canterbury tipos dos que se chamariam hoje psicológicos, tendo precedido nessa ciência, de caracterização dos homens êsses outros psicolólogos em língua já modernamente inglêsa que foram William Shakespeare e Swift, Defoe e Dickens, Joyce e os dois Lawrence.
Também foi o estudo do anglo-saxão que me predispôs a favor das palavras curtas e contra os polissílabos solenes e eloquëntes, como tantos dos eruditamente latinos; e creio estar nesse estudo um dos motivos do que viria a ser um dos preconceitos, pelos quais mais tenho sido justamente criticado: o preconceito contra o estilo, ou a expressão, ao meu ver extremamente rococó, de Ruy Barbosa. Um Ruy Barbosa tão entusiasta de instituições inglêsas; mas tão contrário às virtudes de vigor de expressão do inglês mais castiçamente anglo-saxônico.
Por mais esnobemente que possa me vangloriar hoje de ter estudado anglo-saxão, essa singularidade não me compensa nem de leve, da deficiência enorme que tem sido para mim um conhecimento apenas superficial da língua alemã. Tão superficial que não me permitiu até hoje ler no original um Goethe e um Hegel, um Nietzsche e um Max Weber, um Herder e um Georg Simmel, um Thomas Mann e um Heidegger. Apenas arranhar pela crosta um alemão como que básico e sòmente técnico, para estudante de Antropologia e de Sociologia.
Para um indivíduo com pendores para os estudos antropológicos -os humanísticos, filosóficos e científicos, e não apenas os, técnicos e sociológicos, o conhecimento do anglo-saxão não faz as vêzes do da língua alemã. A ignorância da língua alemã representa em tal caso deficiência capital, embora as traduções inglêsas, francesas, italianas, espanholas de obras-primas na matéria supram em grande parte tal deficiência para um brasileiro que conheça essas quatro línguas. Mas só em grande parte. A deficiência existe sempre, tratando-se de uma língua moderna rival da inglêsa, da espanhola e da francesa na extraordinária ríqueza que reúne de matéria antropológica e sociológica não subsidiária porém essencial.
Ao imperialismo britânico, do qual é hoje moda dizer-se apenas mal, do mesmo modo que do imperialismo ibérico e do imperialismo francês, deve-se uma vasta literatura de interêsse antropológico e para-sociológico de observadores, europeus de povos não-europeus. O domínio imperial sôbre populações e terras não-européias, acompanhado de um afã missionário por vêzes assombroso, pelo que implicou de aproximação entre europeus e não-europeus, deu a êsses três povos um gôsto pela observação dos tipos físicos não-europeus e das formas sociológicas de cultura não-européias que os tornou particularmente afeiçoadas aos estudos se não sempre sistemáticos, pois às vêzes assistemáticos, quase sempre científicos ou para-científicos, humanísticos e filosóficos, de Antropologia e de Sociologia, explicando-se assim o esmêro de inglêses, de franceses, e até de espanhóis em traduzirem. para o inglês, para o francês e para o espanhol as grandes obras alemãs de Sociologia tipológica e de Antropologia filosófica, nas quais inglêses, franceses e espanhóis - e também portuguêses - tem encontrado complementação ideal para seus próprios e magníficos trabalhos de sociologia e de para-sociologia empíricas, em tôrno de temas exóticosç e de Antropologia descritiva de populações e tipos de homem não-europeus.
Aquela literatura sempre me encantou. Já me referi a Montaigne. Devo salientar Defoe como outro escritor que cedo despertou em mim curiosidade pelos problemas de contacto dos civilizados com os primitivos, dos homens de climas frios com as populações dos trópicos. A leitura dêles se seguiria, na minha formação, antropológica pré-sociológica, a de Taylor, a de Frazer, a de Quatrefages, a de Frobenius. Até que me foi dado inscrever-me, já como estudante sistemático de Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, em cursos universitários de Antropologia e de Sociologia e tornar-me discípulo de grandes mestres modernos dessas matérias como o antropólogo de formação germânica Franz Boas, o sociólogo tipicamente anglo-saxônico Franklin Giddings e o professor da Universidade de Oxford, Sir Alfred Zimmern, misto de helenista e de antropólogo. êsses estudos teóricos - e também os de Economia, com Seligman, e os de Direito Público, com Munro - seriam seguidos pelo contacto, segundo roteiro tragado pelo Professor Boas, com os principais museus antropológicos da Europa: o de Oxford, os de Paris, os de Berlim, o chamado Etnológico, de Lisboa - onde ainda conheci o sábio Leite Vasconcelos - o Museu Britânico. Seguidos seriam também de apresentações, por anglo-americanos meus amigos, a grandes mestres europeus, inclusive alemães, de Antropologia, de Sociologia e de Filosofia um dêles o famoso alemão de nome francês, Professor Max Dessoir, de Berlim; enquanto a outros, como o orientalista francês Clement de Grandprey, que pôs, à minha disposição seu museu particular de Versailles, quem afetuosamente me recomendou foi o ilustre brasileiro Oliveira Lima.
Cheguei à Sociologia pròpriamente dita pela Antropologia; e levado ao estudo de uma e outra creio que um tanto por disposições intimas das que se denominam "vocação"; mas também - e principalmente - pela minha condição de jovem desde nôvo inquietado por Pascal; de brasileiro de origem em parte ibérica, em parte nórdica, tocado remotamente por sangue ameríndio, desafiado a analisar-se e a reinterpretar-se pelos Gobineau e pelos Le Bom que foi encontrado antes à margem que pròpriamente dentro da ciência antropológica no estrangeiro, em universidades quer do tipo provincial, quer do tipo cosmopolita, em que o indivíduo, no contacto com indivíduos de várias procedências, deixa de ser exclusivamente indivíduo para identificar-se com a sua gente brasileira, nem sòmente com a cultura luso-brasileira, em particular, porém, - como descendente que sou, tanto de espanhóis como de portugueses há séculos integrados nos trópicos mas sempre ibéricos nos principais motivos da vida - com a gente e com a cultura ibéricas, em geral; e, como tal, contente, desde adolescente, de poder ler, como não era possível a um estudante de língua inglêsa ou francesa ou alemã, um Cervantes e um Luís Vives, um Gracián e um Victoria, um Ramôn Lulio e um San Juan de la Cruz, um Frei Luís de León e uma Santa Tereza, um Lope de Vega e um Calderón, como se lesse obras-primas na minha própria língua materna. Pois uma das vantagens do brasileiro que lê espanhol é esta: ter duas línguas literárias maternas, a portuguêsa e a espanhola, em vez de uma só, e poder sentir-se por suas ligações européias de origem, tão espanhol quanto português.
Durante os dias mais plásticos de minha formação universitária, nos Estados Unidos e na. Europa, - em Oxford e em Paris, além de frequentar museus antropológicos, fui a conferências e ouvi grandes mestres inglêses e da Sorbonne - tôdas essas influências atuaram no sentido de favorecer em meus estudos sociológicos e para-sociológicos tendências para a introspecção, para a auto-análise e para a andlise empática - empatia: palavra que me gabo de ter introduzido na língua portuguêsa - da gente com a qual passara a sentir-me tão particularmente identificado que, além do Brasil miscigenado e do Portugal semitizado pelo mouro e pelo judeu, também a Espanha, em grande parte moçárabe tão árabe como européia - começou a existir para minha curiosidade antropológica, e sociológica, como parte intensa do meu próprio ser; e susceptível de introspecção e não apenas de observação. Nisto segui o espanhol Vives: o Vives que Dilthey consideraria o principal fundador da Antropologia moderna.
Ao lado dos autores, científicos e técnicos de estudos sistemáticos de Antropologia e de Sociologia, li, como raros terão lido tanto, desde os meus primeiros dias de universitário, um gênero de literatura para-científica ainda hoje considerado mais curioso que valioso por certos caturras das Ciências do Homem: as relações de viagens da época em que se verificaram os primeiros contactos, sociológicamente significativos, entre europeus e não-europeus, isto é, do século XVI ao século XIX- Lendo-os é que comecei a considerar na literatura em língua Portuguêsa um Fernão Mendes Pinto acima de Luís de Camões, um Garcia de Orta acima do Padre Manuel Bernardes, um Gabriel Soares de Souza acima de um Frei Luís de Souza, um Antonil acima de um Bento Teixeira Pinto, um Frei Vicente do Salvador acima de um Rocha Pita. Lendo-os é que me fui defrontando com quase ignorados depoimentos de valor antropológico e sociológico sôbre o Brasil ameríndio e sôbre os primeiros contactos, no Brasil, de europeus com ameríndios e com áfricanos, em livros tidos apenas por pitorescos mas na verdade utilíssimos ao antropólogo moderno. O de Hans Staden, por exemplo. O de Jean de Lery. O do próprio André Thevet. Foi como se tivesse descoberto o mundo de conhecimentos que eu mais buscava para completar o saber teórico que vinha adquirindo de antropólogos, sociólogos e filósofos sistemáticos. Através dêsses livros de viajantes, pude sentir nas suas próprias raízes e na sua mais viva realidade com relação ao nosso país, problemas que vêm até o Brasil de hoje: problemas vindos das primeiras interpenetrações euro-ameríndias e euro-áfricanas: aquelas que nos dariam - comecei a verificar apoiado na mais idônea ciência antropológica moderna, e na sociologia mais ligada a essa antropologia - não só desvantagens como vantagens de caráter sócio-cultural.
Atingido este ponto, estava definida, para mim mesmo, não só uma das minhas vocações, como até uma das minhas missões: a de procurar fazer que os conhecimentos antropológicos e sociológicos por mim adquiridos, quer através de cursos científicos, quer através de cursos humanísticos, em alguns dos centros dos Estados Unidos e da Europa mais adiantados nessas especialidades, se tornassem o lastro ou a base de tôda uma, reinterpretação sistemática das próprias origens brasileiras; de revalorização do desenvolvimento pré-nacional e nacional do Brasil; de reorientação, do nosso próprio destino. Que me seja desculpado o modo ostensivamente autobiográfico e inevitàvelmente imodesto por que recordo tais fatos. Devo lembrar que desenvolvo aqui um tema que me foi quase impôsto pela Sociedade Hans Staden de São Paulo. Não verso assunto que eu próprio escolhesse, como se, pretendendo ser no ensaio antropológico ou sociológico, especializado, na interpretação do Brasil, o que José de Alencar foi no romance, especializado nessa mesma interpretação, desse modo pudesse me dar ao luxo de tragar uma espécie de apologia pro vita sua, semelhante ao "como e porque sou romancista" do grande cearense.
Não fui, aliás, o primeiro brasileiro que, estudante em universidades estrangeiras, se sentisse atraído, por fôrça, em grande parte, dessas circunstâncias, e favorecido, em grande parte, pela distância do seu próprio pais - para o estudo antropológico e sociológico do Brasil. Foi o caso, em plano bem mais alto, do grande paulista europeizado José Bonifácio de Andrada e Silva: aquêle a quem o Brasil deve sua independência política, pacífica e quase cientìficamente realizada. Foi o caso, do também paulista europeizado Luís Pereira Barreto discípulo, na Bélgica de sociólogos Positivistas e introdutor, no Brasil, de todo um grupo de novos conhecimentos, de novas curiosidades e de novas técnicas de estudo sociológico do próprio Brasil. Foi o caso do pernambucano Manoel de Oliveira Lima, discípulo em Lisboa do sociólogo de tendências também Positivistas, Teófilo Braga, e que, enriquecido por esses e outros conhecimentos, pôde escrever essa obra-prima de história social e de biografia sociológica, que é Dom João VI no Brasil e estabelecer todo um confronto sociológico entre a formação da América Latina e a da América Anglo-Saxônica. O caso, ainda, de outro pernambucano, Joaquim Nabuco, a quem a distância do Brasil deu, sendo êle ainda jovem, perspectiva sociológica para a compreensão de umas tantas situações brasileiras, em páginas que se incluem entre as mais notáveis dentre as escritas por brasileiro. E, ainda, o caso de Alfredo de Carvalho: semelhante a Oliveira Lima pela sua formação no estrangeiro e pelas tendências para-sociológicas dos seus estudos de história brasileira. E mais recentemente, o caso de Delgado de Carvalho.
Do mesmo modo, juntei, quando jovem, tais tendências e as especìficamente sociológicas, a estudo do passado social do brasileiro, em particular, e das gentes hispano tropicais em geral: as fixadas naquelas áreas onde vêm se desenvolvendo populações e culturas mareadas por um como vigor híbrido que nos faz acreditar em. significativas possibilidades, senão eugênicas, eutênicas, do seu futuro. Significativas principalmente neste ponto: em se constituirem em desmentido evidente a dois grandes mitos. Um, o de ser o trópico espaço, inadequado às formas mais altas de civilização, - as equivalentes da civilização, européia ou da civilização chinesa. O outro, o de ser o, mestiço de europeu com não-europeu - o caso de parte considerável da população brasileira - incapaz de preservar o essencial das formas mais altas de civilização recebidas de europeus e de orientais e de desenvolver dinâmica e criadoramente o essencial dessas formas, fazendo-as desabrochar em novas expressões de cultura híbrida, avigoradas pelo que há de vitalidade rústica e até de virgindade verde e jovem, em energias ameríndias e áfricanas aqui unidas às européias e orientais.
Venho sendo, como
aprendiz constante de sociólogo, mais cultor de uma sociologia
interpretativa - interpretativa e quanto possível sociologia em
profundidade - de situações, que de uma sociologia abstrata e
alheia ao específico, de tais situações, por um lado, ou,
por outro lado, de uma sociologia apenas estatística e sòmente
quantitativa, como a que vem sendo, profissionalizada em certos meios como a
verdadeira sociologia: a outra - é a orientação a que se
inclina o Professor Ralph Thomlinson no seu recente Sociological Concepts and Research (N. Y. 1965) - seria literatura ou
filosofia. Para êsse esfôrço interpretativo e sob
critério situacional, venho servindo-me de matéria de
preferência brasileira, mas não exclusivamente brasileira e sim
amplamente hispanotropical e até eurotropical, em geral; e recorrendo a
três fontes principais: à sociologia genética por
vêzes alongada em sociologia histórica; à sociologia
ecológica - no caso, ecologia tropical - partindo das antigas
áreas brasileiras do açúcar, e visando análises e
interpretações mais em profundidade
histórico-ecológica, do que em simples extensão
ecológica; sociologia psicológica, por vêzes especializada
em sociologia das relações, de sexo à base, ou não,
das de família, que tem condicionado alguns dos mais expressivos -
sociológicamente mais expressivos - contactos de europeus com
não-europeus: principalmente em espaços tropicais particularmente
favoráveis à liberdade e à variedade de contatos sexuais
entre indivíduos de etnias e de culturas diferentes.
Não devo
pretender ter, nas análises e tentativas de interpretação
de tais fenômenos, realizado sempre obra pioneira. De modo algum.
Vários antropólogos, os historiadores, os sociólogos, os
geógrafos que já os haviam considerado.
Eu, porém, me
aventurei a ir além, dêles no estudo antropológico de certas
origens e de certas projeções sociais. No estudo íntimo de
uns tantos desenvolvimentos psicoculturais. Daí o meu ensaio Casa-Grande & Senzala ter impressionado, ao
aparecer, os então ortodoxos da Sociologia praticada nos Estados Unidos
como trabalho herético, embora ao critico de The
Yale Review que se ocupou do assunto, de modo desassombrado, parecesse
imediatamente que a formação anglo-americana precisava de
sociólogo que a analisasse no tempo tanto quanto no espaço, como
se procurara fazer no livro brasileiro; e o critico marxista cubano Juan Antonio
Portuondo escrevesse que era preciso aplicar-se à análise da
América Espanhola o conjunto de métodos ao seu ver aplicado
pioneiramente, com relação a qualquer sociedade moderna, pelo
autor daquele ensaio brasileiro; e - ainda mais - Roland Barthes - que é
hoje, talvez, o maior dos criticos franceses de idéias - apontasse o
livro brasileiro como modêlo para uma interpretação
histórico-sociológica que ainda não fôra feita da
França: da estudadíssima França.
Novamente
peço que me sejam desculpadas tais referências aos meus
próprios trabalhos. Necessito, porém, de precisar o fato de que
não venho, de modo algum, como antropólogo-sociólogo,
aplicando ao Brasil teorias, f6rinulas e métodos já consagrados ou
estabelecidos noutros países; e sim procurando retirar dessas teorias e
dêsses métodos sugestões para novas tentativas de
relacionamento, de teorias - inclusive de teorias desenvolvidas por
sociólogos europeus e anglo-americanos - com situações
condicionadas pelo que me vem, parecendo ser uma realidade especificamente
brasileira dentro de uma mais ampla em sua especificidade: a hispanotropical.
Especificamente brasileiro no tempo e especificamente brasileira no
espaço sem que essa especificidade exclua afinidade com várias
outras situações: principalmente com as hispano-tropicais.
Através da identificação dessas afinidades é que a
sociologia caminhará para a sua autêntica universalidade. Nunca -
penso eu - seguindo-se passivamente num país o que vem resultando
válido noutro país.
Foi dentro
dêsse critério, procurando ousadamente lançar
sugestões para uma nova interpretação da
formação brasileira, que me empenhei em considerar
sociológicamente o negro áfricano, tal como êle se apresenta
na formação, na sociedade e na cultura brasileiras. Isto é,
menos sob o aspecto de um tipo étnico - o tipo étnico que haviam
principalmente considerado nêle Nana Rodrigues e, até certo ponto,
Sylvio Romero e João Ribeiro e entre os modernos, Artur Ramos - que sob a
forma de um negro situado ou condicionado: escravo, malungo, mucama.
Patriarcalizado. Abrasileirado. Negro, sim, mas principalmente brasileiro.
Adjetivamente negro; substantivamente brasileiro. Membro de um todo
sócio-cultural sôbre o qual agiu e influiu em vez de ter sido
apenas animal de carga ou máquina de trabalho, dando o caráter
antes patriarcal que industrial que venho procurando, mostrar ter sido
característico do sistema escravocrático no Brasil. Participante
de uma sociedade e de uma economia patriarcais. Contribuinte para uma nova
cultura. Dêsse critério apenas se aproximara vagamente o
hostoriador Joaquim Nabuco; e, dentre os modernos, o antropólogo Roquette
Pinto. Mas sem sistemática sociológica.
Quando organizei no
Brasil o Primeiro Congresso de Estudos Afro-Brasileiros fui considerado por
muitos bempensantes da época, simples e lamentável agitador.
Exagerado negrófilo com intenções talvez demagógicas
e até comunistas. Ilustre crítico literário e acatado
sociólogo que se tornara um, dos campeões mais veementes da
ortodoxia Católica no nosso país, foi além; e, em artigo de
grande repercussão nacional, chegou a recomendar-me e aos meus
colaboradores às atenções da polícia. Era
desnecessário. Já a polícia, por alguns dos seus sherloques
fantasiados de macumbeiros, me vigiava os contactos, a seu ver, demasiadamente
íntimos, com xangôs do Recife e candomblés da Bahia. Com
efeito, o babalorixá, formado em Lagos, na áfrica, Adão, do
Recife, me apresentara ao babalorixá Martiniano, da Bahia - o
único que Adão considerava da sua mesma estirpe sacerdotal - como
pessôa que a policia vinha acompanhando por ser - dizia êle -
"amigo verdadeiro dos xangôs" e querer dar aos verdadeiros
xangôs o direito de se reunirem livremente com seitas religiosas.
Já eu almogava, jantava e dormia em casa do babalorixá Adão
como se fôsse pessoa de sua casa. Procurava surpreendê-lo e aos seus
adeptos em tôda a sua intimidade cotidiana, sem trair a sua
confiança e a sua amizade. Juntava material para escrever-lhe a
biografia: uma biogratia sociológica. Isto apesar do atual Senador Afonso
Arinos de Melo Franco ter escrito num interessante mas, às vêzes,
leviano livro de memórias que, tendo visitado Pernambuco naqueles dias, -
onde foi hóspede, quase o tempo todo, ora de urn palacete de ilustre
engenheiro carioca, em missão naquela parte do Brasil, ora de um
interventor federal reconhecidamente arbitrário, sendo o mesmo Sr. Afonso
Arinos um melindroso liberal-democrata - soubera viver eu - segundo êle
parece supor, naquela época, literalmente "socialista", o que
é inexato - a bebericar água de côco com. uisque, como
qualquer elegante burguês; e a apenas contemplar de longe, com olhos de
diletante, a negralhada da terra. Sugestões lamentàvelmente
levianas. O que eu mais bebericava então era a brasileiríssima
cachaça, na intimidade quase cotidiana de amigos e de amigas, da plebe
mais plebéia do Recife. Pessoas quase tôdas de côr, nas quais
me habituei a admirar uma lealdade, uma integridade, uma firmeza na amizade, que
contrastam. com. as hipocrisias de muitos dos burgueses elegantes e dos
intelectuais sofisticados do Rio e de São Paulo, do Recife e da Bahia,
também meus conhecidos; - e meus convivas em tôrno de uisques e de
gins finos.
Como eterno aprendiz
de Sociologia - e é já notório o meu repúdio tanto a
cátedras permanentes de professor como ao título de mestre - tenho
procurado viver intensamente, empàticamente, profundamente, os meus
assuntos, vivendo tanto entre a plebe - e entre a plebe não como turista
mas comendo as suas comidas mais grosseiras e, quando jovem, amando suas
mulheres mais rústicas, dormindo nos seus mocambos, dançando suas
danças, bebendo suas cachaças - como entre elites: elites mundanas
e elites intelectuais. No Rio, cheguei a ser íntimo de Dona Laurinda
Santos Lôbo e frequentador tanto do seu salão de Santa Teresa como
da sua casa de Petrópolis, onde conheci os principais políticos,
embaixadores, diplomatas, escritores, artistas, do fim da Primeira
República brasileira. Frequentador fui, também, no Rio da mesma
época, do velho saldo da Baronesa de Bonfim. Hóspede, na Europa,
de castelos e de nobres como, na França, os Clement de Grandprey, de
Versalhes; colega, em Oxford, quando ainda adolescente, de alguns dos principais
futuros lordes da Inglaterra; companheiro, em Paris, ora de sindicalistas
anarquistas, ora de "camelots du roi"; frequentador de cafés de
artistas da "rive-gauche" de Paris e da Greenwich Village em Nova
York; confidente de homossexuais inveterados e de assassinos, um dêles, no
Recife, autor de várias mortes; fumador de maconha, com barcaceiros do
antigo Cais do Colégio, também do Recife.
Mas sempre opondo a
essas aventuras gregárias, rasgadamente heterogêneas, o corretivo
de períodos intensos de absoluta solidão. Solidão para o
estudo, Solidão para a meditação. Sem essa solidão
eu não existiria como arremêdo de sociólogo como sou;
não teria levantado as hipóteses de interpretação
que venho levantando para o possível esclarecimento do material reunido,
por mim próprio, nos meus dias de ativo participante da vida dos meus
compatriotas e dos meus contemporâneos de várias
situações sociais e de material semelhante ao meu, reunido por
outros pesquisadores; não teria chegado às
generalizações a que tenho ùltimaniente chegado, depois de
tanto ter hesitado em concluir e em generalizar.
Sem a
dissolução de mim mesmo nos outros, a que também me tenho
aventurado, com o risco de perder-me; sem a aventura de procurar cumprir de
certo modo as palavras do Evangelho - a de perder o indivíduo a vida,
para ganhá-la, perdendo-a - não creio que tivesse conseguido
realizar sequer o pouco que tenho de alguma maneira realizado como aprendiz de
sociologia camoneanamente empenhado em reunir saberes porventura feitos mais de
experiêneia do que de leitura. Experiênciais. Existenciais.
Empáticos. E às vêzes - raras vêzes - polêmicos.
O que tem sido inevitável tratando-se de autor de obra que surgiu
combatida, agredida violentamente, com seu autor de tal modo alvejado pelos
convencionais que chegou a ser o motivo principal de publicação de
uma revista quase tôda de insultos, à sua pessoa. Campanhas a que
venho sobrevivendo. Tenho sido assim, como sociólogo, como
antropólogo, como escritor, urn intelectual à maneira
hispânica - pessoal e até, sendo preciso, polêmico, - e
não um homern de letras à moda francesa ou à maneira
inglêsa.
Compreende-se que
haja quem me considere apenas sociógrafo. Sociógrafo, sim,
sociólogo, não. Há quem vá além e
reconheça irônicamente em mim um saciólogo: nunca um
sociólogo.
Explica-se: não há hoje um conceito
absoluto do que seja sociólogo. Há muitas e contraditórias
concepções do que seja sociologia, e do que seja sociólogo.
Para uns, sociólogo é apenas, aquêle que faz sociologia
matemática ou estatística. Para outros, o teorizador do social.
Uma terceira corrente de opinião entende por verdadeiro sociólogo
o individuo empenhado em sociologia prática: análises
estatísticas, em inquéritos políticos, em serviço
social até "Sociology is what sociologists teach" - é a
conclusão a que chegaram há alguns anos os Professôres,
Raymond Kennedy e Ruby Jo Kennedy nos próprios Estados Unidos.
No meio de tamanha
confusão, explica-se que, para alguns, eu não seja, nem tenha
direito a pretender ser sociólogo. Mas a êsses pode-se muito bem
perguntar: que é sociólogo? Pois não se conhece até
agora resposta exata a essa pergunta. Daí, a despeito do seu pendor
cientificista, o Professor Ralph Thomlinson admitir em. seu recente Sociological Concepts and Research "Presence of a
scientific approach does not necessarily eliminate other approachs to the field:
indeed sociology has benefited greatly from nonscientific thinking and appears
destined to continue to do so for many years". Mesmo porque o que é
científico em sociologia vem variando talvez mais do que o que não
é científico, mas humanfstico.
Considero-me,
é certo, antes escritor do que sociólogo e mesmo do que
antropólogo. Minha, formação universitária foi
sistemáticamente, em seu período de estudos pós-graduados,
a do cientista social; e é essa formação sistemática
que tem estado a serviço da minha vocação maior, que
já era então, e vem sendo, na vida prática, e
profissionalmente, a de escritor, sem que por êste motivo repudie, nos
momentos justos, aquêles meus estudos sistemáticos e os graus
universitários que a êles correspondem. Não só tem
estado a serviço dessa vocação aquela minha
formação como o fato inteiro de, a despeito de vir recusando
sempre cátedras permanentes de Sociologia, de Antropologia e de
Filosofia, em universidades do país e do estrangeiro, vir procurando
conservar-me, quanto possível, atual e de todo em, dia, com os
desenvolvimentos nos estudos científica e filosòficamente sociais.
Não poderia ser de outro modo, dadas as minhas responsabilidades de
membro, quer do Conselho Diretor dos Cahiers
Internationaux de Sociologie, ao lado de mestres que muito acato, quer do
Conselho Diretor de Diogène, revista de
Filosofia e de Ci6ncias do Homem publicada em Paris e hoje editada em seis
línguas; e também de membro honorário e perpétuo da
Sociedade Americana de Sociologia, com direito a participação em
tôdas as suas atividades e constantemente solicitado a essa
participação efetiva. Semelhante situação parece
explicar ter sido o escolhido, para minha grande surprêsa, pela
Organização das Nações Unidas, para o consultor
internacional, como antropólogo e sociólogo, que orientasse essa
organização a respeito de problemas de relações de
raças e de culturas na União Sul-áfricana; ter sido
escolhido um. dos quatro conferencistas principais da Reunião Municipal
de Sociólogos de Amsterdam, em 1956, ao lado de Von Wiese, Morris
Ginsberg e Georges Davy; e ter sido considerado, para meu espanto, objeto de
todo um seminário, no Castelo de Cerisy, na França, também
em 1956, no qual se analisou principalmente minha atividade de sociólogo
e de antropólogo, embora a de escritor, a de pensador e a de
filósofo, fôsssem também analisadas pelos participantes do
seminário Gouhier, Gurvitch, Bastide, Bourdon e outros mestres da
Sorbonne, com aquela argúcia que os franceses não perdem no trato
de assuntos intelectuais.
Quem assim reconhece
sua condição híbrida de talvez escritor e de
possível sociólogo, considerando-se principalmente escritor, por
ser esta a condição que vocacional e profissionalmente o define,
mas de modo algum repudiando sua formação sistemática de
cientista social, não se julga prejudicado pelo fato de escrever -
segundo alguns - "literàriamente", quando se ocupa. de assuntos
sociológicos e antropológicos. Ou pelo fato - para alguns ainda
mais grave - de admitir em sua Sociologia ou em sua Antropologia o elemento
humanístico ou filosófico, como complementar, em certas
áreas de indagação, do científico. E tendência
hoje vitoriosa; e representada não só por mestres como Simmel,
Ruth Benedict e Robert Redfield como por jovens cientistas sociais do valor de
um Robert Spencer e de um Jean Duvignaud.
Numa e noutra
atitude me encontro, aliás, em companhia ilustre. De Simmel - um dos
maiores sociólogos alemães - muito se disse que escrevia
literàriamente; e o mesmo se diz hoje do francês Roger Caillois, do
inglês Julian Huxley, do anglo-americano Lewis Mumford, do espanhol
Julíán Marías, que são, entretanto,
inevitàvelmente importantes pelos aspectos especìficamente
sociológicos de sua atividade intelectual.
Quanto a escrever
literàriamente sôbre assuntos antropológicos e
sociológicos, não parece ser pecado nefando sendo aos olhos dos
que, não podendo correr o mesmo risco - o de serem a um tempo cientistas
e escritores - glorificam, num evidente esfôrço de
compenção à própria impotência
literária, o cientista que se exprime cacogràficarnente; e exaltam
nêle o tipo ortodoxo ou a expressão única de cientista. No
que parece haver certo excesso de cientificismo disfarçado em zêlo
por Ciência com C maiúsculo: a mesma a que repugnaria - segundo
tais cientificistas - qualquer amor, mesmo crítico, da parte de um
cientista social, à gente ou à terra por êle considerada
pátria; e cujo estudo importe naquela preocupação do
analista. corn essa terra e com essa gente que entre os russos de outrora chegou
a ser quase uma mística, sem daí ter resultado uma sociologia ou
para-sociologia que por ser animada dêsse amor deve ser hoje considerada
essencialmente anti-científica. O caso, entre nós, brasileiros, de
obras sociológicas, ou para-sociológicas, como a de José
Bonifácio, a de Joaquim Nabuco, a de Euclydes da Cunha, a de'
Jaoddoe Ribeiro, a de Sylvio Romero, a de Oliveira Lima, a de Alberto Torres, a
de Oliveira Viana, a de Pontes de Miranda, a de Gilberto Amado.
Como e porque sou sociólogo. II
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"The great classical sociologists from Marx to Veblen, Weber, Simmel, Durkheim, and Mannheim were inveterate sociological poets. While they each gave system its due, they each responded to the demonic quality of history". Maurice R. Stein
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Se sou
sociólogo como até certo ponto admiti ser - sou antes um visual
que um abstrato na minha sociologia. Em têrmos tècnicamente
pictóricos, antes um expressionista que um impressionista, embora os dois
modos de ver se completem quase sempre em minha modesta visão dos homens
e das coisas, da mesma maneira que nela, literalmente, se completam, conforme
constatação em laboratório de um especialista ilustre, o
ver bern de perto por um dos olhos e o ver bem de longe, pelo outro. Os dois
conservam-se, ainda segundo testes de laboratório, excepcionalmente
jovens com relação ao velho que já sou e no desempenho de
funções assirn diversas: a de ver bem de longe e a de ver bem de
perto. São funções diversas porém complementares - a
de ver bem o distante e a de ver bem o imediato - ajudando-se sempre uma
à outra, em quem é assim duplo na visão. Se aos sessenta e
tal anos, não preciso de usar óculos nem para ler, nem para
escrever, nem simplesmente para ver, é que a visão dupla pode
resistir melhor ao tempo que a singular. Talvez precise breve de usar
monóculo - como outrora meu Pai - para urn melhor ajustamento, entre as
duas visões; e evitando, o que os óculos sugerem de
acadêmico ou de professoral, embora correndo o risco de parecer esnobe ou
arcaicamente anglomaníaco.
A aversão a
quanto seja convencionalmente acadêmico, pedantemente professoral e
ostensivamente doutoral tem sido uma das minhas constantes; e, talvez, para tal
preconceito - se é que chega a ser preconceito tem concorrido o
excepcional vigor da visão que me vem. permitindo um modo tão
natural e direto de ver, em contraste com os que só enxergam o quer eu
vejo a olho nu, através de óculos e de pince-nez. Tenho a impressão - aqui já entra o
preconceito - de que os que só vêem. ou só tem visto o mundo
através de um pince-nez - Ruy Barbosa, Bilac,
Martins Júnior, dentre brasileiros ilustres do passado - são ou
têm sido intelectuais apenas de gabinete; livrescos; prejudicados na sua
visão direta dos outros homens e das coisas por deficiências nada
insignificantes de poder visual. Não importa, porém, minha
aversão ao academismo, mais hirto, em preconceito sistemático
contra as academias e contra as cátedras, em. geral: academias, e
cátedras cuja necessidade sou o primeiro, a reconhecer. Apenas
reconheço, também que à saúde intelectual de um povo
como o brasileiro, convém a presenga de indivíduos que não
sendo anti-acadêmicos, sejam inacadêmicos; e não sendo
adstritos a cátedras ou sequer a instituições oficiais ou
particulares de ensino superior, pertençam, ainda assim, à familia
universitária, como certos tios solteirões e nômades
pertencem a familias estabilizadas e sedentárias.
A esta altura devo
lembrar mais uma vez que, ao contrário do que escreveu há pouco e
levianamente em ilustre jornal de Buenos Aires, um seu correspondente do Rio de
Janeiro, orgulho-me da toga universitária que em mim chega a ser, como em
vários outros, uma segunda pele, tão longa e sistemática
foi minha formação universitária no estrangeiro e em
universidades idôneas, através de estudos, despreocupados de graus
ou títulos de bacharelado, mestrado, e doutorado; tão
freqüentes têm continuando a ser, depois de tôda essa
formação severamente acadêmica, meus contactos, como
professor antes extraordinário do que ordinário - e de passagem
devo dizer preferir ao tratamento de professor, tão majestoso aos ouvidos
europeus, o simples, de doutor, à moda brasileira - de universidades,
quer nacionais quer estrangeiras. As matérias que tenho profesado
extraordináriamente nessas universidades - recusando sempre
cátedras e até convites para longas permanências nesta ou
naquela universidade - têm sido, quase sempre, menos a Sociologia que a
Antropologia, a Filosofia e a História Social; e também, ao
contrário do que de ordinário se supõe entre os
brasileiros, os convites, que me vêm sendo feitos quase sempre têm
sido para que discorra pura e simplesmente sôbre aquelas matérias:
eu é que sempre procuro introduzir na discussao delas exemplos sendo
especìficamente brasileiros, hispânicos ou ibéricos; e
ùltimamente hispano - ou lusotropicais. Mas não entrarei aqui na
consideração da sistemática tropicológica,
hispanotropicológica e lusotropicológica que venho propondo, em
trabalhos recentes, a tropicalistas dispersos; a estudiosos
assistemáticos dos problemas de relações de europeus com
não-europeus: de brancos com povos de côr. E que é uma
sistemática de caráter ecológico-social já acolhida
em enciclopédias idôneas, comentada favorávelmente em
revistas autorizadas, aprovada por conclaves de cientistas ilustres. Sua
"originalidade" e suas "possibilidades" foram há
pouco destacadas pelo Osservatore Romano num artigo mais honroso para a Antropologia filosófica e
as sociologias de Cultura e de Hist6ria cultivadas no Brasil que simplesmente,
para o autor da teoria. Teoria da qual, entretanto, se tem sussurrado, entre
certos intelectuais brasileiros e entre alguns portuguêses ser
"idéia que já estava de todo no ar"; e apenas
apresentada como inovação pela audácia de quem criou os
neologismos Tropicologia, Hispanotropicologia e Lusotropicologia.
Repito que
não entrarei aqui na consideração de tal assunto. É
tema para trabalho à parte. Nestas notas me limitarei a recordar que, ao
aparecer, no Brasil, o meu primeiro livro, e êste de caráter
sociológico - embora com pretensões também a obra de
literatura muito se disse, em alguns meios, tratar-se de obra anti-brasileira,
anti-nacional, anti-religiosa, anti-Católica.
Que houvese nela
alguma coisa de vulcânicamente anárquico, concordo. Mais: alguma
coisa de devastador, de destruidor, de violento, de rebelde, de contrário
ao estabelecido, ao aceito, ao consagrado. Alguma coisa - dentro dos seus
limites, é claro - de picassiano, no sentido de ter procurado queimar,
com relação ao Brasil e à sua civilização
luso-cristã, muito do que se vinha adorando; e de redescobrir para
valorizar muito do que se vinha senão sempre queimando - literalmente
queimando, como no caso do queima, logo após o 13 de maio, de
papéis relativos à escravidão: crime de que não,
é fácil de separar-se o nome do insigne Ruy Barbosa -
escondendo.
Foi aquêle
livro, um esfôrço, grande demais - admito - para ser realizado por
um só indivíduo - e daí suas deficiências - no
sentido dêsse redescobrimento, às vêzes violentamente
indiscreto, de elementos negados ou ocultados, da formação
étnica e social de um povo moderno; urn esfôrgo, repita-se, dentro
dos seus limites, com alguma coisa de picassiano, no seu afã de desfazer
para refazer; de combinar de modo nôvo elementos convencionalmente
hierarquizados; de reconstituir, para procurar articular o passado
reconstituído com o presente e até com o futuro, tentando libertar
presente e futuro da projeção sôbre êles de um
estreito passado; de criar para essas interrelações nunca dantes
tentadas uma nova dimensão.
Devo, a esta altura
procurar esclarecer porque em. minhas tentativas de interpretação
sociológica da formação e do ethos brasileiros, comecei por uma simplificação
aparentemente arbitrária: a de considerar o Brasil não só
colonial, em particular, como patriarcal, em geral, expressão, com as
evidentes variantes regionais, de sua mais antiga estabilização
agrária: a que se verificou na parte setentrional do país,
estendendo-se da Bahia ao Maranhão e tendo em Pernambuco o seu primeiro
reduto de sistema familial de economia e de organização social e o
Rio de Janeiro como sub-região sociológica desgarrada do
maciço setentrional apenas geográficamente. As conclusões
de análises sociológicas são tôdas no sentido de ter
se verificado essa estabilização desde o século XVI,
simultâneamente com o nomadismo bandeirante desdobrado no mineiro.
Só no século XVIII se verificaria uma estabilização
mineira, em tôrno tanto de cidades episcopais como de fazendas
patriarcais; e só no comêço do século XIX se
verificaria uma estabi lização paulista de estilo agrário.
A essas duas estabilizações mais recentes, sob vários
aspectos substanciais, distintas da primeira, se comunicaram formas familiais e
patriarcais de convivência quer hierárquica, quer
democrática, desenvolvidas naquela região mais antiga de
estabilização agrária e patriarcal.
Outra
simplificação, esta simbólica, a que recorri de
início nos mesmos estudos foi a que se manifestou na expressão
"casa-grande & senzala" para designar o complexo, ao meu ver, mais
característico, da formação patriarcal e
escravocrática do Brasil: do Brasil inteiro e não apenas de um dos
Brasis. Seguiu-se a expressão, também simbólica,
"sobrados e mucambos" para caracterizar a antítese em que,
desde o século XVIII se vem intensificando mais nuns Brasis do que
noutros, o que havia de tendências de conflito entre extremos, a despeito
de pendores para acomodação entre os mesmos, dentro daquele
complexo colonial prolongado em várias sub-regiões em complexo
nacional. E mais recentemente, intitulei nôvo ensaio, na mesma
série de estudos, de "Ordem e Progresso", procurando sugerir as
possibilidades de sintese que se vêm deixando surpreender na fase
já republicana do desenvolvimento brasileiro, através de maior
interpenetração das várias culturas e das várias
etnias que desde o comêço do século XIX concorrem
conjuntamente - as ibéricas, as ameríndias e as áfricanas,
- para a atual sociedade e para a atual cultura brasileiras. Creio que em nenhum
dos três casos a tentativa de simplificação
simbólica, a despeito - admito de geométrica - espécie de
cubismo hitórico-sociológico - sôbre que se têm
realizado aquêles estudos, implicou em simplismo ou em
negação da complexidade da matéria considerada em
dimensão audaciosamente nova e sob perspectiva também
atrevidamente nova.
Uma
caracterização pejorativa que se tentou já fazer do meu
modo de ser sociólogo é a de romântico.
"Sociólogo romântico", chegou a dizer do coitado de mim o
Professor Artur Ramos que nunca me perdoou a crítica que Ihe fiz, por
dever de ofício - organizava-se uma universidade no Rio de Janeiro e eu
concordara em chefiar o seu Departamento de Antropologia, Psicologia Social e
Sociologia - de pretender apresentar como programa universitário de
Psicologia Social simples programa de Psicanálise pouco mais do que
clínico. A despeito de um mestre do porte de Roquette Pinto ter saudado o
primeiro dos meus trabalhos de caráter sociológico publicado em
forma de livro, como clássico, - ou talvez por isto mesmo - Ramos e
outros oficiais do mesmo ofício procuraram durante algum tempo
caricaturar-me como um desvairado romântico em literatura
sociológica ou antropológica.
A
caracterização pura e simples de "romântico"
não me ofende; ao contrário, agrada-me. E com Pio Baroja, mestre
no assunto, não a considero incompatível com a de realista; nem
mesmo - acrescentarei a Baroja - com a de clássico, a não ser que
se pretenda fazer o clássico coincidir com o aristotélicamente
ordenado. Sempre me inclinei a certa desordem na apresentação, da
matéria sociológica ou antropológica que tenho reunido e
procurado interpretar em livros, como que instintivamente certo de que a muita
ordem é, nos livros que lidem com a chamada natureza humana, inimiga da
vida: a vida que procuro com o maior afã conservar nos mesmos livros.
Daí alguns críticos irem ao extremo de me considerarem. por
vêzes "romanesco": outra caracterização que
não me desagrada de todo, sabido como é que entre o método
com que um antropólogo-sociólogo ou um
sociólogo-historiador da espécie de Max Weber, de Dilthey, de
Malinowski, de Margaret Mead ou de Trevelyan lida com seus objetos de estudo e o
do romancista do tipo de Defoe, Proust, de Joyce (até Ulysses) de
Tolstoi, de Valle Inclan, de Unamuno, de Machado de Assis - o que se especializa
em romances romanescamente biográficos ou em biografias em profundidade
há vários pontos de coincidência: precisamente aquêles
que importam em acrescentar o antropólogo ou o
historiador-sociólogo quase tanto quanto o romancista, alguma coisa de
empático - de imaginativamente empático - às suas
tentativas de compreensão ou apreensão da realidade por êles
considerada, umas, tentativas - as do antropólogo-sociólogo -
condicionadas pelo conhecimento objetivo dessa própria realidade nas
áreas alcançadas, ou susceptíveis de ser alcançadas,
por êsse conhecimento, outras, pela verossimilhança dentro da qual
se tem que necessàriamente mover o romancista daquele tipo. êsse
modo de conhecimento, alguns o têm chamado de
"psicológico", outros, de "poético", pelo que
há nêle de criação, no sentido germânico, da
parte de quem assim procura reconstruir uma realidade e interpretá-la.
Foi êste um dos temas versados no seminário em tôrno dos meus
trabalhos que em. 1956 se realizou no Castelo de Cerisy, na França, por
iniciativa do Professor Gouhier, de Filosofia, da Sorbonne, com. a
presença de outros mestres da Universidade de Paris e de vários
outros pensadores e cientistas sociais, tendo havido concordância entre os
participantes quanto à autenticidade ou legitimidade de um conhecimento
poético nos estudos sociais, que suprisse o conhecimento objetivo, em
áreas impossíveis de ser alcançadas por êsse tipo de
conhecimento.
"Si se quiere
hablar, pues, de filosofia actual, hay que hablar de literatura", escreve
Julíán Marías num dos seus sugestivos ensaios -
precisamente o que se ocupa de "la novela como método de
conocimiento"; e pensando, sem dúvida, no fato de filósofos
sistemáticos como George Santayana e Bertrand Russell terem recorrido no
fim da vida, tanto quanto Unamuno a vida inteira, à literatura de
ficção, para exprimirem mais a gôsto certos aspectos da sua
filosofia; e fazendo da literatura, não uma atividade independente da sua
filosofia, mas uma forma de expressão "en estrecha conexión
con ella". Pode-se dizer quase o mesmo da moderna ciência social que,
em páginas como as melhores de Margaret Mead e de Claude Levy Strauss -
adquire sabor literário de romance sem perder sua autenticidade
antropológica ou sua virtude científica, tendo sido os dois, neste
particular, antecipados magnificamente por Lawrence da Arábia. Se
é certo do romancista de certo tipo que se utiliza de um saber que
não é - como adverte Marías - "riguroso conocimiento
conceptual, pero no por eso menos efectivo", podendo tornar-se êsse
saber, uma vez clarificado, "ciencia rigurosa, susceptible de incorporarse
luego al conocimento general que puede lograrse del hombre", é
evidente que da mesma espécie de saber pode vir a utilizar-se o
antropólogo ou o sociólogo de sistemática
formação científica, que se sinta capaz de suprir por
êsse meio deficiências dos métodos convecionalmente
científicos do conhecimento do Homem ou da Sociedade ao seu dispor. Pode
tornar-se, então, como Lawrence da Arábia se tomou, mais um
escritor literário do que um pesquisador científico, embora o
escritor, em tais casos, dependa, para a substância básica do seu
saber, do cientista; e seja impossível separar de todo um do outro. Essa
fusão raramente ocorre; e não é difícil de dizer-se
porque: porque é raro o indivíduo capaz de suprir pelo
conhecimento poético, e, em casos como o de Lawrence, pelo gênio
literário, as deficiências de métodos convencionalmente
científicos à disposição de sua particular ou
especial ciência.
Unamuno detestava o
que considerava "sociologia"; e tinha pelos sociólogos do seu
conhecimento um desdém fácil de ser compreendido. Para Unamuno
saber era em grande parte intuir; e o saber sociológico lhe parecia a
negação dêsse saber, em grande parte intuído; e
tolerante, por isto mesmo, até de contradições: "suele
buscarse la verdad completa em el justo medio por el
método de remoción, via remotionis,
por exclusión de los extremos, que com su juego y accion mútua
engendran el ritmo de la vida..." Donde já se ter dito que, para
Unamuno, nada era verdade que não estivesse
sendo verdade. Preocupado com essa verdade em
constante movimento - movimento, entre extremos com tendências a
estáticos - parecia-lhe duvidosa a verdade que qualquer ciência do
homem pretendesse reduzir a esquema rígido e a exatidão
matemàticamente apolínea: a dos sociólogos Positivistas,
por exemplo. Creio, porém, que não lhe faltaria simpatia por
aqueles antropólogos e sociólogos modernos que também se
empenham em captar, em suas obras, aquela verdade que está sendo, ou vem
sendo, verdade, através de diferentes expressões do comportamento
social do Homem: a captada por Simmel em estudos hoje clássicos, embora
com o seu que de românticos sôbre a sociologia da moda; a
surpreendida por Ruth Benedict em povos "dionisíacos"
diferentes dos "apolíneos" em sua cultura de primitivos; a
encontrada por Roger Caillois em sua análise sociológica da
novela; a apresentada por Jean Duvignaud em sua "sociologia do teatro"
e por Roland Barthes em seu notável ensaio sôbre a moda como
sistema.
Dada certa simpatia
da minha parte, pelo anti-sociologismo de Unamuno - serei sociólogo?
Terei o direito a considerar-me sociólogo ortodoxo? Ou serei
Sociólogo apenas pela metade, a outra metade sendo constituída
pelo que há em mim de antropólogo ou de historiador ou de pequeno
filósofo ou de inveterado escritor?
Já houve -
repito - quem dissesse humorísticamente de mim que sou antes
saciólogo do que sociólogo. A caricatura não é de
todo má.
Eu próprio
admito ser antes um saciólogo que um sociólogo no sentido de
seguir, no versar de temas sociológicos e antropológicos,
intuições pessoais e observações diretas; e de
combinar métodos nunca dantes combinados de preferência a seguir
teorias já estabelecidas, métodos puros, técnicas
ortodoxas. Poderia até repetir Unamuno: "No quiero engañar a
nadie en dar por filososofía lo que acaso no sea sino poesía y
fantasmagoría, mitología en todo caso." Mais poderia repetir
do inclassificável espanhol de Salamanca: "Nunca pagaré de
un pobre escritor mirado en la república de
las letras como intruso y de fuera por ciertas pretensiones de científico
y tenido en el imperio de las ciencias por un intruso también a causa de
mis pretensiones de literato".
O que espero
é, uma vez desaparecido, encontrar um Julíán Marías
que surpreenda nos meus pobres escritos um pouco do que Marías vem
surpreendendo nos de Unamuno: a presença de alguém que
através de um método talvez mais essencialmente podtico que
convencionalmente científico de interpretação da realidade
humana, viu, sentiu e pensou coisas novas, ou insuspeitadas, sôbre a mesma
realidade, tendo sido, portanto, um criador; e viu, sentiu e pensou, além
disso, de nova forma, coisas antigas; e não sòmente viu, sentiu e
pensou tais coisas, umas novas, outras de modo nôvo, como fêz que
outros as vissem, sentissem e as pensassem de modo também nôvo.
Há quem
suponha que, contra a vontade de quantos me negam o título de
sociólogo, eu já seria hoje, pelos meus trabalhos e pelos
trabalhos que tenho suscitado, uma figura inevitável - na história
da sociologia não só brasileira como geral; não só
científica como filosófica - a que se confunde com a antropologia
concebida por Kant. O que, se fôsse exato, não me impediria de
desejar ser igualmente, por direito próprio, figura inevitável na
história da literatura em língua portuguêsa, vivendo, assim
- dentro de modestos limites, é claro aquela vida dupla e até
múltipla que hoje vive Unamuno, citado entre escritores literários
e poetas tanto quanto entre filósofos e místicos; e uma vez por
outra lembrado pela sua ação sendo política, cívica,
de homern independente de partidos e de ideologias.
Mais sôbre
Unamuno: detestava êle a sociologia embora não concebesse
compreensão do atual que desprezasse o intra-histórico. E
não podendo recorrer à sociologia existencial, substituiu-a por um
tipo também existencial de romance ou de novela a um tempo
biográfico e intra-histórico, com personagens para o autor
tão reais como êle próprio. Sou dos que pensam. que é
possível desenvolver-se uma história sociológica -
existencialmente sociológica - através de métodos
empáticos com que o autor participe, ou tente participar, de vidas,
porventura simbólicas, de umas tantas figuras já desaparecidas nas
quais se teriam encarnado de modo mais tipico tendências ou
situações ou idealizações - mitos, até
caracteristicas de uma época ou de uma cultura.
Sob êsse
critério, creio ter sido o primeiro a destacar, - em 1925 - como figuras
simbólicas de longos e significativas periodos de existência
brasileira, o menino de engenho; o bacharel mulato ou pobre, em ascensão
social; o amarelinho - êste um mito feito carne. Isto para citar
três exemplos e para sugerir as possibilidades do método
empático que, utilizado em obras de história existencialmente
sociológica, aproxime êsse tipo de literatura sociológica,
condicionada pela realidade que Unamuno chamaria intra-história, do
romance existencial, em que os personagens se revelam, biográfica e
intra-históricamente, com uma liberdade muito maior, é claro, de
expressão, que no primeiro gênero de literatura. Ainda a
propósito de Unamuno, poderia ser aqui recordado seu conceito quase
sociológico de ser o mito revelação de uma verdade que
sendo irracional e não podendo ser provada, não deixa de ter valor
para quem - acrescente-se ao pensador espanhol - conceba a sociologia
existencialmente, sem que tal concepção importe em adesão a
qualquer seita filosófica: e exprima. apenas um sentido de vida que
supere o dos puros lógicos para incluir o psicológico e
até, em seu sentido lato, o poético.
Tenho sido sociológico, muito mais vendo
sociològicamente o social, do que lendo a respeito os escritos de outros
sociólogos. Tenho lido muito. Duvido que haja sociólogo de
importância que eu tenha deixado de ler. Mas tenho visto ainda mais do que
lido. Visto do Brasil tôdas as suas regiões mais
características. Visto do mundo vários paises, vários
costumes, vários ritos vários tipos de homem, de mulher, de
criança, várias formas de casa. Visto algumas dessas formas de
homens e de casas, desenhando-as. Fixando-as mais em desenhos do que em
palavras. Tenho me valido, para tanto, de um gôsto pelo desenho que ainda
muito pequeno, nos meus primeiros anos de menino em idade escolar foi bem maior
do que meu quase nenhum entusiasmo por ler, escrever e contar; e também
de lições recebidas do velho Telles Júnior e principalmente
do inglês Mr. Williams. Enchí cadernos com garatuja das coisas que
via antes de enchê-los com os rneus primeiros escritos: aquêles em.
que, já aos onze anos, tentei descrever o que meus olhos iam descobrindo
de nôvo. Já, pelo desenho, tentara fixar outros descobrimentos: o
primeiro navio a vela, o primeiro engenho bangê, a primeira jangada, o
primeiro frade capuchinho, a primeira locomotiva, o primeiro carro de boi, o
primeiro coche fúnebre, a primeira ponte sôbre o rio Capibaribe, a
primeira môça vestida de noiva, o primeiro menino morto enfeitado
de flôres, o primeiro "anjo" de procissão dos Passos, o
primeiro inglês com raquete de tênis, o primeiro palhaço de
circo de subúrbio, o primeiro avião.
Vários dos
meus livros têm sido ilustrados por alguns dos melhores artistas
brasileiros. à base, porém, êsses desenhos, de rascunhos
meus; rascunhos com pormenores, como o do mapa do Engenho Noruega, desenhado e
pintado magistralmente por Cícero Dias; como as vinhetas e o perfil de
sobrado patriarcal desenhados por Lula Cardoso Ayres para Sobrados e Mucambos.
Fixei em desenhos -
alguns publicados, outros perdidos - minhas impressões de adolescente de
Rabindranath Tagore, de William Butler Yeats, de Amy Lowell, do Presidente Taft,
do General Foch, de Eduardo, Príncipe de Gales, de outras figuras
ilustres que conheci pessoalmente, conversando com êles ou só
ouvindo-os, quando estudante; e como estudante de universidade, recebi dos
professôres de Biologia e de Geologia - matérias em que me iniciei,
para sôbre essa iniciação apoiar o estudo, que cedo me
seduzira, das Ciências do Homem - elogios aos desenhos com que procurei
cumprir meus deveres de aluno, de tais matérias: desenhos, os de
Biologia, de microscópio, e de pormenores de formas de animais e de
homens, que exigiam dos olhos o máximo de sua capacidade de ver, de
observar e de discriminar. Excelente exercício para um futuro estudante
de Ciências do Homem, êsse, de desenhos biológicos de
microscópio e de laboratório e geológicos, de campo.
Exercício disciplinar da visão que em mim, entretanto, sempre
resistiu ao império completo de tal disciplina, reservando-se o direlto
de deformar ou exagerar, para acentuar o típico, o simbólico, o
significativo para o esfôrço de interpretação da
realidade em que me empenhasse. Expressionismo ainda hoje característico
de meu modo de ser sociólogo. Expressionismo que também se
encontra nos "tipos ideais" de Weber e nos tipos psico-sociais de
Benedict.
Como e porque sou sociólogo. III
|
"...la sociologie semble offrir un domaine d'analyse et de comprehension dont lhorizon parait être celui d'un humanisme qui respecte la variété, la relativité et l'infinité des situations où l'homme d'aujourd'hui est engagé". Jean Duvignaud
|
Há quem me
venha censurando o modo de ser sociólogo, por não ser o grandioso,
que se especialize nas grandes generalizações, mas ir ao extremo
oposto: o de descer a pequenos e, para êsses críticos,
desprezíveis pormenores. Dai os reparos desfavoráveis que
têm sido feitos à minha preocupação, com as pequenas
expressões de vivência e de convivência cotidiana: aquelas
que só se surpreendem, considerando-se no passado íntimo de um
grupo humano - no caso, particularmente, o brasileiro - o cotidiano
doméstico, a higene caseira, a culinária; e em homens, em
mulheres, em meninos, participantes dêsse viver cotidiano, seus jogos,
seus passatempos, seus brinquedos, seus grandes e pequenos vícios, as
predominâncias de estilos de trajo e de penteado, de formas de
retórica, de ritmos de dança, que concorram para caracterizar suas
relações com certo meio e com certo tempo social. Dizem uns,
não ser essa preocupação própria de um
sociólogo mas de um antropólogo ou de um historiador social:
crítica que não me incomoda por considerar, no caso da
análise e da interpretação de um grupo ou de uma sociedade
como a brasileira, cujo passado intimo precisa de ser estudado tanto
histórica como antropològicamente, para ser interpretado
sociològicamente, essencial ao sociólogo a base
histórico-social a antropológica.
Para outros, o que
merece crítica nesse meu afã é sua frivolidade mesma:
preocupar-se um indivíduo com pretensões a sociólogo com
assuntos de cozinha, com intimidades de alcova, com brinquedos de menino, com
penteados de mulher, com barbas de homem. É um dos aspectos da minha
pobre sociologia, humildemente antropológica e às vêzes
pedestremente histórica, que mais áspera indignação
tem provocado, da parte do também sociólogo e também
historiador brasileiro, igualmente especializado no estudo de assuntos coloniais
e sociais do Brasil, que é o ilustre colega Nelson Werneck Sodré:
infelizmente mais marxista não só em sua sociologia como em seu
modo de ser historiador do que seria hoje o próprio Marx. Foi Mestre
Sodré quem mais estranhou o fato de num livro das pretensões de
Sobrados e Mucambos sair-se o autor - jà um tanto ridiculo por ter
escrito e publicado um livreco de receitas de doces, dando-lhe à
introdução o aspecto de ensaio para-sociológico - com
tôda uma página acêrca de barbas de homem e de penteados de
mulher, êle próprio, autor, ilustrando, com seus gatafunhos,
à base de minucioso estudo de daguerreótipos e de fotografias da
primeira metade do século XIX brasileiro, as predominâncias de
formas de penteado e de barba entre os brasileiros de classe senhoril.
Escandalosa frivolidade, denunciou o austero marxista com a tendência para
o puritanismo que por vêzes caracteriza os marxistas mais convencionais;
e, por isto mesmo, mais distanciados do verdadeiro Marx.
A verdade é
que me encontro em companhia ilustre. Outros analistas e outros
intérpretes do comportamento humano têm resvalado nas mesmas
frivolidades. Simmel escreveu todo um longo ensaio sôbre a sociologia da
moda. Não nos falta sequer, aos que assim procedemos, justificativa
filosófica da parte daqueles filósofos que são, desde
velhos dias, adeptos do estudo do que seja considerado "existencial"
ao lado do que seja glorificado como "essencial" nos homens.
Não se trata - nesses filósofos - de existencialismo
sectário mas de preocupação com o existencial. É o
caso, por exemplo, do atualíssimo Julíán Marías,
discípulo e continuador de Ortega y Gasset. Pois dêsse
filósofo - para alguns alemães o maior, dentre os modemos
filósofos de língua espanhola - é também tôda
uma página, num dos seus mais sugestivos ensaios filosóficos,
sôbre o fato, de imensa importância sociológica, de que o
homem social não conserva nunca o corpo ao natural mas o artificializa
"en una proporcion" - salienta Marías - "decisiva":
"lo dejamos o non engordar, lo limpiamos o no, lo peinamos tal vez, lo
cubrimos con vestidos, y con cierto tipo de vestidos, lo movemos de cierta
manera y lo damos una expresion determinada". Mais: "El hombre actual
se corta y afeita tenazmente la barba, que se obstina en crecer un dia tras
otro; en otros tiempos se dejaba la barba; pero también esta es
artificial, pues hay muchas barbas posibles y el hombre barbado tiene que elegir
y optar por una de ellas, que dista mucho de ser natural..."
Leva-me de
nôvo o assunto à consideração daquele outro aspecto do meu modo de ser sociólogo, que talvez seja
o que mais nitidamente o vem caracterizando; e que consiste em vir sendo
principalmente um modo híbrido de ser alguém sociólogo:
sociólogo-antropólogo ou sociólogo-historiador.
"Sociologia genética" anunciei no meu primeiro ensaio
sociológico, publicado em língua portuguêsa, ao procurar, em
longo prefácio, caracterizá-lo; mas levando críticos
nacionais da importância de um Agripino Griecco à errada
suposição de que por "sociologia genética"
devesse entender-se "Sociologia do sexo": excesso, - a
preocupação com o sexo - para êle e para vários
outros-críticos, lamentável, naquele meu trabalho.
"Over-sexed", chegou a escrever do livro, um tanto, puritanamente,
certo crítico de língua inglêsa; e a um então ainda
jovem e já excessivamente acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco, o
trabalho de estréia do seu companheiro de geração pareceu
além de desleixado, chulo. Tão chulo, na verdade, que descia
à consideração de pormenores de comportamento sexual
descrevendo-os por vêzes em linguagem comum. Isto antes de Kinsey.
"Sociologia
genética", porém, não significa sociologia que se
especialize no estudo dos aspectos sexuais das relações sociais,
embora não se desinterêsse de sua análise e de sua
interpretação. Significa a sociologia que se especialize no estudo
das origens e do desenvolvimento no tempo social de instituições
sobretudo de estilos de vida e de formas de convivência que se tenham
tornado características do comportamento de um grupo humano. As
épocas são para o sociólogo que as considera sob
critério genético um constante processo de mudança social -
ou sócio-cultural - em que o passado está sempre tornando-se
futuro, através de um rápido presente. Vem crescendo, desde os
nominalistas, o número de pensadores para quem a realidade não
é, como era para os pensadores ortodoxamente aristotélicos,
"coisa" que pudesse ser considerada completa, independente do tempo; e
sim, processo em conexão com o tempo: o tempo social. Michelet gabava-se,
com certa razão, de ter podido conseguir o que outros historiadores do
passado francês não haviam conseguido antes dêle: a
compreensão dêsse passado através de um método que
poderíamos hoje considerar muito próximo do da sociologia
genética: o de procurar o historiador origens; o de não considerar
nunca os fatos em suas aparências de realidades completas; o de buscar
surpreender tais origens ao emergirem do que chamava um tanto
retóricamente "as profundezas do tempo"; o, de acompanhar essas
emergências, até se tornarem aparentes realidades completas.
Aparentes porque o que sucede é se transformarem - uma vez amadurecidas
pelo, tempo social - noutras realidades, permitindo, ao modêrno
bergsonista dizer, talvez com, algum exagêro, que a duração
é que é a única realidade; e que intuir o continuo devenir das coisas chega a ser o mesmo que intuir a sua
essência. O que, aplicado à sociologia, tornaria a tarefa principal
do sociólogo o estudo menos de instituições e de formas de
convivência em si, e como que paradas no tempo - em algum tempo
sociològicamente ideal - que, dessas instituições e dessas
formas, em sua constante transformação dentro do tempo: o tempo
dentro do qual nos é possível acompanhar um processo
genético em suas fases mais significativas para a compreensão de
sobrevivências ou de atualidades daquelas instituições e
daquelas formas de convivência estudadas desde as suas origens.
Daí haver
quem aproxime certos aspectos do método genético, seguido
pioneiramente em algumas obras brasileiras de sociologia ou de antropologia, do
método, também, a seu modo bergsonianamente genético,
seguido por Joyce e por Proust naquela sua literatura revolucionária de
ficção em certos pontos tão próxima da de
antropólogos, de sociólogos, de psicólogos modernos.
Antropólogos, sociólogos e psicólogos que, desenvolvendo
sugestões geniais de Freud e, sobretudo, de Jung, procuram interpretar
atualmente o irracional no comportamento do Homem; e o fazem - ou procuram
fazê-lo sem separar as expressões atuais dêsse comportamento
do que nelas sobrevive de arquétipos resistentes, em suas
essências, ao tempo histórico. Essa resistência,
através de acomodações a transformações de
caráter existencial. Por conseguinte, elas próprias,
expressões de um desenvolvimento genético.
Através do
existencial, susceptível de ser estudado nêsse desenvolvimento,
é que se procuraria o essencial no Homem. A captura se não do
tempo perdido inteiro, de parte considerável dêle, -perdido por
indivíduo representativo de um grupo ou por todo um grupo típico
concorreria para &we encontro do essencial no existencial. Porque seria a
captura, por indivíduo superior, capaz de influir sôbre grande
numero de indivíduos, ou por um grupo inteiro, daquela autenticidade no
existir que parece confundir-se com a própria ess6neia dêsse
existir; e que só é possível de ser encontrada. pelo
indivíduo ou pelo grupo que reconquista parte considerável do seu
passado mais íntimo, mais profundo, mais significativo para o presente e
para o futuro dêsse indivíduo superior - ou dêsse grupo
típico: aquêle passado básico que - Proust chamaria de
"soubassement", de "gisement profond", de "terrains
resistants sur lesquels on s'appuie".
Creio que venho
contribuindo, através do meu tosco modo bergsonianamente genético
e talvez - como já se tem dito -"joyceano" e
"proustiano", de ser, senão soclólogo,
antropólogo, para que, brasileiro de hoje, sinta sob os pés alguma
coisa de resistente - essencial, além de existencialmente resistente -
sôbre que se apoie não só o seu presente como o seu futuro,
através da identificação de continuidades que corrijam
até certo ponto inevitáveis excessos de descontinuidade no
espaço e no tempo sociais. Também é possível que
venha contribuindo - quem o diz é um crítico dos Cahiers Internationaux de Sociologie - dentro de limites
modestíssimos: devo acrescentar ao crítico generoso, como de
ordinário são os críticos estrangeiros em
relação, com meus aventurosos trabalhos - para que se desenvolva
uma sociologia dos tempos sociais. Uma sociologia dos tempos sociais que
terá que ser também uma sociologia de perspectivas diversas
combinadas, quanto possível, numa perspectiva geral. Assim se realizaria
a sugestão de Georges Poulet no sentido de caminhar-se, através de
uma literatura e de uma sociologia que se preocupassem com o Homem diversamente
situado no espaço e no tempo, para uma "totalidade de
perspectivas", semelhante à que, em pinturas cubistas, permite ao
pintor procurar apresentar, de uma só vez, todos aquêles aspectos
de um objeto que, de ordinário, só poderiam ser vistos cada um de
uma vez e de ângulos diferentes. Picasso foi no que se extremou: numa
revolução de perspectivas em arte com que vem coincidindo uma
revolução de perspectivas nos estudos do Homem situado, à
sombra da qual vêm se desenvolvendo em vários países
inclusive no Brasil - novas e até escandalosas combinações
de métodos para a análise e para a interpretação do
contínuo, ao mesmo tempo que do descontínuo, no comportamento
humano, em geral, através do estudo de grupos situados ou
específicos, em particular.
Ao critério
genético tenho sempre acrescentado, em meu modo nada ortodoxo e quase
sempre tosco de ser sociociólogo - sociólogo-antropólogo,
sociólogo-historiador, sociólogo-pensador,
sociólogo-humanista - o critério ecológico. É outro
aspecto de uma filosofia que não admite ser possível uma
interpretação ex-abrupto do Homem, que
despreze no Homem vivo, concreto, real, sua condição de homem
situado. Situado no tempo e situado no espaço. Situado
sintèticamente no espaço-tempo e situado em cada uma das duas
condições em particular: na de espaço e na de tempo.
Daí, a meu
ver, ser indispensável ao sociólogo um critério
ecológico de análise sociológica que o conduza a estudos
vizinhos dos do geógrafo, sem se confundirem com os do geógrafo. O
ambiente que interessa ao sociólogo considerar é um conjunto de
repercussões inconfundìvelmente psicoculturais e
sócio-culturais do que é físico, natural,
bioquímico, nesse ambiente - a temperatura tropical, por exemplo
-sôbre o comportamento do grupo humano nêle situado ou a êle
radicado. à temperatura tropical ou à ecológica, o grupo
humano sujeito permanentemente a essa temperatura ou a essa ecologia, tende a
responder de mil e um modos socioculturais peculiares a essa sua
situação; e tais respostas implicam necessàriamente em
formas situacionais de convivência que ao sociólogo cabe
considerar, identificando nelas o que seja autênticamente situacional e
aceitando o autênticamente situacional como próprio do tipo de
sociedade e de cultura que considere: nem inflexìvelmente inferior nem
inflexìvelmente superior a outros tipos de sociedade e de cultura
correspondentes a outras ecologias, diferentes da tropical. Por êsse
critério ao mesmo tempo ecológico e sociológico - ou
antropológico -de análise, de interpretação e de
avaliação de sociedades e de culturas, é possível ao
sociólogo moderno desprender-se de quanto preconceito etnocêntrico
turvou a sociologia spenceriana - por exemplo - e empreender, sôbre base
diferente da dos sociólogos rigidamente etnocêntricos - sabido que
às situações ecológicas se associam
condições etnicoculturais, tidas por alguns etnocentristas, como
fatalmente dependentes de suas respectivas ecologias - todo um vasto
esfôrgo de reinterpretação e de análise de sociedades
e de culturas relacionadas com ecologias, ou radicadas a ecologias, que
não mais sejam classificadas, umas como permanentemente imperiais, outras
como fatalmente coloniais, umas como fatalmente progressivas, outras como
fatalmente incapazes do chamado "progresso".
Isto no plano
ecológico geral. Também no específico, o critério
ecológico, tal como o desenvolveram um tanto sectàriamente
sociólogos de Chicago, pode ser utilizado com evidente vantagem pelo
sociólogo moderno. Contanto que não se extreme nesse ecologismo; e
o aplique, sem exclusividade, à análise e à
interpretarção de relações entre grupos diversamente
situados em dado espaço: relações que impliquem em
dominação de um grupo sôbre outro, em subordinacão de
um grupo a outro, em competição entre vários grupos, em sucessão de um grupo por outro, em
expulsão de um grupo por outro. É um critério de
análise que se presta a ser utilizado com particular vantagem pelo
cientista social, em geral - e não apenas pelo sociólogo, em
particular - em estudos regionais ou em pesquisas de área. Sou dos que
entendem serem essas pesquisas e êsses estudos necessários e
até essenciais ao desenvolvimento da Sociologia em ciência. Note-se
de passagem que sôbre a noção da área é que se
apoia, principalmente, o esboço de sistemática
tropicológica, hispanotropicológica e lusotropicológica que
venho me aventurando a desenvolver: uma sistemática que tanto tem de
ecológica como de antropológica e sociológica em seus
fundamentos, embora, para alguns dos seus críticos, não passe de
"poesia". Não assim para os mestres da Sorbonne que solenemente
reconheceram a validade de uma "Antropologia Tropical", tal como vem
sendo desenvolvida no Brasil.
Não nos
preocupa, aos antropólogos ou aos sociólogos brasileiros acusados
de "poetas", quer por acrescentarmos ao estudo cientfíico do
Homem o humanístico quer por sermos, ou têrmos sido, dois ou
três, literalmente, poetas ou escritores de feitio literário - o
caso, até há pouco, de Roquette Pinto, e, ainda agora, o de
Fernando de Azevedo - o que há de desdenhoso e até de insultuoso,
nesse qualificativo, da parte dos cientificistas absolutos nos estudos sociais,
entre nós. Pois são êles, de ordinário,
indivíduos que, no íntimo, desejariam ser também poetas; e
acrescentar a potência poética à perícia
técnica em que se esmeram, sendo, aliás, vários
dêles, muito úteis ou convenientes às Ciências do
Homem por êsse seu procedimento: úteis ou convenientes às
mesmas Ciências, por não as turvarem com literatices.
Aqui cabe nos
recordarmos dos reparos críticos do Professor Robert A. Nisbet aos
excessos de racionalismo, de objetivismo e de cientificismo em sociologia:
reparos que aparecem no seu "Sociology as an art form". Principalmente
êste: o de haver afinidades psicológicas entre o sociólogo e
o artista romântico. Tanto que nem visão weberiana de
"racionalização de história", nem de Simmel, de
"metropolio", nem a de Durkheim, de "anomia", podem ser
imaginadas como tendo-se derivado de análises lógico-empiricas.
Cada um dêsses sociólogos creadores chegou a essas
concepções sociolégicas à maneira dos artistas e
dando-lhes forma artística ou literária: instrutiva, imaginativa,
romântica. A respeito do que, outro moderníssimo sociólogo,
o Professor Maurice R. Stein, vai além: no seu "The Poetic Metaphors
of Sociology" escreve: "The great classical sociologists from Marx to
Veblen, Simmel, Durkheim and Mannheim were inveterate sociological
poets".
A verdade é
que alguns, dos maiores antropólogos ou sociólogos têm sido
reconhecidos como autores de obras potentemente poéticas ou
literárias ao mesmo tempo que científicas: Karl Marx e Simmel, por
exemplo; e tratando-se de antropólogos ou sociólogos mais
especìficamente antropológicos ou sociológicos, James
Frazer, com formação humanística em Cambridge e que
reclamou êle próprio para a sua obra, de fato monumental, a
qualidade de épica - de epopéia de desenvolvimento humano -
além de ter escrito, à margem dessa sua obra de antropólogo
genial, versos do valor literário de "June in Cambridge":
"When youth's brief June is
over
And youth's brief rose's
dead."
Mas não
só o autor de The Golden Bough: também
Bronislaw Malinowski, de quem escrevem, em livro recentíssimo sôbre
"the major anthropologists and their contribution to the understandig of
culture", Os Professôres Abram Kardiner e Edward Preble, que
nêle a simpatia com que se aproximava, como antropólogo, dos seus
objetos de estudo, era "spontaneous and intuitive as well as
analytical". Mais: "he seemed to combine the qualities of the poet and
the scientist, the qualities, that is, that are commonly attributed to these not
so different types". Daí, para Malinowski, existir para o
antropólogo além de antropólogo, poeta, "an intense
personal satisfaction in studying a foreign culture which transcended the mere
satisfaction of scientific curiosity".
Satisfação ou alegria ultra-científica também
encontrada por Ruth Benedict nos seus estudos antropo-sociológicos. Esta
foi minha contemporânea na Universidade de Colúmbia. Juntos
sofremos influências vindas das mesmas fontes: de Nietzsche, de Dilthey;
da psicologia gestaltiana; e de Boas, principalmente. Um Boas que podia
não ser um poeta de expressão literária mas era, muito
germânicamente, um intérprete, ao piano, dos grandes compositores
alemães. Tendo sido a primeira atividade de Ruth Benedict, depois de ter
se bacharelado em Vassar, a de mestra de literatura inglêsa, a
Universidade de Colúmbia, com seus muitos conferencistas, escritores,
dentre os maiores da época - um Tagore, por exemplo - veio a
proporcionar-lhe, quando se tornou discípula de Boas, experiências
marginais de caráter literário que nela sempre se juntaram ao
estudo científico da Antropologia, permitindo-lhe recorrer a Nietzsche
para a sua famosa classificação antropo-sociológica de
grupos humanos em "apolíneos" e "dionisíacos",
à base das pesquisas de campo que realizou entre sociedades primitivas:
os Serrano, ameríndios da Califórnia; os Zuni; vários
outros. Como Frazer, também Ruth Benedict escreveu literalmente versos,
entre os quais "Lift up your heart". Versos em que procurou exprimir a
dor da mulher que, casada, não consegue ter filhos.
No último dos
livros que escreveu, cujo título é antes poèticamente
simbólico - The Chrisanthemum and the Sword -
que rìgidamente científico, ela se baseia na idéia
diltheyana de cada cultura exprimir-se em todos os pormenores da
existência ou da viviência do grupo que a encarna; e de ser preciso,
apreender o sentido dessa cultura tanto, de fora para dentro - o método
durkheimiano - como de dentro para fora, pela identificação do
observador com a gente observada. Método misto: científico, e
poético, a um tempo. Pelo que se justifica o comentário, daqueles
dois críticos dos por êles considerados "principais
antropólogos", quando de Ruth Benedict escrevem que seu
método "is understandably congenial to a poet who arrives to distill
for us the essence of an experience or a complex of events". Mais:
"Exaggeralion and mission, dictated by a central preconception are
necessary to this art". Entretanto: "when poetry is practiced by the
scientist, however, there are obvious dangers".
Claro que é
perigoso para a ciência do Homem da especialidade do cientista recorrer
êle a métodos poéticos de conhecimento, juntando-os aos
científicos. Perigosíssimo até. Pode resultar em obras
monstruosas como estudos científicos; ou válidas apenas como
criações poéticas ou realizações
literárias como algumas das páginas de Andrew Lang, várias
das de Spengler e como, entre nós, não poucas das que nos deixou o
admirável Euclides da Cunha. Mas pobre da Antropologia ou da Sociologia
ou da História Social cultivada apenas por pedestres que não
consigam enriquecê-la abrindo perspectivas sôbre os fatos que
só a imaginação científica mais vizinha da
poética consegue abrir e, através de símbolos - os
símbolos sociológicos ou antropológicos, dos quais os
críticos apenas literários nem sempre se apercebem que sejam
símbolos - tornar êsses fatos significativos em vez de apenas
descritivos.
Tais são as
perspectivas que têm sido abertas, para o conhecimento em profundidade do
Homem pelo homem, por antropólogos com alguma coisa de poetas, como
outrora Vives, como Frazer, como Malinowski, como Ruth Benedict, como o
extraordinário Lawrence que escreveu The Seven
Pillars of Wisdom - obra que talvez venha a ser considerada em dia
não muito remoto, superior a Ulysses, do
mesmo modo que a Peregrinaçam, do
para-antropólogo do século XVI, Ferndo Mendes Pinto, está
sendo já considerada superior, como epopéia antropológica,
a Os Lusíadas, de Camões, por alguns
dos críticos mais lúicidos da literatura portuguêsa. Em
antropólogos-sociólogos dessa espécie -
antropólogos-sociólogos em quem a creatividade se afirma tanto
científica como poéticamente - pode-se concordar com os
Professôres Kardiner e Preble que seus erros são fáceis de
ser corrigidos por cientistas sociais mais rigorosos como cientistas, e menos
poéticos: "more rigorous, if less poetic, social scientists".
Os quals são mais numerosos do que aquêles: aquelas raras
expressões, como sociólogos-poetas ou como
antropólogos-poetas de um vigor híbrido quase sempre
possível apenas em indivíduos de gênio.
Como e porque sou mais antropólogo do que sociólogo
|
"...le principe
et le fin de la sociologie, c'est d'apercevoir le groupe entier et
son comportement tout entier". Marcel Mauss
|
Considero-me mais
antropólogo do que sociólogo. Mais discípulo de Boas do que
de Giddings: dois dos grandes mestres cujas lições muito
concorreram para fazer dos meus dias de estudante de Mestrado e de Doutorado na
Universidade de Colúmbia - estudante, repita-se, desde os estudos de
Bacharelado, desdenhoso de graus, que lhe têm sido dados mais por
consagração do que por postulação - uma série
de inesqueciveis aventuras de descobrimentos: descobrimentos, intelectuais.
Boas era,
então, muis do que qualquer antropólogo da nossa época, o
renovador da ciência da antropologia que êle se esmerava em
considerar nas suas interrelações de estudo do Homem físico
e do Homem socio-cultural. Giddings já se tomara famoso pela sua teoria
da consciência da espécie; e como sociólogo, estava longe de
ser apenas empírico. Dava importância tal à teoria
sociológica que em vários pontos eram tão evidentes suas
afinidades com sociólogos alemães como evidentes eram as
afinidades de Boas - europeu, nascido na Westfalia, de formção e
cultura germânicas, embora de sangue hebreu - com aquêles
antropólogos alemães orientados por Adolf Bastian, de quem, ainda
jovem, Boas chegara a ser de algum modo. colaborador como técnico
assistente, que foi, assim jovem, do Museu de "Volkenkunde" organizado
pelo mesmo Bastian.
A verdade,
porém, é que das suas cátedras da Universidade de
Colúmbia - que naqueles dias era, sem. dúvida alguma, a
universidade máxima dentre as da América tanto quanto da Europa,
no ensino não só de Ciências Sociais (muito
britânicamente incluídas nas Políticas, a Faculdade dedicada
aos altos estudos sociais denominando-se naquela universidade fundada por
monarca inglês no século XVIII, e por tradição vinda
dessa origem, de Ciências Políticas), como da Filosofia Social, com
Dewey, de Economia, com. Seligman e no de Direito Internacional, com John
Bassett Moore e com Munro (cujas lições também segui,
acrescentando o estudo, do Direito Público e da Economia ao das
Ciências Sociais) - Boas e Giddings ultrapassaram, em vários
pontos, os alemães da sua época, que, entretanto, eram ainda,
sociólogos da grandeza dos dois Weber e antropólogos da
importância de Virchow, dentre os mais antigos, de Thurnwald, dentre os
mais jovens. Noutros pontos, porém, a Alemanha e a Inglaterra - esta com
seus Rivers e seus Marrett - continuavam a exercer o primado nos estudos
antropológicos, como na organização de museus funcionais,
ligados dinâmicamente a tais estudos; e também na extensão
de pesquisas de caráter antropológico, promovidas pelos
inglêses nas suas então vastas colônias do Oriente e da
áfrica, onde os estudos dêsse gênero, em vez de apenas
acadêmicos, tornaram-se, na segunda. metade do século XIX, o lastro
em que passaram a desenvolver-se métodos de administração e
de política, adequados a diferentes situações
etnicoculturais. Daí Boas - que fizera seus estudos universitArios em
Heidelberg, Bonn e Kiel, havendo numa das suas teses se ocupado, do
ponto-de-vista físico, do problema da "côr da
água" e noutra, da estática e da ética da. opereta -
ter fortemente recomendado ao seu. estudante brasileiro - em quem descobriu
afinidades com êle próprio, por um. lado, na pouca
atenção do mesmo estudante às bisantinicas associadas, em
certos meios universitários, ao preenchimento de f6rmulas de
rígido especialismo (e Boas, com alguma coisa de anarquista no seu modo
de ser, as detestava!) requeridas para os graus acadêmicos e, por outro
lado, no até pelos estudos pós-graduados menos convencionais e
mais profundos que os apenas acadêmicos - dedicar o terceiro ano de seus
trabalhos de pós-graduado a contactos sistemáticos com os
principais museus europeus de antropologia. Especialmente os da Alemanha, da
Inglaterra e da França. Os de Berlim, de Oxford, de Londres, de
Paris.
Creio que das
lições que aprendi com Boas nenhuma excedeu em importância a
de só ser possível compreender "the cultural life of any
people and of any tribe"... "as an outgrowth of those unique
conditions under which it has lived". Daí a ênfase que
êle punha no estudo de qualquer "complex phenomenon that has grown
historically", antes de se passar de tais estudos a
generalizações com pretensões a científicas na sua
precipitada universalidade. Daí, também, ter sido um dos
cientistas sociais que primeiro se opuseram à aplicação
maciça da teoria evolucionista à ciência
antropológica, parecendo-lhe que era na reconstrucão
histórica do fenômeno considerado que se devia empenhar
indutivamente, o antronólogo nos seus estudos, e não dedutivamente
na sua reconstrução segundo supostas leis de evolucão
linear.
Não é,
com efeito, às mesmas ou invariávels supostas leis de
desenvolvimento mental do Homem que corresponde o desenvolvimento das suas
sociedades e das suas várias culturas, certo como é que as
pesquisas antropológicas e os estudos históricos em tôrno
dessas sociedades e dessas culturas revelam que costumes, crenças,
estilos de vida semelhantes, em sociedades diversamente situadas, resultam por
vêzes de diferentes, e não dos mesmos estímulos. Só o
estudo histórico de desiguais desenvolvimentos culturais pode esclarecer
o que condicionou cada um dêsses estilos de vida e até dêsses
costumes. Donde ser essêncial à antropologia o estudo
histórico por antropólogos, dos processos de crescimento cultural
em várias - pequenas áreas ou regiões - áreas ou
regiões que Boas chamava geográficas e que hoje podemos denominar
com maior precisão, ecológicas antes de aventurar-se qualquer
dêsses antropólogos a formulação de leis
supra-regionais e sunpa-históricas de crescimento cultural que regulassem
invariávelmente os vários tipos dêsse crescimento.
De Franz Boas
já escreveu um crítico que era um antropólogo cheio de
contradições no plano doutrinário. Isto porque nas suas
teorias exprimia-se principalmente um analista um crítico, um descobridor
de novos aspectos da chamada natureza humana; e não um teórico
preocupado em ser de todo coerente em sua sistemática
antropológica. Para êle "sistemas absolutos" assim
coerentes seriam impossíveis em ciência antropológica. O
antropólogo - conclui-se daí - tem que saber contentar-se com
aproximações de caráter sistemático; e resignar-se,
nessas aproximacões, a ser, por vêzes, contraditório.
Contanto - pode-se ainda observar, desenvolvendo livremente sugestões de
Boas - que não se sacrifique o que, nas várias culturas humanas
consideradas pelo antropólogo, seja vida, ao que nelas devesse ser
linearmente humano ao mesmo tempo que invariàvelmente natural,
desprezando-se a capacidade de cada uma dessas várias culturas para
influir tanto sôbre a natureza, como sôbre o homem, como que
recriando-os.
Pois são
diversos os característicos em consequência quer de especial
situação no espaço, quer de particular desenvolvimento no
tempo que, reunidos, podem dar a uma cultura, contínua no tempo e
contínua - ou descontínua - no espaco, configuração
também especial ou particular, permitindo ao antropólogo,
analisá-la e em alguns casos interpretá-la como um complexo.
Complexo cuja realidade esteia acima de considerações anenas
políticas ou de classificacões sòmente nacionais, dada a
sua capacidade de exceder tais considerações e ultrapassar tais
classificações.
Foi sôbre
êsse livre e não garanto que ortodoxo, desenvolvimento de um
critério de Boas para o estudo regional de culturas, que ousei passar de
uma concepção, além de ecológica,
antropológica, daquelas presenças humanas em regiões
tropicais que venham importando na consolidação, nessas
regiões, de culturas e até de civilizações
ecológicas, - culturas, assim ecológicas, susceptíveis de
ser estudadas dentro de uma sistemática que se denominasse
tropicológica - a concepções menos gerais, do mesmo
fenômeno, em que o antropólogo ecológico se especializasse
em considerar, de modo igualmente sistemático, as peculiaridades de
culturas ou. civilizações especificas, que vêm resultando,
nas mesmas regiões, do contacto com a natureza, com ambiente e com
populações e culturas tropicais, de hispanos, particularmente de
portuguêses. Contacto por assim dizer simbiótico do qual vêm
resultando, em regiões marcadas há séculos pela
presença hispânica, um terceiro tipo antropológico, quer de
homem, quer de cultura.
Assim se
justificaria a denominada Hispanotropicologia e, dentro dela, a chamada
Lusotropicologia, que representam contribução brasileira
não de todo insignificante para o possível desenvolvimento de
modernas sistemáticas de análise e de interpretação
antropológicas de um fenômeno - o da crescente
consolidação, em áreas tropicais, de culturas e até
civilizações do tipo hispanotropical, em geral, lusotropical, em
particular - cuja importância também crescente e cuja
especificidade, aliás evidente, justificam tal
sistematização. Só antropólogos de vistas
demasiadamente curtas deixam de enxergar aquela expansão - a de um tipo
moderno de cultura mista ou Simbiótica - eurotropical - e a sua
especificidade.
Do empenho, que me
anima há anos, com relação ao assunto, não se
inteirou Boas, de quem, entretanto, pude ainda ouvir, no último encontro
que tive com êle na Universidade de Colúmbia, em 1939, palavras
tanto de aprovação ao modo já entre ecológico e
antropológico por que tratara matéria brasileira no livro Casa Grande & Senzala como de interêsse pela
verificação da hipótese, por mim levantada e que eu me
propunha a considerar, depois de nôvo contacto com a áfrica, de ter
o português, em sua forma sociológica, de ser colonizador de
áreas tropicais e em suas técnicas sociais de procurar resolver,
nessas áreas e como colonizador delas, o problema de proceder de
país de população escassa, métodos árabes: o
da condição do pai poder caracterizar a condição dos
filhos mestiços ao ponto de permitir serem êstes considerados
fidalgos, à revelia da condição étnico-social das
mães; e o da escravidão seguir, dentro do sistema patriarcal em
geral adotado pelo mesmo português nas sociedades de tipo estável
por êle estabelecidas naquelas áreas, antes a forma
doméstica, familial e até pessoal de relacões entre
senhores e servos, que a industrial e impessoal, de ordinário
característica das relações entre europeus e
não-europeus nas mesmas áreas.
Já
então Boas exprimira sua solidariedade à iniciativa do seu
discípulo brasileiro de reunir no Brasil um congresso de estudos
afro-brasileiros que se realizara no Recife em 1934. Iniciativa que, no Brasil,
atraíra a solidariedade entusiástica de outro autêntico
mestre de Antropologia - Roquette Pinto - que foi, também, o primeiro
antropólogo a, como crítico autorizado, em assuntos
antropológicos, ocupar-se do livro Casa Grande
& Senzala. Destacou, então, Roquette Pinto nesse livro o fato de
não faltar ao que nêle é Antropologia Cultural e Social a
base, para Roquette, essencial a qualquer estudo antropológico, de
informação ou de conhecimento biológico; e como
especialista em matéria ameríndia, salientou generosamente do
capítulo do nôvo livro sôbre a presença
ameríndia na formação brasileira, que só êsse
capítulo, com a sua bibliografia e com o caminho que abria, com os demais
capítulos, á utilização de fontes de
informação até então ignoradas ou desprezadas, valia
o livro. Tanto Boas como Roquette Pinto supreenderam de início, no
nôvo livro brasileiro de escritor-antropólogo, um traço que
sòmente mestres do seu vasto saber poderiam ter surpreendido: o da
originalidade, sem prejuízo, segundo êles, do que Roquette chegou,
com exagerada generosidade, a considerar, em ensaio para outros críticos
tão desnorteantes, condição de "obra
clássica". Com essa classificação extremamente
generosa, o mestre brasileiro quis decerto acentuar o fato de repousar o
nôvo e ousado livro do seu então ainda jovem compatriota
sôbre bases cientìficamente idôneas, sua originalidade como
que mais poética do que científica, acrescentando-se a essas
bases.
Era, entretanto,
originalidade que não existia para críticos menos senhores de
matéria antropológica ou soclológica, vários dos
quais acreditaram tratar-se de simples; e talvez hábil
adaptação de sistemática já tranquilamente em vigor
nos Estados Unidos ou na Europa, a assuntos brasileiros. Críticos
estrangeiros dentre os mais autorizados em assuntos antropológicos,
não tardaram, porém, a destacar o que consideravam a originalidade
do livro brasileiro: o crítico da Yale Review, ao desejar que a
civilização dos Estados Unidos encontrasse quem lhe analisasse as
origens e o desenvolvimento, em obra antropológica, que seguisse a
sistemática, para êle nova, de CasaGrande
& Senzala; Roland Barthes, em Paris, ao desejar que o mesmo se
verificasse na França com relação às origens e ao
desenvolvimento da sociedade e da cultura francesas; o sociólogo e
antropólogo cubano Fernando Ortiz, ao proclamar ser necessário que
se elaborasse um livro semelhante ao brasileiro, tendo por tema as origens e o
desenvolvimento das sociedades e das culturas daquela parte da América
Espanhola; o crítico marxista, Juan Antonio Portuondo, ao insistir na
mesma necessidade e ao apresentar o mesmo livro como "exemplo" e
"modêlo" para os homens de estudo da América Espanhola
inteira, segundo êle presos, ainda, a métodos convencionalmente
burgueses de análise antropológica ou de
interpretação sociológica.
Venho sendo
antropólogo preocupado menos com problemas abstratos de teoria
antropológica do que com os concretos, mais relacionados com a vida, com
a experiência e com a vivência do Brasil, em particular, e em geral,
de conjunto transnacional de populações e de culturas, em processo
de constante interpenetração e já hoje, por vários
outros antropólogos, sociólogos, economistas, reconhecido como
luso ou hispanotropical. Entre êsses problemas, o das
relações entre etnias e culturas, das que constituem, quer a
sociedade brasileira, e o seu complexo étnico-cultural, em particular,
quer aquêle conjunto de populações e de culturas.
Aqui é
preciso fixar-se o seguinte: o não vir sendo o meu trabalho, considerado
no seu aspecto específico de obra antropológica,
continuação do de Nina Rodrigues ou do de Sylvio Romero ou do de
João Ribeiro ou do de Capistrano de Abreu ou do de Euclydes da Cunha mas,
ao contrário, em pontos essenciais, retificação aos estudos
empreendidos por êsses consagrados mestres. Minhas afinidades com
pronunciamentos sociológicos, sôbre o assunto, primeiro de Joaquim
Nabuco, no seu O Abolicionismo, depois de Sylvio
Romero, Alberto Tôrres, J. B. Lacerda, Afrâtnio Peixoto e com a obra
de Roquette Pinto, são evidentes. São particularmente evidentes no
que se refere à reabilitação antropológica do
mestiço e do negro, e não apenas do ameríndio, embora no
admirável autor de Rondônia a
preocupação de antropólogo tenha sido quase exclusivamente
com o elemento ameríndio - objeto de suas memoráveis pesquisas de
campo - e a de Afrânio Peixoto consideração de outros
elementos, de um modo que, invariávelmente magistral, nem sempre procurou
realizar-se em profundidade e em complexidade.
Note-se, entretanto,
que tanto Nina Rodrigues como, durante anos, o mais notável dos seus
discípulos, Artur Ramos, consideraram, dentro do conjnnto, brasileiro de
sociedade e de cultura, o negro e o mestiço de negro, como assuntos antes
de patologia social e de patologia antropológica do que de antropologia
ou de sociologia fixada no estudo do Homem simplesmente normal. Atitude, por
vêzes, de Sylvio Romero e de Euclydes da Cunha. A
reabilitação, além de antropológica,
sociol6ógica, sôbre base antropológica, do negro e do
mestiço de negro, como elementos essenciais do complexo brasileiro de
sociedade e de cultura, é um esfôrço científico que,
tendo partido do Recife - do livro Casa-Grande & Senzala, do V Congresso de
Estudos Afro-brasileiros e do curso pioneiro de Sociologia moderna que o autor
do mesmo livro teve a honra de professar em 1935 na Faculdade de Direito -
firmou-se, em plano didático de nível universitário, na
Faculdade de Economia e de Direito da Universidade do Distrito Federal - a
organizada pelo Professor Anísio Teixeira - quando o autor daquele ensaio
ali professou Sociologia e fundou, sucessivamente, cátedras de
Antropologia Social e Cultural - a primeira na América do Sul - e de
Pesquisa Social - também pioneira são pontos às vêzes
deixados em confusa obscuridade, êstes. Dizer-se, sem nenhuma
especificação, do autor de Casa-Grande
& Senzala, que continuou naquele seu ensaio e vem continuando noutros
dos seus livros, de caráter principalmente antropológico, no que
nêles é substância científica, a obra de Nina
Rodrigues, é tão inexato como afirmar-se, ousada e vagamente, do
mesmo autor que, no plano sociológico, vem continuando a obra do
aliás insigne Oliveira Viana.
Referi-me a Nina
Rodrigues e ao sentido de estudo patológico que, como médico, deu
às suas análises semi antropológicas - dentro dos seus
limites, valiosíssimas - do elemento negro no Brasil. Caberia aqui
recordar de Boas que desconfiava - essa atitude do grande mestre de
Colúmbia vem registrada por Abram Kardiner e Edward Preble em ensaio
sôbre o assunto - dos médicos empenhados em trabalhos
antropológicos. No que talvez se exagerasse: nem todos são os
médicos que, por hábito de pensar adquirido nos seus estudos
profissionais, tendem a considerar patológico, como antropólogos,
o comportamento daqueles grupos, humanos de ordinário denominados
primitivos, por desviar-se êsse comportamento da normalidade
característica das civilizações dominantes de que o
analista seja membro. Esta é, entretanto, a tendência de
vários dos médicos que se têm desdobrado em
antropólogos. No Brasil, até um médico-antropólogo
da inteligência de Ulysses Pernambucano de Mello resvalou, por algum
tempo, nesse patologismo, de que se recuperou pelo contacto com a obra do
próprio Boas e com a de outros antropólogos, dos que se tornaram
conhecidos no Brasil através, quer da bibliografia aparecida em Casa-Grande & Senzala, quer das fornecidas a
mestres e estudantes de Antropologia e de Sociologia da Universidade do Distrito
Federal, -inclusive ao Professor Artur Ramos, que tomou então
conhecimento dos trabalhos de Boas, de Kroeber e de Herskovits - pelo fundador,
na mesma Universidade, das cátedras de Sociologia, de Antropologia Social
Cultural e de Pesquisa Social. O que se verificou do ano de 1935 ao de 1938,
depois de, por iniciativa de estudantes de Direito do Recife acolhida com a
maior simpatia pelo então Ministro da Educação Gustavo
Capanema e pelo próprio Presidente da Repdblica, que era Getúlio
Vargas, ter sido ministrado, pelo autor do recém-aparecido Casa-Grande & Senzala, um curso de Sociologia, na
mesma Faculdade que, pelo gôsto do Ministro Capanema, teria sido repetido
noutras Faculdades de Direito do país. Não tardou, aliás,
que o Professor Isaias Alves, naquela época empenhado na
organização da Universidade da Bahia, tendo por base uma Faculdade
de Filosofia, convidasse com insistência o mesmo autor de Casa-Grande & Senzala a fixar-se em Salvador, como fundador da
cátedra, e esta de Antropologia Social e Cultural, na Universidade em
organização.
Pode-se reparar
como, tendo sido discípulo de Antropologia de um Boas, famoso pela sua
aversão ao que fôsse processo, além de especulativo,
intuitivo, de indagação ou de análise antropológica,
venha eu juntando aos trabalhos objetivamente antropológicos que tenho
procurado realizar ou orientar, arrojos especulativos e audácias
intuitivas. Nem todo discípulo segue de um mestre tôdas as
lições. Encontro-me, há anos, entre os antropólogos
que lamentam em Boas o seu extremo objetivismo - a sua quase mística de
objetivismo indutivo: obstáculo à realização, por
homem, como êle foi, de gênio, de obra mais ampla. Quando, em
critica recente a Boas, Kardiner e Preble vêem, naquele seu excesso, quer
inibição ao espfrito especulativo, nêle talvez
precário, quer obstáculo à acomodação, da
parte do cientista, ao incerto, ao impreciso, que, segundo êsses
críticos, constitui atitude indispensável ao desenvolvirnento de
qualquer ciência, é ao lado dêsses perspicazes
críticos que me situo e contra o maior dos grandes mestres na
Universidade de Colúmbia do meu. tempo de estudante da sua Faculdade de
Ciências chamadas Políticas.
Foi pela capacidade
de ser intuitivo ao mesmo tempo que indutivo que Bronislaw Malinowski
ultrapassou Boas em criatividade no setor antropológico. Daí poder
hoje dizer-se do extraordinário polaco naturalizirdo inglês, que,
como antropólogo, parecia combinar as qualidades do poeta com as do
cientista não reprimia intuições, algumas das quais o
levaram, através de métodos, quanto possível objetivos, de
verificação, a notáveis desenvolvimentos, na sua obra
antropológica. Mas eram intuições, as suas, que êle
submetia a severo escrutínio, peneirando-as e coando-as; repelindo nelas
quanto se apresentasse vago ou inconsistente sob o critério dessa severa
análise preliminar; e só então seguindo-as nas
investigações de costumes, de artes, de crenças, de ritos,
de comportamento sexual, do grupo humano sob estudo investigação
viva, direta. Pesquisa de campo.
Deve-se notar, a
êsse propósito, que concentrando seus estudos na análise de
uma população regionalíssima de ilhéus, Malinowski
desenvolveu aí métodos os chamados funcionais visando
descrição e análise mais imediatas e integradas de um grupo
humano e da sua cultura - que passaram a ter validade universal. Nisto se
assemelhou Malinowski a Boas - de quem divergiu em vários pontos; e que
também desenvolveu. seus métodos de análise em
pequeníssimas áreas, sem que tais métodos deixassem de vir
a ter, nas suas principais características, validade universal. A
autenticidade do regional desdobrando-se em valor de transregional a universal,
através de técnicas de ingadagação
susceptíveis de ser transferidas, nos seus elementos essenciais, do
estudo de uma sociedade ou de uma cultura ao estudo de outras sociedades ou de
outras culturas.
No estudo do passado
sócio-cultural do brasileiro tem sido empenho do discípulo
brasileiro de antropologia, nuns pontos de Boas, noutros, de Frazer, e de outros
antropólogos inglêses, em alguns, de Malinowski e de
antropólogos alemães como Thurnwald e franceses, como Rivet,
vir-se bem ou mal realizando menos como antropólogo prêso a
qualquer compromisso de ordem didática ou de confraria
antropológica do que como livre-atirador nessa e noutras ciências
do Homem. A quanto possa ser reconhecido nêle como saber
antropológico, orientado principalmente por Boas na parte disciplinar ou
sistemática dêsse saber, vem associando outros possíveis
saberes. O dos métodos de análise e de
reconstituição históricas por exemplo, e o de
interpretação sociológica dos fenômenos sociais.
Saberes cujos fundamentos adquiriu quer na mesma Universidade de
Colúmbia, dos seus mestres regulares, quer de mestres, por assim dizer,
para êle, bissextos dessa universidade e da de Harvard e, na Europa, das
universidades de Oxford, da Sorbonne e do Colégio de França -
Lucien Febvre, um dos franceses - cujas lições foram
proveitosíssimas aos seus estudos assim conjugados. Mestres diferentes e
até contraditórios, não só quanto ao diverso das
especialidades, como quanto ao vário das suas origens e dos seus tipos de
formação nacional e filosófica, alemão, Boas,
anglo-americano, Giddings, inglês oxoniano, Zimmern, francês, Lucien
Febvre, português, o extra-universitário João Lúcio
de Azevedo.
Só quem
não visasse realizar estudos pós-graduados, atendendo estritamente
às exigências para graus, acadêmicos de caráter
didático, ou seguir, sôbre esta base, carreira pedagógica,
poderia ter se dado ao luxo de procurar realizar suas próprias
combinações de diferentes saberes relativos ao Homem e as suas
culturas, fazendo de lastro principal dêsse esforço de
combinação os estudos antropológicos. Inclusive o da
biologia - com dissecação de animais acompanhada de desenhos,
pelos próprios estudantes - e os da antropologia física.
Ao sentido, assim
amplo, de antropologia, seguido por alguns antropólogos e que os
têm levado, à vizinhança dos estudos de biologia, de
história, de sociologia, de psicologia, e da própria filosofia,
sob a forma de antropologia filosófica, há quem se oponha,
considerando-o desdenhosamente eclético. Foi acusação que
alguns dos especialistas mais estreitos levantaram contra Malinowski ainda mais
do que contra Boas. Pois em. Malinowski, mais do que em Boas, ao saber do
cientista se juntava aquêle talento literário que, segundo o
Professor Kluckhohn, permitia-lhe dramatizar os resultados do trabalho de carnpo
em que se empenhava com um gôsto quase romântico por essa
espécie de trabalho para êle lúdico. E é muito raro,
nas chamadas ciências do Homem, o indivíduo apenas capaz de medir
crânios, alinhar núneros, aplicar a situações novas
técnicas desenvolvidas noutras situações, e de apresentar o
resultado dêsses trabalhos, aliás úteis e
necessários, no jargão da confraria particular a que pertence,
perdoar ao indivíduo inovador ou renovar seus arrojos de
inovação ou de renovação; e, principalmente, o que
houver de literário, de pessoal ou de dramático na sua
expressão.
Num ponto, Perteneyo
aos que divergem da orientação antropológica de Malinowski
de modo absoluto: no seu pouco aprêço pela
reconstituição do passado, no estudo antropológico de uma
sociedade ou de uma cultura. O Professor Lowie foi dos que acusou mais
vigorosamente Malinowski, ao considerar seu modo de ser antropólogo, em History of Anthropological Theory: de procurar
realizar uma antropologia funcional que fôsse anti-histórica. Ou
que prescindisse do estudo histórico das instituições
consideradas pelo antropólogo na sua funcionalidade.
Da minha parte creio
ter me situado pioneiramente, desde as minhas primeiras tentativas de estudos
sociais, não só entre os antropólogos que vêm
transferindo os métodos de indagação antropológica
do estudo apenas de sociedades ou culturas primitivas para o das sociedades ou
culturas mistas ou para o das sociedades ou culturas denominadas civilizadas,
como também entre os antropólogos que, na análise e na
tentativa de interpretação de sociedades e de culturas mistas
vêm se utilizando de métodos, histórico-sociais, à
base de documentos convencionalmente históricos, até onde é
possível essa utilização, e de métodos
histórico-antropológicos, naquelas áreas socioculturais de
comportamento humano só susceptíveis de ser alcançadas, no
que se refere a origens de costumes, de intuições, de estilos de
vida, através de métodos antropológicos que façam as
vêzes dos puramente históricos. Exemplo: a
reconstituição de origens Africanas de grupos da
população brasileira dessa procedência, através de
sobrevivências, entre êles, de costumes susceptíveis de
caracterização antropológica, como os diferentes usos,
pelas mulheres, de turbantes ou panos de cobrir a cabeça ou de envolver o
torso. Estudo a que simultâneamente nos entregamos, com o mesmo objetivo
histórico-antropológico, um ignorando o trabalho do outro, o
Professor M. J. Herskovits, na Guiana Holandesa, e, no Nordeste brasileiro, eu,
com o auxílio do pintor Cícero Dias que, no trabalho de
reprodução minuciosa de formas e de côres dos turbantes e
dos panos das mulheres cobrirem a cabeça, há trinta anos ainda
muito em uso no mesmo Nordeste, pelas mulheres mais rústicas de origem
africana, realizou uma das suas melhores contribuições para os
estudos de antropologia no nosso país. A outra foi ter colaborado, de
modo efetivo, comigo, na organização da mostra de objetos de arte
popular afro-brasileira, que, durante dias, atraiu para o saguão do
Teatro Santa Isabel, do Recife, um. público numeroso e espantado com a
realização de uma exposição de objetos tão
rústicos em dependência de teatro tão requintado. A mostra
foi iniciativa do V Congresso de Estudos Afro-Brasileiros, em 1934; ano, por
êste fato, memorável para estudos ao mesmo tempo
antropológicos e historicológicos - como os denomina o Professor
Julián Marías - no Brasil.
Ao comentar,
recenternente, em publicação da Unesco, o que chama a "crise
moderna da Antropologia", o Professor Claude Lévi-Strauss poderia
ter mencionado vir o Brasil, pelos seus pensadores e cientistas sociais,
antecipando-se a outros povos em substituir os ensaios, sôbre o
próprio Brasil, sob a forma de estudos um tanto
paternalìsticamente antropológico-etnográficos - os
realizados por Nina Rodrigues, por exemplo, e por outros pesquisadores
brasileiros como que sub-europeus, na sua perspectiva, e por conseguinte,
observadores de fora para dentro, isto é, brancos "superiores"
e paternais com relação a negros e mestiços
"inferiores", da realidade nacional - pelos estudos
antropológicos de um nôvo tipo: os que se realizem de dentro para
fora, por analistas identificados com uma civilizção que vem
tomando consciência de si mesma e do que nela, sendo extra-europeu,
não é para ser considerado inferior ao tipo europeu - ou
anglo-americano - de civilização e de sociedade, embora junte
elementos dos chamados primitivos, de cultura, aos denominados civilizados,
admitindo-se o primado em vários setores, dos elementos civilizados, e em
outros, dos primitivos.
Estão nesta
categoria estudos já realizados por modernos antropólogos
brasileiros e como os que eu próprio venho procurando realizur entre
êles, com dupla perspectiva antropológica, física e
sociocultural, O escravo em anúncios de jornais
brasileiros do século XIX. Estudos, alguns dêles, Dublicados na
excelente Revista de Antropologia, de São
Paulo, outros, pelos Museu Goeldi. de Belém, Nacional, do Rio de Janeiro,
Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, do Recife, e pela Universidade Federal da
Bahia.
Se a
duplicação ou multiplicação de perspectiva nos
estudos antropológicos, entre modernos povos não-europeus, importa
na revolução "no plano das ciências humanas", a
que se refere o Professor Claude Lévi-Strauss não será,
talvez, exagêro dizer-se da mesma revolução, que teve sendo
o seu comêço, um dos seus começos, no Brasil. Foi no Brasil
que primeiro se realizaram, com grandes deficiências, é certo, nos
seus arrojos experimentais, mas de modo, mesmo assim, válido para estudos
noutros países ou noutras áreas. E arrojos antropológicos
e, ao mesmo tempo, historicológicos, que importaram na tomada de
consciência, por uma civilização de nôvo tipo -
civilização ao mesmo tempo civilizada e primitiva nos principais
elementos de sua composição de se encontrar apta para alguma coisa
de mais importante que a simples auto-determinação no setor
sòmente politico: a auto-análise, no plano social ou
sociocultural. E também a auto-interpretação, com qualquer
coisa de humanístico, o historiador tornando-se então parente do
próprio filósofo e do próprio poeta - no sentido de criador
- das modernas concepções de Ruth Benedict e de Robert Redfield,
além do historiador configurado por Kroeber e por Evans-Pritchard.
Para essa
pluralidade de perspectivas, nos estudos sociais, em geral, nos
antropólogicos, em particular, creio vir contribuindo modestamente e a
meu modo. Um modo, antes de livre-atirador do que de especialista ligado a uma
só instituição e mesmo a uma só ciência. O que
não significa que me venha mantendo afastado de univesidades ou de
institutos especializados em estudos sociais. Ao contrário: de algumas
universidades como, no estrangeiro, a de Colúmbia e a de Coimbra e no
Brasil as federais, a da Bahia e a de Pernambuco, sou quase pessoa de casa.
Como e porque procuro ser historiados social
|
"...no es
possible entender la historia más que viendo a que sujeto acontece y este
sujeto es una unidad de convivência o sociedad, con una estructura propia,
tema de la sociología". Juliám Marías
|
Serei, de algum
modo, historiador, ao mesmo tempo que sociólogo ou antropólogo?
Para os historiadores mais ciosos da pureza da sua especialidade, creio que
não, embora, para meu espanto, tenha sido já eleito sócio
honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro -
de tão insigne tradição, e efetivo, do Arqueológico,
Histórico e Geográfico de Pernambuco, da Academia Portuguêsa
da História e da Academia da História do Equador.
Instituições - estas Academias - que datam do século XVIII;
e conservam alguma coisa de religioso na sua fidelidade ao culto senão da
ciencia, da arte da História com H maiúisculo.
Os historiadores;
mais ciosos da pureza do seu ofício parece se esmerarem em excluir-me do
seu número; em conservarem-me à porta do templo da sua deusa, de
maneira semelhante à daqueles críticos literários
extremamente severos em sua identificação da literatura com as
chamadas belas-letras; e, por isto mesmo, quase místicos em seu
afã de evitarem que escritores impuros se aproximem de qualquer das
igrejas literárias sob sua guarda. São, segundo êles,
recintos em que só devem ser admitidos beletristas. Sagrados, por
conseguinte; e exclusivos dos sacerdotes ou diáconos das
belas-letras.
Com
relação à História, eu próprio hesito em
considerar-me, sem mais aquela, historiador. Daí a ênfase que
costurno pôr no adjetivo "social" para definir minha
condição não de todo ortodoxa de historiador: historiador
social em vários pontos inseparável do antropólogo social
ou cultural. O adjetivo, quase dominaria o substantivo.
Devo, a êsse
propósito, fazer um pouco de história; e esta,
autobiográfica, além de social ou cultural. Os anos que se
seguiram ao meu regresso do estrangeiro - dos Estados Unidos seguira eu para a
Europa, onde meus estudos, seriam principalmente os antropológicos, em
museus especializados e orientados de Colúmbia, pelo Professor Franz Boas
- já recordei, noutro ensaio, que foram para mim de quase acídia;
de desinterêsse quase mórbido por aquêles estudos realizados
no estrangeiro e absurdos, alguns - pensava eu - para o Brasil daquela
época: um Brasil talvez mais convencional e, no mau sentido, mais
intelectualmente suburbano, que o de hoje. Foram anos, aquêles, de
esfôrço por vezes pungente de reintegração no meio
brasileiro que implicou, por algum tempo, em repúdio às minhas
ligações com universidades estrangeiras. Daí meu
desprêzo pelo opúsculo escrito em inglês - intitulado Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century:
tese de Mestrado apresentada à Universidade de Colúmbia - ter
sido igual ao desinterêsse que pelo mesmo trabalho ostentaram os
então secretários dos Institutos Históricos - o Brasileiro
e o Pernambucano - a quem foram oferecidos, por mim, exemplares do ensaio, por
sugestão de meu mestre e amigo Oliveira Lima.
Era um trabalho de
jovem com pretensões a historiador social que talvez devesse ter merecido
alguma atenção da parte dêsses eruditos brasileiros.
Não mereceu nenhuma. êles, parecem terem enxergado no livreco
apenas literatice; e essa, em língua inglêsa, que desconheciam. Era
um trabalho - devem ter raciocinado - que, para ser histórico,
apresentava-se paupérrimo em suas citações de datas e de
nomes próprios; e a que faltava, por outro lado, para ser considerado
tentativa de interpretação sociológica de história,
um mínimo de solenidade nas citações de sociólogos,
dentre os então conhecidos no Brasil. Sendo assim, como poderia um
trabalho tão diferente dos convencionais ser tomado a série em
sodalícios então dominados por intelectuais tão caturras?
Se o ensaio merecera a aprovação de mestres universitários
nos Estados Unidos, isto não surpreendia tais caturras. Um dêles,
quase imitando certo personagem de Eça, chegou a perguntar-me certa vez:
"Mas existem mesmo universidades de alta categoria intelectual nos Estados
Unidos?" A idéia predominante entre muitos dos intelectuais
brasileiros da época, a respeito daquele país, era ainda
sumária: admitiam o brasileiro que estivesse nas escolas dos Estados
Unidos - ou antes, nas suas oficinas - estudando engenharia, mecânica,
agricultura. Daí eu raramente me ter apresentado, naqueles dias, aos meus
compatriotas, indivíduo de formação universitária.
Pois a muitos difìcilmente convenceria ser "homem formado" sem
haver estudado nem engenharia nem mecânica nem agricultura. E sim umas
vagas Ciências Políticas, inclusive algumas Jurídicas e
várias Sociais. Entre as Sociais, a Antropologia Cultural e a
História Social. Entre as Políticas, a Economia. Entre as
Jurídicas, a Diplomacia e o Direito Internacional.
Foram êsses
estudos, na Universidade de Colúmbia, que me levaram - numa época
em que na grande universidade estava ainda quente na presença, entre seus
mestres, de Charles A. Beard, o autor de Economic
Interpretation of the (American) Constitution, conservando-se entre seus
catedráticos, um mestre de Sociologia como Giddings e um profêssor
de Economia como Selligrnan - a interessar-me não só pela
interpretarção econômica como pela
interpretação sociológica do passado humano; e não
só, em pesquisas históricas em torno da chamada "economic
data", como pelas "histories of every day life" que constituiam
parte considerável da história social.
Estava-se na
Universidade de Colúmbia, nos meus dias de aluno graduado da sua
Faculdade de Ciências PoIfticas (Jurídicas e Sociais), sob o
impacto da revolução intelectual que ficaria conhecida por
"new history". Segundo a "new history" - nisto semelhante
à renovação de estudo histórico-social que vinha
sendo empreendida na França por Marc Bloch e seria continuado por
vários dos seus discípulos, um dêles o hoje Mestre Fernand
Braudel - ao estudo do passado humano fazia-se necessário aplicar
critérios diferentes dos convencionais - isto é dos
cronológicos, dos concentrados apenas no estudo dos fatos
políticos e guerreiros. êsses critérios novos, sugeriram-nos
os modernos avanços em Psicologia, em Antropologia, em Economia, em
Sociologia, em Geografia, em Ciências Políticas e Jurídicas,
na própria Biologia. Havia o perigo de um generalismo que, em vez de
corrigir excessos de especialismo, conduzisse o estudo do passado humano ao
excesso oposto. Mas havia também um possível meio-têrmo
entre tais excessos. Não fôra através dêsse
meio-têrmo que Beard escrevera sua Economic
Interpretation of the Constitution? E que Turner tragara sua também
hoje clássica The Significance of the Frontier in
American History? Que Thomas e Znaniecki produziram sua monumental The Polish Peasant in Europe and America (1920)? Que D.
H. Kulp traçou sua Country Life in South
China (1925), Robert S. Lynd e Helen M. Lynd, seu Middleton (1929), e G. T.
Robinson sua Rural Russia under the Old Regime
(1932)? Que Thurman Arnold veio a escrever o seu The
Folklore of Capitalism (1938), Max Radin, o seu Manners and Morals of Business (1939) e Hortense Powdermaker, After Freedom: a Cultural Study in the Deep South
(1939)?
O que se firmou,
naqueles dias, na Universidade de Colúmbia, foi principalmente isto: a
consciêneia de ser necessário a estudos mais profundos do passado
humano que os convencionais, critério cultural - um "cultural
approach" - que os libertasse de várias convenções
inclusive duas, importantíssimas: a etnocêntrica e a de se
separarem arbitràriamente no estudo de uma sociedade, aspectos especiais
do seu comportamento, para análises inteiramente isoladas sob um
especialismo, pseudo-científico. Tal libertação
verificou-se em grande parte, através da Antropologia Cultural. Como
sugere a Professôra Caroline F. Ware, na introdução à
obra coletiva The Cultural Approach to History,
(1940), o estudo de sociedades primitivas - grupos, de ordinário,
pequenos - permitiu ao cientista social especializado em Antropologia
antecipar-se aos demais cientistas sociais na realizaçãb de
pesquisas sociais - e histórico-sociais - em que as culturas analisadas
passaram a ser consideradas como todos ou complexos, para que fôssem
assim, compreendidos os aspectos particulares dessas culturas; e também
como culturas válidas em relação a si próprias - aos
seus próprios valores - e não aos do sistema ocidental de cultura
a que estivesse ligado o analista.
à base de
estudos antropológico-culturais é que, noutros estudos sociais,
vêm sendo, considerados como, que gestaltianamente os complexos
socioculturais que constituem uma cultura contemporânea; ou que
caracterizaram uma época dessa cultura, quando cultura já
histórica. Daí ser falho, para quantos seguem semelhante
critério, os estudos econômicos, por exemplo, ou políticos,
ou sociológicos, a que falta o sentido corno gestaltiano da
configuração total da sociedade, da econornia, do tipo de
govêrno considerado; o conhecimento das origens e do desenvolvimento dessa
economia, dessa sociedade ou dêsse tipo de govêrmo.
O autor de Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX,
ao reler êsse seu trabalho de juventude (1922) - há pouco
aparecido em português, em ótirna tradução realizada
pelo Professor Valdemar Valente - muito se regozija com o fato de que no seu
primeiro ensaio de história social madruga, pioneiranente, um
critério gestaltiano de interpretação sociológica de
uma época do passado social brasileiro, que, como critério de
reconstituição e de interpretação de um mornento
histórico, talvez não se encontre, tão específico,
em trabalho anterior ao seu, publicado em qualquer língua. êsse
critério êle o desenvolveria no seu "Vida Social no Nordeste
brasileiro (1825-1925): aspectos de um século de
transição", publicado em 1925 na obra coletiva, comemorativa
do 1º centenário do Diário de Pernambuco; e nos seus
trabalhos, porventura mais sistemáticos, além de mais densos, do
que êsses, Casa Grande & Senzala, Sobrados e
Mucambos e Ordem e Progresso.
É um
critério que se inspira na "new history", sem dúvida; e
que se apoia, em grande parte, nos estudos de Antropologia do autor com o
Professor Franz Boas na Universidade de Colúmbia. Mas não deixa de
ter suas originalidades: uma delas, o modo de vir descendo, o autor de tal modo
à reconstituição do
comportamento íntimo dos grupos que vêm procurando analisar
reconstituição histórica, reconstituição
antropológica, de interpretação psico-social - que alguns
críticos anglosaxônicos, ainda impregnados, ao que parece, de
moralismo Vitoriano, têm dito do autor que não faz história
social e sim história sexual. Ao que um crítico brasileiro
já acrescentou não serem os trabalhos do autor de Casa-Grande & Senzala nem de sociologia nem de história
nem de antropologia nem de literatura e sim pura e simplesmente de pornografia.
Tal tendência - a tendência sendo para a chamada pornografia, para a
consideração insistente, do fator sexual na formação
da sociedade e do ethos brasileiros - veio a
acentuar-se, é fato, em Casa-Grande &
Senzala e em Sobrados e Mucambos; mas já
se esboça em Vida Social no Brasil nos Meados do
Século XIX.
Talvez já se
tenha tornado evidente do autor que, no seu modo complexo - antropológico
ao mesmo tempo que histórico-social - de, vir versando os seus temas,
quando históricos, não vem imitando, como já sugeriu outro
crítico brasileiro, os Lynd; nem qualquer outro autor estrangeiro, embora
de vários tenha assimilado sugestões e aproveitado
estímulos. Os Lynd apareceram em 1929. O autor de Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX em 1922
já bem ou mal arranhava aquêles temas, servindo-se pioneiramente de
critérios e de técnicas de que viria a utilizar-se menos
desajeitadamente - talvez - em 1925 e, com alguma amplitude e alguma
repercussão, em 1933, em obra da qual se diria na Europa e nas
Américas que poderia servir de modêlo a estudos europeus e
americanos de um nôvo e necessário tipo. Entre essas
técnicas, a de reunir o analista sôbre as épocas que vem
procurando reconstituir, para as interpretar, todo o documentário
litográfico e fotográfico que lhe tem sido possível reunir
sôbre pessoas, sôbre casa, sôbre móveis, sôbre
paisagens, sôbre veículos, socialmente e culturalmente
significativos. Iniciou-a o autor precisamente em 1922, ao preparar o seu ensaio
em língua inglêsa sôbre os meados do século XIX no
Brasil. Com o maior prazer veria tal método de impregnar-se o analista do
ambiente característico de uma época consagrado alguns anos
depois, pela ilustre American Historical
Association; a qual, ao publicar em 1940 o seu The
Cultural Approach to History, como que oficializaria a
utilização científica de daguerrétipos, de
litografias e de fotografias não só para a
ilustração como principalmente para a preparação de
estudos histórico-sociais. Considerava a mesma Associacão tal
utilização, pela palavra dos Professores Roy E. Stryker e Paul T.
Johnstone, de "as yet unrealized potentialities", e destacava, entre
essas potencialidades, a captura, por meio da fotografia documental, de
"important but fugitive items in the social scene". Pois
"documentary photographs... can interprete the human and particularly the
inarticulate elements". Principalmente quando nos lembramos que "every
culture... creates its own landscape". não só cada cultura
cria sua paisagem susceptível de ser documentada por fotografias: cria
também seus tipos de móvel, de homem, de mulher, de
criança, de interior doméstico, de veículo, também
susceptíveis de ser documentados em litografias, daguerreótipo e
fotografias de valor antropológico-cultural e
histórico-social.
Do meu remoto
trabalho de mocidade Vida Social no Brasil nos Meados
do, Século XIX, já sugeri que nêle se encontra o
gérmen de tôda uma série de estudos de caráter
histórico-social ou semi-histórico que bem ou mal -
provàvelmente mal - vieram a ser por mim realizados, dos trinta aos
sessenta anos: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e
Mucambos, Nordeste, Ingêses no Brasil, Um
Engenheiro Francês no Brasil. Em gérmen também ali se
encontra o ainda em elaborardo Jazigos e Covas
Rasas, em que se pretende reconstituir o conjunto de ritos de sepultamento
de mortos, característicos tanto da convivência como da hierarquia
patriarcais no Brasil. Foi assim aquêle trabalho de jovem mal saído
da adolescência - trabalho na verdade iniciado, ainda na
adolescência, escrito em língua inglêsa e publicado no
estrangeiro por um, então, ainda quase menino saído do Recife - a
antecipação de várias das produções em que me
empenharia, homem já feito, como se cumprisse um programa por mim
próprio traçado nos meus dias de universitário.
Antecipação não só daquelas produções,
especìficamente consideradas: também de todo um conjunto de
métodos que se desenvolveriam, com algum pioneirismo, naqueles e noutros
trabalhos. Entre êsses métodos, a utilização de
jornais e de revistas das épocas evocadas - inclusive dos seus
anúncios sociológicamente expressivos; a utilização,
sob critério, histórico-social ou antropológico-social, de
daguerreótipos, de fotogratias e de litografias - de suas
sugestões evocativas e de suas informações de
caráter antropológico e não apenas de seus pormenores
estritamente históricos; a utilização de depoímentos
de sobreviventes idôneos das mesmas épocas, interrogados, ouvidos e
consultados pelo autor. De vários sobreviventes: portadores, portanto, de
várias verdades e não de uma só; ou de vários modos
de contar ou de evocar ou de comentar a verdade por êles experimentada,
vista e sentida, na meninice ou na mocidade. A verdade ainda verde ou ainda
crua: antes de se tornar, depois de amadurecida e tratada por uma arte,
ciência semelhante à da culinária, até apresentar-se
como aquela verdade histórica em que uma verdade predomina sôbre várias. A êste respeito recordarei aqui
palavras perspicazes; que recolhi de velha crônica histórica
portuguêsa.
Perspicazes
só, não: sábias. Que dizia, na Crônica da Tomadade Ceuta, remoto historiador lusitano? Que a
escrevera "...considerando como o tempo escorregava cada vez mais... per
cuja rezam se perderia a memoria de tam notáveis cousas". E ao mesmo
tempo observando: " . . . he cousa certa que nos feitos que muitos viram e
sabem, nunqua homem tantas vêzes pode perguntar que sempre nam ache cousas
novas que saber, e isto por cada hum contar o feito por sua guisa".
Vêm estas palavras na velha Crônica da
Tomada de Ceuta (Cap. 111, pág. 13).
Devo também
confessar haver adotado, desde muito jovem, certo modo como que impressionista -
expressionista de tentativa de reconstituição do passado mais
íntimo e até mais secretamente sexual do brasileiro - modo,
tornado possível pela atitude empática do autor com
relação aos fatos e, principalmente, ao elemento humano evocados
mais com saudade dos antepassados do que com repugnância pelos antigos.
É atitude já presente em Vida Social no
Brasil nos Meados do Século XIX. Presente e à espera de ser
desenvolvida.
Desenvolvimento que
bem ou mal verificou-se - ou vem se verificando - naqueles meus trabalhos que
sendo tentativas de análise antropológica e de
interpretação sociológica do passado do homem situado no
trópico, em geral, e do brasileiro, em particular, são
também - ou vêm sendo também - desajeitadamente e a seu
modo, ensaios de história social e, ao mesmo tempo, de antropologia
social e cultural e de sociologia genética. Talvez se possa dizer que me
venho especializando em lidar com problemas e situações que
só se encontram nas fronteiras em que essas ciências se cruzam.
Problemas e situações antes marginais do que puramente isto ou
puramente aquilo.
Não suponho
que me tenha levado a conceber, ainda adolescente, um ensaio de história
social como Vida Social no Brasil nos Meados do
Século XIX um ânimo mais forte que o introspectivo. Ou que o de
análise de mim mesmo: o de encontrar-me a mim mesmo nos avós, nos
antepassados, nos brasileiros de uma época anterior à minha e
à dos meus pais. A tanto acredito que me levaram, ao mesmo tempo que a
leitura de Montaigne e de Pater - o Pater, autor dessa pequena obra prima, que
tanto me impressionou a adolescência, The Child in
the House - os estudos de antropologia alongados nos de psicologia; e
alongados também na leitura daqueles misticos espanhóis, lidos
também na adolescência e dos quais continuo tão adepto.
Antes de Proust,
já Walter Pater me comunicara o gôsto pela recaptura daquele tempo
que o indivíduo, pela extensão da memória individual em
memória familial e até nacional, pudesse surpreender, por
vêzes, "almost still"; e no qual encontrasse suas origens mais
intimas juntamente com uma melhor percepção daquilo que um
intérprete do mesmo Pater, o Professor A. C. Benson, chamaria o contraste
- ao mesmo tempo que a semelhança - entre o que somos e o que fomos:
"what we are and what we have become with what we were and what we might
have been". Isto, também: o que poderíamos ter sido.
Especulações psicológicas sôbre o que o
indivíduo que se analisa, projetando essa análise sôbre o
passado da sua gente, poderia ter sido se outro tivesse sido o ambiente da sua
meninice e se outros tivessem sido os ritos sociais de sua
formação; e outra, também, sua herança não
só física como cultural, dos avós ou dos antepassados.
êsse pendor
introspectivo não tem faltado aos meus ensaios, sejam de antropologia, ou
de sociologia, sejam de história social. Ou de literatura, como no
recente Dona Sinhá e o Filho Padre. Acredito
que a disciplina da formação científica adquirida, em
centro sofisticadamente cosmopolita de saber, tenha contido nesse meu pendor os
seus piores riscos. Mas só os piores: não os outros.
Entretanto, o que
agora se diz naqueles meios europeus e anglo-americanos onde mais se vêm
aprimorando os estudos históricos, permite-nos ser, nesses estudos,
transigentes senão com aquêles pendores, introspectivos, com os
intuitivos. É de 16 de fevereiro, de 1964 um artigo no The Times Educational Supplement, de Londres, sôbre o assunto,
em que se afirma justamente isto: que enquanto "the scientific method,
which weighs evidence and deduces general conclusions"... "is
appropriately applied to what one might call the outward form of
history"... "its inner content"... "the rhythm and purpose
which gives the relationship between historical events and organic unity, these
can be only understood through the imaginative or intuitive faculty".
É o que venho
procurando, dentro dos meus limites, desde aquele trabalho de mocidade há
pouco reaparecido em edição em língua portuguêsa sem
que o tempo o tenha tornado de todo arcaico: compreender momentos significativos
do passado mais que social, íntimo, da gente brasileira, em particular, e
do homem situado no trópico, em geral, descendo tanto quanto me tem sido
possível descer, pela ciência com o auxílio da
intuição, ao "inner content" dêsses passados; aos
ritmos que se vêm parecendo ligar os fatos reunidos, através de
pesquisas, em fontes de várias épocas, e de várias
áreas, em conjuntos vivamente orgânicos.
Houve quem supusesse
no Brasil, quando há trinta e tal anos me apresentei com uma obra
principalmente, no seu aspecto científico, de sociologia genética
ou de antropologia sociocultural, mas de modo algum exclusivamente de sociologia
genética ou de antropologia sociocultural - ao contrário,
auxiliada em sua procura de uma totalidade sociocultural ou de uma realidade
pelo emprêgo de outros critérios e de outras técnicas de
indagação - que aí estava a aplicação ao
nosso país de uma convergência de métodos já
oficializada ou regularizada nos Estados Unidos.
Engano à
verdade é que a sociologia norte-americana foi, com a francesa,
até recentíssimos dias, uma das mais exclusivistas, em seu
sociologismo. Não faz muito tempo, nos Cahiers
Internationaux de Sociologie - no mesmo número dessa
publicação ilustre, em que o Professor Baladier salientava, em
livro brasileiro, o afã, já destacado pelo Professor Lucien
Febvre, de ser ao mesmo tempo sociológico e histórico e de
recorrer a fontes de informações diversas como se o lema do autor
fêsse "je prends mon bien là où je le trouve" - o
Professor Alain Touraine, em, longo artigo sôbre o "tratamento da
sociologia global na sociologia americana" isto é, dos Estados
Unidos - "contemporânea", mostrava ser recente êsse
tratamento, sendo muitos os cientistas sociais, ainda esquivos, nos Estados
Unidos como na própria Europa, à "colaboração
necessária entre as várias disciplinas para a compreensão
do fato social total". Destacava mais o Professor Touraine que apenas na
Universidade de Harvard, já se procurava resolver o problema
através de uma tentativa de organização mais
cientìficamente coerente, e não apenas pragmàticamente
colaboracionista, dos estudos sociais, representada pelo Departamento, da mesma
universidade, de "Relações Sociais", onde se
começara a juntar ao ensino da sociologia parte considerável do
ensino de antropologia e de psicologia. O ensino assim cientìficamente
coerente de matéria social estava o cargo de uma
constelação de sábios - Parsons, Allport, Murray,
Kluckhohn, Stonffer, Bales, Bruner, Sorokin - semelhante a que iluminara a
Universidade de Colúmbia nos primeiros decênios dêste
século: Boas, Giddings, Seligman, Dewey, John Basset Moore, Dunning,
Hayes, Beard, Shepkerd.
Ainda que o
crítico europeu considerasse necessário completar-se, numa nova e
mais sistemática organização que se desse ao estudo do
social, o conceito de "relações" - que alcançasse
os problemas psico-sociológicos de "interação" e
de personalidade - reconhecia a importância da renovação de
métodos de análise e compreensão do social empreendida em
Harvard como corretivo ao fato de que a sociologia norte-americana,
pròpriamente dita, vinha ignorando, às vêzes de modo
sistemático, os problemas por êle chamados de "sociedade
global", excetuado um ou outro sociólogo mais atento aos aspectos de
dinamismo histórico dos mesmos problemas.
Para o Professor
Alain Touraine o que hoje se impõe a cientistas sociais é
partirem, para melhor organizarem o estudo do social total ou do que há
de comum em suas especialidades, não da organização social
que se deseje considerar, mas de uma situação social que a exprima
ou em que ela se exprima; e procurarem compreender várias
instituições 4 base de interpretnão dada por um grupo
social de certa situap,ão básica que as condieione. Perdoe-se ao
autor destas. notas a imoddstia: mas a tentativa de semelhante interrelacionismo
de critério e de método, partindo menos da
consideração de uma sociedade, vista em vago conjunto
político-geográfico, que de situacões sociais
características dos principais de seus membros - no caso, senhores,
escravos, habitantes de casas nobres e habitantes de casas servis, bomens,
mulheres, velhos, meninos condiclonados; por suas situações
extremas e intermediárias nesse sistema hierárquico de
convivência - foi esboçada no Brasil, há mais de trinta
anos, e recebida, então, por ortodoxos da sociologia norte-americana e da
própria sociologia francesa, com reservas que só agora se
vêm desfazendo, pelo fato daquele critério, melhor definido, melhor
racionalizado, melhor sistematizado, do que o fôra pelo desajeitado
pioneiro latino-americano, vir-se afirmando, na França, através
daqueles que, como Georges Gurvitch, opõem ao determinismo
institucionalista o estudo psico-sociológico das chamadas
"realidades concretas do meio social"; e nos Estados Unidos,
não só pela nova Escola de Harvard como por várias
iniciativas recentes e já triunfantes, no sentido de acrescentar-se o
critério histórico ao sociológico e o antropológico
ao psicológico e, ainda, ao sociológico. E quando se diz
critério, diz-se também método decorrente dêsse
critério. - Abordagem -.
É justo
salientar-se que, da parte de historiadores, e de antropólogos mais do
que de outros pesquisadores, tem havido há anos, no Brasil e noutros
países, o afã de reunir fatos cujas interrelações
esclareçam melhor a vida e as atividades extra-políticas e
extra-militares, não só do grupo ou dos grupos dominantes mas dos
dominados - afã que no Brasil vem resultando em tentativas de se
reconstituir o passado social e cultural dos grupos não-europeus que
formam a sociedade brasileira. E também o passado da mulher, o do menino,
o do imigrante pobre, o do pequeno lavrador, o do sertanejo arcaico: afã
entre histórico e sociológico. Entre histórico e
antropológico.
Para conseguir-se a
extensão ou a intensificação do conhecimento
hisórico-social ou histórico-cultural de uma sociedade total,
é necessário recorrer-se a técnicas de
indagação fornecidas por ciências vizinhas da
histórica: a antropológica, a psicológica, a
folclórica, a geográfica. Dessa necessidade, há mais de
trinta anos apercebiam-se analistas brasileiros do passado social da sua gente.
Quando a Professôra Carolina F. Ware, em trabalho publicado em 1940
salientou a necessidade dos novos historiadores norte-americanos "take
cognizance of nondominant as well as dominant groups, and of factors which cut
across national lines", choveu no moIhado quanto ao que, bem ou mal,
já se vinha fazendo há anos, mas principal e
sistemàticamente, desde 1933, quando aqui se publicaram páginas
escritas sob um critério múltiplo, mas básicamente
antropológico-cultural, de história íntima, sexual,
bio-social, psico-socio-econômica, e não apenas
econômico-social, ou política da sociedade,
patriarcal-escravocrática brasileira. Critério de modo algum
atingido em tentativas anteriores, em qualquer pais, de
reconstituição global de um passado nacional ou regional, sob
ânimo principalmente genético-sociológico.
Quais as vantagens
de semelhante critério múltiplo de análise de um passado,
nacional ou. regional, considerado também em suas projeções
sôbre atualidades de outro modo incompreensíveis? Para a
Professôra Ware está, entre várias outras: a de revelar
interrelações quase sem fim entre funções sociais de
ordinário consideradas estranhas umas às outras. O que parece
significar que buscando-se conhecer uma realidade social por processos ou
através de métodos interrelacionistas descobre-se ser ela um
complexo, de interrelações. Meios e fins se manifestam igualmente
como expressão de um interrelacionismo que os estudos das próprias
sociedades complexamente civilizadas, por métodos outrora só
aplicados às análises de sociedades chamadas primitivas - e nessa
transferência também são notáveis as
antecipações brasileiras - vêm revelando que quase tanto
quanto entre as chamadas primitivas, atividades, funções, formas
de cultura e organização são, entre os civilizados,
interrelacionadas, as juridicas deixando-se influir pelas políticas, as
políticas, afetar pelas econômicas, as econômicas pelo
conjunto das culturais. Os psicólogos da chamada Escola Gestalt chegam a
considerar, do ponto-de-vista psicológico, as relações
entre as formas (porque as funções seriam desempenhados sob formas
diversas), relações que, na mente individual, se fixariam num
processo comum de desempenho, de funções diversas. Processo
comumem que se refletiriam o interrelacionado de uma cultura e a
projeção do todo sôbre a experiência de cada UM. Donde
as próprias biografias, precisarem de ser realizadas, sob critério
interrelacionista.
É certo que
critério semelhante ao "total" dos psicólogos da
Gestalt, fôra já esboçado, do ponto-de-vista
histórico-social, no estudo da história, pelas escolas chamadas de
"nova História" que floresceram nos primeiros decênios,
na Europa, como principalmente na Universidade de Colúmbia. Mas como
salientam os críticos dessas "Escolas", deixaram elas de
fornecer aos historiadores socioculturais base de selegfin e princípios
de organização do material imenso que seus adeptos consegulam
reunir. Contribuiram assim para acentuar a dispersão de esforços
entre historiadores e cientistas socais, vítimas, em tais casos,
não de especialismo exagerado, mas, por vêzes, de enciclopedismo
desordenado. Enquanto com a moderna tendência para o interrelacionismo,
à base notadamente do critério histórico-cultural de
estudos de sociedades, civilizadas ou mistas, e não apenas primitivas -
critério que se manifestou no Brasil em antecipações
não de todo desprezíveis - dão-se aquêles cientistas
bases para a seleção, organização e
interpretação do mesmo material imenso, partindo do ponto de que
cada sociedade tem sua estrutura de instituições, valores e
ideologias e que nenhuma dessas partes pode ser compreendida sem
referência ao seu lugar no todo.
São de 1937
palavras do falecido historiador-sociólogo Charles A. Beard - dêle
e de Alfred Vogts - que importam numa espécie de manifesto a favor de
nova técnica de história sendo interrelacionista, totalista: para
a "historiografia contemporânea, tôdas as realidades da vida
ligadas com as relações biológicas e culturais dos sexos,
famílias, a continuação, o cuidado e a
elevação da vida, tornam-se cada dia mais claramente objeto de
preocupação histórica". O que no Brasil já se
vinha, senão afirmando, esboçando, em estudos ou análises
interrelacionistas acompanhadas de tentativas de interpretação ou
reinterpretação, também interrelacionista, desde velhos
dias, mas notadamente, nìtidamente, inconfundìvelmente, desde
1933, em tôrno do sistema dominante de família: o patriarcal
agrário.
De modo que dentro
do moderno movimento relacionista, ou totalista, ou interrelacionista, nos
estudos sociais, em geral e não apenas histórico-sociais o Brasil
pode reclamar pequenos mas nítidos direitos de pioneiro em alguns pontos.
Inclusive quanto à utilização de material
folclórico, como complemento de outras fontes, de
informação, e com o risco de ser essa utilização
considerada, por críticos superficiais, uso indevido ou abuso
lamentável de pitoresco, de anedota e até de vulgaridade indigna
de consideração científica. Hoje é corrente nos
Estados Unidos e em vários países da Europa o reconhecimento das
vantagens que o cientista social pode derivar dos chamados "folk
sources", outrora objeto apenas de indagações
folclóricas; mas desde 1924 utilizados no Brasil sob critério e
com objetivo sociológicos.
Como acentua em
páginas que datam de 1940 o Professor A. Botkin, o historiador social
moderno não se deve preocupar apenas com as chamadas "coisas mais
finas da vida" mas com as expressões de cultura fora dos livros e
das artes eruditas. São elas, ainda que rudes ou grosseiras,
expressões cheias de vida que vinham sendo negligenciadas e desperzadas
pelos historiadores convencionais e pelos cientistas sociais, com
prejuízo para o desenvolvimento dos seus estudos. Analistas do passado
social e da formação cultural do Brasil anteciparam-se na
valorização dessas fontes não-eruditas de
informação histórica, recorrendo a métodos
antropológicos e até a fontes folclóricas para completarem
as fontes e os métodos convencionalmente históricos, no estudo de
um passado e de um conjunto de situações, como os encontrados no
Brasil, nem sempre susceptíveis de reconstituição
histórica. Através dêsse critério e dessa
conjugação de métodos de investigação
é que vem sendo possível aos mesmos analistas darem
importância histórica - através de evidências
antropológicas - à contribuição ameríndia e
à contribuirao negra-africana para a cultura brasileira. Esta, uma das
antecipações do livro Casa-Grande &
Senzala, publicado em dezembro de 1933. Livro em que já se encontra
alguma daquela "almost symbiotic relationship" da sociologia com a
história que o Professor Peter L. Berger, no seu Invitation to Sociology (N. Y., 1963) destaca como sendo "a
notion still alien to most American sociologists".
Como e porque escrevi Casa-Grande e Senzala
|
" ... chaque
type de société possède son devenir, contient même
une "multiplicité de temps", sans qu'aucune de ces formes
puisse s'imposer comme la seule et unique matrice de l'experience
humaine". Georges Gurvitch
|
Se sou de
difícil classificação como sociólogo - sendo,
talvez, mais antropólogo ou mais historiador ou mais filósofo da
Cultura ou da História do que sociólogo sistemático - na
mesma situação está o livro a que mais associado
está o meu nome de escritor: o intitulado Casa-Grande & Senzala. Digo nome de escritor porque, afinal,
é o que principalmente me considero: escritor. Escritor de
sistemática formação científica, é certo, e
esta de modo específico, a antropológica - a sociológica.
Porém escritor a quem, talvez, não faltem características
literárias que lhe dêem direito senão ao título, a
uma condição que só se atinge através da arte de
escrever.
Talvez seja,
também, Casa-Grande & Senzala, dentro dos
seus limites, de parente mais que pobre de obras de antropologia ou de
sociologia consideradas épicas - o caso da célebre Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence de Arábia - livro sob
vários aspectos tão de literatura quanto de antropologia ou de
sociologia. Ou quase de literatura, deve dizer o seu autor, com a humildade que
às vêzes falta àqueles que só por escreverem muito se
consideram audaciosamente escritores; e hesitando em se apresentarem como
sociólogos ou antropólogos ou psicólogos ou historiadores,
não têm dúvida em se intitularem de escritores.
Que haverá de
afim entre um antropólogo do tipo de um Lawrence de Arábia ou,
antes, de um Robert Redfield, ou um historiador social do tipo de um Marc Block
ou um sociólogo do tipo de um Simmel e um escritor que escreva romances
do tipo dos de Tolstoi e dos de Proust e, entre nós, dos de Machado de
Assis e Raul Pompéia? Creio que aquela empatia que consiste na capacidade
de ver-se um indivíduo em outros e de ver outros em si mesmo, em uma
perspectiva tanto de dentro para fora como de fora para dentro. O que Ortega y
Gasset - insigne intelectual espanhol de quem não se deve esquecer a
formação alemã - chama de "perspectivismo",
só é possível à base dessa empatia tão
característica dos espanhóis mais castiçamente
espanhóis em seu modo de ser, quer escritores, como foi o remoto Ramon
Lulio e em nossos dias o não sei se diga moderno - tão de sempre
êle nos parece ser - Miguel de Unamuno, sem nos olvidarmos de Cervantes;
quer pintores, como o profundamente espanholizado Greco, O espanholíssimo
Goya, o próprio semi-português Velasquez; quer ainda, poetas
alongados em dramaturgos como outrora Lope de Vega e, nos nossos dias, Federico
Garcia Lorca.
Trata-se do que
modernos estudiosos do assunto chamam de "desdobramentos conscientes da
personalidade" da parte de um autor que junte alguma coisa de criativo, -
vá o neologismo - ao poder de observação exata e de
análise em profundidade de tal ou qual objeto-sujeito ou sujeito-objeto
à capacidade de informar-se de tal ou qual aspecto de uma realidade
social ou complexamente humana. O criador ou o analista ou o intérprete
de tal ou qual realidade se serve, em tais casos, desdobrando a própria
personalidade, das chamadas personalidades hipotéticas que completem a
sua, para assim enriquecer-se de novas perspectivas da mesma realidade. Procura
ver essa realidade através de outras pessoas ou de outras personalidades
reais ou um tanto sob a forma weberiana de "tipos ideais", com os
quais procura identificar-se para, assim identificado, por empatia, aperceber-se
de aspectos da mesma realidade dos quais não se aperceberia, fechado na
sua exclusiva ou única personalidade; ou no seu sexo; ou na sua
raça; ou na sua cultura; ou na sua classe.
Ao escrever o estudo
intitulado Casa-Grande & Senzala, procurou o seu
autor - que, concordando com o Professor Fernand Braudel, se considera, escritor
filiado principalmente à tradição espanhola de Roman Lulio:
remoto espanhol que para compreender o islamismo desdobrou-se em mouro -
desdobrar-se em personalidades complementares, da sua e que a auxiliassem na
percepção de uma realidade mútipla e complexa. Levou
êsse desdobramento de personalidade ao extremo arriscado, perigoso, mesmo,
de, desdobrando sua personalidade de origem étnico-cultural e de
formação sócio-cultural, além de principalmente
européias, principalmente senhorís, procurar sentir-se
também, em seus antecedentes e no seu próprio ethos, não só senhoril como servil; não só
europeu como não-europeu; ou especificamente indígena, mouro,
judeu, negro, africano, e, mais do que isto: mulher, menino, escravo, oprimido,
explorado, abusado, no seu ethos e no seu status, por patriarcas e por senhores. Daí ser
Casa-Grande & Senzala um livro múltiplo
em suas perspectivas; contraditório, até, no seu perspectivismo;
passível da acusação de negrófilo. Mas realizado de
modo a tais diferenças de perspectivas e tais contradições
de perspectivas por vêzes se complementarem, como corretivo, de alguma
maneira, ao que pudesse ser apenas senhoril ou pretender conservar-se
monolítico na personalidade do autor; a qual se desdobra em tôrno
de certos assuntos a ponto de o autor ser antes um conjunto meio pirandeliano de
autores que um autor único, tal a empatia através da qual procura
aperceber-se da mesma realidade contornando-a e considerando-a de diferentes
ponto-de-vista. Diferentes e complementares: o do homem, o do adulto, o do
branco mas também o do menino, o da. mulher, o do indígena, o do
negro, o do efeminado, o do escravo. Pontos-de-vista, algumas dêstes,
talvez nunca dantes admitidos a uma interpretação, ao mesmo tempo
em profundidade e em conjunto, da experiência brasileira. (Ou de qualquer
experiência ou formação nacional, a acreditar num Roland
Barthes.)
Complementares
essenciais, do ponto-de-vista do brasileiro biológica ou
sociològicamente ou biològicamente e sociològicamente
branco e europeu, além de Católico e de classe, além de
raça dominante. Juntos, os dois pontos-de-vista, deram ao autor uma
perspectiva mais ampla que as dos analistas parciais e convencionais.
Dentre o que possa
ser destacado como nôvo ou inovador no livro Casa-Grande & Senzala talvez nenhum traço se apresente mais
significativo do que êste, até hoje pouco considerado pelos
críticos: o seu múltiplo e por vêzes simultâneo
perspectivismo, responsável por um dos defeitos de
composição mais apontados em Casa-Grande
& Senzala, livro, de resto, muito mal composto: as suas
repetições. Não foi o mesmo livro, ao aparecer, apenas
inovador na pluralidade de métodos a que recorreu seu autor, ao
elaborá-lo, por um lado, para assombro de críticos
anglo-americanos, há trinta e tal anos tão hostis ao, que
fôsse a hoje em vigor, entre os cientistas sociais seus compatriotas,
interpenetração das chamadas disciplinas sociais; e, por outro
lado, para deleite daqueles críticos europeus, principalmente franceses -
um Jean Pouillon, um Roland Barthes, um Jean Duvignaud - já então
rebelados contra excessos, entre europeus e sobretudo, entre
anglo-saxões, de especialismo - especialismo fechado - no trato de
matéria social por cientistas sociais: atitude tão daqueles
cientistas sociais mais inclinados a imitarem, nesse excesso, os seus colegas
das ciências naturais. Isto por se terem olvidado de ser a matéria
social, tratando-se do Homem, muito mais difícil de ser fragmentada, para
estudos assim particularizados de especialistas que se servissem, em tais
estudos, de métodos apenas matemáticos ou de técnicas
tão sòmente quantitativistas, de análise, do que a
matéria natural: o estudo de coisas, de plantas e de animais. De coisas,
de plantas e de animais à revelia do que nêles sejam valores e
símbolos.
De um crítico
brasileiro, aliás preclaro, o Professor Gilberto Amado, é a
observação de ser o livro Casa-Grande
& Senzala caracterizado pelo relêvo que dá aos fatos: aos
fatos - parece ser esta a idéia do crítico magistral - puros e
crus. No que, ao meu ver, se equivoca.
É certo,
dêsse livro que se desenvolve sôbre um lastro de fatos retirados
principalmente do cotidiano da experiência brasileira durante os
séculos mais profundamente patriarcais de formação na
América Portuguêsa de uma sociedade estável. Fatos, quase
todos êles, recorrentes: recorrentes durante considerável periodo
de tempo antes considerado no seu ritmo social do que na sua sequência
histórica. E pelo seu caráter de fatos recorrentes, fatos antes
sociais do que históricos. Daí o sociólogo francês
Georges Balandier ter escrito, a propósito, de Casa-Grande & Senzala, que êsse livro brasileiro poderia ser
considerado base para uma Sociologia do Cotidano em profundidade e no tempo.
Entretanto, o que se
destaca em CasaGrande & Senzala não
é a importâcia dos fatos como fatos; e sim a das
relações entre êles. A da sua projeggo em símbolos.
Pois é certo, também, do mesmo livro, que o seu autor não
se limita a apresentar fatos de caráter sociólogico, isto
é, antes recorrências cotidanas do que ocorrências
excepcionais. Vai além e procura captar, fixar e destacar nesses fatos o
que nêles forma, ou são, valores e, além de valores,
símbolos, ligados, uns principalmente ao presente, outros, principalmente
a um passado que, de simples realidade histórica, passasse, pela
persistência dêsses símbolos em sucessivas ou, mesmo,
descontinuas fases de experiência humana - no caso, a experiência
brasileira - a realidades, além de históricas,
supra-históricas. Tal o próprio complexo que dá
título ao livro em aprêço - Casa
Grande & Senzala - considerado em algumas de suas
manifestações, de processos psico-sociais: sobretudo o de
acomodação ou de interpenetração de elementos
étnico-culturais aparentemente inconciliáveis.
É esta
expressão - Casa-Grande & Senzala - uma
expressão a que nao falta historicidade específica. Pode ser
encontrada em testamentos e em inventários da época colonial e da
imperial brasileira, e até em anúncios de jornais brasileiros do
século XIX, com o puro intuito de caracterizar bens ou propriedades de
senhores rurais e até urbanos. Mas essa historicidade especifica
não seria bastante para dar à expressão valor
simbólico se ela não tivesse se projetado na linguagem oral, para
caracterizar não apenas bens ou propriedades materiais porém
realidades sociais alongadas em símbolos também sociais. Quase
"tipos ideais" da caracterização sociológica de
Max Weber. O autor do livro que tomou o título de CasaGrande & Senzala consagrou, nessa expressão, dando-lhe
valor de símbolos, palavras já vivas na linguagem brasileira de
quase tôdas as áreas do Brasil e não apenas das do
açúcar. Acrescentou, porém, a êsse uso de palavras
descritivas uma símbologia particularmente significativa pela sua riqueza
de implicações ou projeções sociológicas.
Fêz de "Casa-Grande" o
símbolo de todo um status ou de tôda
uma posição - a de dominação - na ecologia social e
mesmo na física daquele Brasil patriarcal; e de "senzala", o símbolo de outro status e de outra
posição na mesma ecologia: a de subordinação, a de
submissão. E do & entre as duas realidades, o símbolo de uma
interpenetração que concorreu fortemente, dinâmicamente,
interativamente, para dar à sociedade e à cultura desenvolvidas no
Brasil suas formas mais características de desenvolvimento e não
apenas de estabilidade. De dinâmica democratizante como corretivo à
estabelecida hierarquia.
Além do que,
o autor de Casa-Grande & Senzala procurou
considerar em têrmos não só de valores como de
símbolos ou através de expressões simbólicas, tipos
não só específicos - especìficamente brasileiros -
como equivalente de tipos clássicos - hebreus, helênicos, romanos,
árabes - de convivência patriarcal em regimens
escravocráticos. Procurou destacar relações, dentre as mais
características do viver predominantemente rural nos dias
pré-nacionais e proto-nacionais de formação da sociedade
brasileira em ambiente também predominantemente rural: as
relações de filho com pai, às vêzes
sociológicamente prolongadas nas de escravo com senhor; as de marido com
espôsa; as de devoto com santos; as de menino com adulto; as de civilizado
com selvagem; as de cultura européia com natureza agrestemente tropical;
as de cristianismo com outras manifestações, menos civilizadas, de
religiosidade. Relações, tôdas essas, coloridas pelo
complexo patriarcal, que o autor de Casa-Grande &
Senzala procurou mostrar, nesse seu livro, prolongando sua antropologia
sócio-cultural numa antropologia filosófica, ter sido o complexo
dos complexos dentre os que antropológica e sociològicamente
explicam a formação e o ethos
brasileiros, como a formação e o ethos
não de um homem abstrato, por um lado, nem tão sòmente, de
um homem históricamente lusitano, desdobrado em luso-brasileiro, mas de
um homem europeu concretamente situado: existencialmente situado no
trópico. Pois é principalmente a predominância dêsse
complexo na mesma formação, que se acentua, naquele livro, ao
considerar-se o que, na formação brasileira, representa o
desenvolvimento de um tipo de homem de sociedade e de cultura diferente, em
vários pontos, dos puramente europeus desgarrados, sem
integração, nos trópicos, pelo específico das suas
substâncias integradas ou em processos de integracão:
substância ecológica; substância, étnica;
substância cultural, em geral; substância econômica, em
particular; substância, histórica. Diferente, também,
daqueles europeus puros ou sòmente superficialmente em residência
nos trópicos, pelas formas mais características do sistema de
relações entre grupos e entre pessoas que se desenvolveram, no
Brasil patriarcal, como variantes - embora não como negacões,
antes como confirmações - das formas clássicas de
convivência patriarcal e de integração dêsse tipo de
família ou de sociedade, em ecologias especificas: a grega, em contraste
com a árabe, por exemplo. Não devo nunca deixar de referir-me ao
fato de que uma das minhas preparações oblíquas e como que
instrutivas para, a elaboração de um livro como Casa-Grande & Senzala foi o curso, que segui com singular
proveito, sôbre a sociologia da sociedade escravocrática grega, do
Professor Sir Alfred Zimmem, de Oxford.
Outra
inovação porventura trazida pelo livro Casa-Grande & Senzala, para a literatura, quer científica,
quer mesmo geral, em língua portuguêsa, foi - segundo alguns
críticos - a da sua linguagem: em vez de arrevesado jargão ou de
elegância, da chamada acadêmica, palavras, na sua maioria, ao
alcance do leitor comum; e várias delas rudes, além de
inacadêmicas. Mais do que isto; um português salpicado de
africanismos, de indianismos, de barbarismos, alguns ousados, embora sem a
preocupação de criar o autor língua literária
brasileiramente nova, como foi a de Mário de Andrade, em Macunaíma
e vem sendo a de Guimarães Rosa, em interessantíssimos
experimentos estilísticos, além de linguísticos. Daí
as críticas - críticas àquelas audácias da linguagem
de Casa-Grande & Senzala - que lhe fizeram
eruditos mais convencionais em suas noções do que devesse ser a
linguagem de um, ensaio ao mesmo tempo científico e humanístico,
científico e literário. Um dêsses eruditos foi o Professor
Afonso Arinos de Melo Franco que classificou a linguagem de Casa-Grande & Senzala de "vulgar" e "chula",
além de desleixada.
"Como é
que se escreve um livro com pretensões a sério em estilo
tão vulgar?" perguntou outro crítico. E de Portugal houve
quem escrevesse não ter sido Casa-Grande &
Senzala escrito em. português mas numa espécie de nefanda
língua bunda, que o tornava passível de medidas
profiláticas de parte daquelas academias, dedicadas aquém e
além-mar, à defesa do "sagrado idioma" de Camões
e de Bernardes.
Como se explica o
destino de um. livro que, mesmo assim considerado, quanto à sua
linguagem, por mestres eminentes de feitio acadêmico, conquistaria para o
seu autor o título de membro da Academia Portuguêsa de
História - outrora Real e vinda do erudito século XVIII - e
láureas de outras academias e institutos tradicionais como a do Equador,
também vinda do século XVIII, a Universidade de Coimbra -
há sete séculos mestra do mundo de língua portuguêsa
- a Academia Brasileira de Letras, a Academia Paulista de Letras, a Academia
Pernambucana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, o Instituto Arqueológico de Pernambuco, a Academia
Internacional de Cultura Portuguêsa? E por que o escreveu o autor
servindo-se de palavras tão chulas para os ouvidos de letrados
requintadamente elegantes e castamente acadêmicos? Por não saber da
língua materna senão o trivial? Por desconhecer os
clássicos? Por ignorar a terminologia científica dos
antropólogos e dos sociólogos? Ou por ter desejado escrever
aquêle seu livro com a desenvoltura de um escritor animado do afã
de, em ensaio de lastro científico, e que só um
antropólogo-sociólogo de formação
sistemàticamente universitária poderia elaborar sem incorrer em.
deficii~ncias tremendas, comunicando-se com o leitor comum como quem escrevesse
obra literária de caráter expressionista, pelo que nêle se
afirmasse da personalidade do autor e da sua identificação quase
sensual, de tão empática, com o assunto? Ora, o assunto não
era - nem é - puramente europeu mas, em grande parte, extra-europeu.
Não se defrontava o autor com asperezas, dêsse mesmo assunto nem
como um sub-europeu passivamente colonial mas como um analista ou um
intérprete do Homem social, desdobrado - repita-se - como autor em
várias personalidades, que, nesses desdobramentos, precisava de
identificar-se com elementos humanos e culturais além de
não-europeus e de não-eruditos, folclóricos, vulgares,
plebeus, contanto que telúricos, da realidade brasileira.
Não me cabe
dizer-me aqui familiar, antes de ter escrito Casa-Grande
& Senzala, dos clássicos, quer brasileiros, quer lusitanos, da
língua portuguêsa, em particular, e dos latinos, em geral. Sei que,
filho de humanista autêtico, profundo sabedor tanto da língua
portuguesa como da latina, cresci entre sugestões, eruditas dessas duas
línguas e lendo seus estilistas, sob a orientação de um pai
severamente devoto de Horácio e de Virgílio, de Camões e de
Vieira, de Frei Luis de Sousa e de Herculano. Sei, também, que, por minha
conta, tornei-me desde adolescente leitor de clássicos portuguêses
de outro tipo: Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Gil Vicente.
Sei, ainda, que ao estudo do latim, com meu Pai, acrescentei, ainda adolescente,
o do grego, que me deu o gôsto por soluções de
caráter estilístico, em língua portuguêsa, que a
língua latina não me ofereceria; e que o gôsto por outras
soluções da mesma espécie me foram dadas pelo estudo - que
já recordei ter sido uma das minhas aventuras intelectuais - do
anglo-saxão.
De modo que a
escolha, pelo autor de Casa-Grande & Senzala,
das tais palavras vulgares, chulas que tanto melindraram a sensibilidade
elegantemente acadêmica do Professor Afonso Arinos de Melo Franco,
não deve ser de todo considerada inclinação, da parte do
mesmo autor, pela vulgaridade; ou evidência da sua ignorância dos
clássicos. Em ensaio crítico sôbre a linguagem de Casa-Grande & Senzala, mestre mais competente que o
memoralista de A Alma do Tempo, em assuntos de
língua portuguêsa e de estilística - o Professor Moacir de
Albuquerque - registra ritmos de frase, valorizações de arcaismos,
emprêgo de verbos, característicos da linguagem de Casa-Grande & Senzala, que, a seu ver, só se explicariam
pelo conhecimento, que teria o autor daquele livro e criador daquela linguagem,
dos clássicos da língua portuguêsa.
O que o autor da Casa-Grande & Senzala procurou foi assimilar
valores e ritmos assim clássicos ao seu modo, antes romântico do
que clássico mas, de maneira alguma, anti-clássico, de exprimir-se
ou de procurar exprimir-se, em trabalho de caráter antropológico,
que fôsse também obra de expressão literária
através de uma aparente deformação - afã entre
artístico e antropológico - da língua portuguêsa,
para nela serem admitidos, em trabalho daquele caráter,
afro-brasileirismos e indianismos brasileiros.
Em livro recente,
vem em apoio da ousadia, há mais de trinta anos, do autor de Casa-Grande & Senzala, escrevendo o seu livro em
linguagem inteligÍvel ao leitor comum, o Professor Peter L. Berger, ao
observar que o jargão sociológico pode, em grande parte, ser
evitado: "a good deal of contemporary "sociologese" can be
understood as a self-conscious mystification". Isto é,
sociólogos há que se mistificam a si próprios, e não
apenas aos seus leitores, através de um arrevesado de linguagem que lhes daria o que Berger chama
"respeitabilidade intelectual".
Trabalho, Casa-Grande & Senzala, de caráter
científica e humanísticamente antropológico, pretendeu o
autor escrevê-lo de modo a que não fôsse livro
antropológico fechado em terminologia científica ou erudita ou
elegantemente acadêmica. Ao contrário: expressão, a seu
jeito, de um saber não só científico porém
intuitivo, enriquecido pelo contacto do mesmo autor com a plebe do seu
país; com descendentes de escravos; com gente ainda próxima de
culturas primitivas. Expressão de um conhecimento não só
sociológico como, possìvelmente, poético, da matéria
versada em livro tão diferente das obras até então
aparecidas - em nosso ou em qualquer pais, sôbre o Homem social,
particularmente o situado no trópico: sôbre sua cultura,
sôbre seus ajustamentos à ecologia tropical e sôbre seus
desajustamentos dessa ecologia. Diferente, em sua expressão e não
apenas em sua orientação, dos livros - para só citar os
brasileiros - de Gonçalves Dias de Varnhagen, de Couto de
Magalhães de Nina Rodrigues de Joaquim Nabuco, de Capistrano de Abreu, de
Sylvio Romero, de João Ribeiro, de José Veríssimo, de
João da Cunha, de Oliveira Lima, de Roquette Pinto e de Oliveira Viana,
sôbre a mesma matéria: sôbre o Brasil, sôbre a sua
formação, sôbre os seus indígenas, sôbre os
seus colonizadores, sôbre os negros de várias culturas africanas
que se juntaram aos indígenas naquela formação, sôbre
a presença de judeus e de mouros nos antecedentes ibéricos da
formação, brasileira e nos primeiros tempos dessa
formação mesmo.
Recordando, agora
êsses e outros fatos mais diretamente pessoais ou autobiográficos,
procuro esclarecer como escrevi o livro intitulado Casa-Grande & Senzala. Por que decidi escrevê-lo. Como reagi
às primeiras críticas de brasileiros e, depois, de estrangeiros, a
obra que eu sabia tão diferente das convencionais e por isto mesmo capaz
de atrair para o autor indignações e até iras
patrióticas, religiosas e acadêmicas?
São perguntas
que exigem do autor do livro em aprêço respostas além de
autobiográficas, introspectivas. Personalíssimas, portanto.
Não prometo respondê-las aqui, sendo um tanto superficialmente.
O livro escrevi-o na
condição de emigrado: de emigrado quase político, e um.
tanto romanesco, por isto mesmo. Emigrado não por ter sido, antes dos
trinta anos, político militante que, substituído no Brasil um tipo
de govêrno por outro, devesse ser considerado, perigoso ao nôvo
regime, mas por ter-me destacado, naqueles dias, como secretário
particular de político da minha amizade também particular, e
também como diretor, por solicitação dêle, de
tradicional jornal do Recife, provínciano até no nome: A Província. Jornal que eu conseguira, com o
auxílio de intelectuais brasileiros do porte de Manuel Bandeira, de
Ribeiro Couto, de José Américo de Almeida, de Prudente de Moraes
Neto, de Pontes de Miranda, de José Lins do Rêgo, de Jorge de Lima,
de Luís Jardim, de Aníbal Fernandes, de Olívio Montenegro,
de Sílvio Rabelo, atualizar e modernizar, sem sacrifício de sua
tradição de jornal, além de independente, crítico.
Para tanto, evitara, de modo até paradoxal, que se tornasse, na sua parte
editorial, gazeta govenista. Mesmo assim, não escaparia aos ódios
de certos políticos que, de oposicionistas, passaram, de repente a donos
absolutos do poder em nosso pais; e como novos-poderosos procederam, alguns
dêles, para com os vencidos, como novos-ricos com relação
à gente arruinada, de cujas relíquias supusessem poder tornar-se
proprietários também absolutos, pela simples solução
de afastarem do Brasil êsses supostos obstáculos à sua
ascensão.
Por mais de um ano,
após a vitória dos políticos - uns, autênticos homens
de bem, outros velhacos fantasiados, de catões - que em outubro de 1930
empolgaram o poder no Brasil, estabelecendo um nôvo tipo de govêrno,
fui obrigado a conservar-me aventurosamente no estrangeiro. Vi-me, por algum
tempo, na áfrica: no Senegal. Contacto, êste,
interessantíssimo. Depois da áfrica, em Portugal, onde conheci,
pela primeira vez, num duro inverno, aquêles rigores de frio que ali,
quase tanto como noutras partes da Europa, só experimenta quem é
pobre. E foi sob essa experiência de um duro inverno e residindo em
águas-furtadas, ao "lado da sombra", de uma rua estreita e
sinistra, de Lisboa, que, apresentado pelo historiador João Lúcio
de Azevedo à, direção da Biblioteca Nacional, tomei
contacto com aquêle reduto português de erudição.
Veio-me então
a idéia de escrever um trabalho que abrisse novas perspectivas à
compreensão e à interpretação do Homem
através de uma análise do passado e do ethos da gente brasileira: trabalho que quatro anos antes, estando nos
Estados Unidos e tendo à minha disposição manuscrito e
obras raras da Brasiliana de Oliveira Lima, em Washington, eu já pensara
tentar realizar. Mas conservando o meu plano em segrêdo quase absoluto.
Tanto que, no Brasil, apenas o comunicara a Teodoro Sampaio - com quem me
correspondera sôbre o assunto, depois de ter conhecido pessoalmente
tão ilustre mestre - a Manuel Bandeira, poeta, a José Lins do
Rêgo e a José Maria Carneiro de Albuquerque. Consistia êsse
projeto em uma tentativa de nova interpretação daquele passado e
daquele ethos à base de um estudo, ao mesmo
tempo antropológico e histórico, das reações ao meio
- meio fisico, meio social - do Brasil, primeiro pré-nacional, depois
nacional, experimentados não por adultos conspícuos pelo seu
status, isto é, pelas suas posições de domínio no
conjunto social brasileiro de então, mas por párvulos ou meninos,
dominados ou oprimidos, como suas mães e quase como os escravos, por tais
adultos; mas, nem por isto, figuras sociològicamente desprezíveis,
para quem tentasse aquela espécie de reinterpretação do
passado íntimo de um povo, considerando, em crônicas
históricas e em evidências antropológicas, o papel
desempenhado na formação brasileira, por aquêles mesmos
párvulos.
Essa primeira
pesquisa resultara, desde 1926, e da minha permanêneia, naquele ano, em
Washington, numa multidão de notas: cadernos e cadernos repletos, de
apontamentos, quase todos a lápis, sôbre assunto aparentemente
pobre, recolhidos na mais seleta das brasilianas daquela época: a
coleção Oliveira Lima na Pontificia Universidade Católica
da capital dos Estados Unidos. Tal pesquisa eu a retomaria, em Lisboa, de 1930 a
1931, dando maior atenção ao material que se referisse à
mulher e ao escravo, dentro do complexo patriarcal-escravocrático que de
Portugal se comunicara ao Brasil, ampliando-se imensamente em terra americana e
em ambiente tropical. Ao estudo de fontes encontradas na Biblioteca Nacional de
Lisboa e em coleções particulares - uma delas a do próprio
João Lúcio de Azevedo, sempre muito meu amigo, durante
aquêles turvos dias - juntei o contacto, quase diário, com o
material antropológico do excelente Museu Etnológico da capital
portuguêsa, então dirigido por Leite de Vasconcelos: sábio
que também conheci naqueles dias. O estudo em bibliotecas e em museus
servia-me também de refúgio contra o frio. Frio terrível na
pensão em que, quase sem dinheiro algum, passara a viver a mais
miserável das vidas que já vivera. Pois ninguém se engane
com os invernos em Lisboa, quando severos: nêles o pobre, sem
calefação em casa e sem bom sobretudo na rua, sofre, sendo pobre,
de pegajento frio úmido, quase tanto como em Paris ou como em
Londres.
De que vivi,
então, em Lisboa? É ponto que devo esclarecer. Vivi de umas
aulazinhas de inglês que fui solicitado a dar a emigrados brasileiros
ilustres: Sebastião do Rêgo Barros, Viana do Castelo,
Belisário de Sousa, Roberto Moreira. Revelei-me, aliás,
péssimo professor particular de língua inglêsa. Desde o
início das aulas perdi a confiança em mim mesmo, ao não
conseguir lembrar-me da palavra inglêsa para cabide. Tratava-se de uma
pergunta de Roberto Moreira, de São Paulo: "Como se diz cabide em
inglês?" Devo também recordar que em Lisboa, nesses dias, se
algumas vêzes era convidado a jantar com condêssas e marquesas, em
algumas das casas mais fidalgas da capital portuguêsa, principalmente na
da Ministra Silvia Belfort Ramos casas nas quais me apresentava sempre com o
mesmo fato, muito escovado, e com uma das duas camisas que eu próprio
lavava - a maior parte das refeições eu as fazia em tascas, aos
goles de vinho verde e de ginja; convivendo com gente da mais pobre de Lisboa e
dela aprendendo, aliás, lições de lusitanidade que jamais
teria aprendido, frequentando apenas meios aristocráticos e
burgueses.
Foi a Lisboa,
já em fim de fevereiro de 1931, que me chegou inesperadamente, por
cabograma, o convite com que a Universidade de Stanford convocava-me para seu
professor extraordinário: Visiting Professor.
Honra insigne para quem acabava de atingir os trinta anos. Tão insigne
era a honra para o brasileiro obscuro que eu era então, muito, mais do
que hoje, que escrevi ao deão da faculdade que me transmitia o convite, e
ao Professor Percy A. Martin, catedrático de Stanford e que também
se comunicara comigo a respeito do assunto, para assegurar-me da sua
autenticidade: não estaria havendo alguma confusão de nome -
sugeri - isto é, do meu nome, com o do Professor Gilberto Amado?
Responderam-me que não: que o convite era de fato ao autor da tese
universitária Social Life in Brazil in the middle
of the 19th century, que a Universidade de Stanford fôra informada de
se encontrar em disponibilidade, na Europa. Aceito o convite, vieram-me
também por cabograma, os recursos para a travessia atlântica, que
seria seguida pela transcontinental, de Nova York a San Francisco. Fiz a
travessia atlântica pelo grande vapor italiano Saturnio: num quase principesco confôrto, perturbado apenas por
uma das piores tempestades de mar com que já me defrontei.
Na Universidade de
Stanford daqueles dias - uma Stanford ainda quente da presença genial de
Veblen e ainda sob o impacto das pesquisas de Terman sôbre
indivíduos de gênio - encontrei ambiente ideal para a
continuação dos meus estudos sôbre o complexo
patriarcal-escravocrático brasileiro. Um campus com alguma coisa de
paisagem brasileira: com palmeiras tropicais que me receberam - a mim, que vinha
do frio europeu e atravessara de trem o continente americano de Nova York a San
Francisco, rompendo o branco das últimas grandes neves de 31 - brilhando
sob um sol também quase brasileiro. Enquanto na biblioteca, achava-se,
como que à minha espera, valiosa Brasiliana: a que o notável
geólogo, antigo Reitor da Universidade, John Casper Branner - com quem
durante algum tempo eu menino de dezoito anos, me correspondera, sendo êle
glorioso velho de quase oitenta - reunira em seus vários contactos com o
Brasil. Encontrei também completa coleção de documentos
parlamentares, inglêses relativos não só ao tráfico
de escravos como às condições de trabalho servil no Brasil:
outra mina quase virgem à espera de quem a desvirginasse.
Quanto aos cursos
que deveria professar - um para estudantes de bacharelado, outro para estudantes
de doutorado, tendo eu de figurar com status
doutoral, entre os examinadores de teses para o doutoramento organizei-os
já dando relêvo ao que me parecia ser inovação
necessária a análise do passado e do ethos brasileiro: juntando aos métodos históricos de
análise e de interpretação dêsse passado, e
dêsse ethos os antropológicos.
Inclusive os psicológicos e até os folclóricos.
Precisamente o critério metodológico que eu desenvolveria, com
maior audácia, no livro já projetado: o que se intitularia Casa-Grande & Senzala. Foi na Universidade de
Stanford que tornou corpo o meu projeto dêsse livro: um livro que
fôsse uma nova reconstituição, uma nova
introspecção e uma nova interpretação de uma
sociedade de origem européia desenvolvida, com elementos extra-europeus
de etnia e de cultura em espaço tropical: e à base de uma
organização patriarcal e escravocrática de economia de
família, de convivência. Impossível como autor de Casa-Grande & Senzala, esquecer-me dos dias que
então passei à sombra das palmeiras da acolhedora Stanford: foram
dias decisivos para o planejamento do livro projetado.
Ao sair de Stanford
para Nova York - onde comunicara o meu projeto, ao então quase onipotente
crítico das letras e dos costumes anglo-americanos, crítico
literário e de idéias, neto de
alemão e discípulo, a seu modo, de Nietzsche, Henry L. Mencken,
que, anos antes, me aconselhara a desenvolver em livro minha tese
universitária Social Life in Brazil in the Middle
of the 19th Century, evitando ampliá-la em dissertação
doutoral meu ânimo era o de continuar, sem demora, as pesquisas
necessárias A elaboração do livro ousado que, em esquema,
já existia. Fazia-me falta o material que recolhera - em 1926 - na
Brasiliana Oliveira Lima; e que eu ignorava se ainda se conservava no Brasil nas
caixas de papelão grosso em que o deixara. A casa da minha
família, no Recife, já eu sabia ter sido saqueada e incendiada.
Mas os meus livros e papéis haviam ficado quase todos na casa em que eu
residira com meu irmão Ulysses. Teriam escapado ao saque de gatunos
fantasiados de patriotas?
Dos Estados Unidos
voltei, ainda em 1931, para a Europa, demorando-me na Alemanha para estudos
antropológicos nos seus excelentes museus-laboratórios já
meus conhecidos, desde os meus dias de discípulo de Boas. De amiga da
Universidade de Colúmbia - a então Senhora Ruediger Bilden:
êle, alemão, e meu antigo colega na mesma Universidade, onde por
influência minha se voltara para o estudo antropológico do passado
brasileiro - levava cartas para um dos maiores
filósofos-psicólogos alemães da época: o Professor
Max Dessoir, de Berlim. Creio - recorde-se de passagem ter sido o primeiro
brasileiro a falar de Dessoir, assim como de Havelock Ellis como
sociólogo, e não apenas como sexologista - no Brasil.
Em Hamburgo
comuniquei o meu projeto de livro ao então, Cônsul do Brasil,
naquela cidade e já meu amigo de Londres, Antônio Tôrres.
Não lhe pareceu que o livro viesse a interessar os brasileiros: segundo
êle, eu deveria escrevê-lo em inglês. O Brasil lhe parecia um
país sem futuro intelectual. O talentoso mulato mineiro, defroqué sempre angustiado, era, aliás, um arianista
encantado pelos anjos louros da Alemanha. Eu, entretanto, confiava no Brasil e
nos brasileiros: inclusive nos mestiços. Nos Antônio Tôrres e
noutros Antônios e noutros Tôrres.
Da Europa, em vapor
alemão, regressei ao Brasil: ao Rio de Janeiro. Aí foi decisivo o
estímulo que recebi do meu amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade a favor
do projeto de livro que eu trazia do estrangeiro. Sob êsse estímulo
continuei minhas pesquisas: na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional, na
Biblioteca e no Arquivo da Faculdade de Medicina, no Museu Nacional. Foi
considerável o material que recolhi nesses dias, no Rio de Janeiro,
hóspede, por algum tempo, de Assis Chateaubriand, no seu. palacete da
Avenida Atlântica, dos Santos Dias, no Edifício Olinda, e, de certa
altura em diante, instalado em pequena, quase mesquinha, pensão, da Rua
Paulo de Frontin.
Foi Rodrigo quem
redigiu o contrato com o editor Schmidt pelo qual o então ainda
não milionário intelectual - que aliás reconheceu de
início possibilidades no meu livro apenas em projeto -se comprometia
publicar o mesmo livro. Tornava-se êle meu editor mediante o pagamento por
mês, ao já considerado "autor", de 500 mil réis,
pela edição do trabalho que se intitularia Casa Grande & Senzala.
O pagamento dessas
mensalidades devo recordar que foi feito de maneira a mais irregular, deixando
às vêzes o editor ao escritor, em situações
dificílimas. Por brio, e espírito de independência, desde o
estrangeiro vinha eu recusando de modo por vêzes áspero, ofertas de
empregos que me foram feitas, por homens do nôvo govêrno, meus
amigos. Um dêles José Américo, de Almeida. Recusei
também mais de uma oferta de auxílio, da parte de amigos ricos.
Sem dinheiro, travei no Rio de Janeiro, conhecimento com esta
instituição sinistra: a casa de penhores. Nas suas garras deixei
um relógio finíssimo, de platina, que me fôra oferecido por
Estácio Coimbra, um anel de ouro, outrora de meu avô paterno e um
par de botões de punho, também de ouro, que usava como
lembrança de Oliveira Lima. Era histórico, êsse par de
botões, de ouro. Fora-me dado pela viúva, Dona Flora Cavalcanti de
Oliveira Lima, com a informação de tratar-se de jóia
preciosa: presente de um cardeal italiano, em Roma, ao Bardo de Penedo que do
Barão passara ao "Chevalier" Sousa Correia, por algum tempo
ministro do Brasil em Londres, e de Correia a Oliveira Lima.
Com o trabalho ainda
inacabado é que regressei ao Recife onde, do comêço de 1932
ao comêço de 1933, me entregaria intensamente à tarefa de
redigir o livro. Foi trabalho que realizei em condições dificeis -
comendo uma vez por dia e morando só e isolado numa casa que ainda existe
- à Estrada do Encanamento, então de propriedade do meu
irmão Ulysses, onde êle e eu, solteiros, residíramos durante
alguns anos. Em 1932 êle era já homem, casado. Cedeu-me aquela casa
meio abandonada e a família concordou que durante o dia ficasse a meu
serviço o velho Manoel Santana, prêto nascido ainda no tempo da
escravidão e durante longo tempo membro, por assim dizer, da nossa
família; e de certo modo meu colaborador, através de
informações orais, na elaboração do livro Casa-Grande & Senzala. Muito aprendi dêsse
como de outros Manuéis, como êle pretos, e sendo ex-escravos,
descendentes de escravos, nascidos em senzalas ou à sombra de
casas-grandes, no tempo, ainda, de escravidão. Continuando as pesquisas
de campo iniciadas nas áreas das mais antigas casas-grandes de São
Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia - casas de engenhos e de fazendas, algumas
monumentais, como a chamada Fazenda do Secretário, em velha área
do Rio de Janeiro - retomei meus antigos contactos com casas-grandes de
engenhos, ainda castiçamente patriarcais de Pernambuco e de outras
províncias do Nordeste. Especialmente a de Júlio Bello, a de
Estácio Coimbra, a dos Santos Dias, a dos meus parentes Souza e Mello, a
dos Domingues, a dos Arruda Falcão, a dos Paranhos Ferreira, tendo
recolhido, nesse período, informações orais não
só de baronesas do tempo do Império, - uma delas, a de Contendas,
velhinha então ainda lúcida, residente na sua antiga casa-grande -
como de antigos escravos também de casas-grandes: principalmente no
Engenho Raiz. Com o meu amigo Cícero Dias, levantei a planta da vasta
casa-grande, característicamente patriarcal, do Engenho Noruega, dos Dias
e dos Falcão, no que fomos ajudados pelos então jovens filhos de
André Dias de Arruda Falcão, do Engenho Mupan. O magnífico
desenho de casa tão característica, traçou-o o artista
à base de croquis em que lhe sugeri, eu
próprio, fixar os vários aspectos, quer da convivência, numa
casa daquele tipo, quer das relações de seus moradores com animais
e plantas.
Mais: achei tempo,
de volta a Pernambuco, para um bom contacto com sobreviventes de
ameríndios de águas Belas, meus conhecidos desde os dias do velho
Estigarribia, companheiro de Cândido Rondon, representantes no Nordeste do
Serviço de Proteção aos índios. Ao mesmo tempo
retomei, no Recife, contactos os mais íntimos - de cama e mesa, posso
dizer - com sobrevivências folclóricas ligadas ao complexo
patriarcal-rural brasileiro: os pastoris e bumbas-meu-boi, por exemplo.
Também voltei a conviver com os xangôs, depois de, no Rio de
Janeiro, ter me iniciado em candomblés de Niterói e em
danças, músicas e exibições de Carnaval do
então, esplêndido laboratório, para o estudo de
sobrevivências negras na cultura brasileira, que era a Praça Onze.
No Rio, passara noites inteiras em excursões aparentemente só
boêmias, mas, na verdade, também de estudo, através do qual
se aprofundou meu conhecimento de assuntos afro-brasileiros. Excursões em
companhia de Prudente de Moraes Neto, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor
Villa-Lobos, Jaime Ovale - com êste até pelo Mangue - Dunga.
Patrício, Pixinguinha. Outras, em companhia de Gilberto Amado. E, na
Bahia, portas de segrêdos afro-brasileiros se abriram para mim, desde que
me apresentara ao babalorixá Martiniano do Bomfim seu amigo, o
também babalorixá Pai Adão, do Recife.
Não se pense
que foram dias de todo tranqüilos, para o autor, os do último ano,
passado todo no Recife, de elaboração de Casa-Grande & Senzala. Comia - repito - uma vez por dia.
Experimentei o sofrimento da fome. Quando vinha à cidade, de Casa Forte,
era a pé. Voltava a pé. Vivia da venda das jacas, das mangas, dos
jambos do sitio que rodeava a casa do meu irmão. Vida difícil.
Além do que, a época era ainda de agitações. Certa
noite estava eu no Pátio do Carmo, participando da principal festa de
pátio de igreja - e, por conseguinte, folclórica - do Recife
daqueles dias, quando fui de repente agredido por três indivíduos,
nenhum dos quais meu conhecido. Reagi com uma fúria de que eu
próprio, no fim da luta, me espantei. Tanto foi essa fúria que,
levado no pôsto policial do mesmo Pátio fui consagrado pelo
delegado de plantão, o Bacharel Leovigildo Júnior,
"agressor". Dos três indivíduos, um era delegado da
própria Polícia do então Interventor Federal em Pernambuco,
o antes e depois de seus dias de poderosos, meu amigo, Carlos de Lima Cavalcanti
- homem honesto e de bem; os dois outros agressores pretendiam ser seus
capangas. Três expressões, porém, não de valentia mas
de covardia a serviço - supunham êles - do então
Interventor, em Pernambuco, que de modo algum estimou ou aprovou tal
agressão: apenas não disse de público - como deveria ter
dito - que a desaprovara.
Concluida a
redação do futuro livro, no sítio do meu irmão e na
casa, à rua Cardeal Arcoverde, dos meus amigos e primos queridos Ulysses
e Albertina Carneiro Leão Pernambucano de Mello - o historiador
José Antônio Gonçalves de Melo, filho do casal, era
então colegial e também já meu amigo - incumbiu-se de levar
o vasto MS, ao Rio a Senhorita Anita Paes Barreto, naqueles dias muito ligada a
Ulysses Pernambucano de Melo, que já se tornara orientador e mestre de
nova escola brasileira de Psiquiatria. Sucedeu, então, que, ao subir do
cais para o vapor a Senhorita Anita Paes Barreto tropeçasse, na escada,
quase deixando cair n'água o calhamaço. Teria sido perda
total de um penoso trabalho de vários anos, pois com o autor não
ficara cópia: só existiam os originais, parte dêles
datilografados - préstimo de pura amizade - por Luís Jardim,
então residente no Recife e recém-casado com môça,
além de exemplar, rica: a quase angélica Alice.
Enviados os
originais de CasaGrande & Senzala celebraram, no
Recife, os amigos do autor, o acontecimento, com uma dança na
própria casa em que o trabalho fôra concluido: a casa mourisca, e
situada num sítio chamado de Carrapicho, à Estrada do Encanamento.
Era então - repito - de propriedade de Ulysses Freyre, meu irmão.
Propriedade, hoje, de outro recifense, conserva-se a casa quase intacta; mas
desfigurada ou amesquinhada na sua aparência pelas
construções no sítio que ela outrora dominava.
A dança
só foram admitidos amigos do autor que se apresentassem fantasiados de
personagens típicos de casa-grande ou de senzala. Foi uma danca que durou
até o dia seguinte. O autor dançou, cantou e bebeu vinho na mesma
sala onde durante meses, passando às vêzes fome, escrevera o livro
intitulado Casa-Grande & Senzala. Estava mais do
que eufórico.
Austeros mestres da
Faculdade de Direito do Recife, como Alfredo Freyre - pai do autor - e Edgar
Altino, apresentaram-se na tal dança comemorativa vestidos de frades; o
Professor Artur de sá, da Faculdade de Medicina. apareceu trajado de
português da énoca colonial, ostentando vastos bigodes; o
também professor de Medicina Ulysses Pernambucano surgiu vestido de
menino de engenho: a Senhora Terezita Bandeira de Mello e a Senhorita Rêgo
Barros Gibson se apresentaram vestidas de sinhás dos tempos coloniais.
Várias outras fantasias deram colorido à
comemoração, destacando-se pela riqueza, a do então ainda
rico Luís Jardim, que se apresentou vestido de fidalgo português da
época colonial, candidato à mão de iaiãzinha de
casa-grande. Uma fantasia tôda de sedas caras e de rendas finas, a de
Jardim.
Os primeiros artigos
de crítica que apareceram acêrca do nôvo livro - elogiando-o
- foram os de Yan de Almeida Prado, Roquette Pinto, João Ribeiro e
Agripino Grieco, em jornais do Rio e de São Paulo. Os primeiros ataques
que lhe foram feitos partiram do Recife, onde uma revista chegou a
especializar-se nessa espécie de agressão sistemática no
nôvo livro e no seu autor. Tanto a extremistas da chamada
"direita" como da denominada "esquerda" repugnou na
orientação, na filosofia e na sistemática de Casa-Grande & Senzala o afã de
independência crítica que nêle se juntava a arrojos de
criação literária, inesperados em obra com
pretensões a científica.
Do estrangeiro, o
autor não tardaria a receber a aprovação, para aquela
independência e para aquêles arrojos, de sábios, de
pensadores e de críticos do porte de um Franz Boas, de um Hooton, de um
Lucien Febvre, de um Georges Bernanos, de um Ortega y Gasset, de um Otto Quelle,
de um Roland Barthes, de um Roger Caillois, de um Alfred Metraux, de um Fernando
Ortiz, de um Fernand Braudel. As restrições de fora do Brasil lhe
vieram, quase tôdas, em seguida à publicação do
livro, de sociólogos e historiadores medíocres, vários
dêles norte-americanos; e, pela fôrça de sua mediocridade,
adstritos a um então dominante, entre tais estudiosos, especialismo; ou a
uma concepção simplistamente estatística, de Ciência
social, ou simplistamente cronológica, de História.
Do Brasil, daqueles
extremistas, um sugeriu que livro, para êle tão impatriótico
quanto obsceno, fôsse queimado em praça pública, num como
auto-de-fé de nôvo estilo. Se pouco faltou para que a
sugestão fôsse posta em prática no pátio do
Colégio dos Jesuítas, surpreendente foi, desde o início, o
modo porque, não tanto a imprensa e, muito menos, as academias e
institutos eruditos, porém, ao lado dos sábios mais
autênticos - um João Ribeiro, um Taunay, um Roquette, um Paulo
Prado - o público e a mocidade brasileira deram a um livro ao mesmo tempo
tão revolucionário quanto tradicionalista, a sua
aprovação, adquirindo-o e levando-o, os moços, a seus pais,
tios ou mestres mais caturras. êsses mestres mais caturras não se
insurgiam apenas contra as para êles obscenidades e vulgaridades do livro:
também contra os para êles exageros negrófilos do autor;
também contra inovacões que lhes pareceram blagues como os meus agradecimentos, em prefácio, a ex-escravos
e a analfabetos, por informações dêles colhidas, em
entrevistas; também contra a utilização de anúncios
de jornais, de livros Mss de receitas de doces e de quitutes das casas-grandes,
de cartas e documentos particulares, como material de valor histórico e
sociológico. Inovações, tôdas essas, desconcertantes
para muitos e escandalosas para alguns.
Sinto ter o livro
desagradado ao bom do Afrânio Peixoto, pelo que êsse intelectual
meio anatoleano, meio castiço em sua devoção aos
clássicos, considerou deselegâncias de linguagem. Em outros pontos,
porém, o então prestigioso acadêmico, autor de A Esfinge, chegou a concordar entusiàsticamente
com o autor de Casa-Grande & Senzala que, por
sua vez, concordou com Afrânio em várias das suas abordagens de
baiano, finamente afrancesado a assuntos brasileiros. Ainda hoje leio com prazer
certas páginas de Afrânio Peixoto e com igual prazer recordo-me de
algumas das observações que ouvi dele próprio, na
Biblioteca Nacional, sôbre assuntos literários.
Lamento ter de
considerar intelectual tão ilustre como foi Afrânio Peixoto,
superficial, embora brilhante. Mas é o que sinceramente continuo a pensar
dêle. O que não me impede - repito - de incluir-me entre os
admiradores de sua obra. Apenas restrições como as levantadas ao
meu livro por críticos assim superficiais, por mais prestigiosos que
fôssem, não me perturbaram nem incomodaram.
Curiosa foi a
atitude, em face de Casa-Grande & Senzala, de
Oliveira Viana: mestre brasileiro de sociologia a quem muito devem as letras
nacionais. Me valorizou, nessas letras, com um brilho literário que
tornaria tranqüila sua consagração pela Academia Brasileira
de Letras, o ensaio sociológico, superando, em vigor de expressão,
seu mestre Alberto Tôrres. Era, entretanto, um ignorante tal da biologia
de raça que sua apologia do "arianismo" na
formação étnico-social brasileira, chega a ser, em certos
dos seus extremos, burlesca. Mostraram-no os dois maiores mestres brasileiros da
Antropologia chamada física - Froes da Fonseca e Roquette Pinto - a cada
um dos quais devo uma acolhida a Casa-Grande &
Senvala, além de generosa, inteligente, lúcida. Ainda que
noviço, eu próprio, ao opor à apologia do ariano na
formação étnico-social do brasileiro, tentada por Oliveira
Viana, uma quase apologia - na realidade, um sistemático
esfôrço de reabilitação - do conjunto dos
não-arianos presentes nessa formação, e, até
então, de ordinário esquecidos, uns mais, outros menos, por
historiadores e sociólogos especializados no estudo quer da do Brasil,
quer da dos povos ibéricos - o mouro, o judeu, o oriental, o
ameríndio, o negro africano de várias origens - vi-me obrigado a
investir contra o "arianismo" do autor de Populações Meridionais do Brasil.
Oliveira Viana era,
como quase todo intelectual que se preza, vaidoso e, além de vaidoso,
intolerante de críticas. Somos, aliás, quase todos os autores de
livros: vaidosos e intolerantes de críticas. Viana reagiu às
minhas, aliás, respeitosas, críticas de noviço a suas
teorias de mestre, devolvendo ostensivamente ao editor Augusto Frederico Schmidt
- o primeiro editor de Casa-Grande & Senzala - o
exemplar do livro que Schmidt gentilmente lhe enviara. Mais: guardou até
o fim da vida o mais completo silêncio com relação ao livro
e ao autor atrevido. Era como se um não tivesse nascido e o outro
não houvesse sido publicado. Foi intransigente nesse seu silêncio
de desprezo por um autor e por um livro de idéias ou
orientações tão contrárias às suas.
Entretanto, nunca publicou - depois do aparecimento de Casa-Grande & Senzala - o seu anunciado Os
Arianos no Brasil.
Devo recordar, que
atitude semelhante, com relação ao livro Casa-Grande & Senzala foi a de outro eminente crítico
brasileiro daqueles dias: Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde).
Conservou-se o Professor Amoroso Lima durante anos sistemàticamente
silencioso diante da obra para alguns Intelectuais Católicos de
então, tão inquietante quanto para vários intelectuais
Comunistas mais ortodoxos. Já no outono da vida é que o
admirável crítico literário e de idéias -
campeão por algum tempo do Modernismo. Católico do tipo mais
ortodoxo, em seguida, e hoje tão liberal em algumas de suas idéias
que certos Comunistas ou Marxistas já o reclamam como
correligionário desgarrado de suas seitas, consideraria, com muita
generosidade, o mesmo livro, de alguma importância sendo literária,
sociológica e até filosófica; e registraria o nome do seu
autor - a certa altura apontado por êle como merecedor de
atenções da polícia-política do chamado "Estado
Forte" - entre os de escritores nacionais, não de todo
desprezíveis. Quem porém se antecipou a surpreender uma filosofia
nova em Casa-Grande & Senzala foi outro
crítico, literário e de idéias, êste, ao meu ver, o
mais profundo da sua geração: Prudente de Morais, neto.
Aqui cabe a
interrogação: terá Casa-Grande
& Senzala aparecido - como tentativa de análise ao mesmo tempo
histórica e antropológica, sociológica e
psicológica, de um grupo ou de um tipo de homem, situado - com um sentido
filosófico? Dêsse seu sentido filosófico - se existe - quem
primeiro, se apercebeu repita-se que foi o crítico brasileiro Prudente de
Moraes, neto; mas sem aprofundar-se no assunto, como o faria, em dias recentes,
Maria do Carmo Tavares de Miranda, doutora pela Sorbonne especializada em
Filosofia. Outro crítico, êste francês, o conhecido pensador
Jean Pouillon - existencialista por alguns dos seus compatriotas e por outros
europeus considerado superior, como críticos de idéias. a J. P.
Sartre e a Gabriel Marcel - descobriria no livro brasileiro, ao ser êste
publicado em língua francesa, o que nêle vem sendo considerado por
êle e por outros críticos estrangeiros, a originalidade de uma
perspectiva múltipla de passado nunca de todo dissolvido em presente, mas
os dois tempos em constante interpenetração, ao ponto de
constituir essa interpenetração, base, segundo outro
crítico francês, o Professor Roger Bastide, ao comentar outro
trabalho do autor de Casa-Grande & Senzala, em
Cahiers Internationaux de Sociologie, para uma
Sociologia do Tempo. Sociologia do Tempo difícil de ser separada de uma
filosofia existencial do Tempo-Vida-Morte.
O diálogo
entre "tempo morto" e "tempo vivo" é, com efeito, uma
das constantes filosóficas do livro Casa-Grande
& Senzala constituindo uma expressão moderna de diálogo
platônico sob aspecto dialético hegeliano. Tende êsse
diálogo a uma síntese daqueles dois tempos num terceiro, nem
inteiramente morto, nem inteiramente vivo, dentro do qual viveria todo grupo
humano cuja específica situação no espaço-tempo
fôsse identificada por uma análise de sua formação,
ao mesmo tempo que de sua ecologia, semelhante à análise tentada,
com audaciosa amplitude no espaço e, ao mesmo tempo, com ousada busca,
é claro que não atingida, de profundidade no tempo, em Casa-Grande & Senzala.
O que alguns
críticos atuais vêm destacando no recente livro La Technique ou l'enjeu du siècle, do Professor Jacques
Ellul - como sendo o que um dêsses críticos e tradutor da obra
francesa para língua inglêsa, o Professor John Wilkinson,
identifica sob o aspecto de tendência, da parte do autor, filósofo,
da sociologia histórica, para "situar fatos de certa
experiência num contexto geral" e só então, pôr
em foco alguns dêles como representativos de todo o contexto gestaltiano -
poderia ter sido, talvez, destacado, de Casa-Grande
& Senzala, se o livro brasileiro tivesse tido ao aparecer, quem, no
Brasil, se tivesse aprofundado, de maneira semelhante à de Wilkinson com
relação a La Technique ou l'enjeu du
siècle, na interpretação da sua filosofia:
interpretação que só agora - repita-se - está sendo
realizada, e de modo magistral, por Maria do Carmo Tavares Miranda, com sua rara
competência; e também por Gilberto de Mello Kujawski, Bernardo
Gersen e Machado Neto.
Em ambos os livros -
naquele recente, do pensador francês, e no publicado há trinta
anos, de autor brasileiro, em língua portuguêsa - nota-se que as
análises de determinadas experiências - a "patriarcal
eurotropical", no livro brasileiro, a "tecnológica
ocidental", no livro francês - se faz à base de fatos
experienciados em relação com contextos dinâmicos, e
não apresentados apenas estatísticamente, por um lado, ou
sòmente abstratamente, isto é, desencarnados de suas
situações totais e concretas, por outro. Pois de ambos os autores,
do francês e do brasileiro, seria possível dizer-se, com Wilkinson,
que seus pontos filosóficos de partida para a interpretação
de fatos que analisam, submetendo alguns dêles a uma
simbolização em tipos ideais weberianos ou em formas simelianas,
são os da fenomenologia hegeliana, isto é, aquela que faz da
experiência o próprio ponto de partida da
interpretação filosófica de qualquer condição
humana, atual ou histórica. Ou, simbióticamente,
atual-histórica, como parece ser tôda condição ou
situação humana quando considerada em sua expressão
existencial e não desencarnada arbitràriamente em
abstração ou reduzida a semi-realidade suceptível de
apresentarção em têrmos confortàvelmente -
confortàvelmente para certa espécie de cientistas sociais -
estatísticos, quantitativos, objetivos.
Quanto a ser ou
não ser Casa-Grande & Senzala obra,
além de animada de uma filosofia gestaltianamente existencial,
criação literária - possível direito que lhe
têm negado críticos mais bisantinamente beletristas, no seu
conceito do que seja literatura - continua ponto discutível. Há
até quem considere - ao contrário dos beletristas - o autor do
livro ainda tão discutido, demasiadamente esteticista em sua
sistemática de interpretação - que não deixaria,
mesmo assim, de ser ética - da realidade brasileira: crítica
já rebatida, com um vigor de senso analítico surpreendente em
pensador ainda jovem, por um dos mais lúcidos intelectuais, dentre os
mais novos do nosso país: o paulista Gilberto de Mello Kujawski.
A êste
propósito, não devo ocultar meus namoros desde muito jovem, com
formas estéticas de expressão literária, de que talvez se
encontrem traços na prosa, por vezes, talvez, nada estética -
segundo as normas dos beletristas - de Casa-Grande &
Senzala. São namoros que vêm da remota infância: menino,
ainda, já eu caricaturava Camões, por um lado, José de
Alencar, por outro, em sonetos como "Jangada Triste". Já homem
de vinte e poucos anos, escreveria sob a influência - quanto à
forma literária de expressão - de "imagistas" da
língua inglêsa, o "Bahia de todos os santos e de quase todos
os pecados". Influência, nesse particular, que, incluia a de Walt
Whitman, poeta-sociólogo, além da de Nietzsche,
poeta-filósofo, não quanto à substância da sua
filosofia, mas quanto à forma estética do seu modo de ser
filósofo, inspirada, aliás, em grande parte, em pensador espanhol:
Gracian.
Namoros, confesso,
com as belas letras pròpriamente ditas. E sendo o meu caso o de um
escritor de sexo intelectual convencionalmente forte - dado o caráter
antropológico dos meus trabalhos: da antropogia científica
à filosófica - admito que, para os puristas de gêneros de
expressão, seja um marginal da literatura. Separada a lógica, de
modo absoluto, da estética, constituiriam namoricos, como aquêles
meus, uma espécie de pequenos amôres dos chamados contra a
natureza. Pois o ensaio em sua expressão mais vigorosa - Pascal,
Vives, Bacon, Montaigne, Newman, Carlyle, Emerson, Unamuno - é, pelas
convenções de sexo literário, considerado expressão
masculina de creatividade, enquanto a forma poemática, a novelesca, a
teatral seriam expressões femininas. Pura convenção. Pois
nem Santayana, na sua novela, nem Bertrand Russell, nos seus contos, nem
Gilberto Amado nos seus versos e nas suas novelas, nenhum dêles perdeu o
sexo literário masculino de ensaista-pensador, ao adotar excepcional, mas
sempre potentemente, formas convencionalmente consideradas femininas de arte ou
de expressão literária. Não digo que esteja na categoria
intelectual dos bi-sexuais citados, mas são exemplos, os dêles, que
servem de justificativa ao que porventura se encontre de beletrismo, num livro
de escritor de sexo predominantemente masculino como parece ser, pelo que
nêle é mais "forte e feio", do que belo ou gracioso, Casa-Grande & Senzala.
De modo geral,
repita-se que, admitidas exceções notáveis, de brasileiros
como João Ribeiro e Prudente de Moraes, neto, dentre vários, a
compreensão mais idônea, por parte de críticos, dos
propósitos e do modo por que foi elaborado, mais como expressão do
que como composição, o livro Casa-Grande
& Senzala - e ainda mais - o reconhecimento do que, no mesmo livro,
seria próprio ou original e não pura ou passiva
aplicação ao Brasil de "antropologia norte-americana" ou
de "filosofia alemã" ou de "sociologia francesa"
só viria após - imediatamente após, aliás - sua
publicação em inglês, em, francês e em espanhol; e
mais recentemente, em alemão e em italiano.
Em francês,
uma das primeiras críticas, além de compreensiva espantosamente
generosa, de Casa-Grande & Senzala, isto
é, Maitres et Esclaves, foi a do Padre Retif,
S. S., em Études. Apareceu quase ao mesmo,
tempo que a N. R. F. apresentava aos franceses o livro brasileiro em
têrmos tais que o consagraram obra literária tanto quanto
científica e filosófica de sabor - segundo crítica
tão autorizada - clássico. "Experts" especiaIizados,
como são os franceses, em distinguir sabores tanto em livros como em
vinhos, a verdade, porém, é que até mestres por vêzes
se enganam tanto com relação a livros como a vinhos, quando ainda
muito novos. O verdadeiro crítico de um livro, como de um vinho com
pretensões a clássico, o crítico que verdadeiramente
consagra êsse autor ou êsse vinho, como clássicos, sabemos
todos que é o Tempo. E em face do Tempo, Casa-Grande & Senzala é apenas uma criança, mimada
por uns, é certo, mas ainda evitada - como as crianças traquinas
ou mijonas - pelos mais cautos.
Uma teoria sociológica derivada de uma análise social: seu "como" e seu "porque"
|
"...chaque
fraction du temps ecoulé est à la fois passé, present et
avenir". Henri Focillon
|
Pode-se dar como
já triunfante, nos meios intelectuais mais idôneos, a teoria
sociológica, aplicada a história da sociedade brasileira. - ao
estudo das suas origens, da sua formação, da sua
consolidação - de ser essa a história de uma sociedade
predominantemente patriarcal, em sua configuração, e desenvolvida
à base de valores principalmente, mas não exclusivamente,
hispano-cristãos, - valores hispano-cristãos em dinâmica,
interpenetração com outros valores, europeus e cristãos e
com valores ameríndios e africanos negros - num espaço quase todo
tropical em suas condições físicas de vida e em seus
recursos ecológicos de economia. Creio mesmo ser possível
reduzir-se, por arbitrária simplificação simbólica,
o que há de sociològicamente formal nessa
interpretação, ao triângulo
Patriarcado
Interpenetração
de etnias e culturas
Trópico
à, base, o
trópico. Sôbre essa base - base como condição
geológicas - as duas fôrças dinâmicamente
étnico-culturais e sócio-culturais porventura mais atuantes na
formação da sociedade brasileira: a configuração
patriarcal de convência - indo a desvios poligâmicos da moralidade
cristã, mas não do sistema patriarcal, quando
escravocrático - e a interpenetração de etnias e de
culturas, não só à sombra como à margem do mesmo
sistema patriarcal e por vêzes - o caso das reduções
jesuíticas - contra êle, com minorias dissidentes em
relação com uma maioria avassaladora.
Os símbolos
"Casa-Grande & Senzala", "Sobrados e
Mucambos", "Ordem e Progresso" e a utilização
sociológica, isto é, como "tipo ideal" do
"triângulo rural" (identificado, como realidade
empíricamente histórica, por Pereira da Costa), são
símbolos que cabem, todos êles, dentro daquele triângulo,
também êle simbólico e também êle
expressão de um "tipo ideal" de caracterização
arbitráriamente geométrica - digamos assim de realidade social
difusa. Isto um tanto de acôrdo com as sugestões de Max Weber, a
quem se deve a concepção de "tipo ideal" em
sociologia.
Max Weber aplicou-a
principalmente ao estudo histórico-sociológico da burocracia,
tendo por apoio empírico sua análise minuciosa e seu íntimo
conhecimento do sistema prussiano de organização de
serviços públicos da época imperial alemã..
há do grande sociólogo alemão tradução
espanhola que passa por excelente de uma de suas obras, sob o título Economia y Sociedad, publicada no México em
1944. E em inglês, The Theory of Social and
Economic Organization, publicada em Nova York em 1947 e From Max Weber's Essays in Sociology, publicado em 1946.
Não admito
ter sido influenciado senão indiretamente pela teoria de Max Weber, na
minha concepção da história da formação
brasileira, como exemplo de desenvolvimento num tempo, antes social do que
cronológico, e num espaço antes ecológico do que
convencionalmente geográfico, de um sistema patriarcal de
convivência, de modo a poder ser essa concepção estendida ou
aplicada, sociològicamente, isto é, como estudo principalmente de
formas e processos sociais, a outras formações modernas. Isto
é, a outras formacões sócioculturais, dentre as que
vêm, decorrendo de impactos europeus e cristãos sôbre
áreas, populações e culturas tropicais, em
circunstâncias favoráveis à configuração
patriarcal de sociedades de novos tipos: do sub-europeu ao neo-europeu e ao
quase extra-europeu. O caso do antigo Sul dos Estados Unidos: exemplo de um tipo
feudalmente sub-europeu de sociedade agrária patriarcal à base
como a sociedade brasileira, da escravidão do negro africano e resultando
em impactos arquitetônicos sôbre a paisagem subtropical do Sul da
América do Norte semelhantes aos que assinalaram, desde o século
XVI e à mesma base de trabalho - o escravo, o do negro importado - a
paisagem tropical e subtropical do Brasil. êstes impactos sob a forma de
casas-grandes e de senzalas, as primeiras tendo sido conhecidas também
nos Estados Unidos como "big houses" e se aprimorado numa arquitetura
que teve um dos mestre leigos dêsse aprimoramento em Thomas Jefferson,
cuja casa-grande, na Virgínia - Monticello - ainda hoje pode ser
visitada, continuando intacta com seus móveis patriarcais. O que é
certo também da casa, igualmente patriarcal - casa-grande - de George
Washington, em Mount Vernon.
Várias
são as áreas em que se encontram equivalentes, sob o aspecto
sociológico de formas sociais com diferentes substâncias
étnicas ou econômicas - dos complexos, já estudados
sistemàticamente no Brasil, Casa-Grande &
Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso.
Em viagens de observação, eu próprio os tenho
encontrado e identificado em áreas tropicais de colonização
hispano-cristã, como as áfricas Portuguêsas e como o Oriente
Português; em Pôrto Rico; em Cuba; em partes das Índias
Ocidentais; no Paraguai. No Paraguai, encontram-se, do complexo,
expressões preponderantemente extra-européias, tal a
preponderância, em certos particulares, do elemento étnico-cultural
guarani sôbre o ibérico. É o que se nota, por exemplo, em
artes caracterìsticamente familiais do Paraguai, como a da renda nhanduti
e na culinária paraguaia. Enquanto na Argentina, a despeito do
relêvo que tomou a figura, tão romantizada, do gaúcho - que
é uma figura caracterìsticamente americana - à
presença de casa-grande patriarcal, mais pastoril do que agrária,
faltou quase de todo - mas não de todo - a complementação
da senzala. Faltou-lhe a senzala sem lhe ter faltado o elemento humano, sob
alguns aspectos equivalente ao servo acomodado em senzalas: o indígena ou
o mestiço, dominado e, em não poucos casos, explorado, pelos
senhores das estâncias.
Isto nos leva
à consideração de que, no próprio Brasil, o complexo
Casa-Grande & Senzala não se apresenta empíricamente,
concretamente, por um lado, ou cronològicamente por outro, o mesmo nas
varias regiões brasileiras e nos vários tempos sociais que o
país, vem vivendo, porém com substâncias diferentes e
implicações, em relação com outras expressões
de desenvolvimento brasileiro, também diferentes, porém dentro,
sempre, de formas sociològicamente iguais ou semelhantes. É
natural que se verifique, no plano empírico, tais diferenças. Pois
elas têm ido, entre nós, da adaptação do sistema
patriarcal de relações senhores-servos em área
agrária de latifúndio de cana de açucar a área de
latifúndio de cacau; e de qualquer dêsses latifúndios de
caráter agrário - e, até certo ponto, dos de
plantação de algodão e tabaco e dos de
mineração - a grandes propriedades de caráter pastoril:
fazendas de criar e mais especificamente, estâncias. É
clássico, com relação a êsse último tipo de
patriarcado rural no Brasil, o estudo de Capistrano de Abreu, sôbre o
ciclo do couro; enquanto estudos, ainda por ser sistematizados, do Professor
Manuel da Silveira Cardoso, sôbre a era brasileira da
mineração mostram ter sido uma sociedade, a mineira dos dias de
esplendor dessa época, impregnada de sugestões absorvidas dos
Brasis agrário-patriarcais. Impregnação que se verificaria
em São Paulo com o surto do café.
Substâncias
regionalmente diversas - embora tôdas, em espaço tropical e
subtropical, que, até certo ponto, as tem unificado ecològicamente
- vêm resultando em alterações de formas sob a
influência de substâncias assim diversas; mas sem que se possa dizer
que o sistema de formação brasileira tenha deixado de ser, em
qualquer região do Brasil de economia mais expressiva e de
organização mais estável da família, outro sistema
senão o patriarcal, quase sempre - no decorrer dos séculos
coloniais e durante grande parte do primeiro século de vida nacional -
acompanhado pela monocultura, pelo latifúndio e pela escravidão ou
servidão. Ou por equivalentes da servidão.
Insisto em que se
deve considerar a aplicação dos critérios de
interpretação sociológica da formação e do ethos brasileiros, representados pelos símbolos
sociológicos Casa-Grande & Senzala, Sobrados
e Mucambos e Ordem e Progresso,
sociològicamente, isto é, como se fôssem novas
expressões do conceito weberiano de "tipos ideais". É um
conceito que continua sociològicamente válido embora contra
êle tenham se acumulado críticas de caráter empírico
que, como críticas de caráter empírico, são, quase
tôdas, válidas. Mas, aceita a legitimidade da
abstração sociológica à base de evidências
empíricas, compreende-se que continue válido um conceito em que a
idealidade só é perfeita - se chega a ser perfeita nos seus
aspectos quase puramente racionais, isto é,
lógico-psicológicos, de caracterização de uma
realidade social. Sem pretender-se, portanto, alcançar com aquela
idealidade, essa realidade, em tudo que, na mesma realidade, seja
diferenciação empírica de época para época e
de região para região.
Em recente ensaio,
Problemas Funcionales de las Grandes Organizaciones,
(Bogotá, 1963), Theodore Caplow salienta, à pág. 6, da
teoria de "tipos ideais" que retém sempre alguma coisa do seu
modêlo original - "o serviço civil prussiano" - que a
primeira aplicação que se faça dos seus conceitos a
situações diferentes daquela que serviu de base empírica
à teoria - a minas de carvão, ou a navios de guerra, por exemplo,
- nos dá a impressão, de ser uma aplicação que se
processa como se houvesse uma distorção dos fatos, a favor da
teoria. Só numa segunda fase de aplicação se processaria o
ajustamento entre a teoria geral, sob o critério de idealidade
sociológica, e a situação particular, com seus
característicos próprios; a êsse ajustamento através
de pequenas alterações da teoria a favor dos fatos que constituem
a situação particular sob consideração. Escreve a
esse propósito o mesmo, sociólogo, na sua excelente monografia,
que "al igual que la fructifera teoria de Freud sobre las relaciones
familiares, la teoria de la burocracia de Weber se ha tomballado al someterlo a
prueba en el campo, basta el punto de que no se ha confirmado ninguna de las
proposiciones, derivadas de la formulacion original de Weber sin que estas hayan
tenido que sufrir antes un cambio sustancial". Isto, porém -
acrescenta Caplow da teoria de Max Weber e da sua aplicação ao
estudo sociológico da organização, não
político-burocrática, porém industrial-burocrática,
representada pela grande emprêsa industrial moderna, "no disminuye su
extraordinário valor como estímulo para objetivar la organisacion
a gran escala ni la utilidad de sus conceptos con los cuales podemos diseccionar
y escudriñar organismo tan dificil de manipular".
Em limites bem mais
modestos, é o que se pode dizer da teoria brasileira de
interpretação de situações sócio-culturais e
psico-culturais, caracterizadas pela predominância, em espaço
tropical ou quase-tropical, de um tipo patriarcal de família, de
economia, de sociedade, sôbre outras partes de um conjunto
sócio-cultural e psicocultural e sôbre o próprio meio fisico
- a ecologia tropical. Como a teoria de Max Weber sôbre burocracia, parte
a brasileira, de interpretação patriarcalista de sociedades
neo-européias ou sub-européias em regiões tropicais. A de
Weber desenvolveu-se do estudo particularmente intenso e particularmente
sistemático de uma situação específica no
espaço e no tempo - o serviço civil prussiano na segunda metade do
século XIX - para, através dos chamados "tipos ideais"
do que seja organização burocrática, abrir perspectivas a
um estudo amplamente sociológico, de outras situações
burocráticas, que confirmasse o estudo original e, em certo sentido,
modêlo quanto às formas e processos característicos da
organização estudada. A teoria brasileira parte, também, do
estudo, assim sociológico, em tôrno de um modêlo ou de uma
situação específica, quer na sua ecologia tropical, quer
nos seus acidentes de caráter histórico e nos seus
característicos de caráter étnico-cultural.
Que há na
teoria brasileira elementos weberianamente polivalentes, que permitem sua
aplicação, através de pequenas alterações, a
situações ecológica e sociològicamente afins da do
Nordeste brasileiro da cana de agucar, parece hoje ponto tranqüilo. Isto em
face de depoimentos, no Brasil, como o de antropólogos historiadores,
sociólogos e economistas que vêm reconhecendo estender-se a
validade da interpretação Casa-Grande
& Senzala e Sobrados e Mucambos, ao Sul e ao
Centro do Brasil - os Brasis da fazenda de café, da fazenda de criar, da
estância.
Do estrangeiro, os
testemunhos vêm de um Roland Barthes, sugerindo a aplicação
do método e da chave brasileiros a situações francesas -
sugestão também do conhecido crítico existencialista Jean
Pouillon; de um crítico da Yale Review, sugerindo sua
aplicação a situações anglo-americanas; do Professor
Fernando Ortiz, de Cuba, sugerindo sua aplicação à
situação cubana; de um crítico neo-marxista da lucidez e do
saber de Juan Antonio Portuondo, sugerindo sua aplicação a
situações latino-americanas; de um antropólogo
português, do Professor Jorge Dias, afirmando haver encontrado em
áreas tropicais de formação portuguêsa
confirmações à teoria brasileira, também encontradas
pelo jurista-sociólogo Adriano Moreira na áfrica e no Oriente; de
um historiador da cultura lusíada como José Osório de
Oliveira admitindo a reinterpretação de parte considerável
da história e da sociologia da literatura em língua
portuguêsa, sob sugestões da mesma teoria. O que é
também admitido pelo Professor Julían Marías, de Madrid - o
principal continuador de Ortega y Gasset - para o estudo de
situações pan-ibéricas.
E recentemente, em
revista venezuelana de orientação marxista, é o que se
proclama em estudo interessantíssimo. Em "Elementos Indígenas
y Africanos en la formacion de la Cultura Venezolana" (Revista Venezolana de Sociologia y Antropologia, n. 3-4 -
Capítulo, aliás, do livro Historia de la
Cultura en Venezuela), destaca o antropólogo-sociólogo Miguel
Acosta Saignes ter o espanhol assimilado, na Venezuela, de indígenas e de
negros, numerosos valores e numerosas técnicas - inclusive de
"alimentacion" e de "vivienda". Assimilação
que, na Venezuela, se fêz através de equivalentes de casas-grandes
e de senzalas e de sobrados e mucambos brasileiros. Daí o
antropólogo-sociólogo venezuelano destacar as "muchas
observaciones certeras, aplicables no solo a su pais el Brasil, como a
Venezuela", que se encontram no livro Casa-Grande
& Senzala. Figuras e ritos característicos do complexo
casa-grande-senzala, existiram também - recorda Acosta Saignes - na
Venezuela, como "la criadora" ou "mana negra", isto
é, a "mãe negra", os "hermanos de leche", ou
irmãos de leite, os são joões festivos e confraternizantes,
o culto a são Benedito, a iniciação sexual dos brancos da.
casa-grande em negrinhas ou negras da senzala, acêrca do que, comentando o
livro Casa-Grande & Senzala, observa Acosta
Saignes: "En Venezuela el fenomeno de la formacion sexual ha sido identico
al brasileñio...": fenômeno processado, em grande parte,
à sombra das casas-grandes e das senzalas. De onde se poder concluir,
quanto à Venezuela, como quanto ao Brasil, que o negro, em vez de haver
representado apenas, como morador de senzala ou de mucambo, o papel de elemento
social e culturalmente passivo, na formação dessas sociedades
predominantemente neo-ibéricas nos trópicos, também
"fue colonisador". O mesmo sucedeu noutras áreas tropicais,
hoje marcadas pela presença de sociedades neo-ibéricas de
formação patriarcal.
Semelhante
repercursão da teoria de interpretação sociológica
de formação de sociedades neo-européias ou
sub-européias nos trópicos e em áreas subtropicais, onde a
família patriarcal fêz sentir sua influência em
competição com o Estado e com a Igreja, de que saiu, por
vêzes, triunfante - teoria derivada do estudo
histórico-sociológico da sociedade patriarcal que foi, no Brasil,
o tipo de sociedade que deu à formação pré-nacional
e nacional dêste país seus característicos principais -
parece indicar que é uma interpretação já hoje
impossível de ser deixada de lado, por quem se entregue à
análise não só do passado como do ethos, isto é, do caráter, não só da gente
brasileira como de gentes afins da. brasileira. Porque o ethos ou o caráter de um grupo sabemos ser condicionado por sua
formação, sendo assim deficiente tôda análise
sociológica, visando a identificação dêsse ethos, que despreze os elementos que lhe tragam o
estudo, através da sociologia da história ou da sociologia chamada
genética - isto é, das origens sociais de um povo - ou
através da própria antropologia, da formação ou do
desenvolvimento dêsse povo no espaço - isto é,
ecológico - e no tempo: isto é,
histórico-sociológico ou antropocultural.
No caso do Brasil, a
chave de interpretação do desenvolvimento, nesse
tempo-espaço, de um ethos hoje porventura
nacional, - interpretação que seja uma tentativa de
compreensão, através dos complexos Casa-Grande & Senzala, Sobrados e
Mucambos, Ordem e Progresso, de tôda uma realidade social que se
convencione em considerar nacional - vem se encontrando não só no
estudo pròpriamente histórico-social do mesmo desenvolvimento,
como no estudo dêle através de métodos
antropológicos, psicológicos e folclóricos, que supram os
históricos, em áreas a que falte documentação
histórica na qual se apoie o estudo
histórico-sociológico.
Isto porque,
binômios como Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Muicambos e, até certo ponto, Ordem e Progresso, são binômios
susceptíveis de estudo apenas semi-histórico. Metade do estudo que
dêle se empreenda - foi outra das inovações da teoria
brasileira de interpretação social representada por aquêles
símbolos - terá que se fazer por métodos
extra-históricos de investigação de origens e de
recuperação de tempos sociais em parte desfeitos, como são
os métodos antropológicos, psicológicos,
folclóricos. Pois grande parte do que nos vem, aos brasileiros de hoje -
ao nosso ethos, às nossas normas nem sempre
racionais de comportamento, aos nossos pendores para atitudes nem sempre
ortodoxamente européias em relação ao tempo, por exemplo -
chegam-nos de influências psico-sociais e sócio-culturais que
subiram das senzalas às casas-grandes e dos mucambos aos sobrados; e vem
subindo às áreas asfaltadas do país, dos Palmares, das
Pedras Bonitas, dos Canudos, dos candomblés, das macumbas. Não
é inexpressiva a atual substituição quase maciça por
brasileiros de áreas asfaltadas e até por elementos da chamada
"society", do culto da Virgem Maria - crescentemente desprezado por
sacerdotes Católicos do tipo que se intitula "progessista" e
"racional", pelo culto de Iemanjá.
Sobrevivências
antes sub-históricas que históricas, de culturas arcaicas que
têm sido dominadas policialmente, porém não social e
culturalmente destruídas, por aquêles governos e por aquelas
"classes dirigentes" mais sub-européias; são
influências vivas na atual cultura brasileira. Grande parte de tais
influênciais, só as podemos considerar através de
métodos extra-históricos. É fácil de dizer-se
porque: porque são influêneias vindas de culturas
pré-cronométricas. Quase não há delas excetuado um
outro registro dessa espécie relativo a negros islamizados - registros
históricos. Temos então que recorrer, como se sugere, talvez
pioneiramente, no livro Casa-Grande & Senzala, a
evidências de caráter antropológico, psicológico,
etnográfico, folclórico. Sem elas - sem o seu estudo, não
aparte, mas em conjunto com o estudo pròpriamente histórico do
passado brasileiro - não há história nem
interpretação nem compreensão do que seja ethos, formação, desenvolvimento da sociedade a que
pertencemos; e da qual é impossível separar-se o que nela é
projeção não só única, na
composição das populações, como psico-social, no
comportamento das mesmas populações, dos elementos
ameríndios e negros, de culturas primitivas ou
pré-alfabéticas, que, ao lado de moçárabes e judeus,
entraram de modo tão profundo naquela formação e
condicionaram de modo tão significativo aquela formação. O
que se verificou principalmente - embora não exclusivamente
através do sistema de interrelações
casa-grande-senzala.
As
relações entre casas-grandes e senzalas e entre sobrados e
mucambos não foram, no Brasil, relações em que
predominassem antagonismos de classe contra classe, embora êsses tenham
colorido fortemente episódios nada desprezíveis do passado quer
pré-nacional, quer nacional, do nosso país. Pode-se, entretanto,
afirmar, à base do estudo histórico-social completado pelo
antropológico, que se faça de tais relações, ter
sido tão extensa, entre nós a interpenetração
sociológica entre culturas senhoris e servis, tão extensa, ao seu
lado, a interpenetração biológica, entre sangues igualmente
senhoris e servis, que o Brasil não só pertence ao número
de sociedades neo-européias nos trópicos caracterizadas pelo que
é misto - de origem senhoril e servil, européia e
não-européia, na sua cultura e no seu ethos - como se destaca, de tôdas elas, pelo relêvo que
aqui tomou êsse processo de interpenetração até de
contrários cuja harmonização vem se desenvolvendo.
No decorrer
dêstes pequenos ensaios, é evidente que venho desobedecendo a
mestre francês que nos adverte contra o mau gôsto terrível
que é o indivíduo falar de si próprio. Mas quem nestes dias
turvos que vamos atravessando não desobedece nos conselhos dos mestres? E
quanto ao bom gôsto: que é, para a gente moderna, o bom
gôsto?
Os leitores
já sentiram que com essas palavras só na aparência sutis -
na realidade muito, banais - eu apenas procuro justificar o inevitável:
vir falando diretamente de mim mesmo. É claro, sem nenhuma daquela
elegância de anjo e de anglo do Cardeal, neste particular, meu patrono - o
que escreveu a Apologia pro vita sua. A esta altura
torno-me particularmente deselegante, assumindo a responsabilidade por uma
teoria de interpretação social, ainda discutida mas, em grande
parte aceita pelos idôneos. É que me sinto obrigado a reivindicar,
para a mesma teoria, alguma originalidade brasileira.
Notável
sociólogo francês, o Professor Roger Bastide, hoje da Sorbonne,
escreveu já há anos, numa revista de sociologia igualmente ilustre
e igualmente francesa a Revue Internationale de
Sociologie, que conta com a colaboração dos maiores
sociólogos modernos e se interessa pela sociologia cultivada até
nos países exóticos - erudito artigo sôbre aspectos do que
gentilmente considera, nesse seu ensaio, meus "trabalhos
sociológicos". Nessas páginas - de uma lucidez de que
só são capazes os críticos franceses - há,
entretanto, um trecho que me obriga - pelo menos me parece obrigar - a uma
atitude diretamente apologética. É quando o sociólogo
francês escreve (que me desculpem alguns dos meus inimigos e sobretudo
alguns dos meus amigos, a transcrição de tantas palavras a meu
respeito) ser meu projeto... "d'atteindre la vie sociale à
travers des types d'habitation, le genre de vie des hommes, surtout dans
un pays casanier, comme le Brésil, étant fonction de
l'architecture de la maison". E salienta: "On reconnait
là une idée nord-americaine et, en effet, G. Freyre a
été, très jeune, etudiant dans les universités des
États-Unis, où il a subi particulièrement l'influence
de Boas; et ce sont les methodes nord-americaines qu'il a
transportées et transposées au Brésil. Nous trouverions une
autre trace de cette parenté d'inspiration dans le project que
Freyre nourrit actuellement d'écrire, à l'usage, de
ses concitoyens, un traité d'ècologie".
Não me parece
que, nas minhas tentativas - simples tentativas - de estudar, acrescentando-se
à análise antropológica da formação
brasileira, a história social do Brasil através dos tipos de
habitação, e do que êstes tipos representaram como
contrários num tipo de relações patriarcais em que à
segregação, acompanhada de distânciamento social, juntou-se
a convivência, provocadora de interpenetração de sangues e
de culturas, se deva ver simples reflexo de "idéia
norte-americana"; nem pura repercussão de método ou
técnica caracterìsticamente norte-americana. A tentativa
brasileira de estudo sociológico, ao mesmo tempo que histórico,
antropológico e ecológico, do patriarcado agrário, nos seus
dias de opulência, e do fim do declínio do mesmo sistema de
organização social, no Brasil, se caracteriza por uma
particularização do sentido ecológico que a distingue
não só das correntes conhecidas de sistematização
sociológica daquele método de análise social (a indiana, do
sociólogo Mukerjee, a sul-Africana, de Bews, a norte-americana, da Escola
de Chicago e da de Michigan), como das obras modernas sôbre os tipos de
habitação considerados em sua projeqdo social. Obras que,
aliás, são muito menos a expressão de "uma
idéia norte-americana" que de idéias alemãs e de
idéias francesas.
Não
conheço - e, como salienta o Professor Roger Bastide, fui por
vários anos estudante em universidades dos Estados Unidos, aluno de
alguns dos seus antropólogos e sociólogos mais notáveis, um
dêles o antigo colaborador da Revue Internationale
de Sociologie, Professor Franklin Giddings - obra norte-americana nenhuma
que faça da casa - do tipo colonial ou nacional, rural ou urbano,
senhoril ou proletário, erudito ou rústico, de
habitação - o centro de qualquer estudo ou tentativa de estudo
sistemático ou especializado de história ou de ecologia social ou
de sociologia genética. Os trabalhos sôbre tipos de
habitação do feitio do Domestic
Architecture of the American Colonies and the early Republic, de Fiske
Kinball, ou do Dwelling houses of Charleston, de A.
H. Smith, são escritos do ponto-de-vista da história da
arquitetura doméstica: apenas rogam pela história social da casa
anglo-americana.
Conheço
sôbre o tipo de habitação em suas relações com
o gênero de vida dos homens ou a paisagem de regiões várias
obras alemãs e francesas. Escritas, porém, de ponto-de-vista,
senão da história da arquitetura doméstica - como aquelas
norte-americanas - do ponto-de-vista, e segundo a técnica ou o
método de geográfia cultural ou de etnografia. Nenhuma - que eu
conheça - foi escrita de ponto-de-vista acentuadamente sociológico
ou predominantemente antropológico-social ou histórico-social ou
histórico ecológico, apesar das sugestões, nesse sentido,
de G. Schmoller e de O. Spengler, às quais me refiro no prefácio
de um dos meus primeiros trabalhos sôbre a formação social
brasileira. Há páginas de Mumford sôbre o assunto:
porém nada específicas quanto à fomação mais
íntima desta ou daquela sociedade em relação direta com
tipos domésticos de arquitetura, caraterísticos dessa
formação.
Ainda assim, creio
que haveria razões para dizer-se que, nos meus projetos de estudar o
passado social do Brasil, e tentar às vêzes interpretá-lo e
reconstituí-lo por vezes mais psicológica que
sociológicamente, e tão antropológica quanto
históricamente através dos seus tipos mais característicos
e tradicionais de habitação estudos a que me venho dedicando
há anos e para os quais, já pedi a colaboração de
mais de um arquiteto, - um dêles, Paulo Barreto - e de mais de um
geógrafo cultural de formação francesa - se sente
influência de "uma idéia alemã" ou de "uma
idéia francesa". "Uma idéia norte-americana"
é que me parece difícil de reconhecer-se em qualquer daquelas
vagas tentativas de estudo da formação social do brasileiro, do
ponto-de-vista da sua acomodação no tipo da casa correspondente
à situação econômica da região e à sua
paisagem não só natural como social, inclusive à
técnica regional de produção econômica e ao
sentimento de defesa dos valores regionais com tendência a estáveis
contra a cobiça nômade ou as influências cosmopolitas,
indiferentes a êsses mesmos valores.
Aliás, o
mesmo reparo se poderia fazer com relação à cozinha ou
à doçaria como expressão de uma cultura familial,
patriarcal, que reuniu influências aparentemente antagônicas,
senhoris e servis, européias e não-européias. É um
engano supor-se que existam, a êsse respeito, obras norte-americanas, em
cuja orientação e técnicas nos puséssemos no Brasil,
num simples e doce esfôrço de adaptação. As que
existem, em grande número, são obras de sociologia especializadas
no estudo de sociedades ou culturas "primitivas" ou de quase puro
"nutricionismo" ou dietologia.
Se me dissessem que
em minhas modestas mas em grande parte, originais, tentativas de estudo do
brasileiro, - de sua formação social, do seu caráter, da
sua personalidade nacional, através dos seus tipos principais de
habitação - há, tragos de influência de
técnica e até de orientação de um Siedlung und Agrarwesen, de A. Meitgen - cuja
documentação cartográfica é por si só uma
inspiração - ou de Les Maisons Types,
de Poville, ou das monografias de Demongeon e Bernard sôbre tipos
rurais de habitação na França e nas colônias
francesas, ou, ainda, das de Grandmann sôbre habitações
rurais e urbanas dos tipos históricos de casa com a estática das
paisagens, eu compreenderia a aproximação. Mesmo assim, a
diferença do ponto-de-vista - o sociológico-genético, o
antropológico-social ou histórico social, o
psicológico-social, em relação com o geográfico, o
de história de arquitetura, o puramente tecnológico ou o
exclusivamente estético - é evidente. E as particularidades de
método ou de constelação de métodos, que venho
audaciosamente empregando na análise do material brasileiro, relativo
à casa patriarcal, em relação com os métodos antes
de mim utilizados por especialistas apenas interessados em aspectos
geográficos, arquitetônicos, técnicos ou estáticos do
mesmo assunto - os tipos, brasileiros ou não-brasileiros de
babitação - pareçam diferenças e até
contrastes dignos de alguma atenção.
A sugestão de
influência de "idéia" ou de "técnica" ou
"método" "norte-americano", em estudos, como
aquêles a que venho me aventurando e em que se procura fazer da casa o
centro de tentativas da reconstituição, ao mesmo tempo
psicológica e social, do passado mais íntimo do brasileiro e de
caracterização das suas, tendências sociais, é
sugestão que me parece particularmente difícil de ser aceita,
embora tenha partido de um mestre da autoridade, da inteligência e da
cultura sociológica do Professor Roger Bastide e mereça respeitosa
consideração. Relendo, agora seu artigo, escrito já
há anos, creio ter havido equivoco da sua parte. E imodestamente ouso
reclamar alguma originalidade brasileira para aquêles estudos brasileiros,
nos quais me empenhei por algum tempo, quase sòzinho e só do
ponto-de-vista principalmente sociológico e histórico-social e
sócio-cultural; mas que tenho o gôsto de ver hoje cultivados, com
relação à sociologia da casa patriarcal, por arquitetos
inteligentemente alongados em. historiadores, como é o caso, em recentes
publicacões, de Mestre Henrique Mindlin. Sóbre êsses meus
estudos sôbre a relação entre o homem e a casa se baseia a
teoria patriarcalista de interpretacões, da formação
brasileira e de formações sociais do tipo da brasileira.
Daí a importância que imodestamente lhes atribuo.
Das críticas
mais insistentemente feitas a Casa-Grande &
Senzala, como estudo da associação de um tipo de arquitetura
doméstica a um estilo de convivência de senhores com escravos, que
sirva de base a uma teoria patriarcalista de interpretação de
formações sociais do tipo da brasileira, lembrarei a seguinte: que
a Casa-Grande é apresentada sem sala, isto é, sem se dar
relêvo ao que houve, em certas casas-grandes mais opulentas, de requintes
ou graças de vida de salão. Com efeito, decidi deixar para outros
sociólogos da história, ou historiadores tão
sòmente, o trato de tal assunto, de quase nenhuma importância para
a análise e a interpretação do complexo ou do conjunto
histórico-sociológico que procurei considerar. Há,
sôbre a matéria, páginas interessantes: as de Afonso de
Taunay; as do historiador Pedro Calmon; as do historiador Wanderley de Pinho.
Admito, porém, que seja ainda necessário um dêles escrever
sôbre o que foi a sala de visitas numa típica casa-grande
brasileira do século XIX um estudo semeIhante ao que dedica ao
"parlor" das mansões dos Estados Unidos da mesma época o
historiador Russel Lynes no seu recente Domesticated
Americans. (N. Y. 1963).
Por outro lado,
críticos de todo hostis à recordação do que houve de
requinte aristocrático, principalmente sub-europeu ou neo-europeu, na
vida das casas-grandes brasileiras, me têm acusado de fazer a apologia dos
dominadores, desprezando os dominados, no sistema que os símbolos Casa-Grande & Senzala, pioneiramente reunidos no
livro com êste título, evocam, sugerem e - em certos pontos - mesmo
definem. Entretanto, que obra de sociologia genética precedeu Casa-Grande & Senzala como tentativa de
valorização da presença e da atuação, dentro
do complexo sócio-cultural aí considerado em alguns dos seus
aspectos mais íntimos, da cunhã, do curumin, do menino, em geral, da mulher, em geral, do
escravo, do ameríndio, do negro, da mucama, da sinhama, da cozinheira?
Creio que nenhuma. Destacou-o em artigo, numa revista européia, o
sociólogo francês Jean Duvignaud, ao considerar aquêle livro
o início de um nôvo tipo de estudo sociológico do negro
situado em sociedade patriarcal e escravocrática neo-européia, que
seria um tipo de estudo revolucionário pela reabilitação
que procurei empreender - ou tentei empreender - do mesmo negro, separando-o
sistemàticamente - intuitivamente já o fizera Joaquim Nabuco - da
condição de escravo.
Ainda outra
crítica: a da excessiva - segundo os críticos - importância
atribuída ao sexo no estudo sociológico que se empreende em Casa-Grande & Senzala da história
íntima da família patriarcal no Brasil, na sua fase quase
exclusivamente agrária. É uma crítica que tendo partido do
Professor Lewis Hanke, em estudo que dedicou ao assunto há quase trinta
anos, vem perdendo o vigor à medida que noutras obras de objetivos afins
dos de Casa-Grande & Senzala, se vem atribuindo
importância ao fator sexual. Neste ponto, como, em outros, o livro
brasileiro parece ter sido audaciosamente pioneiro em seu modo de ser
análise social sôbre a qual se desenvolvesse uma teoria de
interpretação de formações sociais do tipo da
brasileira.
Não me sinto
inclinado a me deter na crítica, a meu ver de todo leviana, de ser Casa-Grande & Senzala livro saudosista: saudade do
autor do tipo de vida vivido nas casas-grandes, servidas pelas senzalas. Um dos
mais argutos críticos brasileiros, Franklin de Oliveira - intelectual,
aliás, em sua ideologia, pertencente ao número daqueles homens de
estudo um tanto simplistamente classificados de "esquerda" -
considerou o assunto, em longo e minucioso ensaio, não só
analítico como interpretativo. Aí coloca o crítico a
questão em pratos limpos. Uma coisa é ser um autor saudosista em
sua atitude decisiva com relação ao passado; outra coisa, é
servir-se o mesmo autor da saudade, ou, especìficamente, da
remembrança proustiana, como método empático de recapturar
um tempo morto, procurando fazê-lo viver para que, assim ressuscitado,
possa êsse passado ser como que apalpado pelos dedos dos são
tomés. Apalpado nas suas feridas e apalpado nas suas partes porventura
sãs. Articulado com o presente e com o próprio futuro de uma
sociedade ou de um tipo de sociedade a ponto de, sôbre essa
articulação, tentar-se uma interpretação
sociológica, e não apenas histórica, de sociedades de um
tipo que se caracterize como patriarcal no seu conjunto de
interrelações e não apenas na sua organização
de família.
Crítica ao
livro Casa-Grande & Senzala é a de que
nêle se faz a apologia ou o elogio da colonização
portuguêsa: a que criou nos trópicos o sistema Casa-Grande & Senzala. Tentativa de reabilitação
dêsse tipo de colonização, por tanto tempo agredida,
desdenhada, caluniada, quer por autores estrangeiros, quer por vários
historiadores ou sociólogos nacionais - excetuado um ou outro Oliveira
Lima, um ou outro Sylvio Romero, - admito que exista, em certas páginas
do livro; enquanto noutras, a figura do mesmo colonizador é severa e
desfavorávelmente, não digo julgada - pois Casa-Grande & Senzala se abstém de julgar, sentenciar e
até, como notou o insigne João Ribeiro, concluir - porém
considerada.
De outras
críticas, não me parece que devo cuidar hoje: elas se vêm
desmembrando nas suas próprias fontes ou origens. Por exemplo: a de ser
Casa-Grande & Senzala um livro
anti-jesuítico e anti-jesuitica a teoria sociológica derivada do
estudo de interrelações humanas que aí se empreendesse.
É crítica hoje sem vida: destruiu-a um sábio
Jesuíta, o Padre Retif, em artigo na revista Études, de Paris.
O mesmo é
certo da crítica de ser Casa-Grande &
Senzala livro anti-Católico pela ênfase dada à
importância da família patriarcal na formação
brasileira, com prejuízo da influência oficial da Igreja -
não a do Catolicismo - sôbre a mesma formação:
vários são os críticos Católicos, que vêm
rejeitando, tal crítica. Inócua é a alegação
de ser livro Comunista: os Cornunistas agarrados ortodoxamente ao seu Marxismo
que o digam. Ridícula se apresenta a crítica de ser livro
impatriótico: tenho sido distinguido por mais de um Presidente da
República brasileiro com convites altamente honrosos - quase todos,
aliás, recusados - que nenhum Presidente de República faria a um
concidaddo cujo patriotismo fôsse pôsto em dúvida pela
comunidade nacional. Posso não ser nacionalista do tipo atualmente em
voga; nem patriota que entenda por patriotismo a absoluta renúncia ao
dever de criticar o patriota instituições e costumes da sua gente.
Mas a nenhum brasileiro dou o direito de considerar-se mais brasileiro do que
eu. Daí aceitar com alguma vaidade a caracterização, que
generosamente fêz de mim, há anos, o crítico argentino
Saenz-Hayes, autor de obra clássica sôbre Montaigne: a de ser, como
ninguém, a seu ver, um "brasileño integral"; a de
representarem meus escritos sociológicos e literários o afã
de um brasileiro empenhado em descobrir, compreender e revelar a sua
própria gente em sua plenitude, isto é, com qualidades e defeitos.
Qualidades e defeitos que se teriam afirmado, quase todos, dentro, à
margem ou contra a formação patriarcal da sociedade brasileira:
formação, como forma sociológica, comum aos vários
Brasis e não exclusiva da área do açúcar. Pois ser
"brasileiro integral" não exige desse brasileiro a capacidade
ou a coragem para a auto-crítica.
Voltando à
teoria de interpretação da formnão brasileira por mim
esboçada: conteúdos regionais diversos acrescentaram-se à
forma transregional - no caso, o sistema patriarcal de convivência -de
modo regionalmente diverso. Mas sem que a forma sociológica deixasse de
ser forma sociológica; e, como tal, superior às
alterações regionais. Ela se manteve a mesma nas estâncias e
nas fazendas de café que nos engenhos de açúcar, de onde se
originou; e, pela sua constância de forma, deu unidade ao conjunto de
sociedades mais ou menos patriarcais que constituiram a sociedade brasileira
total. Esta a interpretação patriarcalista da
formação social brasileira contra a qual os argumentos até
agora aparecidos não têm se apresentado com vigor ou
fôrça capaz de a invalidar. Em quase todos êsses argumentos o
que se nota é ilusão de ótica sociológica da parte
dos que os sustentam, um tanto alheios ao que seja forma social em
relação com substância ou conteúdo.
Não é
certo que a análise social de que resultou a teoria patriarcalista de
interpretação de formações sociais do tipo da
brasileira tenha se limitado à chamada área do
"açúcar do Brasil". Ou seja sòmente válida
para essa área: a única que o seu autor conheceria. Para chegar a
tal teoria, o analista foi além: procurou estudar, para efeitos
comparativos, outras áreas. No Brasil, as do gado, e do café. Nos
Estados Unidos, a do antigo Sul agrário: (açúcar, na
Louisiana, algodão, e tabaco, noutras províncias). No Oriente,
Goa. Na áfrica, Moçambique e Angola. No Peru e no Paraguai, suas
antigas áreas de lavoura, em vários pontos semelhantes à
brasileira, do açúcar. Não se especializou, é certo,
no estudo dessas outras áreas como se especializou na brasileira do
açúcar. Mas estudou-as.
Como e porque sou escritor, sem deixar de ser um tanto sociólogo
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"...There is no blinking the fact that in the study of human affairs we are often confronted with the need to comprehend the unique". Barrington Moore
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O que principalmente
sou? Creio que escritor. Escritor literário. O sociólogo, o
antropólogo, o historiador, o cientista social, o possível
pensador são em mim ancilares do escritor. Se bom ou mau escritor
é outro assunto.
Numa como tentativa
de oferecer, a êsse respeito, um depoimento ou uma confissão de
possível interêsse sociológico, procurarei fixar aquí
algumas, das orientações que considero essenciais à
afirmação de um escritor como escritor; e que se baseiam
até certo ponto na minha própria experiência. Sôbre
elas, por outro lado, se apoia minha esperança de ser escritor, sem ser,
exatamente, beletrista.
Ser alguém
escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática.
É uma atividade mais de aventura que de rotina. A sociologia da atividade
do escritor está ainda por fazer. A uma sociologia difícil de ser
traçada, tão diferente tende a ser o escritor de outros homens,
quer dos das chamadas profissões liberais, quer dos que vivem de
ofícios ou de artes. Me é um pouco de tudo isso sem pertencer
especìficamente a nenhum dêsses grupos profissionais. É
inseguro. Sabe-se de companhias de seguros que têm segurado por altas
somas mãos de pianistas. Mas não mãos de escritor.
Tende o escritor a
ser, por vêzes, àsperamente individual para ser independente. Mas
precisa, por outro lado, de não se fazer, precisa de não se
desenvolver, adstrito a uma classe ou a uma raça ou a um sistema
ideológico, fechado ou exclusivo. Precisa, quase sempre de ser o mais
possível múltiplo e vário nos seus contactos e nas suas
experiências, embora se conheçam casos excepcionalíssimos de
indivíduos que quase isolados do mundo se têm tornado escritores: o
caso das Bronte, o de Santa Tereza, o de esquisitões como Thoreau e,
entre nós, a seu modo, Lima Barreto.
Não é
autêntico escritor, mas literalmente, homem de letras, o indivíduo
que escreve à base de informações colhidas em autores de
livros já clássicos; sem exprimir da vida ou da natureza o que
êle próprio vê, sente, observa, experimenta, recria.
Daí, no autêntico escritor, aquelas "faculdades
indisciplináveis" que nos "autores do Norte",
principalmente da raça anglo-saxônica notou certa vez Maria
Amália Vaz de Carvalho, esquecida dos Cervantes e dos Fernão
Mendes Pinto, já que os Unamuno, na época daquele pronunciamento
da ilustre portuguêsa, não tinham ainda atingido a sua plena
grandeza. Pois de Unamuno é que ela principalmente poderia ter dito que
se revelava, como escritor, "tão estreitamente identificado com a
sua obra que os dois formam um inseparável todo".
Escritores
dêsse tipo escrevem, com efeito, não só para
"expandirem a exuberância de fôrça vital que não
conseguem exaurir de outro modo" como para "porem o mundo na
confidência de suas impressões hiperagudas". Enquanto o
inautêntico, mais homem de letras ou mais literato ou mais beletrista do
que escritor, êste é, ou aquêle "modesto burguês
que não conhece da vida senão o que aprendeu nos livros" - de
outra caracterização ainda de Maria Amália Vaz de Carvalho
- ou o mundanom o homem do mundo, o requintado, frequentador apenas de
salões, de clubes elegantes, de academias, de society; ou, ainda, o ideólogo revoltado ou o teórico
frustrado, por sua vez freqüentador sòmente de reduzido grupo de
indivíduos de quem se sente ideològicamente afim: quase sem
vivêneia; quase sem exiperiência; com uma obra escrita quase sempre
contraposta existência ativa.
Por aí se
percebe quanto há de complexo no material que venha a servir à
elaboração de uma sociologia do escritor autênticamente
escritor; e na qual o primeiro cuidado do sociólogo teria que ser o de
separar o escritor assim criador, vital, experimental, do beletrista livresco ou
do homem de letras mesmo clássicas, que escreve livros apenas
parasitários.
Admitindo-se que eu
seja um escritor literàriamente válido como escritor, - segundo
alguns críticos literários, essa hipótese não parece
valer sequer como hipótese - a que tradição
literária pertengo? A que constante? A que tipo? Por que espécie
de vocação? Segundo que decisiva motivação?
Coexistindo de que modo com o antropólogo - inseparável do
psicólogo - com o sociólogo, com o historiador, com o pensador de
minha formação sistemàticamente universitária?
Sou escritor
acreditando pertencer principalmente à tradição
ibérica de escritor - à qual, aliás, já me filiou o
Professor Fernand Braudel, do Colégio de França, especificando
tratar-se de escritor brasileiro, segundo, êle, mais à maneira
espanhola que à portuguêsa. Não falta, a essa
tradição, no meu caso como no de uns poucos outros - um Santayana
ou um Cela, por exemplo - o colorido de alguma influência inglesa e um
pouco da francesa e até da alemã. Mas sob a predominância
das constantes ibéricas.
São,
aliás, duas tradições em alguns pontos, afins, a
ibérica e a anglo-saxônica, como tradições ou
constantes de expressão literária ou, mais especìficamente,
de expressão literária através do ensaio. Através,
também, do drama, da própria novela e da própria
poesia.
Divergem as duas
tradições da francesa em serem mais livres do que a
predominantemente francesa daquelas convenções, para alguns de
nós, excessivamente acadêmicas, de correção de frase,
de preocupação de medida no dizer, de elegância de palavra,
que Boileau tornou quase canônicas para os seus compatriotas de
vocação literária, embora não deva ser esquecido o
fato de não pertencerem a essa tradição, talvez menos
ortodoxamente característica, da França intelectual, do que
parece, nem Montaigne - descendente, aliás, da gente ibérica - nem
Pascal, nem Villon, nem Rimbaud, nem Michelet, nem Proust. Franceses,
entretanto, muito franceses, êles escreveram o francês de um modo,
nuns, mais parente do espanhol de certos espanhóis, do que do
francês das receitas dos Boileau, noutros, mais afim do inglês de
certos inglêses do que do francês consagrado pela Academia Francesa
como, exemplarmente clássico, isto é, como arte de
composição exemplarmente correta, da qual fôsse
impatriótico um escritor afastar-se com a desenvoltura, nos arrojos de
expressão e nas audácias de inovação, na
língua inglêsa, de um Swift, de um Carlyle, de um Whitman, de uma
Gertrude Stein, de um Joyce; ou, na língua espanhola, de uma Santa
Tereza, de um Cervantes, de um Unamuno, de um Ruben Dario, de um Ramón
del Valle Inclán, de um Garcia Lorca, e, na língua
portuguêsa, de um Fernão Mendes Pinto, de um Eça, de um
Euclides da Cunha.
Dentro da mais
castiça tradição, escreve quem, sendo homem - ou mulher: o
caso de Santa Tereza - precisa de completar-se ou de intensificar-se, como
pessoa, como homem - ou como mulher - escrevendo como outros, dentro da mesma
tradição, vêm pintando ou toreando ou dando-se à
Igreja Católica ou ao Estado ou dedicando-se à
insurreição contra a Igreja ou contra o Estado, não
despersonalizando-se nunca, porém, nem desispanizando-se, em qualquer
dêsses extremos. Não faz parte dessa tradição a
figura do literato "au dessus de la melée" ou sequer a do homem
requintadamente de letras. O hispano é escritor, sendo principalmente
pessoa ou principalmente homem: um homem que ajusta a palavra à sua
personalidade em vez de ajustar a personalidade a qualquer conjunto de
convenções de arte literária tidas por essenciais à
consagração de um homem especìficamente de letras. É
o exemplo, para todos nós, supremo, de Cervantes e de Camões, de
Gil Vicente, de Fernão Mendes Pinto, depois de ter sido o de Lulio: Ramon
Lulio.
De Cervantes, se
sabe que não se situa, de modo algum, entre os autores de romances ou de
novelas - gênero a que aliás não é muito dado o
espanhol - como escritor requintadamente literário pelo que nos seus
escritos tenha sido arte de composição ou obra de homem
especìficamente de letras; ou produção esmerada de
literato. Como já têm observado vários críticos, o Don Quixote é obra que, pelas suas
deficiências de composição, tem repugnado aos analistas
ortodoxamente literários, isto é, mais bizantinamente
literários - pensamos alguns a respeito dêsses analistas - no seu
modo de ser críticos de outros escritores. Entretanto, já se tem
salientado, a propósito de Cervantes, não haver romance de
Flaubert, por mais literáriamente perfeito em sua
composição, que se aproxime em sabedoria, em humor, em poder
poético, da obra imperfeita e, às vêzes, relassa, do
espanhol; nem a supera - pensam mestres de literatura comparada - romance
inglês algum, dentre os mais potentes: o Tristam
Shandy, o Robinson Crusoe, o Tom Jones. Nem, ainda, o Wilhelm Meister,
do alemão. Entretanto, Cervantes escreveu o seu livro muito
ibéricamente, à revelia de quase tôdas as
convenções literárias: juntando a um pouco, das velhas
crônicas de feitos heróicos muito de pitoresco e até de
vulgar e de chulo. O picaresco, o vulgar, o chulo colhido, pelo autor da
bôca do povo e por êle, Cervantes, intensificado com efeitos
sociològicamente simbólicos e psicològicamente
representativos da realidade. Intensificação de que só
são capazes os poetas que ao contacto direto com a vida juntem o poder,
ao mesmo tempo analítico e lírico, de compreendê-la, de
dramatizá-la e de interpretá-la. O mesmo que, noutro tipo de
literatura, fizera já o português Gil Vicente.
Cervantes, -
consideremos com algum vagar o caso do grande hispano, pelo que há
nêle de sociològicamente expressivo - ao contrário de um
Balzac, de um, Zola, mesmo de um Scott, não foi homem de letras -
observam alguns dos seus biógrafos - senão pelo que um dêles
considera um quase acidente: faltou-lhe - ao seu modo de escrever -
sistemática intenção literária, embora não
lhe faltasse vocação para se exprimir, em amplitude e em
profundidade, como escritor. Pois é certo que, ainda môço,
garatujara seus versos, talvez mancos. Incorretos. Mas no que veio, homem feito,
o primeiro afirmar-se foi no esfôrço militar em lutas que fizeram
dêle, depois de aprisionado pelo inimigo, escravo de mouros: os mouros que
combateu no seu tempo como em tempo mais próximo de nós combateria
outros invasores da Espanha ou inimigos das crenças ibéricas. Um
exílio de cinco anos enriqueceu-lhe a experiência, de europeu de
sabores fortemente não-europeus. Fêz-se até estimar pelos
maometanos. Quisesse ter renegado o cristianismo e a gente ibérica e
acredita-se que teria sido mais, entre mouros, do que fôra ou viria a ser,
entre sua própria gente e os da sua própria religião, numa
época em que as religiões definiam, para os europeus, as culturas,
e caracterizavam as civilizações. Sobretudo as situadas em
fronteiras, como as ibéricas: na vizinhança das gentes
agressivamente islâmicas.
Preferiu Cervantes
voltar da áfrica à sua gente, que não era, para êle,
bom hispano, só a espanhola mas também a portuguêsa. Foi
êle - é outro dos seus exemplos - não apenas um espanhol mas
um espanhol pan-ibérico. Sabe-se, com efeito, de Cervantes que, de volta
à península, depois de prisioneiro de mouros, viveu primeiro em
Portugal, tendo se ligado a mulher portuguêsa, de quem - informam seus
biógrafos - teve até uma filha; e foi, ao que parece, sob o
estímulo, de um amor português que escreveu, quase aos quarenta
anos, o seu poema pastoral Galatea. Após o
que casou-se, como é sabido, com mulher da sua província: mulher
de província - pormenor psicològicamente significativo - muito
mais môça do que êle. Foi, então, um tanto
prosaicamente, uma espécie de cobrador de impostos para ordens
religiosas: o que lhe deu a oportunidade de numerosos contactos com o cotidano
da vida da sua gente. Depois de muita aventura, alguma rotina. Depois do
exótico, a província. Depois da experiência heróica,
a anti-heróica. Por isto ou por aquilo, chegou, nesses seus dias de
cobrador de impostos, a ser encarcerado na adega de uma casa de aldeia em La
Mancha. Depois do exílio, a prisão: experiência - o
exílio e a prisão que ninguém imagina atravessada por um
Flaubert ou enfrentada por um Anatole France: literatos quase exclusivamente de
gabinete ou tão sòmente de acadernia. Mas experiências
tão comuns entre escritores hispânicos ou ibéricos, de Ramon
Lulio a vários dos atuais, que chega a se tornar suspeito de pouco viril
o escritor ibérico que nunca experimentou - como um Unamuno ou um
Fernando de los Rios - o exílio ou a prisão, para não nos
referirmos aos de vida mais dramática, e até de fim
trágico, como foi o caso, em nossos dias, de Frederico Garcia Lorca.
O exemplo supremo
que Cervantes, e escritores hispânicos ou ibéricos menos
importantes, porém não menos significativos do que êle, nos
deixaram, é o de que não é fácil separar-se, dentro
dessa tradição ibérica mais característica, de
literatura, o escritor, do homem; nem o artista, da pessoa. Pessoa quase sempre
personalidade, de que a arte é quase tão sòmente uma
expressão apenas apurada pelo exercício nem sempre acadêmico
ou convencional, da mesma arte; quase nunca simples aquisição,
através dêsse exercício tornado a angústia em que
Flaubert se requintou e sob a qual Eça de Queiroz, ao afrancesar-se,
perdeu a potência ibérica que, paradoxalmente, readquiriu ao
envelhecer e ao desafrancesar-se, opondo a aventura do desafrancesamento
à aventura de afrancesamento.
Daí ser quase
sempre o escritor de tradição ibérica um escritor mais de
campo de que de gabinete: a negação mesma do típico literateur abstrato. Intelectual dado, por vêzes,
senão à vida de café, a contatos com o tumulto e até
com a boemia da vida de café e de rua, o fato é que do café
ibérico se pode dizer que é uma instituição ainda
mais democrática que o seu equivalente francês sabendo-se de
cafés ibéricos que têm sido ou são, ainda hoje,
freqüentados pela gente mais diversa - toureiros, políticos,
atôres, artistas plásticos, compositores, além de escritores
- e não apenas, um, por intelectuais dêste feitio, outro, por
intelectuais daquele outro feitio, cada um com seu quê de aristocratismo
literário e seu toque de clube exclusivo.
Supõe-se ter
a idéia - ou a necessidade? - de escrever Don
Quixote empolgado Cervantes quando êle se achava na prisão em
La Mancha. Tinha - todos o sabemos pelos seus biógrafos - cinqüenta
e oito anos quando publicou, já quase velho, a primeira parte da, para a
época, estranhíssima obra, tão fora das
conveções estão dominantes na
literatura de qualquer país europeu; tão inovadora; aparentemente
mais de môço afoito do que de velhote prudente. Mas com tôdas
essas contradições, obra de escritor caracterìsticamente
hispânico ou ibérico: presente nos seus escritos; concreto nas suas
descriçõeses, deformadas, entretanto, para efeitos de
síntese ou de intensificação simbólica da simples
realidade; ou expressivas - expressionismo do mesmo tipo do de El Greco, em
pintura, ou do de De Falla ou de Villa-Lobos, em música, ou do
Aleijadinho, na escultura - dêste ou daquele aspecto da realidade.
Trata-se de uma atitude que distingue o escritor a
la Fernão Mendes Pinto do repórter apenas objetivo de viagens,
como distingue o historiador a la Oliveira Martins
do cronista apegado às datas, o dramaturgo a
la Garcia Lorca dos teatrólogos apenas realistas.
Autobiográfico nas suas supostas invenções puras, que
são, entretanto, experiências um tanto dissecadas ou purificadas
através de uma técnica literária muito ibérica,
Cervantes, como Fernão Mendes Pinto, na língua portuguêsa,
como que se antecipou a Gide e a Pirandelo numa técnica
especìficamente literária de autobiografia projetada em literatura
aparentemente do não-eu imaginado pelo eu; e em arte, em geral, aos
Cubistas quanto à substituição de uma perspectiva
única por perspectivas empáticas e simultâneas da mesma
realidade. Há nêle alguma coisa não só de ensaista
como de historiador e até de psicólogo-social dentro de um
ficcionista nunca, no seu caso, apenas lúdico nos seus objetivos de
inventor ou de contador de história que, não tendo acontecido tal
como se apresenta, se baseia, entretanto, em intensificações de
fatos, em misturas de pessoas e de tempos diversos e em novas
combinações de relações reais e até
históricas de pessoas com paisagens. Fatos e relações que
não só aconteceram como se repetiram sob a forma
sociológica de recorrências de comportamento humano, dentro de
circunstâncias especìficamente ibéricas, isto é,
hispânicas - ou especìficamente espanholas - só
possíveis, algumas delas, em época de dissolução de
uns tantos estilos de vida, de conduta e de etiqueta e de sua incerta
substituição por outras: a época de Don Quixote.
Não se
caracteriza o escritor da mais castiça tradição
ibérica - da qual Cervantes permanece o exemplo clássico mais alto
- por aquela bizantinice na composição literária que
resulta em obras rigorosamente bem cuidadas e em estilos dos chamados
castigados. Daí um psicólogo inglês da sagacidade de
Havelock Ellis ter observado dos escritores espanhóis - do próprio
Cervantes - serem, por tradição, "apt to neglect the more
minute graces of style".
Neste particular,
creio, na verdade, pertencermos, alguns escritores brasileiros - eu, dentro de
limites modestíssimos - antes à tradirgilo ibérica que a
qualquer outra de escritor. No meu caso, me sinto, é certo, parente, -
sei que irremediàvelmente pobre - de um Proust tido por alguns por muito
pouco francês: parentesco descoberto em mim por críticos
estrangeiros, principalmente por franceses. Mas o parentesco que porventura me
prende a êsse escritor francês, ao meu ver pouco castiço como
escritor francês e até um tanto ibérico no seu modo de ser
introspectivo e empático - espécie de jesuita defroqué que, tendo perdido a fé, conservasse o melhor
da casuística psicológica dos S. J. e até se mostrasse
discípulo a seu modo dos Exercicios
Espirituais como técnica de empatia aplicada à novela -
estaria na tendência, desajeitada da minha parte, e, nêle,
magistral, para captar dos homens e dos grupos humanos que consideramos, mais as
intimidades quase secretas, de tão sutis, características do seu
comportamento, que os aspectos ostensivos dêsse comportamento. Estaria
também na própria maneira um tanto relassa de procurarmos dar
expressão a essas nossas aventuras de recuperação
não só de tempos como de homens perdidos em tempos
desaparecidos.
Do psicólogo
inglês, tãoo admirador dos místicos espanhóis,
Havelock Ellis, é outra observação, perspicaz sôbre o
escritor ibérico: a de que é um escritor que, de ordinário,
se tem afirmado mais na idade madura do que na mocidade. Isto por ser
essencialmente - deve-se acrescentar a Ellis - um escritor
autobiográfico. Nunca um inventor de personagens ou de mitos - o que faz
que não seja um escritor de ficção no sentido vulgar de
ficcionismo, - tudo nêle tende a ter por base sua própria e
personalíssima experiência: a vida por êle pessoalmente
experimentada, vivida, vista, ouvida, amada, sofrida, apalpada, sentida,
observada. A vida por êle apreendida em todos os seus contrastes: desde os
mais sórdidos aos quase angélicos; dos plebeus aos fidalgos; dos
sensuais aos religiosos. Daí um. misticismo de certos escritores
ibéricos - Santa Tereza, entre êles - a que não falta
sensualidade. Sensualidade sublimada, é claro.
Ao escritor
caracterìsticamente ibérico repugna a arte de escrever levada
àqueles requintes que a torne uma arte de escritor para escritores, tal o
seu refinamento em composição fechada, esotérica,
sectária. A tendência do escritor hispânico é para um
realismo vizinho de um expressionismo desdenhoso, em seu modo de ser
expressão ou interpretação ou intensificação
literária de vida vivida ou de experiência. experimentada, de
quanto lhe pareça bizantinice estilística ou chinesice
artística. Daí ser um escritor a quem não faltam
incorreções na composição das frases; descuidos na
gramática; plebeismos - inclusive obscenos - os mais inacadêmicos e
os menos de salão, na caracterização de fatos vivos e
até em movimento; ou na redução dêsses fatos a
símbolos também vivos e atuantes.
Será o
escritor caracterìsticamente ibérico, um tipo de escritor a cuja
tradição, na sua parte mais espanhola que portuguêsa, repito
o que críticos franceses da sagacidade de Fernand Braudel, professor do
Colégio de França, vêm filiando a expressão
literária de alguns brasileiros de hoje - eu, modestamente entre
êles, - figura inatual ou mesmo arcaica? Creio que não. Ao
contrário: creio que vem havendo nêle, através de sua
aparente arcaização, alguma coisa de potencialmente
pós-moderno que parece vir da sua predisposição a alguma
coisa de ultra-acadêmico e, até, de saudàvelmente
anárquico no seu método ou, antes, modo, de expressão
literária. Essa predisposição vem, fazendo do escritor mais
tìpicamente ibérico, desde Ramon Lulio e de Fernão Mendes
Pinto, desde Fernão Lopes e do próprio Camões, desde Lope
de Vega e de Gil Vicente, desde Juan de la Cruz e de Santa Tereza, um
intérprete de vida, sentida, sofrida, experimentada, interpretada, nos
seus contrastes, através de uma mais ou menos intensa
participação do escritor nessa mesma vida.
Participação que vem fazendo dêle aquilo que, em moderna
linguagem sociológica, se chama um observador empático ou um
analista participante. Daí vir sendo êle, por
antecipação a métodos modernos de literatura, em
particular, e de arte, em geral, a um tempo impressionista e expressionista em
suas interpretações de objetos, em vários casos, tornados
sujeitos, dos quais tem revelado, através de tais abordagens, intimidades
insuspeitadas, como aquelas outras, dos orientais, surpreendidas por
Fernão Mendes. Quando F. H. Bradley escreveu em Appearance and Reality que a realidade varia com o ângulo de que
é observada, devendo, por conseguinte, ser considerada ao mesmo tempo
múltipla e uma só, já o escritor tìpicamente
ibérico vinha seguindo êsse tipo de abordagem do real: abordagem
seguida também pelos pintores caracterìsticamente
espanhóis. E quando se fala em pintores caracterìsticamente
espanhóis, é preciso incluir-se, no número dêsses
pintores, El Greco, pela muita espanholidade que adquiriu ao fixar-se na
Espanha: tanta que êsse adventício, como bom expressionista, se
tornou mais espanhol que os espanhóis.
Se pertenço
como escritor, com possiveis, embora discutíveis, virtudes
literárias, como também discutível, admito ser minha
condição de analista - dentro da tradição,
também ibérica, de Vives - a um tempo científico e
humanístico, do Homem, isto é, de um tipo de Homem situado, e,
ainda, como possível intérprete de uma sociedade e de uma cultura
também situadas; se pertenço, como possível escritor e como
possível antropólogo dessa espécie, talvez mais
existencialista que aristotélica - e o hispano é um exitencialista
desde velhos dias -antes à forma ibérica de escritor e de analista
do Homem que a qualquer outra, suponho que o seja - se de fato o sou - por
direito tanto de quem nasceu ibérico como de quem, seguindo, dentro da
sua modéstia, e por conseguinte, a imensa distância, o exemplo de
El Greco, conquistou essa sua condição ibérica em plenitude
e talvez em profundidade, pela sua intensa identificação, desde
adolescente, e sendo sempre brasileiro, com os estilos e os valores
literários da Espanha e não apenas de Portugal.
Já recordei,
noutro dos meus ensaios, como tal sucedeu. Como estudante universitário
no estrangeiro, senti a necessidade, diante de fortes culturas, então,
como ainda hoje, em vigor nos grandes meios universitários dos Estados
Unidos e da Europa, como a anglo-saxônica, a germânica, a francesa,
a eslava, a italiana, de resguardar-me dessas culturas imperiais, firmando-me
não só nos ainda verdes e um tanto agrestes valôres
culturais brasileiros; nem apenas nos relativamente poucos valôres
lusitanos e luso-brasileiros, mas nos ibéricos, em geral, dos quais os
brasileiros, os lusitanos, os luso-brasileiros, senti então, e sinto
hoje, serem apenas parte. Venho desde aqueles dias firmando-me nos valôres
espanhóis, e não apenas nos portuguêses, dessa cultura
global que cedo, felizmente, descobri ser tão minha, assim global - minha
e dos brasileiros - quanto dos espanhóis da Espanha ou dos
hispano-americanos do México ou da Colômbia ou do Equador ou de
qualquer pais outrora colônia só da Espanha; tão minha e dos
brasileiros de um Brasil, colônia outrora da Espanha e não apenas
de Portugal, quanto a portuguêsa, inseparável, como cultura, da
espanhola. Estava eu no comêço dessa minha consciência
pan-ibérica de simples candidato, mal saido da adolescência, a
escritor, quando em Oxford, na Inglaterra, conheci o então mestre de
literaturas ibéricas naquela universidade, o Professor de Arteaga -
antecessor de Salvador de Madariaga - que um dia me sugeriu permanecesse eu no
burgo oxoniano como seu assistente. Sugestão que confesso ter me
seduzido, de tal modo correspondia ao meu afã pan-ibérico e ao meu
encanto pela vida na Oxford daqueles dias. Mais forte, porém, que
êsse encanto foi o meu outro empenho, também daqueles dias e que
dura até hoje: o de reintegrar-me no trópico de que sou nativo,
não como simples brasileiro, mas como brasileiro
pan-ibérico.
Data dos meus dias
de estudante em Colúmbia onde conheci Don Ramón del Valle
Inclán - e de scholar meio boêmio em
Oxford, em Paris, na Alemanha e em Coimbra - o fervor de adolescente com que me
entreguei à leitura de autores espanhóis e hispanoamericanos -
entre êstes Ruben Dario - e ao estudo de artes espanholas e
hispano-americanas - a moçárabe, a manuelina, a cusquenha, a
mexicana - sentindo nesses autores e nessas artes mistas de um modo muito
ibérico, não autores e artes estrangeiros, de encanto ou sabor
exóticos para meus olhos, meus ouvidos e meu paladar de brasileiro,
porém expressões - inclusive na culinária e nos vinhos - de
uma cultura, para mim, tôda ela, que, sendo hispânica ou
ibérica, era materna; familial; fortemente endogâmica, a despeito
de suas aventuras com o exótico. E nada mais natural que, dessa minha
identificação, em fase ainda tão plástica da vida,
resultasse que a muita leitura de místicos, de dramaturgos, de ensaistas,
de poetas espanhóis, e o muito convívio com artes e artistas
ibéricos, me levasse a um modo de ser escritor - quando comecei a ser,
sendo escritor, arremêdo de escritor - decisivamente orientado por tal
identificação com os espanhóis e seus descendentes e
continuadores, tanto quanto com os portuguêses e seus outros descendentes
e continuadores, além dos brasileiros.
Não devo
deixar de assinalar que considerável vem sendo, também, a
influência, sôbre minha formação - ainda incompleta,
apesar da idade - de constante aprendiz de escritor, de influências vindas
de outras origens; francesa, (Montaigne, Pascal, Michelet, os Goncourt, Proust,
o próprio Gide); anglo-saxônica (Chaucer, Swift, Defoe, Pater,
Joyce, os dois James, Yeats, os Imagistas, Lawrence de Arábia); russa, de
Tolstoi; a dêsse alemão, filho de brasileira, que foi Thomas Mann,
autor, também êle, de páginas que me parecem das mais
penetrantes que um escritor moderno tem escrito, associando à
ficção a realidade de modo por vêzes semelhante ao de
autores ibéricos. Apenas são influências que se juntam
à decisiva que, na minha formação, tem sido sempre a
ibérica.
Na
generalização de Gide de, em literatura, ser a
ficção, história que poderia ter acontecido, e a
história, ficção que aconteceu, e na sua confissão
de, como escritor sempre auto-biográfico, apresentar os fatos de tal modo
que êles se conformem, assim apresentados, mais com a realidade do que com
ela os mesmos fatos se conformam, ou se conformara, na vida real, encontro
afirmativas de um método com o qual, até certo ponto, coincide,
dentro dos seus limites, o meu, de ensaista, e agora seminovelista. Ensaista e
seminovelista quase sempre historiador ou antropólogo ou sociólogo
na sua ciência ou no seu saber e, não raro, ibèricamente
autobiográfico na sua expressão literária. Não foi
outro o método do grande Fernão Mendes Pinto ao organizar e
apresentar os fatos que constituem essa obra prima de literatura e
também, de antropologia existencial que é Peregrinação. Ou o método de Vives, considerado
por Dilthey o fundador da moderna antropologia. Um Vives que tendo sido
científíco foi também autobiográfico e, como tal,
escritor caracterìsticamente ibérico.
Aliás, no
método de Gide, como no de Proust, no método de Montaigne e
até no de Lawrence da Arábia e no de Hemingway - discípulo,
aliás, de Pio Baroja - isto é, no modo vivo, vivente, dêsses
escritores serem escritores, pode-se descobrir parentesco nada insignificante
com os métodos mais característicos dos escritores mais
castiçamente ibéricos, a um dos quais, Gracián, Nietzsche
prestou homenagem quase de discípulo a mestre. São métodos
a que, em arte de pintura, um espanhol fixado em Paris, Pablo Picasso, vem
dando, com arrôjo ibérico, a mais vigorosa expressão
moderna; e levando para essa arte aquêle sentido profundamente
hispânico de interpretação literária ou
filosófica ou sociológica ou religiosa da vida, segundo o qual a
realidade, seja ela qual fôr, exige do seu intérprete que a
considere, tanto quanto possível, simultâneamente, isto é,
através de várias perspectivas, e não apenas de uma
só; ou da convencionalmente isto ou aquilo: histórica ou
ficcionista, realista ou impressionista, expressionista ou cubista,
sociológica ou psicológica.
Sou escritor - ou um
constante aprendiz de escritor - que nas suas tentativas de captar e interpretar
aspectos situados da condição humana, em geral, através da
do homem tropical, especialmente da do brasileiro, em particular, vem procurando
captá-los e interpretá-los por meio de várias perspectivas,
por vêzes simutâneas. Daí o confuso, o desordenado, o
descontinuo que têm encontrado em meus trabalhos certos críticos
literários. Talvez, daí, a incompreensão, da parte de uns
tantos outros, do que vem sendo, nesses trabalhos, o emprêgo de
perspectivas científicas ao lado das humanísticas, além de
repetições e desordens na expressão ou na
fixação, possìvelmente literária, dessas
perspectivas por vêzes simultâmeas: expressão que daria a
êsses trabalhos, segundo alguns críticos, categoria
artística ou qualidade poética e, segundo outros, os reduziria a
um amontoado caótico de imagens, nem validamente científicas, nem
literàriamente sugestivas.
Concordo em que
haja, nos meus trabalhos, objetos dessas críticas, além de
desordem e repetições, de negação de virtudes
convencionalmente literárias, por um lado, e de convencionalmente
científicas, por outro, como virtudes puras ou castiças em suas
formas acadêmicas ou ortodoxas. Não sou escritor - se é que
sou escritor - fácil de ser classificado; e nisto talvez seja
caricaturescamente ibérico. O estilo que, segundo alguns críticos,
caracteriza os mesmos trabalhos, reconheço não ser modêlo de
estilo científico - admitindo-se que fôsse estilo antes
científico que literário, que eu procorasse atingir. Mesmo porque
o ideal, em trabalhos puramente científicos, parece ser a quase
ausência de estilo. Confesso-me anárquico, um tanto personalista,
um tanto impuro, um tanto contraditório, um tanto desordenado e, nestes
defeitos, uma caricatura daqueles escritores ibéricos ainda hoje
inclassificáveis, um dêles o Unamuno de quem há pouco se
comemorou o centenário.
A verdade,
porém, é que, no meu caso, o que venho procurando ser é
escritor que, como escritor, se serve da sua formação ou do seu
saber - se é que existe - científico - o antropológico,
principalmente - em vez de pretender ser principalmente antropólogo ou
sociólogo ou historiador, ou pensador, por assim dizer, institucional. O
caso - essa condição híbrida, flexível, e um tanto
anárquica - de vários hispanos. O caso, também, de um
Lawrence da Arábia: êsse inglês parente de espanhóis
até no seu modo empático de ser moçárabe. Entre
nós, brasileiros, o caso de Euclides da Cunha. Daí sentir-me com
desembarago ou liberdade para me exprimir, principalmente, como escritor, -
escritor com pretensões a escritor literário - sem que para tal
renuncie à responsabilidade de que me investe a formação ou
a condigão de cientista e, talvez, - "excusez du peu" - a de
pequeno pensador. Cientista sem cátedra universitária - sempre
recusada - mas sempre em contacto com universidades do seu país e do
estrangeiro. Pensador desligado de ideologias sistemáticas ou fechadas,
mas sempre em atividade pensante, analítica, crítica.
Como é que um
escritor assim escritor e talvez assim ibérico se diferencia dos demais
intelectuais - dos intelectuais que não são escritores nem
ibéricos? Creio que por aquilo que um crítico alemão, Rolf
Schroers, chama "espontaneidade": qualidade e, às vezes,
defeito tão dos hispanos. Uma espontaneidade que é quase o mesmo
que criatividade; e esta, por sua própria natureza, rebelde quase sempre
às normas estritamente acadêmicas e aos estilos rìgidamente
institucionais de comportamento intelectual. Personalismo. Individualismo.
Talvez - repito - algum anarquismo intelectual contraditòriamente vizinho
de certo apêgo de revolucionário conservador a umas tantas
tradições ou constantes, sob a forma de valôres de sempre.
De qualquer modo, possível corretivo, da parte de uns indivíduos
mais espontâneos que institucionalizados, aos excessos de
institucionalismo e de academismo, com que vários outros são
intelectuais e, por vêzes, intelectuários, isto é,
intelectuais como que burocráticos ou sob a disciplina quase
burocrática de instituições ou de ideologias.
Salienta o
crítico alemão dos indivíduos de formação
universitária - cientistas, técnicos, scholars - que, especializados nisto ou naquilo, são
"altamente qualificados", também nisto ou naquilo, e de
"inteligência admiràvelmente adestrada" nas suas
várias pericias. Não lhes faltam conhecimentos sistematizados; nem
disciplina científica. O que lhes parece faltar para serem não
só escritores, como intelectuais no sentido ibéricamente mais
castiço de escritor e, até, de intelectual, é
espontaneidade. Criatividade. Ou disponibilidade para aquela vida intelectual
bastante independente para ser criadora que fêz Santayana deixar um dia,
inesperadamente, sua cátedra em Harvard para tornar-se até o fim
de sua vida, num convento da Itália, não como convertido à
Igreja mas sempre como intelectual independente, um cigano desprendido de
compromissos com instituições oficiais ou ofíciosas de
saber ou de ciência.
Daqueles
indivíduos de formação universitária e de disciplina
científica podem aproximar-se os modernos cérebros
eletrônicos - sugere o crítico alemão, que já citei.
Mas não dos intelectuais que, sendo escritores, se diferenciem dos
universitários daquele tipo de homem lógicamente mental, por uma
espontaneidade capaz de surpreender-se a si própria. Nesta espontaneidade
está um característico de todo escritor autêntico, mas,
principalmente, de todo autêntico escritor ibérico ou
pan-ibérico. Ela pode levá-lo a contradições. Mas
contradições que de ordinário se completam na
interpretação, por um escritor, de uma realidade complexa
através do domínio do mesmo escritor sôbre palavras,
além de sugestivas, reveladoras: epifânicas, como as que Joyce
tão intensamente buscou, especialmente na sua última fase de
experimentador aparentemente só verbal: na verdade, também
psicológico e até sociológico.
Referi-me já
ao pouco pendor do escritor espanhol para a novela convencional. Entretanto,
é espanhola a supernovela que é Don
Quixote; e de Ganivet como de Unamuno são páginas imortais em
que a chamada "verdade novelesca" faz companhia à
não-novelesea, reforçando-a ou dando-lhe
intensificações dramáticas que só por êsse
tipo de verdade - a novelesca - ou pela teatral, poderiam ser por êles
atingidos. A verdade, porém, é que a presença do que seja
dramático no passado ou na atualidade ou no futuro de um indivíduo
ou de um grupo humano pode ser surpreendida e sugerida pelo escritor sem que
êle precise de recorrer à novela ou ao teatro; e nessa
captação e sugestão de drama o escritor espanhol tem como
que se especializado, pela revelação, em ensaios como os de Vives,
os de Gracián, os de Luís de León, os de Ganivet, os de
Unamuno, os de Ortega, os de Baroja, os de Azorin, de uma verdade
não-novelesca, desenvolvida, quase sempre, tanto
autobiográficamente como pela dissolução do eu do autor nos
modelos que êle faz, quando desdobra ensaios em novelas, seus personagens
imitarem. Portanto, ora de dentro para fora, ora de fora para dentro.
O grande
característico, aliás, de Cervantes, em Don Quixote. Daí, em livro recente, Mensonge romantique et vérité romanesque, (Paris 1961),
o crítico René Girard salientar da novela romântica ou
românticóide isto é, a novela convencional - que
"jamais descobre a contradição dialética final que
tôda grande novela encerra". E dá como exemplo de grande
novela animada de contradição dialética, o Don Quijote.
Aqui me permito a
deselegância de, descendo até à minha própria
condição de pequeno escritor de feitio espanhol, referir-me a
recente experimento a que tive a audácia de entregar-me, escrevendo o que
denominei uma semi-novela. Já que não me era possível
escrever, como Miguel Cervantes, uma supra-novela, procurei esquivar-me da
convenção da pura novela esboçando uma semi-novela; e
procurando tornar claro, no subtítulo, nao só essa
deficiência como aquela orientação: a de que o autor
procurava fugir da "mentira românticóide" para ater-se a
uma verdade, menos românticóide que romanesca ou novelesca. Isto
dentro da tradição cervantina que é também a que se
encontra em Galdós, em Ganivet, em Uhamuno, em Baroja: o Baroja que,
copiado por Hemingway, fêz o anglo-americano chegar ao Prêmio Nobel.
Aliás, é também reparo de Girard que na novela convencional
o autor dá sempre a verdade que apresenta como proveniente de outro e
não como saída dêle próprio: a tendência do
romancista ou novelista como que ansioso de projetar-se nos personagens,
tornando ostensiva sua criação, em vez de empenhado em
penetrar-lhes nas consciências, por meios indiretos e empáticos e
quase como se fôsse apenas um mediador entre êles, personagens e as
suas façanhas, e o leitor, como o ensaista ou o historiador ou o
antropólogo ou o biógrafo, é quase sempre outro mediador
entre a realidade crua que consegue captar e o leitor a quem transmite a imagem
e, por vêzes, a interpretação dessa realidade.
Se para Girard a
verdade novelesca não deve sujeitar-se a ser apenas expressão
literária de verdade psicológica ou de verdade sociológica
- ou antropológica ou histórica - isto não significa que
essas três ou quatro, ou cinco verdades não possam coincidir numa
novela, que seja, por superioridade, algo diferente das novelas convencionais.
são coincidências características da novelística
espanhola; e também neste ponto me encontro, pelas coincidências
dêsse gênero, que se acham em pequenos trabalhos meus, mais
próximo de espanhóis que mesmo de inglêses. A verdade
novelesca pode, com efeito, senão coincidir de modo exato, coexistir, de
modo iluminante, com a verdade histórica ou com a verdade
sociológica ou com a verdade psicológica. Uma pode intensificar ou
ampliar as outras. Na expressão de qualquer dessas verdades, ou de
várias delas, a um tempo, pode definir-se um indivíduo como
escritor.
O exemplo de
Nietzsche é expressivo, de filólogo, e, sobretudo, de
filósofo, que se afirmou principalmente como escritor. Já
fôra o caso de Pascal. Já fôra o de Francis Bacon. Já
fôra o de Gracián. E depois de Nietzsche, seria o de Newman, o de
William James, o de Unamuno, o de Spengler, o de Ortega, o de Santayana e, nos
nossos dias, o de Aldous Huxley, o de Bertrand Russell, o de Gabriel Marcel, o
de Sartre. De Sartre acaba de escrever um dos seus críticos de
língua espanhola, para caracterizá-lo como escritor, que "ha
intentado llegar por todos los medios posibles a uma vasta. mayoria de lectores
que no se ha reducido a la exposición tecnica, especializada, sino que ha
echado mano de la literatura, del articulo periodistico inclusive..."
êsse crítico é Jorge Rodriguez Romero, em artigo no n. 52,
de outubro de 1964, da excelente Eco. revista de la
cultura de Occidente, que se publica em Bogotá. Precisamente o
número em que aparece a tradução do ensaio de Gert Muller
sôbre Spengler, no qual se exalta o escritor alemão - escritor
principalmente jornalístico, antes de ter surpreendido seus
contemporâneos com sua obra monumental de teoria da história - por
ter realizado uma facanha que dificilmente poderia ter sido realizada por
professor universitário e, portanto, acadêmico, a quem faltasse o
ânimo, que não faltou ao escritor por vêzes mais Intuitivo do
que lógico, para superar, no campo da teoria da história,
aquêle "especialismo que se havia dispersado em um sem número
de domínios", substituindo-o por urna "visão das grandes
conexões", através da consideração das culturas
como sujeitos, e não objetos, do acontecer histórico.
É na
captação de conexões dessa espécie que o escritor,
ao se afirmar mais intuitivo do que lógico, mais generalista que
especialista, se avantaja ao antropólogo, ou ao sociólogo, ou ao
economista, ou ao historiador, que não seja, como o escritor
autênticamente escritor e um criador, mas apenas um. erudito ou um
técnico ou um sábio no seu modo de ser intelectual. A virtude que
lhe distingue a creatividade é a poética no seu sentido mais
profundo; e que tanto pode animar os ensaios de um Walter Pater como os sonetos
de um Camões ou os romances, mesmos os mais realistas, de um Lawrence.
Todos escritores: cada um a seu modo.
Devo recordar aqui
que desde o começo de minha atividade, primeiro de candidato a escritor,
depois, de escritor profissional, grande tem sido o meu afã no sentido
de, para ser assim complexo, conservar-me quanto possível, independente
de qualquer ideologia política ou sistema religioso ou escola
filosófica, ou seita sociológica. Reconheço ser
possível a um escritor pertencer ativa e conscienciosamente a um
dêsses sistemas e escrever obra notável: Dante, o Católico
ortodoxo, é o supremo exemplo que logo se impõe à nossa
consideração. Milton e Bunyan, Batistas, dois outros exemplos
magníficos. Ainda outros exemplos, Newman e Claudel e, nos nossos dias,
Merton, Católicos, Eliot, Anglicano, o Fascista Ezra Pound e, entre
nós, o Comunista, Jorge Amado.
São,
porém, casos raríssimos. O drama de Pasternack está vivo
diante de nós. O de Unamuno, também: o Unamuno que, para ser o
hispano completo que desejaria ter sido, estimaria decerto, no seu
íntimo, ter podido aderir de corpo e alma à Igreja
Católica, da qual, entretanto, para ser o escritor sincero, honesto,
independente que foi, conservou-se apenas um marginal: um marginal sempre
angustiado -agônico, até - mas sempre independente. O caso
também de Berdiaeff com relação a Igreja Ortodoxa Russa e o
do Malraux com, relação a êste vigoroso equivalente da
Igreja Católica nos dias de Contra-Reforma e da Igreja Ortodoxa Russa no
século XIX que é atualmente, a despeito das idéias arcaicas
e das teorias em vários pontos ultrapassadas em que se apoia, o Partido
Comunista Internacional: como organização, duro, inquisitorial e,
por vêzes, até lamentàvelmente -sanguinário naquela
intolerância, naquela intransigência, naquelas exigências de
subordinação absoluta de seus membros, quer à sua
mística doutrinária, quer aos seus oportunismos, ostensivos ou
sutis. Táticas que fizeram a fôrça da Igreja Católica
de Roma e, sobretudo, da Companhia de Jesus naqueles dias, e que, repudiadas
hoje por essas duas organizações, em face, uma e outra, de
idílica e, por vêzes, talvez, para um Antero de Quental que
voltasse a considerar o assunto, excessiva tolerância dos seus
contrários e de quase desapêgo aos seus dogmas essencials e aos
seus ritos de validade universal, explicaria isto a decadência, a
fraqueza, a impotência em que, segundo alguns observadores, porventura
extremamente severos, vão resvalando; e em que continuação,
conforrne os mesmos observadores, a resvalar até que, dentro delas
próprias, se reergam intransigências e se reafirmem dogmas
decisivos: aquêles sem os quais uma igreja não é Igreja
porém apenas uma igrejinha a mais, do caráter dúbio, das
muitas que constituem hoje o chamado Protestantismo liberal; ou da mesma
espécie antes humanitária, cívica ou ética que
pròpriamente religiosa, característica de movimentos como o, na
sua esfera, admirável "Rearmamento Moral" ou, em plano
intelectual superior, o "Congresso pela Liberdade da Cultura" - um
como Rotary Internacional da esquerda. O que registro aqui, é claro,
apenas de passagem; e valendo-me das opiniões nem tôdas
aceitáveis, de observadores de um dos fenômenos mais
impressionantes dos nossos dias: o da, segundo êsses observadores,
excessiva inclinação da Igreja Católica Romana para imitar
igrejas liberalmente Protestantes que parecem vir sofrendo excessos de culto,
pelos seus adeptos, de uma tolerância por vêzes menos virtude que
expressão de fraqueza de ânimo: a indiferença pelos valores
espirituais sob sua guarda. Pois não sendo membro de nenhuma dessas
organizações e considerando-me como escritor, obrigado a ser
independente de qualquer delas, é como se fôsse, com
relação a elas, um homem de Niterói com
relção a coisas da Guanabara.
Duas possibilidades
parecem abrir-se para a Igreja Católica de Roma - durante séculos,
fonte de inspiração, justamente pela firmeza dos seus dogmas, para
tantos escritores de primeira grandeza, de Santo Agostinho a Paul Claudel e,
pelo mesmo motivo, solução para as angústias de
vários outros, entre os quais Newman e Huysmans: ou reerguer-se,
revalorizando os seus dogmas e os seus ritos e o seu mistério, e,
através dêles, sua unidade; ou continuar a desenvolver-se de forma
de tal modo lógica e racional que a mística de unidade se torne,
para ela, apenas uma poética relíquia e, neste caso, pouco capaz
de oferecer resistência ao seu sucessor, como fôrça unida
pelo dogma e avigorada pela mística nada racional da
intransigência: o referido Partido Comunista Internacional. Sucede,
porém, que também, vem êste vem se enfraquecendo nos
últimos dez anos e tende a enfraquecer-se cada vez mais pelo
policentrismo que se está acentuando entre numerosos Comunistas,
já quase tão desprendidos do culto de Lenine e do rito
russo-soviético de Comunismo monolítico quanto numerosos
Católicos-Romanos do culto de Maria e do rito latino e supra-nacional de
Catolicismo.
Com tais
tendências dissolventes quer de dogmas quer de ritos, unificadores de
sistemas autoritários e ordenadores de divergências, parece ganhar
relêvo a concepção de vida dos anarquistas vamos dizer
construtivos: aquêles para os quais o bem estar humano seria favorecido
pelo mínimo de pressão autoritária ou ordenadora ou
disciplinadora - vinda de fora para dentro - sôbre os homens.
Concepção com que se harmoniza o ideal de vida de vários
escritores do tipo menos acadêmico e mais espontâneo: o mais
característico, segundo parece, daqueles escritores que
psicológica e sociològicamente se distinguem de literatos e de
homens de letras.
É claro que
esta visão de dois dos fenômenos mais expressivos da nossa
época - a desintegração já franca da Igreja de Roma
como fôrça autoritàriamente ordenadora e o começo de
desintegração da Organização Comunista
Internacional, como equivalente sociológico dessa fôrça, nos
últimos decênios - é simples visão intuitiva - quando
muito intuitivamente sociológica - dêsses fenômenos.
Visão que não considera nem o aspecto místico dêsses
fenômenos nem o seu aspecto especìficamente político. Como
livre-atirador - e, aqui não pretendo senão apresentar-me como
exemplo de escritor-livre atirador em face de uma dramática situardo
contemporânea - o escritor independente pode dar-se ao luxo dêsses
devaneios com um desembarago difícil de ser atingido por intelectuais
comprometidos com instituições ou com sistemas
ideológicos.
Vejo no escritor
expressão, sobretudo, daquela inteligência, daquele saber, daquela
intuição que precisam de ser independentes para se afirmarem
criadoras. A não ser quando, por necessidade do próprio élan criador e, até da sua pessoa
inteira, precise o escritor de identificar-se com uma tradição ou
com um sistema de vida, de cultura e até de política; e possa
fazê-lo sem sacrifício, em qualquer ponto essencial, da sua arte ou
da sua condição de escritor: façanha dificílima
porém possível. Outra vez nos ocorre o exemplo de Dante; e, dentre
escritores ibéricos, o de Santa Tereza ou o de Luís de
León. Mas quase sempre o que parece desejável, do ponto de vista
do equilíbrio entre os extremos, é que haja
organizações firmes nas suas ortodoxias e indivíduos
à margem dessas ortodoxias ou em revolta contra elas. Entre êsses
indivíduos, vários dos escritores mais ciosos da sua
independência como escritores.
Creio que tenho
sido, como escritor, um independente e um sincero. Nessa minha atividade venho
seguindo, de algum modo, o exemplo do inglês que se gabava de nunca ter
procurado uma amizade prestigiosa, por ser prestigiosa, nem se esquivado a um
ódio de poderoso, por ser ódio de poderoso. Isto com
relação a indivíduos e com relação a
intituições; com relação a sistemas fechados e com
relação a modas ideológicas às vezes tão
tirânicas, em seu domínio sôbre uns tantos intelectuais, como
as modas de penteados, de trajo e de calçados sôbre as mulheres da
chamada "society"; e também com relação ao
público em geral, a cujas exigências e caprichos sentimentais ou
ideológicos, o escritor autêntico - penso eu e assim tenho
procurado proceder ou comportar-me como escritor - nunca se deve submeter.
às vêzes o caminho do escritor, fiel à sua
vocação, e às suas idéias, é o caminho da
impopularidade. Nunca o do indivíduo que escreva obcecado pela vontade de
ser sempre "best seller" e ter sempre uma "bonne
presse".
Sou dos que pensam
que o escritor, para ser autenticamente escritor, precisa de pensar, sentir e
escrever sem subordinação a qualquer fôrça
econômica ou políticamente dominante ou a moda ideológica ou
a convenção social ou a terrorismo jornalístico: o
terrorismo da parte de jornais ou de jornalistas que pretendam intimidar ou
prejudicar escritores com distorções de suas idéias,
silêncios em tôrno dos seus livros, malícias contra suas
pessoas. O escritor que se acovarda diante dessas fôrças corre o
risco de tornar-se escriturário em vez de escritor; intelectuário
em vez de intelectual. Corre o risco de tornar-se um equivalente das prostitutas
avelhantadas: aquelas que tudo passam a fazer para agradar os jovens, para
ganhar popularidade, para dar prazer aos poderosos de qualquer
espécie.
Raramente o escritor
autenticamente escritor se sente de todo à vontade, quando seu pensar e
seu sentir de tal modo coincidem com o pensar e o sentir em voga, que êle,
escritor, não exista senão como expressão de uma maioria
satisfeita com seus triunfantes estilos de vida e de cultura. Ao escritor
autêntico penso eu que anima, quase sempre, antes o pendor para a
inovação, a renovação, a crítica, a
projeção sôbre o futuro, algum regresso - como no caso do
pré-Rafaelista Dante Gabriel Rossetti, escritor e pintor e como, entre
nós, foi o caso do poeta Augusto Frederico Schmidt a algum passado mais
de acôrdo com seu gôsto, que a pura atualidade ou a simples moda
literária ou a cômoda adesão a essa atualidade e às
suas normas; ou a um progressismo sectário ou retórico.
Dai a
inconformação, mais que a acomodação, às
normas em vigor, caracterizar o escritor autêntico. A não ser,
é claro, quando nessas normas em comêço de ser normas, se
projetam idéias, pioneiras, revolucionàriamente pioneiras, de
escritor, que apareça então como renovador em parte triunfante,
como é o caso atual de Malraux, até há pouco um insurgente
e agora colaborador do Presidente De Gaulle num govêrno, sob vários
aspectos revolucionário que se vai estabilizando em regime
revolucionário-conservador. Foi o caso dos escritores Franklin e
Jefferson na organização dos Estados Unidos num nôvo tipo de
Estado-Nação. Foi o caso do escritor Lenine na
reorganização da Rússia como outro tipo nôvo de
Estado-Nação. Foi, no México, o caso de Vasconcelos com
relação a nova política indigenista de cultura para a gente
mexicana. O caso de Masarik e o de Benes, na Tchecoslováquia. O caso,
entre nós, do já citado Augusto Frederico Schmidt que
ficará na história da política exterior do Brasil como um
dos reorientadores dessa política. O escritor pode tornar-se, em tais
casos, um quase político, sem sacrifício nem da sua
vocação nem da tendência de todo o escritor autêntico
para criar, pensar, sentir e atuar, independentes de quanto seja excessiva
pressão de instituições ou de sistemas ideológicos
sôbre sua criatividade.
Sem um
domínio sôbre as palavras que se defina de modo mais incisivo, ou
menos incisivo, em estilo, e sem um sentido epifânico no uso não
só de palavras como até na combinação de vogais com
consoantes, no ritmo de frases que, através de pontuação
também rítmica, passem a caracterizar êsse todo ou
êsse complexo chamado estilo, não há, evidentemente,
escritor. Até que ponto, no meu caso, haverá um ensaista e agora
também um seminovelista, que, além de descritivo, sejá
epifânico? Ignoro. Sei que não me contentaria, nunca -se dependesse
de mim - de ser simplesmente descritivo no que escrevo. Nem simplesmente
descritivo nem apenas expositor de conhecimento ou de saberes adquiridos de
livros, ou de mestres, ou de estudo sòmente linear dêste ou daquele
objeto. E sim um tanto mais do que isto. Sugestivo. Evocativo. Interpretativo.
Provocante. Epifânico.
É por
êsse afã, ou por essa capacidade, que um indivíduo vai
além do saber, racional ou intuitivo, em que é, de algum modo,
especialista, seja êsse saber o acadêmico de um Huxley, sôbre
ciências biológicas, ou o folclórico, de um Simões
Lopes Neto, sôbre coisas gauchescas; e se torna ou se afirma escritor. E
como escritor adquire uma força que não atingiria como
especialista, mesmo quase perfeito, mas desprovido da virtude - virtude no
sentido básico da palavra - de escritor.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Como e
porque sou e não sou sociólogo. Brasília: Universidade
de Brasília, 1968. 189p.
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