A AMAZÔNIA BRASILEIRA E UMA POSSÍVEL LUSOTROPICOLOGIA
Prefácio
O Professor Gilberto Freyre iniciou no Brasil uma nova etapa
nos estudos de antropologia social e sociologia histórica. Cabe-lhe, com justiça, o
título de renovador. E não é só. Gilberto Freyre construiu uma obra esplendidamente
viva, repleta de valores humanos, ao lado do objetivismo científico que sempre acompanha
os seus estudos.
"Casa Grande & Senzala" assinala um marco de
transição na sociologia brasileira, revelando um espírito invulgar, que continua
presente e magnetizante na vida cultural do país.
O método de Gilberto Freyre observar, analisar, e interpretar
os fatos sociais, com profunda intimidade humana, possue o sentido de manifestação de um
novo espírito das sociedades que êle retrata. Esse espírito estava perdido nos tempos e
na complexidade dos fatos que êle ressuscitou dos arquivos e apreende na existência
cotidiana, trazendo à tona coisas até então despercebidas, e construindo um mundo real,
essencialmente humano, de gente "com sangue, carne e osso", no dizer de Paul V.
Show.
O papel renovador de Gilberto Freyre está para a sociologia
como o de João Ribeiro está para a história. Antes do humanista sergipano esta matéria
não era encarada com objetivismo científico. Fazia-se, sòmente, pura e simples
reconstituição dos quadros políticos e administrativos, sem tentar uma identificação
dos fatores que concorreram para o evento histórico.
João Ribeiro imprimiu nova metodologia na reconstituição do
passado histórico brasileiro, a da kulturgeschichte alemã, que exerceu decisiva
influência em seu pensamento, como a metodologia sociológica de Franz Boas e Franklin
Giddings estimulou as raras aptidões intelectuais de Gilberto Freyre.
Assim como a história de João Ribeiro passou a ser uma
síntese dramatizada da cultura, procurando fixar as tendências e características de
nossa formação social, a sociologia de Gilberto Freyre fêz desabar uma revolução
cultural no Brasil. Uma revolução que não pára, tornando o Brasil mais brasileiro.
É certo que a sociologia, antes de Gilberto Freyre já
adquirira fóros de ciência desenvolvida, e vários de seus estudiosos, adeptos da escola
francêsa de Durkhein, de Le Play, ou das idéias de Haeckel, de Spencer, entre outros,
produziram trabalhos de valor.
Porém, o mérito principal de Gilberto Freyre é haver
associado à história, a sociologia, a antropologia e a psicologia, enriquecendo os seus
livros de uma paisagem nova, originalíssima, dando-lhes uma dimensão intelectual
extremamente sedutora. Aproveita-se de tudo o que é vida, e vida na expressão mais fiel
da palavra, pois a história e a sociologia só se faz com a essência do humano.
Êle possue o segredo de saber ver e ouvir: "ouvir as
vozes que chamam, que cantam, que rezam, que discutem, que rogam pragas, que apregoam
doces nas ruas, que dizem versos nas salas, que cochicham indiscrições nos cafés ou nas
boticas, que sussuram boatos nas esquinas, que contam anedotas só para homens, que falam
mal dos governos, que discutem política", e, por fim, de analisar com agudeza o que
vê e entrevê até mesmo indiscretamente, mas proveitosamente. Êste é o seu permanente
estado d'alma, revelado por ele mesmo durante a viagem que empreendeu a terras
portuguesas.
Daí a riqueza, o sabor, o pitoresco do estilo, o conteúdo
espiritual, a densidade, nas obras de Gilberto Freyre. Ademais, suas palavras deslisam
macias como aqueles rios mansos que cortam as terras gordas do Nordeste. Parece que suas
idéias se semeiam no massapê oleoso dos canaviais para brotarem em frases de ternuras
líricas no tratamento de paisagens, de seres, de coisas, de animais.
Emancipa-se de falsos preconceitos, convenções, hipocrisias,
e disseca a sociedade humana, mostrando, às vêzes, a sua crua realidade. Autêntica e
viva, a sociologia de Gilberto Freyre "deriva de seus olhos abertos, agudo sentido de
farejar as coisas, sensibilidade tangível, ouvidos acurados e palestra
especuladora", na opinião de Paul V. Show, que se lê no ensaio "Gilberto
Freyre's Lusotropicalism"!
Um outro prisma da obra de Gilberto Freyre é a arte de dizer
segundo a maneira que Battista Vico já acentuara, isto é, com certas faculdades
"ligadas à lógica da representação, da imaginação, da intuição". A sua
objetividade científica é acompanhada pelo senso estético, o que o aproxima do
conhecido conceito de Jacques Levigne: "A ciência reduz a realidade a um esquema e a
arte faz dela uma presença que comove".
Isto porque a Gilberto Freyre não falta o amor à terra e à
humanidade, amor que é entusiasmo e aféto na forma pura da Arte, capaz, como fôrça de
criação, de penetrar no recesso da natureza e no íntimo dos mistérios humanos, dêles
extraindo valores que exprimem a verdadeira vida, em função do meio ou em conflito com
êsse mesmo meio.
Compreende-se, assim, o sucesso extraordinário de sua obra.
No Brasil "Casa Grande & Senzala" está na 10.ª edição, e em França, só
num ano, atingiu o record de sete edições. O crítico literário de "Le
Figaro" denominou a livro de "epopéia literária e antropológica", e os
sábios do Colégio de França e da Sorbonne, como Lucien Febvre, Gurvitch, Braudel,
destacaram, nele, o valor histórico-sociológico, dentro de uma nova técnica de
interpretação. Nos Estados Unidos "The Master and the Slaves" é trabalho de
interêsse permanente e de consulta nas Universidades, conforme verifiquei pessoalmente.
Quase todos as livros do humanista pernambucano estão traduzidos para o espanhol, o
inglês, o francês, o alemão, o italiano, o japonês.
Exercendo uma forte influência na configuração do
pensamento brasileiro, Gilberto Freyre despertou, a partir de seu famoso "Manifesto
regionalista de 1926", em Recife, muitas vocações para os estudos sociais e
antropológicos, e se pode afirmar que está plasmando no espírito das novas gerações
algo de concreto em sentimento brasileiro, dinâmico em sua marca regional, nacional, de
uma realidade universal, no estudo dos múltiplos aspectos de nossa sociedade.
A obra de Gilberto Freyre é tôda uma nova escola de
pensamento e de pesquisa.
A Amazônia brasileira começa, agora, a estar presente na
pena do mestre de Apipucos. Todos nós, amazônicos, que admiramos a obra de Gilberto
Freyre, lamentávamos a sua não direi ausência, mas o seu critério en passant
com relação à grande área do norte do país.
Mas a vocação regional e ao mesmo tempo universal do autor
de "Sobrados e Mocambos" mais dia menos dia acabaria por fixar-se nesse
extraordinário laboratório ecológico. Parece que o seu interêsse de identificação
com a Amazônia ganhou decisivo impulso depois de una visita mais demorada a Manaus e
Belém, que empreendeu no ano de 1958.
É assim que em 1960 Gilberto Freyre já dizia, com ênfase,
no prefácio de seu livro "Brasis, Brasil, Brasília": "Nada de
desprezarmos a Amazônia: sem um contacto com Manaus, Belém, a selva amazônica, ninguém
pode considerar-se ou dizer-se completo em sua visão do Brasil".
O trabalho aqui apresentado, "A Amazônia Brasileira e
uma possível luso-tropicologia", é uma prova de que Gilberto Freyre começa a ver
e a sentir uma área ecológica de nosso país com o seu agudo poder de
observação e análise.
E foi para festejar êste bom evento que a chefia da Agência
da SPVEA no Rio de Janeiro mandou editar o presente caderno, homenageando, também, o
insígne sociólogo que há pouco recebeu verdadeira consagração da parte de escritores,
artistas, pensadores, cientistas, professores, poetas, todos brasileiros, escrevendo uma
série de ensaios para o livro "Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia, sua
arte", comemorativo do 25.º ano do aparecimento de "Casa Grande &
Senzala".,
Quem não está de acordo com as palavras do Embaixador
Gilberto Amado nesse livro de festa intelectual? Ei-las: "A leitura da Obra de
Gilberto Freyre desvendou horizontes, nos fêz ver não só o Brasil que conhecíamos ou
pensávamos conhecer, como o que desconhecíamos. Mostrou-nos êle, sobretudo, a muitos de
nós pelo menos, como devíamos fazer para acompanharmos o desenvolvimento da sociedade
brasileira. Todos somos, queiramos ou não, obrigados ao autor de "Casa Grande &
Senzala".
Publicada "A Amazônia Brasileira e uma possível
Lusotropicologia" no volume "Homem, Cultura e Trópico", edição da
Universidade do Recife, a Agência da SPVEA no Rio de Janeiro, que tem a seu crédito um
bom programa de divulgação cultural, desenvolvido nestes últimos anos, quis, de certo,
levar as idéias do sociólogo e lusotropicalista ao alcance de maior número de
estudiosos. Tratando-se de um assunto que toca diretamente à sensibilidade regional, a
iniciativa está fadada a receber os aplausos de quantos esperam reunir em tôrno da
Amazônia as inteligências mais lúcidas, como a de Gilberto Freyre, no propósito
cívico de, através do estudo, da análise, da interpretação da região, trazê-la para
mais perto do Brasil que ainda não chegou a descobri-la, a assegurar-lhe os meios seguros
e hábeis para uma verdadeira integração regional no processo dinâmico da civilização
brasileira.
Gilberto Freyre iniciou e estimulou no Brasil o movimento que
teve por objetivo os estudos regionais, partindo da realidade geográfica-social
brasileira: "as diferentes províncias, regiões ou ilhas do continente
- ou do arquipélago brasileiro - "em que está incluída "essa formidável ilha
ao mesmo tempo ecológica e sociológica do arquipélago brasileiro, que é a
Amazônia" (Gilberto Freyre, "Problemas brasileiros de Antropologia").
A contribuição que êle oferece em "A Amazônia
Brasileira e uma possível Lusotropicologia", abrindo novos caminhos para sondagem,
análise e compreensão da sociedade amazônica sob o ponto de vista ecológico, é, a meu
ver, de grande importância. Quanta coisa nova, por exemplo, êle destaca nos livros do
Professor Arthur Cézar Ferreira Reis, quanta matéria essencial ao estudo ecológico,
lusotropicalista, da Amazônia, ele extrai dos ensinamentos daquele emérito historiador,
quanta sugestão interessante êle oferece!
Para uma breve conceituação do lusotropicalismo é melhor
ouvirmos seu criador, em "Aventura e Rotina" : Lusotropical me parece a
expressão própria a definir o que há de comum às civilizações de origem portuguêsa,
cuia projeção sobre áreas quase tôdas tropicais são animadas por um sentido tropical
de paisagem, de vida, de cultura, só modificado e alterado por variações secundárias
de região ou de província".
Numa conferência pronunciada em Goa, no ano de 1951 (incluida
no livro "Um brasileiro em terras portuguesas"), Gilberto Freyre avança um
pouco mais no seu novo campo de estudos, a sociologia tropicalista - uma sociologia que
é, também, história lusotropicalista, filosofia lusotropicalista, antropologia
lusotropicalista - e nos explica:
"No caso dos povos lusotropicais acontece, porém, isto
de singular: não deixam de ser lusos ao tomarem consciência de sua condição de povos
extra-europeus, com um novo tipo de civilização a desenvolver. O Brasil, já grande
nação da América desde o fim da primeira Grande Guerra, começa a ser a primeira
potência principalmente tropical sem sentir a necessidade de deixar de ser lusitana nas
suas principais formas de convivência e de cultura. Ao contrário: fazendo gala de uma
lusitanidade que não lhe compromete a condição de povo criador extra-europeu, e não
passivamente lacaio de Paris ou de Londres; de Lisboa ou de Madri."
Mais adiante, o conferencista de Goa conclue o seu pensamento:
"Não há para o fato - penso eu - outra explicação senão a de que o português
soube em tempo extra-europeizar-se e tropicalizar-se êle próprio. Europeizou e
latinizou, e não apenas cristianizou, povos tropicais. Êle próprio, porém, em vez de
rigidamente europeu ou imperialmente ibérico, extra-europeizou-se e tropicalizou-se desde
o início de suas aventuras ultramarinas, amorenando-se sob o sol dos trópicos ou sob a
ação ou requeime da mestiçagem tropical. Confraternizou com os povos de Côr em vez de
procurar dominá-los do alto de tôrres como que profiláticas onde raça e cultura,
imperialmente européias se mantivessem misticamente puras. Assimilou dêsses povos
valores que salpicaram de orientalismos, americanismos, africanismos, o próprio Portugal,
dando à cultura e em certas áreas, à própria gente lusitana, uma espécie de vigor
híbrido de que o estilo manuelino e a arte indo-portuguêsa são exemplos expressivos.
Criou um mundo de valores aparentemente contraditórios mas na verdade harmônicos. Um
mundo nôvo, uma civilização nova, uma cultura nova a que por antecipação pertenceram
portuguêses dos séculos XVI e XVIII para os quais nos voltamos hoje como para pioneiros
do que pode, ou deve, chamar-se civilização ou cultura lusotropical".
Penso que o presente trabalho de Gilberto Freyre poderá abrir
novos rumos para interpretação de fatos e problemas amazônicos, dentro do ângulo
geográfico, sociológico, antropológico, econômico e histórico. Uma interpretação
que seja ecológica lusotropicalista, da qual Arthur Cezar Ferreira Reis, como historiador
por excelência da Amazônia, já reconheceu aplicabilidade na região, usando estas
palavras no livro "Gilberto Freyre, sua ciência, sua filosofia, sua arte":
"Quando Gilberto Freyre elaborou a tese vitoriosa do lusotropicalismo, evidentemente
não pensara em têrmos de Amazônia. No entanto, a colonização portuguêsa da Amazônia
fôra realizada dentro daquelas linhas de ação que a distinguiram por tôda a parte onde
a processaram, consagrando o acêrto da teoria".
Pois, senhores, está dito, aqui, em rápidas palavras, alguma
coisa da rica personalidade de Gilberto Freyre, e, em especial, de sua teoria
lusotropicalista que pela primeira vez êle aplica no processo de humanização da
Amazônia. Não será justo adiar o prazer do leitor em conhecer sua "possível
lusotropicologia" em relação ao espaço amazônico. Um "possível" que se
torna em certeza.
Ainda bem que todos nós podemos repetir certo crítico
estrangeiro. "God be praised - Freyre can write". Graças a Deus, êle escreve
muito sôbre êstes Brasis.
Rio de Janeiro, agosto 1963 Leandro Tocantins
A AMAZÔNIA BRASILEIRA
E UMA POSSÍVEL LUSOTROPICOLOGIA
Conferência pronunciada no Instituto de Antropologia Tropical
da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife
pelo Professor Gilberto Freyre
Venho insistindo há anos na necessidade de dar-se a uma
cultura da extensão ecológica da brasileira, articulação interregional; e também na
conveniência de ser a mesma cultura considerada em relação com as demais culturas
desenvolvidas em vários espaços tropicais - da Ásia, da África, da América - pela
gente ibérica, em geral, e pela portuguêsa, em particular. E o Brasil de hoje um
conjunto de culturas regionais ou sub-regionais a constituírem um dos mais vastos
sistemas nacionais não só da América como do mundo. E com Portugal e com as Áfricas e
o Oriente de formação e de língua portuguêsa forma o Brasil um vigoroso complexo de
civilização moderna, desenvolvida principalmente nos trópicos, e, através, em grande
parte, de cruzamento de europeus com nativos dos trópicos e do aproveitamento, por
europeus, da experiência e das culturas dêsses nativos.
Não convém, entretanto, perderem de vista, os brasileiros,
sob o orgulho do todo nacional e até binacional que constituem, a importância das
regiões que concorrem para êsses sistemas já estáveis de organização de populações
dispersas e de economias e culturas espalhadas a distâncias consideráveis umas das
outras. É até perigoso deixarem de considerar o que há de inter-regional nessa
organização, quer para efeitos práticos de administração e de política, tanto geral
como econômica, quer para os platônicos, de estudo do que ela é e de meditação ou
cogitação sôbre que deve ser. Perigoso porque pode a ilusão de ser o Brasil cultura ou
nação monolítica em seu modo de ser cultura ou de ser nação ou de constituir com
Portugal um sistema binacional de civilização, levar os brasileiros a êrros tremendos -
econômicos, políticos, administrativos; e também a falsas interpretações
sociológicas da chamada realidade brasileira, que é uma realidade complexa sob a
aparência de simples.
Notável é a contribuição que para uma interpretação
lusotropical da Amazônia hoje brasileira vêm trazendo o Professor Arthur Reis e seus
discípulos. O historiador Arthur Cezar Ferreira Reis é especialista lista já antigo no
estudo não só histórico-econômico como histórico-social de uma das mais importantes
regiões não apenas brasileiras como lusotropicais: a amazônica. Mas especialista em
matéria regional que não se esquece do conjunto não apenas nacional como binacional a
que pertence a mesma matéria quer como paisagem, quer como história ou como cultura:
resposta, primeiro portuguêsa, depois lusobrasileira, ao desafio, ao homem civilizado, da
selva mais agrestemente tropical com que se tem defrontado um povo moderno em qualquer
parte do mundo. É pena que semelhante resposta a desafio tão insólito não tenha
merecido a atenção do Professor Arnold Toynbee.
A Amazônia é, com efeito, o espaço tropical mais extenso a
ser dominado ou domesticado pelo homem civilizado - pensam tropicalistas como Earl Parker
Hanson que junta, aliás, a sua voz à de Cary P. Haskins no elogio ao mestiço brasileiro
da região amazônica e de outras áreas tropicais do Brasil. Ao mestiço e ao indígena,
ao qual o autor de The Amazon insiste em atribuir a dádiva à civilização
moderna de valores vegetais - vegetais e médicos como a quinina, a cocaína, a borracha,
parecendo assim não participar das dúvidas que vem experimentando o jovem e já distinto
antropólogo-social, nosso compatriota, Eduardo Galvão, quanto a considerar-se herança
cultural indígena "o complexo (amazônico) de ervas medicinais", é claro que
colorido pela intervenção européia numas áreas e, talvez, pela africana junto com a
européia, noutras.
Historiador atento ao fato econômico tanto quanto ao
político, ao traço social tanto quanto ao cultural, da formação brasileira da
Amazônia que nos pertence, Mestre Arthur Reis é no Brasil um estudioso já antigo das
populações e paisagens luso-amazônicas. Seu conhecimento do extremo Norte do nosso
País, revelado em obras valiosas, ganhou ultimamente em objetividade através do
exercício de funções administrativas que para êle estiveram, longe de ser apenas
burocráticas: por algum tempo as de Superintendente do Plano de Valorização Econômica
da Amazônia; depois as de diretor de um Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com
sede em Manaus.
São funções que o Professor Arthur Reis exerceu à sua
maneira de homem consciencioso e objetivo, escrupuloso e lúcido: pondo-se continuamente
em contacto com aquelas populações e com aquelas paisagens. Com as suas necessidades, os
seus problemas e as suas condições atuais de vida. Daí a importância da sua
contribuição para uma interpretação lusotropical do que vem sendo a ocupação ou
domesticação da Amazônia hoje brasileira.
Seus trabalhos de pesquisador do passado amazônico juntam-se
aos do ecologista Gastão Cruls, aos do folclorista Peregrino Junior, aos do antropólogo
Eduardo Galvão, aos dos geógrafos Gilberto Osório e Eidorf Moreira, aos do etnógrafo
Frei Protásio Frikel, aos do também historiador Leandro Tocantins, com afirmação de
moderno domínio científico, do ponto de vista principalmente luso-americano ou
especificamente brasileira, sôbre a Amazônia: sôbre a sua população considerada como
objeto de estudo antropológico e histórico-ecológica. Sem êsse estudo, dificilmente
serão os problemas amazônicos encarados como merecem pelo govêrno brasileiro. Não
devem ser esquecidas contribuições de caráter mais particularmente econômico ou
sociológico que as já citadas, para o esclarecimento de problemas amazônicos: tais como
a do jovem sociólogo Samuel Benchimol, O Cearense na Amazônia e as do economista
Cosme Ferreira.
O antropólogo Charles Wagley, professor da Universidade de
Colúmbia, é outro que vem concorrendo de modo notável para o desenvolvimento, sob
moderno critério científico, dos estudos amazônicos. Do ensaio do Professor Wagley, Amazon
Town, a study of man in the tropics, saliente-se que é livro essencial para os que se
e ocupam não só de assuntos amazônicos, em particular, como de problemas brasileiros de
Economia agrária e de Sociologia rural em geral. Principalmente da relação dêsses
problemas com o clima tropical, comum a várias regiões brasileiras, embora se apresente
com suas características mais dramáticas na vasta região ou sub-região amazônica.
Para o Professor Wagley, encontra-se nesta região "a
distinctive tropical way of life", formada - refere-se o antropólogo anglo-americano
intimamente identificado com o Brasil, a parte brasileira da Amazônia - pela fusão da
cultura ameríndia com a portuguêsa, através de três séculos. Um aspecto sugestivo do
complexo denominado por outro analista de fusões dessas e outras culturas em meios
tropicais (com a predominância da cultura lusitana e, de início, através principalmente
da exploração agrária) complexo luso-tropical.
As técnicas de exploração agrária seguidas até hoje na
região amazônica, considera-as o Professor Wagley "primitivas" no sentido de
arcaicas e antes ameríndias que européias Destaca deficiências de defesa sanitária, de
transporte e de comunicação comercial que se juntam para manter a região nitidamente
"sub-desenvolvida" - segundo expressão hoje em moda. Serão tais condições
fatalidade do meio ou do clima tropical? Serão as regiões tropicais impróprias à
ocupação ou colonização pelas raças chamadas superiores?
Coloca-se o Professor Wagley, entre aquêles para quem é
possível integrar-se a região amazônica na moderna civilização brasileira, através
de meios técnicos e científicos e, sobretudo, de modificação cultural: esfôrço
sociológico e não apenas técnico. O problema lhe parece principalmente cultural, no
sentido antropológico ou sociológico de cultura. Por conseguinte complexo e, delicado,
pois a modificação a processar-se não deve desprezar o que há de valioso na cultura
luso-tropical já desenvolvida na região: o pesquisador anglo-americano não hesita em
reconhecer na cultura luso-ameríndia, peculiar à área amazônica do Brasil: "many
positive values", aos quais entende que devem ser cuidadosamente acrescentadas
vantagens de técnica, de ciência e de educação modernas.
Revela o antropólogo anglo-americano sôbre vários aspectos
da comunidade amazônica, que estuda de modo particular, e da organização social
brasileira, em geral um conhecimento que o coloca entre os atuais estudiosos mais
conscienciosos do assunto. Inclusive a respeito de sutilezas da mesma organização como o
compadrio, nas zonas rurais: assunto digno de melhor atenção sociológica. Venho
instando há anos com o Professor Gilberto Osório de Andrade - geógrafo que conhece de
perto a área amazônica - para que faça de tema tão sugestivo objeto de estudo
sistemático e especializado.
Ao historiador Arthur Reis não é - nem podia ser - estranho,
o critério antropológico-social, ou antropológico-cultural, de caracterização da
Amazônia, como sub-área brasileira. Daí o valor da contribuição trazida para o
desenvolvimento de uma possível lusotropicologia por historiador tão idôneo, em
conferência proferida no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais: instituto
interessado, pela sua natureza e pelas suas funções, no estudo do que fôr
especificamente agrário na atividade das populações brasileiras da Amazônia. "A
Amazônia" - disse então o Professor Reis - "para tôda gente, é o espaço que
se assinala no quadro político brasileiro pelos Estados do Amazonas e Pará e
Territórios Federais do Amapá, Rio Branco, Guaporé e Acre e caracterizado, de um lado
pela bacia hidrográfica do Amazonas e do outro pela cobertura florestal sem par. Como
espaço geográfico, porém, essa limitação política não está certa. Porque deve
incluir outras áreas que não integram o Brasil, componentes que são dos quadros
políticos do Peru, da Bolívia, do Equador, da Venezuela e da Colômbia. E como
caracterização, serão bastantes a rêde hídrica e a cobertura florestal?" A
resposta do Professor Arthur Reis é lúcida, apoiado em trabalho do Professor Eidorf
Moreira: -"O Professor Eidorf Moreira, em magnífico ensaio sôbre o "Conceito
da Amazônia", passando em revista as características porque se tem pretendido dar
forma material ao que seja Amazônia, examinou os conceitos hidrográficos, botânicos,
políticos e econômicos e os critérios delimitativos de ordem administrativa ou legal. E
lembrando que o "homem não é um elemento paisagístico acrescido à paisagem, uma
sorte de acessório destinado a orná-la ou completá-la, o que o levaria a constituir
apenas "uma expressão decorativa", mas o fator geográfico por excelência e
isso tanto pelas suas atividades como pela sua própria condição, tanto pelo que realiza
como pelo que mostrou que é, para definir a região não era possível desatender à
presença do homem nas suas funções de ser político, econômico, cultural. As
fronteiras que se quisesse atribuir à Amazônia para ajustá-la a êste ou aquêle quadro
e defini-la dentro de tal quadro, não podiam ser fronteiras que ignorassem na unidade
cultural que representa.
Acrescentou o Professor Arthur Reis, naquele seu trabalho,
incluído pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais nas suas publicações, não
ser a Amazônia apenas uma área definida pela bacia hidrográfica do Amazonas ou pela
floresta equatorial imensamente grande, mas, também, pela presença de uma sociedade que
se distinguiria pela unidade de cultura, representada, ponderantemente, nas atividades
sociais e econômicas que realiza. E reconheceu que o legislador constituinte de 1946,
cedendo à influência das idéias de que o Brasil "se afundava pela diversidade de
condições de vida cultural, material e espiritual das regiões em que mais
predominantemente costumamos dividir o País", não hesitou em determinar a
promoção de uma política que pusesse fim a essas distâncias. Distâncias que
promoviam, com efeito, desajustamentos perigosos à própria estabilidade nacional. Daí a
artigo 199, ter estabelecido, com relação à Amazônia, que, na execução do Plano de
Valorização Econômica a União aplicaria durante, pelo menos, vinte anos consecutivos,
quantia não inferior a três por cento da sua renda tributária. Os Estados e Municípios
da região contribuiriam com igual porcentagem.
"Como cumprir êsse objetivo de legislador
constituinte?" perguntou o Professor Arthur Reis na conferência lida no Instituto
Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, da qual venho transcrevendo largos trechos pelo
apôio que ela traz - apôio valiosíssimo - à tentativa de fixar-se como ciência ou
sub-ciência uma possível lusotropicologia. Na sua resposta indireta àquela pergunta,
revelou-se mais uma vez o Professor Reis um historiador esclarecido pelos modernos estudos
antropológico-sociais da região cujo passado vem estudando há anos com inteligência e
paciência: "No caso da Amazônia, terá ocorrido a conquista, pelo homem, do espaço
geográfico, representado êsse espaço não só no que êle significa como meio físico
puro, mas também como área de possibilidades, de riquezas em potencial? O domínio teria
sido verificado em sua totalidade ou só parcialmente? Aquelas fôrças primárias da
natureza terão sido um imperativo a que êle se haja reunido? A adaptação, o
equilíbrio, seriam uma ocorrência fortuita ou uma constante ponderável? Ou nos
defrontaremos com um insucesso valendo como experiência fracassada?
Precisamente neste ponto é que o maior conhecedor moderno da
ecologia e da história da Amazônia traz nas suas considerações, em tôrno da mesma
Amazônia e do problema que êle constitui dentro do todo nacional do Brasil, importante
contribuição para o estudo do que ela, Amazônia brasileira, representa como expressão
de um complexo binacional: aquêle para o qual venho sugerindo há anos a denominação de
lusotropical. A essa contribuição nenhum antropólogo moderno pode conservar-se alheio.
É considerando-se o assunto sob critério ao mesmo tempo
ecológico e antropológico-social, que a Amazônia brasileira avulta como exemplo de que
há dentro de uma civilização hispanotropical, uma mais específica civilização
lusotropical. Uma civilização lusotropical já bastante complexa para exigir dos
estudiosos de ecologia tropical e de antropologia das miscigenações eurotropicais que a
estudem através de uma ciência especial. Essa ciência especial seria a
Lusotropicologia, dentro de uma mais ampla e igualmente necessária Hispanotropicologia.
A Amazônia é decerto - mostram-no principalmente os estudos
do Professor Arthur Reis - parte integrante do imenso mundo tropical que, na Sul
América, representa grande parte de seu conteúdo espacial. Mundo conformado por uma
rêde hídrica sem igual e por um conjunto florestal que não encontra nem mesmo na
África, área de revestimento semelhante, em densidade, em variedade de espécies. Mais:
espaço tropical em que a floresta e água são a constante da paisagem física.
"Não queremos deter-nos" - escreve a propósito o
Professor Arthur Reis, a quem já pode ser dado o título de lusotropicologista -
"nos grupos de primitivos que nela viviam, a época da chegada dos luso-brasileiros e
dos inglêses e holandeses que a pretenderam conquistar, ou nela ainda vivem, dispersos em
pequenos núcleos que procuramos incorporar defendendo-lhes a cultura material e
espiritual e assegurando-lhes direitos à existência. Esses primitivos viveram
identificados com o meio físico, dêle tirando, com os parcos recursos técnicos de que
dispunham, quanto lhes era indispensável ao diário. Não o alteraram nem o disciplinaram
à sua vontade. Foram profundamente telúricos". Legaram, mesmo assim, aos ádvenas
que os vêm ecologicamente substituindo, vasto acêrvo de cultura, hoje já
simbiòticamente lusotropical, que ainda não foi, entretanto, estudado, em sua pureza de
contribuição ameríndia. "Todo um vasto acêrvo de usos e costumes que vão das
coisas domésticas mais íntimas, alimentação, transporte, técnicas de trabalho na
floresta e nas águas, às atitudes de grupo como o episódio da Cabanagem e os mutiruns,
os dançarás que tanto definem as sociedades caboclas regionais, "lembra a
propósito o Professor Reis, que acrescenta: "Esses primitivos, acomodados ao meio, a
êle ajustados, foram, não há negar, triunfadores a seu modo."
Inglêses e holandeses - e no século XIX, até
anglo-americanos dos Estados Unidos - pretenderam fixar-se na Amazônia brasileira. Mas em
vão. Seduzia-os o mito da riqueza amazônica. Foram ousados. Inglêses e holandeses
penetraram o Amazonas, alcançando o Tapajós. Chegaram a levantar estabelecimentos
militares e núcleos de ocupação comercial. Serviam êles não a governos mas a
organizações particulares, com sede na Inglaterra e na Batávia. Exploravam águas e
terras amazônicas. Colheram especiaria. Interessaram-se pelo urucu e pelo peixe-boi.
Chegaram a plantar, apoiados em trabalho de escravo negro, cana e tabaco; e fabricaram rum
e açúcar. Mas - informa o Professor Reis - "à chegada dos lusobrasileiros, vindos
do Nordeste" ou de portuguêses chegados da "própria península", não
ofereceram os nórdicos resistência maior. Cederam. De modo que a ocupação portuguêsa
seguida pela brasileira Processou-se, em conseqüência, com certa rapidez, embaraçada
apenas, aqui e ali, por grupos gentios rebeldes ou agrestes.
Aqui nos encontramos em face de uma das expressões mais
dramáticas do processo de dominação de espaços tropicais por gente portuguêsa e
descendente de portuguêsa que venho denominando processo de civilização lusotropical,
certo de que há matéria para estudo especializado dêsse processo e de suas
conseqüências semelhantes, em áreas diversas, embora tôdas tropicais. Estudo que, se
denomine "lusotropicologia" e seja, ao mesmo tempo, ecológico e antropológico
em seu modo de ser social .
Êsse esfôrço criador, mostram os modernos estudos das
origens da atual Amazônia brasileira que processou-se muito lusitanamente; e que nêle
intervieram, além de autoridades civis, militares e eclesiásticas, de missionários
franciscanos, carmelitas, mercedários - e não apenas jesuítas - colonos de tôda
espécie. Não só imigrados saídos dos cárceres portuguêses também - e até,
principalmente - casais de ilhéus, sólidos e honestos açorianos. Foi com essa gente
vária e sob essas influências diversas que começou, além da utilização econômica, a
organização social da Amazônia portuguêsa, hoje brasileira. Foi essa gente que
começou a levar as espécies animais e vegetais nativas, ao giro mercantil. Ela que
sujeitou espécies alienígenas, trazidas de Caiena, do Oriente, da própria Europa
portuguêsa, a provas experimentais de agricultura e de criação no trópico àsperamente
amazônico. Foi o caso do café, da fruta-pão, do cânhamo, da juta, das peras, das
maças. O que não significa não ter havido saque: tôda uma série de violências
brutais do homem contra a natureza. Houve. Sobretudo ao longo dos cursos fluviais. Foi
principalmente assim que se coletou a especiaria denominada de "drogas do
sertão". Empreendimento quase sempre cruamente predatório. Sem unidade de
propósitos nem métodos que lhe dessem uma rigorosa sistemática.
Mas do Consulado de Pombal em diante, começou a haver da
parte do português com relação à Amazônia uma sistemática política lusotropical.
Política e não apenas aventura. Organização de esforços.
Organização de esforços com relação ao cacau, ao café,
ao algodão, à cana. O gado vacum e o cavalar foram introduzidos no Marajó, no Rio
Branco e no Baixo Amazonas. Estabeleceram-se pesqueiros reais. Pequenos estabelecimentos
industriais para o aproveitamento da matéria prima tropical, regional, amazônica.
Desde o início do contacto do luso com a Amazônia,
portuguêses e gentios miscigenaram. Criaram o tipo mestiço do caboclo, integrado no meio
amazônico, mas, na sua condição social, um verdadeiro marginal, vivendo - para outra
vez nos servimos de informações do historiador máximo da Amazônia - "as beiradas
dos rios, nos sítios, nos pontos de pesca, nas fazendas de criar." Sem a posse da
terra mas a ela agarrado. Com ela identificado. Mais: "Substituindo o
"tapuio", o caboclo foi canoeiro, pescador, operário das selvas, guia de
expedições, soldados das unidades militares de terra e mar. Deve-se-lhe o início da
investida sôbre a floresta para o corte das árvores lactíferas. Sem exteriorizações
gritantes, teatrais, antes parecendo um ausente, era dócil, sem ser covarde".
Vieram, mais tarde, reforçar a operação lusitana e mestiça
de dominação da Amazônia já não portuguêsa mas brasileira - autocolonização,
portanto - os nordestinos do próprio Brasil: brasileiros já lusotropicais em sua
composição étnica e em sua atividade cultural. Deles o Professor Reis já traçou, num
dos seus trabalhos, o mais expressiva dos retratos recordando terem constituído o
contingente de maior expressão: "Não temos levantamentos estatísticos que nos
autorizem o conhecimento de quantos foram. O que se pode afirmar, seguramente, é que não
se estabilizaram nas cidades. Antes penetraram os altos rios da Amazônia clássica.
Cursos fluviais como o Tapajós, o Xingu, o Madeira-Mamoré-Guaporé, o Purus-Acre, a
Juruá, o Javari, o Jutaí, foram uma conquista dêles, que os subiram e lhes exploraram
as margens na sangria incontida às madeiras lactíferas. O Acre é uma realização que
lhes devemos, como emprêsa econômica, social e política. Inclusive política,
materializada nos feitos militares que o garantiram para a soberania brasileira.
Mestiços, os nordestinos trouxeram para a Amazônia uma contribuição magnífica,
quantitativa, sem que, todavia, houvesse modificado a paisagem com um maior domínio
sôbre o meio geográfico. Foram atuantes em uma frente de batalha interna que lhes custou
centenas de vidas na luta que sustentaram contra a floresta, criando o ciclo da borracha
silvestre. Marcaram um momento singular na história econômica do país. Asseguraram à
região uma projeção ímpar nos quadros da riqueza nacional". É aspecto do assunto
que foi também ferido, em trabalho recente, por outro estudioso da ecologia e da
história da Amazônia brasileira: o Professor Leandro Tocantins.
Sem ter contribuído para a decisiva transformação do novo
espaço, nem por isto êsses nordestinos têm sido insignificantes como civilizadores da
Amazônia. Mesmo deficientes, mostraram-se desde o início de sua presença na região
superiores aos europeus não ibéricos e aos anglo-americanos que tentaram em vão
estabelecer-se na Amazônia: europeus e americanos representados por pequenos contingentes
de franceses, suíços, espanhóis, italianos e norte-americanos, a que se viriam juntar,
já nos nossos dias, em maior número e dentro de melhor sistemática, os japoneses. Aos
primeiros se sabe que faltou além do sentido, o ânimo pioneiro que se conservasse diante
dos obstáculos do meio tropical. Até o estabelecimento agro-industrial que sulistas dos
Estados Unidos tentaram organizar com idéias da permanência, nas cercanias de Santarém,
fracassou. Os japoneses, êstes vêm se fixando em colônias organizadas no Pará, no
Amazonas, no Guaporé, e no Amapá, onde já iniciaram metòdicamente cultura da juta e da
pimenta do reino. Mas é evidentemente cedo para dizer-se que espécie de valor
representam para a Amazônia brasileira; e se deve ser continuada a política que favorece
sua segregação no espaço amazônico.
"O quadro das sociedades amazônicas, integrado por tais
parcelas humanas, é um quadro que não expressa bem estar", pensa o Professor Reis,
referindo-se aos atuais grupos ainda pioneiros, de povoadores da Amazônia brasileira.
Pois "os altos e baixos de seu desenvolvimento têm estado à mercê das flutuações
dos mercados consumidores de matéria prima regional. O regime das terras é o
latifúndio, mercê do processo econômico vigente. A pequena propriedade, que signifique
a existência do lavrador constante, não tem significação como unidade econômica.
Representa muito pouco na criação de riqueza e do tipo social do rurícola. Há, em
verdade, exceções aqui e ali. A zona bragantina, os trechos que circundam Manaus, já
vivem na base de um trabalho menos aventureiro". Embora não representem "um
marco ponderável", os grupos aí fixados já constituem "uma experiência bem
sucedida". Daí poder considerar-se com algum otimismo a colonização que se oriente
no mesmo sentido, servindo-se o Brasil principalmente do elemento étnico-cultural de
origem ou formação lusitana - do madeirense e do brasileiro do Nordeste, - sobretudo -
ao qual se dê assistência e ao qual se acrescentem inteligentemente outros elementos
capazes de fixação no trópico. O coreano cristão talvez deva ser um dêsses elementos;
e não apenas o japonês.
A capacidade de integração no trópico amazônico revelou-se
- e continua a revelar-se - da parte do elemento lusitano e do seu descendente, de um modo
que parece confirmar expressivamente a teoria da simbiose luso-trópico que venho
esboçando desde a conferência que em novembro de 1951 proferi em Gôa; e publicada no
livro Um Brasileiro em Terras Portuguêsas. Nenhum outro europeu, por si ou
por seu descendente ou continuador mestiço e portador de sua cultura modificada pelas
técnicas e valores adquiridos de populações nativas dos trópicos, conseguiu até hoje
firmar-se na Amazônia com a constância revelada pelo português e pelo brasileiro de
origem ou formação lusitana; ou de origem ou formação principalmente ou decisivamente
lusitana. Processo de colonização, a princípio, e hoje, de auto-colonização, como
sugiro em trabalho escrito em inglês para a nova edição The Encyclopedia Americana, na
qual já se acolhe, em artigo sôbre "O Brasil em perspectiva", a critério
lusotropicológico de interpretação da formação e da situação brasileiras.
Enquanto - observa Ilse Schvidetzky no seu estudo Grundzuze
der Volkelrbiologie, publicado em alemão em 1950 e no México e em Buenos Aires em
tradução espanhola, de H. F. Morck, revista por Luis Alaminos e intitulada Etnobiologia,
em 1955 - foram europeus do Norte que povoaram, fora da Europa, regiões temperadas,
avançando até Alaska, Islândia e Sibéria Ocidental, os europeus do Sul, tendo à
frente espanhóis e portuguêses, colonizaram regiões tropicais e sub-tropicais do Novo
Mundo, nas quais, "mediante a mescla de raças", realizaram o que Schvidetzky
chama "adaptação climática". Por outro lado - acrescenta, (página 115, da
edição espanhola) em observação que confirma sugestão brasileira já antiga em tôrno
do assunto - "os portuguêses nunca lograram nada de essencial na América do
Norte": a Terra Nova, que dominaram por algum tempo - "unicamente por meio de
protestos diplomáticos contra incursões incessantes de pescadores europeus (de outras
origens) que não conseguiram repelir" - foi domínio português efêmero. E no
extremo Sul da América do Sul nem espanhóis nem portuguêses conseguiram fixar-se. O que
para a autor alemão significa que a limites climáticos de esferas de colonização vêm
correspondendo limites de adaptação de tipos biológicos: critério de ecologia física
e biológica a que deixa de acrescentar, como no Brasil vem sendo acrescentado pelos
estudiosos do mesmo assunto, o critério de ecologia sócio-cultural, representado por
predisposições de ordem sociocultural que evidentemente vem se juntando às de tipo ou
ordem biológica, nos esforços quase sempre triunfantes, de aclimação de espanhóis e,
sobretudo, portuguêses, em terras tropicais e subtropicais.
Lembram autores alemães, citados em Etnobiologia, que
a resistência ao impaludismo, parecendo estar diretamente relacionada com a
pigmentação, assim se explicaria a tendência à extinção de indivíduos de
pigmentação clara nas regiões palúdicas, onde sua presença seria esporádica; e
também o fato dos melaninos de pele mais escura resistirem melhor à malária que os
polinésios de pele mais clara. A raça chamada polinésia teria, aliás, sofrido, por
seleção palúdica, transmutação no sentido de pigmentação mais escura, enquanto
outros caracteres nórdicos se apresentam nela até hoje. São assuntos, todos êstes, que
devem ser considerados dentro de uma sistemática para a qual, aceita a denominação
geral de Tropicologia, dentro dela poderia caber a ciência especial que se denominasse
Lusotropicologia a que se chegasse pela intermediária, Hispanotropicologia.
Biologia social seria essa ciência, em seu aspecto
ecológico; mas seria também antropologia cultural, auxiliada por outras ciências
sociais e pela geografia. Seriam, aliás, principalmente êstes os instrumentos
científicos de que se serviria tal ciência especial, dentro daquela, geral; ou em
antecipação geral para sistematizar estudos hoje dispersos ou desconexas.
E é claro que, de certo ponto em diante, a Lusotropicologia
teria de preocupar-se com valores, ao tornar-se, senão uma filosofia de ação
sócio-cultural para brasileiros e portuguêses, em particular, e para os
hispanotropicais, em .geral, a base de uma engenharia social a ser desenvolvida por êsses
povos em áreas como a amazônica ou a angolana. Aliás, não só a êsses povos interessa
desenvolver obras planificadas de engenharia social em áreas de clima quente: também a
outros povos situados nessas áreas ou responsáveis por ela. Donde a necessidade de uma
Tropicologia que sob critério mais amplo, sistematize estudos de ecologia e antropologia
tropicais, que possam ser colocadas a serviço de governos e particulares. Teria o fim de
concorrer para essa sistematização mais ampla o Instituto de Antropologia Tropical, já
fundado no Recife; e que tem como seu principal orientador um mestre brasileiro de
Antropologia de renome mundial: o Professor Froes da Fonseca, que acaba de deixar a
direção da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil.
Mais do que o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais -
órgão do Ministério da Educação e Cultura, com sede também no Recife, e cujo fim
específico é estudar as condições de vida e de trabalho das populações do Norte
agrário do Brasil: da Bahia ao Amazonas - essa outra organização, através de estudos
comparativos sôbre a situação de populações tropicais - ou das condições de vida e
de cultura do homem situado no trópico, em diferentes áreas (e não apenas nas hispano -
ou lusotropicais) - poderá vir a ser uma como estação antropo-ecológica a serviço dos
trópicos, em geral. Uma daquelas estações cientificamente antropológicas ou
sociológicas - isto é, científicas em seus métodos de operar - imaginadas - há uma
imaginação científica - por antropólogos e sociólogos modernos e equivalentes às
meteorológicas; e sob êsse critério - antes regional que nacional, distribuídas em
diferentes partes do mundo, para contínua observação, análise e tentativa de
interpretação dos diferentes tempos, ou tempos-espaços sociais, sócio-culturais ou
psico-sociais. Estações, a que se refere num dos melhores capítulos do seu livro Human
Relations in a Changing World, (N.Y. 1949) - aquêle que dedica a "the use
of Applied Social Science" - o Dr. Alexandre H. Leighton: talvez a figura máxima de
mestre de estudos médico-sociais dos nossos dias e para quem "there should be
research organizations attacked to both the executive and to the legislative".
Fonte: FREYRE, Gilberto. A Amazônia brasileira e uma possível lusotropicologia. Rio de Janeiro: SPVEA, 1964. 45p.
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