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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados no Brasil  



COMO E PORQUE SOU E NÃO SOU SOCIÓLOGO
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Prefácio

Gilberto Freyre dispensa um tipo (o mais comum) de prefácio, que êle, tantas vêzes, redigiu com generosidade e elegância. Refiro-me ao prefácio-apresentação, introduzindo no mundo intelectual certas figuras novas ou desconhecidas e recomendando-as à atenção de todos.

Não tem cabimento uma apresentação do autor, já acolhido e consagrado por um côro internacional, desde os primeiros trabalhos. Nêles, logo se fixou a imagem daquele escritor que oferece u'a associação equilibrada dos ingredientes "vividos", em têrmos de "região" e "tradição", e, simultâneamente, enquadrados em têrmos dum cosmopolitismo de formação e informação, sempre atualizadas.

Mas essa própria complexidade, finamente assinalada e glosada pelo arguto Wilson Martins, traz a sugestão de outro tipo de prefácio, talhado para servir à obra, que, todos, admiramos. É o prefácio-interpretação, ao qual há de ser aplicada uma diretriz metodo, lógica de auspiciosa afinidade com a orientação cientifica do autor. Nêle, a tônica é de cunho nítidamente culturalista, desenvolvido com firmeza e originalidade; requer, portanto, um prefácio-compreensão, na linha que parte de Dilthey, com o "hineinversetzen, nachbilden, nachleben" (transferir, reproduzir, reviver), para livrar-se, gradualmente, da primitiva nota de mera "einfühlungi" subjetivista - sobretudo a partir de Max Weber. O método de compreensão já ganhou vigorosas sistematizações, desde as teses de Aron e o grito de Monnerot na França, ou a prática sociológica de "reconstrução imaginativa" de Mac Iver e da apreensão do conteúdo da realidade cultural em seus aspectos imateriais, com Znaniecki. Duas revisões atualizaram os procedimentos: a de Perpiña Rodriguez, laureada com o prêmio Sturzo, e, recentíssima, a de Rickman, que Gordon Macrae definiu como "chave de muito do que é importante no passado da sociologia e igualmente chave do que, com tôda probabilidade, será de importância no seu futuro imediato".

Não estou certo de que Gilberto Freyre tenha sido compreendido, sobretudo entre nós, apesar de algumas contribuições isoladas, que, embora lúcidas e sugestivas, mais convidam à análise de tôda a obra multidimensional do que realizam, adequada e exaustivamente, essa tarefa .

Quando o ilustre prof. Edson Nery da Fonseca (ilustre, mesmo, devolvida à palavra gasta tôda a prístina carga semântica) resolveu sugerir que eu redigisse êste prefácio, pretendia, decerto, que oferecesse a execução dum velho projeto. Há muito, penso escrever um longo ensaio sobre Gilberto Freyre, discutindo sua construção epistemológica, tanto no sentido mais comum desta palavra, como naquele em que oportunamente insiste Lalande, no seu clássico vocabulário, ligando a epistemologia à teoria, da ciência. Comecei a reunir fichas de leitura e anotações esparsas, mas os compromissos da vida universitária não me permitiram, ainda, levar a têrmo o empreendimento. Limitei-me, portanto, a fazer constantes referências ao veio cuja riqueza pretendia explorar. Assim é que, no meu livro mais recente, documentei, por exemplo, a fecundidade da abordagem interrelacionista, que ensejou a Gilberto Freyre antecipações relativas às fronteiras entre psiquiatria e sociologia, hoje registradas em documento da Sorbonne uma orientação que, no Brasil, vem sendo desenvolvida pelo prof. Gilberto de Macedo, em notáveis trabalhos, após as atividades, precursoras da escola pernambucana, diretamente orientadas por Gilberto Freyre. Dentro da mesma faixa, o provocante volume de Thomaz Szasz, "Law, Liberty and Psychiatry", que a Macmillan Company editou em 1965, avança, conceitos muito aproximados das idéias já conhecidas pelos brasileiros e cuja prioridade, devida a Gilberto Freyre, foi registrada, oficialmente, na França.

Ainda não será esta a oportunidade para pagar o débito, espontâneamente contraído, de um ensaio sobre a epistemologia, freyreana. O prefácio deve ser entregue com data certa, cortando o ritmo da investigações da reflexão, forgosamente lento. Aqui, procurarei, apenas, retomar, brevemente, o fio da meada, insistindo em uma advertência: o leitor que desconhecer o panorama das controvérsias epistemológicas das ciências humanas corre o risco do proferir juízos simplistas, no gênero daqueles a que o autor, com suave ironia, opõe o saboroso coquetismo intelectual de ser (ou não ser) sociólogo, antropólogo, historiador e escritor. Gilberto Freyre é tudo isso - e o fato de sê-lo, simultâneamente, é que caracteriza seu estilo científico -; mas, para compreender-lhe, inclusive, a malícia diante do primarismo intelectual de certas posições, é preciso uma dose de sofisticação que não está ao alcance dos ingênuos ou dos mal informados.

A organização do trabalho intelectual do escritor é, pela variedade das matérias, um apêlo ao leitor premunido. Ele aplica, na própria redação, um jeito muito seu de combinar "intuição lírica" e marcha discursiva, empatia e objetividade, fundo cientifico e forma literária (sem a dicotomia que mutilaria qualquer dos dois aspectos) - tudo isso, dentro dos padrões daquela complementar "finesse" pascaliana. A sua visão antropológica tem, ademais, raízes filosóficas, e não apenas no emprêgo do tempo tríbio, mas, inclusive, no aceno à ontologia que Kluckhohn reclamou, para evitar que a apresentação das diversidades culturais e suas projeções ecológicas viessem a desembocar num relativismo. No "background" das culturas está a natureza humana, cujas dimensões escapam à pura análise quantitativa, sendo, a um só tempo, espirito e natureza, porém nos moldes: dum real não totalmente matematizável. "A intervenção de liberdade humana", observa, insuspeitamente, um matemático, "introduz fator que diferencia nitidamente as ciências humanas das ciências da natureza. Pode-se afirmar, paradoxalmente, que as ciências humanas correm o risco de se tornarem mais falsas, nos instantes mesmos em que se tornar-se mais exatas".

Uma leitura apressada de qualquer texto de Gilberto Freyre só poderia ofender o praticante da compreensão matizada com doses de incompreensão rombuda. Querendo evitá-la, já que me aventuro ao prefácio e não posso deixar de encarar êste trabalho como uma espécie de môcho desajeitado à porta da airosa construção, trato de dar ao môcho, pelo menos, um. aspecto simbólico, apelando para a coruja filosófica.

"Como e porque sou e não sou sociólogos" é, principalmente, um livro de filosofia; nêle, ganham relêvo as questões epistemológicas, em cujo debate se prolongam, elucidam e atualizam as sugestões originais (em dois sentidos) da obra "Sociologia", cuja profundidade e sutileza tenho acentuado, com outros colegas de maior projeção e autoridade.

A fatura do volume, inclusive na feição estilística e na disposição caprichosa do material, lembrando Ortega, pelos giros concêntricos do pensamento e da expressão, desnorteia o leitor desprevenido, que só registra a presença marcante e ostensiva do autor. Daí ser necessária uma visão mais penetrante, para divisar, sob sua forma característica, uma subestrutura impessoal e objetiva, uma discussão de métodos e perspectivas, diante das ciências do homem, nas suas interrelações, um exame aprofundado e uma opção coerente, debaixo da indumentária a que Mário de Andrade talvez aplicasse aquêle adjetivo tio do seu gôsto: "arlequinal". Tomar, porém, a veste pela substância, é entender mal Gilberto Freyre, êsse "pied piper", cuja música vai atraindo todos os pequenos, "entes", sociais, para a dança "tout en rond", na qual se organiza o caleidoscópio e, sùbitamente, faz ver uma filosofia.

Os sucessivos "como e porque sou e não sou", na sua rotulação dialética, poderiam resumir-se num título, que o autor suprimiu, por modéstia - como e porque sou e não sou filósofo. Não quis intitular-se filósofo, ainda mais, por outra razão: é que não visou, nunca à prática da filosofia, diretamente, como "ofício", embora, enfrente a reflexão filosófica (e o livro, todo, é exemplo disto) como cientista e artista, que faz aquêle retôrno especulativo sôbre os seus próprios; instrumentos de trabalho, hipóteses e resultados, para fundamentá-los, operação em que Parodi via a essência mesma do afazer filosófico, enquanto distinto do científico.

Gilberto Freyre é, e não é, filósofo. Não o é, certamente, no sentido profissional ou acadêmico; é, porém, filósofo, naquele outro sentido, que Cuvillier definiu: "o cientista puro visa, ùnicamente, ao resultado e, quando o obteve, seu trabalho propriamente científico terminou (...) O filósofo intervém - e a experiência mostra que, muitas vêzes, o próprio cientista se torna, então, filósofo, - quando, por uma atitude reflexiva, o espirito colhe, para objeto de seu estudo, as próprias operações do pensamento pelos quais obteve êsses resultados".

Não temos aqui propriamente uma "apologia pro sociologia sua" - esta é mais uma elegante negação do autor - e, sim, plenamente uma "apologia pro sociologia" (entendida, no sentido amplo, como a matriz das ciências do homem, nas quais o "gentleman" de Apipucos transita com invariável desembaraço e esboça uma filosofia das ciências sociais). Gilberto Freyre não faz, porém, epistemologia por impotência ou infecundidade, como aquêle escritor que se dedica à critica literária por ser um "poète manqué". A sociologia, é sua, ao contrário na medida em que se revela um cientista do homem totalmente "réussi". É assim., aliás, que êle mostra a capacidade para nutrir o moinho especulativo com substância nova. O aspecto mais destacado dessa epistemologia advém, precisamente, da autenticidade metodológica, não postulada, apriorísticamente, mas, por assim dizer, moída, "a posterior". Ao contrário do que vem proclamado na ascética proposição, de cunho kantiano - o método cria a ciência, aqui se descobre uma substancial revisão da diretriz oposta -, o objeto dita o método, criado "in actu exercitu" para o ato gnoseológico e a "reconstrução imaginativa", sem sacrifício da multidimensionalidade ontológica à camisa de força da epistemologia idealista. É a orientação que segue os melhores padrões do pensamento brasileiro, sempre atraído pela saúde intelectual do realismo, que Gilson diria metódico, para afastar os pressupostos do criticismo.

É claro que a percepção das fronteiras, entre as disciplinas cientificas, não prescreve a admissão dos clássicos objetos formais, enquanto recursos da divisão do trabalho, cedendo, apenas, é, ênfase correlacionista e à adequação do saber à "objetualidade" multidimensional. Essa fidelidade ao, objeto, tendente à melhor flexibilidade metodológica, em oposição aos "purismos" idealisticos, opera como fusão ou integração que (convém insistir) muito claramente se distingue do simples ecletismo, no sentido de "agregado e justaposição", em virtude das "preferências subjetivas do filósofo".

Entra nesse ponto aquêle apêlo aos "anfíbios", que é característica das ciências sociais na perspectiva freyreana. E aqui caberá, talvez, voltar a Kluckhohn. O antropólogo lembra que "a cultura tem sua origem na natureza humana, e suas formas estão limitadas, tanto pela biologia do homem quanto pelas leis naturais". Nesta visão, a indole anfíbia está, seguramente, fundamentada. O biopsiquico vincula-se ao sócio-cultural, exigindo que a pesquisa se desenvolva em estudos caracterizados pela "complementaridade polarizada".

É preciso notar, porém, que a posição de Gilberto Freyre se encaminha para uma ênfase, cada vez maior, do procedimento compreensivo. Nem outro desfêcho seria admissível, em tão fino, analista. O homem não é uma pedra que cai; atua teleológicamente, voltado para um fim e governado por valores; não pode ser "explicado", em têrmos de pura causalidade natural; há de ser "compreendido". Num ângulo criminológico, insisti, com Ebmer, que o mero "eklaeren" bastaria, por exemplo, para desvendar processos do cérebro, inervações, movimentos de órgãos, aspectos fisio-quimicos, mas isto não esgotaria o sentido de uma conduta, que só, é compreensível através da valoração sócio-cultural. Exner insiste em que o vingador de sangue medieval é algo completamente distinto do homicida de hoje "e não só em. relação a valores éticos, mas precisamente em relação ao estado psicológico positivo que temos de investigar". A êsse respeito, é muito sugestiva, aliás, a contribuição, não só da metaclínica, mas da própria terapêutica de Frankl, que eu já citava e aplicava, em criminologia, antes de sua maior divulgação atual, agora chegada às colunas da imprensa, nos Estados Unidos e na França, onde se lê o "significado da vida" com interêsse característico do nosso "désarroi" contemporâneo.

A intencionalidade, armada axiológicamente, nos têrmos do homem como ser-em-comunicação, trouxe, nos trabalhos da escola de Utrecht, um eco jasperiano. Mediante o ser-com-o-outro, o homem realiza sua condição biológicamente preordenada (natureza humana e, não, naturalismo na visão do homem); na ação reciproca ininterrupta com o meio, êle se "cria", sociológicamente, desenvolvendo projetos vitais no espaço social. As antigas "Anlage" (disposição) e "Umwelt" (mundo circundante) redispõem-se, estruturalmente, num "Mitwelt", e os velhos determinismos naturalísticos cedem à idéia só aparentemente paradoxal da liberdade necessária, a liberdade de opção, frente às encruzilhadas da vida.

A reminiscência orteguiana traga uma ponte entre o trabalho filosófico (antropologia filosófica) e o, cientifico (antropologia cultural). Os ingredientes da cultura são, predominantemente, um rol de crenças (em que estamos) Mais do que de idéias (que temos). As "suposições fundamentais" de Kluckhohn ou as evidências não refletidas" de Leclorcq aparentam-se As "crenças" orteguianas e referem-se ao mapa cultural, na parte que "há de ser deduzida pelo observador, baseando-se nos paralelismos entre o pensamento e a ação".

Para entrar nesse mundo de crenças e referi-las aos valores, que cristalizam, só a abordagem compreensiva é adequada. Apesar da incidência de elementos naturalísticos, no próprio homem, a passagem ao limite, na ontologia humana, exige um instrumento especial. Não se trata, lembra Rodriguez, de "pôr-se no lugar do outro para fazer ou dizer, de fato, o que êle realiza e intenta, nem para pensar o que eu, sendo o que sou, faria ou diria, mas para conhecer idealmente o que êle pretende ou faz". E o procedimento de compreensão, subjetiva. (teleológico, endopático, integral) e objetiva, esta captando os sentidos objetivo elementar (interindividual, social) e fundamental (coletivo, societal), tragam o roteiro global da compreensão, evitando o "subjetivismo", do observador e, não, a subjetividade do homem. Daí a análise do sinal ou símbolo, de forma controlável, transmissível, conceptualizável.

Pondo, desta maneira, a obra de Gilberto Freyre num confronto das afinidades e entrosamento de sua contribuição e das posições da moderna teoria da ciência, ela emerge com vigor nôvo, assimilando e aplicando as sugestões colhidas, nas raízes filosóficas, mas, simultâneamente, afinando, com originalidade, as suas próprias ferramentas para traduzir as virtualidades dos fatos sociais brasileiros.

Atuam, conjuntamente, o sociólogo, o antropólogo, o historiador e também o escritor. É que a aderência à "objetualidade" concreta vai à procura não só do método adequado, mas igualmente da insubstituível expressão literária de seus achados, isto é, o veiculo exato, que não deixa de ser (aliás, é, por isso mesmo) a tradução da personalidade do escritor. Visão e "dição" fundem-se, croceanamente, ligando os golpes intuitivos às estruturas discursivas, a que não é estranha certa iluminação lírica; o discurso traz, muitas vêzes, engastados, em sua trama, os diamantes da poesia.

Todo o capítulo dêste livro sôbre a atividade do escritor manifesta a experimentação de efeitos estilísticos, em prolongada maturação artesanal, donde brota a forma artística - "sugestiva, interpretativa, provocante, epifânica".

Se balancearmos, agora, todos os ângulos da obra de Gilberto Freyre, veremos que sua atração, particular está no fôlego capaz de trazer, juntos, a interrelação das ciências do homem; o substrato filosófico, demonstrando que o autor opera em dois planos, (a construção dos instrumentos de trabalho e a reflexão sôbre êles, aliada ao e proveniente do contacto direto e da "identificação" com a matéria sociológica); o enquadramento da visão culturalista e dos próprios elementos da natureza presentes no homem; a criação estilística, em que a intuição lírica" do artista serve às análises do cientista; a assunção consciente do que êle próprio chamou um "nariz de Cleópatra" - e que seria o ângulo pessoal de observação e o repertório vivencial à disposição do afã compreensivo -; a "reconstrução imaginativa". dentro, do âmbito de suas possibilidades empáticas; o domínio e o emprêgo, lúcido dos dados oferecidos por sua própria "situação", numa auto-investigação apta a compreender-se, reflexivamente, no próprio ato de compreender, transitivamente, a realidade social - e, assim, a capacidade de fugir ao subjetivismo e ao relativismo perspécticos, através da escolha e disposição do material "empatizável". Com tal esquema interpretativo, o cientista é, também, ator, mas a objetividade vai garantida, por não ser alterado, o drama.

Nessa iluminação, é possível reler não só êste livro, porém tôda a obra de Gilberto Freyre; e, ao, final da leitura, é importante concluir que sómente um cientista e artista de superlativo talento, com rasgos francamente, geniais, poderia fundir todos aquêles aspectos num só monumento de, arte, e ciência, para nossa alegria e orgulho de brasileiros.

ROBERTO LYRA FILHO
Universidade, de Brasília
Instituto Central de Ciências Humanas
Páscoa de 1968.




Prefácio do Autor

Não sou nem pretendo ser sociólogo puro. Mais do que sociólogo creio ser antropólogo. Também me considero um tanto historiador e, até, um pouco, pensador.

Mas o que principalmente sou creio que é escritor. Escritor - que me perdoem os literatos a pretensão e os beletristas, a audácia - literário. E ao lado do sociólogo reconheço haver em mim um anti-sociólogo.

Nas páginas que se seguem não procuro explicar tais contradições: apenas constatá-las. Aceito-as em vez de me envergonhar delas. Aceito sua coexistência.

Se aqui destaco minha condição de sociólogo - sociólogo, é certo, impuro e nada ortodoxo - é que essa condição é, em mim, irredutível. Só sendo, um tanto, sociólogo eu me poderia dar ao luxo de ser também antisociológico em várias das minhas tendências.

São essas contradições que nêste pequeno livro procuro expor e, por vêzes, comentar. Quase apologótico apologia pro "sociologia sua" - não chego nunca à autocrítica. Apenas, em certas páginas, me aproximo dessa atitude. Simples aproximação, porém.

Reúnem-se aqui notas um tanto desconexas sôbre o como e porquê da minha, aliás, incerta condição de sociólogo: tão incerta, para uns tantos sociólogos, como, para outros, críticos de belas letras, a de escritor literário: condição que também procuro considerar.

Ao tentar explicar-me como possível sociólogo, não poderei deixar de referir-me ao que, ao lado dessa minha discutida condição, há, bem ou mal, de antropólogo, de historiador e, talvez, de pensador, tornando ainda mais difícil a classificação que se pretenda fazer de homem tão desajeitadamente orquestra. Tão múltiplo sem que tal multiplicidade signifique mérito ou virtude superior.

Foi para o livro de homenagem ao Professor Isaias Alves, que se organiza atualmente na Universidade Federal da Bahia, que escrevi o breve ensaio intitulado "Como e porque sou mais antropólogo do que sociólogo". E já foi publicado, pela Imprensa da Universidade Federal da Paraíba outro ensaio, de tipo semelhante - "Como e porque sou escritor" -, que reaparece, revisto e aumentado, nêste livro. O caso, também, de "Como e porque procuro ser historiador social", do qual vários trechos aparecem como prefácio à edição brasileira do meu trabalho de mocidade Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century.

O possível sociólogo - como o antropólogo, o historiador, o pensador também possíveis - só existem, no meu caso, ligados ao escritor. Quase nada como didatas. Nem como pesquisadores profissionais. Nem efetivamente burocratizados nisto ou naquilo: consultor, assessor, perito, acadêmico, funcionário, de instituto.

As notas inéditas que se seguem sôbre como e porque sou sociólogo - apenas algumas delas foram utilizadas em conferência proferida na Sociedade de Cultura Germânica Hans Staden de São Paulo - refino-as a pedido do meu querido amigo Edson Nery da Fonseca, professor da Universidade de Brasília, cujo ex-Magnífico Reitor, o Professor Laerte Ramos de Carvalho, gentilmente deseja publicá-las pela Editôra da Universidade. Desejo também do então Coordenador do Instituto Central de Ciências Humanas da mesma Universidade, o ainda jovem e já notável sociólogo que é o Professor Roberto Lyra Filho.

G. F.
Sto. Antônio de Apipucos, 1968.




Introdução


"Parece, pues, evidente que en la realidad social, materia de la Sociología, concorren con simultánea necessidad Naturaleza y Espíritu ..." Francisco Ayala




Procurando definir seu estilo de ser sociólogo - um estilo que me torna o de um anti-sociólogo aos olhos de vários outros sociólogos - não aborda o autor matéria fácil. Primeiro, porque a sociologia, atualmente, ainda mais que há, quarenta ou há cinqüenta anos, atravessa um período critico de indefinição e até de contradição e de confusão de objetivos e de métodos. Segundo, porque tem sido sempre característico do anarquista filosófico que, desde jovem, o autor tende a ser, criar o seu próprio ritmo ou o seu próprio estilo, tanto sociológico como, até, filosófico, de ser ou, como diria o espanhol, de "estar sendo" quanto tem sido. Daí ser e não ser sociólogo. Daí ser, talvez, menos sociólogo que antropólogo. Daí ser, também - ou procurar ser - historiador social: um historiador social que junte "simbióticamente" - como diria o Professor Peter L. Berger, lamentando, em livro recente, como eu há tanto tempo lamento, a pobreza de história na sociologia anglo-americana e sustentando ser essencial à sociologia essa simbiose - a história social à sociologia. Daí, ainda, ser dos que não hesitam em procurar abrir comunicações da sociologia com a literatura e com a filosofia, admitindo aquela validade do "modo poético de conhecimento" como complementar, nuns tantos casos, do "modo cientifico"; validade discutida e aceita pelos sábios europeus, que, em 1956, reuniram-se no Castelo de Cerisy, na França, em tôrno de uma obra de brasileiro por êles considerada "pioneira" e "origina", pela sua própria complexidade; e, no seu próprio, pais, acusada, então, por mais de um critico de "literatice" e, aqui e nos Estados Unidos, de misturar alhos e bugalhos, juntando à sociologia, a antropologia, a história, o folclore, a literatura, a filosofia.

Entretanto, uma das tendências mais vivamente atuais nos estudos sociológicos e para-sociológicos é a que se afirma no sentido dêsse como, que inter-relacionismo e dêsse como que generalismo, corretivo de excessos, em sociologia, tanto de especialismo - a princípio característicamente germânico, depois, anglo-americano - como de cientificísmo. Basta que se considerem obras mais ou menos, recentes, do valor da do Professor Peter L. Berger, Invitation to Sociology: a Humanistic Perspective (N. Y., 1963), da de C. Wright Mills, The Sociological Imagination (N. Y., 1959), da de Reisman e outros, The Lonely Crowd (New Haven, 1950), do ensaio de Robert A. Nisbet, "Sociology as an art form" (Pacific Sociological Review 5, n. 2, 1962, do estudo de Wayne Shumaker, Literature and the Irrational (Prentice Hall, 1960), do de Erving Goffman, The Presentation of Self in Everyday Life (N. Y., 1959), do de Robert Redfield, The Little Community (Chicago, 1955), do de Ely Chiney, Sociological Perspective (N. Y., 1954), do de Maurice R. Stein, The Eclipse of Community (Princeton, 1960), do ensaio do mesmo Stein, "The Poetic Metaphors of Sociologyv, incluido em. Sociology on Trial (Prentice-Hall, 1963), da ricamente sugestiva Introduction a la Sociologie, de Jean Duvignaud (Paris, 1967); e ainda dos estudos sociológicos em língua espanhola, dos Professores Francisco Ayala, Medina Echevarria, Recassen, Julíán Marías; dos Professôres Arnold Gehlen e Helmut Schelsky, em língua alemã.

Obras, quase tôdas, de caráter principalmente humanistico-cientifico. Para o Professor Berger onde a sociologia, parece melhor se situar é na imediata vizinhança das chamadas Humanidades, se é que não "belongs fully to them". Pois o social sendo, como é, dimensão crucial da existência do Homem, a sociologia - ou o sociólogo - está sempre tendo que considerar o que significa ser homem, nessa dimensão, e principalmente, o que significa ser homem numa situação particular "in a particular situation"). Principalmente numa situação especifica de espaço ou de tempo ou de espaço-tempo, acrescente-se a Berger. Ponto em que êsse sociólogo, em obra recentíssima, adota um critério de definição da sociologia que coincide com o que ousei delinear em obra já antiga de sociologia com alguma pretensão a sistemática e também a didática: o meu Sociologia, publicado no Rio em 1945 e agora em 4ª edição; e, se acusada por uns de obra prejudicada pela "literatice", ou de "anticientífica" ou de "superada", por outros consagrada como antecipação às tendências mais vivas e atuantes na sociologia contemporânea: no seu estudo e no seu, ensino. Tanto que é obra didática adotada pela Escola de Altos Estudos de Defesa Continental, em Washington, como também, por iniciativa do Professor Júlio Gonçalves, pelo Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Lisboa e por várias faculdades brasileiras de ciências sociais; e recomendada, no Brasil, por mestres universitários da autoridade e do valor do Professor Roberto Lyra Filho, da Universidade de Brasília, e do Professor Freitas Marcondes, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo; e ainda, por chamados "esquerdistas" como o historiador social Professor Amaro Quintas, do Recife, e o sociólogo Professor Machado Neto, da Bahia, além do Professor Anísio Teixeira, que magistralmente a prefaciou.

A mais chega a coincidência de pensar do Professor Berger, em seu recente Invitation to Sociology, como o autor brasileiro de Sociologia: admite o Professor Berger ser necessário ao sociólogo possuir uma especial sensitividade aos significados humanos da matéria social que procura compreender, analisar e interpretar. Sensitividade que seja não apenas um equivalente do bom ouvido em música ou do bom paladar em culinária, mas que tenha "direct bearing upon sociological perception itself". Uma concepção, portanto, humanistica e não apenas cientifica, da arte-ciência do sociólogo, exigindo-se, de acôrdo com essa concepção, do mesmo sociólogo, "openness of min" e "catholicity of vision". Donde ao sociólogo assim aberto na sua arte-ciência e assim católico na sua visão repugnarem. os sistemas sociológicos ou econômicos ou filosóficos ou políticos fechados que ofereçam interpretações com pretensões a de todo lógicas ou com pretensões a de todo cientificas da realidade humana geral ou particular. Entre êsses sistemas, o marxísta.

Para o Professor Berger, em páginas atuais, como para o autor brasileiro de Sociologia, desde de há vinte anos, o sociólogo aberto tem que admitir brechas "through which other possible horizons can be perceived". Do mesmo modo que tem que admitir "an ongoing communication with other disciplines which are vitally concerned with exploring the. human conditionl". Critérios, êstes, muito deste autor brasileiro em tentativa já antiga de nova sistemática sociológica; e para a obra em que apareceu, escandaloso. Sobretudo com relação ao primeiro ponto aqui destacado: a incompatibilidade da Sociologia, quando humanistico-científica, com sistemas fechados.

Outra vez saliente-se coincidência de pensar do Professor Berger, em livro recente, com o do seu colega brasileiro, em obra que há vinte anos vem se conservando mais ou menos viva e atual: quanto à mesma sociologia humanístico-científica e antes situacional que abstrata, em. desenvolvimento ao conceito famoso, de Thomas de "definição de situação" - ser sociologia que, como possível fonte de orientação de efeito prático, - político ou econômico -, "do not demand the sacrifice of one's soul and of one's sense of humor". Excesso - a exigência dêsse sacrifício - em que se vem extremando, quanto sistema sociológico que, apresentando-se como sociologia única ou total, de total passa a totalitária; e, assim totalitária, exige dos seus adeptos práticos e não apenas teóricos, a renúncia da própria alma e do "sense of humor". Duas preciosidades - a alma e o "sense of humor", - que a pessoa ciosa de sua personalidade precisa de resguardar de quanto sistema sociológico pretenda absorvê-la totalmente como sistema orientador de pensamento e de ação humana, fazendo dêle um "positivista" ortodoxo ou um "Comunista" ainda mais ortodoxo em, sua sociologia ou um Tomista absoluto tanto na sua sociologia como na sua teologia.

Por isto mesmo, sociólogos como já há anos o brasileiro, autor de Sociologia e o autor da recente Invitation to Sociology, vêm escandalizando alguns dos seus colegas mais totalitáriamente sociologistas com a atenção que dispensam, sob critério sociológico, à biografia ou à autobiografia, com o ajustamento ou o desajustamento de individuos-pessoas a normas coletivas revelando, através das suas biografias e autobiografias, quer a maior ou menor força de ideais, ritos e símbolos, característicos de uma sociedade e de uma cultura, sôbre os participantes ou membros dessa sociedade e dessa cultura, quer os desvios dessas normas por influência de "boêmios", (da classificação de Thomas), ou de "criadores",, "boêmios", ou não, mais atuantes ou carismáticos.

É para supreenderem - ou procurarem surpreender - intimidades nessas relações entre pessoas e sociedades, pessoas e culturas, que sociólogos assim biográficos vêm praticando aquelas técnicas mais ou menos sutis de observação de tais inter-relações que já foram qualificadas como "sublimated voyorism". O Professor Berger chega a admitir haver futuros. sociólogos dêsse tipo nos meninos que, através de buracos de fechadura, procuram ver suas tias solteiras quando nuas e a sós nos banheiros. Pelo que, interessado na "infinita riqueza do comportamento humano", o sociólogo biográfico do feitio consagrado por aquêle sociólogo brasileiro, em páginas já antigas, e pelo Professor Berger, em páginas recentes, encontra proveito na companhia ou na intimidade tanto de padres como prostitutas: trewarding the company of priests or of prostitutes, depending not on his personal preferences but on the questions he happens do be asking at the moment. Num dos capitulos dêste "<Como e porque sou e não sou sociólogo", o autor recorda autobiogritficamente aventuras de experiência ou de vivência dêsse tipo, associadas a algumas das suas tentativas de análise psico-social êste ou daquele objeto-sujeito de estudo: aventuras a que vem se dedicando desde a sua mocidade de "voyeur sublimado". E que, como aventuras de estudo em parte cientifico, têm sido também aventuras um tanto artísticas ou literárias de tentativa de compreensão do comportamento humano por meios em páticos ou intuitivos e até poéticos ou novelescos, complementares ou predecessores dos científicos.

Palavras heréticas para os ouvidos de quantos sociólogos sejam rigidamente tão científicos que cheguem, alguns dêles, ao extremo do cientificismo, fechado. Não pretende, porém, o autor dêste Como e porque iludir-se, nem iludir leitor algum, proclamando a morte ou anunciando a agonia da sociologia assim cientificista, só por não ser a sua sociologia; ou por não corresponder ao seu ideal ou à minha idéia de sociologia.

Considera-se mesmo obrigado a registrar aqui que há, entre sociólogos modernos, quem pense justarnente o contrário; e anuncie a morte próxima da sociologia, que não seja a exclusiva e estritamente cientifica ou por êsses assim considerada. Sem ir a tal extremo, o Professor Ralph Thomlinson, no seu aliás excelente livro, Sociological Concepts and Research. Acquisition, Analysis and Interpretation of Social Information (N. Y., 1965), honestamente reconhece que, na sociologia moderna, a "presence of a scientific approach does not necessarily eliminate other approaches". E lamente que atuais sociólogos estatísticos tratem pessoas humanas como, se fôssem coisas, em prejuízo da compreensão dessas pessoas pelo sociólogo. Destaca, porém, de tal modo, a importância da quantificação em sociologia, "ciência, do comportamento humano", que parece tender a um tanto desdenhosamente - do ponto de vista sociológico considerar "filósofos sociais", os, sociólogos que não sejam principalmente quantitativistas em seus métodos de análise. Dai ser enfático em afirmar que a sociologia não é parte das chamadas humanidades, sem por isto deixar de reconhecer que a sociologia continua a conter "elements of both science and cleverly contrived nonscience". Se destaca - talvez um tanto arbitràriamente - que tendo oscilado entre as tendências para o quantitativo e o qualitativo, o cientifico e o verbal filosófico, o empírico e o intuitivo, a marcha atual é da sociologia na direção do qualitativo, do cientifico, do empírico, não se inclui entre os sociólogos que, cientificistas absolutos, constituem uma espécie de seita sociológica fechada. E se tornam passíveis, alguns dêles, de ser atingidos pela ironia do Professor Berger com relação aos que sacrificam "alma" e "sense of humor" a adesões assim extremas, quer ao cientificismo puro, quer ao cientificismo ou ao sociologismo a serviço de ideologia ou de causa política.

O autor é dos que pensam. que a sociologia, para ser constantemente germinal ou criadora, precisa de considerar-se a si própria, não filosofia do que deve ser ou ciência do que é; e sim, como diria Ortega, do que está sendo. E o que está sendo e susceptível de mudar de forma - inclusive de forma sociológica - de função e até de processo, e não apenas de substância, - matéria extra-sociológica - sob diferentes pressões, continuas ou descontinuas, de espaço e, sobretudo, de tempo. Um tempo que, como sugeriu numa das conferências que proferiu num curso de introdução à Futurologia, na Universidade de Brasília, em 1966 - curso realizado por iniciativa do Professor Roberto Lyra Filho - precisamos de considerar sempre tríbio; e não particularmente passado ou presente ou futuro. O tempo social é sempre um encontro dêsses três tempos num só, com, ora um, ora outro, dentre êles, mais dominante, embora nunca exclusivo.

Tal conceito de tempo sociologicamente tríbio talvez possa ser estendido a uma conceituação amplamente tríbia do que seja sociologia. A sociologia, tôda ela, e não o tempo a ser considerado sociológicarnente pelo sociólogo, seria tríbia. Não só anfíbia porém tríbia. E a sua dinâmica tríbia se juntaria sua dinâmica situacional. Tríbia e situacional é o que seria, seu caráter de situacional completando, sua condição de tríbia.

Do conceito esboçado por êste autor, no livro agora em 4ª edição, Sociologia, de ser a sociologia, ciência anfíbia, ou mista, ou mesmo tríbia, pode dizer-se que coincide com o daqueles: sociólogos principalmente alemães, que vinham já insistindo na coexistência, na sociologia, de duas sociologias: a Kultursoziologie, que seria uma sociologia voltada para superestruturas, lidando com entidades "ideais", e a Realsoziologie, que seria uma sociologia voltada para subestruturas e lidando com a chamada realidade empírica. Lembremo-nos de que dualista é a concepção de sociologia oferecida por Max Scheler no seu Die Stellung des Menschen in Kosmos (1929),na qual Já se admitia o exame sociológico tanto - por um lado - de ações com objetivos mentais ou "ideais", como - por outro lado - de ações condicionadas por impulsos biológicos de sexo e fome. Tôda ação humana concreta seria um misto dos dois elementos: o "ideal", e o biológico ou "natural".

Através do conceito brasileiro de sociologia como ciência anfíbia e até tríbia, o que se procura é dar maior inter-relação entre as duas ou três sociologias cujas duas ou três vidas seriam na verdade uma só, conforme um jôgo apenas de ênfases na consideração de objeto-sujeitos de análise e de interpretação sociológica de situações: situações umas mais, outras menos, condicionadas ou afetadas por impulsos ou por condições, fisicamente biológicas. Inclusive, até certo ponto, as ecológicas. Pois da sociologia que se considerasse tríbia repita-se que seria, uma sociologia dinâmicamente situacional. E aberta em sua sistemática, nisto se diferenciando da sociologia, quer marxista, quer Católica, mais fechadas. Inclusive as praticadas no Brasil.

O marxismo chamado cientifico e, por alguns, dos seus apologistas, identificado com "a sociologia cientifica" ou com "a história objetiva" - mel de que estão agora se lambuzando, por terem vindo a prová-lo com grande retardamento, uns tantos historiadores e sociólogos norte-americanos, principalmente os cornelianos -, é atualmente representado com inteligência e brilho, no Brasil, no campo dos estudos sociológicos, pelos Professôres Caio Prado Júnior, Gláucio Veiga e Florestan Fernandes; e pelo discípulo do professor Fernandes - porventura mais lúcido que o mestre - Fernando Cardoso, e com menor inteligência e maior ânimo, faccioso, pelos professôres Octavio Ianni e Nelson Werneck Sodré. Até há pouco, representou-o também - com rara honestidade intelectual - o critico, literário e, por vêzes, sociólogo da literatura, Astrogildo Pereira.

É uma contribuição, a que, da parte dêsse sistema fechado, vem sendo feita aos modernos ou atuais estudos sociológicos no nosso pais, nada desprezível, uma vez depurada do seu cientificismo, sectário; e evidentemente superior à que até agora lhe trouxeram sociólogos representantes de outros sistemas sociológicos fechados, como o Positivismo francês - com o Professor Ivan Lins - e o Catolicismo romano, com o Professor Alceu Amoroso Lima e, em plano cientificamente mais elevado, os Professôres F. Bastos de ávila, S. J., e Pedro Calderón Beltrão, S. J.

A êste propósito, é oportuno que o autor de Como e porque sou e não sou sociólogo destaque, neste prefácio, que vem se defrontando, nos últimos anos, no Brasil e em Portugal, com expressões as mais simplistas de intolerância da parte de certas alas Comunistas, quer no Brasil, quer em publicações estrangeiras, em tôrno de suas idéias e de seus trabalhos.

Acontece que êsse seu choque de agora com o simplismo intelectual de intelectuais - ou intelectuários não é, para êle, experiência de todo nova: teve-a com o fascismo, nos dias de maior explendor dêsse outro sistema fechado no Brasil e no estrangeiro.

Tais experiências, supõe que não o vêm levando ao perigo extremo do ódio com ódio se paga. Nunca deixou de considerar a importância para a sociologia, das idéias e dos trabalhos, de fascistas, reais ou supostos, como um Pareto, um Georges Sorel, um Spengler e, dentre brasileiros, um Plínio Salgado, um Gustavo Barroso, um Miguel Reale. Tampouco tem deixado de estimar obras sociológicas, mais ou menos, recentes, da autoria de Comunistas ou de marxistas tão fechados, dentro dos seus sistemas, quanto dentro das suas clausivas, carmelitas descalços, só por virem sendo, por vêzes, caricaturadas por êles suas idéias ou mesmo insultada sua pessoa. Mesmo porque, da parte de marxistas ou Comunistas esclarecida e intelectualmente honestos, vem recebendo o melhor dos tratamentos, sendo colaborador da excelente revista marxista em língua inglêsa, Science and Society, a convite ou por convocação dos seus redatores; e tendo merecido de marxistas como o sociólogo, cubano Juan Antonio Portuondo e o sociólogo brasileiro Astrogildo Pereira estudos muito mais generosos a respeito das suas idéias e muito mais compreensivos das suas interpretações sociológicas do passado do Homem brasileiro que da parte de sociólogos Católicos como o Professor Alceu Amoroso Lima e o falecido Manuel Lubambo.

Uma das Interpretações do passado social brasileiro, em confronto com outros passados euroamericanos, ou eurotropicais sugeridas pelo autor de Como e porque sou e não sou sociólogo e que hoje se situa entre as mais discutidas por sociólogos e por historiadores, é a que se refere a uma maior benignidade nas relações de senhores com escravos no Brasil patriarcal do que em algumas de outras sociedades igualmente escravocráticas e patriarcais: a anglo-americana, a franco-americana, a holando-oriental, a holando-áfricana, a belgo-áfricana, algumas das espanholo-americanas. Interpretação A base da leitura critica de numerosos depoimentos de estrangeiros, idôneos e não, que, nos séculos XVII, XVIII e XIX tiveram contacto com uma, duas ou várias dessas sociedades e a brasileira, concluindo, quase todos os idôneos - no século XIX, o século do vigor máximo da escravidão patriarcal no Brasil, estrangeiros das excelentes credenciais, como observadores idôneos e como críticos independentes, do feitio de um Clark e de um Koster -, por aquela benignidade. Esboçou o autor tal interpretação, ainda estudante da Universidade de Colúmbia, e após estudo sistemático, quer da maior coleção de livros, inclusive alguns raros e até raríssimos, de viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil - livros que constam, da Brasiliana de Oliveira Lima -, quer de pouco conhecidos documentos parlamentares britânicos: evidências reunidas por comissões britânicas de inquérito sôbre matéria tão delicada, com depoimentos de várias procedências e de várias tendências. E dessas comissões, como de vários daqueles viajantes, o mínimo que se pode dizer quanto à sua atitude ou à sua perspectiva - fontes de tanto interêsse para o sociólogo cientifico ou o historiador objetivo - é que, no seu maior número, não morriam de amôres nem por Portugal nem pelo Brasil.

Não só o inglês Koster mas vários outros estrangeiros, dentre os mais respeitáveis pela sua ciência ou pelo seu saber e pelo seu honesto espirito critico, de põem a favor da relativa, benignidade no tratamento de escravos por senhores no Brasil: do francês Frazer ao inglês Lindley; do sábio St. Hilaire à cosmopolita Ida Pfeiffer; no norte-americano Comandante da U. S. N. Wilkes (de Wilkes é êste comentário, representativo de numerosos outros, à situação dos escravos no Brasil, em livro publicado em seu país em 1825: "In general they (os escravos) are kindly treated and become firmly attached to their masters") ao clérigo inglês Clark. De Lindley, em livro publicado em 1805, é êste raparo mais que expressivo, por proceder de inglês de todo hostil a Portugal e ao Brasil colônia: "From the unusual quantity" (de escravos negros no Brasil) ... "one would conceive the public tranquility to be somewhat endangered, on a recollection of the late, events in St. Domingos. But it is otherwise: for indulged to licentiousness, not overworked, and enjoying their native vegetable food, the negroes are cheerful and content". Situação que Lindley atribuiu ao fato de terem os portuguêses no Brasil recebido "terrível lição" dos negros de Palmares, supondo que antes de Palmares (século XVII) os escravos negros no Brasil não eram tratados com tanta benignidade. Mas escrevendo sôbre o que vira no Brasil no próprio século, XVII Frazer, francês, já abolicionista, notara, em livro publicado no remoto ano de 1699, que a condição de um escravo negro, naquela época, no Brasil, nada tinha de idílico, mas honestamente destacando do tratamento que aos escravos dispensavam aos portuguêses ser menos cruel que o dispensado aos seus cativos, também negros, pelos espanhóis e pelos inglêses: "les Espagnoles & les Anglais les traitent encore plus cruellement". Observação repetida pelo Sieur D. na sua Voyage do Marseille a Lima, publicada em Paris alguns anos depois. São inúmeros os depoimentos dêsse teor provenientes de observadores insuspeitos: pouco simpáticos aos portuguêses, uns; outros francamente hostis a Portugal, como bons franceses ou inglêses do século XVII e dos séculos XVIII e XIX.

Porque repelir-se agora o que, nessas evidências, é histórica e sociológicamente válido, nunca como tentativa de reavivar-se contra Portugal e contra portuguêses, ainda mais do que contra a Espanha e espanhóis, a lenda negra inventada e mantida durante séculos por autores anglo-saxônicos e Protestantes? Parece a alguns de nós haver em tal tentativa, com aparências de objetivista e cientificista, algo de suspeito: suspeito de ser, ao contrário, esfôrço subjetivista, subjetivismo. Coloca do por preconceitos de tempo presente projetados sobre tempo passado.

As páginas que se seguem, o autor admite, desde logo, serem, várias delas, prejudicadas por um personalismo por vêzes petulante e até vizinho do que um critico mais severo possa considerar tendência à autoglorificação. Essa autoglorificação, através de exageros em reclamar o autor para si, e para o Brasil, antecipações em estudos sociais - filosóficos, históricos e antropológicos - e até em técnicas novelisticas - quando melhor seria que êle deixasse o cuidado de reconhecê-las exclusivamente a pensadores, cientistas sociais e críticos literários e de idéias, estrangeiros. Os quais, quando um Georges Gurvitch, um Fernand Braudel, um, Roland Barthes, um Jean Pouillon, um Jean Duvignaud, na França, um Asa Briggs ou um Philip Mason, na Inglaterra, um Ortega y Gasset, na Espanha, um Helmut Schelsky, na Alemanha, um Connolly, nos Estados Unidos, um Alberto Peseetto, na Itália, não têm faltado a êste autor brasileiro com êsse reconhecimento. Pelo que, mesmo um tanto significativas e não de todo insignificantes, tais antecipações, ao autor tocaria aquela modéstia que caracterizou o maior dos pioneiros nacionais Alberto Santos Dumont - sem ter deixado de estar presente no menos retraído Heitor Villa-Lobos e, mais recentemente, no também menos retraído Gilberto Amado e no insigne mineiro cosmopolita e, por conseguinte, songamonga, Guimardes Rosa.

A uma nação ainda obscura como o Brasil, convém aos seus possíveis ou reais pioneiros não seguirem. estritamente o belo exemplo de modéstia de Santos Dumont, cujo nome vem se sumindo ao lado do dos irmãos Wright, prestigiados constante e amplamente por forte publicidade da parte dos seus compatriotas. As nações obscuras precisam de fazer sentir no estrangeiro o valor dos seus pioneirismos de caráter cultural, como vem fazendo o México com relação à sua pintura, à sua arquitetura e à sua música. O Brasil de hoje abandona as feras da competição internacional os seus próprios Pelés.

O autor, muito identificado por enfatia, com o que considera os valores da sua gente - embora, suponha, sem resvalar no excesso de etnocentrismo: antes para interpretá-los ou reabilitá-los, do que para exaltá-los vai, decerto, a extremos, na ênfase por vêzes deselegante que dá a antecipações suas, em particular, e brasileiras, em geral, em filosofia, letras e ciências humanas. Extremos que o leitor inteligente relevará.

De um critico de idéias, notável pela sua agudeza de percepção, é a afirmativa de que, no trabalho que venho realizando - quer o sociológico, quer o não-sociológico - o que avulta é "o método". Apenas não define que "método". Ou que seja "método" em geral.

Talvez mais exato seja o reparo, sôbre o, mesmo assunto, de outro critico sagaz, o francês Jean Pouillon, de que o característico das análises e das interpretações sociológicas e não-sociológicas, que venho tentando, de Homem Situado, seja não um método, no singular, porém uma conjugação de métodos, no plural. Mas importando essa pluralidade de métodos: num como método coordenador de vários métodos que seria a criação de uma abordagem nova; uma espécie de meta-método; e até um repúdio a métodos convencionais como métodos específicos ou puros. Uma miscigenação metodológica tal que só revelaria criação de nova forma de abordagem nova, uma espécie de meta-método; e até um repúdio a métodos convencionais como métodos específicos ou puros. Uma miscigenação metodológica tal que se revelaria criação de nova forma de abordagem de tais ou quais assuntos; e na qual fôsse tal a projeção do criador de nôvo método sob a forma de combinação de métodos, que êle pudesse dizer dêsse meta-método: "c'est moi". Ou: "o método sou eu".

Não se suponha haver nestas sugestões de personalismo ou individualismo de método - ou de métodos vários num método singularmente coordenador a ponto de ser criação do coordenador e de suas relações com assuntos com que empàticamente se identifique - bizarria da parte dêste autor com relação a estudos - os do Homem - que êle vem considerando anfíbios ou tríbios naturais e culturais, dentro da parte cultural havendo o prolongamento da ciência em filosofia; ou da Antropologia física e da Antropologia cientificamente cultural em Antropologia Filosófica.

Já com relação a estudos físicos escrevia em 1947, Como autor de um dos capítulos do livro organizado por E. P. Wigner, Physical Science and Human Values, o Prêmio Nobel P. W. Bridgman "não haver método cientifico como tal". O "chamado método cientifico" seria apenas uma expressão especial do "método da inteligência": "tany apparently unique characteristics are to be explained by the nature of the subject matter rather than ascribed to the nature of the method itself". êste seria um procedimento da inteligência ou da mente do cientista, para com o sujeito ou objeto de estudo. E mais recentemente, C. P. Richter, considerando em artigo, "Free Research versus Design Research", em Science (CXVIII, 1953), o problema de método, não hesitou em considerar aquêle procedimento mental "a state of mind that would not lend itself to any accurate verbal description". E tratando do assunto do ponto-de-vista especificamente sociológico, o Professor Melville no seu excelente capítulo para a obra coletiva Sociologists at Work (N. Y. - Londres, 1964), destaca serem muitos os físicos, químicos, matemáticos, dentre os mais eminentes, que duvidam haver um método susceptível de ser plenamente reproduzido, de modo a poder ser usado ou empregado por todos os pesquisadores. Dai o testemunho dêsses cientistas físicos - que não poucos cientistas sociais pretendem seguir como modelos ideais - ser no sentido de que nas suas pesquisas êles têm tomado, rumos metodológicos diversos e muitas vêzes inclassificáveis ou identificáveis ("unascertainable"), chegando por êles às suas descobertas e às suas soluções de problemas.

O que parece deixar à vontade sociólogos que lidam com sujeitos-objetos sendo mais complexos, mais sutis, do que os problemas físicos ou químicos, para serem, quando, animados da criatividade, como que mais pessoais e até mais plurais, em sua metodologia, que os puristas dêste ou daquele método. Puristas nesta ou naquela maneira convencionalmente cientifica - quase sempre, na verdade, cientificóide - de ser sociólogos.

E em páginas atualíssimas - para ensaio quase filosófico - em que há coincidências de pensar de autor europeu-anglo-americano com autor brasileiro, Mr. Peter F. Drucker, no seu ensaio de futurologia, Land marks of Tomorrow (N. Y., 1952), escreve das modernas ciências e artes com maiores tendências a pós-modernas, que nelas os conceitos de totalidades não são mais os de "somas de suas partes" - partes de todo mensuráveis ou matemàticamente analisáveis segundo os métodos clássicos, isto é, cartesianos - mas o de configurações. Tanto mais pós-moderno vá se tornando o cientista - o biólogo, por exemplo - maior a sua tendência para exprimir-se em, têrmos tais como "munidade",, "metabolismo", "ecologia", "síndroma", "homeostatis", "formas" - têrmos que - descrevem menos propriedades de matéria, ou qualidades isoladas ou quantidades, como somas de partes, do que "ordem harmônica". Têrmos "estéticos", segundo Drucker, como têrmos "estéticos" seriam, noutras Ciências do Homem, "gestalt", "forma", "cultura", "integração". Pois configurações, integrações, formas são expressões ou símbolos de realidades que o sociólogo ou o antropólogo ou o historiador não consegue apreender tendo as partes de um todo como seus pontos de partida; e sim pela contemplação dêsses todos.

É o critério que tem orientado êste autor, como sociólogo e como não-sociólogo, em suas tentativas de identificação de um Homem situado - o lusotropical, o hispanotropical, o brasileiro - considerado nas suas configurações ou nas suas formas de comportamento.

Anuncia-se para breve a profissionalização, da atividade do sociólogo no Brasil. Verificada essa profissionalização é provável que o modo mais generalizado de o sociólogo ser sociólogo no nosso pais se torne o "prático" o que corresponda ao médico clinico com relação ao médico cientifico. O sociólogo orientador de "relações humanas" nas indústrias. O sociólogo orientador da parte sociológica de atividades educacionais. O sociólogo-demográfico, a serviço de órgãos governamentais. O sociólogo - em alguns dêsses casos - mais intelectuário, isto é, funcionário, burocrata, técnico institucionalizado, do que intelectual; ou do que pensador ou cientista ou humanista livre-atirador.

Mas mesmo que se tornem numerosos, por um lado, com os sociólogos técnicos ou os sociólogos intelectuários, os sociólogos apenas didatas, por outro lado, os sociólogos que se dediquem ao estudo ou ao esclarecimento de assuntos sociológicos, criativamente, isto é, abrindo-lhes novas perspectivas, não desaparecerão, enquanto o Brasil se conservar Estado mais ou menos democrático, em vez de tomar-se totalitário. Serão êles os críticos dos excessos ou das deficiências dos sociólogos principalmente oficiais, práticos, doutrinários, engajados, comprometidos. Serão êles os inspiradores de pesquisas. êles, os que escreverão livros renovadores sob um critério quanto possível independente de compromissos de ordem institucional ou doutrinária ou mesmo metodológica. Os sociólogos profissionais serão, assim, de vários tipos, tendendo a completar-se com suas diferenças.





Como e porque sou sociólogo. I


"The sociologist ... is a person intensively, endlessly, shamelessly interested in the doings of men... He will naturally be interested in the events that engage men's ultimate beliefs, their moments of tragedy and grandeur and ecstasy. But he will also be fascinated by the commonplace, the everyday... He will find rewarding the company of priests and prostitutes..." Peter L. Berger




Quase todos os brasileiros conhecem desde meninos, desde o colégio, alguns, até desde a escola primária, as paginas de antologia em que o, ainda hoje tão discutido José de Alencar - há quem, não o considere digno de figurar como romancista na história da literatura brasileira - conta "como e porque" tornou-se "romancista". Ninguém estranha, entre nós, que um indivíduo, mesmo, sem ser nôvo Alencar, mas apenas por escrever arremedos de romances, se diga romancista. Dizer-se alguém romancista é hoje quase tão natural, em, língua portuguêsa, como dizer-se alguém botânico ou químico, agrônomo ou urbanista.

O mesmo não é certo, do indivíduo que em língua portuguêsa se diga sociólogo. O título é pomposo. É pretensioso. É majestoso. É quase o mesmo do que dizer-se algum filósofo. Soam mal em língua portuguêsa as palavras: "Sou filósofo". A não ser quando o sentido da palavra é o irônico e até o autodepreciativo: o de considerar-se o indivíduo a si mesmo e a vida despreocupadamente. "Eu cá sou filósofo, sabe?" A entonação é tudo, em, tais casos.

Com o título de sociólogo acontece coisa semelhante. É certo que se conta de um distinto brasileiro que diletantemente resolveu ocupar-se de assuntos de, urbanismo, construções e arquitetura, que uma vez confessou, defendendo-se da acusação de ser um intruso em tais matérias: "minha gente, eu reconheço que não sou urbanista nem arquiteto nem engenheiro: eu sou apenas um modesto sociólogo".

Confissões dêsse teor são raras porém. A palavra "sociólogo", mesmo precedida do adjetivo "modesto", sugere entre nós a pretensão de ser o indivíduo nôvo Augusto Comte ou nôvo Herbert Spencer. Não caracteriza no indivíduo sua simples condição de especialista em estudos ou em técnicas de estudo sociológicos, como acontece já há anos entre os anglo-saxões, tornando o sociólogo profissional - com exceções notáveis, é claro, como a de um Lewis Mumford, a de um Talcott Parsons, a de um Afills - especialista de status semelhante ao, do químico, ao do botânico, ao do economista, ao do biólogo: na verdade, por escala de prestígio, publicada há poucos anos, inferior a qualquer dêsses profissionais.

Só ultimamente está se verificando no Brasil, mesmo que em Portugal, uma como anglo-saxonização do sentido da palavra "sociólogo". Só nos últimos anos. Só à sombra dêsse comêço de anglo-saxonização de sentido de palavra até há pouco de implicações as mais majestosas, em língua portuguêsa, é que, não fôsse eu profissionalmente escritor, ousaria intitular-me sociólogo, embora, dentro das Ciências Sociais, - considerando-me principalmente antropólogo. Antropólogo em primeiro lugar; sociólogo, em segundo. Antropólogo-sociólogo de formação sistemática em Ciências Sociais, desde os estudos de Bacharelado aos do Doutorado; e não diletante.

Como fui atraído, ainda adolescente, para êsses dois tipos de estudos sociais, ao meu ver inseparáveis, de tal modo se completam? Porque, durante minha formação universitária, especializei-me nêles? Como os venho compreendendo e fundindo? E praticando? Essas perguntas me têm sido feitas com alguma indiscrição e muita insistência. Elas me obrigam a ser deselegantemente autobiográfico.

Em conferência autobiográfica na Sociedade Hans Staden, de São Paulo, comecei a responder à pergunta - "Por que se tornou sociólogo?" - por uma recordação de infância: a de que aos seis anos fugi de casa para conhecer o mundo, voltando à casa vencido pela saudade. Saudade da mãe, principalmente. Mas também do pai e dos irmãos, da casa e do próprio gato. Desde então venho repetindo essa fuga e repetindo esse regresso. Fugindo do Brasil pela atração de quanto seja diferente do Brasil e voltando ao Brasil pela sedução do familiar. De modo que minhas tentativas de estudo de temas sociais vê alternando entre essas duas atrações. Tornei-me um tanto sociólogo, por um lado, pela curiosidade em tôrno do que é social no mundo, por outro, pelo interêsse do que é social em mim próprio: na minha família, na minha casa, no meu passado.

Muito cedo fui por Meu Pai iniciado na leitura de Augusto Comte, de Taine e de Pierre Lafitte. Não que ele fôsse Positivista. Mas considerava boa disciplina intelectual para um adolescente a leitura da chamada Filosofia Positiva vizinha da Antropologia e criadora da moderna Sociologia.

Vinha eu já me inquietando, como tantos outros durante a adolescência, em tôrno de problemas das origens e do destino do Homem com outras leituras antropológicas, filosóficas e para-sociológicas em língua francesa, em língua inglêsa e em língua portuguêsa: Pascal, que antes do que qualquer outro pensador, me pôs diante dos desafios mais fundos da Antropologia Filosófica; Kant, Goethe e Nietzche, em traduções francesas; Montaigne; Swift; Darwin; Thomas Huxley; Herbert Spencer; Fustel de Coulanges; Havelock Ellis; Vives, Gracián, Ganivet, dentre os espanhóis; Oliveira Martins, dentre os portuguêses; Alberto Sampaio, Fonseca Cardoso. A leitura dêsses autores, de saber sociológico ou antropológico, em inglês, em francês, em espanhol, em português, acrescentaria, ainda estudante de bacharelado universitário, a de outros como, a de Lombroso, Ferri e Pareto, em italiano, a de Vilar, em catalão. Iniciado desde menino, por meu Pai, no estudo do latim, e logo depois, no do grego, pelo Professor Wiliam Carey Taylor êsses conhecimentos me permitiriam, mais tarde, luxos sócio-filológicos: introduzir em, língua portuguêsa neologismos como empatia, cacogenia, eutenia e tríbio.

Devo a esta, altura lamentar que me venha faltando desde então - desde a adolescência - urn conhecimento da língua alemã igual ao que desde menino me foi dado obter das línguas inglêsa e francesa. Explica-se: passei de menino a homem no período em que a língua alemã, em virtude da Primeira Grande Guerra, deixara de ter quem a ensinasse regular e sistemáticamente tanto no Brasil como nos Estados. Unidos - país, onde fiz os principais estudos superiores. Nos Estados Unidos, substitui por isto o estudo do idioma alemão, até então requerido para os cursos pós-graduados, nas grandes universidades daquele País, pelo estudo, do anglo-saxão.

Creio ser o único brasileiro que até hoje estudou anglo-saxão: língua, como se sabe, afim da alemã e mãe da inglêsa. Graças ao anglo-saxão que aprendi, pude ler Chaucer apreendendo em. quase tôda a sua plenitude o sabor ainda adstringentemente verde de sua expressão inglêsa de escritor que foi a seu modo um antropólogo. Um antropólogo pelo modo por que soube retratar nos peregrinos de Canterbury tipos dos que se chamariam hoje psicológicos, tendo precedido nessa ciência, de caracterização dos homens êsses outros psicolólogos em língua já modernamente inglêsa que foram William Shakespeare e Swift, Defoe e Dickens, Joyce e os dois Lawrence.

Também foi o estudo do anglo-saxão que me predispôs a favor das palavras curtas e contra os polissílabos solenes e eloquëntes, como tantos dos eruditamente latinos; e creio estar nesse estudo um dos motivos do que viria a ser um dos preconceitos, pelos quais mais tenho sido justamente criticado: o preconceito contra o estilo, ou a expressão, ao meu ver extremamente rococó, de Ruy Barbosa. Um Ruy Barbosa tão entusiasta de instituições inglêsas; mas tão contrário às virtudes de vigor de expressão do inglês mais castiçamente anglo-saxônico.

Por mais esnobemente que possa me vangloriar hoje de ter estudado anglo-saxão, essa singularidade não me compensa nem de leve, da deficiência enorme que tem sido para mim um conhecimento apenas superficial da língua alemã. Tão superficial que não me permitiu até hoje ler no original um Goethe e um Hegel, um Nietzsche e um Max Weber, um Herder e um Georg Simmel, um Thomas Mann e um Heidegger. Apenas arranhar pela crosta um alemão como que básico e sòmente técnico, para estudante de Antropologia e de Sociologia.

Para um indivíduo com pendores para os estudos antropológicos -os humanísticos, filosóficos e científicos, e não apenas os, técnicos e sociológicos, o conhecimento do anglo-saxão não faz as vêzes do da língua alemã. A ignorância da língua alemã representa em tal caso deficiência capital, embora as traduções inglêsas, francesas, italianas, espanholas de obras-primas na matéria supram em grande parte tal deficiência para um brasileiro que conheça essas quatro línguas. Mas só em grande parte. A deficiência existe sempre, tratando-se de uma língua moderna rival da inglêsa, da espanhola e da francesa na extraordinária ríqueza que reúne de matéria antropológica e sociológica não subsidiária porém essencial.

Ao imperialismo britânico, do qual é hoje moda dizer-se apenas mal, do mesmo modo que do imperialismo ibérico e do imperialismo francês, deve-se uma vasta literatura de interêsse antropológico e para-sociológico de observadores, europeus de povos não-europeus. O domínio imperial sôbre populações e terras não-européias, acompanhado de um afã missionário por vêzes assombroso, pelo que implicou de aproximação entre europeus e não-europeus, deu a êsses três povos um gôsto pela observação dos tipos físicos não-europeus e das formas sociológicas de cultura não-européias que os tornou particularmente afeiçoadas aos estudos se não sempre sistemáticos, pois às vêzes assistemáticos, quase sempre científicos ou para-científicos, humanísticos e filosóficos, de Antropologia e de Sociologia, explicando-se assim o esmêro de inglêses, de franceses, e até de espanhóis em traduzirem. para o inglês, para o francês e para o espanhol as grandes obras alemãs de Sociologia tipológica e de Antropologia filosófica, nas quais inglêses, franceses e espanhóis - e também portuguêses - tem encontrado complementação ideal para seus próprios e magníficos trabalhos de sociologia e de para-sociologia empíricas, em tôrno de temas exóticosç e de Antropologia descritiva de populações e tipos de homem não-europeus.

Aquela literatura sempre me encantou. Já me referi a Montaigne. Devo salientar Defoe como outro escritor que cedo despertou em mim curiosidade pelos problemas de contacto dos civilizados com os primitivos, dos homens de climas frios com as populações dos trópicos. A leitura dêles se seguiria, na minha formação, antropológica pré-sociológica, a de Taylor, a de Frazer, a de Quatrefages, a de Frobenius. Até que me foi dado inscrever-me, já como estudante sistemático de Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, em cursos universitários de Antropologia e de Sociologia e tornar-me discípulo de grandes mestres modernos dessas matérias como o antropólogo de formação germânica Franz Boas, o sociólogo tipicamente anglo-saxônico Franklin Giddings e o professor da Universidade de Oxford, Sir Alfred Zimmern, misto de helenista e de antropólogo. êsses estudos teóricos - e também os de Economia, com Seligman, e os de Direito Público, com Munro - seriam seguidos pelo contacto, segundo roteiro tragado pelo Professor Boas, com os principais museus antropológicos da Europa: o de Oxford, os de Paris, os de Berlim, o chamado Etnológico, de Lisboa - onde ainda conheci o sábio Leite Vasconcelos - o Museu Britânico. Seguidos seriam também de apresentações, por anglo-americanos meus amigos, a grandes mestres europeus, inclusive alemães, de Antropologia, de Sociologia e de Filosofia um dêles o famoso alemão de nome francês, Professor Max Dessoir, de Berlim; enquanto a outros, como o orientalista francês Clement de Grandprey, que pôs, à minha disposição seu museu particular de Versailles, quem afetuosamente me recomendou foi o ilustre brasileiro Oliveira Lima.

Cheguei à Sociologia pròpriamente dita pela Antropologia; e levado ao estudo de uma e outra creio que um tanto por disposições intimas das que se denominam "vocação"; mas também - e principalmente - pela minha condição de jovem desde nôvo inquietado por Pascal; de brasileiro de origem em parte ibérica, em parte nórdica, tocado remotamente por sangue ameríndio, desafiado a analisar-se e a reinterpretar-se pelos Gobineau e pelos Le Bom que foi encontrado antes à margem que pròpriamente dentro da ciência antropológica no estrangeiro, em universidades quer do tipo provincial, quer do tipo cosmopolita, em que o indivíduo, no contacto com indivíduos de várias procedências, deixa de ser exclusivamente indivíduo para identificar-se com a sua gente brasileira, nem sòmente com a cultura luso-brasileira, em particular, porém, - como descendente que sou, tanto de espanhóis como de portugueses há séculos integrados nos trópicos mas sempre ibéricos nos principais motivos da vida - com a gente e com a cultura ibéricas, em geral; e, como tal, contente, desde adolescente, de poder ler, como não era possível a um estudante de língua inglêsa ou francesa ou alemã, um Cervantes e um Luís Vives, um Gracián e um Victoria, um Ramôn Lulio e um San Juan de la Cruz, um Frei Luís de León e uma Santa Tereza, um Lope de Vega e um Calderón, como se lesse obras-primas na minha própria língua materna. Pois uma das vantagens do brasileiro que lê espanhol é esta: ter duas línguas literárias maternas, a portuguêsa e a espanhola, em vez de uma só, e poder sentir-se por suas ligações européias de origem, tão espanhol quanto português.

Durante os dias mais plásticos de minha formação universitária, nos Estados Unidos e na. Europa, - em Oxford e em Paris, além de frequentar museus antropológicos, fui a conferências e ouvi grandes mestres inglêses e da Sorbonne - tôdas essas influências atuaram no sentido de favorecer em meus estudos sociológicos e para-sociológicos tendências para a introspecção, para a auto-análise e para a andlise empática - empatia: palavra que me gabo de ter introduzido na língua portuguêsa - da gente com a qual passara a sentir-me tão particularmente identificado que, além do Brasil miscigenado e do Portugal semitizado pelo mouro e pelo judeu, também a Espanha, em grande parte moçárabe tão árabe como européia - começou a existir para minha curiosidade antropológica, e sociológica, como parte intensa do meu próprio ser; e susceptível de introspecção e não apenas de observação. Nisto segui o espanhol Vives: o Vives que Dilthey consideraria o principal fundador da Antropologia moderna.

Ao lado dos autores, científicos e técnicos de estudos sistemáticos de Antropologia e de Sociologia, li, como raros terão lido tanto, desde os meus primeiros dias de universitário, um gênero de literatura para-científica ainda hoje considerado mais curioso que valioso por certos caturras das Ciências do Homem: as relações de viagens da época em que se verificaram os primeiros contactos, sociológicamente significativos, entre europeus e não-europeus, isto é, do século XVI ao século XIX- Lendo-os é que comecei a considerar na literatura em língua Portuguêsa um Fernão Mendes Pinto acima de Luís de Camões, um Garcia de Orta acima do Padre Manuel Bernardes, um Gabriel Soares de Souza acima de um Frei Luís de Souza, um Antonil acima de um Bento Teixeira Pinto, um Frei Vicente do Salvador acima de um Rocha Pita. Lendo-os é que me fui defrontando com quase ignorados depoimentos de valor antropológico e sociológico sôbre o Brasil ameríndio e sôbre os primeiros contactos, no Brasil, de europeus com ameríndios e com áfricanos, em livros tidos apenas por pitorescos mas na verdade utilíssimos ao antropólogo moderno. O de Hans Staden, por exemplo. O de Jean de Lery. O do próprio André Thevet. Foi como se tivesse descoberto o mundo de conhecimentos que eu mais buscava para completar o saber teórico que vinha adquirindo de antropólogos, sociólogos e filósofos sistemáticos. Através dêsses livros de viajantes, pude sentir nas suas próprias raízes e na sua mais viva realidade com relação ao nosso país, problemas que vêm até o Brasil de hoje: problemas vindos das primeiras interpenetrações euro-ameríndias e euro-áfricanas: aquelas que nos dariam - comecei a verificar apoiado na mais idônea ciência antropológica moderna, e na sociologia mais ligada a essa antropologia - não só desvantagens como vantagens de caráter sócio-cultural.

Atingido este ponto, estava definida, para mim mesmo, não só uma das minhas vocações, como até uma das minhas missões: a de procurar fazer que os conhecimentos antropológicos e sociológicos por mim adquiridos, quer através de cursos científicos, quer através de cursos humanísticos, em alguns dos centros dos Estados Unidos e da Europa mais adiantados nessas especialidades, se tornassem o lastro ou a base de tôda uma, reinterpretação sistemática das próprias origens brasileiras; de revalorização do desenvolvimento pré-nacional e nacional do Brasil; de reorientação, do nosso próprio destino. Que me seja desculpado o modo ostensivamente autobiográfico e inevitàvelmente imodesto por que recordo tais fatos. Devo lembrar que desenvolvo aqui um tema que me foi quase impôsto pela Sociedade Hans Staden de São Paulo. Não verso assunto que eu próprio escolhesse, como se, pretendendo ser no ensaio antropológico ou sociológico, especializado, na interpretação do Brasil, o que José de Alencar foi no romance, especializado nessa mesma interpretação, desse modo pudesse me dar ao luxo de tragar uma espécie de apologia pro vita sua, semelhante ao "como e porque sou romancista" do grande cearense.

Não fui, aliás, o primeiro brasileiro que, estudante em universidades estrangeiras, se sentisse atraído, por fôrça, em grande parte, dessas circunstâncias, e favorecido, em grande parte, pela distância do seu próprio pais - para o estudo antropológico e sociológico do Brasil. Foi o caso, em plano bem mais alto, do grande paulista europeizado José Bonifácio de Andrada e Silva: aquêle a quem o Brasil deve sua independência política, pacífica e quase cientìficamente realizada. Foi o caso, do também paulista europeizado Luís Pereira Barreto discípulo, na Bélgica de sociólogos Positivistas e introdutor, no Brasil, de todo um grupo de novos conhecimentos, de novas curiosidades e de novas técnicas de estudo sociológico do próprio Brasil. Foi o caso do pernambucano Manoel de Oliveira Lima, discípulo em Lisboa do sociólogo de tendências também Positivistas, Teófilo Braga, e que, enriquecido por esses e outros conhecimentos, pôde escrever essa obra-prima de história social e de biografia sociológica, que é Dom João VI no Brasil e estabelecer todo um confronto sociológico entre a formação da América Latina e a da América Anglo-Saxônica. O caso, ainda, de outro pernambucano, Joaquim Nabuco, a quem a distância do Brasil deu, sendo êle ainda jovem, perspectiva sociológica para a compreensão de umas tantas situações brasileiras, em páginas que se incluem entre as mais notáveis dentre as escritas por brasileiro. E, ainda, o caso de Alfredo de Carvalho: semelhante a Oliveira Lima pela sua formação no estrangeiro e pelas tendências para-sociológicas dos seus estudos de história brasileira. E mais recentemente, o caso de Delgado de Carvalho.

Do mesmo modo, juntei, quando jovem, tais tendências e as especìficamente sociológicas, a estudo do passado social do brasileiro, em particular, e das gentes hispano tropicais em geral: as fixadas naquelas áreas onde vêm se desenvolvendo populações e culturas mareadas por um como vigor híbrido que nos faz acreditar em. significativas possibilidades, senão eugênicas, eutênicas, do seu futuro. Significativas principalmente neste ponto: em se constituirem em desmentido evidente a dois grandes mitos. Um, o de ser o trópico espaço, inadequado às formas mais altas de civilização, - as equivalentes da civilização, européia ou da civilização chinesa. O outro, o de ser o, mestiço de europeu com não-europeu - o caso de parte considerável da população brasileira - incapaz de preservar o essencial das formas mais altas de civilização recebidas de europeus e de orientais e de desenvolver dinâmica e criadoramente o essencial dessas formas, fazendo-as desabrochar em novas expressões de cultura híbrida, avigoradas pelo que há de vitalidade rústica e até de virgindade verde e jovem, em energias ameríndias e áfricanas aqui unidas às européias e orientais.

Venho sendo, como aprendiz constante de sociólogo, mais cultor de uma sociologia interpretativa - interpretativa e quanto possível sociologia em profundidade - de situações, que de uma sociologia abstrata e alheia ao específico, de tais situações, por um lado, ou, por outro lado, de uma sociologia apenas estatística e sòmente quantitativa, como a que vem sendo, profissionalizada em certos meios como a verdadeira sociologia: a outra - é a orientação a que se inclina o Professor Ralph Thomlinson no seu recente Sociological Concepts and Research (N. Y. 1965) - seria literatura ou filosofia. Para êsse esfôrço interpretativo e sob critério situacional, venho servindo-me de matéria de preferência brasileira, mas não exclusivamente brasileira e sim amplamente hispanotropical e até eurotropical, em geral; e recorrendo a três fontes principais: à sociologia genética por vêzes alongada em sociologia histórica; à sociologia ecológica - no caso, ecologia tropical - partindo das antigas áreas brasileiras do açúcar, e visando análises e interpretações mais em profundidade histórico-ecológica, do que em simples extensão ecológica; sociologia psicológica, por vêzes especializada em sociologia das relações, de sexo à base, ou não, das de família, que tem condicionado alguns dos mais expressivos - sociológicamente mais expressivos - contactos de europeus com não-europeus: principalmente em espaços tropicais particularmente favoráveis à liberdade e à variedade de contatos sexuais entre indivíduos de etnias e de culturas diferentes.

Não devo pretender ter, nas análises e tentativas de interpretação de tais fenômenos, realizado sempre obra pioneira. De modo algum. Vários antropólogos, os historiadores, os sociólogos, os geógrafos que já os haviam considerado.

Eu, porém, me aventurei a ir além, dêles no estudo antropológico de certas origens e de certas projeções sociais. No estudo íntimo de uns tantos desenvolvimentos psicoculturais. Daí o meu ensaio Casa-Grande & Senzala ter impressionado, ao aparecer, os então ortodoxos da Sociologia praticada nos Estados Unidos como trabalho herético, embora ao critico de The Yale Review que se ocupou do assunto, de modo desassombrado, parecesse imediatamente que a formação anglo-americana precisava de sociólogo que a analisasse no tempo tanto quanto no espaço, como se procurara fazer no livro brasileiro; e o critico marxista cubano Juan Antonio Portuondo escrevesse que era preciso aplicar-se à análise da América Espanhola o conjunto de métodos ao seu ver aplicado pioneiramente, com relação a qualquer sociedade moderna, pelo autor daquele ensaio brasileiro; e - ainda mais - Roland Barthes - que é hoje, talvez, o maior dos criticos franceses de idéias - apontasse o livro brasileiro como modêlo para uma interpretação histórico-sociológica que ainda não fôra feita da França: da estudadíssima França.

Novamente peço que me sejam desculpadas tais referências aos meus próprios trabalhos. Necessito, porém, de precisar o fato de que não venho, de modo algum, como antropólogo-sociólogo, aplicando ao Brasil teorias, f6rinulas e métodos já consagrados ou estabelecidos noutros países; e sim procurando retirar dessas teorias e dêsses métodos sugestões para novas tentativas de relacionamento, de teorias - inclusive de teorias desenvolvidas por sociólogos europeus e anglo-americanos - com situações condicionadas pelo que me vem, parecendo ser uma realidade especificamente brasileira dentro de uma mais ampla em sua especificidade: a hispanotropical. Especificamente brasileiro no tempo e especificamente brasileira no espaço sem que essa especificidade exclua afinidade com várias outras situações: principalmente com as hispano-tropicais. Através da identificação dessas afinidades é que a sociologia caminhará para a sua autêntica universalidade. Nunca - penso eu - seguindo-se passivamente num país o que vem resultando válido noutro país.

Foi dentro dêsse critério, procurando ousadamente lançar sugestões para uma nova interpretação da formação brasileira, que me empenhei em considerar sociológicamente o negro áfricano, tal como êle se apresenta na formação, na sociedade e na cultura brasileiras. Isto é, menos sob o aspecto de um tipo étnico - o tipo étnico que haviam principalmente considerado nêle Nana Rodrigues e, até certo ponto, Sylvio Romero e João Ribeiro e entre os modernos, Artur Ramos - que sob a forma de um negro situado ou condicionado: escravo, malungo, mucama. Patriarcalizado. Abrasileirado. Negro, sim, mas principalmente brasileiro. Adjetivamente negro; substantivamente brasileiro. Membro de um todo sócio-cultural sôbre o qual agiu e influiu em vez de ter sido apenas animal de carga ou máquina de trabalho, dando o caráter antes patriarcal que industrial que venho procurando, mostrar ter sido característico do sistema escravocrático no Brasil. Participante de uma sociedade e de uma economia patriarcais. Contribuinte para uma nova cultura. Dêsse critério apenas se aproximara vagamente o hostoriador Joaquim Nabuco; e, dentre os modernos, o antropólogo Roquette Pinto. Mas sem sistemática sociológica.

Quando organizei no Brasil o Primeiro Congresso de Estudos Afro-Brasileiros fui considerado por muitos bempensantes da época, simples e lamentável agitador. Exagerado negrófilo com intenções talvez demagógicas e até comunistas. Ilustre crítico literário e acatado sociólogo que se tornara um, dos campeões mais veementes da ortodoxia Católica no nosso país, foi além; e, em artigo de grande repercussão nacional, chegou a recomendar-me e aos meus colaboradores às atenções da polícia. Era desnecessário. Já a polícia, por alguns dos seus sherloques fantasiados de macumbeiros, me vigiava os contactos, a seu ver, demasiadamente íntimos, com xangôs do Recife e candomblés da Bahia. Com efeito, o babalorixá, formado em Lagos, na áfrica, Adão, do Recife, me apresentara ao babalorixá Martiniano, da Bahia - o único que Adão considerava da sua mesma estirpe sacerdotal - como pessôa que a policia vinha acompanhando por ser - dizia êle - "amigo verdadeiro dos xangôs" e querer dar aos verdadeiros xangôs o direito de se reunirem livremente com seitas religiosas. Já eu almogava, jantava e dormia em casa do babalorixá Adão como se fôsse pessoa de sua casa. Procurava surpreendê-lo e aos seus adeptos em tôda a sua intimidade cotidiana, sem trair a sua confiança e a sua amizade. Juntava material para escrever-lhe a biografia: uma biogratia sociológica. Isto apesar do atual Senador Afonso Arinos de Melo Franco ter escrito num interessante mas, às vêzes, leviano livro de memórias que, tendo visitado Pernambuco naqueles dias, - onde foi hóspede, quase o tempo todo, ora de urn palacete de ilustre engenheiro carioca, em missão naquela parte do Brasil, ora de um interventor federal reconhecidamente arbitrário, sendo o mesmo Sr. Afonso Arinos um melindroso liberal-democrata - soubera viver eu - segundo êle parece supor, naquela época, literalmente "socialista", o que é inexato - a bebericar água de côco com. uisque, como qualquer elegante burguês; e a apenas contemplar de longe, com olhos de diletante, a negralhada da terra. Sugestões lamentàvelmente levianas. O que eu mais bebericava então era a brasileiríssima cachaça, na intimidade quase cotidiana de amigos e de amigas, da plebe mais plebéia do Recife. Pessoas quase tôdas de côr, nas quais me habituei a admirar uma lealdade, uma integridade, uma firmeza na amizade, que contrastam. com. as hipocrisias de muitos dos burgueses elegantes e dos intelectuais sofisticados do Rio e de São Paulo, do Recife e da Bahia, também meus conhecidos; - e meus convivas em tôrno de uisques e de gins finos.

Como eterno aprendiz de Sociologia - e é já notório o meu repúdio tanto a cátedras permanentes de professor como ao título de mestre - tenho procurado viver intensamente, empàticamente, profundamente, os meus assuntos, vivendo tanto entre a plebe - e entre a plebe não como turista mas comendo as suas comidas mais grosseiras e, quando jovem, amando suas mulheres mais rústicas, dormindo nos seus mocambos, dançando suas danças, bebendo suas cachaças - como entre elites: elites mundanas e elites intelectuais. No Rio, cheguei a ser íntimo de Dona Laurinda Santos Lôbo e frequentador tanto do seu salão de Santa Teresa como da sua casa de Petrópolis, onde conheci os principais políticos, embaixadores, diplomatas, escritores, artistas, do fim da Primeira República brasileira. Frequentador fui, também, no Rio da mesma época, do velho saldo da Baronesa de Bonfim. Hóspede, na Europa, de castelos e de nobres como, na França, os Clement de Grandprey, de Versalhes; colega, em Oxford, quando ainda adolescente, de alguns dos principais futuros lordes da Inglaterra; companheiro, em Paris, ora de sindicalistas anarquistas, ora de "camelots du roi"; frequentador de cafés de artistas da "rive-gauche" de Paris e da Greenwich Village em Nova York; confidente de homossexuais inveterados e de assassinos, um dêles, no Recife, autor de várias mortes; fumador de maconha, com barcaceiros do antigo Cais do Colégio, também do Recife.

Mas sempre opondo a essas aventuras gregárias, rasgadamente heterogêneas, o corretivo de períodos intensos de absoluta solidão. Solidão para o estudo, Solidão para a meditação. Sem essa solidão eu não existiria como arremêdo de sociólogo como sou; não teria levantado as hipóteses de interpretação que venho levantando para o possível esclarecimento do material reunido, por mim próprio, nos meus dias de ativo participante da vida dos meus compatriotas e dos meus contemporâneos de várias situações sociais e de material semelhante ao meu, reunido por outros pesquisadores; não teria chegado às generalizações a que tenho ùltimaniente chegado, depois de tanto ter hesitado em concluir e em generalizar.

Sem a dissolução de mim mesmo nos outros, a que também me tenho aventurado, com o risco de perder-me; sem a aventura de procurar cumprir de certo modo as palavras do Evangelho - a de perder o indivíduo a vida, para ganhá-la, perdendo-a - não creio que tivesse conseguido realizar sequer o pouco que tenho de alguma maneira realizado como aprendiz de sociologia camoneanamente empenhado em reunir saberes porventura feitos mais de experiêneia do que de leitura. Experiênciais. Existenciais. Empáticos. E às vêzes - raras vêzes - polêmicos. O que tem sido inevitável tratando-se de autor de obra que surgiu combatida, agredida violentamente, com seu autor de tal modo alvejado pelos convencionais que chegou a ser o motivo principal de publicação de uma revista quase tôda de insultos, à sua pessoa. Campanhas a que venho sobrevivendo. Tenho sido assim, como sociólogo, como antropólogo, como escritor, urn intelectual à maneira hispânica - pessoal e até, sendo preciso, polêmico, - e não um homern de letras à moda francesa ou à maneira inglêsa.

Compreende-se que haja quem me considere apenas sociógrafo. Sociógrafo, sim, sociólogo, não. Há quem vá além e reconheça irônicamente em mim um saciólogo: nunca um sociólogo.

Explica-se: não há hoje um conceito absoluto do que seja sociólogo. Há muitas e contraditórias concepções do que seja sociologia, e do que seja sociólogo. Para uns, sociólogo é apenas, aquêle que faz sociologia matemática ou estatística. Para outros, o teorizador do social. Uma terceira corrente de opinião entende por verdadeiro sociólogo o individuo empenhado em sociologia prática: análises estatísticas, em inquéritos políticos, em serviço social até "Sociology is what sociologists teach" - é a conclusão a que chegaram há alguns anos os Professôres, Raymond Kennedy e Ruby Jo Kennedy nos próprios Estados Unidos.

No meio de tamanha confusão, explica-se que, para alguns, eu não seja, nem tenha direito a pretender ser sociólogo. Mas a êsses pode-se muito bem perguntar: que é sociólogo? Pois não se conhece até agora resposta exata a essa pergunta. Daí, a despeito do seu pendor cientificista, o Professor Ralph Thomlinson admitir em. seu recente Sociological Concepts and Research "Presence of a scientific approach does not necessarily eliminate other approachs to the field: indeed sociology has benefited greatly from nonscientific thinking and appears destined to continue to do so for many years". Mesmo porque o que é científico em sociologia vem variando talvez mais do que o que não é científico, mas humanfstico.

Considero-me, é certo, antes escritor do que sociólogo e mesmo do que antropólogo. Minha, formação universitária foi sistemáticamente, em seu período de estudos pós-graduados, a do cientista social; e é essa formação sistemática que tem estado a serviço da minha vocação maior, que já era então, e vem sendo, na vida prática, e profissionalmente, a de escritor, sem que por êste motivo repudie, nos momentos justos, aquêles meus estudos sistemáticos e os graus universitários que a êles correspondem. Não só tem estado a serviço dessa vocação aquela minha formação como o fato inteiro de, a despeito de vir recusando sempre cátedras permanentes de Sociologia, de Antropologia e de Filosofia, em universidades do país e do estrangeiro, vir procurando conservar-me, quanto possível, atual e de todo em, dia, com os desenvolvimentos nos estudos científica e filosòficamente sociais. Não poderia ser de outro modo, dadas as minhas responsabilidades de membro, quer do Conselho Diretor dos Cahiers Internationaux de Sociologie, ao lado de mestres que muito acato, quer do Conselho Diretor de Diogène, revista de Filosofia e de Ci6ncias do Homem publicada em Paris e hoje editada em seis línguas; e também de membro honorário e perpétuo da Sociedade Americana de Sociologia, com direito a participação em tôdas as suas atividades e constantemente solicitado a essa participação efetiva. Semelhante situação parece explicar ter sido o escolhido, para minha grande surprêsa, pela Organização das Nações Unidas, para o consultor internacional, como antropólogo e sociólogo, que orientasse essa organização a respeito de problemas de relações de raças e de culturas na União Sul-áfricana; ter sido escolhido um. dos quatro conferencistas principais da Reunião Municipal de Sociólogos de Amsterdam, em 1956, ao lado de Von Wiese, Morris Ginsberg e Georges Davy; e ter sido considerado, para meu espanto, objeto de todo um seminário, no Castelo de Cerisy, na França, também em 1956, no qual se analisou principalmente minha atividade de sociólogo e de antropólogo, embora a de escritor, a de pensador e a de filósofo, fôsssem também analisadas pelos participantes do seminário Gouhier, Gurvitch, Bastide, Bourdon e outros mestres da Sorbonne, com aquela argúcia que os franceses não perdem no trato de assuntos intelectuais.

Quem assim reconhece sua condição híbrida de talvez escritor e de possível sociólogo, considerando-se principalmente escritor, por ser esta a condição que vocacional e profissionalmente o define, mas de modo algum repudiando sua formação sistemática de cientista social, não se julga prejudicado pelo fato de escrever - segundo alguns - "literàriamente", quando se ocupa. de assuntos sociológicos e antropológicos. Ou pelo fato - para alguns ainda mais grave - de admitir em sua Sociologia ou em sua Antropologia o elemento humanístico ou filosófico, como complementar, em certas áreas de indagação, do científico. E tendência hoje vitoriosa; e representada não só por mestres como Simmel, Ruth Benedict e Robert Redfield como por jovens cientistas sociais do valor de um Robert Spencer e de um Jean Duvignaud.

Numa e noutra atitude me encontro, aliás, em companhia ilustre. De Simmel - um dos maiores sociólogos alemães - muito se disse que escrevia literàriamente; e o mesmo se diz hoje do francês Roger Caillois, do inglês Julian Huxley, do anglo-americano Lewis Mumford, do espanhol Julíán Marías, que são, entretanto, inevitàvelmente importantes pelos aspectos especìficamente sociológicos de sua atividade intelectual.

Quanto a escrever literàriamente sôbre assuntos antropológicos e sociológicos, não parece ser pecado nefando sendo aos olhos dos que, não podendo correr o mesmo risco - o de serem a um tempo cientistas e escritores - glorificam, num evidente esfôrço de compenção à própria impotência literária, o cientista que se exprime cacogràficarnente; e exaltam nêle o tipo ortodoxo ou a expressão única de cientista. No que parece haver certo excesso de cientificismo disfarçado em zêlo por Ciência com C maiúsculo: a mesma a que repugnaria - segundo tais cientificistas - qualquer amor, mesmo crítico, da parte de um cientista social, à gente ou à terra por êle considerada pátria; e cujo estudo importe naquela preocupação do analista. corn essa terra e com essa gente que entre os russos de outrora chegou a ser quase uma mística, sem daí ter resultado uma sociologia ou para-sociologia que por ser animada dêsse amor deve ser hoje considerada essencialmente anti-científica. O caso, entre nós, brasileiros, de obras sociológicas, ou para-sociológicas, como a de José Bonifácio, a de Joaquim Nabuco, a de Euclydes da Cunha, a de' Jaoddoe Ribeiro, a de Sylvio Romero, a de Oliveira Lima, a de Alberto Torres, a de Oliveira Viana, a de Pontes de Miranda, a de Gilberto Amado.





Como e porque sou sociólogo. II


"The great classical sociologists from Marx to Veblen, Weber, Simmel, Durkheim, and Mannheim were inveterate sociological poets. While they each gave system its due, they each responded to the demonic quality of history". Maurice R. Stein




Se sou sociólogo como até certo ponto admiti ser - sou antes um visual que um abstrato na minha sociologia. Em têrmos tècnicamente pictóricos, antes um expressionista que um impressionista, embora os dois modos de ver se completem quase sempre em minha modesta visão dos homens e das coisas, da mesma maneira que nela, literalmente, se completam, conforme constatação em laboratório de um especialista ilustre, o ver bern de perto por um dos olhos e o ver bem de longe, pelo outro. Os dois conservam-se, ainda segundo testes de laboratório, excepcionalmente jovens com relação ao velho que já sou e no desempenho de funções assirn diversas: a de ver bem de longe e a de ver bem de perto. São funções diversas porém complementares - a de ver bem o distante e a de ver bem o imediato - ajudando-se sempre uma à outra, em quem é assim duplo na visão. Se aos sessenta e tal anos, não preciso de usar óculos nem para ler, nem para escrever, nem simplesmente para ver, é que a visão dupla pode resistir melhor ao tempo que a singular. Talvez precise breve de usar monóculo - como outrora meu Pai - para urn melhor ajustamento, entre as duas visões; e evitando, o que os óculos sugerem de acadêmico ou de professoral, embora correndo o risco de parecer esnobe ou arcaicamente anglomaníaco.

A aversão a quanto seja convencionalmente acadêmico, pedantemente professoral e ostensivamente doutoral tem sido uma das minhas constantes; e, talvez, para tal preconceito - se é que chega a ser preconceito tem concorrido o excepcional vigor da visão que me vem. permitindo um modo tão natural e direto de ver, em contraste com os que só enxergam o quer eu vejo a olho nu, através de óculos e de pince-nez. Tenho a impressão - aqui já entra o preconceito - de que os que só vêem. ou só tem visto o mundo através de um pince-nez - Ruy Barbosa, Bilac, Martins Júnior, dentre brasileiros ilustres do passado - são ou têm sido intelectuais apenas de gabinete; livrescos; prejudicados na sua visão direta dos outros homens e das coisas por deficiências nada insignificantes de poder visual. Não importa, porém, minha aversão ao academismo, mais hirto, em preconceito sistemático contra as academias e contra as cátedras, em. geral: academias, e cátedras cuja necessidade sou o primeiro, a reconhecer. Apenas reconheço, também que à saúde intelectual de um povo como o brasileiro, convém a presenga de indivíduos que não sendo anti-acadêmicos, sejam inacadêmicos; e não sendo adstritos a cátedras ou sequer a instituições oficiais ou particulares de ensino superior, pertençam, ainda assim, à familia universitária, como certos tios solteirões e nômades pertencem a familias estabilizadas e sedentárias.

A esta altura devo lembrar mais uma vez que, ao contrário do que escreveu há pouco e levianamente em ilustre jornal de Buenos Aires, um seu correspondente do Rio de Janeiro, orgulho-me da toga universitária que em mim chega a ser, como em vários outros, uma segunda pele, tão longa e sistemática foi minha formação universitária no estrangeiro e em universidades idôneas, através de estudos, despreocupados de graus ou títulos de bacharelado, mestrado, e doutorado; tão freqüentes têm continuando a ser, depois de tôda essa formação severamente acadêmica, meus contactos, como professor antes extraordinário do que ordinário - e de passagem devo dizer preferir ao tratamento de professor, tão majestoso aos ouvidos europeus, o simples, de doutor, à moda brasileira - de universidades, quer nacionais quer estrangeiras. As matérias que tenho profesado extraordináriamente nessas universidades - recusando sempre cátedras e até convites para longas permanências nesta ou naquela universidade - têm sido, quase sempre, menos a Sociologia que a Antropologia, a Filosofia e a História Social; e também, ao contrário do que de ordinário se supõe entre os brasileiros, os convites, que me vêm sendo feitos quase sempre têm sido para que discorra pura e simplesmente sôbre aquelas matérias: eu é que sempre procuro introduzir na discussao delas exemplos sendo especìficamente brasileiros, hispânicos ou ibéricos; e ùltimamente hispano - ou lusotropicais. Mas não entrarei aqui na consideração da sistemática tropicológica, hispanotropicológica e lusotropicológica que venho propondo, em trabalhos recentes, a tropicalistas dispersos; a estudiosos assistemáticos dos problemas de relações de europeus com não-europeus: de brancos com povos de côr. E que é uma sistemática de caráter ecológico-social já acolhida em enciclopédias idôneas, comentada favorávelmente em revistas autorizadas, aprovada por conclaves de cientistas ilustres. Sua "originalidade" e suas "possibilidades" foram há pouco destacadas pelo Osservatore Romano num artigo mais honroso para a Antropologia filosófica e as sociologias de Cultura e de Hist6ria cultivadas no Brasil que simplesmente, para o autor da teoria. Teoria da qual, entretanto, se tem sussurrado, entre certos intelectuais brasileiros e entre alguns portuguêses ser "idéia que já estava de todo no ar"; e apenas apresentada como inovação pela audácia de quem criou os neologismos Tropicologia, Hispanotropicologia e Lusotropicologia.

Repito que não entrarei aqui na consideração de tal assunto. É tema para trabalho à parte. Nestas notas me limitarei a recordar que, ao aparecer, no Brasil, o meu primeiro livro, e êste de caráter sociológico - embora com pretensões também a obra de literatura muito se disse, em alguns meios, tratar-se de obra anti-brasileira, anti-nacional, anti-religiosa, anti-Católica.

Que houvese nela alguma coisa de vulcânicamente anárquico, concordo. Mais: alguma coisa de devastador, de destruidor, de violento, de rebelde, de contrário ao estabelecido, ao aceito, ao consagrado. Alguma coisa - dentro dos seus limites, é claro - de picassiano, no sentido de ter procurado queimar, com relação ao Brasil e à sua civilização luso-cristã, muito do que se vinha adorando; e de redescobrir para valorizar muito do que se vinha senão sempre queimando - literalmente queimando, como no caso do queima, logo após o 13 de maio, de papéis relativos à escravidão: crime de que não, é fácil de separar-se o nome do insigne Ruy Barbosa - escondendo.

Foi aquêle livro, um esfôrço, grande demais - admito - para ser realizado por um só indivíduo - e daí suas deficiências - no sentido dêsse redescobrimento, às vêzes violentamente indiscreto, de elementos negados ou ocultados, da formação étnica e social de um povo moderno; urn esfôrgo, repita-se, dentro dos seus limites, com alguma coisa de picassiano, no seu afã de desfazer para refazer; de combinar de modo nôvo elementos convencionalmente hierarquizados; de reconstituir, para procurar articular o passado reconstituído com o presente e até com o futuro, tentando libertar presente e futuro da projeção sôbre êles de um estreito passado; de criar para essas interrelações nunca dantes tentadas uma nova dimensão.

Devo, a esta altura procurar esclarecer porque em. minhas tentativas de interpretação sociológica da formação e do ethos brasileiros, comecei por uma simplificação aparentemente arbitrária: a de considerar o Brasil não só colonial, em particular, como patriarcal, em geral, expressão, com as evidentes variantes regionais, de sua mais antiga estabilização agrária: a que se verificou na parte setentrional do país, estendendo-se da Bahia ao Maranhão e tendo em Pernambuco o seu primeiro reduto de sistema familial de economia e de organização social e o Rio de Janeiro como sub-região sociológica desgarrada do maciço setentrional apenas geográficamente. As conclusões de análises sociológicas são tôdas no sentido de ter se verificado essa estabilização desde o século XVI, simultâneamente com o nomadismo bandeirante desdobrado no mineiro. Só no século XVIII se verificaria uma estabilização mineira, em tôrno tanto de cidades episcopais como de fazendas patriarcais; e só no comêço do século XIX se verificaria uma estabi lização paulista de estilo agrário. A essas duas estabilizações mais recentes, sob vários aspectos substanciais, distintas da primeira, se comunicaram formas familiais e patriarcais de convivência quer hierárquica, quer democrática, desenvolvidas naquela região mais antiga de estabilização agrária e patriarcal.

Outra simplificação, esta simbólica, a que recorri de início nos mesmos estudos foi a que se manifestou na expressão "casa-grande & senzala" para designar o complexo, ao meu ver, mais característico, da formação patriarcal e escravocrática do Brasil: do Brasil inteiro e não apenas de um dos Brasis. Seguiu-se a expressão, também simbólica, "sobrados e mucambos" para caracterizar a antítese em que, desde o século XVIII se vem intensificando mais nuns Brasis do que noutros, o que havia de tendências de conflito entre extremos, a despeito de pendores para acomodação entre os mesmos, dentro daquele complexo colonial prolongado em várias sub-regiões em complexo nacional. E mais recentemente, intitulei nôvo ensaio, na mesma série de estudos, de "Ordem e Progresso", procurando sugerir as possibilidades de sintese que se vêm deixando surpreender na fase já republicana do desenvolvimento brasileiro, através de maior interpenetração das várias culturas e das várias etnias que desde o comêço do século XIX concorrem conjuntamente - as ibéricas, as ameríndias e as áfricanas, - para a atual sociedade e para a atual cultura brasileiras. Creio que em nenhum dos três casos a tentativa de simplificação simbólica, a despeito - admito de geométrica - espécie de cubismo hitórico-sociológico - sôbre que se têm realizado aquêles estudos, implicou em simplismo ou em negação da complexidade da matéria considerada em dimensão audaciosamente nova e sob perspectiva também atrevidamente nova.

Uma caracterização pejorativa que se tentou já fazer do meu modo de ser sociólogo é a de romântico. "Sociólogo romântico", chegou a dizer do coitado de mim o Professor Artur Ramos que nunca me perdoou a crítica que Ihe fiz, por dever de ofício - organizava-se uma universidade no Rio de Janeiro e eu concordara em chefiar o seu Departamento de Antropologia, Psicologia Social e Sociologia - de pretender apresentar como programa universitário de Psicologia Social simples programa de Psicanálise pouco mais do que clínico. A despeito de um mestre do porte de Roquette Pinto ter saudado o primeiro dos meus trabalhos de caráter sociológico publicado em forma de livro, como clássico, - ou talvez por isto mesmo - Ramos e outros oficiais do mesmo ofício procuraram durante algum tempo caricaturar-me como um desvairado romântico em literatura sociológica ou antropológica.

A caracterização pura e simples de "romântico" não me ofende; ao contrário, agrada-me. E com Pio Baroja, mestre no assunto, não a considero incompatível com a de realista; nem mesmo - acrescentarei a Baroja - com a de clássico, a não ser que se pretenda fazer o clássico coincidir com o aristotélicamente ordenado. Sempre me inclinei a certa desordem na apresentação, da matéria sociológica ou antropológica que tenho reunido e procurado interpretar em livros, como que instintivamente certo de que a muita ordem é, nos livros que lidem com a chamada natureza humana, inimiga da vida: a vida que procuro com o maior afã conservar nos mesmos livros. Daí alguns críticos irem ao extremo de me considerarem. por vêzes "romanesco": outra caracterização que não me desagrada de todo, sabido como é que entre o método com que um antropólogo-sociólogo ou um sociólogo-historiador da espécie de Max Weber, de Dilthey, de Malinowski, de Margaret Mead ou de Trevelyan lida com seus objetos de estudo e o do romancista do tipo de Defoe, Proust, de Joyce (até Ulysses) de Tolstoi, de Valle Inclan, de Unamuno, de Machado de Assis - o que se especializa em romances romanescamente biográficos ou em biografias em profundidade há vários pontos de coincidência: precisamente aquêles que importam em acrescentar o antropólogo ou o historiador-sociólogo quase tanto quanto o romancista, alguma coisa de empático - de imaginativamente empático - às suas tentativas de compreensão ou apreensão da realidade por êles considerada, umas, tentativas - as do antropólogo-sociólogo - condicionadas pelo conhecimento objetivo dessa própria realidade nas áreas alcançadas, ou susceptíveis de ser alcançadas, por êsse conhecimento, outras, pela verossimilhança dentro da qual se tem que necessàriamente mover o romancista daquele tipo. êsse modo de conhecimento, alguns o têm chamado de "psicológico", outros, de "poético", pelo que há nêle de criação, no sentido germânico, da parte de quem assim procura reconstruir uma realidade e interpretá-la. Foi êste um dos temas versados no seminário em tôrno dos meus trabalhos que em. 1956 se realizou no Castelo de Cerisy, na França, por iniciativa do Professor Gouhier, de Filosofia, da Sorbonne, com. a presença de outros mestres da Universidade de Paris e de vários outros pensadores e cientistas sociais, tendo havido concordância entre os participantes quanto à autenticidade ou legitimidade de um conhecimento poético nos estudos sociais, que suprisse o conhecimento objetivo, em áreas impossíveis de ser alcançadas por êsse tipo de conhecimento.

"Si se quiere hablar, pues, de filosofia actual, hay que hablar de literatura", escreve Julíán Marías num dos seus sugestivos ensaios - precisamente o que se ocupa de "la novela como método de conocimiento"; e pensando, sem dúvida, no fato de filósofos sistemáticos como George Santayana e Bertrand Russell terem recorrido no fim da vida, tanto quanto Unamuno a vida inteira, à literatura de ficção, para exprimirem mais a gôsto certos aspectos da sua filosofia; e fazendo da literatura, não uma atividade independente da sua filosofia, mas uma forma de expressão "en estrecha conexión con ella". Pode-se dizer quase o mesmo da moderna ciência social que, em páginas como as melhores de Margaret Mead e de Claude Levy Strauss - adquire sabor literário de romance sem perder sua autenticidade antropológica ou sua virtude científica, tendo sido os dois, neste particular, antecipados magnificamente por Lawrence da Arábia. Se é certo do romancista de certo tipo que se utiliza de um saber que não é - como adverte Marías - "riguroso conocimiento conceptual, pero no por eso menos efectivo", podendo tornar-se êsse saber, uma vez clarificado, "ciencia rigurosa, susceptible de incorporarse luego al conocimento general que puede lograrse del hombre", é evidente que da mesma espécie de saber pode vir a utilizar-se o antropólogo ou o sociólogo de sistemática formação científica, que se sinta capaz de suprir por êsse meio deficiências dos métodos convecionalmente científicos do conhecimento do Homem ou da Sociedade ao seu dispor. Pode tornar-se, então, como Lawrence da Arábia se tomou, mais um escritor literário do que um pesquisador científico, embora o escritor, em tais casos, dependa, para a substância básica do seu saber, do cientista; e seja impossível separar de todo um do outro. Essa fusão raramente ocorre; e não é difícil de dizer-se porque: porque é raro o indivíduo capaz de suprir pelo conhecimento poético, e, em casos como o de Lawrence, pelo gênio literário, as deficiências de métodos convencionalmente científicos à disposição de sua particular ou especial ciência.

Unamuno detestava o que considerava "sociologia"; e tinha pelos sociólogos do seu conhecimento um desdém fácil de ser compreendido. Para Unamuno saber era em grande parte intuir; e o saber sociológico lhe parecia a negação dêsse saber, em grande parte intuído; e tolerante, por isto mesmo, até de contradições: "suele buscarse la verdad completa em el justo medio por el método de remoción, via remotionis, por exclusión de los extremos, que com su juego y accion mútua engendran el ritmo de la vida..." Donde já se ter dito que, para Unamuno, nada era verdade que não estivesse sendo verdade. Preocupado com essa verdade em constante movimento - movimento, entre extremos com tendências a estáticos - parecia-lhe duvidosa a verdade que qualquer ciência do homem pretendesse reduzir a esquema rígido e a exatidão matemàticamente apolínea: a dos sociólogos Positivistas, por exemplo. Creio, porém, que não lhe faltaria simpatia por aqueles antropólogos e sociólogos modernos que também se empenham em captar, em suas obras, aquela verdade que está sendo, ou vem sendo, verdade, através de diferentes expressões do comportamento social do Homem: a captada por Simmel em estudos hoje clássicos, embora com o seu que de românticos sôbre a sociologia da moda; a surpreendida por Ruth Benedict em povos "dionisíacos" diferentes dos "apolíneos" em sua cultura de primitivos; a encontrada por Roger Caillois em sua análise sociológica da novela; a apresentada por Jean Duvignaud em sua "sociologia do teatro" e por Roland Barthes em seu notável ensaio sôbre a moda como sistema.

Dada certa simpatia da minha parte, pelo anti-sociologismo de Unamuno - serei sociólogo? Terei o direito a considerar-me sociólogo ortodoxo? Ou serei Sociólogo apenas pela metade, a outra metade sendo constituída pelo que há em mim de antropólogo ou de historiador ou de pequeno filósofo ou de inveterado escritor?

Já houve - repito - quem dissesse humorísticamente de mim que sou antes saciólogo do que sociólogo. A caricatura não é de todo má.

Eu próprio admito ser antes um saciólogo que um sociólogo no sentido de seguir, no versar de temas sociológicos e antropológicos, intuições pessoais e observações diretas; e de combinar métodos nunca dantes combinados de preferência a seguir teorias já estabelecidas, métodos puros, técnicas ortodoxas. Poderia até repetir Unamuno: "No quiero engañar a nadie en dar por filososofía lo que acaso no sea sino poesía y fantasmagoría, mitología en todo caso." Mais poderia repetir do inclassificável espanhol de Salamanca: "Nunca pagaré de un pobre escritor mirado en la república de las letras como intruso y de fuera por ciertas pretensiones de científico y tenido en el imperio de las ciencias por un intruso también a causa de mis pretensiones de literato".

O que espero é, uma vez desaparecido, encontrar um Julíán Marías que surpreenda nos meus pobres escritos um pouco do que Marías vem surpreendendo nos de Unamuno: a presença de alguém que através de um método talvez mais essencialmente podtico que convencionalmente científico de interpretação da realidade humana, viu, sentiu e pensou coisas novas, ou insuspeitadas, sôbre a mesma realidade, tendo sido, portanto, um criador; e viu, sentiu e pensou, além disso, de nova forma, coisas antigas; e não sòmente viu, sentiu e pensou tais coisas, umas novas, outras de modo nôvo, como fêz que outros as vissem, sentissem e as pensassem de modo também nôvo.

Há quem suponha que, contra a vontade de quantos me negam o título de sociólogo, eu já seria hoje, pelos meus trabalhos e pelos trabalhos que tenho suscitado, uma figura inevitável - na história da sociologia não só brasileira como geral; não só científica como filosófica - a que se confunde com a antropologia concebida por Kant. O que, se fôsse exato, não me impediria de desejar ser igualmente, por direito próprio, figura inevitável na história da literatura em língua portuguêsa, vivendo, assim - dentro de modestos limites, é claro aquela vida dupla e até múltipla que hoje vive Unamuno, citado entre escritores literários e poetas tanto quanto entre filósofos e místicos; e uma vez por outra lembrado pela sua ação sendo política, cívica, de homern independente de partidos e de ideologias.

Mais sôbre Unamuno: detestava êle a sociologia embora não concebesse compreensão do atual que desprezasse o intra-histórico. E não podendo recorrer à sociologia existencial, substituiu-a por um tipo também existencial de romance ou de novela a um tempo biográfico e intra-histórico, com personagens para o autor tão reais como êle próprio. Sou dos que pensam. que é possível desenvolver-se uma história sociológica - existencialmente sociológica - através de métodos empáticos com que o autor participe, ou tente participar, de vidas, porventura simbólicas, de umas tantas figuras já desaparecidas nas quais se teriam encarnado de modo mais tipico tendências ou situações ou idealizações - mitos, até caracteristicas de uma época ou de uma cultura.

Sob êsse critério, creio ter sido o primeiro a destacar, - em 1925 - como figuras simbólicas de longos e significativas periodos de existência brasileira, o menino de engenho; o bacharel mulato ou pobre, em ascensão social; o amarelinho - êste um mito feito carne. Isto para citar três exemplos e para sugerir as possibilidades do método empático que, utilizado em obras de história existencialmente sociológica, aproxime êsse tipo de literatura sociológica, condicionada pela realidade que Unamuno chamaria intra-história, do romance existencial, em que os personagens se revelam, biográfica e intra-históricamente, com uma liberdade muito maior, é claro, de expressão, que no primeiro gênero de literatura. Ainda a propósito de Unamuno, poderia ser aqui recordado seu conceito quase sociológico de ser o mito revelação de uma verdade que sendo irracional e não podendo ser provada, não deixa de ter valor para quem - acrescente-se ao pensador espanhol - conceba a sociologia existencialmente, sem que tal concepção importe em adesão a qualquer seita filosófica: e exprima. apenas um sentido de vida que supere o dos puros lógicos para incluir o psicológico e até, em seu sentido lato, o poético.

Tenho sido sociológico, muito mais vendo sociològicamente o social, do que lendo a respeito os escritos de outros sociólogos. Tenho lido muito. Duvido que haja sociólogo de importância que eu tenha deixado de ler. Mas tenho visto ainda mais do que lido. Visto do Brasil tôdas as suas regiões mais características. Visto do mundo vários paises, vários costumes, vários ritos vários tipos de homem, de mulher, de criança, várias formas de casa. Visto algumas dessas formas de homens e de casas, desenhando-as. Fixando-as mais em desenhos do que em palavras. Tenho me valido, para tanto, de um gôsto pelo desenho que ainda muito pequeno, nos meus primeiros anos de menino em idade escolar foi bem maior do que meu quase nenhum entusiasmo por ler, escrever e contar; e também de lições recebidas do velho Telles Júnior e principalmente do inglês Mr. Williams. Enchí cadernos com garatuja das coisas que via antes de enchê-los com os rneus primeiros escritos: aquêles em. que, já aos onze anos, tentei descrever o que meus olhos iam descobrindo de nôvo. Já, pelo desenho, tentara fixar outros descobrimentos: o primeiro navio a vela, o primeiro engenho bangê, a primeira jangada, o primeiro frade capuchinho, a primeira locomotiva, o primeiro carro de boi, o primeiro coche fúnebre, a primeira ponte sôbre o rio Capibaribe, a primeira môça vestida de noiva, o primeiro menino morto enfeitado de flôres, o primeiro "anjo" de procissão dos Passos, o primeiro inglês com raquete de tênis, o primeiro palhaço de circo de subúrbio, o primeiro avião.

Vários dos meus livros têm sido ilustrados por alguns dos melhores artistas brasileiros. à base, porém, êsses desenhos, de rascunhos meus; rascunhos com pormenores, como o do mapa do Engenho Noruega, desenhado e pintado magistralmente por Cícero Dias; como as vinhetas e o perfil de sobrado patriarcal desenhados por Lula Cardoso Ayres para Sobrados e Mucambos.

Fixei em desenhos - alguns publicados, outros perdidos - minhas impressões de adolescente de Rabindranath Tagore, de William Butler Yeats, de Amy Lowell, do Presidente Taft, do General Foch, de Eduardo, Príncipe de Gales, de outras figuras ilustres que conheci pessoalmente, conversando com êles ou só ouvindo-os, quando estudante; e como estudante de universidade, recebi dos professôres de Biologia e de Geologia - matérias em que me iniciei, para sôbre essa iniciação apoiar o estudo, que cedo me seduzira, das Ciências do Homem - elogios aos desenhos com que procurei cumprir meus deveres de aluno, de tais matérias: desenhos, os de Biologia, de microscópio, e de pormenores de formas de animais e de homens, que exigiam dos olhos o máximo de sua capacidade de ver, de observar e de discriminar. Excelente exercício para um futuro estudante de Ciências do Homem, êsse, de desenhos biológicos de microscópio e de laboratório e geológicos, de campo. Exercício disciplinar da visão que em mim, entretanto, sempre resistiu ao império completo de tal disciplina, reservando-se o direlto de deformar ou exagerar, para acentuar o típico, o simbólico, o significativo para o esfôrço de interpretação da realidade em que me empenhasse. Expressionismo ainda hoje característico de meu modo de ser sociólogo. Expressionismo que também se encontra nos "tipos ideais" de Weber e nos tipos psico-sociais de Benedict.





Como e porque sou sociólogo. III


"...la sociologie semble offrir un domaine d'analyse et de comprehension dont lhorizon parait être celui d'un humanisme qui respecte la variété, la relativité et l'infinité des situations où l'homme d'aujourd'hui est engagé". Jean Duvignaud




Há quem me venha censurando o modo de ser sociólogo, por não ser o grandioso, que se especialize nas grandes generalizações, mas ir ao extremo oposto: o de descer a pequenos e, para êsses críticos, desprezíveis pormenores. Dai os reparos desfavoráveis que têm sido feitos à minha preocupação, com as pequenas expressões de vivência e de convivência cotidiana: aquelas que só se surpreendem, considerando-se no passado íntimo de um grupo humano - no caso, particularmente, o brasileiro - o cotidiano doméstico, a higene caseira, a culinária; e em homens, em mulheres, em meninos, participantes dêsse viver cotidiano, seus jogos, seus passatempos, seus brinquedos, seus grandes e pequenos vícios, as predominâncias de estilos de trajo e de penteado, de formas de retórica, de ritmos de dança, que concorram para caracterizar suas relações com certo meio e com certo tempo social. Dizem uns, não ser essa preocupação própria de um sociólogo mas de um antropólogo ou de um historiador social: crítica que não me incomoda por considerar, no caso da análise e da interpretação de um grupo ou de uma sociedade como a brasileira, cujo passado intimo precisa de ser estudado tanto histórica como antropològicamente, para ser interpretado sociològicamente, essencial ao sociólogo a base histórico-social a antropológica.

Para outros, o que merece crítica nesse meu afã é sua frivolidade mesma: preocupar-se um indivíduo com pretensões a sociólogo com assuntos de cozinha, com intimidades de alcova, com brinquedos de menino, com penteados de mulher, com barbas de homem. É um dos aspectos da minha pobre sociologia, humildemente antropológica e às vêzes pedestremente histórica, que mais áspera indignação tem provocado, da parte do também sociólogo e também historiador brasileiro, igualmente especializado no estudo de assuntos coloniais e sociais do Brasil, que é o ilustre colega Nelson Werneck Sodré: infelizmente mais marxista não só em sua sociologia como em seu modo de ser historiador do que seria hoje o próprio Marx. Foi Mestre Sodré quem mais estranhou o fato de num livro das pretensões de Sobrados e Mucambos sair-se o autor - jà um tanto ridiculo por ter escrito e publicado um livreco de receitas de doces, dando-lhe à introdução o aspecto de ensaio para-sociológico - com tôda uma página acêrca de barbas de homem e de penteados de mulher, êle próprio, autor, ilustrando, com seus gatafunhos, à base de minucioso estudo de daguerreótipos e de fotografias da primeira metade do século XIX brasileiro, as predominâncias de formas de penteado e de barba entre os brasileiros de classe senhoril. Escandalosa frivolidade, denunciou o austero marxista com a tendência para o puritanismo que por vêzes caracteriza os marxistas mais convencionais; e, por isto mesmo, mais distanciados do verdadeiro Marx.

A verdade é que me encontro em companhia ilustre. Outros analistas e outros intérpretes do comportamento humano têm resvalado nas mesmas frivolidades. Simmel escreveu todo um longo ensaio sôbre a sociologia da moda. Não nos falta sequer, aos que assim procedemos, justificativa filosófica da parte daqueles filósofos que são, desde velhos dias, adeptos do estudo do que seja considerado "existencial" ao lado do que seja glorificado como "essencial" nos homens. Não se trata - nesses filósofos - de existencialismo sectário mas de preocupação com o existencial. É o caso, por exemplo, do atualíssimo Julíán Marías, discípulo e continuador de Ortega y Gasset. Pois dêsse filósofo - para alguns alemães o maior, dentre os modemos filósofos de língua espanhola - é também tôda uma página, num dos seus mais sugestivos ensaios filosóficos, sôbre o fato, de imensa importância sociológica, de que o homem social não conserva nunca o corpo ao natural mas o artificializa "en una proporcion" - salienta Marías - "decisiva": "lo dejamos o non engordar, lo limpiamos o no, lo peinamos tal vez, lo cubrimos con vestidos, y con cierto tipo de vestidos, lo movemos de cierta manera y lo damos una expresion determinada". Mais: "El hombre actual se corta y afeita tenazmente la barba, que se obstina en crecer un dia tras otro; en otros tiempos se dejaba la barba; pero también esta es artificial, pues hay muchas barbas posibles y el hombre barbado tiene que elegir y optar por una de ellas, que dista mucho de ser natural..."

Leva-me de nôvo o assunto à consideração daquele outro aspecto do meu modo de ser sociólogo, que talvez seja o que mais nitidamente o vem caracterizando; e que consiste em vir sendo principalmente um modo híbrido de ser alguém sociólogo: sociólogo-antropólogo ou sociólogo-historiador. "Sociologia genética" anunciei no meu primeiro ensaio sociológico, publicado em língua portuguêsa, ao procurar, em longo prefácio, caracterizá-lo; mas levando críticos nacionais da importância de um Agripino Griecco à errada suposição de que por "sociologia genética" devesse entender-se "Sociologia do sexo": excesso, - a preocupação com o sexo - para êle e para vários outros-críticos, lamentável, naquele meu trabalho. "Over-sexed", chegou a escrever do livro, um tanto, puritanamente, certo crítico de língua inglêsa; e a um então ainda jovem e já excessivamente acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco, o trabalho de estréia do seu companheiro de geração pareceu além de desleixado, chulo. Tão chulo, na verdade, que descia à consideração de pormenores de comportamento sexual descrevendo-os por vêzes em linguagem comum. Isto antes de Kinsey.

"Sociologia genética", porém, não significa sociologia que se especialize no estudo dos aspectos sexuais das relações sociais, embora não se desinterêsse de sua análise e de sua interpretação. Significa a sociologia que se especialize no estudo das origens e do desenvolvimento no tempo social de instituições sobretudo de estilos de vida e de formas de convivência que se tenham tornado características do comportamento de um grupo humano. As épocas são para o sociólogo que as considera sob critério genético um constante processo de mudança social - ou sócio-cultural - em que o passado está sempre tornando-se futuro, através de um rápido presente. Vem crescendo, desde os nominalistas, o número de pensadores para quem a realidade não é, como era para os pensadores ortodoxamente aristotélicos, "coisa" que pudesse ser considerada completa, independente do tempo; e sim, processo em conexão com o tempo: o tempo social. Michelet gabava-se, com certa razão, de ter podido conseguir o que outros historiadores do passado francês não haviam conseguido antes dêle: a compreensão dêsse passado através de um método que poderíamos hoje considerar muito próximo do da sociologia genética: o de procurar o historiador origens; o de não considerar nunca os fatos em suas aparências de realidades completas; o de buscar surpreender tais origens ao emergirem do que chamava um tanto retóricamente "as profundezas do tempo"; o, de acompanhar essas emergências, até se tornarem aparentes realidades completas. Aparentes porque o que sucede é se transformarem - uma vez amadurecidas pelo, tempo social - noutras realidades, permitindo, ao modêrno bergsonista dizer, talvez com, algum exagêro, que a duração é que é a única realidade; e que intuir o continuo devenir das coisas chega a ser o mesmo que intuir a sua essência. O que, aplicado à sociologia, tornaria a tarefa principal do sociólogo o estudo menos de instituições e de formas de convivência em si, e como que paradas no tempo - em algum tempo sociològicamente ideal - que, dessas instituições e dessas formas, em sua constante transformação dentro do tempo: o tempo dentro do qual nos é possível acompanhar um processo genético em suas fases mais significativas para a compreensão de sobrevivências ou de atualidades daquelas instituições e daquelas formas de convivência estudadas desde as suas origens.

Daí haver quem aproxime certos aspectos do método genético, seguido pioneiramente em algumas obras brasileiras de sociologia ou de antropologia, do método, também, a seu modo bergsonianamente genético, seguido por Joyce e por Proust naquela sua literatura revolucionária de ficção em certos pontos tão próxima da de antropólogos, de sociólogos, de psicólogos modernos. Antropólogos, sociólogos e psicólogos que, desenvolvendo sugestões geniais de Freud e, sobretudo, de Jung, procuram interpretar atualmente o irracional no comportamento do Homem; e o fazem - ou procuram fazê-lo sem separar as expressões atuais dêsse comportamento do que nelas sobrevive de arquétipos resistentes, em suas essências, ao tempo histórico. Essa resistência, através de acomodações a transformações de caráter existencial. Por conseguinte, elas próprias, expressões de um desenvolvimento genético.

Através do existencial, susceptível de ser estudado nêsse desenvolvimento, é que se procuraria o essencial no Homem. A captura se não do tempo perdido inteiro, de parte considerável dêle, -perdido por indivíduo representativo de um grupo ou por todo um grupo típico concorreria para &we encontro do essencial no existencial. Porque seria a captura, por indivíduo superior, capaz de influir sôbre grande numero de indivíduos, ou por um grupo inteiro, daquela autenticidade no existir que parece confundir-se com a própria ess6neia dêsse existir; e que só é possível de ser encontrada. pelo indivíduo ou pelo grupo que reconquista parte considerável do seu passado mais íntimo, mais profundo, mais significativo para o presente e para o futuro dêsse indivíduo superior - ou dêsse grupo típico: aquêle passado básico que - Proust chamaria de "soubassement", de "gisement profond", de "terrains resistants sur lesquels on s'appuie".

Creio que venho contribuindo, através do meu tosco modo bergsonianamente genético e talvez - como já se tem dito -"joyceano" e "proustiano", de ser, senão soclólogo, antropólogo, para que, brasileiro de hoje, sinta sob os pés alguma coisa de resistente - essencial, além de existencialmente resistente - sôbre que se apoie não só o seu presente como o seu futuro, através da identificação de continuidades que corrijam até certo ponto inevitáveis excessos de descontinuidade no espaço e no tempo sociais. Também é possível que venha contribuindo - quem o diz é um crítico dos Cahiers Internationaux de Sociologie - dentro de limites modestíssimos: devo acrescentar ao crítico generoso, como de ordinário são os críticos estrangeiros em relação, com meus aventurosos trabalhos - para que se desenvolva uma sociologia dos tempos sociais. Uma sociologia dos tempos sociais que terá que ser também uma sociologia de perspectivas diversas combinadas, quanto possível, numa perspectiva geral. Assim se realizaria a sugestão de Georges Poulet no sentido de caminhar-se, através de uma literatura e de uma sociologia que se preocupassem com o Homem diversamente situado no espaço e no tempo, para uma "totalidade de perspectivas", semelhante à que, em pinturas cubistas, permite ao pintor procurar apresentar, de uma só vez, todos aquêles aspectos de um objeto que, de ordinário, só poderiam ser vistos cada um de uma vez e de ângulos diferentes. Picasso foi no que se extremou: numa revolução de perspectivas em arte com que vem coincidindo uma revolução de perspectivas nos estudos do Homem situado, à sombra da qual vêm se desenvolvendo em vários países inclusive no Brasil - novas e até escandalosas combinações de métodos para a análise e para a interpretação do contínuo, ao mesmo tempo que do descontínuo, no comportamento humano, em geral, através do estudo de grupos situados ou específicos, em particular.

Ao critério genético tenho sempre acrescentado, em meu modo nada ortodoxo e quase sempre tosco de ser sociociólogo - sociólogo-antropólogo, sociólogo-historiador, sociólogo-pensador, sociólogo-humanista - o critério ecológico. É outro aspecto de uma filosofia que não admite ser possível uma interpretação ex-abrupto do Homem, que despreze no Homem vivo, concreto, real, sua condição de homem situado. Situado no tempo e situado no espaço. Situado sintèticamente no espaço-tempo e situado em cada uma das duas condições em particular: na de espaço e na de tempo.

Daí, a meu ver, ser indispensável ao sociólogo um critério ecológico de análise sociológica que o conduza a estudos vizinhos dos do geógrafo, sem se confundirem com os do geógrafo. O ambiente que interessa ao sociólogo considerar é um conjunto de repercussões inconfundìvelmente psicoculturais e sócio-culturais do que é físico, natural, bioquímico, nesse ambiente - a temperatura tropical, por exemplo -sôbre o comportamento do grupo humano nêle situado ou a êle radicado. à temperatura tropical ou à ecológica, o grupo humano sujeito permanentemente a essa temperatura ou a essa ecologia, tende a responder de mil e um modos socioculturais peculiares a essa sua situação; e tais respostas implicam necessàriamente em formas situacionais de convivência que ao sociólogo cabe considerar, identificando nelas o que seja autênticamente situacional e aceitando o autênticamente situacional como próprio do tipo de sociedade e de cultura que considere: nem inflexìvelmente inferior nem inflexìvelmente superior a outros tipos de sociedade e de cultura correspondentes a outras ecologias, diferentes da tropical. Por êsse critério ao mesmo tempo ecológico e sociológico - ou antropológico -de análise, de interpretação e de avaliação de sociedades e de culturas, é possível ao sociólogo moderno desprender-se de quanto preconceito etnocêntrico turvou a sociologia spenceriana - por exemplo - e empreender, sôbre base diferente da dos sociólogos rigidamente etnocêntricos - sabido que às situações ecológicas se associam condições etnicoculturais, tidas por alguns etnocentristas, como fatalmente dependentes de suas respectivas ecologias - todo um vasto esfôrgo de reinterpretação e de análise de sociedades e de culturas relacionadas com ecologias, ou radicadas a ecologias, que não mais sejam classificadas, umas como permanentemente imperiais, outras como fatalmente coloniais, umas como fatalmente progressivas, outras como fatalmente incapazes do chamado "progresso".

Isto no plano ecológico geral. Também no específico, o critério ecológico, tal como o desenvolveram um tanto sectàriamente sociólogos de Chicago, pode ser utilizado com evidente vantagem pelo sociólogo moderno. Contanto que não se extreme nesse ecologismo; e o aplique, sem exclusividade, à análise e à interpretarção de relações entre grupos diversamente situados em dado espaço: relações que impliquem em dominação de um grupo sôbre outro, em subordinacão de um grupo a outro, em competição entre vários grupos, em sucessão de um grupo por outro, em expulsão de um grupo por outro. É um critério de análise que se presta a ser utilizado com particular vantagem pelo cientista social, em geral - e não apenas pelo sociólogo, em particular - em estudos regionais ou em pesquisas de área. Sou dos que entendem serem essas pesquisas e êsses estudos necessários e até essenciais ao desenvolvimento da Sociologia em ciência. Note-se de passagem que sôbre a noção da área é que se apoia, principalmente, o esboço de sistemática tropicológica, hispanotropicológica e lusotropicológica que venho me aventurando a desenvolver: uma sistemática que tanto tem de ecológica como de antropológica e sociológica em seus fundamentos, embora, para alguns dos seus críticos, não passe de "poesia". Não assim para os mestres da Sorbonne que solenemente reconheceram a validade de uma "Antropologia Tropical", tal como vem sendo desenvolvida no Brasil.

Não nos preocupa, aos antropólogos ou aos sociólogos brasileiros acusados de "poetas", quer por acrescentarmos ao estudo cientfíico do Homem o humanístico quer por sermos, ou têrmos sido, dois ou três, literalmente, poetas ou escritores de feitio literário - o caso, até há pouco, de Roquette Pinto, e, ainda agora, o de Fernando de Azevedo - o que há de desdenhoso e até de insultuoso, nesse qualificativo, da parte dos cientificistas absolutos nos estudos sociais, entre nós. Pois são êles, de ordinário, indivíduos que, no íntimo, desejariam ser também poetas; e acrescentar a potência poética à perícia técnica em que se esmeram, sendo, aliás, vários dêles, muito úteis ou convenientes às Ciências do Homem por êsse seu procedimento: úteis ou convenientes às mesmas Ciências, por não as turvarem com literatices.

Aqui cabe nos recordarmos dos reparos críticos do Professor Robert A. Nisbet aos excessos de racionalismo, de objetivismo e de cientificismo em sociologia: reparos que aparecem no seu "Sociology as an art form". Principalmente êste: o de haver afinidades psicológicas entre o sociólogo e o artista romântico. Tanto que nem visão weberiana de "racionalização de história", nem de Simmel, de "metropolio", nem a de Durkheim, de "anomia", podem ser imaginadas como tendo-se derivado de análises lógico-empiricas. Cada um dêsses sociólogos creadores chegou a essas concepções sociolégicas à maneira dos artistas e dando-lhes forma artística ou literária: instrutiva, imaginativa, romântica. A respeito do que, outro moderníssimo sociólogo, o Professor Maurice R. Stein, vai além: no seu "The Poetic Metaphors of Sociology" escreve: "The great classical sociologists from Marx to Veblen, Simmel, Durkheim and Mannheim were inveterate sociological poets".

A verdade é que alguns, dos maiores antropólogos ou sociólogos têm sido reconhecidos como autores de obras potentemente poéticas ou literárias ao mesmo tempo que científicas: Karl Marx e Simmel, por exemplo; e tratando-se de antropólogos ou sociólogos mais especìficamente antropológicos ou sociológicos, James Frazer, com formação humanística em Cambridge e que reclamou êle próprio para a sua obra, de fato monumental, a qualidade de épica - de epopéia de desenvolvimento humano - além de ter escrito, à margem dessa sua obra de antropólogo genial, versos do valor literário de "June in Cambridge":

"When youth's brief June is over

And youth's brief rose's dead."

Mas não só o autor de The Golden Bough: também Bronislaw Malinowski, de quem escrevem, em livro recentíssimo sôbre "the major anthropologists and their contribution to the understandig of culture", Os Professôres Abram Kardiner e Edward Preble, que nêle a simpatia com que se aproximava, como antropólogo, dos seus objetos de estudo, era "spontaneous and intuitive as well as analytical". Mais: "he seemed to combine the qualities of the poet and the scientist, the qualities, that is, that are commonly attributed to these not so different types". Daí, para Malinowski, existir para o antropólogo além de antropólogo, poeta, "an intense personal satisfaction in studying a foreign culture which transcended the mere satisfaction of scientific curiosity".

     Satisfação ou alegria ultra-científica também encontrada por Ruth Benedict nos seus estudos antropo-sociológicos. Esta foi minha contemporânea na Universidade de Colúmbia. Juntos sofremos influências vindas das mesmas fontes: de Nietzsche, de Dilthey; da psicologia gestaltiana; e de Boas, principalmente. Um Boas que podia não ser um poeta de expressão literária mas era, muito germânicamente, um intérprete, ao piano, dos grandes compositores alemães. Tendo sido a primeira atividade de Ruth Benedict, depois de ter se bacharelado em Vassar, a de mestra de literatura inglêsa, a Universidade de Colúmbia, com seus muitos conferencistas, escritores, dentre os maiores da época - um Tagore, por exemplo - veio a proporcionar-lhe, quando se tornou discípula de Boas, experiências marginais de caráter literário que nela sempre se juntaram ao estudo científico da Antropologia, permitindo-lhe recorrer a Nietzsche para a sua famosa classificação antropo-sociológica de grupos humanos em "apolíneos" e "dionisíacos", à base das pesquisas de campo que realizou entre sociedades primitivas: os Serrano, ameríndios da Califórnia; os Zuni; vários outros. Como Frazer, também Ruth Benedict escreveu literalmente versos, entre os quais "Lift up your heart". Versos em que procurou exprimir a dor da mulher que, casada, não consegue ter filhos.

No último dos livros que escreveu, cujo título é antes poèticamente simbólico - The Chrisanthemum and the Sword - que rìgidamente científico, ela se baseia na idéia diltheyana de cada cultura exprimir-se em todos os pormenores da existência ou da viviência do grupo que a encarna; e de ser preciso, apreender o sentido dessa cultura tanto, de fora para dentro - o método durkheimiano - como de dentro para fora, pela identificação do observador com a gente observada. Método misto: científico, e poético, a um tempo. Pelo que se justifica o comentário, daqueles dois críticos dos por êles considerados "principais antropólogos", quando de Ruth Benedict escrevem que seu método "is understandably congenial to a poet who arrives to distill for us the essence of an experience or a complex of events". Mais: "Exaggeralion and mission, dictated by a central preconception are necessary to this art". Entretanto: "when poetry is practiced by the scientist, however, there are obvious dangers".

Claro que é perigoso para a ciência do Homem da especialidade do cientista recorrer êle a métodos poéticos de conhecimento, juntando-os aos científicos. Perigosíssimo até. Pode resultar em obras monstruosas como estudos científicos; ou válidas apenas como criações poéticas ou realizações literárias como algumas das páginas de Andrew Lang, várias das de Spengler e como, entre nós, não poucas das que nos deixou o admirável Euclides da Cunha. Mas pobre da Antropologia ou da Sociologia ou da História Social cultivada apenas por pedestres que não consigam enriquecê-la abrindo perspectivas sôbre os fatos que só a imaginação científica mais vizinha da poética consegue abrir e, através de símbolos - os símbolos sociológicos ou antropológicos, dos quais os críticos apenas literários nem sempre se apercebem que sejam símbolos - tornar êsses fatos significativos em vez de apenas descritivos.

Tais são as perspectivas que têm sido abertas, para o conhecimento em profundidade do Homem pelo homem, por antropólogos com alguma coisa de poetas, como outrora Vives, como Frazer, como Malinowski, como Ruth Benedict, como o extraordinário Lawrence que escreveu The Seven Pillars of Wisdom - obra que talvez venha a ser considerada em dia não muito remoto, superior a Ulysses, do mesmo modo que a Peregrinaçam, do para-antropólogo do século XVI, Ferndo Mendes Pinto, está sendo já considerada superior, como epopéia antropológica, a Os Lusíadas, de Camões, por alguns dos críticos mais lúicidos da literatura portuguêsa. Em antropólogos-sociólogos dessa espécie - antropólogos-sociólogos em quem a creatividade se afirma tanto científica como poéticamente - pode-se concordar com os Professôres Kardiner e Preble que seus erros são fáceis de ser corrigidos por cientistas sociais mais rigorosos como cientistas, e menos poéticos: "more rigorous, if less poetic, social scientists". Os quals são mais numerosos do que aquêles: aquelas raras expressões, como sociólogos-poetas ou como antropólogos-poetas de um vigor híbrido quase sempre possível apenas em indivíduos de gênio.





Como e porque sou mais antropólogo do que sociólogo


"...le principe et le fin de la sociologie, c'est d'apercevoir le groupe entier et son comportement tout entier". Marcel Mauss




Considero-me mais antropólogo do que sociólogo. Mais discípulo de Boas do que de Giddings: dois dos grandes mestres cujas lições muito concorreram para fazer dos meus dias de estudante de Mestrado e de Doutorado na Universidade de Colúmbia - estudante, repita-se, desde os estudos de Bacharelado, desdenhoso de graus, que lhe têm sido dados mais por consagração do que por postulação - uma série de inesqueciveis aventuras de descobrimentos: descobrimentos, intelectuais.

Boas era, então, muis do que qualquer antropólogo da nossa época, o renovador da ciência da antropologia que êle se esmerava em considerar nas suas interrelações de estudo do Homem físico e do Homem socio-cultural. Giddings já se tomara famoso pela sua teoria da consciência da espécie; e como sociólogo, estava longe de ser apenas empírico. Dava importância tal à teoria sociológica que em vários pontos eram tão evidentes suas afinidades com sociólogos alemães como evidentes eram as afinidades de Boas - europeu, nascido na Westfalia, de formção e cultura germânicas, embora de sangue hebreu - com aquêles antropólogos alemães orientados por Adolf Bastian, de quem, ainda jovem, Boas chegara a ser de algum modo. colaborador como técnico assistente, que foi, assim jovem, do Museu de "Volkenkunde" organizado pelo mesmo Bastian.

A verdade, porém, é que das suas cátedras da Universidade de Colúmbia - que naqueles dias era, sem. dúvida alguma, a universidade máxima dentre as da América tanto quanto da Europa, no ensino não só de Ciências Sociais (muito britânicamente incluídas nas Políticas, a Faculdade dedicada aos altos estudos sociais denominando-se naquela universidade fundada por monarca inglês no século XVIII, e por tradição vinda dessa origem, de Ciências Políticas), como da Filosofia Social, com Dewey, de Economia, com. Seligman e no de Direito Internacional, com John Bassett Moore e com Munro (cujas lições também segui, acrescentando o estudo, do Direito Público e da Economia ao das Ciências Sociais) - Boas e Giddings ultrapassaram, em vários pontos, os alemães da sua época, que, entretanto, eram ainda, sociólogos da grandeza dos dois Weber e antropólogos da importância de Virchow, dentre os mais antigos, de Thurnwald, dentre os mais jovens. Noutros pontos, porém, a Alemanha e a Inglaterra - esta com seus Rivers e seus Marrett - continuavam a exercer o primado nos estudos antropológicos, como na organização de museus funcionais, ligados dinâmicamente a tais estudos; e também na extensão de pesquisas de caráter antropológico, promovidas pelos inglêses nas suas então vastas colônias do Oriente e da áfrica, onde os estudos dêsse gênero, em vez de apenas acadêmicos, tornaram-se, na segunda. metade do século XIX, o lastro em que passaram a desenvolver-se métodos de administração e de política, adequados a diferentes situações etnicoculturais. Daí Boas - que fizera seus estudos universitArios em Heidelberg, Bonn e Kiel, havendo numa das suas teses se ocupado, do ponto-de-vista físico, do problema da "côr da água" e noutra, da estática e da ética da. opereta - ter fortemente recomendado ao seu. estudante brasileiro - em quem descobriu afinidades com êle próprio, por um. lado, na pouca atenção do mesmo estudante às bisantinicas associadas, em certos meios universitários, ao preenchimento de f6rmulas de rígido especialismo (e Boas, com alguma coisa de anarquista no seu modo de ser, as detestava!) requeridas para os graus acadêmicos e, por outro lado, no até pelos estudos pós-graduados menos convencionais e mais profundos que os apenas acadêmicos - dedicar o terceiro ano de seus trabalhos de pós-graduado a contactos sistemáticos com os principais museus europeus de antropologia. Especialmente os da Alemanha, da Inglaterra e da França. Os de Berlim, de Oxford, de Londres, de Paris.

Creio que das lições que aprendi com Boas nenhuma excedeu em importância a de só ser possível compreender "the cultural life of any people and of any tribe"... "as an outgrowth of those unique conditions under which it has lived". Daí a ênfase que êle punha no estudo de qualquer "complex phenomenon that has grown historically", antes de se passar de tais estudos a generalizações com pretensões a científicas na sua precipitada universalidade. Daí, também, ter sido um dos cientistas sociais que primeiro se opuseram à aplicação maciça da teoria evolucionista à ciência antropológica, parecendo-lhe que era na reconstrucão histórica do fenômeno considerado que se devia empenhar indutivamente, o antronólogo nos seus estudos, e não dedutivamente na sua reconstrução segundo supostas leis de evolucão linear.

Não é, com efeito, às mesmas ou invariávels supostas leis de desenvolvimento mental do Homem que corresponde o desenvolvimento das suas sociedades e das suas várias culturas, certo como é que as pesquisas antropológicas e os estudos históricos em tôrno dessas sociedades e dessas culturas revelam que costumes, crenças, estilos de vida semelhantes, em sociedades diversamente situadas, resultam por vêzes de diferentes, e não dos mesmos estímulos. Só o estudo histórico de desiguais desenvolvimentos culturais pode esclarecer o que condicionou cada um dêsses estilos de vida e até dêsses costumes. Donde ser essêncial à antropologia o estudo histórico por antropólogos, dos processos de crescimento cultural em várias - pequenas áreas ou regiões - áreas ou regiões que Boas chamava geográficas e que hoje podemos denominar com maior precisão, ecológicas antes de aventurar-se qualquer dêsses antropólogos a formulação de leis supra-regionais e sunpa-históricas de crescimento cultural que regulassem invariávelmente os vários tipos dêsse crescimento.

De Franz Boas já escreveu um crítico que era um antropólogo cheio de contradições no plano doutrinário. Isto porque nas suas teorias exprimia-se principalmente um analista um crítico, um descobridor de novos aspectos da chamada natureza humana; e não um teórico preocupado em ser de todo coerente em sua sistemática antropológica. Para êle "sistemas absolutos" assim coerentes seriam impossíveis em ciência antropológica. O antropólogo - conclui-se daí - tem que saber contentar-se com aproximações de caráter sistemático; e resignar-se, nessas aproximacões, a ser, por vêzes, contraditório. Contanto - pode-se ainda observar, desenvolvendo livremente sugestões de Boas - que não se sacrifique o que, nas várias culturas humanas consideradas pelo antropólogo, seja vida, ao que nelas devesse ser linearmente humano ao mesmo tempo que invariàvelmente natural, desprezando-se a capacidade de cada uma dessas várias culturas para influir tanto sôbre a natureza, como sôbre o homem, como que recriando-os.

Pois são diversos os característicos em consequência quer de especial situação no espaço, quer de particular desenvolvimento no tempo que, reunidos, podem dar a uma cultura, contínua no tempo e contínua - ou descontínua - no espaco, configuração também especial ou particular, permitindo ao antropólogo, analisá-la e em alguns casos interpretá-la como um complexo. Complexo cuja realidade esteia acima de considerações anenas políticas ou de classificacões sòmente nacionais, dada a sua capacidade de exceder tais considerações e ultrapassar tais classificações.

Foi sôbre êsse livre e não garanto que ortodoxo, desenvolvimento de um critério de Boas para o estudo regional de culturas, que ousei passar de uma concepção, além de ecológica, antropológica, daquelas presenças humanas em regiões tropicais que venham importando na consolidação, nessas regiões, de culturas e até de civilizações ecológicas, - culturas, assim ecológicas, susceptíveis de ser estudadas dentro de uma sistemática que se denominasse tropicológica - a concepções menos gerais, do mesmo fenômeno, em que o antropólogo ecológico se especializasse em considerar, de modo igualmente sistemático, as peculiaridades de culturas ou. civilizações especificas, que vêm resultando, nas mesmas regiões, do contacto com a natureza, com ambiente e com populações e culturas tropicais, de hispanos, particularmente de portuguêses. Contacto por assim dizer simbiótico do qual vêm resultando, em regiões marcadas há séculos pela presença hispânica, um terceiro tipo antropológico, quer de homem, quer de cultura.

Assim se justificaria a denominada Hispanotropicologia e, dentro dela, a chamada Lusotropicologia, que representam contribução brasileira não de todo insignificante para o possível desenvolvimento de modernas sistemáticas de análise e de interpretação antropológicas de um fenômeno - o da crescente consolidação, em áreas tropicais, de culturas e até civilizações do tipo hispanotropical, em geral, lusotropical, em particular - cuja importância também crescente e cuja especificidade, aliás evidente, justificam tal sistematização. Só antropólogos de vistas demasiadamente curtas deixam de enxergar aquela expansão - a de um tipo moderno de cultura mista ou Simbiótica - eurotropical - e a sua especificidade.

Do empenho, que me anima há anos, com relação ao assunto, não se inteirou Boas, de quem, entretanto, pude ainda ouvir, no último encontro que tive com êle na Universidade de Colúmbia, em 1939, palavras tanto de aprovação ao modo já entre ecológico e antropológico por que tratara matéria brasileira no livro Casa Grande & Senzala como de interêsse pela verificação da hipótese, por mim levantada e que eu me propunha a considerar, depois de nôvo contacto com a áfrica, de ter o português, em sua forma sociológica, de ser colonizador de áreas tropicais e em suas técnicas sociais de procurar resolver, nessas áreas e como colonizador delas, o problema de proceder de país de população escassa, métodos árabes: o da condição do pai poder caracterizar a condição dos filhos mestiços ao ponto de permitir serem êstes considerados fidalgos, à revelia da condição étnico-social das mães; e o da escravidão seguir, dentro do sistema patriarcal em geral adotado pelo mesmo português nas sociedades de tipo estável por êle estabelecidas naquelas áreas, antes a forma doméstica, familial e até pessoal de relacões entre senhores e servos, que a industrial e impessoal, de ordinário característica das relações entre europeus e não-europeus nas mesmas áreas.

Já então Boas exprimira sua solidariedade à iniciativa do seu discípulo brasileiro de reunir no Brasil um congresso de estudos afro-brasileiros que se realizara no Recife em 1934. Iniciativa que, no Brasil, atraíra a solidariedade entusiástica de outro autêntico mestre de Antropologia - Roquette Pinto - que foi, também, o primeiro antropólogo a, como crítico autorizado, em assuntos antropológicos, ocupar-se do livro Casa Grande & Senzala. Destacou, então, Roquette Pinto nesse livro o fato de não faltar ao que nêle é Antropologia Cultural e Social a base, para Roquette, essencial a qualquer estudo antropológico, de informação ou de conhecimento biológico; e como especialista em matéria ameríndia, salientou generosamente do capítulo do nôvo livro sôbre a presença ameríndia na formação brasileira, que só êsse capítulo, com a sua bibliografia e com o caminho que abria, com os demais capítulos, á utilização de fontes de informação até então ignoradas ou desprezadas, valia o livro. Tanto Boas como Roquette Pinto supreenderam de início, no nôvo livro brasileiro de escritor-antropólogo, um traço que sòmente mestres do seu vasto saber poderiam ter surpreendido: o da originalidade, sem prejuízo, segundo êles, do que Roquette chegou, com exagerada generosidade, a considerar, em ensaio para outros críticos tão desnorteantes, condição de "obra clássica". Com essa classificação extremamente generosa, o mestre brasileiro quis decerto acentuar o fato de repousar o nôvo e ousado livro do seu então ainda jovem compatriota sôbre bases cientìficamente idôneas, sua originalidade como que mais poética do que científica, acrescentando-se a essas bases.

Era, entretanto, originalidade que não existia para críticos menos senhores de matéria antropológica ou soclológica, vários dos quais acreditaram tratar-se de simples; e talvez hábil adaptação de sistemática já tranquilamente em vigor nos Estados Unidos ou na Europa, a assuntos brasileiros. Críticos estrangeiros dentre os mais autorizados em assuntos antropológicos, não tardaram, porém, a destacar o que consideravam a originalidade do livro brasileiro: o crítico da Yale Review, ao desejar que a civilização dos Estados Unidos encontrasse quem lhe analisasse as origens e o desenvolvimento, em obra antropológica, que seguisse a sistemática, para êle nova, de CasaGrande & Senzala; Roland Barthes, em Paris, ao desejar que o mesmo se verificasse na França com relação às origens e ao desenvolvimento da sociedade e da cultura francesas; o sociólogo e antropólogo cubano Fernando Ortiz, ao proclamar ser necessário que se elaborasse um livro semelhante ao brasileiro, tendo por tema as origens e o desenvolvimento das sociedades e das culturas daquela parte da América Espanhola; o crítico marxista, Juan Antonio Portuondo, ao insistir na mesma necessidade e ao apresentar o mesmo livro como "exemplo" e "modêlo" para os homens de estudo da América Espanhola inteira, segundo êle presos, ainda, a métodos convencionalmente burgueses de análise antropológica ou de interpretação sociológica.

Venho sendo antropólogo preocupado menos com problemas abstratos de teoria antropológica do que com os concretos, mais relacionados com a vida, com a experiência e com a vivência do Brasil, em particular, e em geral, de conjunto transnacional de populações e de culturas, em processo de constante interpenetração e já hoje, por vários outros antropólogos, sociólogos, economistas, reconhecido como luso ou hispanotropical. Entre êsses problemas, o das relações entre etnias e culturas, das que constituem, quer a sociedade brasileira, e o seu complexo étnico-cultural, em particular, quer aquêle conjunto de populações e de culturas.

Aqui é preciso fixar-se o seguinte: o não vir sendo o meu trabalho, considerado no seu aspecto específico de obra antropológica, continuação do de Nina Rodrigues ou do de Sylvio Romero ou do de João Ribeiro ou do de Capistrano de Abreu ou do de Euclydes da Cunha mas, ao contrário, em pontos essenciais, retificação aos estudos empreendidos por êsses consagrados mestres. Minhas afinidades com pronunciamentos sociológicos, sôbre o assunto, primeiro de Joaquim Nabuco, no seu O Abolicionismo, depois de Sylvio Romero, Alberto Tôrres, J. B. Lacerda, Afrâtnio Peixoto e com a obra de Roquette Pinto, são evidentes. São particularmente evidentes no que se refere à reabilitação antropológica do mestiço e do negro, e não apenas do ameríndio, embora no admirável autor de Rondônia a preocupação de antropólogo tenha sido quase exclusivamente com o elemento ameríndio - objeto de suas memoráveis pesquisas de campo - e a de Afrânio Peixoto consideração de outros elementos, de um modo que, invariávelmente magistral, nem sempre procurou realizar-se em profundidade e em complexidade.

Note-se, entretanto, que tanto Nina Rodrigues como, durante anos, o mais notável dos seus discípulos, Artur Ramos, consideraram, dentro do conjnnto, brasileiro de sociedade e de cultura, o negro e o mestiço de negro, como assuntos antes de patologia social e de patologia antropológica do que de antropologia ou de sociologia fixada no estudo do Homem simplesmente normal. Atitude, por vêzes, de Sylvio Romero e de Euclydes da Cunha. A reabilitação, além de antropológica, sociol6ógica, sôbre base antropológica, do negro e do mestiço de negro, como elementos essenciais do complexo brasileiro de sociedade e de cultura, é um esfôrço científico que, tendo partido do Recife - do livro Casa-Grande & Senzala, do V Congresso de Estudos Afro-brasileiros e do curso pioneiro de Sociologia moderna que o autor do mesmo livro teve a honra de professar em 1935 na Faculdade de Direito - firmou-se, em plano didático de nível universitário, na Faculdade de Economia e de Direito da Universidade do Distrito Federal - a organizada pelo Professor Anísio Teixeira - quando o autor daquele ensaio ali professou Sociologia e fundou, sucessivamente, cátedras de Antropologia Social e Cultural - a primeira na América do Sul - e de Pesquisa Social - também pioneira são pontos às vêzes deixados em confusa obscuridade, êstes. Dizer-se, sem nenhuma especificação, do autor de Casa-Grande & Senzala, que continuou naquele seu ensaio e vem continuando noutros dos seus livros, de caráter principalmente antropológico, no que nêles é substância científica, a obra de Nina Rodrigues, é tão inexato como afirmar-se, ousada e vagamente, do mesmo autor que, no plano sociológico, vem continuando a obra do aliás insigne Oliveira Viana.

Referi-me a Nina Rodrigues e ao sentido de estudo patológico que, como médico, deu às suas análises semi antropológicas - dentro dos seus limites, valiosíssimas - do elemento negro no Brasil. Caberia aqui recordar de Boas que desconfiava - essa atitude do grande mestre de Colúmbia vem registrada por Abram Kardiner e Edward Preble em ensaio sôbre o assunto - dos médicos empenhados em trabalhos antropológicos. No que talvez se exagerasse: nem todos são os médicos que, por hábito de pensar adquirido nos seus estudos profissionais, tendem a considerar patológico, como antropólogos, o comportamento daqueles grupos, humanos de ordinário denominados primitivos, por desviar-se êsse comportamento da normalidade característica das civilizações dominantes de que o analista seja membro. Esta é, entretanto, a tendência de vários dos médicos que se têm desdobrado em antropólogos. No Brasil, até um médico-antropólogo da inteligência de Ulysses Pernambucano de Mello resvalou, por algum tempo, nesse patologismo, de que se recuperou pelo contacto com a obra do próprio Boas e com a de outros antropólogos, dos que se tornaram conhecidos no Brasil através, quer da bibliografia aparecida em Casa-Grande & Senzala, quer das fornecidas a mestres e estudantes de Antropologia e de Sociologia da Universidade do Distrito Federal, -inclusive ao Professor Artur Ramos, que tomou então conhecimento dos trabalhos de Boas, de Kroeber e de Herskovits - pelo fundador, na mesma Universidade, das cátedras de Sociologia, de Antropologia Social Cultural e de Pesquisa Social. O que se verificou do ano de 1935 ao de 1938, depois de, por iniciativa de estudantes de Direito do Recife acolhida com a maior simpatia pelo então Ministro da Educação Gustavo Capanema e pelo próprio Presidente da Repdblica, que era Getúlio Vargas, ter sido ministrado, pelo autor do recém-aparecido Casa-Grande & Senzala, um curso de Sociologia, na mesma Faculdade que, pelo gôsto do Ministro Capanema, teria sido repetido noutras Faculdades de Direito do país. Não tardou, aliás, que o Professor Isaias Alves, naquela época empenhado na organização da Universidade da Bahia, tendo por base uma Faculdade de Filosofia, convidasse com insistência o mesmo autor de Casa-Grande & Senzala a fixar-se em Salvador, como fundador da cátedra, e esta de Antropologia Social e Cultural, na Universidade em organização.

Pode-se reparar como, tendo sido discípulo de Antropologia de um Boas, famoso pela sua aversão ao que fôsse processo, além de especulativo, intuitivo, de indagação ou de análise antropológica, venha eu juntando aos trabalhos objetivamente antropológicos que tenho procurado realizar ou orientar, arrojos especulativos e audácias intuitivas. Nem todo discípulo segue de um mestre tôdas as lições. Encontro-me, há anos, entre os antropólogos que lamentam em Boas o seu extremo objetivismo - a sua quase mística de objetivismo indutivo: obstáculo à realização, por homem, como êle foi, de gênio, de obra mais ampla. Quando, em critica recente a Boas, Kardiner e Preble vêem, naquele seu excesso, quer inibição ao espfrito especulativo, nêle talvez precário, quer obstáculo à acomodação, da parte do cientista, ao incerto, ao impreciso, que, segundo êsses críticos, constitui atitude indispensável ao desenvolvirnento de qualquer ciência, é ao lado dêsses perspicazes críticos que me situo e contra o maior dos grandes mestres na Universidade de Colúmbia do meu. tempo de estudante da sua Faculdade de Ciências chamadas Políticas.

Foi pela capacidade de ser intuitivo ao mesmo tempo que indutivo que Bronislaw Malinowski ultrapassou Boas em criatividade no setor antropológico. Daí poder hoje dizer-se do extraordinário polaco naturalizirdo inglês, que, como antropólogo, parecia combinar as qualidades do poeta com as do cientista não reprimia intuições, algumas das quais o levaram, através de métodos, quanto possível objetivos, de verificação, a notáveis desenvolvimentos, na sua obra antropológica. Mas eram intuições, as suas, que êle submetia a severo escrutínio, peneirando-as e coando-as; repelindo nelas quanto se apresentasse vago ou inconsistente sob o critério dessa severa análise preliminar; e só então seguindo-as nas investigações de costumes, de artes, de crenças, de ritos, de comportamento sexual, do grupo humano sob estudo investigação viva, direta. Pesquisa de campo.

Deve-se notar, a êsse propósito, que concentrando seus estudos na análise de uma população regionalíssima de ilhéus, Malinowski desenvolveu aí métodos os chamados funcionais visando descrição e análise mais imediatas e integradas de um grupo humano e da sua cultura - que passaram a ter validade universal. Nisto se assemelhou Malinowski a Boas - de quem divergiu em vários pontos; e que também desenvolveu. seus métodos de análise em pequeníssimas áreas, sem que tais métodos deixassem de vir a ter, nas suas principais características, validade universal. A autenticidade do regional desdobrando-se em valor de transregional a universal, através de técnicas de ingadagação susceptíveis de ser transferidas, nos seus elementos essenciais, do estudo de uma sociedade ou de uma cultura ao estudo de outras sociedades ou de outras culturas.

No estudo do passado sócio-cultural do brasileiro tem sido empenho do discípulo brasileiro de antropologia, nuns pontos de Boas, noutros, de Frazer, e de outros antropólogos inglêses, em alguns, de Malinowski e de antropólogos alemães como Thurnwald e franceses, como Rivet, vir-se bem ou mal realizando menos como antropólogo prêso a qualquer compromisso de ordem didática ou de confraria antropológica do que como livre-atirador nessa e noutras ciências do Homem. A quanto possa ser reconhecido nêle como saber antropológico, orientado principalmente por Boas na parte disciplinar ou sistemática dêsse saber, vem associando outros possíveis saberes. O dos métodos de análise e de reconstituição históricas por exemplo, e o de interpretação sociológica dos fenômenos sociais. Saberes cujos fundamentos adquiriu quer na mesma Universidade de Colúmbia, dos seus mestres regulares, quer de mestres, por assim dizer, para êle, bissextos dessa universidade e da de Harvard e, na Europa, das universidades de Oxford, da Sorbonne e do Colégio de França - Lucien Febvre, um dos franceses - cujas lições foram proveitosíssimas aos seus estudos assim conjugados. Mestres diferentes e até contraditórios, não só quanto ao diverso das especialidades, como quanto ao vário das suas origens e dos seus tipos de formação nacional e filosófica, alemão, Boas, anglo-americano, Giddings, inglês oxoniano, Zimmern, francês, Lucien Febvre, português, o extra-universitário João Lúcio de Azevedo.

Só quem não visasse realizar estudos pós-graduados, atendendo estritamente às exigências para graus, acadêmicos de caráter didático, ou seguir, sôbre esta base, carreira pedagógica, poderia ter se dado ao luxo de procurar realizar suas próprias combinações de diferentes saberes relativos ao Homem e as suas culturas, fazendo de lastro principal dêsse esforço de combinação os estudos antropológicos. Inclusive o da biologia - com dissecação de animais acompanhada de desenhos, pelos próprios estudantes - e os da antropologia física.

Ao sentido, assim amplo, de antropologia, seguido por alguns antropólogos e que os têm levado, à vizinhança dos estudos de biologia, de história, de sociologia, de psicologia, e da própria filosofia, sob a forma de antropologia filosófica, há quem se oponha, considerando-o desdenhosamente eclético. Foi acusação que alguns dos especialistas mais estreitos levantaram contra Malinowski ainda mais do que contra Boas. Pois em. Malinowski, mais do que em Boas, ao saber do cientista se juntava aquêle talento literário que, segundo o Professor Kluckhohn, permitia-lhe dramatizar os resultados do trabalho de carnpo em que se empenhava com um gôsto quase romântico por essa espécie de trabalho para êle lúdico. E é muito raro, nas chamadas ciências do Homem, o indivíduo apenas capaz de medir crânios, alinhar núneros, aplicar a situações novas técnicas desenvolvidas noutras situações, e de apresentar o resultado dêsses trabalhos, aliás úteis e necessários, no jargão da confraria particular a que pertence, perdoar ao indivíduo inovador ou renovar seus arrojos de inovação ou de renovação; e, principalmente, o que houver de literário, de pessoal ou de dramático na sua expressão.

Num ponto, Perteneyo aos que divergem da orientação antropológica de Malinowski de modo absoluto: no seu pouco aprêço pela reconstituição do passado, no estudo antropológico de uma sociedade ou de uma cultura. O Professor Lowie foi dos que acusou mais vigorosamente Malinowski, ao considerar seu modo de ser antropólogo, em History of Anthropological Theory: de procurar realizar uma antropologia funcional que fôsse anti-histórica. Ou que prescindisse do estudo histórico das instituições consideradas pelo antropólogo na sua funcionalidade.

Da minha parte creio ter me situado pioneiramente, desde as minhas primeiras tentativas de estudos sociais, não só entre os antropólogos que vêm transferindo os métodos de indagação antropológica do estudo apenas de sociedades ou culturas primitivas para o das sociedades ou culturas mistas ou para o das sociedades ou culturas denominadas civilizadas, como também entre os antropólogos que, na análise e na tentativa de interpretação de sociedades e de culturas mistas vêm se utilizando de métodos, histórico-sociais, à base de documentos convencionalmente históricos, até onde é possível essa utilização, e de métodos histórico-antropológicos, naquelas áreas socioculturais de comportamento humano só susceptíveis de ser alcançadas, no que se refere a origens de costumes, de intuições, de estilos de vida, através de métodos antropológicos que façam as vêzes dos puramente históricos. Exemplo: a reconstituição de origens Africanas de grupos da população brasileira dessa procedência, através de sobrevivências, entre êles, de costumes susceptíveis de caracterização antropológica, como os diferentes usos, pelas mulheres, de turbantes ou panos de cobrir a cabeça ou de envolver o torso. Estudo a que simultâneamente nos entregamos, com o mesmo objetivo histórico-antropológico, um ignorando o trabalho do outro, o Professor M. J. Herskovits, na Guiana Holandesa, e, no Nordeste brasileiro, eu, com o auxílio do pintor Cícero Dias que, no trabalho de reprodução minuciosa de formas e de côres dos turbantes e dos panos das mulheres cobrirem a cabeça, há trinta anos ainda muito em uso no mesmo Nordeste, pelas mulheres mais rústicas de origem africana, realizou uma das suas melhores contribuições para os estudos de antropologia no nosso país. A outra foi ter colaborado, de modo efetivo, comigo, na organização da mostra de objetos de arte popular afro-brasileira, que, durante dias, atraiu para o saguão do Teatro Santa Isabel, do Recife, um. público numeroso e espantado com a realização de uma exposição de objetos tão rústicos em dependência de teatro tão requintado. A mostra foi iniciativa do V Congresso de Estudos Afro-Brasileiros, em 1934; ano, por êste fato, memorável para estudos ao mesmo tempo antropológicos e historicológicos - como os denomina o Professor Julián Marías - no Brasil.

Ao comentar, recenternente, em publicação da Unesco, o que chama a "crise moderna da Antropologia", o Professor Claude Lévi-Strauss poderia ter mencionado vir o Brasil, pelos seus pensadores e cientistas sociais, antecipando-se a outros povos em substituir os ensaios, sôbre o próprio Brasil, sob a forma de estudos um tanto paternalìsticamente antropológico-etnográficos - os realizados por Nina Rodrigues, por exemplo, e por outros pesquisadores brasileiros como que sub-europeus, na sua perspectiva, e por conseguinte, observadores de fora para dentro, isto é, brancos "superiores" e paternais com relação a negros e mestiços "inferiores", da realidade nacional - pelos estudos antropológicos de um nôvo tipo: os que se realizem de dentro para fora, por analistas identificados com uma civilizção que vem tomando consciência de si mesma e do que nela, sendo extra-europeu, não é para ser considerado inferior ao tipo europeu - ou anglo-americano - de civilização e de sociedade, embora junte elementos dos chamados primitivos, de cultura, aos denominados civilizados, admitindo-se o primado em vários setores, dos elementos civilizados, e em outros, dos primitivos.

Estão nesta categoria estudos já realizados por modernos antropólogos brasileiros e como os que eu próprio venho procurando realizur entre êles, com dupla perspectiva antropológica, física e sociocultural, O escravo em anúncios de jornais brasileiros do século XIX. Estudos, alguns dêles, Dublicados na excelente Revista de Antropologia, de São Paulo, outros, pelos Museu Goeldi. de Belém, Nacional, do Rio de Janeiro, Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, do Recife, e pela Universidade Federal da Bahia.

Se a duplicação ou multiplicação de perspectiva nos estudos antropológicos, entre modernos povos não-europeus, importa na revolução "no plano das ciências humanas", a que se refere o Professor Claude Lévi-Strauss não será, talvez, exagêro dizer-se da mesma revolução, que teve sendo o seu comêço, um dos seus começos, no Brasil. Foi no Brasil que primeiro se realizaram, com grandes deficiências, é certo, nos seus arrojos experimentais, mas de modo, mesmo assim, válido para estudos noutros países ou noutras áreas. E arrojos antropológicos e, ao mesmo tempo, historicológicos, que importaram na tomada de consciência, por uma civilização de nôvo tipo - civilização ao mesmo tempo civilizada e primitiva nos principais elementos de sua composição de se encontrar apta para alguma coisa de mais importante que a simples auto-determinação no setor sòmente politico: a auto-análise, no plano social ou sociocultural. E também a auto-interpretação, com qualquer coisa de humanístico, o historiador tornando-se então parente do próprio filósofo e do próprio poeta - no sentido de criador - das modernas concepções de Ruth Benedict e de Robert Redfield, além do historiador configurado por Kroeber e por Evans-Pritchard.

Para essa pluralidade de perspectivas, nos estudos sociais, em geral, nos antropólogicos, em particular, creio vir contribuindo modestamente e a meu modo. Um modo, antes de livre-atirador do que de especialista ligado a uma só instituição e mesmo a uma só ciência. O que não significa que me venha mantendo afastado de univesidades ou de institutos especializados em estudos sociais. Ao contrário: de algumas universidades como, no estrangeiro, a de Colúmbia e a de Coimbra e no Brasil as federais, a da Bahia e a de Pernambuco, sou quase pessoa de casa.





Como e porque procuro ser historiados social


"...no es possible entender la historia más que viendo a que sujeto acontece y este sujeto es una unidad de convivência o sociedad, con una estructura propia, tema de la sociología". Juliám Marías




Serei, de algum modo, historiador, ao mesmo tempo que sociólogo ou antropólogo? Para os historiadores mais ciosos da pureza da sua especialidade, creio que não, embora, para meu espanto, tenha sido já eleito sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - de tão insigne tradição, e efetivo, do Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, da Academia Portuguêsa da História e da Academia da História do Equador. Instituições - estas Academias - que datam do século XVIII; e conservam alguma coisa de religioso na sua fidelidade ao culto senão da ciencia, da arte da História com H maiúisculo.

Os historiadores; mais ciosos da pureza do seu ofício parece se esmerarem em excluir-me do seu número; em conservarem-me à porta do templo da sua deusa, de maneira semelhante à daqueles críticos literários extremamente severos em sua identificação da literatura com as chamadas belas-letras; e, por isto mesmo, quase místicos em seu afã de evitarem que escritores impuros se aproximem de qualquer das igrejas literárias sob sua guarda. São, segundo êles, recintos em que só devem ser admitidos beletristas. Sagrados, por conseguinte; e exclusivos dos sacerdotes ou diáconos das belas-letras.

Com relação à História, eu próprio hesito em considerar-me, sem mais aquela, historiador. Daí a ênfase que costurno pôr no adjetivo "social" para definir minha condição não de todo ortodoxa de historiador: historiador social em vários pontos inseparável do antropólogo social ou cultural. O adjetivo, quase dominaria o substantivo.

Devo, a êsse propósito, fazer um pouco de história; e esta, autobiográfica, além de social ou cultural. Os anos que se seguiram ao meu regresso do estrangeiro - dos Estados Unidos seguira eu para a Europa, onde meus estudos, seriam principalmente os antropológicos, em museus especializados e orientados de Colúmbia, pelo Professor Franz Boas - já recordei, noutro ensaio, que foram para mim de quase acídia; de desinterêsse quase mórbido por aquêles estudos realizados no estrangeiro e absurdos, alguns - pensava eu - para o Brasil daquela época: um Brasil talvez mais convencional e, no mau sentido, mais intelectualmente suburbano, que o de hoje. Foram anos, aquêles, de esfôrço por vezes pungente de reintegração no meio brasileiro que implicou, por algum tempo, em repúdio às minhas ligações com universidades estrangeiras. Daí meu desprêzo pelo opúsculo escrito em inglês - intitulado Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century: tese de Mestrado apresentada à Universidade de Colúmbia - ter sido igual ao desinterêsse que pelo mesmo trabalho ostentaram os então secretários dos Institutos Históricos - o Brasileiro e o Pernambucano - a quem foram oferecidos, por mim, exemplares do ensaio, por sugestão de meu mestre e amigo Oliveira Lima.

Era um trabalho de jovem com pretensões a historiador social que talvez devesse ter merecido alguma atenção da parte dêsses eruditos brasileiros. Não mereceu nenhuma. êles, parecem terem enxergado no livreco apenas literatice; e essa, em língua inglêsa, que desconheciam. Era um trabalho - devem ter raciocinado - que, para ser histórico, apresentava-se paupérrimo em suas citações de datas e de nomes próprios; e a que faltava, por outro lado, para ser considerado tentativa de interpretação sociológica de história, um mínimo de solenidade nas citações de sociólogos, dentre os então conhecidos no Brasil. Sendo assim, como poderia um trabalho tão diferente dos convencionais ser tomado a série em sodalícios então dominados por intelectuais tão caturras? Se o ensaio merecera a aprovação de mestres universitários nos Estados Unidos, isto não surpreendia tais caturras. Um dêles, quase imitando certo personagem de Eça, chegou a perguntar-me certa vez: "Mas existem mesmo universidades de alta categoria intelectual nos Estados Unidos?" A idéia predominante entre muitos dos intelectuais brasileiros da época, a respeito daquele país, era ainda sumária: admitiam o brasileiro que estivesse nas escolas dos Estados Unidos - ou antes, nas suas oficinas - estudando engenharia, mecânica, agricultura. Daí eu raramente me ter apresentado, naqueles dias, aos meus compatriotas, indivíduo de formação universitária. Pois a muitos difìcilmente convenceria ser "homem formado" sem haver estudado nem engenharia nem mecânica nem agricultura. E sim umas vagas Ciências Políticas, inclusive algumas Jurídicas e várias Sociais. Entre as Sociais, a Antropologia Cultural e a História Social. Entre as Políticas, a Economia. Entre as Jurídicas, a Diplomacia e o Direito Internacional.

Foram êsses estudos, na Universidade de Colúmbia, que me levaram - numa época em que na grande universidade estava ainda quente na presença, entre seus mestres, de Charles A. Beard, o autor de Economic Interpretation of the (American) Constitution, conservando-se entre seus catedráticos, um mestre de Sociologia como Giddings e um profêssor de Economia como Selligrnan - a interessar-me não só pela interpretarção econômica como pela interpretação sociológica do passado humano; e não só, em pesquisas históricas em torno da chamada "economic data", como pelas "histories of every day life" que constituiam parte considerável da história social.

Estava-se na Universidade de Colúmbia, nos meus dias de aluno graduado da sua Faculdade de Ciências PoIfticas (Jurídicas e Sociais), sob o impacto da revolução intelectual que ficaria conhecida por "new history". Segundo a "new history" - nisto semelhante à renovação de estudo histórico-social que vinha sendo empreendida na França por Marc Bloch e seria continuado por vários dos seus discípulos, um dêles o hoje Mestre Fernand Braudel - ao estudo do passado humano fazia-se necessário aplicar critérios diferentes dos convencionais - isto é dos cronológicos, dos concentrados apenas no estudo dos fatos políticos e guerreiros. êsses critérios novos, sugeriram-nos os modernos avanços em Psicologia, em Antropologia, em Economia, em Sociologia, em Geografia, em Ciências Políticas e Jurídicas, na própria Biologia. Havia o perigo de um generalismo que, em vez de corrigir excessos de especialismo, conduzisse o estudo do passado humano ao excesso oposto. Mas havia também um possível meio-têrmo entre tais excessos. Não fôra através dêsse meio-têrmo que Beard escrevera sua Economic Interpretation of the Constitution? E que Turner tragara sua também hoje clássica The Significance of the Frontier in American History? Que Thomas e Znaniecki produziram sua monumental The Polish Peasant in Europe and America (1920)? Que D. H. Kulp traçou sua Country Life in South China (1925), Robert S. Lynd e Helen M. Lynd, seu Middleton (1929), e G. T. Robinson sua Rural Russia under the Old Regime (1932)? Que Thurman Arnold veio a escrever o seu The Folklore of Capitalism (1938), Max Radin, o seu Manners and Morals of Business (1939) e Hortense Powdermaker, After Freedom: a Cultural Study in the Deep South (1939)?

O que se firmou, naqueles dias, na Universidade de Colúmbia, foi principalmente isto: a consciêneia de ser necessário a estudos mais profundos do passado humano que os convencionais, critério cultural - um "cultural approach" - que os libertasse de várias convenções inclusive duas, importantíssimas: a etnocêntrica e a de se separarem arbitràriamente no estudo de uma sociedade, aspectos especiais do seu comportamento, para análises inteiramente isoladas sob um especialismo, pseudo-científico. Tal libertação verificou-se em grande parte, através da Antropologia Cultural. Como sugere a Professôra Caroline F. Ware, na introdução à obra coletiva The Cultural Approach to History, (1940), o estudo de sociedades primitivas - grupos, de ordinário, pequenos - permitiu ao cientista social especializado em Antropologia antecipar-se aos demais cientistas sociais na realizaçãb de pesquisas sociais - e histórico-sociais - em que as culturas analisadas passaram a ser consideradas como todos ou complexos, para que fôssem assim, compreendidos os aspectos particulares dessas culturas; e também como culturas válidas em relação a si próprias - aos seus próprios valores - e não aos do sistema ocidental de cultura a que estivesse ligado o analista.

à base de estudos antropológico-culturais é que, noutros estudos sociais, vêm sendo, considerados como, que gestaltianamente os complexos socioculturais que constituem uma cultura contemporânea; ou que caracterizaram uma época dessa cultura, quando cultura já histórica. Daí ser falho, para quantos seguem semelhante critério, os estudos econômicos, por exemplo, ou políticos, ou sociológicos, a que falta o sentido corno gestaltiano da configuração total da sociedade, da econornia, do tipo de govêrno considerado; o conhecimento das origens e do desenvolvimento dessa economia, dessa sociedade ou dêsse tipo de govêrmo.

O autor de Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX, ao reler êsse seu trabalho de juventude (1922) - há pouco aparecido em português, em ótirna tradução realizada pelo Professor Valdemar Valente - muito se regozija com o fato de que no seu primeiro ensaio de história social madruga, pioneiranente, um critério gestaltiano de interpretação sociológica de uma época do passado social brasileiro, que, como critério de reconstituição e de interpretação de um mornento histórico, talvez não se encontre, tão específico, em trabalho anterior ao seu, publicado em qualquer língua. êsse critério êle o desenvolveria no seu "Vida Social no Nordeste brasileiro (1825-1925): aspectos de um século de transição", publicado em 1925 na obra coletiva, comemorativa do 1º centenário do Diário de Pernambuco; e nos seus trabalhos, porventura mais sistemáticos, além de mais densos, do que êsses, Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso.

É um critério que se inspira na "new history", sem dúvida; e que se apoia, em grande parte, nos estudos de Antropologia do autor com o Professor Franz Boas na Universidade de Colúmbia. Mas não deixa de ter suas originalidades: uma delas, o modo de vir descendo, o autor de tal modo à reconstituição do comportamento íntimo dos grupos que vêm procurando analisar reconstituição histórica, reconstituição antropológica, de interpretação psico-social - que alguns críticos anglosaxônicos, ainda impregnados, ao que parece, de moralismo Vitoriano, têm dito do autor que não faz história social e sim história sexual. Ao que um crítico brasileiro já acrescentou não serem os trabalhos do autor de Casa-Grande & Senzala nem de sociologia nem de história nem de antropologia nem de literatura e sim pura e simplesmente de pornografia. Tal tendência - a tendência sendo para a chamada pornografia, para a consideração insistente, do fator sexual na formação da sociedade e do ethos brasileiros - veio a acentuar-se, é fato, em Casa-Grande & Senzala e em Sobrados e Mucambos; mas já se esboça em Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX.

Talvez já se tenha tornado evidente do autor que, no seu modo complexo - antropológico ao mesmo tempo que histórico-social - de, vir versando os seus temas, quando históricos, não vem imitando, como já sugeriu outro crítico brasileiro, os Lynd; nem qualquer outro autor estrangeiro, embora de vários tenha assimilado sugestões e aproveitado estímulos. Os Lynd apareceram em 1929. O autor de Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX em 1922 já bem ou mal arranhava aquêles temas, servindo-se pioneiramente de critérios e de técnicas de que viria a utilizar-se menos desajeitadamente - talvez - em 1925 e, com alguma amplitude e alguma repercussão, em 1933, em obra da qual se diria na Europa e nas Américas que poderia servir de modêlo a estudos europeus e americanos de um nôvo e necessário tipo. Entre essas técnicas, a de reunir o analista sôbre as épocas que vem procurando reconstituir, para as interpretar, todo o documentário litográfico e fotográfico que lhe tem sido possível reunir sôbre pessoas, sôbre casa, sôbre móveis, sôbre paisagens, sôbre veículos, socialmente e culturalmente significativos. Iniciou-a o autor precisamente em 1922, ao preparar o seu ensaio em língua inglêsa sôbre os meados do século XIX no Brasil. Com o maior prazer veria tal método de impregnar-se o analista do ambiente característico de uma época consagrado alguns anos depois, pela ilustre American Historical Association; a qual, ao publicar em 1940 o seu The Cultural Approach to History, como que oficializaria a utilização científica de daguerrétipos, de litografias e de fotografias não só para a ilustração como principalmente para a preparação de estudos histórico-sociais. Considerava a mesma Associacão tal utilização, pela palavra dos Professores Roy E. Stryker e Paul T. Johnstone, de "as yet unrealized potentialities", e destacava, entre essas potencialidades, a captura, por meio da fotografia documental, de "important but fugitive items in the social scene". Pois "documentary photographs... can interprete the human and particularly the inarticulate elements". Principalmente quando nos lembramos que "every culture... creates its own landscape". não só cada cultura cria sua paisagem susceptível de ser documentada por fotografias: cria também seus tipos de móvel, de homem, de mulher, de criança, de interior doméstico, de veículo, também susceptíveis de ser documentados em litografias, daguerreótipo e fotografias de valor antropológico-cultural e histórico-social.

Do meu remoto trabalho de mocidade Vida Social no Brasil nos Meados do, Século XIX, já sugeri que nêle se encontra o gérmen de tôda uma série de estudos de caráter histórico-social ou semi-histórico que bem ou mal - provàvelmente mal - vieram a ser por mim realizados, dos trinta aos sessenta anos: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Nordeste, Ingêses no Brasil, Um Engenheiro Francês no Brasil. Em gérmen também ali se encontra o ainda em elaborardo Jazigos e Covas Rasas, em que se pretende reconstituir o conjunto de ritos de sepultamento de mortos, característicos tanto da convivência como da hierarquia patriarcais no Brasil. Foi assim aquêle trabalho de jovem mal saído da adolescência - trabalho na verdade iniciado, ainda na adolescência, escrito em língua inglêsa e publicado no estrangeiro por um, então, ainda quase menino saído do Recife - a antecipação de várias das produções em que me empenharia, homem já feito, como se cumprisse um programa por mim próprio traçado nos meus dias de universitário. Antecipação não só daquelas produções, especìficamente consideradas: também de todo um conjunto de métodos que se desenvolveriam, com algum pioneirismo, naqueles e noutros trabalhos. Entre êsses métodos, a utilização de jornais e de revistas das épocas evocadas - inclusive dos seus anúncios sociológicamente expressivos; a utilização, sob critério, histórico-social ou antropológico-social, de daguerreótipos, de fotogratias e de litografias - de suas sugestões evocativas e de suas informações de caráter antropológico e não apenas de seus pormenores estritamente históricos; a utilização de depoímentos de sobreviventes idôneos das mesmas épocas, interrogados, ouvidos e consultados pelo autor. De vários sobreviventes: portadores, portanto, de várias verdades e não de uma só; ou de vários modos de contar ou de evocar ou de comentar a verdade por êles experimentada, vista e sentida, na meninice ou na mocidade. A verdade ainda verde ou ainda crua: antes de se tornar, depois de amadurecida e tratada por uma arte, ciência semelhante à da culinária, até apresentar-se como aquela verdade histórica em que uma verdade predomina sôbre várias. A êste respeito recordarei aqui palavras perspicazes; que recolhi de velha crônica histórica portuguêsa.

Perspicazes só, não: sábias. Que dizia, na Crônica da Tomadade Ceuta, remoto historiador lusitano? Que a escrevera "...considerando como o tempo escorregava cada vez mais... per cuja rezam se perderia a memoria de tam notáveis cousas". E ao mesmo tempo observando: " . . . he cousa certa que nos feitos que muitos viram e sabem, nunqua homem tantas vêzes pode perguntar que sempre nam ache cousas novas que saber, e isto por cada hum contar o feito por sua guisa". Vêm estas palavras na velha Crônica da Tomada de Ceuta (Cap. 111, pág. 13).

Devo também confessar haver adotado, desde muito jovem, certo modo como que impressionista - expressionista de tentativa de reconstituição do passado mais íntimo e até mais secretamente sexual do brasileiro - modo, tornado possível pela atitude empática do autor com relação aos fatos e, principalmente, ao elemento humano evocados mais com saudade dos antepassados do que com repugnância pelos antigos. É atitude já presente em Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX. Presente e à espera de ser desenvolvida.

Desenvolvimento que bem ou mal verificou-se - ou vem se verificando - naqueles meus trabalhos que sendo tentativas de análise antropológica e de interpretação sociológica do passado do homem situado no trópico, em geral, e do brasileiro, em particular, são também - ou vêm sendo também - desajeitadamente e a seu modo, ensaios de história social e, ao mesmo tempo, de antropologia social e cultural e de sociologia genética. Talvez se possa dizer que me venho especializando em lidar com problemas e situações que só se encontram nas fronteiras em que essas ciências se cruzam. Problemas e situações antes marginais do que puramente isto ou puramente aquilo.

Não suponho que me tenha levado a conceber, ainda adolescente, um ensaio de história social como Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX um ânimo mais forte que o introspectivo. Ou que o de análise de mim mesmo: o de encontrar-me a mim mesmo nos avós, nos antepassados, nos brasileiros de uma época anterior à minha e à dos meus pais. A tanto acredito que me levaram, ao mesmo tempo que a leitura de Montaigne e de Pater - o Pater, autor dessa pequena obra prima, que tanto me impressionou a adolescência, The Child in the House - os estudos de antropologia alongados nos de psicologia; e alongados também na leitura daqueles misticos espanhóis, lidos também na adolescência e dos quais continuo tão adepto.

Antes de Proust, já Walter Pater me comunicara o gôsto pela recaptura daquele tempo que o indivíduo, pela extensão da memória individual em memória familial e até nacional, pudesse surpreender, por vêzes, "almost still"; e no qual encontrasse suas origens mais intimas juntamente com uma melhor percepção daquilo que um intérprete do mesmo Pater, o Professor A. C. Benson, chamaria o contraste - ao mesmo tempo que a semelhança - entre o que somos e o que fomos: "what we are and what we have become with what we were and what we might have been". Isto, também: o que poderíamos ter sido. Especulações psicológicas sôbre o que o indivíduo que se analisa, projetando essa análise sôbre o passado da sua gente, poderia ter sido se outro tivesse sido o ambiente da sua meninice e se outros tivessem sido os ritos sociais de sua formação; e outra, também, sua herança não só física como cultural, dos avós ou dos antepassados.

êsse pendor introspectivo não tem faltado aos meus ensaios, sejam de antropologia, ou de sociologia, sejam de história social. Ou de literatura, como no recente Dona Sinhá e o Filho Padre. Acredito que a disciplina da formação científica adquirida, em centro sofisticadamente cosmopolita de saber, tenha contido nesse meu pendor os seus piores riscos. Mas só os piores: não os outros.

Entretanto, o que agora se diz naqueles meios europeus e anglo-americanos onde mais se vêm aprimorando os estudos históricos, permite-nos ser, nesses estudos, transigentes senão com aquêles pendores, introspectivos, com os intuitivos. É de 16 de fevereiro, de 1964 um artigo no The Times Educational Supplement, de Londres, sôbre o assunto, em que se afirma justamente isto: que enquanto "the scientific method, which weighs evidence and deduces general conclusions"... "is appropriately applied to what one might call the outward form of history"... "its inner content"... "the rhythm and purpose which gives the relationship between historical events and organic unity, these can be only understood through the imaginative or intuitive faculty".

É o que venho procurando, dentro dos meus limites, desde aquele trabalho de mocidade há pouco reaparecido em edição em língua portuguêsa sem que o tempo o tenha tornado de todo arcaico: compreender momentos significativos do passado mais que social, íntimo, da gente brasileira, em particular, e do homem situado no trópico, em geral, descendo tanto quanto me tem sido possível descer, pela ciência com o auxílio da intuição, ao "inner content" dêsses passados; aos ritmos que se vêm parecendo ligar os fatos reunidos, através de pesquisas, em fontes de várias épocas, e de várias áreas, em conjuntos vivamente orgânicos.

Houve quem supusesse no Brasil, quando há trinta e tal anos me apresentei com uma obra principalmente, no seu aspecto científico, de sociologia genética ou de antropologia sociocultural, mas de modo algum exclusivamente de sociologia genética ou de antropologia sociocultural - ao contrário, auxiliada em sua procura de uma totalidade sociocultural ou de uma realidade pelo emprêgo de outros critérios e de outras técnicas de indagação - que aí estava a aplicação ao nosso país de uma convergência de métodos já oficializada ou regularizada nos Estados Unidos.

Engano à verdade é que a sociologia norte-americana foi, com a francesa, até recentíssimos dias, uma das mais exclusivistas, em seu sociologismo. Não faz muito tempo, nos Cahiers Internationaux de Sociologie - no mesmo número dessa publicação ilustre, em que o Professor Baladier salientava, em livro brasileiro, o afã, já destacado pelo Professor Lucien Febvre, de ser ao mesmo tempo sociológico e histórico e de recorrer a fontes de informações diversas como se o lema do autor fêsse "je prends mon bien là où je le trouve" - o Professor Alain Touraine, em, longo artigo sôbre o "tratamento da sociologia global na sociologia americana" isto é, dos Estados Unidos - "contemporânea", mostrava ser recente êsse tratamento, sendo muitos os cientistas sociais, ainda esquivos, nos Estados Unidos como na própria Europa, à "colaboração necessária entre as várias disciplinas para a compreensão do fato social total". Destacava mais o Professor Touraine que apenas na Universidade de Harvard, já se procurava resolver o problema através de uma tentativa de organização mais cientìficamente coerente, e não apenas pragmàticamente colaboracionista, dos estudos sociais, representada pelo Departamento, da mesma universidade, de "Relações Sociais", onde se começara a juntar ao ensino da sociologia parte considerável do ensino de antropologia e de psicologia. O ensino assim cientìficamente coerente de matéria social estava o cargo de uma constelação de sábios - Parsons, Allport, Murray, Kluckhohn, Stonffer, Bales, Bruner, Sorokin - semelhante a que iluminara a Universidade de Colúmbia nos primeiros decênios dêste século: Boas, Giddings, Seligman, Dewey, John Basset Moore, Dunning, Hayes, Beard, Shepkerd.

Ainda que o crítico europeu considerasse necessário completar-se, numa nova e mais sistemática organização que se desse ao estudo do social, o conceito de "relações" - que alcançasse os problemas psico-sociológicos de "interação" e de personalidade - reconhecia a importância da renovação de métodos de análise e compreensão do social empreendida em Harvard como corretivo ao fato de que a sociologia norte-americana, pròpriamente dita, vinha ignorando, às vêzes de modo sistemático, os problemas por êle chamados de "sociedade global", excetuado um ou outro sociólogo mais atento aos aspectos de dinamismo histórico dos mesmos problemas.

Para o Professor Alain Touraine o que hoje se impõe a cientistas sociais é partirem, para melhor organizarem o estudo do social total ou do que há de comum em suas especialidades, não da organização social que se deseje considerar, mas de uma situação social que a exprima ou em que ela se exprima; e procurarem compreender várias instituições 4 base de interpretnão dada por um grupo social de certa situap,ão básica que as condieione. Perdoe-se ao autor destas. notas a imoddstia: mas a tentativa de semelhante interrelacionismo de critério e de método, partindo menos da consideração de uma sociedade, vista em vago conjunto político-geográfico, que de situacões sociais características dos principais de seus membros - no caso, senhores, escravos, habitantes de casas nobres e habitantes de casas servis, bomens, mulheres, velhos, meninos condiclonados; por suas situações extremas e intermediárias nesse sistema hierárquico de convivência - foi esboçada no Brasil, há mais de trinta anos, e recebida, então, por ortodoxos da sociologia norte-americana e da própria sociologia francesa, com reservas que só agora se vêm desfazendo, pelo fato daquele critério, melhor definido, melhor racionalizado, melhor sistematizado, do que o fôra pelo desajeitado pioneiro latino-americano, vir-se afirmando, na França, através daqueles que, como Georges Gurvitch, opõem ao determinismo institucionalista o estudo psico-sociológico das chamadas "realidades concretas do meio social"; e nos Estados Unidos, não só pela nova Escola de Harvard como por várias iniciativas recentes e já triunfantes, no sentido de acrescentar-se o critério histórico ao sociológico e o antropológico ao psicológico e, ainda, ao sociológico. E quando se diz critério, diz-se também método decorrente dêsse critério. - Abordagem -.

É justo salientar-se que, da parte de historiadores, e de antropólogos mais do que de outros pesquisadores, tem havido há anos, no Brasil e noutros países, o afã de reunir fatos cujas interrelações esclareçam melhor a vida e as atividades extra-políticas e extra-militares, não só do grupo ou dos grupos dominantes mas dos dominados - afã que no Brasil vem resultando em tentativas de se reconstituir o passado social e cultural dos grupos não-europeus que formam a sociedade brasileira. E também o passado da mulher, o do menino, o do imigrante pobre, o do pequeno lavrador, o do sertanejo arcaico: afã entre histórico e sociológico. Entre histórico e antropológico.

Para conseguir-se a extensão ou a intensificação do conhecimento hisórico-social ou histórico-cultural de uma sociedade total, é necessário recorrer-se a técnicas de indagação fornecidas por ciências vizinhas da histórica: a antropológica, a psicológica, a folclórica, a geográfica. Dessa necessidade, há mais de trinta anos apercebiam-se analistas brasileiros do passado social da sua gente. Quando a Professôra Carolina F. Ware, em trabalho publicado em 1940 salientou a necessidade dos novos historiadores norte-americanos "take cognizance of nondominant as well as dominant groups, and of factors which cut across national lines", choveu no moIhado quanto ao que, bem ou mal, já se vinha fazendo há anos, mas principal e sistemàticamente, desde 1933, quando aqui se publicaram páginas escritas sob um critério múltiplo, mas básicamente antropológico-cultural, de história íntima, sexual, bio-social, psico-socio-econômica, e não apenas econômico-social, ou política da sociedade, patriarcal-escravocrática brasileira. Critério de modo algum atingido em tentativas anteriores, em qualquer pais, de reconstituição global de um passado nacional ou regional, sob ânimo principalmente genético-sociológico.

Quais as vantagens de semelhante critério múltiplo de análise de um passado, nacional ou. regional, considerado também em suas projeções sôbre atualidades de outro modo incompreensíveis? Para a Professôra Ware está, entre várias outras: a de revelar interrelações quase sem fim entre funções sociais de ordinário consideradas estranhas umas às outras. O que parece significar que buscando-se conhecer uma realidade social por processos ou através de métodos interrelacionistas descobre-se ser ela um complexo, de interrelações. Meios e fins se manifestam igualmente como expressão de um interrelacionismo que os estudos das próprias sociedades complexamente civilizadas, por métodos outrora só aplicados às análises de sociedades chamadas primitivas - e nessa transferência também são notáveis as antecipações brasileiras - vêm revelando que quase tanto quanto entre as chamadas primitivas, atividades, funções, formas de cultura e organização são, entre os civilizados, interrelacionadas, as juridicas deixando-se influir pelas políticas, as políticas, afetar pelas econômicas, as econômicas pelo conjunto das culturais. Os psicólogos da chamada Escola Gestalt chegam a considerar, do ponto-de-vista psicológico, as relações entre as formas (porque as funções seriam desempenhados sob formas diversas), relações que, na mente individual, se fixariam num processo comum de desempenho, de funções diversas. Processo comumem que se refletiriam o interrelacionado de uma cultura e a projeção do todo sôbre a experiência de cada UM. Donde as próprias biografias, precisarem de ser realizadas, sob critério interrelacionista.

É certo que critério semelhante ao "total" dos psicólogos da Gestalt, fôra já esboçado, do ponto-de-vista histórico-social, no estudo da história, pelas escolas chamadas de "nova História" que floresceram nos primeiros decênios, na Europa, como principalmente na Universidade de Colúmbia. Mas como salientam os críticos dessas "Escolas", deixaram elas de fornecer aos historiadores socioculturais base de selegfin e princípios de organização do material imenso que seus adeptos consegulam reunir. Contribuiram assim para acentuar a dispersão de esforços entre historiadores e cientistas socais, vítimas, em tais casos, não de especialismo exagerado, mas, por vêzes, de enciclopedismo desordenado. Enquanto com a moderna tendência para o interrelacionismo, à base notadamente do critério histórico-cultural de estudos de sociedades, civilizadas ou mistas, e não apenas primitivas - critério que se manifestou no Brasil em antecipações não de todo desprezíveis - dão-se aquêles cientistas bases para a seleção, organização e interpretação do mesmo material imenso, partindo do ponto de que cada sociedade tem sua estrutura de instituições, valores e ideologias e que nenhuma dessas partes pode ser compreendida sem referência ao seu lugar no todo.

São de 1937 palavras do falecido historiador-sociólogo Charles A. Beard - dêle e de Alfred Vogts - que importam numa espécie de manifesto a favor de nova técnica de história sendo interrelacionista, totalista: para a "historiografia contemporânea, tôdas as realidades da vida ligadas com as relações biológicas e culturais dos sexos, famílias, a continuação, o cuidado e a elevação da vida, tornam-se cada dia mais claramente objeto de preocupação histórica". O que no Brasil já se vinha, senão afirmando, esboçando, em estudos ou análises interrelacionistas acompanhadas de tentativas de interpretação ou reinterpretação, também interrelacionista, desde velhos dias, mas notadamente, nìtidamente, inconfundìvelmente, desde 1933, em tôrno do sistema dominante de família: o patriarcal agrário.

De modo que dentro do moderno movimento relacionista, ou totalista, ou interrelacionista, nos estudos sociais, em geral e não apenas histórico-sociais o Brasil pode reclamar pequenos mas nítidos direitos de pioneiro em alguns pontos. Inclusive quanto à utilização de material folclórico, como complemento de outras fontes, de informação, e com o risco de ser essa utilização considerada, por críticos superficiais, uso indevido ou abuso lamentável de pitoresco, de anedota e até de vulgaridade indigna de consideração científica. Hoje é corrente nos Estados Unidos e em vários países da Europa o reconhecimento das vantagens que o cientista social pode derivar dos chamados "folk sources", outrora objeto apenas de indagações folclóricas; mas desde 1924 utilizados no Brasil sob critério e com objetivo sociológicos.

Como acentua em páginas que datam de 1940 o Professor A. Botkin, o historiador social moderno não se deve preocupar apenas com as chamadas "coisas mais finas da vida" mas com as expressões de cultura fora dos livros e das artes eruditas. São elas, ainda que rudes ou grosseiras, expressões cheias de vida que vinham sendo negligenciadas e desperzadas pelos historiadores convencionais e pelos cientistas sociais, com prejuízo para o desenvolvimento dos seus estudos. Analistas do passado social e da formação cultural do Brasil anteciparam-se na valorização dessas fontes não-eruditas de informação histórica, recorrendo a métodos antropológicos e até a fontes folclóricas para completarem as fontes e os métodos convencionalmente históricos, no estudo de um passado e de um conjunto de situações, como os encontrados no Brasil, nem sempre susceptíveis de reconstituição histórica. Através dêsse critério e dessa conjugação de métodos de investigação é que vem sendo possível aos mesmos analistas darem importância histórica - através de evidências antropológicas - à contribuição ameríndia e à contribuirao negra-africana para a cultura brasileira. Esta, uma das antecipações do livro Casa-Grande & Senzala, publicado em dezembro de 1933. Livro em que já se encontra alguma daquela "almost symbiotic relationship" da sociologia com a história que o Professor Peter L. Berger, no seu Invitation to Sociology (N. Y., 1963) destaca como sendo "a notion still alien to most American sociologists".





Como e porque escrevi Casa-Grande e Senzala


" ... chaque type de société possède son devenir, contient même une "multiplicité de temps", sans qu'aucune de ces formes puisse s'imposer comme la seule et unique matrice de l'experience humaine". Georges Gurvitch




Se sou de difícil classificação como sociólogo - sendo, talvez, mais antropólogo ou mais historiador ou mais filósofo da Cultura ou da História do que sociólogo sistemático - na mesma situação está o livro a que mais associado está o meu nome de escritor: o intitulado Casa-Grande & Senzala. Digo nome de escritor porque, afinal, é o que principalmente me considero: escritor. Escritor de sistemática formação científica, é certo, e esta de modo específico, a antropológica - a sociológica. Porém escritor a quem, talvez, não faltem características literárias que lhe dêem direito senão ao título, a uma condição que só se atinge através da arte de escrever.

Talvez seja, também, Casa-Grande & Senzala, dentro dos seus limites, de parente mais que pobre de obras de antropologia ou de sociologia consideradas épicas - o caso da célebre Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence de Arábia - livro sob vários aspectos tão de literatura quanto de antropologia ou de sociologia. Ou quase de literatura, deve dizer o seu autor, com a humildade que às vêzes falta àqueles que só por escreverem muito se consideram audaciosamente escritores; e hesitando em se apresentarem como sociólogos ou antropólogos ou psicólogos ou historiadores, não têm dúvida em se intitularem de escritores.

Que haverá de afim entre um antropólogo do tipo de um Lawrence de Arábia ou, antes, de um Robert Redfield, ou um historiador social do tipo de um Marc Block ou um sociólogo do tipo de um Simmel e um escritor que escreva romances do tipo dos de Tolstoi e dos de Proust e, entre nós, dos de Machado de Assis e Raul Pompéia? Creio que aquela empatia que consiste na capacidade de ver-se um indivíduo em outros e de ver outros em si mesmo, em uma perspectiva tanto de dentro para fora como de fora para dentro. O que Ortega y Gasset - insigne intelectual espanhol de quem não se deve esquecer a formação alemã - chama de "perspectivismo", só é possível à base dessa empatia tão característica dos espanhóis mais castiçamente espanhóis em seu modo de ser, quer escritores, como foi o remoto Ramon Lulio e em nossos dias o não sei se diga moderno - tão de sempre êle nos parece ser - Miguel de Unamuno, sem nos olvidarmos de Cervantes; quer pintores, como o profundamente espanholizado Greco, O espanholíssimo Goya, o próprio semi-português Velasquez; quer ainda, poetas alongados em dramaturgos como outrora Lope de Vega e, nos nossos dias, Federico Garcia Lorca.

Trata-se do que modernos estudiosos do assunto chamam de "desdobramentos conscientes da personalidade" da parte de um autor que junte alguma coisa de criativo, - vá o neologismo - ao poder de observação exata e de análise em profundidade de tal ou qual objeto-sujeito ou sujeito-objeto à capacidade de informar-se de tal ou qual aspecto de uma realidade social ou complexamente humana. O criador ou o analista ou o intérprete de tal ou qual realidade se serve, em tais casos, desdobrando a própria personalidade, das chamadas personalidades hipotéticas que completem a sua, para assim enriquecer-se de novas perspectivas da mesma realidade. Procura ver essa realidade através de outras pessoas ou de outras personalidades reais ou um tanto sob a forma weberiana de "tipos ideais", com os quais procura identificar-se para, assim identificado, por empatia, aperceber-se de aspectos da mesma realidade dos quais não se aperceberia, fechado na sua exclusiva ou única personalidade; ou no seu sexo; ou na sua raça; ou na sua cultura; ou na sua classe.

Ao escrever o estudo intitulado Casa-Grande & Senzala, procurou o seu autor - que, concordando com o Professor Fernand Braudel, se considera, escritor filiado principalmente à tradição espanhola de Roman Lulio: remoto espanhol que para compreender o islamismo desdobrou-se em mouro - desdobrar-se em personalidades complementares, da sua e que a auxiliassem na percepção de uma realidade mútipla e complexa. Levou êsse desdobramento de personalidade ao extremo arriscado, perigoso, mesmo, de, desdobrando sua personalidade de origem étnico-cultural e de formação sócio-cultural, além de principalmente européias, principalmente senhorís, procurar sentir-se também, em seus antecedentes e no seu próprio ethos, não só senhoril como servil; não só europeu como não-europeu; ou especificamente indígena, mouro, judeu, negro, africano, e, mais do que isto: mulher, menino, escravo, oprimido, explorado, abusado, no seu ethos e no seu status, por patriarcas e por senhores. Daí ser Casa-Grande & Senzala um livro múltiplo em suas perspectivas; contraditório, até, no seu perspectivismo; passível da acusação de negrófilo. Mas realizado de modo a tais diferenças de perspectivas e tais contradições de perspectivas por vêzes se complementarem, como corretivo, de alguma maneira, ao que pudesse ser apenas senhoril ou pretender conservar-se monolítico na personalidade do autor; a qual se desdobra em tôrno de certos assuntos a ponto de o autor ser antes um conjunto meio pirandeliano de autores que um autor único, tal a empatia através da qual procura aperceber-se da mesma realidade contornando-a e considerando-a de diferentes ponto-de-vista. Diferentes e complementares: o do homem, o do adulto, o do branco mas também o do menino, o da. mulher, o do indígena, o do negro, o do efeminado, o do escravo. Pontos-de-vista, algumas dêstes, talvez nunca dantes admitidos a uma interpretação, ao mesmo tempo em profundidade e em conjunto, da experiência brasileira. (Ou de qualquer experiência ou formação nacional, a acreditar num Roland Barthes.)

Complementares essenciais, do ponto-de-vista do brasileiro biológica ou sociològicamente ou biològicamente e sociològicamente branco e europeu, além de Católico e de classe, além de raça dominante. Juntos, os dois pontos-de-vista, deram ao autor uma perspectiva mais ampla que as dos analistas parciais e convencionais.

Dentre o que possa ser destacado como nôvo ou inovador no livro Casa-Grande & Senzala talvez nenhum traço se apresente mais significativo do que êste, até hoje pouco considerado pelos críticos: o seu múltiplo e por vêzes simultâneo perspectivismo, responsável por um dos defeitos de composição mais apontados em Casa-Grande & Senzala, livro, de resto, muito mal composto: as suas repetições. Não foi o mesmo livro, ao aparecer, apenas inovador na pluralidade de métodos a que recorreu seu autor, ao elaborá-lo, por um lado, para assombro de críticos anglo-americanos, há trinta e tal anos tão hostis ao, que fôsse a hoje em vigor, entre os cientistas sociais seus compatriotas, interpenetração das chamadas disciplinas sociais; e, por outro lado, para deleite daqueles críticos europeus, principalmente franceses - um Jean Pouillon, um Roland Barthes, um Jean Duvignaud - já então rebelados contra excessos, entre europeus e sobretudo, entre anglo-saxões, de especialismo - especialismo fechado - no trato de matéria social por cientistas sociais: atitude tão daqueles cientistas sociais mais inclinados a imitarem, nesse excesso, os seus colegas das ciências naturais. Isto por se terem olvidado de ser a matéria social, tratando-se do Homem, muito mais difícil de ser fragmentada, para estudos assim particularizados de especialistas que se servissem, em tais estudos, de métodos apenas matemáticos ou de técnicas tão sòmente quantitativistas, de análise, do que a matéria natural: o estudo de coisas, de plantas e de animais. De coisas, de plantas e de animais à revelia do que nêles sejam valores e símbolos.

De um crítico brasileiro, aliás preclaro, o Professor Gilberto Amado, é a observação de ser o livro Casa-Grande & Senzala caracterizado pelo relêvo que dá aos fatos: aos fatos - parece ser esta a idéia do crítico magistral - puros e crus. No que, ao meu ver, se equivoca.

É certo, dêsse livro que se desenvolve sôbre um lastro de fatos retirados principalmente do cotidiano da experiência brasileira durante os séculos mais profundamente patriarcais de formação na América Portuguêsa de uma sociedade estável. Fatos, quase todos êles, recorrentes: recorrentes durante considerável periodo de tempo antes considerado no seu ritmo social do que na sua sequência histórica. E pelo seu caráter de fatos recorrentes, fatos antes sociais do que históricos. Daí o sociólogo francês Georges Balandier ter escrito, a propósito, de Casa-Grande & Senzala, que êsse livro brasileiro poderia ser considerado base para uma Sociologia do Cotidano em profundidade e no tempo.

Entretanto, o que se destaca em CasaGrande & Senzala não é a importâcia dos fatos como fatos; e sim a das relações entre êles. A da sua projeggo em símbolos. Pois é certo, também, do mesmo livro, que o seu autor não se limita a apresentar fatos de caráter sociólogico, isto é, antes recorrências cotidanas do que ocorrências excepcionais. Vai além e procura captar, fixar e destacar nesses fatos o que nêles forma, ou são, valores e, além de valores, símbolos, ligados, uns principalmente ao presente, outros, principalmente a um passado que, de simples realidade histórica, passasse, pela persistência dêsses símbolos em sucessivas ou, mesmo, descontinuas fases de experiência humana - no caso, a experiência brasileira - a realidades, além de históricas, supra-históricas. Tal o próprio complexo que dá título ao livro em aprêço - Casa Grande & Senzala - considerado em algumas de suas manifestações, de processos psico-sociais: sobretudo o de acomodação ou de interpenetração de elementos étnico-culturais aparentemente inconciliáveis.

É esta expressão - Casa-Grande & Senzala - uma expressão a que nao falta historicidade específica. Pode ser encontrada em testamentos e em inventários da época colonial e da imperial brasileira, e até em anúncios de jornais brasileiros do século XIX, com o puro intuito de caracterizar bens ou propriedades de senhores rurais e até urbanos. Mas essa historicidade especifica não seria bastante para dar à expressão valor simbólico se ela não tivesse se projetado na linguagem oral, para caracterizar não apenas bens ou propriedades materiais porém realidades sociais alongadas em símbolos também sociais. Quase "tipos ideais" da caracterização sociológica de Max Weber. O autor do livro que tomou o título de CasaGrande & Senzala consagrou, nessa expressão, dando-lhe valor de símbolos, palavras já vivas na linguagem brasileira de quase tôdas as áreas do Brasil e não apenas das do açúcar. Acrescentou, porém, a êsse uso de palavras descritivas uma símbologia particularmente significativa pela sua riqueza de implicações ou projeções sociológicas. Fêz de "Casa-Grande" o símbolo de todo um status ou de tôda uma posição - a de dominação - na ecologia social e mesmo na física daquele Brasil patriarcal; e de "senzala", o símbolo de outro status e de outra posição na mesma ecologia: a de subordinação, a de submissão. E do & entre as duas realidades, o símbolo de uma interpenetração que concorreu fortemente, dinâmicamente, interativamente, para dar à sociedade e à cultura desenvolvidas no Brasil suas formas mais características de desenvolvimento e não apenas de estabilidade. De dinâmica democratizante como corretivo à estabelecida hierarquia.

Além do que, o autor de Casa-Grande & Senzala procurou considerar em têrmos não só de valores como de símbolos ou através de expressões simbólicas, tipos não só específicos - especìficamente brasileiros - como equivalente de tipos clássicos - hebreus, helênicos, romanos, árabes - de convivência patriarcal em regimens escravocráticos. Procurou destacar relações, dentre as mais características do viver predominantemente rural nos dias pré-nacionais e proto-nacionais de formação da sociedade brasileira em ambiente também predominantemente rural: as relações de filho com pai, às vêzes sociológicamente prolongadas nas de escravo com senhor; as de marido com espôsa; as de devoto com santos; as de menino com adulto; as de civilizado com selvagem; as de cultura européia com natureza agrestemente tropical; as de cristianismo com outras manifestações, menos civilizadas, de religiosidade. Relações, tôdas essas, coloridas pelo complexo patriarcal, que o autor de Casa-Grande & Senzala procurou mostrar, nesse seu livro, prolongando sua antropologia sócio-cultural numa antropologia filosófica, ter sido o complexo dos complexos dentre os que antropológica e sociològicamente explicam a formação e o ethos brasileiros, como a formação e o ethos não de um homem abstrato, por um lado, nem tão sòmente, de um homem históricamente lusitano, desdobrado em luso-brasileiro, mas de um homem europeu concretamente situado: existencialmente situado no trópico. Pois é principalmente a predominância dêsse complexo na mesma formação, que se acentua, naquele livro, ao considerar-se o que, na formação brasileira, representa o desenvolvimento de um tipo de homem de sociedade e de cultura diferente, em vários pontos, dos puramente europeus desgarrados, sem integração, nos trópicos, pelo específico das suas substâncias integradas ou em processos de integracão: substância ecológica; substância, étnica; substância cultural, em geral; substância econômica, em particular; substância, histórica. Diferente, também, daqueles europeus puros ou sòmente superficialmente em residência nos trópicos, pelas formas mais características do sistema de relações entre grupos e entre pessoas que se desenvolveram, no Brasil patriarcal, como variantes - embora não como negacões, antes como confirmações - das formas clássicas de convivência patriarcal e de integração dêsse tipo de família ou de sociedade, em ecologias especificas: a grega, em contraste com a árabe, por exemplo. Não devo nunca deixar de referir-me ao fato de que uma das minhas preparações oblíquas e como que instrutivas para, a elaboração de um livro como Casa-Grande & Senzala foi o curso, que segui com singular proveito, sôbre a sociologia da sociedade escravocrática grega, do Professor Sir Alfred Zimmem, de Oxford.

Outra inovação porventura trazida pelo livro Casa-Grande & Senzala, para a literatura, quer científica, quer mesmo geral, em língua portuguêsa, foi - segundo alguns críticos - a da sua linguagem: em vez de arrevesado jargão ou de elegância, da chamada acadêmica, palavras, na sua maioria, ao alcance do leitor comum; e várias delas rudes, além de inacadêmicas. Mais do que isto; um português salpicado de africanismos, de indianismos, de barbarismos, alguns ousados, embora sem a preocupação de criar o autor língua literária brasileiramente nova, como foi a de Mário de Andrade, em Macunaíma e vem sendo a de Guimarães Rosa, em interessantíssimos experimentos estilísticos, além de linguísticos. Daí as críticas - críticas àquelas audácias da linguagem de Casa-Grande & Senzala - que lhe fizeram eruditos mais convencionais em suas noções do que devesse ser a linguagem de um, ensaio ao mesmo tempo científico e humanístico, científico e literário. Um dêsses eruditos foi o Professor Afonso Arinos de Melo Franco que classificou a linguagem de Casa-Grande & Senzala de "vulgar" e "chula", além de desleixada.

"Como é que se escreve um livro com pretensões a sério em estilo tão vulgar?" perguntou outro crítico. E de Portugal houve quem escrevesse não ter sido Casa-Grande & Senzala escrito em. português mas numa espécie de nefanda língua bunda, que o tornava passível de medidas profiláticas de parte daquelas academias, dedicadas aquém e além-mar, à defesa do "sagrado idioma" de Camões e de Bernardes.

Como se explica o destino de um. livro que, mesmo assim considerado, quanto à sua linguagem, por mestres eminentes de feitio acadêmico, conquistaria para o seu autor o título de membro da Academia Portuguêsa de História - outrora Real e vinda do erudito século XVIII - e láureas de outras academias e institutos tradicionais como a do Equador, também vinda do século XVIII, a Universidade de Coimbra - há sete séculos mestra do mundo de língua portuguêsa - a Academia Brasileira de Letras, a Academia Paulista de Letras, a Academia Pernambucana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Arqueológico de Pernambuco, a Academia Internacional de Cultura Portuguêsa? E por que o escreveu o autor servindo-se de palavras tão chulas para os ouvidos de letrados requintadamente elegantes e castamente acadêmicos? Por não saber da língua materna senão o trivial? Por desconhecer os clássicos? Por ignorar a terminologia científica dos antropólogos e dos sociólogos? Ou por ter desejado escrever aquêle seu livro com a desenvoltura de um escritor animado do afã de, em ensaio de lastro científico, e que só um antropólogo-sociólogo de formação sistemàticamente universitária poderia elaborar sem incorrer em. deficii~ncias tremendas, comunicando-se com o leitor comum como quem escrevesse obra literária de caráter expressionista, pelo que nêle se afirmasse da personalidade do autor e da sua identificação quase sensual, de tão empática, com o assunto? Ora, o assunto não era - nem é - puramente europeu mas, em grande parte, extra-europeu. Não se defrontava o autor com asperezas, dêsse mesmo assunto nem como um sub-europeu passivamente colonial mas como um analista ou um intérprete do Homem social, desdobrado - repita-se - como autor em várias personalidades, que, nesses desdobramentos, precisava de identificar-se com elementos humanos e culturais além de não-europeus e de não-eruditos, folclóricos, vulgares, plebeus, contanto que telúricos, da realidade brasileira.

Não me cabe dizer-me aqui familiar, antes de ter escrito Casa-Grande & Senzala, dos clássicos, quer brasileiros, quer lusitanos, da língua portuguêsa, em particular, e dos latinos, em geral. Sei que, filho de humanista autêtico, profundo sabedor tanto da língua portuguesa como da latina, cresci entre sugestões, eruditas dessas duas línguas e lendo seus estilistas, sob a orientação de um pai severamente devoto de Horácio e de Virgílio, de Camões e de Vieira, de Frei Luis de Sousa e de Herculano. Sei, também, que, por minha conta, tornei-me desde adolescente leitor de clássicos portuguêses de outro tipo: Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Gil Vicente. Sei, ainda, que ao estudo do latim, com meu Pai, acrescentei, ainda adolescente, o do grego, que me deu o gôsto por soluções de caráter estilístico, em língua portuguêsa, que a língua latina não me ofereceria; e que o gôsto por outras soluções da mesma espécie me foram dadas pelo estudo - que já recordei ter sido uma das minhas aventuras intelectuais - do anglo-saxão.

De modo que a escolha, pelo autor de Casa-Grande & Senzala, das tais palavras vulgares, chulas que tanto melindraram a sensibilidade elegantemente acadêmica do Professor Afonso Arinos de Melo Franco, não deve ser de todo considerada inclinação, da parte do mesmo autor, pela vulgaridade; ou evidência da sua ignorância dos clássicos. Em ensaio crítico sôbre a linguagem de Casa-Grande & Senzala, mestre mais competente que o memoralista de A Alma do Tempo, em assuntos de língua portuguêsa e de estilística - o Professor Moacir de Albuquerque - registra ritmos de frase, valorizações de arcaismos, emprêgo de verbos, característicos da linguagem de Casa-Grande & Senzala, que, a seu ver, só se explicariam pelo conhecimento, que teria o autor daquele livro e criador daquela linguagem, dos clássicos da língua portuguêsa.

O que o autor da Casa-Grande & Senzala procurou foi assimilar valores e ritmos assim clássicos ao seu modo, antes romântico do que clássico mas, de maneira alguma, anti-clássico, de exprimir-se ou de procurar exprimir-se, em trabalho de caráter antropológico, que fôsse também obra de expressão literária através de uma aparente deformação - afã entre artístico e antropológico - da língua portuguêsa, para nela serem admitidos, em trabalho daquele caráter, afro-brasileirismos e indianismos brasileiros.

Em livro recente, vem em apoio da ousadia, há mais de trinta anos, do autor de Casa-Grande & Senzala, escrevendo o seu livro em linguagem inteligÍvel ao leitor comum, o Professor Peter L. Berger, ao observar que o jargão sociológico pode, em grande parte, ser evitado: "a good deal of contemporary "sociologese" can be understood as a self-conscious mystification". Isto é, sociólogos há que se mistificam a si próprios, e não apenas aos seus leitores, através de um arrevesado de linguagem que lhes daria o que Berger chama "respeitabilidade intelectual".

Trabalho, Casa-Grande & Senzala, de caráter científica e humanísticamente antropológico, pretendeu o autor escrevê-lo de modo a que não fôsse livro antropológico fechado em terminologia científica ou erudita ou elegantemente acadêmica. Ao contrário: expressão, a seu jeito, de um saber não só científico porém intuitivo, enriquecido pelo contacto do mesmo autor com a plebe do seu país; com descendentes de escravos; com gente ainda próxima de culturas primitivas. Expressão de um conhecimento não só sociológico como, possìvelmente, poético, da matéria versada em livro tão diferente das obras até então aparecidas - em nosso ou em qualquer pais, sôbre o Homem social, particularmente o situado no trópico: sôbre sua cultura, sôbre seus ajustamentos à ecologia tropical e sôbre seus desajustamentos dessa ecologia. Diferente, em sua expressão e não apenas em sua orientação, dos livros - para só citar os brasileiros - de Gonçalves Dias de Varnhagen, de Couto de Magalhães de Nina Rodrigues de Joaquim Nabuco, de Capistrano de Abreu, de Sylvio Romero, de João Ribeiro, de José Veríssimo, de João da Cunha, de Oliveira Lima, de Roquette Pinto e de Oliveira Viana, sôbre a mesma matéria: sôbre o Brasil, sôbre a sua formação, sôbre os seus indígenas, sôbre os seus colonizadores, sôbre os negros de várias culturas africanas que se juntaram aos indígenas naquela formação, sôbre a presença de judeus e de mouros nos antecedentes ibéricos da formação, brasileira e nos primeiros tempos dessa formação mesmo.

Recordando, agora êsses e outros fatos mais diretamente pessoais ou autobiográficos, procuro esclarecer como escrevi o livro intitulado Casa-Grande & Senzala. Por que decidi escrevê-lo. Como reagi às primeiras críticas de brasileiros e, depois, de estrangeiros, a obra que eu sabia tão diferente das convencionais e por isto mesmo capaz de atrair para o autor indignações e até iras patrióticas, religiosas e acadêmicas?

São perguntas que exigem do autor do livro em aprêço respostas além de autobiográficas, introspectivas. Personalíssimas, portanto. Não prometo respondê-las aqui, sendo um tanto superficialmente.

O livro escrevi-o na condição de emigrado: de emigrado quase político, e um. tanto romanesco, por isto mesmo. Emigrado não por ter sido, antes dos trinta anos, político militante que, substituído no Brasil um tipo de govêrno por outro, devesse ser considerado, perigoso ao nôvo regime, mas por ter-me destacado, naqueles dias, como secretário particular de político da minha amizade também particular, e também como diretor, por solicitação dêle, de tradicional jornal do Recife, provínciano até no nome: A Província. Jornal que eu conseguira, com o auxílio de intelectuais brasileiros do porte de Manuel Bandeira, de Ribeiro Couto, de José Américo de Almeida, de Prudente de Moraes Neto, de Pontes de Miranda, de José Lins do Rêgo, de Jorge de Lima, de Luís Jardim, de Aníbal Fernandes, de Olívio Montenegro, de Sílvio Rabelo, atualizar e modernizar, sem sacrifício de sua tradição de jornal, além de independente, crítico. Para tanto, evitara, de modo até paradoxal, que se tornasse, na sua parte editorial, gazeta govenista. Mesmo assim, não escaparia aos ódios de certos políticos que, de oposicionistas, passaram, de repente a donos absolutos do poder em nosso pais; e como novos-poderosos procederam, alguns dêles, para com os vencidos, como novos-ricos com relação à gente arruinada, de cujas relíquias supusessem poder tornar-se proprietários também absolutos, pela simples solução de afastarem do Brasil êsses supostos obstáculos à sua ascensão.

Por mais de um ano, após a vitória dos políticos - uns, autênticos homens de bem, outros velhacos fantasiados, de catões - que em outubro de 1930 empolgaram o poder no Brasil, estabelecendo um nôvo tipo de govêrno, fui obrigado a conservar-me aventurosamente no estrangeiro. Vi-me, por algum tempo, na áfrica: no Senegal. Contacto, êste, interessantíssimo. Depois da áfrica, em Portugal, onde conheci, pela primeira vez, num duro inverno, aquêles rigores de frio que ali, quase tanto como noutras partes da Europa, só experimenta quem é pobre. E foi sob essa experiência de um duro inverno e residindo em águas-furtadas, ao "lado da sombra", de uma rua estreita e sinistra, de Lisboa, que, apresentado pelo historiador João Lúcio de Azevedo à, direção da Biblioteca Nacional, tomei contacto com aquêle reduto português de erudição.

Veio-me então a idéia de escrever um trabalho que abrisse novas perspectivas à compreensão e à interpretação do Homem através de uma análise do passado e do ethos da gente brasileira: trabalho que quatro anos antes, estando nos Estados Unidos e tendo à minha disposição manuscrito e obras raras da Brasiliana de Oliveira Lima, em Washington, eu já pensara tentar realizar. Mas conservando o meu plano em segrêdo quase absoluto. Tanto que, no Brasil, apenas o comunicara a Teodoro Sampaio - com quem me correspondera sôbre o assunto, depois de ter conhecido pessoalmente tão ilustre mestre - a Manuel Bandeira, poeta, a José Lins do Rêgo e a José Maria Carneiro de Albuquerque. Consistia êsse projeto em uma tentativa de nova interpretação daquele passado e daquele ethos à base de um estudo, ao mesmo tempo antropológico e histórico, das reações ao meio - meio fisico, meio social - do Brasil, primeiro pré-nacional, depois nacional, experimentados não por adultos conspícuos pelo seu status, isto é, pelas suas posições de domínio no conjunto social brasileiro de então, mas por párvulos ou meninos, dominados ou oprimidos, como suas mães e quase como os escravos, por tais adultos; mas, nem por isto, figuras sociològicamente desprezíveis, para quem tentasse aquela espécie de reinterpretação do passado íntimo de um povo, considerando, em crônicas históricas e em evidências antropológicas, o papel desempenhado na formação brasileira, por aquêles mesmos párvulos.

Essa primeira pesquisa resultara, desde 1926, e da minha permanêneia, naquele ano, em Washington, numa multidão de notas: cadernos e cadernos repletos, de apontamentos, quase todos a lápis, sôbre assunto aparentemente pobre, recolhidos na mais seleta das brasilianas daquela época: a coleção Oliveira Lima na Pontificia Universidade Católica da capital dos Estados Unidos. Tal pesquisa eu a retomaria, em Lisboa, de 1930 a 1931, dando maior atenção ao material que se referisse à mulher e ao escravo, dentro do complexo patriarcal-escravocrático que de Portugal se comunicara ao Brasil, ampliando-se imensamente em terra americana e em ambiente tropical. Ao estudo de fontes encontradas na Biblioteca Nacional de Lisboa e em coleções particulares - uma delas a do próprio João Lúcio de Azevedo, sempre muito meu amigo, durante aquêles turvos dias - juntei o contacto, quase diário, com o material antropológico do excelente Museu Etnológico da capital portuguêsa, então dirigido por Leite de Vasconcelos: sábio que também conheci naqueles dias. O estudo em bibliotecas e em museus servia-me também de refúgio contra o frio. Frio terrível na pensão em que, quase sem dinheiro algum, passara a viver a mais miserável das vidas que já vivera. Pois ninguém se engane com os invernos em Lisboa, quando severos: nêles o pobre, sem calefação em casa e sem bom sobretudo na rua, sofre, sendo pobre, de pegajento frio úmido, quase tanto como em Paris ou como em Londres.

De que vivi, então, em Lisboa? É ponto que devo esclarecer. Vivi de umas aulazinhas de inglês que fui solicitado a dar a emigrados brasileiros ilustres: Sebastião do Rêgo Barros, Viana do Castelo, Belisário de Sousa, Roberto Moreira. Revelei-me, aliás, péssimo professor particular de língua inglêsa. Desde o início das aulas perdi a confiança em mim mesmo, ao não conseguir lembrar-me da palavra inglêsa para cabide. Tratava-se de uma pergunta de Roberto Moreira, de São Paulo: "Como se diz cabide em inglês?" Devo também recordar que em Lisboa, nesses dias, se algumas vêzes era convidado a jantar com condêssas e marquesas, em algumas das casas mais fidalgas da capital portuguêsa, principalmente na da Ministra Silvia Belfort Ramos casas nas quais me apresentava sempre com o mesmo fato, muito escovado, e com uma das duas camisas que eu próprio lavava - a maior parte das refeições eu as fazia em tascas, aos goles de vinho verde e de ginja; convivendo com gente da mais pobre de Lisboa e dela aprendendo, aliás, lições de lusitanidade que jamais teria aprendido, frequentando apenas meios aristocráticos e burgueses.

Foi a Lisboa, já em fim de fevereiro de 1931, que me chegou inesperadamente, por cabograma, o convite com que a Universidade de Stanford convocava-me para seu professor extraordinário: Visiting Professor. Honra insigne para quem acabava de atingir os trinta anos. Tão insigne era a honra para o brasileiro obscuro que eu era então, muito, mais do que hoje, que escrevi ao deão da faculdade que me transmitia o convite, e ao Professor Percy A. Martin, catedrático de Stanford e que também se comunicara comigo a respeito do assunto, para assegurar-me da sua autenticidade: não estaria havendo alguma confusão de nome - sugeri - isto é, do meu nome, com o do Professor Gilberto Amado? Responderam-me que não: que o convite era de fato ao autor da tese universitária Social Life in Brazil in the middle of the 19th century, que a Universidade de Stanford fôra informada de se encontrar em disponibilidade, na Europa. Aceito o convite, vieram-me também por cabograma, os recursos para a travessia atlântica, que seria seguida pela transcontinental, de Nova York a San Francisco. Fiz a travessia atlântica pelo grande vapor italiano Saturnio: num quase principesco confôrto, perturbado apenas por uma das piores tempestades de mar com que já me defrontei.

Na Universidade de Stanford daqueles dias - uma Stanford ainda quente da presença genial de Veblen e ainda sob o impacto das pesquisas de Terman sôbre indivíduos de gênio - encontrei ambiente ideal para a continuação dos meus estudos sôbre o complexo patriarcal-escravocrático brasileiro. Um campus com alguma coisa de paisagem brasileira: com palmeiras tropicais que me receberam - a mim, que vinha do frio europeu e atravessara de trem o continente americano de Nova York a San Francisco, rompendo o branco das últimas grandes neves de 31 - brilhando sob um sol também quase brasileiro. Enquanto na biblioteca, achava-se, como que à minha espera, valiosa Brasiliana: a que o notável geólogo, antigo Reitor da Universidade, John Casper Branner - com quem durante algum tempo eu menino de dezoito anos, me correspondera, sendo êle glorioso velho de quase oitenta - reunira em seus vários contactos com o Brasil. Encontrei também completa coleção de documentos parlamentares, inglêses relativos não só ao tráfico de escravos como às condições de trabalho servil no Brasil: outra mina quase virgem à espera de quem a desvirginasse.

Quanto aos cursos que deveria professar - um para estudantes de bacharelado, outro para estudantes de doutorado, tendo eu de figurar com status doutoral, entre os examinadores de teses para o doutoramento organizei-os já dando relêvo ao que me parecia ser inovação necessária a análise do passado e do ethos brasileiro: juntando aos métodos históricos de análise e de interpretação dêsse passado, e dêsse ethos os antropológicos. Inclusive os psicológicos e até os folclóricos. Precisamente o critério metodológico que eu desenvolveria, com maior audácia, no livro já projetado: o que se intitularia Casa-Grande & Senzala. Foi na Universidade de Stanford que tornou corpo o meu projeto dêsse livro: um livro que fôsse uma nova reconstituição, uma nova introspecção e uma nova interpretação de uma sociedade de origem européia desenvolvida, com elementos extra-europeus de etnia e de cultura em espaço tropical: e à base de uma organização patriarcal e escravocrática de economia de família, de convivência. Impossível como autor de Casa-Grande & Senzala, esquecer-me dos dias que então passei à sombra das palmeiras da acolhedora Stanford: foram dias decisivos para o planejamento do livro projetado.

Ao sair de Stanford para Nova York - onde comunicara o meu projeto, ao então quase onipotente crítico das letras e dos costumes anglo-americanos, crítico literário e de idéias, neto de alemão e discípulo, a seu modo, de Nietzsche, Henry L. Mencken, que, anos antes, me aconselhara a desenvolver em livro minha tese universitária Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century, evitando ampliá-la em dissertação doutoral meu ânimo era o de continuar, sem demora, as pesquisas necessárias A elaboração do livro ousado que, em esquema, já existia. Fazia-me falta o material que recolhera - em 1926 - na Brasiliana Oliveira Lima; e que eu ignorava se ainda se conservava no Brasil nas caixas de papelão grosso em que o deixara. A casa da minha família, no Recife, já eu sabia ter sido saqueada e incendiada. Mas os meus livros e papéis haviam ficado quase todos na casa em que eu residira com meu irmão Ulysses. Teriam escapado ao saque de gatunos fantasiados de patriotas?

Dos Estados Unidos voltei, ainda em 1931, para a Europa, demorando-me na Alemanha para estudos antropológicos nos seus excelentes museus-laboratórios já meus conhecidos, desde os meus dias de discípulo de Boas. De amiga da Universidade de Colúmbia - a então Senhora Ruediger Bilden: êle, alemão, e meu antigo colega na mesma Universidade, onde por influência minha se voltara para o estudo antropológico do passado brasileiro - levava cartas para um dos maiores filósofos-psicólogos alemães da época: o Professor Max Dessoir, de Berlim. Creio - recorde-se de passagem ter sido o primeiro brasileiro a falar de Dessoir, assim como de Havelock Ellis como sociólogo, e não apenas como sexologista - no Brasil.

Em Hamburgo comuniquei o meu projeto de livro ao então, Cônsul do Brasil, naquela cidade e já meu amigo de Londres, Antônio Tôrres. Não lhe pareceu que o livro viesse a interessar os brasileiros: segundo êle, eu deveria escrevê-lo em inglês. O Brasil lhe parecia um país sem futuro intelectual. O talentoso mulato mineiro, defroqué sempre angustiado, era, aliás, um arianista encantado pelos anjos louros da Alemanha. Eu, entretanto, confiava no Brasil e nos brasileiros: inclusive nos mestiços. Nos Antônio Tôrres e noutros Antônios e noutros Tôrres.

Da Europa, em vapor alemão, regressei ao Brasil: ao Rio de Janeiro. Aí foi decisivo o estímulo que recebi do meu amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade a favor do projeto de livro que eu trazia do estrangeiro. Sob êsse estímulo continuei minhas pesquisas: na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional, na Biblioteca e no Arquivo da Faculdade de Medicina, no Museu Nacional. Foi considerável o material que recolhi nesses dias, no Rio de Janeiro, hóspede, por algum tempo, de Assis Chateaubriand, no seu. palacete da Avenida Atlântica, dos Santos Dias, no Edifício Olinda, e, de certa altura em diante, instalado em pequena, quase mesquinha, pensão, da Rua Paulo de Frontin.

Foi Rodrigo quem redigiu o contrato com o editor Schmidt pelo qual o então ainda não milionário intelectual - que aliás reconheceu de início possibilidades no meu livro apenas em projeto -se comprometia publicar o mesmo livro. Tornava-se êle meu editor mediante o pagamento por mês, ao já considerado "autor", de 500 mil réis, pela edição do trabalho que se intitularia Casa Grande & Senzala.

O pagamento dessas mensalidades devo recordar que foi feito de maneira a mais irregular, deixando às vêzes o editor ao escritor, em situações dificílimas. Por brio, e espírito de independência, desde o estrangeiro vinha eu recusando de modo por vêzes áspero, ofertas de empregos que me foram feitas, por homens do nôvo govêrno, meus amigos. Um dêles José Américo, de Almeida. Recusei também mais de uma oferta de auxílio, da parte de amigos ricos. Sem dinheiro, travei no Rio de Janeiro, conhecimento com esta instituição sinistra: a casa de penhores. Nas suas garras deixei um relógio finíssimo, de platina, que me fôra oferecido por Estácio Coimbra, um anel de ouro, outrora de meu avô paterno e um par de botões de punho, também de ouro, que usava como lembrança de Oliveira Lima. Era histórico, êsse par de botões, de ouro. Fora-me dado pela viúva, Dona Flora Cavalcanti de Oliveira Lima, com a informação de tratar-se de jóia preciosa: presente de um cardeal italiano, em Roma, ao Bardo de Penedo que do Barão passara ao "Chevalier" Sousa Correia, por algum tempo ministro do Brasil em Londres, e de Correia a Oliveira Lima.

Com o trabalho ainda inacabado é que regressei ao Recife onde, do comêço de 1932 ao comêço de 1933, me entregaria intensamente à tarefa de redigir o livro. Foi trabalho que realizei em condições dificeis - comendo uma vez por dia e morando só e isolado numa casa que ainda existe - à Estrada do Encanamento, então de propriedade do meu irmão Ulysses, onde êle e eu, solteiros, residíramos durante alguns anos. Em 1932 êle era já homem, casado. Cedeu-me aquela casa meio abandonada e a família concordou que durante o dia ficasse a meu serviço o velho Manoel Santana, prêto nascido ainda no tempo da escravidão e durante longo tempo membro, por assim dizer, da nossa família; e de certo modo meu colaborador, através de informações orais, na elaboração do livro Casa-Grande & Senzala. Muito aprendi dêsse como de outros Manuéis, como êle pretos, e sendo ex-escravos, descendentes de escravos, nascidos em senzalas ou à sombra de casas-grandes, no tempo, ainda, de escravidão. Continuando as pesquisas de campo iniciadas nas áreas das mais antigas casas-grandes de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia - casas de engenhos e de fazendas, algumas monumentais, como a chamada Fazenda do Secretário, em velha área do Rio de Janeiro - retomei meus antigos contactos com casas-grandes de engenhos, ainda castiçamente patriarcais de Pernambuco e de outras províncias do Nordeste. Especialmente a de Júlio Bello, a de Estácio Coimbra, a dos Santos Dias, a dos meus parentes Souza e Mello, a dos Domingues, a dos Arruda Falcão, a dos Paranhos Ferreira, tendo recolhido, nesse período, informações orais não só de baronesas do tempo do Império, - uma delas, a de Contendas, velhinha então ainda lúcida, residente na sua antiga casa-grande - como de antigos escravos também de casas-grandes: principalmente no Engenho Raiz. Com o meu amigo Cícero Dias, levantei a planta da vasta casa-grande, característicamente patriarcal, do Engenho Noruega, dos Dias e dos Falcão, no que fomos ajudados pelos então jovens filhos de André Dias de Arruda Falcão, do Engenho Mupan. O magnífico desenho de casa tão característica, traçou-o o artista à base de croquis em que lhe sugeri, eu próprio, fixar os vários aspectos, quer da convivência, numa casa daquele tipo, quer das relações de seus moradores com animais e plantas.

Mais: achei tempo, de volta a Pernambuco, para um bom contacto com sobreviventes de ameríndios de águas Belas, meus conhecidos desde os dias do velho Estigarribia, companheiro de Cândido Rondon, representantes no Nordeste do Serviço de Proteção aos índios. Ao mesmo tempo retomei, no Recife, contactos os mais íntimos - de cama e mesa, posso dizer - com sobrevivências folclóricas ligadas ao complexo patriarcal-rural brasileiro: os pastoris e bumbas-meu-boi, por exemplo. Também voltei a conviver com os xangôs, depois de, no Rio de Janeiro, ter me iniciado em candomblés de Niterói e em danças, músicas e exibições de Carnaval do então, esplêndido laboratório, para o estudo de sobrevivências negras na cultura brasileira, que era a Praça Onze. No Rio, passara noites inteiras em excursões aparentemente só boêmias, mas, na verdade, também de estudo, através do qual se aprofundou meu conhecimento de assuntos afro-brasileiros. Excursões em companhia de Prudente de Moraes Neto, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Jaime Ovale - com êste até pelo Mangue - Dunga. Patrício, Pixinguinha. Outras, em companhia de Gilberto Amado. E, na Bahia, portas de segrêdos afro-brasileiros se abriram para mim, desde que me apresentara ao babalorixá Martiniano do Bomfim seu amigo, o também babalorixá Pai Adão, do Recife.

Não se pense que foram dias de todo tranqüilos, para o autor, os do último ano, passado todo no Recife, de elaboração de Casa-Grande & Senzala. Comia - repito - uma vez por dia. Experimentei o sofrimento da fome. Quando vinha à cidade, de Casa Forte, era a pé. Voltava a pé. Vivia da venda das jacas, das mangas, dos jambos do sitio que rodeava a casa do meu irmão. Vida difícil. Além do que, a época era ainda de agitações. Certa noite estava eu no Pátio do Carmo, participando da principal festa de pátio de igreja - e, por conseguinte, folclórica - do Recife daqueles dias, quando fui de repente agredido por três indivíduos, nenhum dos quais meu conhecido. Reagi com uma fúria de que eu próprio, no fim da luta, me espantei. Tanto foi essa fúria que, levado no pôsto policial do mesmo Pátio fui consagrado pelo delegado de plantão, o Bacharel Leovigildo Júnior, "agressor". Dos três indivíduos, um era delegado da própria Polícia do então Interventor Federal em Pernambuco, o antes e depois de seus dias de poderosos, meu amigo, Carlos de Lima Cavalcanti - homem honesto e de bem; os dois outros agressores pretendiam ser seus capangas. Três expressões, porém, não de valentia mas de covardia a serviço - supunham êles - do então Interventor, em Pernambuco, que de modo algum estimou ou aprovou tal agressão: apenas não disse de público - como deveria ter dito - que a desaprovara.

Concluida a redação do futuro livro, no sítio do meu irmão e na casa, à rua Cardeal Arcoverde, dos meus amigos e primos queridos Ulysses e Albertina Carneiro Leão Pernambucano de Mello - o historiador José Antônio Gonçalves de Melo, filho do casal, era então colegial e também já meu amigo - incumbiu-se de levar o vasto MS, ao Rio a Senhorita Anita Paes Barreto, naqueles dias muito ligada a Ulysses Pernambucano de Melo, que já se tornara orientador e mestre de nova escola brasileira de Psiquiatria. Sucedeu, então, que, ao subir do cais para o vapor a Senhorita Anita Paes Barreto tropeçasse, na escada, quase deixando cair n'água o calhamaço. Teria sido perda total de um penoso trabalho de vários anos, pois com o autor não ficara cópia: só existiam os originais, parte dêles datilografados - préstimo de pura amizade - por Luís Jardim, então residente no Recife e recém-casado com môça, além de exemplar, rica: a quase angélica Alice.

Enviados os originais de CasaGrande & Senzala celebraram, no Recife, os amigos do autor, o acontecimento, com uma dança na própria casa em que o trabalho fôra concluido: a casa mourisca, e situada num sítio chamado de Carrapicho, à Estrada do Encanamento. Era então - repito - de propriedade de Ulysses Freyre, meu irmão. Propriedade, hoje, de outro recifense, conserva-se a casa quase intacta; mas desfigurada ou amesquinhada na sua aparência pelas construções no sítio que ela outrora dominava.

A dança só foram admitidos amigos do autor que se apresentassem fantasiados de personagens típicos de casa-grande ou de senzala. Foi uma danca que durou até o dia seguinte. O autor dançou, cantou e bebeu vinho na mesma sala onde durante meses, passando às vêzes fome, escrevera o livro intitulado Casa-Grande & Senzala. Estava mais do que eufórico.

Austeros mestres da Faculdade de Direito do Recife, como Alfredo Freyre - pai do autor - e Edgar Altino, apresentaram-se na tal dança comemorativa vestidos de frades; o Professor Artur de sá, da Faculdade de Medicina. apareceu trajado de português da énoca colonial, ostentando vastos bigodes; o também professor de Medicina Ulysses Pernambucano surgiu vestido de menino de engenho: a Senhora Terezita Bandeira de Mello e a Senhorita Rêgo Barros Gibson se apresentaram vestidas de sinhás dos tempos coloniais. Várias outras fantasias deram colorido à comemoração, destacando-se pela riqueza, a do então ainda rico Luís Jardim, que se apresentou vestido de fidalgo português da época colonial, candidato à mão de iaiãzinha de casa-grande. Uma fantasia tôda de sedas caras e de rendas finas, a de Jardim.

Os primeiros artigos de crítica que apareceram acêrca do nôvo livro - elogiando-o - foram os de Yan de Almeida Prado, Roquette Pinto, João Ribeiro e Agripino Grieco, em jornais do Rio e de São Paulo. Os primeiros ataques que lhe foram feitos partiram do Recife, onde uma revista chegou a especializar-se nessa espécie de agressão sistemática no nôvo livro e no seu autor. Tanto a extremistas da chamada "direita" como da denominada "esquerda" repugnou na orientação, na filosofia e na sistemática de Casa-Grande & Senzala o afã de independência crítica que nêle se juntava a arrojos de criação literária, inesperados em obra com pretensões a científica.

Do estrangeiro, o autor não tardaria a receber a aprovação, para aquela independência e para aquêles arrojos, de sábios, de pensadores e de críticos do porte de um Franz Boas, de um Hooton, de um Lucien Febvre, de um Georges Bernanos, de um Ortega y Gasset, de um Otto Quelle, de um Roland Barthes, de um Roger Caillois, de um Alfred Metraux, de um Fernando Ortiz, de um Fernand Braudel. As restrições de fora do Brasil lhe vieram, quase tôdas, em seguida à publicação do livro, de sociólogos e historiadores medíocres, vários dêles norte-americanos; e, pela fôrça de sua mediocridade, adstritos a um então dominante, entre tais estudiosos, especialismo; ou a uma concepção simplistamente estatística, de Ciência social, ou simplistamente cronológica, de História.

Do Brasil, daqueles extremistas, um sugeriu que livro, para êle tão impatriótico quanto obsceno, fôsse queimado em praça pública, num como auto-de-fé de nôvo estilo. Se pouco faltou para que a sugestão fôsse posta em prática no pátio do Colégio dos Jesuítas, surpreendente foi, desde o início, o modo porque, não tanto a imprensa e, muito menos, as academias e institutos eruditos, porém, ao lado dos sábios mais autênticos - um João Ribeiro, um Taunay, um Roquette, um Paulo Prado - o público e a mocidade brasileira deram a um livro ao mesmo tempo tão revolucionário quanto tradicionalista, a sua aprovação, adquirindo-o e levando-o, os moços, a seus pais, tios ou mestres mais caturras. êsses mestres mais caturras não se insurgiam apenas contra as para êles obscenidades e vulgaridades do livro: também contra os para êles exageros negrófilos do autor; também contra inovacões que lhes pareceram blagues como os meus agradecimentos, em prefácio, a ex-escravos e a analfabetos, por informações dêles colhidas, em entrevistas; também contra a utilização de anúncios de jornais, de livros Mss de receitas de doces e de quitutes das casas-grandes, de cartas e documentos particulares, como material de valor histórico e sociológico. Inovações, tôdas essas, desconcertantes para muitos e escandalosas para alguns.

Sinto ter o livro desagradado ao bom do Afrânio Peixoto, pelo que êsse intelectual meio anatoleano, meio castiço em sua devoção aos clássicos, considerou deselegâncias de linguagem. Em outros pontos, porém, o então prestigioso acadêmico, autor de A Esfinge, chegou a concordar entusiàsticamente com o autor de Casa-Grande & Senzala que, por sua vez, concordou com Afrânio em várias das suas abordagens de baiano, finamente afrancesado a assuntos brasileiros. Ainda hoje leio com prazer certas páginas de Afrânio Peixoto e com igual prazer recordo-me de algumas das observações que ouvi dele próprio, na Biblioteca Nacional, sôbre assuntos literários.

Lamento ter de considerar intelectual tão ilustre como foi Afrânio Peixoto, superficial, embora brilhante. Mas é o que sinceramente continuo a pensar dêle. O que não me impede - repito - de incluir-me entre os admiradores de sua obra. Apenas restrições como as levantadas ao meu livro por críticos assim superficiais, por mais prestigiosos que fôssem, não me perturbaram nem incomodaram.

Curiosa foi a atitude, em face de Casa-Grande & Senzala, de Oliveira Viana: mestre brasileiro de sociologia a quem muito devem as letras nacionais. Me valorizou, nessas letras, com um brilho literário que tornaria tranqüila sua consagração pela Academia Brasileira de Letras, o ensaio sociológico, superando, em vigor de expressão, seu mestre Alberto Tôrres. Era, entretanto, um ignorante tal da biologia de raça que sua apologia do "arianismo" na formação étnico-social brasileira, chega a ser, em certos dos seus extremos, burlesca. Mostraram-no os dois maiores mestres brasileiros da Antropologia chamada física - Froes da Fonseca e Roquette Pinto - a cada um dos quais devo uma acolhida a Casa-Grande & Senvala, além de generosa, inteligente, lúcida. Ainda que noviço, eu próprio, ao opor à apologia do ariano na formação étnico-social do brasileiro, tentada por Oliveira Viana, uma quase apologia - na realidade, um sistemático esfôrço de reabilitação - do conjunto dos não-arianos presentes nessa formação, e, até então, de ordinário esquecidos, uns mais, outros menos, por historiadores e sociólogos especializados no estudo quer da do Brasil, quer da dos povos ibéricos - o mouro, o judeu, o oriental, o ameríndio, o negro africano de várias origens - vi-me obrigado a investir contra o "arianismo" do autor de Populações Meridionais do Brasil.

Oliveira Viana era, como quase todo intelectual que se preza, vaidoso e, além de vaidoso, intolerante de críticas. Somos, aliás, quase todos os autores de livros: vaidosos e intolerantes de críticas. Viana reagiu às minhas, aliás, respeitosas, críticas de noviço a suas teorias de mestre, devolvendo ostensivamente ao editor Augusto Frederico Schmidt - o primeiro editor de Casa-Grande & Senzala - o exemplar do livro que Schmidt gentilmente lhe enviara. Mais: guardou até o fim da vida o mais completo silêncio com relação ao livro e ao autor atrevido. Era como se um não tivesse nascido e o outro não houvesse sido publicado. Foi intransigente nesse seu silêncio de desprezo por um autor e por um livro de idéias ou orientações tão contrárias às suas. Entretanto, nunca publicou - depois do aparecimento de Casa-Grande & Senzala - o seu anunciado Os Arianos no Brasil.

Devo recordar, que atitude semelhante, com relação ao livro Casa-Grande & Senzala foi a de outro eminente crítico brasileiro daqueles dias: Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). Conservou-se o Professor Amoroso Lima durante anos sistemàticamente silencioso diante da obra para alguns Intelectuais Católicos de então, tão inquietante quanto para vários intelectuais Comunistas mais ortodoxos. Já no outono da vida é que o admirável crítico literário e de idéias - campeão por algum tempo do Modernismo. Católico do tipo mais ortodoxo, em seguida, e hoje tão liberal em algumas de suas idéias que certos Comunistas ou Marxistas já o reclamam como correligionário desgarrado de suas seitas, consideraria, com muita generosidade, o mesmo livro, de alguma importância sendo literária, sociológica e até filosófica; e registraria o nome do seu autor - a certa altura apontado por êle como merecedor de atenções da polícia-política do chamado "Estado Forte" - entre os de escritores nacionais, não de todo desprezíveis. Quem porém se antecipou a surpreender uma filosofia nova em Casa-Grande & Senzala foi outro crítico, literário e de idéias, êste, ao meu ver, o mais profundo da sua geração: Prudente de Morais, neto.

Aqui cabe a interrogação: terá Casa-Grande & Senzala aparecido - como tentativa de análise ao mesmo tempo histórica e antropológica, sociológica e psicológica, de um grupo ou de um tipo de homem, situado - com um sentido filosófico? Dêsse seu sentido filosófico - se existe - quem primeiro, se apercebeu repita-se que foi o crítico brasileiro Prudente de Moraes, neto; mas sem aprofundar-se no assunto, como o faria, em dias recentes, Maria do Carmo Tavares de Miranda, doutora pela Sorbonne especializada em Filosofia. Outro crítico, êste francês, o conhecido pensador Jean Pouillon - existencialista por alguns dos seus compatriotas e por outros europeus considerado superior, como críticos de idéias. a J. P. Sartre e a Gabriel Marcel - descobriria no livro brasileiro, ao ser êste publicado em língua francesa, o que nêle vem sendo considerado por êle e por outros críticos estrangeiros, a originalidade de uma perspectiva múltipla de passado nunca de todo dissolvido em presente, mas os dois tempos em constante interpenetração, ao ponto de constituir essa interpenetração, base, segundo outro crítico francês, o Professor Roger Bastide, ao comentar outro trabalho do autor de Casa-Grande & Senzala, em Cahiers Internationaux de Sociologie, para uma Sociologia do Tempo. Sociologia do Tempo difícil de ser separada de uma filosofia existencial do Tempo-Vida-Morte.

O diálogo entre "tempo morto" e "tempo vivo" é, com efeito, uma das constantes filosóficas do livro Casa-Grande & Senzala constituindo uma expressão moderna de diálogo platônico sob aspecto dialético hegeliano. Tende êsse diálogo a uma síntese daqueles dois tempos num terceiro, nem inteiramente morto, nem inteiramente vivo, dentro do qual viveria todo grupo humano cuja específica situação no espaço-tempo fôsse identificada por uma análise de sua formação, ao mesmo tempo que de sua ecologia, semelhante à análise tentada, com audaciosa amplitude no espaço e, ao mesmo tempo, com ousada busca, é claro que não atingida, de profundidade no tempo, em Casa-Grande & Senzala.

O que alguns críticos atuais vêm destacando no recente livro La Technique ou l'enjeu du siècle, do Professor Jacques Ellul - como sendo o que um dêsses críticos e tradutor da obra francesa para língua inglêsa, o Professor John Wilkinson, identifica sob o aspecto de tendência, da parte do autor, filósofo, da sociologia histórica, para "situar fatos de certa experiência num contexto geral" e só então, pôr em foco alguns dêles como representativos de todo o contexto gestaltiano - poderia ter sido, talvez, destacado, de Casa-Grande & Senzala, se o livro brasileiro tivesse tido ao aparecer, quem, no Brasil, se tivesse aprofundado, de maneira semelhante à de Wilkinson com relação a La Technique ou l'enjeu du siècle, na interpretação da sua filosofia: interpretação que só agora - repita-se - está sendo realizada, e de modo magistral, por Maria do Carmo Tavares Miranda, com sua rara competência; e também por Gilberto de Mello Kujawski, Bernardo Gersen e Machado Neto.

Em ambos os livros - naquele recente, do pensador francês, e no publicado há trinta anos, de autor brasileiro, em língua portuguêsa - nota-se que as análises de determinadas experiências - a "patriarcal eurotropical", no livro brasileiro, a "tecnológica ocidental", no livro francês - se faz à base de fatos experienciados em relação com contextos dinâmicos, e não apresentados apenas estatísticamente, por um lado, ou sòmente abstratamente, isto é, desencarnados de suas situações totais e concretas, por outro. Pois de ambos os autores, do francês e do brasileiro, seria possível dizer-se, com Wilkinson, que seus pontos filosóficos de partida para a interpretação de fatos que analisam, submetendo alguns dêles a uma simbolização em tipos ideais weberianos ou em formas simelianas, são os da fenomenologia hegeliana, isto é, aquela que faz da experiência o próprio ponto de partida da interpretação filosófica de qualquer condição humana, atual ou histórica. Ou, simbióticamente, atual-histórica, como parece ser tôda condição ou situação humana quando considerada em sua expressão existencial e não desencarnada arbitràriamente em abstração ou reduzida a semi-realidade suceptível de apresentarção em têrmos confortàvelmente - confortàvelmente para certa espécie de cientistas sociais - estatísticos, quantitativos, objetivos.

Quanto a ser ou não ser Casa-Grande & Senzala obra, além de animada de uma filosofia gestaltianamente existencial, criação literária - possível direito que lhe têm negado críticos mais bisantinamente beletristas, no seu conceito do que seja literatura - continua ponto discutível. Há até quem considere - ao contrário dos beletristas - o autor do livro ainda tão discutido, demasiadamente esteticista em sua sistemática de interpretação - que não deixaria, mesmo assim, de ser ética - da realidade brasileira: crítica já rebatida, com um vigor de senso analítico surpreendente em pensador ainda jovem, por um dos mais lúcidos intelectuais, dentre os mais novos do nosso país: o paulista Gilberto de Mello Kujawski.

A êste propósito, não devo ocultar meus namoros desde muito jovem, com formas estéticas de expressão literária, de que talvez se encontrem traços na prosa, por vezes, talvez, nada estética - segundo as normas dos beletristas - de Casa-Grande & Senzala. São namoros que vêm da remota infância: menino, ainda, já eu caricaturava Camões, por um lado, José de Alencar, por outro, em sonetos como "Jangada Triste". Já homem de vinte e poucos anos, escreveria sob a influência - quanto à forma literária de expressão - de "imagistas" da língua inglêsa, o "Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados". Influência, nesse particular, que, incluia a de Walt Whitman, poeta-sociólogo, além da de Nietzsche, poeta-filósofo, não quanto à substância da sua filosofia, mas quanto à forma estética do seu modo de ser filósofo, inspirada, aliás, em grande parte, em pensador espanhol: Gracian.

Namoros, confesso, com as belas letras pròpriamente ditas. E sendo o meu caso o de um escritor de sexo intelectual convencionalmente forte - dado o caráter antropológico dos meus trabalhos: da antropogia científica à filosófica - admito que, para os puristas de gêneros de expressão, seja um marginal da literatura. Separada a lógica, de modo absoluto, da estética, constituiriam namoricos, como aquêles meus, uma espécie de pequenos amôres dos chamados contra a natureza. Pois o ensaio em sua expressão mais vigorosa - Pascal, Vives, Bacon, Montaigne, Newman, Carlyle, Emerson, Unamuno - é, pelas convenções de sexo literário, considerado expressão masculina de creatividade, enquanto a forma poemática, a novelesca, a teatral seriam expressões femininas. Pura convenção. Pois nem Santayana, na sua novela, nem Bertrand Russell, nos seus contos, nem Gilberto Amado nos seus versos e nas suas novelas, nenhum dêles perdeu o sexo literário masculino de ensaista-pensador, ao adotar excepcional, mas sempre potentemente, formas convencionalmente consideradas femininas de arte ou de expressão literária. Não digo que esteja na categoria intelectual dos bi-sexuais citados, mas são exemplos, os dêles, que servem de justificativa ao que porventura se encontre de beletrismo, num livro de escritor de sexo predominantemente masculino como parece ser, pelo que nêle é mais "forte e feio", do que belo ou gracioso, Casa-Grande & Senzala.

De modo geral, repita-se que, admitidas exceções notáveis, de brasileiros como João Ribeiro e Prudente de Moraes, neto, dentre vários, a compreensão mais idônea, por parte de críticos, dos propósitos e do modo por que foi elaborado, mais como expressão do que como composição, o livro Casa-Grande & Senzala - e ainda mais - o reconhecimento do que, no mesmo livro, seria próprio ou original e não pura ou passiva aplicação ao Brasil de "antropologia norte-americana" ou de "filosofia alemã" ou de "sociologia francesa" só viria após - imediatamente após, aliás - sua publicação em inglês, em, francês e em espanhol; e mais recentemente, em alemão e em italiano.

Em francês, uma das primeiras críticas, além de compreensiva espantosamente generosa, de Casa-Grande & Senzala, isto é, Maitres et Esclaves, foi a do Padre Retif, S. S., em Études. Apareceu quase ao mesmo, tempo que a N. R. F. apresentava aos franceses o livro brasileiro em têrmos tais que o consagraram obra literária tanto quanto científica e filosófica de sabor - segundo crítica tão autorizada - clássico. "Experts" especiaIizados, como são os franceses, em distinguir sabores tanto em livros como em vinhos, a verdade, porém, é que até mestres por vêzes se enganam tanto com relação a livros como a vinhos, quando ainda muito novos. O verdadeiro crítico de um livro, como de um vinho com pretensões a clássico, o crítico que verdadeiramente consagra êsse autor ou êsse vinho, como clássicos, sabemos todos que é o Tempo. E em face do Tempo, Casa-Grande & Senzala é apenas uma criança, mimada por uns, é certo, mas ainda evitada - como as crianças traquinas ou mijonas - pelos mais cautos.





Uma teoria sociológica derivada de uma análise social: seu "como" e seu "porque"


"...chaque fraction du temps ecoulé est à la fois passé, present et avenir". Henri Focillon




Pode-se dar como já triunfante, nos meios intelectuais mais idôneos, a teoria sociológica, aplicada a história da sociedade brasileira. - ao estudo das suas origens, da sua formação, da sua consolidação - de ser essa a história de uma sociedade predominantemente patriarcal, em sua configuração, e desenvolvida à base de valores principalmente, mas não exclusivamente, hispano-cristãos, - valores hispano-cristãos em dinâmica, interpenetração com outros valores, europeus e cristãos e com valores ameríndios e africanos negros - num espaço quase todo tropical em suas condições físicas de vida e em seus recursos ecológicos de economia. Creio mesmo ser possível reduzir-se, por arbitrária simplificação simbólica, o que há de sociològicamente formal nessa interpretação, ao triângulo

Patriarcado

Interpenetração

de etnias e culturas

Trópico

à, base, o trópico. Sôbre essa base - base como condição geológicas - as duas fôrças dinâmicamente étnico-culturais e sócio-culturais porventura mais atuantes na formação da sociedade brasileira: a configuração patriarcal de convência - indo a desvios poligâmicos da moralidade cristã, mas não do sistema patriarcal, quando escravocrático - e a interpenetração de etnias e de culturas, não só à sombra como à margem do mesmo sistema patriarcal e por vêzes - o caso das reduções jesuíticas - contra êle, com minorias dissidentes em relação com uma maioria avassaladora.

Os símbolos "Casa-Grande & Senzala", "Sobrados e Mucambos", "Ordem e Progresso" e a utilização sociológica, isto é, como "tipo ideal" do "triângulo rural" (identificado, como realidade empíricamente histórica, por Pereira da Costa), são símbolos que cabem, todos êles, dentro daquele triângulo, também êle simbólico e também êle expressão de um "tipo ideal" de caracterização arbitráriamente geométrica - digamos assim de realidade social difusa. Isto um tanto de acôrdo com as sugestões de Max Weber, a quem se deve a concepção de "tipo ideal" em sociologia.

Max Weber aplicou-a principalmente ao estudo histórico-sociológico da burocracia, tendo por apoio empírico sua análise minuciosa e seu íntimo conhecimento do sistema prussiano de organização de serviços públicos da época imperial alemã.. há do grande sociólogo alemão tradução espanhola que passa por excelente de uma de suas obras, sob o título Economia y Sociedad, publicada no México em 1944. E em inglês, The Theory of Social and Economic Organization, publicada em Nova York em 1947 e From Max Weber's Essays in Sociology, publicado em 1946.

Não admito ter sido influenciado senão indiretamente pela teoria de Max Weber, na minha concepção da história da formação brasileira, como exemplo de desenvolvimento num tempo, antes social do que cronológico, e num espaço antes ecológico do que convencionalmente geográfico, de um sistema patriarcal de convivência, de modo a poder ser essa concepção estendida ou aplicada, sociològicamente, isto é, como estudo principalmente de formas e processos sociais, a outras formações modernas. Isto é, a outras formacões sócioculturais, dentre as que vêm, decorrendo de impactos europeus e cristãos sôbre áreas, populações e culturas tropicais, em circunstâncias favoráveis à configuração patriarcal de sociedades de novos tipos: do sub-europeu ao neo-europeu e ao quase extra-europeu. O caso do antigo Sul dos Estados Unidos: exemplo de um tipo feudalmente sub-europeu de sociedade agrária patriarcal à base como a sociedade brasileira, da escravidão do negro africano e resultando em impactos arquitetônicos sôbre a paisagem subtropical do Sul da América do Norte semelhantes aos que assinalaram, desde o século XVI e à mesma base de trabalho - o escravo, o do negro importado - a paisagem tropical e subtropical do Brasil. êstes impactos sob a forma de casas-grandes e de senzalas, as primeiras tendo sido conhecidas também nos Estados Unidos como "big houses" e se aprimorado numa arquitetura que teve um dos mestre leigos dêsse aprimoramento em Thomas Jefferson, cuja casa-grande, na Virgínia - Monticello - ainda hoje pode ser visitada, continuando intacta com seus móveis patriarcais. O que é certo também da casa, igualmente patriarcal - casa-grande - de George Washington, em Mount Vernon.

Várias são as áreas em que se encontram equivalentes, sob o aspecto sociológico de formas sociais com diferentes substâncias étnicas ou econômicas - dos complexos, já estudados sistemàticamente no Brasil, Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso. Em viagens de observação, eu próprio os tenho encontrado e identificado em áreas tropicais de colonização hispano-cristã, como as áfricas Portuguêsas e como o Oriente Português; em Pôrto Rico; em Cuba; em partes das Índias Ocidentais; no Paraguai. No Paraguai, encontram-se, do complexo, expressões preponderantemente extra-européias, tal a preponderância, em certos particulares, do elemento étnico-cultural guarani sôbre o ibérico. É o que se nota, por exemplo, em artes caracterìsticamente familiais do Paraguai, como a da renda nhanduti e na culinária paraguaia. Enquanto na Argentina, a despeito do relêvo que tomou a figura, tão romantizada, do gaúcho - que é uma figura caracterìsticamente americana - à presença de casa-grande patriarcal, mais pastoril do que agrária, faltou quase de todo - mas não de todo - a complementação da senzala. Faltou-lhe a senzala sem lhe ter faltado o elemento humano, sob alguns aspectos equivalente ao servo acomodado em senzalas: o indígena ou o mestiço, dominado e, em não poucos casos, explorado, pelos senhores das estâncias.

Isto nos leva à consideração de que, no próprio Brasil, o complexo Casa-Grande & Senzala não se apresenta empíricamente, concretamente, por um lado, ou cronològicamente por outro, o mesmo nas varias regiões brasileiras e nos vários tempos sociais que o país, vem vivendo, porém com substâncias diferentes e implicações, em relação com outras expressões de desenvolvimento brasileiro, também diferentes, porém dentro, sempre, de formas sociològicamente iguais ou semelhantes. É natural que se verifique, no plano empírico, tais diferenças. Pois elas têm ido, entre nós, da adaptação do sistema patriarcal de relações senhores-servos em área agrária de latifúndio de cana de açucar a área de latifúndio de cacau; e de qualquer dêsses latifúndios de caráter agrário - e, até certo ponto, dos de plantação de algodão e tabaco e dos de mineração - a grandes propriedades de caráter pastoril: fazendas de criar e mais especificamente, estâncias. É clássico, com relação a êsse último tipo de patriarcado rural no Brasil, o estudo de Capistrano de Abreu, sôbre o ciclo do couro; enquanto estudos, ainda por ser sistematizados, do Professor Manuel da Silveira Cardoso, sôbre a era brasileira da mineração mostram ter sido uma sociedade, a mineira dos dias de esplendor dessa época, impregnada de sugestões absorvidas dos Brasis agrário-patriarcais. Impregnação que se verificaria em São Paulo com o surto do café.

Substâncias regionalmente diversas - embora tôdas, em espaço tropical e subtropical, que, até certo ponto, as tem unificado ecològicamente - vêm resultando em alterações de formas sob a influência de substâncias assim diversas; mas sem que se possa dizer que o sistema de formação brasileira tenha deixado de ser, em qualquer região do Brasil de economia mais expressiva e de organização mais estável da família, outro sistema senão o patriarcal, quase sempre - no decorrer dos séculos coloniais e durante grande parte do primeiro século de vida nacional - acompanhado pela monocultura, pelo latifúndio e pela escravidão ou servidão. Ou por equivalentes da servidão.

Insisto em que se deve considerar a aplicação dos critérios de interpretação sociológica da formação e do ethos brasileiros, representados pelos símbolos sociológicos Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, sociològicamente, isto é, como se fôssem novas expressões do conceito weberiano de "tipos ideais". É um conceito que continua sociològicamente válido embora contra êle tenham se acumulado críticas de caráter empírico que, como críticas de caráter empírico, são, quase tôdas, válidas. Mas, aceita a legitimidade da abstração sociológica à base de evidências empíricas, compreende-se que continue válido um conceito em que a idealidade só é perfeita - se chega a ser perfeita nos seus aspectos quase puramente racionais, isto é, lógico-psicológicos, de caracterização de uma realidade social. Sem pretender-se, portanto, alcançar com aquela idealidade, essa realidade, em tudo que, na mesma realidade, seja diferenciação empírica de época para época e de região para região.

Em recente ensaio, Problemas Funcionales de las Grandes Organizaciones, (Bogotá, 1963), Theodore Caplow salienta, à pág. 6, da teoria de "tipos ideais" que retém sempre alguma coisa do seu modêlo original - "o serviço civil prussiano" - que a primeira aplicação que se faça dos seus conceitos a situações diferentes daquela que serviu de base empírica à teoria - a minas de carvão, ou a navios de guerra, por exemplo, - nos dá a impressão, de ser uma aplicação que se processa como se houvesse uma distorção dos fatos, a favor da teoria. Só numa segunda fase de aplicação se processaria o ajustamento entre a teoria geral, sob o critério de idealidade sociológica, e a situação particular, com seus característicos próprios; a êsse ajustamento através de pequenas alterações da teoria a favor dos fatos que constituem a situação particular sob consideração. Escreve a esse propósito o mesmo, sociólogo, na sua excelente monografia, que "al igual que la fructifera teoria de Freud sobre las relaciones familiares, la teoria de la burocracia de Weber se ha tomballado al someterlo a prueba en el campo, basta el punto de que no se ha confirmado ninguna de las proposiciones, derivadas de la formulacion original de Weber sin que estas hayan tenido que sufrir antes un cambio sustancial". Isto, porém - acrescenta Caplow da teoria de Max Weber e da sua aplicação ao estudo sociológico da organização, não político-burocrática, porém industrial-burocrática, representada pela grande emprêsa industrial moderna, "no disminuye su extraordinário valor como estímulo para objetivar la organisacion a gran escala ni la utilidad de sus conceptos con los cuales podemos diseccionar y escudriñar organismo tan dificil de manipular".

Em limites bem mais modestos, é o que se pode dizer da teoria brasileira de interpretação de situações sócio-culturais e psico-culturais, caracterizadas pela predominância, em espaço tropical ou quase-tropical, de um tipo patriarcal de família, de economia, de sociedade, sôbre outras partes de um conjunto sócio-cultural e psicocultural e sôbre o próprio meio fisico - a ecologia tropical. Como a teoria de Max Weber sôbre burocracia, parte a brasileira, de interpretação patriarcalista de sociedades neo-européias ou sub-européias em regiões tropicais. A de Weber desenvolveu-se do estudo particularmente intenso e particularmente sistemático de uma situação específica no espaço e no tempo - o serviço civil prussiano na segunda metade do século XIX - para, através dos chamados "tipos ideais" do que seja organização burocrática, abrir perspectivas a um estudo amplamente sociológico, de outras situações burocráticas, que confirmasse o estudo original e, em certo sentido, modêlo quanto às formas e processos característicos da organização estudada. A teoria brasileira parte, também, do estudo, assim sociológico, em tôrno de um modêlo ou de uma situação específica, quer na sua ecologia tropical, quer nos seus acidentes de caráter histórico e nos seus característicos de caráter étnico-cultural.

Que há na teoria brasileira elementos weberianamente polivalentes, que permitem sua aplicação, através de pequenas alterações, a situações ecológica e sociològicamente afins da do Nordeste brasileiro da cana de agucar, parece hoje ponto tranqüilo. Isto em face de depoimentos, no Brasil, como o de antropólogos historiadores, sociólogos e economistas que vêm reconhecendo estender-se a validade da interpretação Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos, ao Sul e ao Centro do Brasil - os Brasis da fazenda de café, da fazenda de criar, da estância.

Do estrangeiro, os testemunhos vêm de um Roland Barthes, sugerindo a aplicação do método e da chave brasileiros a situações francesas - sugestão também do conhecido crítico existencialista Jean Pouillon; de um crítico da Yale Review, sugerindo sua aplicação a situações anglo-americanas; do Professor Fernando Ortiz, de Cuba, sugerindo sua aplicação à situação cubana; de um crítico neo-marxista da lucidez e do saber de Juan Antonio Portuondo, sugerindo sua aplicação a situações latino-americanas; de um antropólogo português, do Professor Jorge Dias, afirmando haver encontrado em áreas tropicais de formação portuguêsa confirmações à teoria brasileira, também encontradas pelo jurista-sociólogo Adriano Moreira na áfrica e no Oriente; de um historiador da cultura lusíada como José Osório de Oliveira admitindo a reinterpretação de parte considerável da história e da sociologia da literatura em língua portuguêsa, sob sugestões da mesma teoria. O que é também admitido pelo Professor Julían Marías, de Madrid - o principal continuador de Ortega y Gasset - para o estudo de situações pan-ibéricas.

E recentemente, em revista venezuelana de orientação marxista, é o que se proclama em estudo interessantíssimo. Em "Elementos Indígenas y Africanos en la formacion de la Cultura Venezolana" (Revista Venezolana de Sociologia y Antropologia, n. 3-4 - Capítulo, aliás, do livro Historia de la Cultura en Venezuela), destaca o antropólogo-sociólogo Miguel Acosta Saignes ter o espanhol assimilado, na Venezuela, de indígenas e de negros, numerosos valores e numerosas técnicas - inclusive de "alimentacion" e de "vivienda". Assimilação que, na Venezuela, se fêz através de equivalentes de casas-grandes e de senzalas e de sobrados e mucambos brasileiros. Daí o antropólogo-sociólogo venezuelano destacar as "muchas observaciones certeras, aplicables no solo a su pais el Brasil, como a Venezuela", que se encontram no livro Casa-Grande & Senzala. Figuras e ritos característicos do complexo casa-grande-senzala, existiram também - recorda Acosta Saignes - na Venezuela, como "la criadora" ou "mana negra", isto é, a "mãe negra", os "hermanos de leche", ou irmãos de leite, os são joões festivos e confraternizantes, o culto a são Benedito, a iniciação sexual dos brancos da. casa-grande em negrinhas ou negras da senzala, acêrca do que, comentando o livro Casa-Grande & Senzala, observa Acosta Saignes: "En Venezuela el fenomeno de la formacion sexual ha sido identico al brasileñio...": fenômeno processado, em grande parte, à sombra das casas-grandes e das senzalas. De onde se poder concluir, quanto à Venezuela, como quanto ao Brasil, que o negro, em vez de haver representado apenas, como morador de senzala ou de mucambo, o papel de elemento social e culturalmente passivo, na formação dessas sociedades predominantemente neo-ibéricas nos trópicos, também "fue colonisador". O mesmo sucedeu noutras áreas tropicais, hoje marcadas pela presença de sociedades neo-ibéricas de formação patriarcal.

Semelhante repercursão da teoria de interpretação sociológica de formação de sociedades neo-européias ou sub-européias nos trópicos e em áreas subtropicais, onde a família patriarcal fêz sentir sua influência em competição com o Estado e com a Igreja, de que saiu, por vêzes, triunfante - teoria derivada do estudo histórico-sociológico da sociedade patriarcal que foi, no Brasil, o tipo de sociedade que deu à formação pré-nacional e nacional dêste país seus característicos principais - parece indicar que é uma interpretação já hoje impossível de ser deixada de lado, por quem se entregue à análise não só do passado como do ethos, isto é, do caráter, não só da gente brasileira como de gentes afins da. brasileira. Porque o ethos ou o caráter de um grupo sabemos ser condicionado por sua formação, sendo assim deficiente tôda análise sociológica, visando a identificação dêsse ethos, que despreze os elementos que lhe tragam o estudo, através da sociologia da história ou da sociologia chamada genética - isto é, das origens sociais de um povo - ou através da própria antropologia, da formação ou do desenvolvimento dêsse povo no espaço - isto é, ecológico - e no tempo: isto é, histórico-sociológico ou antropocultural.

No caso do Brasil, a chave de interpretação do desenvolvimento, nesse tempo-espaço, de um ethos hoje porventura nacional, - interpretação que seja uma tentativa de compreensão, através dos complexos Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso, de tôda uma realidade social que se convencione em considerar nacional - vem se encontrando não só no estudo pròpriamente histórico-social do mesmo desenvolvimento, como no estudo dêle através de métodos antropológicos, psicológicos e folclóricos, que supram os históricos, em áreas a que falte documentação histórica na qual se apoie o estudo histórico-sociológico.

Isto porque, binômios como Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Muicambos e, até certo ponto, Ordem e Progresso, são binômios susceptíveis de estudo apenas semi-histórico. Metade do estudo que dêle se empreenda - foi outra das inovações da teoria brasileira de interpretação social representada por aquêles símbolos - terá que se fazer por métodos extra-históricos de investigação de origens e de recuperação de tempos sociais em parte desfeitos, como são os métodos antropológicos, psicológicos, folclóricos. Pois grande parte do que nos vem, aos brasileiros de hoje - ao nosso ethos, às nossas normas nem sempre racionais de comportamento, aos nossos pendores para atitudes nem sempre ortodoxamente européias em relação ao tempo, por exemplo - chegam-nos de influências psico-sociais e sócio-culturais que subiram das senzalas às casas-grandes e dos mucambos aos sobrados; e vem subindo às áreas asfaltadas do país, dos Palmares, das Pedras Bonitas, dos Canudos, dos candomblés, das macumbas. Não é inexpressiva a atual substituição quase maciça por brasileiros de áreas asfaltadas e até por elementos da chamada "society", do culto da Virgem Maria - crescentemente desprezado por sacerdotes Católicos do tipo que se intitula "progessista" e "racional", pelo culto de Iemanjá.

Sobrevivências antes sub-históricas que históricas, de culturas arcaicas que têm sido dominadas policialmente, porém não social e culturalmente destruídas, por aquêles governos e por aquelas "classes dirigentes" mais sub-européias; são influências vivas na atual cultura brasileira. Grande parte de tais influênciais, só as podemos considerar através de métodos extra-históricos. É fácil de dizer-se porque: porque são influêneias vindas de culturas pré-cronométricas. Quase não há delas excetuado um outro registro dessa espécie relativo a negros islamizados - registros históricos. Temos então que recorrer, como se sugere, talvez pioneiramente, no livro Casa-Grande & Senzala, a evidências de caráter antropológico, psicológico, etnográfico, folclórico. Sem elas - sem o seu estudo, não aparte, mas em conjunto com o estudo pròpriamente histórico do passado brasileiro - não há história nem interpretação nem compreensão do que seja ethos, formação, desenvolvimento da sociedade a que pertencemos; e da qual é impossível separar-se o que nela é projeção não só única, na composição das populações, como psico-social, no comportamento das mesmas populações, dos elementos ameríndios e negros, de culturas primitivas ou pré-alfabéticas, que, ao lado de moçárabes e judeus, entraram de modo tão profundo naquela formação e condicionaram de modo tão significativo aquela formação. O que se verificou principalmente - embora não exclusivamente através do sistema de interrelações casa-grande-senzala.

As relações entre casas-grandes e senzalas e entre sobrados e mucambos não foram, no Brasil, relações em que predominassem antagonismos de classe contra classe, embora êsses tenham colorido fortemente episódios nada desprezíveis do passado quer pré-nacional, quer nacional, do nosso país. Pode-se, entretanto, afirmar, à base do estudo histórico-social completado pelo antropológico, que se faça de tais relações, ter sido tão extensa, entre nós a interpenetração sociológica entre culturas senhoris e servis, tão extensa, ao seu lado, a interpenetração biológica, entre sangues igualmente senhoris e servis, que o Brasil não só pertence ao número de sociedades neo-européias nos trópicos caracterizadas pelo que é misto - de origem senhoril e servil, européia e não-européia, na sua cultura e no seu ethos - como se destaca, de tôdas elas, pelo relêvo que aqui tomou êsse processo de interpenetração até de contrários cuja harmonização vem se desenvolvendo.

No decorrer dêstes pequenos ensaios, é evidente que venho desobedecendo a mestre francês que nos adverte contra o mau gôsto terrível que é o indivíduo falar de si próprio. Mas quem nestes dias turvos que vamos atravessando não desobedece nos conselhos dos mestres? E quanto ao bom gôsto: que é, para a gente moderna, o bom gôsto?

Os leitores já sentiram que com essas palavras só na aparência sutis - na realidade muito, banais - eu apenas procuro justificar o inevitável: vir falando diretamente de mim mesmo. É claro, sem nenhuma daquela elegância de anjo e de anglo do Cardeal, neste particular, meu patrono - o que escreveu a Apologia pro vita sua. A esta altura torno-me particularmente deselegante, assumindo a responsabilidade por uma teoria de interpretação social, ainda discutida mas, em grande parte aceita pelos idôneos. É que me sinto obrigado a reivindicar, para a mesma teoria, alguma originalidade brasileira.

Notável sociólogo francês, o Professor Roger Bastide, hoje da Sorbonne, escreveu já há anos, numa revista de sociologia igualmente ilustre e igualmente francesa a Revue Internationale de Sociologie, que conta com a colaboração dos maiores sociólogos modernos e se interessa pela sociologia cultivada até nos países exóticos - erudito artigo sôbre aspectos do que gentilmente considera, nesse seu ensaio, meus "trabalhos sociológicos". Nessas páginas - de uma lucidez de que só são capazes os críticos franceses - há, entretanto, um trecho que me obriga - pelo menos me parece obrigar - a uma atitude diretamente apologética. É quando o sociólogo francês escreve (que me desculpem alguns dos meus inimigos e sobretudo alguns dos meus amigos, a transcrição de tantas palavras a meu respeito) ser meu projeto... "d'atteindre la vie sociale à travers des types d'habitation, le genre de vie des hommes, surtout dans un pays casanier, comme le Brésil, étant fonction de l'architecture de la maison". E salienta: "On reconnait là une idée nord-americaine et, en effet, G. Freyre a été, très jeune, etudiant dans les universités des États-Unis, où il a subi particulièrement l'influence de Boas; et ce sont les methodes nord-americaines qu'il a transportées et transposées au Brésil. Nous trouverions une autre trace de cette parenté d'inspiration dans le project que Freyre nourrit actuellement d'écrire, à l'usage, de ses concitoyens, un traité d'ècologie".

Não me parece que, nas minhas tentativas - simples tentativas - de estudar, acrescentando-se à análise antropológica da formação brasileira, a história social do Brasil através dos tipos de habitação, e do que êstes tipos representaram como contrários num tipo de relações patriarcais em que à segregação, acompanhada de distânciamento social, juntou-se a convivência, provocadora de interpenetração de sangues e de culturas, se deva ver simples reflexo de "idéia norte-americana"; nem pura repercussão de método ou técnica caracterìsticamente norte-americana. A tentativa brasileira de estudo sociológico, ao mesmo tempo que histórico, antropológico e ecológico, do patriarcado agrário, nos seus dias de opulência, e do fim do declínio do mesmo sistema de organização social, no Brasil, se caracteriza por uma particularização do sentido ecológico que a distingue não só das correntes conhecidas de sistematização sociológica daquele método de análise social (a indiana, do sociólogo Mukerjee, a sul-Africana, de Bews, a norte-americana, da Escola de Chicago e da de Michigan), como das obras modernas sôbre os tipos de habitação considerados em sua projeqdo social. Obras que, aliás, são muito menos a expressão de "uma idéia norte-americana" que de idéias alemãs e de idéias francesas.

Não conheço - e, como salienta o Professor Roger Bastide, fui por vários anos estudante em universidades dos Estados Unidos, aluno de alguns dos seus antropólogos e sociólogos mais notáveis, um dêles o antigo colaborador da Revue Internationale de Sociologie, Professor Franklin Giddings - obra norte-americana nenhuma que faça da casa - do tipo colonial ou nacional, rural ou urbano, senhoril ou proletário, erudito ou rústico, de habitação - o centro de qualquer estudo ou tentativa de estudo sistemático ou especializado de história ou de ecologia social ou de sociologia genética. Os trabalhos sôbre tipos de habitação do feitio do Domestic Architecture of the American Colonies and the early Republic, de Fiske Kinball, ou do Dwelling houses of Charleston, de A. H. Smith, são escritos do ponto-de-vista da história da arquitetura doméstica: apenas rogam pela história social da casa anglo-americana.

Conheço sôbre o tipo de habitação em suas relações com o gênero de vida dos homens ou a paisagem de regiões várias obras alemãs e francesas. Escritas, porém, de ponto-de-vista, senão da história da arquitetura doméstica - como aquelas norte-americanas - do ponto-de-vista, e segundo a técnica ou o método de geográfia cultural ou de etnografia. Nenhuma - que eu conheça - foi escrita de ponto-de-vista acentuadamente sociológico ou predominantemente antropológico-social ou histórico-social ou histórico ecológico, apesar das sugestões, nesse sentido, de G. Schmoller e de O. Spengler, às quais me refiro no prefácio de um dos meus primeiros trabalhos sôbre a formação social brasileira. Há páginas de Mumford sôbre o assunto: porém nada específicas quanto à fomação mais íntima desta ou daquela sociedade em relação direta com tipos domésticos de arquitetura, caraterísticos dessa formação.

Ainda assim, creio que haveria razões para dizer-se que, nos meus projetos de estudar o passado social do Brasil, e tentar às vêzes interpretá-lo e reconstituí-lo por vezes mais psicológica que sociológicamente, e tão antropológica quanto históricamente através dos seus tipos mais característicos e tradicionais de habitação estudos a que me venho dedicando há anos e para os quais, já pedi a colaboração de mais de um arquiteto, - um dêles, Paulo Barreto - e de mais de um geógrafo cultural de formação francesa - se sente influência de "uma idéia alemã" ou de "uma idéia francesa". "Uma idéia norte-americana" é que me parece difícil de reconhecer-se em qualquer daquelas vagas tentativas de estudo da formação social do brasileiro, do ponto-de-vista da sua acomodação no tipo da casa correspondente à situação econômica da região e à sua paisagem não só natural como social, inclusive à técnica regional de produção econômica e ao sentimento de defesa dos valores regionais com tendência a estáveis contra a cobiça nômade ou as influências cosmopolitas, indiferentes a êsses mesmos valores.

Aliás, o mesmo reparo se poderia fazer com relação à cozinha ou à doçaria como expressão de uma cultura familial, patriarcal, que reuniu influências aparentemente antagônicas, senhoris e servis, européias e não-européias. É um engano supor-se que existam, a êsse respeito, obras norte-americanas, em cuja orientação e técnicas nos puséssemos no Brasil, num simples e doce esfôrço de adaptação. As que existem, em grande número, são obras de sociologia especializadas no estudo de sociedades ou culturas "primitivas" ou de quase puro "nutricionismo" ou dietologia.

Se me dissessem que em minhas modestas mas em grande parte, originais, tentativas de estudo do brasileiro, - de sua formação social, do seu caráter, da sua personalidade nacional, através dos seus tipos principais de habitação - há, tragos de influência de técnica e até de orientação de um Siedlung und Agrarwesen, de A. Meitgen - cuja documentação cartográfica é por si só uma inspiração - ou de Les Maisons Types, de Poville, ou das monografias de Demongeon e Bernard sôbre tipos rurais de habitação na França e nas colônias francesas, ou, ainda, das de Grandmann sôbre habitações rurais e urbanas dos tipos históricos de casa com a estática das paisagens, eu compreenderia a aproximação. Mesmo assim, a diferença do ponto-de-vista - o sociológico-genético, o antropológico-social ou histórico social, o psicológico-social, em relação com o geográfico, o de história de arquitetura, o puramente tecnológico ou o exclusivamente estético - é evidente. E as particularidades de método ou de constelação de métodos, que venho audaciosamente empregando na análise do material brasileiro, relativo à casa patriarcal, em relação com os métodos antes de mim utilizados por especialistas apenas interessados em aspectos geográficos, arquitetônicos, técnicos ou estáticos do mesmo assunto - os tipos, brasileiros ou não-brasileiros de babitação - pareçam diferenças e até contrastes dignos de alguma atenção.

A sugestão de influência de "idéia" ou de "técnica" ou "método" "norte-americano", em estudos, como aquêles a que venho me aventurando e em que se procura fazer da casa o centro de tentativas da reconstituição, ao mesmo tempo psicológica e social, do passado mais íntimo do brasileiro e de caracterização das suas, tendências sociais, é sugestão que me parece particularmente difícil de ser aceita, embora tenha partido de um mestre da autoridade, da inteligência e da cultura sociológica do Professor Roger Bastide e mereça respeitosa consideração. Relendo, agora seu artigo, escrito já há anos, creio ter havido equivoco da sua parte. E imodestamente ouso reclamar alguma originalidade brasileira para aquêles estudos brasileiros, nos quais me empenhei por algum tempo, quase sòzinho e só do ponto-de-vista principalmente sociológico e histórico-social e sócio-cultural; mas que tenho o gôsto de ver hoje cultivados, com relação à sociologia da casa patriarcal, por arquitetos inteligentemente alongados em. historiadores, como é o caso, em recentes publicacões, de Mestre Henrique Mindlin. Sóbre êsses meus estudos sôbre a relação entre o homem e a casa se baseia a teoria patriarcalista de interpretacões, da formação brasileira e de formações sociais do tipo da brasileira. Daí a importância que imodestamente lhes atribuo.

Das críticas mais insistentemente feitas a Casa-Grande & Senzala, como estudo da associação de um tipo de arquitetura doméstica a um estilo de convivência de senhores com escravos, que sirva de base a uma teoria patriarcalista de interpretação de formações sociais do tipo da brasileira, lembrarei a seguinte: que a Casa-Grande é apresentada sem sala, isto é, sem se dar relêvo ao que houve, em certas casas-grandes mais opulentas, de requintes ou graças de vida de salão. Com efeito, decidi deixar para outros sociólogos da história, ou historiadores tão sòmente, o trato de tal assunto, de quase nenhuma importância para a análise e a interpretação do complexo ou do conjunto histórico-sociológico que procurei considerar. Há, sôbre a matéria, páginas interessantes: as de Afonso de Taunay; as do historiador Pedro Calmon; as do historiador Wanderley de Pinho. Admito, porém, que seja ainda necessário um dêles escrever sôbre o que foi a sala de visitas numa típica casa-grande brasileira do século XIX um estudo semeIhante ao que dedica ao "parlor" das mansões dos Estados Unidos da mesma época o historiador Russel Lynes no seu recente Domesticated Americans. (N. Y. 1963).

Por outro lado, críticos de todo hostis à recordação do que houve de requinte aristocrático, principalmente sub-europeu ou neo-europeu, na vida das casas-grandes brasileiras, me têm acusado de fazer a apologia dos dominadores, desprezando os dominados, no sistema que os símbolos Casa-Grande & Senzala, pioneiramente reunidos no livro com êste título, evocam, sugerem e - em certos pontos - mesmo definem. Entretanto, que obra de sociologia genética precedeu Casa-Grande & Senzala como tentativa de valorização da presença e da atuação, dentro do complexo sócio-cultural aí considerado em alguns dos seus aspectos mais íntimos, da cunhã, do curumin, do menino, em geral, da mulher, em geral, do escravo, do ameríndio, do negro, da mucama, da sinhama, da cozinheira? Creio que nenhuma. Destacou-o em artigo, numa revista européia, o sociólogo francês Jean Duvignaud, ao considerar aquêle livro o início de um nôvo tipo de estudo sociológico do negro situado em sociedade patriarcal e escravocrática neo-européia, que seria um tipo de estudo revolucionário pela reabilitação que procurei empreender - ou tentei empreender - do mesmo negro, separando-o sistemàticamente - intuitivamente já o fizera Joaquim Nabuco - da condição de escravo.

Ainda outra crítica: a da excessiva - segundo os críticos - importância atribuída ao sexo no estudo sociológico que se empreende em Casa-Grande & Senzala da história íntima da família patriarcal no Brasil, na sua fase quase exclusivamente agrária. É uma crítica que tendo partido do Professor Lewis Hanke, em estudo que dedicou ao assunto há quase trinta anos, vem perdendo o vigor à medida que noutras obras de objetivos afins dos de Casa-Grande & Senzala, se vem atribuindo importância ao fator sexual. Neste ponto, como, em outros, o livro brasileiro parece ter sido audaciosamente pioneiro em seu modo de ser análise social sôbre a qual se desenvolvesse uma teoria de interpretação de formações sociais do tipo da brasileira.

Não me sinto inclinado a me deter na crítica, a meu ver de todo leviana, de ser Casa-Grande & Senzala livro saudosista: saudade do autor do tipo de vida vivido nas casas-grandes, servidas pelas senzalas. Um dos mais argutos críticos brasileiros, Franklin de Oliveira - intelectual, aliás, em sua ideologia, pertencente ao número daqueles homens de estudo um tanto simplistamente classificados de "esquerda" - considerou o assunto, em longo e minucioso ensaio, não só analítico como interpretativo. Aí coloca o crítico a questão em pratos limpos. Uma coisa é ser um autor saudosista em sua atitude decisiva com relação ao passado; outra coisa, é servir-se o mesmo autor da saudade, ou, especìficamente, da remembrança proustiana, como método empático de recapturar um tempo morto, procurando fazê-lo viver para que, assim ressuscitado, possa êsse passado ser como que apalpado pelos dedos dos são tomés. Apalpado nas suas feridas e apalpado nas suas partes porventura sãs. Articulado com o presente e com o próprio futuro de uma sociedade ou de um tipo de sociedade a ponto de, sôbre essa articulação, tentar-se uma interpretação sociológica, e não apenas histórica, de sociedades de um tipo que se caracterize como patriarcal no seu conjunto de interrelações e não apenas na sua organização de família.

Crítica ao livro Casa-Grande & Senzala é a de que nêle se faz a apologia ou o elogio da colonização portuguêsa: a que criou nos trópicos o sistema Casa-Grande & Senzala. Tentativa de reabilitação dêsse tipo de colonização, por tanto tempo agredida, desdenhada, caluniada, quer por autores estrangeiros, quer por vários historiadores ou sociólogos nacionais - excetuado um ou outro Oliveira Lima, um ou outro Sylvio Romero, - admito que exista, em certas páginas do livro; enquanto noutras, a figura do mesmo colonizador é severa e desfavorávelmente, não digo julgada - pois Casa-Grande & Senzala se abstém de julgar, sentenciar e até, como notou o insigne João Ribeiro, concluir - porém considerada.

De outras críticas, não me parece que devo cuidar hoje: elas se vêm desmembrando nas suas próprias fontes ou origens. Por exemplo: a de ser Casa-Grande & Senzala um livro anti-jesuítico e anti-jesuitica a teoria sociológica derivada do estudo de interrelações humanas que aí se empreendesse. É crítica hoje sem vida: destruiu-a um sábio Jesuíta, o Padre Retif, em artigo na revista Études, de Paris.

O mesmo é certo da crítica de ser Casa-Grande & Senzala livro anti-Católico pela ênfase dada à importância da família patriarcal na formação brasileira, com prejuízo da influência oficial da Igreja - não a do Catolicismo - sôbre a mesma formação: vários são os críticos Católicos, que vêm rejeitando, tal crítica. Inócua é a alegação de ser livro Comunista: os Cornunistas agarrados ortodoxamente ao seu Marxismo que o digam. Ridícula se apresenta a crítica de ser livro impatriótico: tenho sido distinguido por mais de um Presidente da República brasileiro com convites altamente honrosos - quase todos, aliás, recusados - que nenhum Presidente de República faria a um concidaddo cujo patriotismo fôsse pôsto em dúvida pela comunidade nacional. Posso não ser nacionalista do tipo atualmente em voga; nem patriota que entenda por patriotismo a absoluta renúncia ao dever de criticar o patriota instituições e costumes da sua gente. Mas a nenhum brasileiro dou o direito de considerar-se mais brasileiro do que eu. Daí aceitar com alguma vaidade a caracterização, que generosamente fêz de mim, há anos, o crítico argentino Saenz-Hayes, autor de obra clássica sôbre Montaigne: a de ser, como ninguém, a seu ver, um "brasileño integral"; a de representarem meus escritos sociológicos e literários o afã de um brasileiro empenhado em descobrir, compreender e revelar a sua própria gente em sua plenitude, isto é, com qualidades e defeitos. Qualidades e defeitos que se teriam afirmado, quase todos, dentro, à margem ou contra a formação patriarcal da sociedade brasileira: formação, como forma sociológica, comum aos vários Brasis e não exclusiva da área do açúcar. Pois ser "brasileiro integral" não exige desse brasileiro a capacidade ou a coragem para a auto-crítica.

Voltando à teoria de interpretação da formnão brasileira por mim esboçada: conteúdos regionais diversos acrescentaram-se à forma transregional - no caso, o sistema patriarcal de convivência -de modo regionalmente diverso. Mas sem que a forma sociológica deixasse de ser forma sociológica; e, como tal, superior às alterações regionais. Ela se manteve a mesma nas estâncias e nas fazendas de café que nos engenhos de açúcar, de onde se originou; e, pela sua constância de forma, deu unidade ao conjunto de sociedades mais ou menos patriarcais que constituiram a sociedade brasileira total. Esta a interpretação patriarcalista da formação social brasileira contra a qual os argumentos até agora aparecidos não têm se apresentado com vigor ou fôrça capaz de a invalidar. Em quase todos êsses argumentos o que se nota é ilusão de ótica sociológica da parte dos que os sustentam, um tanto alheios ao que seja forma social em relação com substância ou conteúdo.

Não é certo que a análise social de que resultou a teoria patriarcalista de interpretação de formações sociais do tipo da brasileira tenha se limitado à chamada área do "açúcar do Brasil". Ou seja sòmente válida para essa área: a única que o seu autor conheceria. Para chegar a tal teoria, o analista foi além: procurou estudar, para efeitos comparativos, outras áreas. No Brasil, as do gado, e do café. Nos Estados Unidos, a do antigo Sul agrário: (açúcar, na Louisiana, algodão, e tabaco, noutras províncias). No Oriente, Goa. Na áfrica, Moçambique e Angola. No Peru e no Paraguai, suas antigas áreas de lavoura, em vários pontos semelhantes à brasileira, do açúcar. Não se especializou, é certo, no estudo dessas outras áreas como se especializou na brasileira do açúcar. Mas estudou-as.





Como e porque sou escritor, sem deixar de ser um tanto sociólogo


"...There is no blinking the fact that in the study of human affairs we are often confronted with the need to comprehend the unique". Barrington Moore




O que principalmente sou? Creio que escritor. Escritor literário. O sociólogo, o antropólogo, o historiador, o cientista social, o possível pensador são em mim ancilares do escritor. Se bom ou mau escritor é outro assunto.

Numa como tentativa de oferecer, a êsse respeito, um depoimento ou uma confissão de possível interêsse sociológico, procurarei fixar aquí algumas, das orientações que considero essenciais à afirmação de um escritor como escritor; e que se baseiam até certo ponto na minha própria experiência. Sôbre elas, por outro lado, se apoia minha esperança de ser escritor, sem ser, exatamente, beletrista.

Ser alguém escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. É uma atividade mais de aventura que de rotina. A sociologia da atividade do escritor está ainda por fazer. A uma sociologia difícil de ser traçada, tão diferente tende a ser o escritor de outros homens, quer dos das chamadas profissões liberais, quer dos que vivem de ofícios ou de artes. Me é um pouco de tudo isso sem pertencer especìficamente a nenhum dêsses grupos profissionais. É inseguro. Sabe-se de companhias de seguros que têm segurado por altas somas mãos de pianistas. Mas não mãos de escritor.

Tende o escritor a ser, por vêzes, àsperamente individual para ser independente. Mas precisa, por outro lado, de não se fazer, precisa de não se desenvolver, adstrito a uma classe ou a uma raça ou a um sistema ideológico, fechado ou exclusivo. Precisa, quase sempre de ser o mais possível múltiplo e vário nos seus contactos e nas suas experiências, embora se conheçam casos excepcionalíssimos de indivíduos que quase isolados do mundo se têm tornado escritores: o caso das Bronte, o de Santa Tereza, o de esquisitões como Thoreau e, entre nós, a seu modo, Lima Barreto.

Não é autêntico escritor, mas literalmente, homem de letras, o indivíduo que escreve à base de informações colhidas em autores de livros já clássicos; sem exprimir da vida ou da natureza o que êle próprio vê, sente, observa, experimenta, recria. Daí, no autêntico escritor, aquelas "faculdades indisciplináveis" que nos "autores do Norte", principalmente da raça anglo-saxônica notou certa vez Maria Amália Vaz de Carvalho, esquecida dos Cervantes e dos Fernão Mendes Pinto, já que os Unamuno, na época daquele pronunciamento da ilustre portuguêsa, não tinham ainda atingido a sua plena grandeza. Pois de Unamuno é que ela principalmente poderia ter dito que se revelava, como escritor, "tão estreitamente identificado com a sua obra que os dois formam um inseparável todo".

Escritores dêsse tipo escrevem, com efeito, não só para "expandirem a exuberância de fôrça vital que não conseguem exaurir de outro modo" como para "porem o mundo na confidência de suas impressões hiperagudas". Enquanto o inautêntico, mais homem de letras ou mais literato ou mais beletrista do que escritor, êste é, ou aquêle "modesto burguês que não conhece da vida senão o que aprendeu nos livros" - de outra caracterização ainda de Maria Amália Vaz de Carvalho - ou o mundanom o homem do mundo, o requintado, frequentador apenas de salões, de clubes elegantes, de academias, de society; ou, ainda, o ideólogo revoltado ou o teórico frustrado, por sua vez freqüentador sòmente de reduzido grupo de indivíduos de quem se sente ideològicamente afim: quase sem vivêneia; quase sem exiperiência; com uma obra escrita quase sempre contraposta existência ativa.

Por aí se percebe quanto há de complexo no material que venha a servir à elaboração de uma sociologia do escritor autênticamente escritor; e na qual o primeiro cuidado do sociólogo teria que ser o de separar o escritor assim criador, vital, experimental, do beletrista livresco ou do homem de letras mesmo clássicas, que escreve livros apenas parasitários.

Admitindo-se que eu seja um escritor literàriamente válido como escritor, - segundo alguns críticos literários, essa hipótese não parece valer sequer como hipótese - a que tradição literária pertengo? A que constante? A que tipo? Por que espécie de vocação? Segundo que decisiva motivação? Coexistindo de que modo com o antropólogo - inseparável do psicólogo - com o sociólogo, com o historiador, com o pensador de minha formação sistemàticamente universitária?

Sou escritor acreditando pertencer principalmente à tradição ibérica de escritor - à qual, aliás, já me filiou o Professor Fernand Braudel, do Colégio de França, especificando tratar-se de escritor brasileiro, segundo, êle, mais à maneira espanhola que à portuguêsa. Não falta, a essa tradição, no meu caso como no de uns poucos outros - um Santayana ou um Cela, por exemplo - o colorido de alguma influência inglesa e um pouco da francesa e até da alemã. Mas sob a predominância das constantes ibéricas.

São, aliás, duas tradições em alguns pontos, afins, a ibérica e a anglo-saxônica, como tradições ou constantes de expressão literária ou, mais especìficamente, de expressão literária através do ensaio. Através, também, do drama, da própria novela e da própria poesia.

Divergem as duas tradições da francesa em serem mais livres do que a predominantemente francesa daquelas convenções, para alguns de nós, excessivamente acadêmicas, de correção de frase, de preocupação de medida no dizer, de elegância de palavra, que Boileau tornou quase canônicas para os seus compatriotas de vocação literária, embora não deva ser esquecido o fato de não pertencerem a essa tradição, talvez menos ortodoxamente característica, da França intelectual, do que parece, nem Montaigne - descendente, aliás, da gente ibérica - nem Pascal, nem Villon, nem Rimbaud, nem Michelet, nem Proust. Franceses, entretanto, muito franceses, êles escreveram o francês de um modo, nuns, mais parente do espanhol de certos espanhóis, do que do francês das receitas dos Boileau, noutros, mais afim do inglês de certos inglêses do que do francês consagrado pela Academia Francesa como, exemplarmente clássico, isto é, como arte de composição exemplarmente correta, da qual fôsse impatriótico um escritor afastar-se com a desenvoltura, nos arrojos de expressão e nas audácias de inovação, na língua inglêsa, de um Swift, de um Carlyle, de um Whitman, de uma Gertrude Stein, de um Joyce; ou, na língua espanhola, de uma Santa Tereza, de um Cervantes, de um Unamuno, de um Ruben Dario, de um Ramón del Valle Inclán, de um Garcia Lorca, e, na língua portuguêsa, de um Fernão Mendes Pinto, de um Eça, de um Euclides da Cunha.

Dentro da mais castiça tradição, escreve quem, sendo homem - ou mulher: o caso de Santa Tereza - precisa de completar-se ou de intensificar-se, como pessoa, como homem - ou como mulher - escrevendo como outros, dentro da mesma tradição, vêm pintando ou toreando ou dando-se à Igreja Católica ou ao Estado ou dedicando-se à insurreição contra a Igreja ou contra o Estado, não despersonalizando-se nunca, porém, nem desispanizando-se, em qualquer dêsses extremos. Não faz parte dessa tradição a figura do literato "au dessus de la melée" ou sequer a do homem requintadamente de letras. O hispano é escritor, sendo principalmente pessoa ou principalmente homem: um homem que ajusta a palavra à sua personalidade em vez de ajustar a personalidade a qualquer conjunto de convenções de arte literária tidas por essenciais à consagração de um homem especìficamente de letras. É o exemplo, para todos nós, supremo, de Cervantes e de Camões, de Gil Vicente, de Fernão Mendes Pinto, depois de ter sido o de Lulio: Ramon Lulio.

De Cervantes, se sabe que não se situa, de modo algum, entre os autores de romances ou de novelas - gênero a que aliás não é muito dado o espanhol - como escritor requintadamente literário pelo que nos seus escritos tenha sido arte de composição ou obra de homem especìficamente de letras; ou produção esmerada de literato. Como já têm observado vários críticos, o Don Quixote é obra que, pelas suas deficiências de composição, tem repugnado aos analistas ortodoxamente literários, isto é, mais bizantinamente literários - pensamos alguns a respeito dêsses analistas - no seu modo de ser críticos de outros escritores. Entretanto, já se tem salientado, a propósito de Cervantes, não haver romance de Flaubert, por mais literáriamente perfeito em sua composição, que se aproxime em sabedoria, em humor, em poder poético, da obra imperfeita e, às vêzes, relassa, do espanhol; nem a supera - pensam mestres de literatura comparada - romance inglês algum, dentre os mais potentes: o Tristam Shandy, o Robinson Crusoe, o Tom Jones. Nem, ainda, o Wilhelm Meister, do alemão. Entretanto, Cervantes escreveu o seu livro muito ibéricamente, à revelia de quase tôdas as convenções literárias: juntando a um pouco, das velhas crônicas de feitos heróicos muito de pitoresco e até de vulgar e de chulo. O picaresco, o vulgar, o chulo colhido, pelo autor da bôca do povo e por êle, Cervantes, intensificado com efeitos sociològicamente simbólicos e psicològicamente representativos da realidade. Intensificação de que só são capazes os poetas que ao contacto direto com a vida juntem o poder, ao mesmo tempo analítico e lírico, de compreendê-la, de dramatizá-la e de interpretá-la. O mesmo que, noutro tipo de literatura, fizera já o português Gil Vicente.

Cervantes, - consideremos com algum vagar o caso do grande hispano, pelo que há nêle de sociològicamente expressivo - ao contrário de um Balzac, de um, Zola, mesmo de um Scott, não foi homem de letras - observam alguns dos seus biógrafos - senão pelo que um dêles considera um quase acidente: faltou-lhe - ao seu modo de escrever - sistemática intenção literária, embora não lhe faltasse vocação para se exprimir, em amplitude e em profundidade, como escritor. Pois é certo que, ainda môço, garatujara seus versos, talvez mancos. Incorretos. Mas no que veio, homem feito, o primeiro afirmar-se foi no esfôrço militar em lutas que fizeram dêle, depois de aprisionado pelo inimigo, escravo de mouros: os mouros que combateu no seu tempo como em tempo mais próximo de nós combateria outros invasores da Espanha ou inimigos das crenças ibéricas. Um exílio de cinco anos enriqueceu-lhe a experiência, de europeu de sabores fortemente não-europeus. Fêz-se até estimar pelos maometanos. Quisesse ter renegado o cristianismo e a gente ibérica e acredita-se que teria sido mais, entre mouros, do que fôra ou viria a ser, entre sua própria gente e os da sua própria religião, numa época em que as religiões definiam, para os europeus, as culturas, e caracterizavam as civilizações. Sobretudo as situadas em fronteiras, como as ibéricas: na vizinhança das gentes agressivamente islâmicas.

Preferiu Cervantes voltar da áfrica à sua gente, que não era, para êle, bom hispano, só a espanhola mas também a portuguêsa. Foi êle - é outro dos seus exemplos - não apenas um espanhol mas um espanhol pan-ibérico. Sabe-se, com efeito, de Cervantes que, de volta à península, depois de prisioneiro de mouros, viveu primeiro em Portugal, tendo se ligado a mulher portuguêsa, de quem - informam seus biógrafos - teve até uma filha; e foi, ao que parece, sob o estímulo, de um amor português que escreveu, quase aos quarenta anos, o seu poema pastoral Galatea. Após o que casou-se, como é sabido, com mulher da sua província: mulher de província - pormenor psicològicamente significativo - muito mais môça do que êle. Foi, então, um tanto prosaicamente, uma espécie de cobrador de impostos para ordens religiosas: o que lhe deu a oportunidade de numerosos contactos com o cotidano da vida da sua gente. Depois de muita aventura, alguma rotina. Depois do exótico, a província. Depois da experiência heróica, a anti-heróica. Por isto ou por aquilo, chegou, nesses seus dias de cobrador de impostos, a ser encarcerado na adega de uma casa de aldeia em La Mancha. Depois do exílio, a prisão: experiência - o exílio e a prisão que ninguém imagina atravessada por um Flaubert ou enfrentada por um Anatole France: literatos quase exclusivamente de gabinete ou tão sòmente de acadernia. Mas experiências tão comuns entre escritores hispânicos ou ibéricos, de Ramon Lulio a vários dos atuais, que chega a se tornar suspeito de pouco viril o escritor ibérico que nunca experimentou - como um Unamuno ou um Fernando de los Rios - o exílio ou a prisão, para não nos referirmos aos de vida mais dramática, e até de fim trágico, como foi o caso, em nossos dias, de Frederico Garcia Lorca.

O exemplo supremo que Cervantes, e escritores hispânicos ou ibéricos menos importantes, porém não menos significativos do que êle, nos deixaram, é o de que não é fácil separar-se, dentro dessa tradição ibérica mais característica, de literatura, o escritor, do homem; nem o artista, da pessoa. Pessoa quase sempre personalidade, de que a arte é quase tão sòmente uma expressão apenas apurada pelo exercício nem sempre acadêmico ou convencional, da mesma arte; quase nunca simples aquisição, através dêsse exercício tornado a angústia em que Flaubert se requintou e sob a qual Eça de Queiroz, ao afrancesar-se, perdeu a potência ibérica que, paradoxalmente, readquiriu ao envelhecer e ao desafrancesar-se, opondo a aventura do desafrancesamento à aventura de afrancesamento.

Daí ser quase sempre o escritor de tradição ibérica um escritor mais de campo de que de gabinete: a negação mesma do típico literateur abstrato. Intelectual dado, por vêzes, senão à vida de café, a contatos com o tumulto e até com a boemia da vida de café e de rua, o fato é que do café ibérico se pode dizer que é uma instituição ainda mais democrática que o seu equivalente francês sabendo-se de cafés ibéricos que têm sido ou são, ainda hoje, freqüentados pela gente mais diversa - toureiros, políticos, atôres, artistas plásticos, compositores, além de escritores - e não apenas, um, por intelectuais dêste feitio, outro, por intelectuais daquele outro feitio, cada um com seu quê de aristocratismo literário e seu toque de clube exclusivo.

Supõe-se ter a idéia - ou a necessidade? - de escrever Don Quixote empolgado Cervantes quando êle se achava na prisão em La Mancha. Tinha - todos o sabemos pelos seus biógrafos - cinqüenta e oito anos quando publicou, já quase velho, a primeira parte da, para a época, estranhíssima obra, tão fora das conveções estão dominantes na literatura de qualquer país europeu; tão inovadora; aparentemente mais de môço afoito do que de velhote prudente. Mas com tôdas essas contradições, obra de escritor caracterìsticamente hispânico ou ibérico: presente nos seus escritos; concreto nas suas descriçõeses, deformadas, entretanto, para efeitos de síntese ou de intensificação simbólica da simples realidade; ou expressivas - expressionismo do mesmo tipo do de El Greco, em pintura, ou do de De Falla ou de Villa-Lobos, em música, ou do Aleijadinho, na escultura - dêste ou daquele aspecto da realidade. Trata-se de uma atitude que distingue o escritor a la Fernão Mendes Pinto do repórter apenas objetivo de viagens, como distingue o historiador a la Oliveira Martins do cronista apegado às datas, o dramaturgo a la Garcia Lorca dos teatrólogos apenas realistas.

     Autobiográfico nas suas supostas invenções puras, que são, entretanto, experiências um tanto dissecadas ou purificadas através de uma técnica literária muito ibérica, Cervantes, como Fernão Mendes Pinto, na língua portuguêsa, como que se antecipou a Gide e a Pirandelo numa técnica especìficamente literária de autobiografia projetada em literatura aparentemente do não-eu imaginado pelo eu; e em arte, em geral, aos Cubistas quanto à substituição de uma perspectiva única por perspectivas empáticas e simultâneas da mesma realidade. Há nêle alguma coisa não só de ensaista como de historiador e até de psicólogo-social dentro de um ficcionista nunca, no seu caso, apenas lúdico nos seus objetivos de inventor ou de contador de história que, não tendo acontecido tal como se apresenta, se baseia, entretanto, em intensificações de fatos, em misturas de pessoas e de tempos diversos e em novas combinações de relações reais e até históricas de pessoas com paisagens. Fatos e relações que não só aconteceram como se repetiram sob a forma sociológica de recorrências de comportamento humano, dentro de circunstâncias especìficamente ibéricas, isto é, hispânicas - ou especìficamente espanholas - só possíveis, algumas delas, em época de dissolução de uns tantos estilos de vida, de conduta e de etiqueta e de sua incerta substituição por outras: a época de Don Quixote.

Não se caracteriza o escritor da mais castiça tradição ibérica - da qual Cervantes permanece o exemplo clássico mais alto - por aquela bizantinice na composição literária que resulta em obras rigorosamente bem cuidadas e em estilos dos chamados castigados. Daí um psicólogo inglês da sagacidade de Havelock Ellis ter observado dos escritores espanhóis - do próprio Cervantes - serem, por tradição, "apt to neglect the more minute graces of style".

Neste particular, creio, na verdade, pertencermos, alguns escritores brasileiros - eu, dentro de limites modestíssimos - antes à tradirgilo ibérica que a qualquer outra de escritor. No meu caso, me sinto, é certo, parente, - sei que irremediàvelmente pobre - de um Proust tido por alguns por muito pouco francês: parentesco descoberto em mim por críticos estrangeiros, principalmente por franceses. Mas o parentesco que porventura me prende a êsse escritor francês, ao meu ver pouco castiço como escritor francês e até um tanto ibérico no seu modo de ser introspectivo e empático - espécie de jesuita defroqué que, tendo perdido a fé, conservasse o melhor da casuística psicológica dos S. J. e até se mostrasse discípulo a seu modo dos Exercicios Espirituais como técnica de empatia aplicada à novela - estaria na tendência, desajeitada da minha parte, e, nêle, magistral, para captar dos homens e dos grupos humanos que consideramos, mais as intimidades quase secretas, de tão sutis, características do seu comportamento, que os aspectos ostensivos dêsse comportamento. Estaria também na própria maneira um tanto relassa de procurarmos dar expressão a essas nossas aventuras de recuperação não só de tempos como de homens perdidos em tempos desaparecidos.

Do psicólogo inglês, tãoo admirador dos místicos espanhóis, Havelock Ellis, é outra observação, perspicaz sôbre o escritor ibérico: a de que é um escritor que, de ordinário, se tem afirmado mais na idade madura do que na mocidade. Isto por ser essencialmente - deve-se acrescentar a Ellis - um escritor autobiográfico. Nunca um inventor de personagens ou de mitos - o que faz que não seja um escritor de ficção no sentido vulgar de ficcionismo, - tudo nêle tende a ter por base sua própria e personalíssima experiência: a vida por êle pessoalmente experimentada, vivida, vista, ouvida, amada, sofrida, apalpada, sentida, observada. A vida por êle apreendida em todos os seus contrastes: desde os mais sórdidos aos quase angélicos; dos plebeus aos fidalgos; dos sensuais aos religiosos. Daí um. misticismo de certos escritores ibéricos - Santa Tereza, entre êles - a que não falta sensualidade. Sensualidade sublimada, é claro.

Ao escritor caracterìsticamente ibérico repugna a arte de escrever levada àqueles requintes que a torne uma arte de escritor para escritores, tal o seu refinamento em composição fechada, esotérica, sectária. A tendência do escritor hispânico é para um realismo vizinho de um expressionismo desdenhoso, em seu modo de ser expressão ou interpretação ou intensificação literária de vida vivida ou de experiência. experimentada, de quanto lhe pareça bizantinice estilística ou chinesice artística. Daí ser um escritor a quem não faltam incorreções na composição das frases; descuidos na gramática; plebeismos - inclusive obscenos - os mais inacadêmicos e os menos de salão, na caracterização de fatos vivos e até em movimento; ou na redução dêsses fatos a símbolos também vivos e atuantes.

Será o escritor caracterìsticamente ibérico, um tipo de escritor a cuja tradição, na sua parte mais espanhola que portuguêsa, repito o que críticos franceses da sagacidade de Fernand Braudel, professor do Colégio de França, vêm filiando a expressão literária de alguns brasileiros de hoje - eu, modestamente entre êles, - figura inatual ou mesmo arcaica? Creio que não. Ao contrário: creio que vem havendo nêle, através de sua aparente arcaização, alguma coisa de potencialmente pós-moderno que parece vir da sua predisposição a alguma coisa de ultra-acadêmico e, até, de saudàvelmente anárquico no seu método ou, antes, modo, de expressão literária. Essa predisposição vem, fazendo do escritor mais tìpicamente ibérico, desde Ramon Lulio e de Fernão Mendes Pinto, desde Fernão Lopes e do próprio Camões, desde Lope de Vega e de Gil Vicente, desde Juan de la Cruz e de Santa Tereza, um intérprete de vida, sentida, sofrida, experimentada, interpretada, nos seus contrastes, através de uma mais ou menos intensa participação do escritor nessa mesma vida. Participação que vem fazendo dêle aquilo que, em moderna linguagem sociológica, se chama um observador empático ou um analista participante. Daí vir sendo êle, por antecipação a métodos modernos de literatura, em particular, e de arte, em geral, a um tempo impressionista e expressionista em suas interpretações de objetos, em vários casos, tornados sujeitos, dos quais tem revelado, através de tais abordagens, intimidades insuspeitadas, como aquelas outras, dos orientais, surpreendidas por Fernão Mendes. Quando F. H. Bradley escreveu em Appearance and Reality que a realidade varia com o ângulo de que é observada, devendo, por conseguinte, ser considerada ao mesmo tempo múltipla e uma só, já o escritor tìpicamente ibérico vinha seguindo êsse tipo de abordagem do real: abordagem seguida também pelos pintores caracterìsticamente espanhóis. E quando se fala em pintores caracterìsticamente espanhóis, é preciso incluir-se, no número dêsses pintores, El Greco, pela muita espanholidade que adquiriu ao fixar-se na Espanha: tanta que êsse adventício, como bom expressionista, se tornou mais espanhol que os espanhóis.

Se pertenço como escritor, com possiveis, embora discutíveis, virtudes literárias, como também discutível, admito ser minha condição de analista - dentro da tradição, também ibérica, de Vives - a um tempo científico e humanístico, do Homem, isto é, de um tipo de Homem situado, e, ainda, como possível intérprete de uma sociedade e de uma cultura também situadas; se pertenço, como possível escritor e como possível antropólogo dessa espécie, talvez mais existencialista que aristotélica - e o hispano é um exitencialista desde velhos dias -antes à forma ibérica de escritor e de analista do Homem que a qualquer outra, suponho que o seja - se de fato o sou - por direito tanto de quem nasceu ibérico como de quem, seguindo, dentro da sua modéstia, e por conseguinte, a imensa distância, o exemplo de El Greco, conquistou essa sua condição ibérica em plenitude e talvez em profundidade, pela sua intensa identificação, desde adolescente, e sendo sempre brasileiro, com os estilos e os valores literários da Espanha e não apenas de Portugal.

Já recordei, noutro dos meus ensaios, como tal sucedeu. Como estudante universitário no estrangeiro, senti a necessidade, diante de fortes culturas, então, como ainda hoje, em vigor nos grandes meios universitários dos Estados Unidos e da Europa, como a anglo-saxônica, a germânica, a francesa, a eslava, a italiana, de resguardar-me dessas culturas imperiais, firmando-me não só nos ainda verdes e um tanto agrestes valôres culturais brasileiros; nem apenas nos relativamente poucos valôres lusitanos e luso-brasileiros, mas nos ibéricos, em geral, dos quais os brasileiros, os lusitanos, os luso-brasileiros, senti então, e sinto hoje, serem apenas parte. Venho desde aqueles dias firmando-me nos valôres espanhóis, e não apenas nos portuguêses, dessa cultura global que cedo, felizmente, descobri ser tão minha, assim global - minha e dos brasileiros - quanto dos espanhóis da Espanha ou dos hispano-americanos do México ou da Colômbia ou do Equador ou de qualquer pais outrora colônia só da Espanha; tão minha e dos brasileiros de um Brasil, colônia outrora da Espanha e não apenas de Portugal, quanto a portuguêsa, inseparável, como cultura, da espanhola. Estava eu no comêço dessa minha consciência pan-ibérica de simples candidato, mal saido da adolescência, a escritor, quando em Oxford, na Inglaterra, conheci o então mestre de literaturas ibéricas naquela universidade, o Professor de Arteaga - antecessor de Salvador de Madariaga - que um dia me sugeriu permanecesse eu no burgo oxoniano como seu assistente. Sugestão que confesso ter me seduzido, de tal modo correspondia ao meu afã pan-ibérico e ao meu encanto pela vida na Oxford daqueles dias. Mais forte, porém, que êsse encanto foi o meu outro empenho, também daqueles dias e que dura até hoje: o de reintegrar-me no trópico de que sou nativo, não como simples brasileiro, mas como brasileiro pan-ibérico.

Data dos meus dias de estudante em Colúmbia onde conheci Don Ramón del Valle Inclán - e de scholar meio boêmio em Oxford, em Paris, na Alemanha e em Coimbra - o fervor de adolescente com que me entreguei à leitura de autores espanhóis e hispanoamericanos - entre êstes Ruben Dario - e ao estudo de artes espanholas e hispano-americanas - a moçárabe, a manuelina, a cusquenha, a mexicana - sentindo nesses autores e nessas artes mistas de um modo muito ibérico, não autores e artes estrangeiros, de encanto ou sabor exóticos para meus olhos, meus ouvidos e meu paladar de brasileiro, porém expressões - inclusive na culinária e nos vinhos - de uma cultura, para mim, tôda ela, que, sendo hispânica ou ibérica, era materna; familial; fortemente endogâmica, a despeito de suas aventuras com o exótico. E nada mais natural que, dessa minha identificação, em fase ainda tão plástica da vida, resultasse que a muita leitura de místicos, de dramaturgos, de ensaistas, de poetas espanhóis, e o muito convívio com artes e artistas ibéricos, me levasse a um modo de ser escritor - quando comecei a ser, sendo escritor, arremêdo de escritor - decisivamente orientado por tal identificação com os espanhóis e seus descendentes e continuadores, tanto quanto com os portuguêses e seus outros descendentes e continuadores, além dos brasileiros.

Não devo deixar de assinalar que considerável vem sendo, também, a influência, sôbre minha formação - ainda incompleta, apesar da idade - de constante aprendiz de escritor, de influências vindas de outras origens; francesa, (Montaigne, Pascal, Michelet, os Goncourt, Proust, o próprio Gide); anglo-saxônica (Chaucer, Swift, Defoe, Pater, Joyce, os dois James, Yeats, os Imagistas, Lawrence de Arábia); russa, de Tolstoi; a dêsse alemão, filho de brasileira, que foi Thomas Mann, autor, também êle, de páginas que me parecem das mais penetrantes que um escritor moderno tem escrito, associando à ficção a realidade de modo por vêzes semelhante ao de autores ibéricos. Apenas são influências que se juntam à decisiva que, na minha formação, tem sido sempre a ibérica.

Na generalização de Gide de, em literatura, ser a ficção, história que poderia ter acontecido, e a história, ficção que aconteceu, e na sua confissão de, como escritor sempre auto-biográfico, apresentar os fatos de tal modo que êles se conformem, assim apresentados, mais com a realidade do que com ela os mesmos fatos se conformam, ou se conformara, na vida real, encontro afirmativas de um método com o qual, até certo ponto, coincide, dentro dos seus limites, o meu, de ensaista, e agora seminovelista. Ensaista e seminovelista quase sempre historiador ou antropólogo ou sociólogo na sua ciência ou no seu saber e, não raro, ibèricamente autobiográfico na sua expressão literária. Não foi outro o método do grande Fernão Mendes Pinto ao organizar e apresentar os fatos que constituem essa obra prima de literatura e também, de antropologia existencial que é Peregrinação. Ou o método de Vives, considerado por Dilthey o fundador da moderna antropologia. Um Vives que tendo sido científíco foi também autobiográfico e, como tal, escritor caracterìsticamente ibérico.

Aliás, no método de Gide, como no de Proust, no método de Montaigne e até no de Lawrence da Arábia e no de Hemingway - discípulo, aliás, de Pio Baroja - isto é, no modo vivo, vivente, dêsses escritores serem escritores, pode-se descobrir parentesco nada insignificante com os métodos mais característicos dos escritores mais castiçamente ibéricos, a um dos quais, Gracián, Nietzsche prestou homenagem quase de discípulo a mestre. São métodos a que, em arte de pintura, um espanhol fixado em Paris, Pablo Picasso, vem dando, com arrôjo ibérico, a mais vigorosa expressão moderna; e levando para essa arte aquêle sentido profundamente hispânico de interpretação literária ou filosófica ou sociológica ou religiosa da vida, segundo o qual a realidade, seja ela qual fôr, exige do seu intérprete que a considere, tanto quanto possível, simultâneamente, isto é, através de várias perspectivas, e não apenas de uma só; ou da convencionalmente isto ou aquilo: histórica ou ficcionista, realista ou impressionista, expressionista ou cubista, sociológica ou psicológica.

Sou escritor - ou um constante aprendiz de escritor - que nas suas tentativas de captar e interpretar aspectos situados da condição humana, em geral, através da do homem tropical, especialmente da do brasileiro, em particular, vem procurando captá-los e interpretá-los por meio de várias perspectivas, por vêzes simutâneas. Daí o confuso, o desordenado, o descontinuo que têm encontrado em meus trabalhos certos críticos literários. Talvez, daí, a incompreensão, da parte de uns tantos outros, do que vem sendo, nesses trabalhos, o emprêgo de perspectivas científicas ao lado das humanísticas, além de repetições e desordens na expressão ou na fixação, possìvelmente literária, dessas perspectivas por vêzes simultâmeas: expressão que daria a êsses trabalhos, segundo alguns críticos, categoria artística ou qualidade poética e, segundo outros, os reduziria a um amontoado caótico de imagens, nem validamente científicas, nem literàriamente sugestivas.

Concordo em que haja, nos meus trabalhos, objetos dessas críticas, além de desordem e repetições, de negação de virtudes convencionalmente literárias, por um lado, e de convencionalmente científicas, por outro, como virtudes puras ou castiças em suas formas acadêmicas ou ortodoxas. Não sou escritor - se é que sou escritor - fácil de ser classificado; e nisto talvez seja caricaturescamente ibérico. O estilo que, segundo alguns críticos, caracteriza os mesmos trabalhos, reconheço não ser modêlo de estilo científico - admitindo-se que fôsse estilo antes científico que literário, que eu procorasse atingir. Mesmo porque o ideal, em trabalhos puramente científicos, parece ser a quase ausência de estilo. Confesso-me anárquico, um tanto personalista, um tanto impuro, um tanto contraditório, um tanto desordenado e, nestes defeitos, uma caricatura daqueles escritores ibéricos ainda hoje inclassificáveis, um dêles o Unamuno de quem há pouco se comemorou o centenário.

A verdade, porém, é que, no meu caso, o que venho procurando ser é escritor que, como escritor, se serve da sua formação ou do seu saber - se é que existe - científico - o antropológico, principalmente - em vez de pretender ser principalmente antropólogo ou sociólogo ou historiador, ou pensador, por assim dizer, institucional. O caso - essa condição híbrida, flexível, e um tanto anárquica - de vários hispanos. O caso, também, de um Lawrence da Arábia: êsse inglês parente de espanhóis até no seu modo empático de ser moçárabe. Entre nós, brasileiros, o caso de Euclides da Cunha. Daí sentir-me com desembarago ou liberdade para me exprimir, principalmente, como escritor, - escritor com pretensões a escritor literário - sem que para tal renuncie à responsabilidade de que me investe a formação ou a condigão de cientista e, talvez, - "excusez du peu" - a de pequeno pensador. Cientista sem cátedra universitária - sempre recusada - mas sempre em contacto com universidades do seu país e do estrangeiro. Pensador desligado de ideologias sistemáticas ou fechadas, mas sempre em atividade pensante, analítica, crítica.

Como é que um escritor assim escritor e talvez assim ibérico se diferencia dos demais intelectuais - dos intelectuais que não são escritores nem ibéricos? Creio que por aquilo que um crítico alemão, Rolf Schroers, chama "espontaneidade": qualidade e, às vezes, defeito tão dos hispanos. Uma espontaneidade que é quase o mesmo que criatividade; e esta, por sua própria natureza, rebelde quase sempre às normas estritamente acadêmicas e aos estilos rìgidamente institucionais de comportamento intelectual. Personalismo. Individualismo. Talvez - repito - algum anarquismo intelectual contraditòriamente vizinho de certo apêgo de revolucionário conservador a umas tantas tradições ou constantes, sob a forma de valôres de sempre. De qualquer modo, possível corretivo, da parte de uns indivíduos mais espontâneos que institucionalizados, aos excessos de institucionalismo e de academismo, com que vários outros são intelectuais e, por vêzes, intelectuários, isto é, intelectuais como que burocráticos ou sob a disciplina quase burocrática de instituições ou de ideologias.

Salienta o crítico alemão dos indivíduos de formação universitária - cientistas, técnicos, scholars - que, especializados nisto ou naquilo, são "altamente qualificados", também nisto ou naquilo, e de "inteligência admiràvelmente adestrada" nas suas várias pericias. Não lhes faltam conhecimentos sistematizados; nem disciplina científica. O que lhes parece faltar para serem não só escritores, como intelectuais no sentido ibéricamente mais castiço de escritor e, até, de intelectual, é espontaneidade. Criatividade. Ou disponibilidade para aquela vida intelectual bastante independente para ser criadora que fêz Santayana deixar um dia, inesperadamente, sua cátedra em Harvard para tornar-se até o fim de sua vida, num convento da Itália, não como convertido à Igreja mas sempre como intelectual independente, um cigano desprendido de compromissos com instituições oficiais ou ofíciosas de saber ou de ciência.

Daqueles indivíduos de formação universitária e de disciplina científica podem aproximar-se os modernos cérebros eletrônicos - sugere o crítico alemão, que já citei. Mas não dos intelectuais que, sendo escritores, se diferenciem dos universitários daquele tipo de homem lógicamente mental, por uma espontaneidade capaz de surpreender-se a si própria. Nesta espontaneidade está um característico de todo escritor autêntico, mas, principalmente, de todo autêntico escritor ibérico ou pan-ibérico. Ela pode levá-lo a contradições. Mas contradições que de ordinário se completam na interpretação, por um escritor, de uma realidade complexa através do domínio do mesmo escritor sôbre palavras, além de sugestivas, reveladoras: epifânicas, como as que Joyce tão intensamente buscou, especialmente na sua última fase de experimentador aparentemente só verbal: na verdade, também psicológico e até sociológico.

Referi-me já ao pouco pendor do escritor espanhol para a novela convencional. Entretanto, é espanhola a supernovela que é Don Quixote; e de Ganivet como de Unamuno são páginas imortais em que a chamada "verdade novelesca" faz companhia à não-novelesea, reforçando-a ou dando-lhe intensificações dramáticas que só por êsse tipo de verdade - a novelesca - ou pela teatral, poderiam ser por êles atingidos. A verdade, porém, é que a presença do que seja dramático no passado ou na atualidade ou no futuro de um indivíduo ou de um grupo humano pode ser surpreendida e sugerida pelo escritor sem que êle precise de recorrer à novela ou ao teatro; e nessa captação e sugestão de drama o escritor espanhol tem como que se especializado, pela revelação, em ensaios como os de Vives, os de Gracián, os de Luís de León, os de Ganivet, os de Unamuno, os de Ortega, os de Baroja, os de Azorin, de uma verdade não-novelesca, desenvolvida, quase sempre, tanto autobiográficamente como pela dissolução do eu do autor nos modelos que êle faz, quando desdobra ensaios em novelas, seus personagens imitarem. Portanto, ora de dentro para fora, ora de fora para dentro.

O grande característico, aliás, de Cervantes, em Don Quixote. Daí, em livro recente, Mensonge romantique et vérité romanesque, (Paris 1961), o crítico René Girard salientar da novela romântica ou românticóide isto é, a novela convencional - que "jamais descobre a contradição dialética final que tôda grande novela encerra". E dá como exemplo de grande novela animada de contradição dialética, o Don Quijote.

Aqui me permito a deselegância de, descendo até à minha própria condição de pequeno escritor de feitio espanhol, referir-me a recente experimento a que tive a audácia de entregar-me, escrevendo o que denominei uma semi-novela. Já que não me era possível escrever, como Miguel Cervantes, uma supra-novela, procurei esquivar-me da convenção da pura novela esboçando uma semi-novela; e procurando tornar claro, no subtítulo, nao só essa deficiência como aquela orientação: a de que o autor procurava fugir da "mentira românticóide" para ater-se a uma verdade, menos românticóide que romanesca ou novelesca. Isto dentro da tradição cervantina que é também a que se encontra em Galdós, em Ganivet, em Uhamuno, em Baroja: o Baroja que, copiado por Hemingway, fêz o anglo-americano chegar ao Prêmio Nobel. Aliás, é também reparo de Girard que na novela convencional o autor dá sempre a verdade que apresenta como proveniente de outro e não como saída dêle próprio: a tendência do romancista ou novelista como que ansioso de projetar-se nos personagens, tornando ostensiva sua criação, em vez de empenhado em penetrar-lhes nas consciências, por meios indiretos e empáticos e quase como se fôsse apenas um mediador entre êles, personagens e as suas façanhas, e o leitor, como o ensaista ou o historiador ou o antropólogo ou o biógrafo, é quase sempre outro mediador entre a realidade crua que consegue captar e o leitor a quem transmite a imagem e, por vêzes, a interpretação dessa realidade.

Se para Girard a verdade novelesca não deve sujeitar-se a ser apenas expressão literária de verdade psicológica ou de verdade sociológica - ou antropológica ou histórica - isto não significa que essas três ou quatro, ou cinco verdades não possam coincidir numa novela, que seja, por superioridade, algo diferente das novelas convencionais. são coincidências características da novelística espanhola; e também neste ponto me encontro, pelas coincidências dêsse gênero, que se acham em pequenos trabalhos meus, mais próximo de espanhóis que mesmo de inglêses. A verdade novelesca pode, com efeito, senão coincidir de modo exato, coexistir, de modo iluminante, com a verdade histórica ou com a verdade sociológica ou com a verdade psicológica. Uma pode intensificar ou ampliar as outras. Na expressão de qualquer dessas verdades, ou de várias delas, a um tempo, pode definir-se um indivíduo como escritor.

O exemplo de Nietzsche é expressivo, de filólogo, e, sobretudo, de filósofo, que se afirmou principalmente como escritor. Já fôra o caso de Pascal. Já fôra o de Francis Bacon. Já fôra o de Gracián. E depois de Nietzsche, seria o de Newman, o de William James, o de Unamuno, o de Spengler, o de Ortega, o de Santayana e, nos nossos dias, o de Aldous Huxley, o de Bertrand Russell, o de Gabriel Marcel, o de Sartre. De Sartre acaba de escrever um dos seus críticos de língua espanhola, para caracterizá-lo como escritor, que "ha intentado llegar por todos los medios posibles a uma vasta. mayoria de lectores que no se ha reducido a la exposición tecnica, especializada, sino que ha echado mano de la literatura, del articulo periodistico inclusive..." êsse crítico é Jorge Rodriguez Romero, em artigo no n. 52, de outubro de 1964, da excelente Eco. revista de la cultura de Occidente, que se publica em Bogotá. Precisamente o número em que aparece a tradução do ensaio de Gert Muller sôbre Spengler, no qual se exalta o escritor alemão - escritor principalmente jornalístico, antes de ter surpreendido seus contemporâneos com sua obra monumental de teoria da história - por ter realizado uma facanha que dificilmente poderia ter sido realizada por professor universitário e, portanto, acadêmico, a quem faltasse o ânimo, que não faltou ao escritor por vêzes mais Intuitivo do que lógico, para superar, no campo da teoria da história, aquêle "especialismo que se havia dispersado em um sem número de domínios", substituindo-o por urna "visão das grandes conexões", através da consideração das culturas como sujeitos, e não objetos, do acontecer histórico.

É na captação de conexões dessa espécie que o escritor, ao se afirmar mais intuitivo do que lógico, mais generalista que especialista, se avantaja ao antropólogo, ou ao sociólogo, ou ao economista, ou ao historiador, que não seja, como o escritor autênticamente escritor e um criador, mas apenas um. erudito ou um técnico ou um sábio no seu modo de ser intelectual. A virtude que lhe distingue a creatividade é a poética no seu sentido mais profundo; e que tanto pode animar os ensaios de um Walter Pater como os sonetos de um Camões ou os romances, mesmos os mais realistas, de um Lawrence. Todos escritores: cada um a seu modo.

Devo recordar aqui que desde o começo de minha atividade, primeiro de candidato a escritor, depois, de escritor profissional, grande tem sido o meu afã no sentido de, para ser assim complexo, conservar-me quanto possível, independente de qualquer ideologia política ou sistema religioso ou escola filosófica, ou seita sociológica. Reconheço ser possível a um escritor pertencer ativa e conscienciosamente a um dêsses sistemas e escrever obra notável: Dante, o Católico ortodoxo, é o supremo exemplo que logo se impõe à nossa consideração. Milton e Bunyan, Batistas, dois outros exemplos magníficos. Ainda outros exemplos, Newman e Claudel e, nos nossos dias, Merton, Católicos, Eliot, Anglicano, o Fascista Ezra Pound e, entre nós, o Comunista, Jorge Amado.

São, porém, casos raríssimos. O drama de Pasternack está vivo diante de nós. O de Unamuno, também: o Unamuno que, para ser o hispano completo que desejaria ter sido, estimaria decerto, no seu íntimo, ter podido aderir de corpo e alma à Igreja Católica, da qual, entretanto, para ser o escritor sincero, honesto, independente que foi, conservou-se apenas um marginal: um marginal sempre angustiado -agônico, até - mas sempre independente. O caso também de Berdiaeff com relação a Igreja Ortodoxa Russa e o do Malraux com, relação a êste vigoroso equivalente da Igreja Católica nos dias de Contra-Reforma e da Igreja Ortodoxa Russa no século XIX que é atualmente, a despeito das idéias arcaicas e das teorias em vários pontos ultrapassadas em que se apoia, o Partido Comunista Internacional: como organização, duro, inquisitorial e, por vêzes, até lamentàvelmente -sanguinário naquela intolerância, naquela intransigência, naquelas exigências de subordinação absoluta de seus membros, quer à sua mística doutrinária, quer aos seus oportunismos, ostensivos ou sutis. Táticas que fizeram a fôrça da Igreja Católica de Roma e, sobretudo, da Companhia de Jesus naqueles dias, e que, repudiadas hoje por essas duas organizações, em face, uma e outra, de idílica e, por vêzes, talvez, para um Antero de Quental que voltasse a considerar o assunto, excessiva tolerância dos seus contrários e de quase desapêgo aos seus dogmas essencials e aos seus ritos de validade universal, explicaria isto a decadência, a fraqueza, a impotência em que, segundo alguns observadores, porventura extremamente severos, vão resvalando; e em que continuação, conforrne os mesmos observadores, a resvalar até que, dentro delas próprias, se reergam intransigências e se reafirmem dogmas decisivos: aquêles sem os quais uma igreja não é Igreja porém apenas uma igrejinha a mais, do caráter dúbio, das muitas que constituem hoje o chamado Protestantismo liberal; ou da mesma espécie antes humanitária, cívica ou ética que pròpriamente religiosa, característica de movimentos como o, na sua esfera, admirável "Rearmamento Moral" ou, em plano intelectual superior, o "Congresso pela Liberdade da Cultura" - um como Rotary Internacional da esquerda. O que registro aqui, é claro, apenas de passagem; e valendo-me das opiniões nem tôdas aceitáveis, de observadores de um dos fenômenos mais impressionantes dos nossos dias: o da, segundo êsses observadores, excessiva inclinação da Igreja Católica Romana para imitar igrejas liberalmente Protestantes que parecem vir sofrendo excessos de culto, pelos seus adeptos, de uma tolerância por vêzes menos virtude que expressão de fraqueza de ânimo: a indiferença pelos valores espirituais sob sua guarda. Pois não sendo membro de nenhuma dessas organizações e considerando-me como escritor, obrigado a ser independente de qualquer delas, é como se fôsse, com relação a elas, um homem de Niterói com relção a coisas da Guanabara.

Duas possibilidades parecem abrir-se para a Igreja Católica de Roma - durante séculos, fonte de inspiração, justamente pela firmeza dos seus dogmas, para tantos escritores de primeira grandeza, de Santo Agostinho a Paul Claudel e, pelo mesmo motivo, solução para as angústias de vários outros, entre os quais Newman e Huysmans: ou reerguer-se, revalorizando os seus dogmas e os seus ritos e o seu mistério, e, através dêles, sua unidade; ou continuar a desenvolver-se de forma de tal modo lógica e racional que a mística de unidade se torne, para ela, apenas uma poética relíquia e, neste caso, pouco capaz de oferecer resistência ao seu sucessor, como fôrça unida pelo dogma e avigorada pela mística nada racional da intransigência: o referido Partido Comunista Internacional. Sucede, porém, que também, vem êste vem se enfraquecendo nos últimos dez anos e tende a enfraquecer-se cada vez mais pelo policentrismo que se está acentuando entre numerosos Comunistas, já quase tão desprendidos do culto de Lenine e do rito russo-soviético de Comunismo monolítico quanto numerosos Católicos-Romanos do culto de Maria e do rito latino e supra-nacional de Catolicismo.

Com tais tendências dissolventes quer de dogmas quer de ritos, unificadores de sistemas autoritários e ordenadores de divergências, parece ganhar relêvo a concepção de vida dos anarquistas vamos dizer construtivos: aquêles para os quais o bem estar humano seria favorecido pelo mínimo de pressão autoritária ou ordenadora ou disciplinadora - vinda de fora para dentro - sôbre os homens. Concepção com que se harmoniza o ideal de vida de vários escritores do tipo menos acadêmico e mais espontâneo: o mais característico, segundo parece, daqueles escritores que psicológica e sociològicamente se distinguem de literatos e de homens de letras.

É claro que esta visão de dois dos fenômenos mais expressivos da nossa época - a desintegração já franca da Igreja de Roma como fôrça autoritàriamente ordenadora e o começo de desintegração da Organização Comunista Internacional, como equivalente sociológico dessa fôrça, nos últimos decênios - é simples visão intuitiva - quando muito intuitivamente sociológica - dêsses fenômenos. Visão que não considera nem o aspecto místico dêsses fenômenos nem o seu aspecto especìficamente político. Como livre-atirador - e, aqui não pretendo senão apresentar-me como exemplo de escritor-livre atirador em face de uma dramática situardo contemporânea - o escritor independente pode dar-se ao luxo dêsses devaneios com um desembarago difícil de ser atingido por intelectuais comprometidos com instituições ou com sistemas ideológicos.

Vejo no escritor expressão, sobretudo, daquela inteligência, daquele saber, daquela intuição que precisam de ser independentes para se afirmarem criadoras. A não ser quando, por necessidade do próprio élan criador e, até da sua pessoa inteira, precise o escritor de identificar-se com uma tradição ou com um sistema de vida, de cultura e até de política; e possa fazê-lo sem sacrifício, em qualquer ponto essencial, da sua arte ou da sua condição de escritor: façanha dificílima porém possível. Outra vez nos ocorre o exemplo de Dante; e, dentre escritores ibéricos, o de Santa Tereza ou o de Luís de León. Mas quase sempre o que parece desejável, do ponto de vista do equilíbrio entre os extremos, é que haja organizações firmes nas suas ortodoxias e indivíduos à margem dessas ortodoxias ou em revolta contra elas. Entre êsses indivíduos, vários dos escritores mais ciosos da sua independência como escritores.

Creio que tenho sido, como escritor, um independente e um sincero. Nessa minha atividade venho seguindo, de algum modo, o exemplo do inglês que se gabava de nunca ter procurado uma amizade prestigiosa, por ser prestigiosa, nem se esquivado a um ódio de poderoso, por ser ódio de poderoso. Isto com relação a indivíduos e com relação a intituições; com relação a sistemas fechados e com relação a modas ideológicas às vezes tão tirânicas, em seu domínio sôbre uns tantos intelectuais, como as modas de penteados, de trajo e de calçados sôbre as mulheres da chamada "society"; e também com relação ao público em geral, a cujas exigências e caprichos sentimentais ou ideológicos, o escritor autêntico - penso eu e assim tenho procurado proceder ou comportar-me como escritor - nunca se deve submeter. às vêzes o caminho do escritor, fiel à sua vocação, e às suas idéias, é o caminho da impopularidade. Nunca o do indivíduo que escreva obcecado pela vontade de ser sempre "best seller" e ter sempre uma "bonne presse".

Sou dos que pensam que o escritor, para ser autenticamente escritor, precisa de pensar, sentir e escrever sem subordinação a qualquer fôrça econômica ou políticamente dominante ou a moda ideológica ou a convenção social ou a terrorismo jornalístico: o terrorismo da parte de jornais ou de jornalistas que pretendam intimidar ou prejudicar escritores com distorções de suas idéias, silêncios em tôrno dos seus livros, malícias contra suas pessoas. O escritor que se acovarda diante dessas fôrças corre o risco de tornar-se escriturário em vez de escritor; intelectuário em vez de intelectual. Corre o risco de tornar-se um equivalente das prostitutas avelhantadas: aquelas que tudo passam a fazer para agradar os jovens, para ganhar popularidade, para dar prazer aos poderosos de qualquer espécie.

Raramente o escritor autenticamente escritor se sente de todo à vontade, quando seu pensar e seu sentir de tal modo coincidem com o pensar e o sentir em voga, que êle, escritor, não exista senão como expressão de uma maioria satisfeita com seus triunfantes estilos de vida e de cultura. Ao escritor autêntico penso eu que anima, quase sempre, antes o pendor para a inovação, a renovação, a crítica, a projeção sôbre o futuro, algum regresso - como no caso do pré-Rafaelista Dante Gabriel Rossetti, escritor e pintor e como, entre nós, foi o caso do poeta Augusto Frederico Schmidt a algum passado mais de acôrdo com seu gôsto, que a pura atualidade ou a simples moda literária ou a cômoda adesão a essa atualidade e às suas normas; ou a um progressismo sectário ou retórico.

Dai a inconformação, mais que a acomodação, às normas em vigor, caracterizar o escritor autêntico. A não ser, é claro, quando nessas normas em comêço de ser normas, se projetam idéias, pioneiras, revolucionàriamente pioneiras, de escritor, que apareça então como renovador em parte triunfante, como é o caso atual de Malraux, até há pouco um insurgente e agora colaborador do Presidente De Gaulle num govêrno, sob vários aspectos revolucionário que se vai estabilizando em regime revolucionário-conservador. Foi o caso dos escritores Franklin e Jefferson na organização dos Estados Unidos num nôvo tipo de Estado-Nação. Foi o caso do escritor Lenine na reorganização da Rússia como outro tipo nôvo de Estado-Nação. Foi, no México, o caso de Vasconcelos com relação a nova política indigenista de cultura para a gente mexicana. O caso de Masarik e o de Benes, na Tchecoslováquia. O caso, entre nós, do já citado Augusto Frederico Schmidt que ficará na história da política exterior do Brasil como um dos reorientadores dessa política. O escritor pode tornar-se, em tais casos, um quase político, sem sacrifício nem da sua vocação nem da tendência de todo o escritor autêntico para criar, pensar, sentir e atuar, independentes de quanto seja excessiva pressão de instituições ou de sistemas ideológicos sôbre sua criatividade.

Sem um domínio sôbre as palavras que se defina de modo mais incisivo, ou menos incisivo, em estilo, e sem um sentido epifânico no uso não só de palavras como até na combinação de vogais com consoantes, no ritmo de frases que, através de pontuação também rítmica, passem a caracterizar êsse todo ou êsse complexo chamado estilo, não há, evidentemente, escritor. Até que ponto, no meu caso, haverá um ensaista e agora também um seminovelista, que, além de descritivo, sejá epifânico? Ignoro. Sei que não me contentaria, nunca -se dependesse de mim - de ser simplesmente descritivo no que escrevo. Nem simplesmente descritivo nem apenas expositor de conhecimento ou de saberes adquiridos de livros, ou de mestres, ou de estudo sòmente linear dêste ou daquele objeto. E sim um tanto mais do que isto. Sugestivo. Evocativo. Interpretativo. Provocante. Epifânico.

É por êsse afã, ou por essa capacidade, que um indivíduo vai além do saber, racional ou intuitivo, em que é, de algum modo, especialista, seja êsse saber o acadêmico de um Huxley, sôbre ciências biológicas, ou o folclórico, de um Simões Lopes Neto, sôbre coisas gauchescas; e se torna ou se afirma escritor. E como escritor adquire uma força que não atingiria como especialista, mesmo quase perfeito, mas desprovido da virtude - virtude no sentido básico da palavra - de escritor.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Como e porque sou e não sou sociólogo. Brasília: Universidade de Brasília, 1968. 189p.

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