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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



ARTE, CIÊNCIA SOCIAL E SOCIEDADE


Uma escola de belas artes que completa, como êste ano, a do Recife, o seu primeiro quarto de século, sem desviar-se nem do seu programa modesto nem dos seus objetivos honestos, para simular grandezas que de ordinário só o tempo traz às instituições de sua espécie, é uma escola que merece a simpatia de todo brasileiro empenhado em concorrer para o verdadeiro desenvolvimento da cultura do seu país. Igual simpatia merece da parte dos brasileiros o esfôrço que vem desenvolvendo entre nós o Instituto dos Arquitetos, que precisamente agora reune, em congresso de alcance nacional, nesta velha cidade, famosa durante mais de século, pelos seus sobrados com alguma coisa dos do Norte da Europa a distinguí-los dos de puro feitio tradicionalmente português, arquitetos de vários pontos do Brasil e do estrangeiro, para inteligente troca de idéias em tôrno de problemas de arquitetura relacionados com os de urbanismo e de planejamento regional e nacional.

Impossível nos esquecermos, a êste propósito, os recifenses, que aqui e à sombra destes sobrados e do exemplo de Ter sido o Recife a primeira cidade das Américas onde, no século XVII, e graças ao alemão Maurício de Nassau, se fez planejamento urbano - exemplo que mostra ser possível a uma cidade ou região assimilar valores estranhos sem descaracterizar-se - reuniu-se em 1926 um hoje meio esquecido Congresso de Regionalismo que foi, em grande parte, um Congresso de arquitetos e de estudiosos de problemas de urbanismo e de planejamento. Eram homens voltados para o estudo desses problemas com critério ao mesmo tempo regionalista e tradicionalista; regionalista e modernista; e com um critério sociológico e não sómente técnico, de arquitetura urbana. Um dêsses arquitetos foi o então jovem, e hoje mestre Nestor de Figueiredo, a quem desde então muito deve a arquitetura brasileira. Quando um dia se publicarem os anais do esquecido Congresso, presidido pelo Professor Odilon Nestor, há de ver-se que sua importância foi considerável: abriu, na verdade, novos rumos e novas perspectivas ao desenvolvimento nacional sob o critério de articulação interregional. Impossível pretender-se, como ainda agora pretende o Professor Alceu Amoroso Lima, que semelhante regionalismo, tenha sido mera repetição ou simples continuação do pernambucanismo político ao mesmo tempo que sentimental, de Joaquim Nabuco. Ignorando o que o movimento regionalista do Recife teve de novo, de original e de amplo, o eminente crítico comete uma injustiça, além de resvalar num êrro, aliás já destacado pelo jovem crítico, nosso conterrâneo, Renato de Campos.

Foi dêsse movimento que partiu, no Brasil, a idéia do planejamento regional que corrigisse a tendência para o urbanismo simplesmente estético ou higiênico; e traçado sob a ilusão de serem as cidades independentes das regiões; ou as regiões, servas inermes das cidades. Também partiu dos regionalistas do Recife, desde 1924 preocupados com problemas brasileiros que sòmente anos depois deles viriam a ser postos em foco por intelectuais e artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, a idéia de ser necessário estudarmos no Brasil o problema de casa mais simples, quer para as cidades, quer para os campos, como problemas que fôsse resolvido dentro dos recursos das cidades ou das regiões; e honestamente e não cenogràficamente no sentido da cenográfica.

É problema que permanece sem solução no Brasil, êsse da casa simples e barata: principalmente para o homem do campo. E prejudicado, por mais paradoxal que pareça, pelo fato de possuirmos uma arquitetura especializada no edifício grandioso que rivaliza em arrojos de modernidade com as melhores da Europa e da América. Quando há três ou quatro anos o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais quis trazer para o Brasil um técnico da ONU que nos comunicasse o saber já acumulado por estudiosos de vários países, como o nosso, tropicais subdesenvolvidos, em tôrno do assunto, o representante no Rio de Janeiro da mesma organisação internacional, deu parecer contrário a essa justa pretensão brasileira. Tratava-se de um Monsieur Laurencin, francês e amável; mas no caso, desorientado, embora extremamente simpático ao Brasil e aos brasileiros. Não se compreendia - alegava êle -- que o Brasil, famoso pela sua arquitetura moderna, pleiteasse a vinda de um técnico da ONU, especialisado em arquitetura.

Ignorava o bom do francês que há arquitetura e arquitetura. Que a nenhuma especialidade se pode aplicar mais literal e exatamente do que a esta, a sabedoria evangélica: "Na c asa de meu Pai há muitas mansões". Muitos tipos de casa. Muitos modos de construir. Muitas maneiras de uma casa ser casa, conforme uma variedade surpreendente de circunstâncias, condições, situações ecológicas e econômicas. Eco, em grego, quer dizer casa; é a raiz tanto da palavra "economia" como da palavra "ecologia". E se a moderna arquitetura brasileira distingue-se pelas soluções que vem oferecendo com segurança a inteligência para a construção de certos tipos de casa ecológicos - os grandiosos ou os monumentais - faltam-lhe ainda soluções para a construção das casas simples que tenham que ser construidas do modo mais econômico e mais ecológico que fôr possível.

Sôbre esta particularidade devemos procurar aprender com os arquitetos de outros países que têm estudado e, até certo ponto, resolvido o problema, sob êste duplo critério - o ecológico e o econômico: arquitetos da Colômbia, da Venezuela, da União Indiana, do Estado de Israel. De muito temos que nos orgulhar, os brasileiros, quanto ao que alguns dos nossos compatriotas, veem realizando em diferentes artes: principalmente na de construir. Nada, porém, de perdermos a humildade necessária à intensificação e à ampliação de um esfôrço até hoje quase limitado à arquitetura especialisada no edifício grandioso; e deficiente com relação à arquitetura econômica e simples, reclamada angustiosamente pela nossa situação de país pobre e subdesenvolvido.

Está mais do que evidente que não é com cenografia que se resolverá problema tão sério como o da casa simples e econômica para as cidades e para as áreas rurais brasileiras; nem com associações, ligas, serviços, campanhas, cruzadas que se denominem belicosamente "contra o Mucambo" ou "contra a Favela". Nunca, como nos dias que o Brasil atravessa, de desbragado aventureirismo, fôram virtudes mais necessárias ao seu desenvolvimento, aquela modéstia e aquela honestidade que signifiquem, da parte tanto dos artistas quanto dos homens de ciência, dos de letras, dos de ação, dos de govêrno, dos da Igreja, não timidez exagerada nem excesso doentio de escrúpulo, mas consciência: a consciência dos que não se deixam levar pela vaidade de substituirem o esfôrço duramente creador pelo aparente, que tanto tenha de fácil quanto de falso. Quase se pode dizer da criação verdadeira que é sempre dor e não apenas glória - esta, todos sabemos que às vezes tardia: melancòlicamente tardia.

Aos homens de estudo que, dentro da Sociologia ou da Antropologia, procuram analisar principalmente as culturas ou as civilizações, não é de modo algum estranho o fenômeno chamado creatividade no seu aspecto sociológico: creatividade cujas hegemonias nem sempre são as mesmas. De modo que a predominância de ação creadora é ora de uma, ora de outra das províncias ou atividades que constituem o conjunto de uma civilisação, sôbre êsse conunto ou sôbre êsse complexo. Sabe-se assim, pelos historiadores da cultura ou da civilização europeia, que na denominada Idade Média dessa civilização, predominou, como atividade ou província creadora, a religiosa, enquanto no período grego, predominara, como província creadora, a artística completada pela filosófica e, de certo modo, pela científica; e na época moderna da mesma civilização, vem predominando a atividade ou a província econômica, creadora, através de um capitalismo agora em crise, de valores de importância máxima na sua e em outras províncias.

Não parece haver assim a predominância exclusiva, em tôdas as civilizações, ou em tôdas as épocas de uma civilização, do fator econômico. Acentúo de início êste ponto para de início procurar salientar que não parece ser exata a generalização segundo a qual o que é arte, numa civilização, seria sempre a sobremesa ou o supérfluo, ou a cúpula, dessa civilização, em relação com seus valores básicos ou fundamentais. Desta generalização tem resultado o desdém com que certos homens públicos de hoje, considerando-se eminentemente práticos, tratam problemas de artes e artistas. É um desdem que resulta de sua falta de perspectiva histórica e do êrro de tudo pretenderem considerar de acôrdo com predominâncias ou hegemonias de creatividade que, sendo transitórias, lhes parecem permanentes.

A verdade parece ser esta: estamos numa fase de civilização que talbez venha a significar na história das culturas, o fim de uma hegemonia de creatividade - a da província econômica - e o comêço de outra, em que as atividades não-econômicas do artista, do pensador, do homem de ciência adquiram um elan creador que deixem na sombra a atividade do industrial ou do comerciante. É, na verdade, o que nos leva a crer a crescente automatização da vida civilizada no Ocidente europeu e na América Saxônica - automatização da qual resultam, cada dias mais, problemas menos de organização de trabalho que de organização do lazer. E a organização do lazer para ser realizada, através de meios técnicos de generalização das creações, por uma creatividade mais do artista que de industrial. Pelo menos é como me aventuro a interpretar suas tend6encia, depois de um contacto esclarecedor, o ano passado, com aquelas áreas superindustrializadas da Europa, onde a automatização começa a ser tão intensa quanto nas áreas superindustrializadas dos Estados Unidos. Sob certos aspectos, mais intensa, até.

Quem diz organização do lazer em civilizações superindustrializadas ou industrializadas, diz problemas que vão exigir o máximo de artistas e não sòmente de sociólogos, como o Professor Lewis Munford nos Estados Unidos, especializados no estudo das relações das artes com a vida e o tempo sociais das comunidades. O máximo dos arquitetos, dos engenheiros especializados na ciência, que é também arte, de construção de pontes; dos escultores, dos pintores, dos compositores, dos artistas de teatro, de rádio, de televisão, de cinema; dos psicólogos e dos sociólogos, seus orientadores ou consultores, em algumas instituições de cultura de proporções monumentais, como hoje a B. B. C. de Londres. Pois de todos muitos se exigirá para que o lazer dos homens se torne uma forma, quanto possível, superior, e não tediosa ou ociosa ou medíocre, de vida ou de viver; ou de esperar, como diria um místico espanhol, daqueles para quem viver é sobre tudo esperar.

Como estamos nos preparando, os povos do Ocidente, para essa nova fase de civilização em que a creatividade econômica vai ser, segundo os melhores indícios, superada pela científica e pela estética, sem que a religiosa deixe de sr chamada a desempenhar papel de importância máxima? A verdade é que quase não estamos nos preparando para ela, desviada como se acha nossa atenção dêsses problemas imensos, para o igualmente imenso, da sobrevivência da civilização moderna, através de uma política que nos resguarde da chamada guerra t6omica. É um êrro, a negligência com relação a essa preparação essencial para a paz, pois afinal o perigo da guerra atômica pode vir a ser afastado pelo bom senso dos homens responsáveis pela política militar das grandes potências de hoje. E afastado êsse perigo, a automatização avançará sem que os povos superindustrializados se encontrem sociológica a psicològicamente preparados para êsses seus avanços.

Nós não somos, os do Brasil, um povo superindustrializado. Somos um povo que se vem rápida e às vezes desordenadamente industrializando em algumas áreas, com sacrificio evidente de outras. Mas somos um povo, pela própria situação física do nosso território, em grande parte atlântico, sujeito a influências imediatas sôbre nosso gênero de economia e nosso ritmo de vida, dos avanços de automatização nas áreas superindustrializadas da Europa e da América. Daí, também, povos como o brasileiro precisarem de começar a sua preparação para a nova fase de civilização em que, por mais paradoxal que nos pareça, o trabalho humano - o trabalho rotineiro da maior parte dos homens - perderá em importância para o lazer, deixando vazio ou 6oco um tempo psíquico ou um tempo social que terá de ser preenchido por novas substâncias de criação não só científica, como estética, ética, religiosa, filosófica. Correto êsse prognóstico, vê-se que não exagero nem deliro quando ouso prever a superação da hegemonia econômica pela estética, e não sòmente pela científica, no novo tipo de civilização para o qual ràpidamente caminhamos.

E se caminhamos rápidamente para êsse novo tipo de civilização, que fazem as escolas de Ciências, de Letras, de Belas-Artes, de Filosofia, de Engenharia, que não tratam de caminhar para 6ele? Que fazem as escolas de Belas-Artes que não deixam sua atual rotina pedagógica por novos programas de estudo em que seja ecentuada a necessidade de arquitetos, escultores, pintores, decoradores, compositores, cineastas, teatrólogos, procurarem construir, esculpir, pintar, decorar, compor, representar, pensando em homens cujo lazer vai aumentar enormemente, enquanto vai diminuir seu trabalho nos campos, nas oficinas, nas fábricas, nas usinas?

Bem sei que essa antecipação não depende principalmente delas, escolas, mas em países como o Brasil, dos supremos poderes políticos que dirigem, até certo ponto, atividades culturais, científicas, estéticas. Mas nem por isto devem professores e estudantes de Letras ou de Filosofia, conservar-se inermes e a espera das papas ou dos mingaus que lhes venham dar de colher os bons dos papás-governos, às vezes tão demorados nas suas medidas e tão lentos nos seus métodos de atualisação ou de modernuização do ensino ministram aos seus filhinhos.

Por que não partirem desta Escola, no momento exato em que seu esclarecido diretor - tão dedicado às suas funções - e seus professôres - entre os quais, homens da inteligência e do saber de um Luis Cedro e artistas do renome europeu de um Vicente do Rêgo Monteiro - e seus alunos comemoram o 25º aniversário da sua fundação, sugestões concretas no sentido dessa atualização ou dessa modernização, que possam ser úteis ao ensino de belas-artes no país inteiro?

A verdade é que estamos deixando sem aproveitamento ou desenvolvimento artístico, no campo das artes aplicadas, sugestões que chegam até nós de uma experiência quase única no mundo de hoje: a de profunda interpenetração de uma cultura europeia e de duas, primitivas, à base de um máximo de reciprocidade nessa interpenetração. Faltam-nos, neste particular, na arte do movel, na da escultura e mesmo na da pintura equivalentes dos Villas-Lobos na música e dos Niemeyer na arquitetura grandiosa, embora não devamos nos esquecer dos experimentos interessantíssimos, com relação à cerâmica, de um Lula Cardoso Asyres e de um Francisco Brennand.

Não se compreende que sejam os europeus e não brasileiros os artistas modernos que veem desenvolvendo a brasileiríssima rêde, de origem ameríndia, em móveis leves, frescos, higiênicos: tôda uma arte arrojadamente nova no seu material, mas fiel às côres, às formas, às curvas de uma concepção de arte funcional de gente primitiva da qual grande parte da nossa procede; e cuja arte, os artistas brasileiros veem procurando incorporar à nossa através de valores apenas decorativos, quanto há êsses, existenciais e funcionais, a desenvolver e modernizar.

E por que não partir desta Escola, do Congresso de Arquitetos que aqui se reune animado pelo entusiasmo de jovens aqui recem-formados em Arquitetura, um dêles, Edison Lima, e desta cidade do Recife, sempre jovem, sempre pioneira e tantas vêzes antecipada às outras do Brasil, em iniciativas de renovação intelectual, a primeira voz em conjunto, de mestres e de aprendizes, no sentido de se reorganizarem os cursos de belas-artes entre nós, considerando-se o novo tipo de civilisação para a qual caminham os homens desta Segunda metade de século: a primeira e difícil fase de era atômica e a primeira, também de era socialmente automatizada?

Da minha parte, já que generosamente quisestes associar minha simples palavra de brasileiro do Recife às vossas comemorações de hoje, não hesitarei em fazer daqui uma sugestão: a de que esta escola se antecipe à de Direito, à de Engenharia, à de Medicina, ao Seminário de Olinda, em Ter entre suas cátedras de ordem técnica, uma complementar, de natureza por assim dizer super-técnica, científica e ao mesmo tempo humanística, de sociologia e que, no caso específico desta Escola se denominasse de "Sociologia de Arte" ou das "Artes"; e fôsse sociológica, principalmente com relação à Arquitetura e ao Urbanismo. Mas também com relação ao móvel, à cerâmica, à escultura, à pintura, à música, ao teatro, ao cinema.

Não se compreende mais nem arquiteto, nem urbanista, nem escultor, nem pintor, nem decorador, a quem falte iniciação sociológica no trato dos problemas e no conhecimento dos fatos de convivência humana relacionadas com suas especialidades artística.s nenhuma dessas especialidades artísticas existe no vácuo: tôdas elas teem um ambiente ou um sentido social. Não que se pretenda submeter qualquer delas a uma simplista arregimentação ou ordenação científica: no caso, sociológica. Nem que se confunda sentido social com sentido socialista, solidarista ou comunista de vida ou de organização. De modo algum. Do que o artista precisa de se inteirar é do que há de social nas condições de creação de sua arte; nas condições de desenvolvimento e de expressão dessa arte; na sua adapatação a situações de convivência humana que variam com o tempo e com o clima sociais como variam com o tempo e com o clima sociais como variam com o tempo e com o clima físicos.

Se, como acentúa o historiador Paul Scherecker em ensaio que denomina de análise de estrutura de civilização, nem tôda a civilização te encontrado a beleza, procurada pelos artistas, no mesmo tipo de paisagem ou nas mesmas proporções do corpo humano, é que o social, o cultural, o tempo, o meio, influem sôbre as artes, condicionando-as de modo que exige explicação psicológica ou esclarecimento sociológico. Êsse esclarecimento, se pode iluminar nosso conhecimento do passado, poderá também nos preparar para novas condições de vida civilizada. E um aspecto deveras interessante dessas relações complexas do artista com o social é que puros pensadores ou puros poetas ou puros sociólogos podem se antecipar aos artistas pròpriamente ditos em atitudes artísticas para com a própria natureza, através de uma nova filosofia das relações gerais do homem com o espaço: com a paisagem, por exemplo; ou com o mar, em particular; ou com o trópico, de modo ainda mais particular. Sabe-se, assim, que data de Rousseau - o Rousseau do "contrato social" - o movimento de moderna aproximação de pintura, da arquitetura, da arte do jardim, com a paisagem agreste, sendo recentíssima, em arte, a pintura de paisagens agrestes. E no Brasil é evidente que as relações crescentemente amorosas do arquiteto, do jardineiro-paisagista e do próprio urbanista com a paisagem tropical, relacionam-se com a valorisação brasileira do trópico que, em literatura, tendo principiado, um tanto retòricamente com José de Alencar, vem se purificando e intensificando, nos últimos anos, através do esclarecimento sociológico da relação dos valores tropicais com a vida, a economia, a arte brasileiras.

Pintores, escultores e decoradores, além de arquitetos, urbanistas e jardineiros-paisagistas, devem conservar-se o mais possível em dia com essa valorização pela ciência ou pela filosofia ou pela literatura, de aspectos das relações do homem com o meio, negligenciados pelos nossos antepassados e que, parecendo constituir objetos exclusivos de estudo sociológico ou antropológico ou de preocupação apenas de intelectuais, pertencem também à chamada província estética. Foi inteirando-se de estudos antropológicos e, até certo ponto, sociológicos, de arte, de escultura, de pintura, entre povos chamados primitivos da África, que Pablo Picasso conseguiu dar à pintura, à escultura, à cerâmica moderna da Europa ou do Ocidente, novos rumos, libertando-as de convenções exclusivamente europeias; e acompanhando, assim, como artista de gênio creador, a sociologia moderna, no seu afã de libertar-se de convenções ocidentais - o mal do Marxismo, o mal do próprio Freudismo - para tornar-se ciência o mais possível do Homem social diversamente situado.

Ou muito me engano ou estamos, no Brasil, numa fase em que muitas são as oportunidades abertas ao artista para realizar obra nova, brasileira, original, contanto que êle, artista, tome contacto com êsse meio, menos a êsmo ou às cabeçadas que através de ciências que o esclareçam sôbre as suas relações de homem com o meio: com o sol, com a luz, com as côres, com as formas, com as sombras características dêsse meio ou a êle peculiares. Côres e formas de plantas, de animais, de árvores, de montanhas, de morros, de paisagens e formas e plantas e de mulheres e de homens creados pelo trópicos ou aqui recreados pela mestiçagem.

De modo que seus estudos sociológicos e antropológicos deveriam ser estudos também de ecologia social. Ou mais especìficamente: de ecologia tropical. O que não impediria os brasileiros revoltados contra essa ecologia ou inconformados com ela de se evadirem real ou fictìciamente do seu meio para realizarem obra artística a seu gôsto ou de acôrdo com seu temperamento anti-tropical, através da exaltação das névoas ou das brumas. Nada de fazermos do tropicalismo, em geral, e do brasileiro, em particular, uma seita fora da qual não haja salvação para os homens nascidos nos trópicos. O mundo é vasto e muito diverso nas côres e nas suas formas, nos seus climas e nos seus ambientes. O puro fato de nascer um indivíduo no Brasil tropical não o obriga a ser, como artista, um entusiasta do sol forte, da luz crua e as côres quentes. O seu ideal de luz e de côr pode ser o boreal; e sua vocação pode ser a pintura verlaineana, tôda de nuances, de cinzentos, de azuis claros, de c6ores chamadas frias em oposição às quentes.

Assim como artistas europeus, inconformados com a Europa, têm encontrado em regiões tropicais suas regiões ideais, o mesmo pode suceder a brasileiros a quem repugnam as côres e as formas de mulheres e paisagens tropicais. O que sucede, porém, é que, revoltando-se contra o meio, êles realizam obra de quem não se achando integrado com êsse meio, é provocado, excitado, estimulado pelo mesmo meio a reações como que anti-ecológica.s o reparo crítico que já ousei levantar, não à pintura, em geral, de Mestre Cândido Portinari - artista que muito admiro e a quem pessoalmente muito estimo e cuja arte é, nos seus valroes essenciais, uma pintura impregnada de tropicalismo brasileiro - mas à sua pintura religiosa ou Católica, em particular, é que ela vem sendo, do ponto de vista sociológico, uma pintura anti-brasileira e anti-tropical e até anti-cristã e anti-Católica, por ser uma pintura em que nossas-senhoras e anjos louros, ruivos, alvos, albinos, vejesianos, europeus. Pintura, por conseguinte - do ponto de vista da crítica ou da interpretação sociológica eu se faça de um pintor e de uma arte, quando essa arte precise de ser de integração no mesmo meio e não de revolta contra êle - sub-europeia e até colonial, de artista que, como Católico ou como pintor de imagens Católicas, se conserva, no Brasil, europeu; e incapaz e conceber uma Nossa Senhora morena e até mulata ou um anjo, caboclo e até preto.

Apresento tal fato para sugerir as possibilidades de uma sociologia das belas-artes, através da qual se pretenda, não impor limites nacionais ou temporais a um artista, mas considerar a maior ou menor autenticidade das creações de um pointor ou de um escultor ou de um arquiteto, em relação com o seu meio, por um lado, e, por outro, com o seu tempo, conforme os fins a que se destinem suas creações. um Pintor brasileiro que sistemàticamente só pinte figuras de madonas e de anjos sob a forma e as côres de mulheres e adolescentes nórdicos e ruivos e envolvidos em pelúcias e veludos europeus é semelhante a um arquiteto brasileiro que traçasse planos de residências, para o Brasil tropical, em forma de chalés suiços ou de cottages inglesas. Há relações entre as obras d'arte e o meio e o tempo sociais e até certo ponto físicos a que se destinam que são relações que podem ser esclarecidas e mesmo, de certo modo, senão orientadas, sugeridas, pelo sociólogo ou pela interpretação sociológica desse meio e desse tempo, sem que isto importe em admitir-se a conveniência de uma arte passivamente subordinada a qualquer espécie de ciência. O artista é livre para revoltar-se contra ciências e conveniência sociais, contanto que sua atitude seja de revolta; e não concorde em interpretar o sentimento Católico ou a realidade ecológica na sua pintura para fins religiosos ou cívicos. Pode até chegar ao extremo de ser apocalítico e desejar a destruição dessa realidade e do tempo social em que viva, assim com do próprio porvir que se esboce aos seus olhos. Nesses casos, porém, êle nada tem que ver com a interpretação nem daquela realidade nem de tempo social, desde que carrega dentro de si uma realidade e um tempo como que individuais e anti-sociais em relação com os dominantes.

Mas quando sua atitude, de artista, em vez de ser de absoluta ou de radical ou de algum modo suicida revolta contra "meio" e "tempo" sociais, presentes ou vigentes, é de integração nêles ou de identificação com êles, mesmo através de críticas violentas a algumas das suas constantes ou de suas tendências; e êle sente, como artista, a necessidade de interpretar êsse "meio" e êsse "tempo" como Velasquez interpretaou a Espanha do seu tempo, como Le Corbusier vem interpretando o moderno tempo europeu e suas projeções sôbre o futuro, como Lúcio Costa interpreta êsse tempo e êsse futuro condicionados pela situação tropical e pela herança ibérica, e sob alguns aspectos, como que moçarabe, do Brasil, então a obra artística é uma obra de relação com meio e com tempo, na qual há problemas de interpenetração que interessam particularmente ao sociólogo. Compreende-se assim que os sociólogos como nos nossos dias Lewis Mumford sejam sociólogos preocupados principalmente com os problemas dessa relação. E justifica-se a sugestão que aqui se faz no sentido de se estabelecerem em escolas como a de Belas-Artes do Recife cátedras de "Sociologia das Artes" ou da " Arte" .

Não há arte no vácuo, senão sob formas móbidas e suicidas que, podendo ser interessantíssimas, são raríssimas; e que mesmo assim raras só aparentemente se realizam a inteira revelia de meio ou de tempo. Quase tôda arte está em relação com um meio e com um tempo social - tempo que pode não ser pròpriamente o presente, mas o passado ou o futuro; e até arte sectàriamente "saudosista" ou "futurista" . no momento, talvez o que mais nos indique uma sociologia da arte especialisada na análise derelações entre arte e espaço e arte e tempo social, seja uma crescente, embora não sectária preocupação com o futuro social: um futuro que já faz sentir sua presença entre nós, através de exigências de transformação de modos ou estilos de vida a que tendem a se adaptar modos e estilos de arte.

Uma dessas transformações - repita-se - é a que já começa a resultar da crescente automatização da vida e da economia humanas: redução de trabalho e aumento de lazer. Estamos diante de um futuro social em que o lazer significará tédio, angústia, suicídio, crime, se não o souberem encher com substâncias ricas de novos significados para a existência e de novos motivos para a ação do homem, uma arte, uma ciência, uma filosofia, uma religião que desde já se preparem para assumir a hegemonia de creatividade, excercida desde a chamada Revolução Comercial pelos pirncipes da economia comercial e ùltimamente pelos chamados reis das idústrias e das finanças. São príncipes já mortos e reis talvez moribundos, êsses. Sua substituição ninguém pode dizer ao certo como se verificará no que se refere a coordenação de novas forças por novos coordenadores. Mas os indícios são no sentido daquela transferência de hegemonia de creatividade que venha a dar a gênios cpazes de organizar o lazer dos homens a importância dos atuais ordenadores do seu trabalho. E fora a religião, nenhuma fôrça se apresenta mais capaz dessa atividade creadora e até transfiguradora, do que a arte.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Arte, ciência social e sociedade. Recife: Escola de Belas Artes de Pernambuco, 1958. p. 17- 30.

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