O CAMARADA WHITMAN
Conferência lida na Sociedade dos Amigos da América, do Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1947, precedida de uma saudação a Gilberto Freyre, por Arnon de Mello
Saudação a Gilberto Freyre
Ao me distinguir Juracy Magalhães com a incumbência de saudá-lo em nome da Sociedade dos Amigos da América, confesso que me senti perplexo. Como falar do mestre, cuja obra, segundo já acentuou um de seus melhores críticos, não pode ser devidamente apreciada pelos contemporâneos, pois só o tempo nos dará perspectiva para determinar-lhe a magnitude? Além da profundidade dos seus estudos, da seriedade das suas pesquisas, da sua erudição, da sua universalidade, há de se lhe acrescer, com a originalidade, a flama do revolucionário que agita e renova, e, sem perder o gôsto da tradição, projeta-se para o futuro sempre animado de um viço e de um ardor de juventude.
Mas, ainda que êle muito se alteie, ainda que transcenda os limites da sua época, de Gilberto Freyre já se disse tanto que o aludir a êle fàcilmente nos leva ao lugar-comum. Ninguém, de fato, lhe pode ser indiferente, tais as suas seduções, tais os assuntos que encara, os aspectos que abrange, os problemas que suscita. Ao cientista, ao sociólogo, ao escritor, ao poeta, ao filólogo, ao pintor, ao artista, ao mestre como ao jovem estudante, ao leigo como ao sábio, sua obra conquista e apaixona. E não interessa apenas a nós, brasileiros, impregnada que está do Brasil, a começar pelo seu estilo, de poesia e sabor inconfundíveis, no qual se condensa o nosso próprio tipo de civilização baseada na mestiçagem. Seus livros vão sendo traduzidos com êxito para as línguas mais diversas. Por sugestão de Ortega y Gasset, Nordeste é editado em espanhol pela Espasa-Calpe, e Interpretação do Brasil em Nova York por Knopf, e no México pelo Fondo de Cultura Económica. Gallimard, na França, e editôres da Holanda e da Suécia, ainda agora lhe fazem propostas para a publicação da Casa-Grande & Senzala, já lançado em espanhol, em segunda edição, na Argentina, e bem recentemente em inglês na América do Norte e na Inglaterra. Waldo Frank, Stafford Cripps, Braudel, José Medina Echavarría, Antônio Sergio, Fernando Ortiz, Natalicio Gonzalez, Eduardo Mallea, homens dos Estados-Unidos, da Inglaterra, da França, da Espanha, Portugal, Alemanha, Itália, Cuba, México, Uruguai, Chile, Paraguai, Argentina, dedicados a diferentes atividades intelectuais e de variadas posições ideológicas, lhe examinam e exaltam a obra. Professor extraordinário das Universidades de Stanford, Colúmbia, Indiana e Michigan, na América, tendo recusado cátedras especiais nas Universidades de Yale e de Harvard, acaba de receber convite para realizar conferências na França e na Suíça, e por último seu nome é apontado para o Prêmio Nobel de Literatura.
É a consagração, lá fora, de um brasileiro que, depois de muito viajar, não voltou à terra mestiça mais branco do que dela saíra, nem para fazer-lhe remoques e exaltar as civilizações arianas. Muito pelo contrário, voltou ainda mais brasileiro, compreendendo e estimando seu povo, e confiando nêle. Aqui, seus olhos descobriram sinais de personalidade onde até então só se reconheciam marcas de inferioridade. Indiferente ao meio hostil, que o acusava de inimigo da Igreja, de comunista, de falto de pudor e de amor à Pátria pela importância que atribuía ao sexo e ao prêto em nosso desenvolvimento de nação, o jovem graduado de Colúmbia e estudante especial de Oxford provocou extraordinária valorização das nossas coisas, da nossa gente, dos nossos motivos, dos nossos traços característicos mais renegados. Isto, sem deixar de estudar as nossas deficiências, não reconhecidas antes dêle, os erros da nossa formação e do nosso passado colonial, o que, em vez de situá-lo na condição de apologista sentimental, realça-lhe a autoridade de crítico e de cientista. Com a sua contribuição e com o seu estímulo, promoveu-se uma revisão da nossa história, dos nossos valores, da nossa realidade. Recriou-se, redescobriu-se o Brasil. Até Gilberto Freyre, éramos postiços, artificiais, de papel pintado. Êle fêz que nós nos encontrássemos a nós mesmos, brasileiros de tôdas as origens, de todos os sangues e de tôdas as regiões, analisando-nos e interpretando-nos com lucidez e coragem. E defendeu o Brasil contra os próprios brasileiros cegos de esnobismo, buscando evitar que fôssemos uma caricatura ou uma cópia a carbono de outras terras, para dar-nos unidade, personalidade definida, que provoque interêsse e curiosidade, e não indiferença e desprêzo.
Com a mesma decisão, com a mesma bravura, o mesmo desassombro manifestados no sentido de renovar culturalmente o Brasil, integrou-se Gilberto Freyre na ação política. Tão grandes como nos seus livros, o intelectual e o brasileiro completaram-se e exprimiram-se na luta democrática em que encontravam a sua própria razão de viver. Com uma flama que lhe destaca a sinceridade, a fôrça íntima, a seiva interior, o poder espiritual e emocional, estêve sempre na linha de frente nos momentos mais perigosos e difíceis. "Coragem de resistir e de clamar. Resistir quando todos desistem. Resistir sempre. Clamar no deserto" - são expressões suas a respeito de Euclydes da Cunha, que lhe fixam bem a própria personalidade de escritor e de cidadão. Pernambuco era, no tempo da guerra, o ponto avançado do totalitarismo indígena. E ali, sem dali arredar pé, decidiu êle combater até à vitória. No início da campanha de 1945, foi ao seu lado que tombou fulminado por uma bala da polícia o estudante Demócrito, assim como perto dêle caiu mortalmente ferido o carvoeiro Manuel Elias, e ninguém, até hoje, com palavras mais candentes e maior veemência condenou os assassinos e desafiou-lhes a fúria.
Agora o vemos deputado federal por imposição da mocidade pernambucana, da qual é o líder querido, companheiro mais velho mas não menos impetuoso. Sem fôrça eleitoral organizada, sem jamais haver pensado em concorrer ao pleito, candidato no último dia do prazo marcado para as inscrições, sua campanha foi de verdades e de idéias, e sua eleição uma autêntica vitória da vontade popular independente.
É Gilberto Freyre no Poder Legislativo uma fôrça que se afirma não apenas pelo seu nome e pelo seu passado, mas por suas idéias novas, ajustadas ao tempo e à terra. O senso realista do pesquisador e do cientista, que sugere e conclui à base de dados positivos, é o mesmo do político que observa o povo, sente-lhe os sofrimentos e conhece-lhes as causas. Falando há um ano aos estudantes mineiros, definiu êle com precisão exemplar o seu pensamento sôbre a dura realidade dos nossos dias, dentro da qual murcham, definham e fenecem tanto o liberalismo individualista como o socialismo marxista, superados ambos pelo socialismo ou cooperativismo democrático. Os brasileiros que ouvem e compreendem o sociólogo hão de sentir no deputado a mesma sinceridade e clarividência, quando hoje lhes indica, no plano político, os caminhos certos que já lhes apontou no plano cultural.
Bem fêz Gilberto Freyre em preferir Walt Whitman para tema de sua conferência. Ninguém melhor que Whitman interpretou a América, definindo-lhe a missão em mensagens de acentos bíblicos e tons proféticos. Foi êle o revolucionário que buscou e descobriu nas riquezas naturais da Pátria, empolgada pela fortuna e pelo progresso, não o ouro, o carvão, o petróleo, mas o conteúdo humano e espiritual. Como raiz que mergulhasse fundo no subsolo das origens americanas, nas suas fontes mais puras, ganhou a sua voz um vigor primitivo e um colorido de virgindade. Integrou-se, fundiu-se nas coisas e nos sêres. Por êle falavam fôrças telúricas, fôrças selvagens e místicas, apocalípticas. Eram rugidos de fera rebelada que se queria libertar e expandir além dos limites humanos. Nêle a identidade entre a idéia e a ação alongava-se na coincidência entre o pensamento e o próprio ser físico. Seus poemas não têm a frieza do raciocínio, mas o calor do sangue circulando nas veias. Realizava de fato em si mesmo a unidade, tanto se lhe confundem inteligência e instinto, espírito e sentidos e nervos. Nesse estado de inocência, todo sensações e emoções, exprimia e sintetizava o homem, a natureza, a civilização americana, tudo unindo e universalizando. Seu amor ao homem, sua dedicação fraterna ao ser humano, era ânsia de unidade, amor universal, libertação: "só uma intensa preocupação com o próximo nos pode dar a autêntica posse de nós mesmos, e com ela a liberdade". Daí lhe veio, com a atitude contra a escravidão, a exaltação pela democracia, exaltação que nêle não se traduzia apenas nos poemas, mas desdobrava-se na ação renovadora.
Em campanhas eleitorais, como jornalista e como político, sempre acentuava a preponderância das idéias sôbre o homem e o partido, e considerava que ou a democracia "penetra no coração dos homens, em sua sensibilidade e em suas crenças, com a mesma firmeza com que em seu tempo o fizeram o Feudalismo e a Igreja, ou sua fôrça será negativa".
Embora decorridos 128 anos do nascimento de Whitman, os problemas de hoje não lhe destroem a pregação. Êle é antes para ser completado que negado. Além de verdadeiras e proféticas, adquirem suas palavras, neste momento, excepcional oportunidade. A democracia, que precisa como nunca da nossa fé, do nosso entusiasmo, ainda não penetrou no coração de todos os homens, para os quais se restringe a simples cenário, mantido pelo acaso, ante a indiferença e a inércia gerais. Permitindo ao homem realizar-se na sua plenitude, dá-nos direitos, mas impõe-nos deveres dos quais resulta, em último caso, a nossa própria sobrevivência. E um dêsses deveres é não nos excedermos em nossos direitos, não nos empenharmos em manter privilégios sociais e econômicos que já não podemos usufruir, se quisermos salvar a liberdade e a paz. No entrechoque, a que assistimos, de duas civilizações desajustadas, à democracia política faz-se preciso juntar a democracia social e econômica, para que desapareçam as desigualdades contrárias à autêntica sociedade democrática. E isso com a preocupação antes de compor e conciliar que de agitar e destruir. Como disse Gilberto Freyre, saudando Roosevelt, "ser antimarxista sistemático é ser hoje tão polìticamente arcaico como ser sectàriamente pró-marxista. Estamos já em pleno posmarxismo". Numa era de reconstrução social "pela conciliação ou combinação ou síntese de valores antagônicos ou diversos, dentro, o mais possível, de método ou processo democrático de conciliá-los".
Ao contrário do que imaginam alguns dos seus críticos, outra não seria hoje, por certo, a conclusão de Walt Whitman. Poeta da Democracia, como da América, glorificou a Personalidade, inclinou-se para o individualismo, mas não deixou de criticar-lhe os excessos nem se despercebeu da existência da massa, acusado até de comunista por defender maiores direitos para os trabalhadores. Confiou no povo, destacou-lhe "a capacidade de grandeza histórica", as "múltiplas e oceânicas qualidades", e condenou o desinterêsse da literatura e das classes cultas e semicultas da América pelos seus problemas. Queria que os homens no seu caminho não encontrassem obstáculos nem sofressem humilhações, tivessem todos de início o mesmo nível para se desenvolverem.
Se os queria assim, com iguais oportunidades e condições, não iria êle concordar com uma sociedade que "não pode satisfazer de modo profundo o ideal de fraternidade", que não vê nos homens "as identidades, mas sobretudo as diferenças", embora "sejam iguais as necessidades". Pregando a camaradagem, a amizade, a fraternidade, a união, considerando-se mesmo uma síntese do Universo, não seria êle insensível às verificações e às soluções requeridas pelos novos tempos, se vivesse os nossos dias.
Eis por que assistimos com o maior prazer intelectual ao encontro de Walt Whitman, intérprete da América, e Gilberto Freyre, intérprete do Brasil, que se aproximam por vivos traços de afinidade, ambos tão universais para compreender, tão corajosos para afirmar, tão equilibrados para julgar, tão combatidos na sua vocação revolucionária e tão inflexíveis na determinação de elevar o homem através da paixão e da fé democráticas.
ARNON DE MELLO
O CAMARADA WHITMAN
A um vice-presidente de sociedade que seja, como esta, de Amigos da América, uma república construtivamente democrática em ponto pequeno, cumpre ser o primeiro a colaborar com o presidente. Quando o presidente é um Juracy Magalhães, o dever se expande em alegria. Atendendo-o é que estou aqui. Não contava com a saudação generosa dos meus companheiros desta Sociedade, pela voz de outro amigo querido: Arnon de Mello. A êle, meus melhores agradecimentos.
E agora, amigos, vamos procurar nos aproximar do mais cordial dos americanos de tôdas as Américas e de todos os tempos: do Camarada Whitman. Aquêle que disse de um dos seus livros: "Camarada, isto não é livro. Quem toca nestas páginas toca num homem".
A América já não é só paisagem: a paisagem exaltada pelos Chateaubriands e desdenhada pelos Fradiques, ainda que o próprio Fradique sentisse nos sertões e nos pampas americanos a capacidade de refazerem no chamado "homem civilizado" a virgindade intelectual perdida na Europa; e comparasse a Patagônia a Vichy: uma Vichy capaz de operar sôbre o intelecto como a outra sôbre o fígado, desobstruindo-o. A América de hoje - e quando digo América refiro-me a tôdas as Américas e não apenas à mais rica e tècnicamente mais adiantada - é cada dia mais um centro de humanidade criadora e, sob alguns aspectos, o centro da humanidade criadora.
Já não é apenas o continente da Liberdade com L maiúsculo. A famosa estátua do pôrto de Nova Iorque deixou de ser o símbolo justo da americanidade. A americanidade chegou a um ponto tal de complexidade que uma deusa só não a simboliza. Só muitas ou várias deusas: a deusa da Saúde; a do Trabalho; a da Justiça; a da Indústria; a da Ciência. Várias outras. Um novo politeísmo ideológico ou sociológico.
Tampouco a encarna hoje sòzinho um só grande homem do passado. Washington, San Martin, Bolivar, Jefferson, José Bonifacio, Lincoln, Sarmiento, Emerson, Andrés Bello, Franklin, Teixeira de Freitas, Juarez, foram todos grandes americanos mas não o grande, o integral americano em quem a América de hoje se encontre completamente. Nem se encontra ela completamente em nenhum dos grandes homens vivos ou recentes do continente. Nem no segundo Roosevelt nem em Diego Rivera; nem em Villa-Lobos nem em Rio Branco; nem em Rubem Dario nem em Manuel Bandeira; nem em Euclydes da Cunha nem em Vachel Lindsay; nem no Juiz Holmes nem em Nabuco; nem em Edison nem em Santos Dumont; nem em Isadora Duncan nem em Ruy Barbosa; nem em Rondon nem em Vasconcellos ou Rodó.
Em quem ela mais se encontra - mais do que em qualquer daquelas deusas ou mais do que em qualquer dêsses grandes homens de casaca, de farda ou de toga ou na extraordinária mulher que renovou a dança antiga, dando-lhe vigor americano - é no velho Whitman de camisa aberta no peito; de avental branco de enfermeiro; de macacão de tipógrafo. No Whitman que foi um dos maiores homens-orquestra de todos os tempos; um polifônico e não apenas uma voz só - e nisto o experimentador que abriu o caminho às experiências admiráveis de Amy Lowell, poeta continuador de Walt Whitman que conheci de perto nos meus dias de estudante, quando também conheci Vachel Lindsay. No Whitman cheio de antagonismos e contradições e não um coerente, muito menos um lógico; um adolescente já depois de homem feito e, ao mesmo tempo, um homem com cabelo e barba de velho aos trinta anos; um imperfeito, um agreste, um inacabado e, ao mesmo tempo, um clássico; um amigo de Emerson e admirador de Lincoln e, ao mesmo tempo, um homem tão compreensivamente humano que não se envergonhou nunca de conviver com rufiões; o anglo-americano que primeiro exaltou em poema a figura de uma negra; o americano saído da classe média que nem se revoltou contra a classe média nem se limitou como poeta a ser de uma classe ou de uma raça ou mesmo de um sexo; que não quis ser o poeta exclusivo do ideal de uma classe ou de uma raça, de um credo religioso ou de um sexo, de um movimento ou de um país, mas o camarada de todos os americanos, de todos os sêres humanos em busca de dias senão melhores mais fraternais para a América e para a humanidade.
Quem assim compreendeu sua condição de homem e de poeta, de americano e de político, e correu o risco de ser mal compreendido pelos sectários de tôdas as seitas, pelos puristas e todos os purismos, pelos ortodoxos de tôdas as ortodoxias, antecipou-se na americanidade a que outros americanos avançados só hoje começam a chegar: a americanidade integral, pan-humana, pan-democrática. É que Whitman renovou nos homens da América, do Ocidente e talvez do mundo inteiro, o sentimento, a concepção, o ideal de fraternalismo - de fraternalismo oposto a qualquer espécie de paternalismo despótico - com um poder revolucionário e poético tão grande como não houve maior, entre os homens, desde aquêle outro grande poeta e grande revolucionário, também superior aos ideais paternalistas de classe e de seita, de raça e de sexo, do seu tempo, que foi São Francisco de Assis.
Publicou-se não faz muito tempo nos Estados Unidos um livro que causou ruído entre os sofisticados daquele país. Refiro-me a Folklore of Capitalism, ensaio de sabor paretiano escrito por ilustre jurista meio cético, Thurman Arnold, espécie de novo Renan que perdeu a fé dos seus dias de menino na Democracia com D maiúsculo. Mas um fato parece ter perturbado grandemente o incrédulo: o fato de ter havido um Whitman. Um Whitman tão cheio de confiança - a confiança de um São Thomé - nas instituições democráticas e no futuro da democracia e, ao mesmo tempo, tão realista, tão cruamente realista no seu conhecimento dos homens, em geral, e dos americanos dos Estados unidos, em particular. Pelo que o cético elegantemente acadêmico diagnosticou a fé democrática de Whitman como escapismo: teria sido o meio do poeta fugir às realidades desagradáveis do mundo em que viveu. Veremos se a tese do autor de Folklore of Capitalism - estudo sempre sugestivo e incontestàvelmente exato em algumas de suas observações do fenômeno capitalista - encontra inteiro apoio nos fatos. Inclusive na personalidade de Whitman, que não pode, no caso, ser desprezada ou ignorada. É mesmo o fato central.
Whitman viveu em dias particularmente turvos para a democracia no seu país. "Dois anões ao lado de Emerson", é como êle descreve os dois candidatos à Presidência da República dos Estados Unidos da América no ano de 1858, desejoso, talvez, de ver presidente dos mesmos Estados Unidos da América não um homem comum mas algum Emerson extraordinário. Repugnava-lhe, assim, aquela exibição de liliputianos para o duelo eleitoral em tôrno da Presidência da República. Pois deve-se notar que, com tôda a sua confiança no homem comum, Whitman enxergou sempre a necessidade, nos postos de comando - de puro comando, nunca de domínio - do homem incomum. Incomum não pelo saber acadêmico ou pelo gênio finalmente literário ou estético de sábio ou de artista distanciado da vida cotidiana, mas pela capacidade superior de direção e, ao mesmo tempo, de identificação do líder com as necessidades e aspirações da comunidade. E dois dos seus poemas são dedicados a um dêsses homens incomuns saído do meio dos homens comuns, filho de lenhador, até: Lincoln. Em Lincoln, Whitman encarnou sua idéia de "redentor dos americanos", de "capitão", de "líder de primeira ordem".
O que não sei é se terá ocorrido alguma vez a Whitman que, em vez de exercidas por homens da altura de Emerson - que não tendo sido um daqueles estetas puros detestados pelo poeta, não deixou de aproximar-se do tipo do intelectual sêcamente distante dos homens do povo - as presidências da República e as dos Estados se ajustam, talvez, melhor, nos dias normais, aos homens simplesmente de bom senso. Homens que, em lugar do gênio quase sempre inquieto da criação, tenham o senso da conservação, o da rotina, o da obrigação cotidiana. Neste ponto me parece ter acertado com a verdade o Eça de Queiroz através do Carlos da Maia: o Carlos da Maia tão conhecido de tantos de nós, devotos daquele outro Santo Antônio de Lisboa que se tornou para os brasileiros dos princípios dêste século o "pobre homem de Póvoa da Varzim".
Estava Carlos da Maia, um dia de sol, em Cintra, com seu amigo, o maestro Cruges, quando pararam diante de um jardim caracterìsticamente português: "aqui e além, entre a bela desordem da folhagem. . . arranjos de gosto burguês. . ."Árvores, estatuetas, ruídos d'água, flores. É quando Cruges não se contém e observa: "Que pena que isto não pertença a um artista! Só um artista saberia amar estas flores, estas árvores, êstes rumores. . ."Mas Carlos sorri. E depois de sorrir diz estas palavras que me parecem conter alguma sabedoria: "Os artistas só amam na natureza os efeitos da linha e côr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que um craveiro não sofra sêde, para sentir mágoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentões das acácias - para isso só o burguês que tôdas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nas árvores e nas plantas uma outra família muda, porque êle é também responsável". É claro que Eça emprega aqui a palavra "burguês" não no seu sentido marxista, mas no francês, no flaubertiano, em que se contrapõem não burguês e proletário, mas burguês e artista.
Tendo em vista êsse sentido de burguês, pergunto: não se dará o mesmo que com os jardins com as presidências da República, com os ministérios, com os governos de Estado, com as prefeituras, com os cargos de direção de departamentos, institutos, museus, bibliotecas, repartições? Não serão preferíveis, nesses cargos, nesses postos de direção do que se poderia denominar o parque político ou burocrático de um povo, aos Ruys Barbosas e aos Albertos Torres, que amam e vêem como ninguém, nas paisagens políticas e administrativas, os efeitos de linha e de côr (para os quais êles próprios muitas vêzes concorrem como uma espécie de arquitetos-paisagistas), os simples mas sólidos jardineiros, os simples mas meticulosos chacareiros, os simples mas cuidadosos burgueses - vai a palavra no seu sentido flaubertiano e não no marxista - capazes de todo santo dia regarem as plantas e cuidarem das árvores? Mas isto é quase outra história.
Nos dias de Whitman, nem no Congresso, nem nas embaixadas, nem nos governos dos Estados, nem nas prefeituras, nem nos tribunais, encontrava-se, ao seu ver, nos Estados Unidos, um só americano capaz, resoluto, bem informado, animado de sendo humano e não apenas faccioso de dever ou de responsabilidade. Cada eleito do povo em que se fixavam seus olhos indagadores parecia-lhe "um traidor do povo", interessado apenas nos próprios negócios. Vendiam-se e compravam-se cargos. E um recente intérprete de Whitman, o Professor Gabriel, salienta que a maior repugnância do grande poeta, quase sempre objetivo mas de modo nenhum velhaco em seus contactos com os outros homens, era pelo que hoje se denomina em política democrática de "realismo": um realismo feito não de contemporizações justas no interêsse público mas de transigências ou de concessões no interêsse eleitoral ou econômico da cada um ou de cada subgrupo sequioso do poder. Evidentemente, não era só um parque político, o dos Estados Unidos, nos dias de Whitman moço, em que não se encontrava, em pôsto de direção, nenhum arquiteto-paisagista que fôsse também um jardineiro do tipo de Jefferson. Era um parque quase sem jardineiros. Um parque onde apenas se derrubavam árvores e se plantavam couves: quanto bastasse para a sopa do almôço ou do jantar dos homens chamados práticos.
Sendo esta a situação da chamada "Democracia americana" nos dias em que Whitman abriu os olhos para a atividade política, era possível a um crítico da sua lucidez e da sua segurança de visão - um São Thomé que só acreditou nas virtudes do homem comum americano depois de ter apalpado suas feridas e visto de perto suas fraquezas - acreditar em "democracia", a não ser como um mito necessário, como uma mística útil, como um pedaço do folclore do capitalismo então completamente triunfante? Esta é pergunta que só pode ser considerada, considerando-se principalmente - repito - a personalidade de Whitman.
Nada nos autoriza a acreditar que um homem da firmeza de ânimo e do realismo por assim dizer clínico de Whitman precisasse de tão precário travesseiro para sua cabeça inquieta mas sempre corajosa; o travesseiro da ilusão democrática. Êle que foi apologista tão fervoroso da expansão americana para o Oeste poderia ter sido um pregador igualmente franco do govêrno forte ou do domínio de casta. O darwinismo ou o evolucionismo sectário, a ciência ou o cientificismo do dia, teria lhe dado argumentos para qualquer dessas crenças antidemocráticas. Por outro lado, sua participação na vida pública do seu país e do seu tempo não tendo correspondido nunca à ambição de fortuna ou de poder material de sua parte, precisaria êle de se iludir a si mesmo, ou de enganar os outros, dizendo-se por simples interêsse ou pura manha de político capitalista ou ávido de sucesso na política capitalista, um homem de fé democrática? Isto, no meio de uma democracia quase em ruínas como a norte-americana nos dias de sua mocidade?
Sua fé na democracia era a de quem enxergava com olhar claro tôda a tremenda tempestade que as instituições democráticas atravessavam no seu país e no seu tempo. Mas que soprassem cada vez mais fortes os ventos antidemocráticos. Que as ondas se encrespassem cada vez mais terríveis contra o esfôrço democrático não só dos homens comuns como dos Lincolns dos Estados Unidos. Que as nuvens negras se levantassem cada vez mais negras contra a concepção democrática de vida de Jefferson e de outros profetas dos primeiros dias da República. O barco democrático não devia ser feito só para os ventos bons, as ondas macias, as nuvens côr-de-rosa:
"Ship of the hope of the world - Ship of Promise Welcome the storm - welcome the trial Why, now I shall see what the old ship is made of Anybody can sail with a fair wind, or a smooth sea".
Animava a Whitman uma concepção de democracia muito de acôrdo com seu sentido um tanto darwiniano da realidade, da vida e das contradições do homem: uma democracia capaz de resistir por si mesma à antidemocracia. Se lhe faltava essa virilidade ou essa capacidade de resistir às fúrias dos inimigos, é que a democracia não merecia sobreviver.
A antidemocracia aos seus olhos não era só a monarquia absoluta mas também a plutocracia poderosa. Não era só o escravagismo feudal do Sul dos Estados Unidos mas também o capitalismo industrialista do Norte com seus novos reis ou barões instalados no alto de bancos e de emprêsas privilegiadas. Daí Whitman ter sempre censurado aos abolicionistas sua estreiteza de visão que era a de verem um único problema social: o da libertação de uma raça explorada e dominada pelo feudalismo agrário. Nenhuma raça ou classe ou região pareceu nunca a Whitman causa suficiente por que lutar um democrata. A própria "América" parece ter sido para êle menos um espaço físico que social: o símbolo da humanidade ou do mundo futuro que, por "destino manifesto", teria o seu centro no continente americano: o mais apto, ao seu ver - é o que parece indicar seu americanismo, ao qual se pode talvez comparar o eslavismo dos modernos russos stalinistas - a antecipar-se na realização da democracia tanto quanto possível completa: social e não apenas política; étnica - embora êle não tenha salientado tanto quanto um José Bonifácio êste aspecto da convivência humana, cuja democratização parece contribuição caracterìsticamente brasileira para o complexo democrático - e não apenas econômico. Pois o sentido democrático de Whitman era o da totalidade democrática e não apenas o estreitamente político, muito menos, o mecânicamente eleitoral, com que ainda hoje se contentam tantos americanos polìticamente ameninados ao ponto de parecerem, em filosofia ou arte política, uns retardados mentais que acreditassem na suficiência mágica dos efeitos do voto como outros se deslumbram com ovos ou coelhos saídos das cartolas dos mágicos.
De modo que ao aproximar-se o conflito menos entre duas regiões que entre dois sistemas antagônicos de economia, que foi a Guerra de Secessão, Whitman não se deixou dominar completamente por nenhuma das místicas partidárias: nem pela do unionismo ianque, nem pela da autonomia dos Estados defendida pelos escravagistas do Sul. Sua visão da América - pelo menos da América inglêsa - em 1860, já era a do "continente indissolúvel" que hoje anima a tantos de nós:
". . .divine magnetic lands With the love of comrades, With the life-long love of comrades".
Um dos mais lúcidos intérpretes de Whitman - outra vez me refiro ao Professor Ralph Henry Gabriel - destaca o que a Guerra Civil foi para o poeta, sempre confiante no poder de resistência da democracia às fôrças antidemocráticas. E serve-se de palavras do próprio Whitman. Em 1872 recordou Whitman terem aquêles dias terríveis de conflito mostrado que "a democracia popular, sejam quais forem suas faltas e perigos, na prática se justifica a si mesma", excedendo essa justificativa à dos seus apologistas mais fervorosos. Não que para Whitman à Guerra Civil tivesse se sucedido o triunfo côr-de-rosa da democracia sôbre a plutocracia nos Estados Unidos. Apenas a escravocracia agrária se arruinara. Apenas o abolicionismo ganhara sua pequena batalha de libertação dos pretos do cativeiro agrário e feudal. Democrática fôra, porém, a guerra trazendo para a luta áspera, por uma questão de dever compreendido democràticamente, homens do povo das duas regiões. Homens que nos combates haviam se portado varonilmente. Homens que, vencido o Sul pelo Norte, e ocupados alguns dos cargos mais altos da República por indivíduos que nem sempre passaram a honrar tais cargos - o caso triste do próprio General Grant, herói da Guerra Civil que a alta finança dos triunfadores acabou envolvendo em algumas das suas seduções -, continuaram a ser aquela reserva de vitalidade e de varonilidade, de honestidade e de senso de responsabilidade, que a guerra revelara existir tanto na gente comum do Norte como na do Sul. E a fé de Whitman na democracia, como processo ou método de convivência humana, repousava na sua fé nesses homens.
Quando êle dizia "camaradas" a todos os sêres humanos, e não apenas aos da sua classe econômica ou da sua casta intelectual, da sua região ou área territorial ou da sua raça de homens alvos e louros, não havia nessa confraternização de Whitman com todos os americanos - ou com todos os sêres humanos do seu tempo que fôssem capazes da mesma atitude fraternal que êle - uma afetação ou convenção de sectário dessa ou daquela ideologia internacional porém exclusivista quanto à classe, à raça, à atividade ou ao sexo dos indivíduos. "Camarada" era o seu modo natural de dirigir-se franciscanamente e, ao mesmo tempo, helênicamente, quase sem hebraísmo nenhum - o hebraísmo exclusivista ou etnocêntrico que dos hebreus comunicou-se aos anglo-saxões protestantes, ou Puritanos, comprometendo às vêzes nêles a concepção não só democrática como cristã de vida e de relações humanas - aos demais homens, desembaraçados de artifícios ou de preconceitos. Aos demais homens que fôssem simplesmente homens. Simplesmente homens e mulheres. Homens comuns e não super-homens da concepção nietzschiana. Porque os homens comuns - repita-se - é que tornaram possível a fé democrática de Whitman. E se Whitman acreditou no futuro da democracia em época tão turva para a democracia americana como aquela em que êle viveu, foi por ter conhecido o homem comum, o homem médio - o homem médio, note-se bem, e não apenas o da classe média -, o homem simples do seu país; por o ter visto de perto com todos os seus defeitos e com tôdas as suas qualidades; por ter se apercebido das suas virtudes básicas não só com olhos de poeta como também com olhos clínicos de enfermeiro: quase de médico. Foi com êsses olhos quase de médico que êle viu nos corpos nus dos homens de quem tratou não só feridas de guerra como de deformações sociais do tempo da paz; que viu não só corpos nus de centenas de homens comuns como suas almas ou personalidades nuas, de homens próximos da morte. Muitos foram os homens comuns - soldados do Norte abolicionista e do Sul escravagista - que morreram nos seus braços de irmão mais velho. Muitos foram os homens comuns que confessaram aos ouvidos de Whitman seus últimos pensamentos do mundo.
O longo cabelo branco fazia-o talvez parecer paternal ou maternal aos olhos dos moços feridos de morte. Mas o que havia nêle antes de tudo era um irmão mais velho dos soldados do Sul e do Norte. Talvez também uma irmã no sentido equivalente àquele em que o nosso ilustre Miguel Couto quis ser para a mãe viúva antes uma filha do que um filho.
Whitman era um gigante agreste mas suas mãos de enfermeiro parece que sabiam ser doces com os doentes mais próximos da morte como as mãos de uma mulher. Fato um tanto escandaloso num país como os Estados Unidos que, embora dominado como nenhum pelo "complexo de mãe" a que se refere em livro recente o Professor Regis Michaud, estranha nos homens tôdas as atividades ou interêsses associados arbitràriamente só às mulheres: tocar piano, pintar, desenhar, cuidar de doentes, a paixão pelas belas-letras ou pelas belas-artes. Os Estados Unidos são um país em que mais fàcilmente se tolera a invasão das atividades arbitrária ou convencionalmente masculinas pelas mulheres do que o reverso. No reverso se enxerga sempre o "sissy", tão pouco prestigiado entre os homens enfàticamente masculinos como entre as mulheres, embora em recente inquérito realizado por um médico ilustre naquele país, algumas mulheres tenham respondido ao pesquisador preferi ao extremo tipo masculino e de homens com ligeira tendência a efeminados, alegando a razão: por serem nos Estados Unidos os mais sensíveis à música, à arte, à literatura. O que põe em relêvo uma das deficiências da civilização anglo-americana: a de associar quase exclusivamente ao belo sexo as belas-artes e as belas-letras como se o forte só devesse cuidar dos rudes negócios e de outras atividades feias e fortes.
Tão fraternal foi Whitman em seu sentido da vida e das relações humanas e tão capaz de ternura nessas relações - a ternura que, em geral, nas civilizações de mais intensa diferenciação entre os sexos, só se compreende nas mulheres - que algumas de suas atitudes e alguns dos seus poemas chegaram a ser interpretados como afirmações ou sublimações de narcisismo e até de homossexualismo confundido com bissexualismo. O bissexualismo de atitude e não de ação, por empatia e não vicioso, que se encontra em Whitman. Pois êle não parece ter se entregue a práticas homossexuais nem à maneira debochada ou viciosa dos Verlaines e dos Wildes nem mesmo como tentativa difícil, mas com sentido ético, de "normalização" de tendências menos comuns que as dominantes: o tremendo esfôrço, em nossos dias, de um André Gide. O que teve parece que foi principalmente a coragem de grandes amizades com outros homens (algumas, talvez, de remoto fundo homossexual) ao lado de entusiasmos por "mulheres perfeitas" - o que põe em destaque seu bissexualismo de atitude; e o "narcisismo" de exaltar a beleza do corpo humano - o do homem tanto como o da mulher - e não apenas a graça e o encanto do corpo da mulher visto com olhos de homem.
Um homossexual inveterado difìcilmente poderia ter escrito um poema tão compreensivo do sexo oposto e, ao mesmo tempo, tão masculino em sua atitude como "A woman waits for me". Apenas a mulher por êle idealizada não era a lânguida, a frágil, a excessivamente delicada das civilizações caracterizadas por um tal domínio econômico do homem sôbre a mulher que esta é antes um subsexo que o sexo oposto. Êle desejava a mulher capaz de nadar, remar, correr: um escândalo para os seus dias. É, porém, o que desejam hoje da mulher os homens mais esclarecidos: que seja o belo sexo porém não o fraco. Que seja terna porém não servil. Sensível porém não histérica. Semelhante ao homem nos seus direitos ou nas suas oportunidades de expressão mas não nas afirmações da sua personalidade, diferente da do homem em vários traços ou característicos essenciais, embora êstes, principalmente os secundários, se achem desigualmente distribuídos nos indivíduos, havendo guerreiros com mãos de mulher e costureiras com pés de homem.
Sublimação de bissexualismo é possível que tenham sido vários poemas e várias atitudes de Whitman. Afirmações, parece que não. O que acontece é que a diferenciação extrema entre homem mulher nas civilizações de economia antes competidora que cooperadora como as agrária ou industrialmente feudais, de tal modo difícil ou superficial torna a amizade não só de homens com mulheres como entre os indivíduos do sexo dominador - dividido por competições às vêzes terríveis - que nessas civilizações as amizades profundas se tornam raras e até suspeitas. Em Walt Whitman, o gôsto e a capacidade de amizade se conciliaram com sua personalidade de apaixonado da figura ou da pessoa humana não só em si mesma (o aparente narcisismo) como nos outros (o aparente homo ou bissexualismo) de atitude. Só de atitude, que é tudo quanto se pode afirmar no seu caso.
Capaz de grande frieza em suas análises dos acontecimentos e da condição humana, isto êle foi. Mas não em suas interpretações da vida, das situações e mesmo dos acontecimentos humanos; não em suas definições de atitude diante dêsses acontecimentos, dessas situações e dessa vida. Nessas interpretações e definições de atitude foi sempre um apaixonado.
Mas não homem de quem a grande capacidade de ser amigo intenso fizesse um homem simplesmente particular, privado, íntimo. Raros poetas têm sido, tanto quanto êle, um homem particular com espírito público. O espírito público nêle foi constante.
Dugas, em seu estudo sôbre a amizade, salienta que onde a amizade foi um culto, como nas civilizações clássicas, as relações entre amigos não significavam ausência ou sacrifício das relações de qualquer dêles com o público em geral. Walt Whitman, reagindo contra o feudalismo agrário e o industrialismo feudal, ambos criadores de hierarquias rígidas entre os sexos e entre os homens - hierarquias hostis às grandes amizades que são principalmente as fraternais - restaurou o culto da amizade sem sacrificar a êsse culto seu espírito público: sendo amigo de alguns e camarada de muitos. Pelo seu gôsto, de todos ou de quase todos. Daí sua solução democrática do problema: seu fraternalismo que se exprime no sentimento de camarada, extensão do de amigo. Todos aspectos do mesmo espírito democrático: o fraternal.
Êsse fraternalismo democrático, São Francisco de Assis, revoltando-se poèticamente contra os excessos hebraica ou feudalmente paternalistas dentro da Igreja, estendera-o além dos homens: à água, ao fogo, aos animais, às árvores. Tudo era irmão. Whitman, naturalista, sim, mas acima de tudo personalista no melhor sentido, não foi a tanto. Nem se extremou naquele outro naturalismo agreste: o do Thoreau que parece ter preferido apoiar-se nos galhos das árvores da Nova Inglaterra a confiar no apoio dos braços dos homens, mesmo amigos. Camaradas eram, para Whitman, todos os homens capazes de se entenderem, de se amarem e de se completarem por símbolos e meios humanos de integração. Integração dos indivíduos uns nos outros, conforme afinidades particulares; e todos, fraternalmente, na comunidade.
Ao mesmo tempo, sua idéia de amizade aproximava-se da de Santo Agostinho: aquela que se revela nas páginas das Confissões. Aí diz Agostinho não saber como continuar a viver depois de perdido o amigo que de tal modo o completava na vida a ponto dos dois formarem "uma alma só". Não têm, ou não parecem ter, outro sentido, os poemas célebres de Whitman, Calamus, da mesma categoria das páginas célebres do grande doutor da Igreja, dos Sonnets de Shakespeare e do In Memoriam de Tennyson.
Foi o que mais transbordou de Whitman nos seus livros: um sentido personalista e fraternalista da vida e da comunidade tão intenso a ponto de parecer às vêzes homossexualismo desvairado, quando seria apenas bissexualismo sublimado em fraternalismo. Não havia em Whitman um poeta, menos ainda um literato impessoal, inumano, esotérico, separado da sua condição de homem, de pessoa, de político. Poeta, político e homem formavam nêle um conjunto de atividades e condições inseparáveis. Nisto era como se fosse um hispano. Os hispanos é que são mais assim: personalidades inteiras das quais só se consegue isolar o escritor ou o artista, o político ou o místico, matando no intelectual, no artista ou no homem público a pessoa ou o homem particular, de tal modo os nervos de um se prolongam nos do outro. Quando Whitman exclamou muito whitmaniamente um dia, caracterizando um de seus livros.
"Camerado, this is no book Who touches this touches a man
falou um inglês que parece traduzido do espanhol ou do português. Assim teria falado Ganivet ou Antero; San Juan de la Cruz ou o autor de Don Quixote; e principalmente Ramon Lull.
Nada mais característico de Whitman do que o fato de que êle próprio, dentro do seu macacão - o macacão escandaloso com que, segundo se diz, foi às vêzes a banquetes onde todos se achavam burguêsmente de casaca e de peitilho duro, os mais ricos cheios de brilhantes na camisa e nos punhos -, é que compôs, numa tipografia, o Leaves of Grass, seu primeiro livro. O primeiro e o que ficou durante a vida inteira de Whitman, e depois dêle morto, a mais famosa das suas produções. Tinha êle ao publicá-lo trinta e seis anos.
Já não era nenhum rapaz mas homem feito. Nascera a 31 de maio de 1819. Familia quaker e pobre, a sua. Pai carpinteiro.
Terminados os estudos primários começou para Whitman sua vida de trabalho sem terminar a de estudo: estudo agora por conta própria. Trabalhou de carpinteiro e de tipógrafo; ensinou menino a ler; escreveu para jornais; leu todos os livros que pôde; leu Homero; leu Shakespeare; foi muito aos teatros; viveu muito vida de praia; tomou muito banho de mar; correu muito de pés descalços pelas areias de Coney Island - espécie de Copacabana de Nova Iorque de outrora; nadou e pescou. Mas, ao mesmo tempo, nos fins das tardes, recitava versos de autores clássicos, tendo o barulho do mar por Dalila.
As principais influências que sofreu parece que foram estas: a Bíblia, Ossian, Carlyle e principalmente Emerson. Mas também Homero e Shakespeare. E Jefferson: a ideologia jeffersoniana.
Ninguém tomou mais a sério do que Whitman - pensa um dos seus críticos, o Professor Jay B. Hubbell - a idéia de que a literatura americana, isto é, a literatura dos Estados Unidos, deve versar "temas nativos" e exprimir o "Espírito Americano". Essa velha idéia êle a viveu de tal modo que a renovou ou recriou identificando um tanto simplistamente a americanidade com a Democracia e a Ciência, as grandes duas deusas dos homens novos do Ocidente nos dias da sua mocidade. Mas identificando-a também com o afeto fraternal entre poeta e massa; entre líder ou capitão e povo. A Democracia significava para ele "fé no homem comum"; a Ciência, "fé na natureza". O poeta ou o homem americano era nessas duas fés que devia fundar sua vida e sua interpretação da vida. E para Whitman a prova do valor de um poeta como poeta, isto é, intérprete ou profeta de um povo ou da vida humana, devia estar em ser êle, intérprete, absorvido tão afetuosamente pela gente interpretada por êle quando êle a absorvera. Destino, diga-se de passagem, que não foi o seu, enquanto viveu.
Em Whitman, a idéia de interpenetração afetiva de pessoa e massa, de poeta e comunidade, foi uma constante. Nenhuma sugestão do que hoje chamaríamos "racismo' nessa interpenetração. Seu senso de comunidade era, ou é, o sociológico e não o biològicamente étnico, do mesmo modo que seu sentido da vida e da natureza era, ou é, antes o helênico que o hebraico, embora ao seu modo de exprimir-se, ao seu ritmo, à sua respiração poética, não faltem repercussões nìtidamente bíblicas e, por conseguinte, principalmente hebraicas. Lembremo-nos, porém, de que a Bíblia que teve maior influência sôbre Whitman, menino e filho de carpinteiro, foi a Bíblia interpretada por Quakers; e recordemo-nos de que os Quakers são uma espécie de Franciscanos do protestantismo.
Whitman ficaria espantado de ouvir alguém aproximá-lo dos Franciscanos. Mas é a velha história de Mr. Jourdain: a dos que fazem prosa sem o saberem.
Há os que praticam o cristianismo ou o franciscanismo sem se aperceberem de que são cristãos ou franciscanos - sociològidamente franciscanos, digamos assim, para acentuarmos a independência entre o conteúdo teológico e a forma, que é o aspecto sociológico do franciscanismo ou do cristianismo. Whitman, até certo ponto, foi um dêsses franciscanos à Mr. Jourdain. Franciscano pelo seu culto da simplicidade às vêzes perigosamente vizinha do simplismo. Franciscano pelo seu gôsto em conviver com iletrados, em deliciar-se com o saber dos intuitivos, com a espontaneidade e com a frescura da inteligência dos próprios analfabetos, tão diferente da inteligência dos acadêmicos e dos doutores, tão impregnada do prazer de aproximar-se o homem dos problemas como se fôsse sempre um aprendiz e nunca um mestre; como se começasse sempre, a todo momento, a aprender, "caminhando com a vida" - como já disse um O. F. M. Em apologia dos seus irmãos de hábito - "para não ser ultrapassado por ela".
Franciscano foi ainda Whitman pelo próprio gôsto em andar sempre de macacão ou de camisa aberta no peito, como os outros, os discípulos religiosos de santo, só de hábito simplesmente pardo e de pano grosseiro e áspero. Como se o hábito fizesse o monge (e até certo ponto o faz); como se o uso constante do macacão e o repúdio sistemático à casaca burguesa, ao paletó do homem convencional de negócios, ao fraque prêto do acadêmico ou do alto burocrata, à beca de bacharel ou de doutor, acabassem tornando o intelectual o homem do povo ou o irmão do homem do povo que êle desejasse ser; como se o macacão usado sempre, e não apenas para o burguês pintar uma parede ou consertar uma torneira do quanto de banho, acabasse tornando-se uma segunda pele do intelectual, uma camada ou um revestimento de carne social sôbre sua carne de indivíduo. E não uma fantasia de quem fizesse do seu populismo ou do seu proletarismo uma espécie de mascarada ou de carnaval literário ou político.
Êsses franciscanismo de Whitman, êsse seu trabalhismo de macacão, talvez escandalizasse os russos soviéticos de hoje. Por sua vez, os russos soviéticos de hoje, que são uma espécie de jesuítas do socialismo, talvez escandalizassem o franciscano Whitman sendo também, como são, uma comunidade que começou de camaradas e se transformou num conglomerado de republicanos tão convencionalmente burgueses em algumas de suas práticas e atitudes que seus literatos oficiais se rejubilam com títulos de acadêmicos e até de comendadores.
Franciscano foi, ainda, Whitman pelo seu otimismo. Não o otimismo dos que fàcilmente se enganam com a vida ou com os outros homens, mas o otimismo de quem confia no homem comum, sem o julgar algum anjo. Nem anjo nem incapaz de misérias e de fracassos. Simplesmente homem comum.
Com as fraquezas dos homens repita-se que Walt Whitman nunca se iludiu. Se morreu confiando no homem comum é que, na verdade, se convenceu, com todo o realismo de que se mostrou capaz em sua análise da vida americana e em sua crítica das deformações da democracia pelos falsos democratas, de que, acima das fraquezas dos homens, estaria sempre a capacidade do homem comum para desenvolver, guiado e esclarecido por "líderes de primeira ordem", uma organização da vida em sociedade melhor do que a feudal: a agràriamente feudal ou a industrialmente feudal.
Tendo aspirado ser um poeta que os homens comuns lessem com gôsto e que a comunidade americana absorvesse afetuosamente, como êle a absorvera em sua poesia empática - ao mesmo tempo social e pessoal, política e erótica - essa sua aspiração já vimos que não se realizou nos seus dias. Seus primeiros admiradores foram homens acima do comum: Emerson, nos Estados Unidos, Robert Louis Stevenson, John Addington Symonds, Swinburne e até Tennyson, na Inglaterra. Aos críticos convencionalmente acadêmicos como Lowell êle não atraiu como não atraiu ao grande público. O livro que no dizer do seu autor não era um livro mas um homem, tal a vida, o ardor, o movimento que Whitman comunicara às suas páginas, teria passado quase despercebido da gente média da época se não fosse o entusiasmo daqueles homens superiores por poeta tão vigorosamente original, por intérprete tão revolucionário da vida americana e da natureza humana. Um "obsceno" e um "vulgar" era, entretanto, o que enxergavam nêle os críticos convencionais e mesmo a gente média: a que êle chamara "divine average". Daí os artigos que o próprio Whitman, sem nenhuma modéstia fingida, sem nenhum receio de ser acusado de exibicionista pelos literatos farisaicos, escreveu sôbre si próprio - artigos anônimos - defendendo-se e procurando mostrar o valor, o alcance, a significação de sua interpretação nova da vida, do homem, da América. Procurando criar na "divine average" a necessária compreensão de poemas que êle não escrevera para estetas sofisticados nem para indivíduos raros mas para as multidões. E as multidões americanas indiferentes ao mais puro dos seus amantes e dos seus intérpretes. Ou sensíveis apenas ao aspecto pitoresco da sua personalidade ou da sua literatura. Mas como não ser assim, se eram multidões intoxicadas pelo ambiente de materialismo capitalista em que viviam?
Em 1872, por iniciativa de estudantes de Dartmouth, Whitman leu na festa de formatura de bacharéis daquela escola ilustre, o poema "As a Strong Bird ou Pinions Free". Mas o convite parece não ter vindo, como sugere Emory Holloway, de nenhuma admiração profunda dos estudantes por Whitman mas do desejo de se divertirem com o efeito de poesia ostensivamente tão radical e revolucionária sôbre os membros mais ortodoxamente políticos e religiosos da congregação. Simples troça de rapazes ricos, também intoxicados pelo materialismo capitalista da época, aquêle gesto da mocidade alegre de Dartmouth não foi senão outro sinal da degradação do meio americano nos dias de Whitman. Para os futuros bacharéis o autor de leaves of Grass era uma espécie de clown ou palhaço de macacão. Êles o sacudiram entre seus velhos mestres de borla e capelo para se rirem com o escândalo, com o contraste, com o choque entre o inovador e os arcaicos. A significação imensa do que havia no poeta revolucionário, isso parece ter escapado de todo àqueles pândegos de vinte anos. A verdade é que ainda hoje muitos dos estudantes das universidades dos Estados Unidos são antes uns indiferentes aos grandes problemas intelectuais e sociais do dia que moços animados da capacidade e do gôsto de aventuras intelectuais e políticas. Destas só se têm mostrado capazes uns tantos professôres menos tímidos. Um dêles Parrington. Também Veblen, Beard, Spingarn. Êles é que têm sido nos Estados Unidos os revolucionários, os renovadores, os "estudantes"; e a maioria dos estudantes, os rotineiros ou os conservadores por inércia.
Evidentemente, na sua idéia de "divine average" Whitman se exagerara. A própria geração nova de americanos do seu tempo deixou de corresponder às esperanças do poeta. Mas todos os críticos do autor de Leaves of Grass - que, aliás, foi também crítico: o crítico social de Democratic Vistas - parecem concordar com o Professor Hubbel em que êsse seu outro livro não é obra de um entusiasta cego da democracia americana mas de um observador desassombrado, claro e honesto dos seus defeitos. É que nunca um profeta hebreu foi mais duro na crítica aos contemporâneos do que Whitman em Democratic Vistas. Entretanto, não desespera, nessas páginas às vêzes pungentes, de ver levantar-se da sua América uma autêntica democracia de americanos libertados da paixão do dinheiro; uma "raça" ou comunidade capaz de inundar imperialmente o mundo com o democratismo ou o cooperativismo personalista de que êle foi profeta lúcido.
É curioso observar-se que poucos anos antes de Whitman - cujo Democratic Vistas data de 1871 - estêve no Brasil um inglês de Cambridge - um químico que morreria moço mas já notável por seus trabalhos científicos - cujas idéias da missão imperialmente democrática, ou democratizante, dos anglosaxões, senão no mundo, nas Américas, antecipam-se de algum modo às de Whitman. Refiro-me a Charles B. Mansfield, amigo e discípulo do socialista cristão Charles Kingsley. Foi uma espécie de Whitman que tivesse caminhado a pé pelo caminho por onde o outro galoparia depois no seu cavalo magnífico, clamando com voz poderosa de poeta que fôsse também profeta: endireitai o caminho da Democracia!
É que visitando o Brasil em 1852, Mansfield ficou persuadido de que se achava num pais destinado a ser "o jardim do mundo "( "The garden of the world") e de que os jardineiros dêste jardim seriam os anglo-saxões, inglêses ou ianques, "associados com as gentes de côr" até então exploradas pelos escravocratas do Brasil. Para Mansfield, do que o mundo necessitava era de "associação" ou "cooperação". E chegou a dizer que quando fôsse socialista, o govêrno britânico cuidaria de promover a indústria desenvolvendo, sôbre capital levantado por impôsto direto, as emprêsas mais favorecidas pela natureza e mais necessitadas pela população de cada área e desprezando as indústrias artificiais. Desde aquêle ano remoto de 1852, que os inglêses, ao seu ver, deviam investir dinheiro no Brasil, no melhoramento do solo, na agricultura, na lavoura; e êles próprios deviam tornar-se agricultores nesta parte da América associando-se entre si e associando-se com os nativos, com as gentes de côr, que, segundo Mansfield, se não trabalhavam intensamente é que não sentiam gôsto nem interêsse em trabalhar para senhores parasitários e feudais. Aliás, o parassocialista Mansfield escreveu da Inglaterra do seu tempo que também ela era um país de senhores e escravos: senhores, diz êle, irônicamente, que eram "highly cultivated followers of Christ. . ." De modo que se acreditava na possibilidade de um Brasil fecundado pela energia britânica ou ianque era em britânicos ou ianques cooperativistas ou socialistas que êle pensava; eram britânicos ou ianques como quase não existiam então que êle desejava ver espalhados pelo mundo. Animava-o o mesmo desejo que depois animou Whitman. Que animou também o Roosevelt II que disse: "Sabemos estar finda de vez a era de exploração dos recursos e do povo de um país em benefício de qualquer grupo de outro país". Que fêz recentemente o Professor Rippy, em ensaio sôbre a técnica e o capitalismo americanos, observar: "Não podemos conquistar ou conservar a amizade de povos vizinhos recitando junto com êles versos de seus poetas enquanto alguns dos nossos compatriotas os exploram. . . " Que fêz outro intelectual americano escrever recentemente que os melhores embaixadores dos Estados Unidos nos países pobres não são os de casaca, representantes dos grandes interêsses financeiros, mas os de avental branco: médicos, cientistas, técnicos, nurses e enfermeiros de avental branco. Como Whitman.
Em seu já referido livro, publicado em 1871, dizia Whitman dos Estados Unidos: "estão destinados ou a superar a história grandiosa do feudalismo ou a se tornarem o mais tremendo fracasso". . . "Não é das promessas de sucesso material que duvido". . . "mais profundo que tudo isso (sucesso material, instituições políticas, sufrágio, etc.), o que afinal e ùnicamente há de fazer do nosso mundo ocidental uma nacionalidade superior a qualquer outra até hoje conhecida, serão vigorosas literaturas, das quais ninguém ainda suspeita, perfeitas personalidades e sociologias originais, transcendentes, exprimindo a democracia e a modernidade, que no seu sentido mais alto não foram ainda exprimidas". E mais: ". . .novas raças"(note-se o uso sociológico da palavra "raças") "de Mestres, de mulheres perfeitas, indispensáveis à formação de um Novo Mundo. Pois feudalismo, casta, tradições eclesiásticas, embora seja evidente que vão desaparecendo das instituições políticas, ainda dominam inteiramente, em espírito, mesmo neste país, o que é essencial nas atividades mais importantes, como, na verdade, o próprio subsolo da educação, dos padrões sociais e da literatura".
Vê-se que a Whitman não bastava a democracia política, com que ainda hoje se contentam tantos dos seus compatriotas mais ingênuos para os quais é incompreensível o fato de muitos dos europeus não verem no "droit de dialoguer" nem no parlamentarismo nem nas eleições baseadas no sufrágio universal "a suprema expressão da democracia", pois, praticada entre êles, depois da primeira Grande Guerra, essa democracia apenas política ou litúrgica nem "levantou o padrão de vida dos muitos pobres nem limitou o poderio econômico e político dos ricos", como salientou há pouco o espanhol J. Alvares del Vayo num pequeno e penetrante estudo, "Diferenças de Conceito de Democracia". Do mesmo modo, repugnava a Whitman uma solução mecânica, quantitativa, material, uma solução rígida ou estreitamente econômica, do problema da organização social de um Novo Mundo; ou que sufocasse no homem tôda iniciativa ou originalidade ou espontaneidade pessoal. Dêsse Novo Mundo os Estados Unidos seriam o centro, contanto que seu imperialismo, em vez de apenas anexar terras - Texas, Califórnica, Alasca, Cuba - se sublimasse, como diríamos hoje, num vasto plano de cultura, numa vasta política de recriação de cultura. Mas uma cultura humana ou, quanto possível, pan-humana, democràticamente pan-humana, isto é, que incluísse "a mais larga área humana". Uma América antes espaço social que físico. E não uma cultura exclusiva de classe ou de raça, de sexo ou de seita, de nação ou de Estado privilegiado. Pois para Whitman repita-se que o homem médio - "the divine average" - não significava o homem da classe média mas a média de tôdas as classes que transbordasse de limites convencionais para se tornar a base, o nervo, a fôrça da comunidade inteira.
"Vejo claro" - dizia Whitman em 1871 - "que todo mundo estrangeiro combinado não poderia esmagar a América". De modo que se a América fracassasse, ela seria vencida ou impedida de cumprir sua missão, de realizar a americanidade, de expandir o que fôsse universal na americanidade, por inimigos internos e não externos. O "programa americano" - é de Whitman a expressão "programa americano" - não se destinava, ao seu ver, a classes - nem à burguesia nem ao proletariado - mas "ao homem universal". Donde o caráter expansionista ou universalista dêsse programa.
Quando um estadista argentino opôs à Doutrina de Monroe - "a América para os americanos" - o famoso conceito "a América para a humanidade", de certo modo repetiu Whitman. Porque o americanismo de Whitman visou sempre o homem universal. A Revolução Americana, tudo nos seus escritos indica que êle a considerou sempre uma revolução mais universal que a Francesa: a favor do homem e não apenas de um grupo ou de uma classe de homens. É claro que respeitando, como respeitava, a personalidade humana, Whitman evidentemente não compreendia o "homem universal" reduzido a caricatura do homem americano. Apenas parece ter entendido que, aos americanos, as circunstâncias de sua formação haviam dado oportunidades magnìficamente amplas de desenvolverem formas democráticas de convivência humana que, como formas gerais, embora com conteúdos ideológicos diversos e particularidades múltiplas de estilização nacional ou regional, podiam e deviam ser generalizadas ao mundo inteiro no interêsse do chamado "homem universal". Pelo menos é assim que interpreto o que se pode denominar o expansionismo americano ou o imperialismo democrático que se encontra em Whitman. Expansionismo ou imperialismo expresso com um vigor poético que falta inteiramente aos seus antecessores, entre êstes o Albert Owen que tentou fundar uma comunidade parassocialista no México, sem advogados nem corretores nem intermediários, e o inglês desconhecido chamado Mansfield, em quem o Brasil escravocrata e feudal despertou, no meado do século passado, a idéia de uma América tropical democratizada em sua organização social, inclusive, em sua economia, pelo anglo-saxão. Mas por um anglo-saxão como não havia, então, para tamanho esfôrço: um anglo-saxão cooperativista e que se associasse fraternal e não paternalmente com homens de outras raças no seu cooperativismo construtor de uma nova civilização. Êsse anglo-saxão cooperativista e disposto a associar-se com povos de outras raças só hoje começa a existir. É pós-rooseveltiano. Mas várias vozes isoladas se anteciparam ao movimento atual.
Outro antecessor de Whitman, quanto ao expansionismo da democracia americana, foi David Humphreys, para quem a base dêsse expansionismo era a liberdade; e, ao lado da liberdade, a igualdade de direitos para todos os homens. Sem que isto tivesse acontecido com os indígenas da própria América, brutalmente feridos na sua liberdade e ultrajados nos seus direitos pelo expansionismo dos norte-americanos logo que êstes se viram livres da tutela britânica, de algum modo protetora dos mesmos indígenas - é difícil de ver em que se baseavam os apologistas do "destino manifesto" dos Estados Unidos para acreditarem numa forma nova e inteiramente benéfica de imperialismo: o americano. Mas o ponto a ser fixado é que acreditaram. Que lhe deram expressão mística. E um dos criadores, menos dessa mística que de sua expressão ou estilização poética, foi Whitman que, de certo modo, previu o dia em que patriotas cubanos se refugiariam do imperialismo arcaico e feudal dos espanhóis à sombra do imperialismo messiânico dos Estados Unidos. Fato que sucedeu, embora mais de um patriota cubano vivesse o tempo bastante para arrepender-se do seu gesto, não em face do aspecto político, mas do feitio da exploração econômica de nativos por senhores ausentes que assumiu o imperialismo libertário dos anglo-saxões naquela parte da América hispânica. Mas êsse feitio do imperialismo americano, contrário ao caráter democrático do americanismo, seria também lamentado e combatido por Whitman, se êle tivesse vivido até nossos dias. Êle que perguntou uma vez - "Pensas, ó amigo, que a democracia só existe para eleições, para a política, para os partidos?" - era muito homem para perguntar aos exploradores de Cuba se não se sentiam traidores do verdadeiro americanismo, impedindo o desenvolvimento entre os cubanos, das formas ativas da democracia; se não se sentiam traidores dos seus irmãos cubanos, mistificando-os e enganando-os com a simples introdução, entre êles, dos ritos passivos e até carnavalescos do processo democrático: abertura solene de congresso, meetings, campanhas eleitorais, discursos, eleições, partidos; e com a negação de formas mais sérias de democratização: a democratização do solo, da economia, da sociedade, das relações entre as raças: entre anglo-saxões e latinos, entre brancos e mestiços.
Isto é conjectura: estou apenas imaginando o que diria Whitman nos nossos dias. Mas na verdade Whitman já escrevera dos Estados Unidos de 1871: "Vivemos numa atmosfera de hipocrisia geral". . ."A depravação das classes" - O plural é de Whitman - de homens de negócios do nosso país não é menor do que se supõe, mas infinitamente maior".
Nos "serviços oficiais da América - nacionais, estaduais, municipais, em todos os seus ramos e departamentos" - repugnava-lhe o que havia de corrução. A corrução burocrática ainda hoje tão nossa conhecida no Brasil.
E o que se fazia então nos Estados Unidos "a favor do povo" - como ainda hoje, noutras democracias igualmente incompletas, embora admiráveis em algumas de suas realizações, poderia alguém acrescentar, lembrando-se principalmente da incompleta democracia russa - era, segundo Whitman, só "melhoramento material". De modo que a democracia americana de seu tempo, considerava-a êle "quase um fracasso completo nos seus aspectos sociais, e em resultados religiosos, morais, literários e estéticos verdadeiramente grandes". Quase o mesmo teria, talvez, de dizer hoje da Rússia um Whitman russo se a Rússia de hoje desse a palavra a Whitman desabusados e não apenas a Tolstois-mirins, que o atual Pai dos russos não demora em fazer acadêmicos ou comendadores. Contanto que só digam bem da nova "santa Rússia" e do novo "Pai", que hoje é um "Marechal de Aço".
Por que então se mantinha a crença, a fé, a confiança de Whitman numa América messiânica em seu "programa de cultura" para o mundo inteiro? É que "na verdade" - escrevia êle - "por trás desta fôrça fantástica" - a democracia nos Estados Unidos - "encontram-se ou descobrem-se realizações sólidas e esforços estupendos; desenvolvem-se na sombra; só com o tempo serão revelados". Para que mais "se fizesse pelo povo", para que essas realizações crescessem e êsses esforços aumentassem, é que sua voz profeta se levantou mais de uma vez procurando atrair os americanos mais capazes e mais honestos à atividade política. A América, tomada em conjunto, talvez estivesse se conduzindo muito bem, apesar de tôda aquela depravação de homens de negócios e de tôda aquela corrução de burocratas que comprometiam a saúde democrática da comunidade. Quem não estava se conduzindo bem eram principalmente "os diletantes e todos os que fogem aos seus deveres". Donde seu brado: "Entrem na política!" "Aconselho todo jovem a fazê-lo". Que todos se informassem dos fatos; que todos procurassem agir do melhor modo; que todos votassem. Não era entusiasta dos partidos; mas reconhecia a necessidade dêles, das eleições, do voto. Dirigia-se principalmente aos homens independentes de partidos - agricultores, funcionários públicos e de escritórios, mecânicos ou operários: que êstes, conservando-se vigilantes, fôssem o elemento decisivo nas eleições. E é quase com fúria que insiste em condenar a atitude dos diletantes, para os quais tão corruta se tornara a atividade dos políticos nos Estados Unidos que não havia mais redenção para a democracia americana.
Vê-se, creio eu, neste conjunto de atitudes e expressões características que procurei destacar de Whitman político, tal como êle se afirma em Democratic Visias, que, a despeito de um crente, talvez mesmo de um místico, da Democracia e da Americanidade, da Ciência e do Homem Comum, êle foi também um realista. Viu claro os fatos e os homens. Mas o seu realismo foi sempre o de um homem de bem tanto na vida pública como na particular. O senso ético da atividade política não o abandonou nunca. Seu socialismo, se de fato, no fim da vida, chegou ao inteiro socialismo democrático, êle o atingiu como uma solução ética, e não mecânica nem mesmo cientificista, do problema social do homem. Foi nisto uma espécie de parente americano ou de irmão rido de Antero de Quental: rico por se ter expressado numa língua imperial como a inglêsa e com maior riqueza de fôrça senão poética, oratória.
Mais do que Antero, porém, Whitman foi um personalista. Não lhe teria sido fácil aceitar a generalização positivista de que sempre é o homem quem "se agita" e a humanidade que "o conduz". Viveu demasiadamente perto do fenômeno Lincoln para não acreditar em que há momentos em que se verifica o contrário: agita-se a humanidade - ou grande parte da humanidade - e quem a conduz é um grande homem. Um homem que, quando realmente grande, não se deixa agitar pelos excessos nem dominar pelos ódios simplesmente de classe ou de raça ou de seita dos contemporâneos; que aos interêsse de momento sabe opor os de sempre; que às paixões pequenas opõe as grandes: a da justiça, por exemplo. Lincoln. Todos os Lincolns. Não têm sido muitos, êsses Lincolns, mas têm existido. O segundo Roosevelt foi um dêles e da sua falta estamos padecendo, agora que de sua grandeza complexa só restam pedaços ou retalhos: o incompleto bom senso de Truman, por exemplo, ou o ainda mais incompleto idealismo de Wallace. Quando os homens realmente grandes são os que procuram ou conseguem combinar antagonismos em vez de encarnarem o ideal ou o interêsse exclusivo de uma classe, de uma raça, de uma nação, de uma seita, de um credo. Whitman foi êle próprio um homem-orquestra em quem repercutiram e por quem se exprimiram ideais diversos e até contraditórios.
Por isto é um poeta ainda mais para hoje do que para o seu tempo. É a gente americana de hoje - de tôdas as Américas e não apenas da inglêsa - que o está absorvendo hoje.
É que nossa época tudo indica que deve ser uma época de síntese ou de combinação de valores diversos que aos olhos dos homens do século passado pareceram inconciliáveis. Socialismo com personalismo. Cristianismo com marxismo. Intelectualismo com intuitivismo.
Whitman foi um daqueles em quem madrugou a idéia ou o sentimento de síntese que há de caracterizar o mundo de amanhã. Êle que exaltou a "divine average" - "a média divina" - opôs sempre, ao princípio democrático da média, o princípio de certo modo aristocrático - no sentido de exaltação da qualidade - da personalidade. A personalidade criadora e consciente do seu poder de criar, de sintetizar, de interpretar diferenças e antagonismos.
Princípio que pode ser combatido pelo marxismo mais sectário mas não pelo mais lúcido. É de 1935 o brado de um marxista russo. D. O. Bogomoloff, a favor da personalidade humana que alguns dos seus companheiros brasileiros talvez achem "reacionário" ou "catolicão": ". . .acreditamos" - são palavras de Bogomoloff à Associação Pan-Pacífica em 22 de novembro de 1935, publicadas a 30 do mesmo mês na China Weekly Review, de Shanghai - "que quando todo membro da sociedade humana, todo ser humano, fôr capaz de desenvolver ao máximo sua individualidade - então, da atividade de milhões de indivíduos que nunca tiveram a oportunidade de se desenvolverem, rebentará uma cultura nova, rica, bela, pan-humana, como o mundo ainda não viu". Parece Whitman falando e entretanto quem fala assim é um marxista russo, que o Professor Ralph Barton Perry, no seu Puritanism and Democracy, é o primeiro a aproximar de Whitman. O que faz com êste comentário a favor da democracia. Às vêzes tão caluniada pelos que temem o sacrifício da qualidade à quantidade: "Dando ar e luz a massas humanas até hoje sepultadas no escuro, a democracia espera enriquecer a cultura humana no sentido da qualidade, e não apenas no da quantidade".
Talvez se possa dizer que a fé de Whitman no homem comum vinha daí: da convicção de que, dada igual oportunidade de expressão e de criação a todos, dentre os homens comuns se elevariam homens intelectual e estèticamente incomuns para proveito da comunidade inteira e da sua cultura total. Não era com o nivelamento de todos que êle sonhava; mas com a oportunidade de cada um desenvolver ao máximo sua personalidade dentro de oportunidades iguais de desenvolvimento pessoal. Atingida essa combinação dos direitos da pessoa com os da comunidade já muito se terá conseguido no sentido da síntese entre os antagonismos que ainda se defrontam: o coletivismo, hoje representado principalmente pela incompleta democracia soviética, o individualismo ou, nos meios mais adiantados, o personalismo, hoje representado pelas igualmente incompletas democracias do Ocidente, das quais a América de Whitman tornou-se a maior: o centro de um verdadeiro sistema social e de cultura, que pode ser definido como euro-americano, enquanto o coletivista seria, de certo modo, euro-asiático. O "Oriente" e o "Ocidente" dos quais o Professor Northrop espera uma nova síntese, maior do que foi, sociològicamente, a tomista ou mesmo a cristã. No sentido de combinação ou conciliação dêsses antagonismos devem ser os maiores esforços dos homens de hoje. Donde a atualidade de Walt Whitman.
O Camarada Whitman definiu-se há quase cem anos por um americanismo pan-humano em suas perspectivas, em seu sentido e em seu programa de expansão de cultura. O Oriente acabará, certamente, absorvendo grande parte dêsse americanismo e, ao mesmo tempo, enriquecido com valores orientais dentro da concepção esboçada em livro recente pelo já referido Professor Northrop, segundo a qual, em vez do econômico, tão exaltado hoje por anglo-americanos ou pelos russos soviéticos, se a solução do humano, o humano, inclusive o estético, é que seria a chave para a solução do econômico. Idéia, aliás, já esboçada por brasileiro em prefácio de livro publicado em 1936.
O Camarada Whitman amou fraternamente o próximo sem desprezar-se a si mesmo: antes cantou o próprio corpo - o corpo inteiro - até enxergarem nêle um narcisista e mesmo um obsceno. Mas não era narcisista nem obsceno e sim personalista. Um intenso personalista é o que êle foi. Pode-se aqui repetir que em política êle foi um personalista e um apaixonado, ao contrário dos que se vangloriam de ser superiormente impessoais e friamente desapaixonados.
Para o Camarada Whitman a atividade política foi, como para Antero, uma forma de exprimir sua paixão moral. Paixão pela justiça social. Paixão pela solidariedade humana. Paixão pela comunidade, aos seus olhos encarnada principalmente pelo homem comum.
Se se aproximou definidamente, no fim da vida, do socialismo, como pretende um dos seus biógrafos mais autorizados, foi - repita-se - do socialismo ético, para o qual sempre se inclinou. E não do mecânico ou do cientificista. Do socialismo pessoal e não do impessoal. Do socialismo pan-humano e não do estreitamente proletário, glorificador sòmente do trabalho manual ou mecânico e inimigo do intelectual, do artístico, do livremente científico, do superiormente técnico, ou inimigo da atividade religiosa. Do socialismo apaixonado por valores morais e não do desapaixonado por êsses valores por acreditarem seus práticos ou seus apologistas no absoluto determinismo econômico dentro do qual os problemas humanos se resolveriam mecânicamente e sem intervenção nenhuma dos homens. A não ser a representada por manobras cìnicamente maquiavélicas que apenas acelerassem aquelas soluções.
Embora a Ciência com C maiúsculo fôsse uma das deusas de Whitman, seu humanismo nunca perdeu a fluidez para endurecer-se em cientificismo político, econômico ou sociológico. Não sei a que ponto ia sua familiaridade com a sociologia ou as sociologias do seu tempo. O certo é que anteviu uma sociologia original nascida da América; e tudo parece indicar que nessa sociologia êle não enxergava uma nova expressão de determinismo dentro do qual não houvesse lugar para os Lincolns e os Whitmans: para os grandes homens que carregam dentro de si multidões em vez de serem carregados por elas.
Creio que sua fé na ciência toleraria as restrições anticientificistas, tão bem expressas nos últimos anos por outro americano de espírito claro - Charles A. Beard - e, mais recentemente, por Northrop. Beard salienta que se tôdas as atividades humanas fôssem reduzidas a lei, ou a uma espécie de mecânica terrestre, o próprio domínio do homem sôbre ocorrências e ações perderia todo o sentido. E "o passado, o presente e o futuro se revelariam fixos e além do alcance da escolha ou da vontade humana. Homens e mulheres se tornariam escravos do seu destino como as estrêlas e as marés da sua rotina".
Entretanto, as ciências do homem, longe como se acham de nos autorizar a crer nesse determinismo econômico ou fatalismo sociológico, continuam a deixar livre o espaço social para aquêle humanismo-aventura, para aquela democracia-experiência, para aquela vida incessantemente recriada em vários de seus aspectos pelo próprio homem, que se encontra constantemente no pensamento de Whitman. No seu democratismo e no seu americanismo, sempre temperados pelo mais antimecanicista, antidoutrinário e anticientificista dos personalismos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Camarada Whitman. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948. 63 p.
|