UM ESTUDO DO PROF. ADERBAL JUREMA 0 sobrado na paisagem do Recife
A cêrca do sobrado na paisagem do Recife, o Sr. Aderbal Jurema a caba de publicar um ensaio notável. À documentação se junta um sentido sociológico do assunto, de todo incomum em estudos convencionalmente histórico.
0 autor se situa na posição de um intérprete não sòmente de fatos ou seqüências locais, mas de processos e formas características de tôda uma época de economia transoceânica da Europa. De um tempo vivido não apenas pelo Recife, sob a influência particularmente holandesa, mas por outros Recifes sob influências social e culturalmente parentas da holandesa que, no século XVI, estendeu com vigor, de Amsterdam até ao Norte do Brasil, um dos seus tentáculos imperialistas.
Justamente aqui me parece a mais notável contribuição que o Sr. Aderbal Jurema traz para os estudos brasileiros de história social em tôrno da arquitetura doméstica ou civil: articula-os com estudos gerais do assunto de modo a libertar o problema da influência holandesa - holandesa, diz êle; judaico-holandesa, creio que deve dizer-se - sôbre a arquitetura luso-brasileira de cidade, da estreita idéia de ter sido uma influência apenas holandesa - nacionalmente holandesa - sôbre uma região ou área apenas geográfica: a recifense.
Esclarece o arguto ensaista que a influência sôbre a arquitetura civil do Recife de que os holandeses foram portadores - e que tendo se intensificado no Recife, por motivos ecológicos, já se antecipara na própria subárea plana de Lisboa - representava menos a influência de uma nação, em particular, que a de um tipo de civilização, em geral; e êsse tipo de civilização, característico de tôda uma época de vida ou de economia européia: a de expansionismo mercantil e burguês. Daí poder dizer-se - creio eu - que o sobrado de feitio holandês, com sua altura incomum e seu telhado agudo, foi uma espécie de gótico da arquitetura burguesa e mercantil.
Destaca o Sr. Jurema "o êrro de interpretação daqueles que vêem na Holanda um país e não a síntese arquitetônica de uma civilização burguêsmente mercantil, a mais importante, sem dúvida, da Europa, graças ao deslocamento do eixo comercial das cidades italianas do Mediterrâneo para os Países Baixos e os da costa atlântica, como Portugal e Espanha". Seu ponto de vista coincide de modo geral com o critério de interpretação de influências exóticas sôbre o Brasil, consideradas antes como expressões de áreas e épocas de cultura que de nações, principados e mesmo raças, por mim seguido em mais de um estudo. Aplicou-o, entretanto, o Sr. Aderbal Jurema ao problema da influência holandesa sôbre o sobrado recifense - influência, depois da publicação do seu livro, impossível de ser negada com a ênfase ou o simplismo de outrora - com uma nitidez, um vigor, uma utilização inteligente de documentos e de evidências - algumas inteiramente novas ou ignoradas - que tornam seu ensaio magnífica contribuição original para o esclarecimento do assunto. (1)
GILBERTO FREYRE
Publicado na revista "O Cruzeiro" - Rio, 1953.
I
0 estudo do Professor Aderbal Jurema, 0 Sobrado na paisagem recifense, é um dos mais sugestivos publicados ultimamente no Brasil. Discute assunto verdadeiramente sedutor. Trata-se, com efeito, de problema não só histórico, de documentação, mas sociológico, ou antropológico-social, de aculturação. Aculturação que, tendo começado a verificar-se na Europa, continuou a processar-se na América. Aculturação ou transculturação, como prefere dizer Ortiz com aplauso do "funcionalismo" inglês representado por Malinovski.
Essa transculturação seria estranho que a não tivesse sofrido em alguns dos seus traços, e da parte do Norte avançadamente burguês da Europa, a arquitetura portuguêsa de sobrado, quando a sofreu, da parte do Oriente, a arquitetura lusitana menos pública de casa simplesmente de residência: casa com alpendre, varandas, pátio forrado de azulejo, minarete. Tanto aquêle Norte, como o Oriente afetaram a vida, a cultura, a arte portuguêsa, em vários dos seus aspectos. E espantoso seria que só a arquitetura burguesa tivesse escapado a essa influência, quando a ela não escaparam em áreas menos avançadamente burguesas da Europa do que Lisboa - e menos em contato com o Norte europeu, precocemente burguês - a arquitetura suburbana e a rural, de residência.
Êste foi o meu ponto de partida para a consideração do assunto, ao incluir-me, há anos - como se inclui agora, após estudo sério e por conta própria, do assunto, o Professor Aderbal Jurema - entre os que admitem influência holandesa ou flamenga na arquitetura portuguêsa de sobrado. Influência que tendo se comunicado ao Brasil, manifestou-se de modo particular, - mas não exclusivo - por motivos de ordem ecológica, na cidade do Recife, de formação, como tôda a gente sabe, holando-portuguêsa e patriarcal-burguesa.
É certo que essa influência tem sido negada - e negada com ênfase. Mas quase sempre por brilhantes especialistas, não em assuntos de história social e cultural, - no caso a ciência decisiva - mas em outras e ilustres ciências. Ou por jornalistas igualmente brilhantes.
Se formos considerar a matéria pelo critério da autoridade dos que têm se pronunciado a seu respeito, encontraremos, entre os historiadores, brasileiros ou especializados em estudos de história brasileira, para quem, de modo geral, houve influência holandesa sôbre a cultura luso-brasileira: Joaquim Nabuco, Artur Orlando, José Higino, Souto Maior, Pereira da Costa, C. Bradenburger, e, ainda, Joaquim Ribeiro, José Honório Rodrigues e José Antônio Gonsalves de Melo. 0 próprio Eduardo Prado disse do Recife: "Os holandeses deixaram aqui um pouco de si próprios".
Entre os que admitem a mesma influência de modo particular, sôbre a arquitetura, encontram-se o historiador especializado no estudo da história pernambucana - inclusive de Pernambuco sob o domínio holandês - Alfredo de Carvalho, que conhecia de perto as cidades do Norte da Europa, estudara na própria Europa as línguas holandesa e alemã e se especializara em engenharia no estrangeiro antes de ter, como técnico, dirigido obras de demolição de velhos sobrados da quase-ilha do Recife, tendo tido, então, oportunidade de conhecer muito de perto os memos sobrados e de confirmar sua já antiga opinião - desde que voltara da sua viagem de estudos à Europa - sôbre os traços holandeses e nórdicos que guardavam em sua arquitetura os memos edifícios; e o arquiteto pioneiro em estudos de história da arquitetura e não apenas religiosa no Brasil, Morales de los Rios.
Dos observadores estrangeiros, homens conhecedores das cidades do norte da Europa, que identificaram traços nórdicos nas predominâncias de forma da arquitetura civil do Recife, o Professor Aderbal Jurema destaca, no seu ensaio, vários. Encontram-se entre êles europeus e norteamericanos de nítida responsabilidade intelectual.
0 alemão Lanberg é um deles; e outro, o norteamericano Samuel Green Arnold, cujo depoimento sôbre o assunto é agora divulgado pela primeira vez em livro brasileiro. Transcreve o Professor Jurema daquele alemão e de vários outros observadores, palavras que estão longe de ser frases de viajantes irresponsavelmente levianos. Foram, coIhidas, algumas em apontamentos que forneci ao Professor Jurema outras, em notas do historiador José Antônio Gonçalves de Melo - continuador de José Higino e de Alfredo de Carvalho no estudo, em que vem se especializando de modo, notável, do período holandês da história de Pernambuco. Várias, encontrou-as o Professor Jurema em fontes que é agora - repita-se em honra de seu livro - o primeiro a revelar. O que o consagra como pesquisador, além de perspicaz, diligente.
Não se compreende que estrangeiros de procedências tão diversas se deixassem iludir por predominâncias do forma de construção, descobrindo traços holandeses em puras formas portuguesas de sobrado. Não se compreende que um deles, alemão e germanicamente minucioso em suas informações, fale até num "estilo holando-português" de arquitetura que, característico do Recife, se encontrasse por exceção noutras cidades do Brasil que o teriam recebido direto de Lisboa pré-pombalina de uma Lisboa que, segundo o escritor Júlio Dantas, - letrado não de todo estranho à investigação histórica - chegou a parecer-se, em alguns dos seus aspectos, com cidade flamenga. 0 caso, também, do Pôrto, em contraste com Evora ou Olhão: cidade - Olhão - de aspecto quase norteafricano. Outro ilustre escritor português, também estudioso arguto da história d'arte. RamaIho Ortigão, encontrara na Holanda - sôbre a qual nos deixou fascinantes páginas -- - expressões arquitetônicas a que fortemente se assemelhavam as portuguêsas de cidade.
Não é de admirar: sabe-se hoje, por pesquisas meticulosas que a Nau Catarineta - para todos nós, portugueses e descendentes de portuguesês, expressão castiça do gênio lusitano de navegação - tem origens norte-européias. Ou traços de influência norte-européia. Nem porisso deixa de ser a coisa - coisa sociológica - portuguesíssima e lusobrasileiríssima que é.
II
Quando um pesquisador norteamericano, o Professor Wertenbaker, idenficou influências holandesas ou flamengas em região dos Estados Unidos que se julgava imune dessa influência, fêlo através da análise de predominâncias de formas de construção que não Ihe pareceram de geração espontânea, mas adquiridas. 0 agudo das empenas laterais de sobrados e casas do Recife está entre essas predominâncias de forma capazes por si sós de sugerir transculturações. 0 fato de terem ocorrido noutras cidades antigas do Brasil não quer dizer que tivessem alcançado a mesma preponderância que no Recife; uma preponderância característica da fisionomia urbana da capital de Pernambuco, a ponto de vir sendo destacada por tôda uma série de observadores idôneos.
Transculturações, de origem holandesa, de estilos ou formas de construção, ocorreram nos Estados Unidos através da Inglaterra: até onde chegara - como chegara a Portugal - a influência da arquitetura do Norte do continente europeu, mas rasgadamente urbano, na época pré-industrial. êsse Norte teve seus centros principais de irradiação de influência na Holanda, em Flandres, na Bélgica; e seu sentido de arquitetura civil desenvolveu-se, com o seu melhor viço, naquelas áreas européias e americanas onde as condições ecológicas - angústia de espaço, necessidade de concentração urbana perto do mar, mangues, águas ou alagados que agissem como obstáculos à expansão horizontal das cidades - favoreciam, de modo particular, tal desenvolvimento.
O caso da área recifense: plana, alagada, talássica, como planas, talássicas eram a área norte-européia e a área de Nova Amsterdam, nos Estados Unidos: aquelas em que os arrojos de verticalidade alcançaram, sob formas de uma arquitetura comercial e urbana, como que gótica, suas maiores vitórias de técnica de construção e de economia de espaço. Era, portanto, o Recife área predisposta a receber em sua arquitetura urbana e comercial a influência holandesa ou nórdica, que de fato recebeu. Recebendo tal influência, a arquitetura luso-recifense não se corrompeu nem se degradou: fortaleceu-se em suas qualidades ecológicas.
0 fato de a arquitetura portuguêsa de sobrado ter vantajosamente assimilado, quer na Europa, quer no Brasil, influências holandesas ou flamengas que facilitaram seu desenvolvimento ecológico em áreas especialíssimas de Portugal e da América, não diminui de modo algum, nem desprestigia, a cultura lusitana. Não afeta o português na sua dignidade de povo criador. 0 segredo da vitalidade de cultura lusitana venho procurando demonstrar, há anos, em páginas não de todo superficiais, mas baseadas em algum estudo e em alguma observação, que está justamente no seu extraordinário poder de assimilação do exótico.
A própria arquitetura portuguêsa de residência representa uma série de assimilações felizes de valores exóticos. Principalmente árabes, mouros e orientais. A varanda, assimilou-a o português da arquitetura indiana; a telha côncava, da arquitetura chinesa; o azulejo, da arquitetura dos árabes. A própria palavra "varanda" é indiana de origem, como são árabes de origem várias palavras portuguêsas que se referem a técnicas e valores hoje lusitanos.
Entretanto, quem nega ao português a criação de um tipo de arquitetura doméstica que é uma maravilha de lusitanidade? Em cultura - cultura no sentido sociológico, como no restrito - raramente se inventa de modo absoluto algum valor. 0 poder dos grandes criadores está em recrear valores, adaptando-os a novas condições, dando-lhes novas expressões, aguçando-lhes funções ou especializações.
Nada mais
característico do gênio português - repita-se - que a chamada
Nau Catarineta, hoje luso-brasileirissima. Entretanto, - lembra em
páginas eruditas um mestre de estudos folclóricos, o Professor
Sílvio Júlio - o romance é "bretão e
provençal em suas mais antigas versões".
0 arranha-céu nova-iorquino é neto do sobrado esguio da Nova Amsterdam: mas de tal modo recreado que chega a parecer pura e audaciosa criação norte-americana. 0 mesmo aconteceu, - creio eu - de modo imensamente mais modesto, ao sobrado esguio do português que, em Lisboa e no Recife, tudo indica ser em parte resultado de assimilação de valores ou sugestões norte-européias. Inegáveis, como me parecem, tais influências, não chegam a comprometer a espantosa capacidade portuguêsa para desenvolver arquitetura ecológica nos trópicos. é um ponto em que me parece de todo enganarem-se aquêles lusofilos que não admitem o menor traço de influência exótica na arquitetura lusitana de cidade. Que não concebem essa arquitetura modificada pelo maior contato de Portugal com o Norte da Europa ou de portugueses com europeus do Norte, quer na Europa, quer na América.
III
0 Professor Aderbal Jurema veio enriquecer com o seu 0 Sobrado na paisagem recifense, os estudos brasileiros de história sociológica da arquitetura civil luso-brasileira. Veio enriquecê-los com páginas inteligentes e honestas.
A sua insistência no fato de que a arquitetura de sobrado foi favorecida, no seu desenvolvimento, por um tipo de civilização - a burguesa ou urbana do Norte de Europa - de que os holandeses comunicaram numerosos traços a Pernambuco ou ao Norte do Brasil - influência já sugerida por mim em Sobrados e Mocambos, mas posta em relêvo pelo Professor Jurema sob novos e significativos aspectos - é talvez, o nervo de sua vigorosa contribuição para a estudo histórico-ecológico ou histórico-sociológico do sobrado na paisagem do Recife.
É uma tese que encontra confirmação em recentes páginas, publicadas em Paris, pelo professor Pierre George sôbre La Ville: le fait urban a travers le monde: livro que o Professor Georges Gurvitch, catedrático de Sociologia da Sorbonne, quís ter a gentileza de enviar-me, junto com outras publicações sôbre o assunto. Recorda aí o autor a configuração antes urbana do que rural da Flandres do século XVI. Os castelos e as edificações rurais - tão salientes na paisagem de outras áreas européias - eram secundárias em Flandres; avultavam as edificações urbanas. Nas cidades - cidades por algum tempo tão frequentadas pelos portugueses - exprimiu-se um tipo novo de europeu - o burguês - que procurava concentrar-se em valores e formas urbanas, em vez de dispersar-se em valores e formas rurais de que as formas e valores urbanos fôssem formas e valores subsidiários. Daí teria resultado a verticalização - podemos concluir - da arquitetura civil naquelas áreas do Norte europeu: verticalização, noutras áreas, limitada às formas intensamento agudas das catedrais góticas.
A verticalização da arquitetura civil teria se acentuado naquelas cidades quase ilhas, situadas à beira do mar ou dos rios, com objetivos nitidamente comerciais a superarem os de ordem feudal ou aristocrática ou militar. Cidades judaico-européias do Norte, deve-se acentuar, como cidade judaico-europeia - e também moura - do Sul foi Lisboa nos seus grandes dias; e cidade judaico-holando-portuguesa - ou judaico-holando-lusitana - o Recife, nos seus dias de burgo comercial indeciso entre a Holanda e Portugal, embora já, a seu modo, brasileiro: luso-brasileiro.
"Crescimento em altura", chama o professor Pierre George o que venho denominando "verticalização"; e acentua ter o desenvolvimento de tal tendência atingido o seu "paroxismo técnico" no arranha-céu de Nova York, com a "redução catastrófica" da areação das ruas. Entretanto, dêsse paroxismo não se aproximaram nunca as grandes cidades asiáticas com o seu crescimento em extensão: casas baixas, pouco diferenciadas das rurais. 0 que talvez se deva atribuir à importância do fator sociológico; ao fato de não terem sofrido tais cidades o impacto de "progresso burguês" que deu ao Norte da Europa preponderância sôbre outras áreas, do século XVI ao XX; e essa preponderância caracterizada por um capitalismo imperialista de base nitidamente metropolitana, cuja repercussão madrugou no Recife, trazido pelos holandeses e, principalmente - quanto a seus elementos mais nobres - pelo Conde Maurício de Nassau.
IV
Das inteligências que se limitam a colecionar fatos escreve numa de suas melhores páginas Oliver Wendel Holmes, mestre na arte anglo-saxônia do "humour", que são inteligências de um só andar: o térreo. As inteligências de dois andares seriam as capazes de comparar e generalizar, aproveitando o trabalho feito pelas inteligências térreas. As inteligências de três andares seriam as que, além de comparar e generalizar, são capazes de idealizar, imaginar, prever. De ver os fatos amplamente iluminados nos seus vários aspectos. De acompanhá-los em suas projeções.
O Professor Aderbal Jurema revela-se, no seu estudo O Sobrado na paisagem recifense, uma inteligência de três andares. Não faltam às páginas de seu ensaio fatos cuidadosamente reunidos: são o seu andar térreo. Nem a sua análise dêsses fatos, capacidade de comparação e generalização. Nem, às suas generalizações, a flama daquela imaginação ao mesmo tempo criadora e crítica, sem a qual ninguém se distancia em estudos sôbre a natureza, o passado ou o comportamento humano, do terra-a-terra das simples descrições. Seu ensaio não é apenas descritivo: eleva-se a obra de interpretação sôbre a base de fatos, evidências, depoimentos que o autor teve a paciência de recolher de fontes diversas, algumas ignoradas ou quase ignoradas entre nós.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Um Estudo do prof. Aderbal Jurema. Recife: Nordeste, 1954. 24p.
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