COMO E PORQUE SOU ESCRITOR
Apresentação
Foi com a
conferência de Gilberto Freyre - "Como e Porque sou Escritor" -
que a Faculdade de Ciências Econômicas, de Campina Grande, sob a esclarecida direção do professor José Paulino da Costa Filho,
atingiu, dentro do seu Plano de Extensão Cultural, um nível universal. Não tanto pelo
indiscutível prestigio da obra de Freyre no mundo moderno, consagrada em toda parte e
objeto de estudo e análise em numerosos países, por instituições diversas, e através
de estudiosos, os maiores de nosso tempo e dos quais a humanidade tem recebido lições
iluminadoras que ultrapassam os conflitos ideológicos em beneficio da visão mais larga
do Homem sempre visto permanente em sua transitoriedade; mas pela própria natureza do
trabalho de Freyre naquela oportunidade, hoje histórica. Trabalho que informa, as origens
de uma obra notável, sendo dela base e, ao mesmo tempo, cúpula. E' um estudo de
fecundação do espirito de Freyre desde que lhe surge a vontade das letras e que se
continua toda vida em evolução constante em virtude da sua permanente recepção.
História talvez de um intelectualismo quase sensorial buscando a expressão artística
para o que lhe fornece a sensibilidade do pensamento sempre aplicado ao que de mais
humano e complexo existir. Aí sua
natureza de escritor, embora dependendo da palavra e do estilo, consubstancia
quase fisicamente estados humanos de viver e sentir - escritor em que o
VERBO SE FAZ CARNE. Essa sensibilidade, essa recepção, tão
pronunciadas, voltadas, dada a natureza dos seus estudos, para as vivências coletivas,
deram-lhe a participação palpitante que faz a vida das suas páginas, isolando-as, e a
ele também, da limitação cômoda do gabinete e da suspeição de um "eu"
estritamente pessoal. Estes anos todos, no Brasil, escritor algum terá sido mais
conscientemente participante que Freyre porque ninguém mais conscienciosamente livre em
sua maneira de agir e julgar, jamais cedendo ao privatismo teórico, de qualquer natureza,
a independência, a pureza, a espontaneidade inalienável do fluir da vida. Freyre,
escrevendo e em sua "ação de escritor", cumpre talvez o destino goethiano de
harmonia entre pensamento e conduta. Os brasileiros, dos anos 30 para cá, embora sua
ação tenha começado antes, sofremos todos a influência poderosa desse escritor que, em
todos os sentidos, cumpre seu destino de escritor. Esta, nossa visão particularizante - e
testemunho - do que se encontra dito magnificamente na conferência da Faculdade de
Ciências Econômicas, através duma exposição que, sendo um depoimento, é uma análise
notável do "escritor" considerado em todas as suas maneiras e modelos
universais, estabelecendo-se, afinal, a soberania da síntese humanista. A sua
publicação, agora, em plaquete, homenageia a inteligência brasileira, pela divulgação
de um trabalho de uma das suas figuras cíclicas, e, ao mesmo tempo, para desvanecimento
nosso, honra o Departamento Cultural da. Universidade da Paraíba para cujo programa.
editorial, com muita felicidade, a inteligência do seu diretor José Pedro Nicodemos
marcou estréia tão brilhante.
Virgínius da Gama e Melo
COMO E PORQUE SOU ESCRITOR
TENHO a
satisfação de encontrar-me hoje nesta dinâmica Campina Grande, -"cidade vanguardeira", como a classifica o
insigne José Américo de Almeida, de que todos os brasileiros devemos nos orgulhar, -
para um novo contato - contato que estava me faltando - com a sua gente mais interessada
em assuntos de cultura intelectual. Principalmente com os professores e com os estudantes
das suas escolas - de modo especial, com os desta Faculdade de Ciências Econômicas, da
Universidade da Paraíba, e inteligentemente dirigida pelo professor Paulino Filho; com os
jornalistas de imprensa, de rádio e de televisão - meus camaradas da Borborema; com os
homens de letras e de ciências humanas, de um dos quais, o Professor Lopes de Andrade,
sou admirador já antigo; com o livreiro, já instituição nacional, que é Pedrosa.
Campina Grande
está se fazendo famosa pelo
seu empenho em tornar-se centro de estudos sistemáticos, tanto humanísticos como
técnicos; e pelo seu pendor para articular-se, nesse sentido, com a sua irmã mais velha
em pioneiridade, que é o Recife. Seria lamentável que toda a expansão de Campina Grande
fosse no sentido de deixar de ser Campina com C maiúsculo para tornar-se apenas Cidade
também com C maiúsculo. Mas cidade grande apenas pela grandeza da sua economia, das suas
indústrias, do seu comércio.
Seu vigoroso empenho
para se consolidar em
centro de estudos faz honra à sua gente. é à sombra desse empenho que aqui me animarei
a discorrer hoje, nesta Faculdade, sobre assunto especificamente cultural. Sobre o como e
porque da minha condição de escritor. Pois o que principalmente sou é escritor. O
sociólogo, o antropólogo, o historiador, o cientista social são em mim ancilares do
escritor. Se bom ou mau escritor é outro assunto.
Vou referir-me ao
meu caso, numa como tentativa de oferecer um depoimento ou uma confissão de possível, interesse
sociológico. Também, tentarei fixar algumas, das orientações que considero essenciais
à afirmação de um escritor como escritor; e que se baseiam até certo ponto na minha
experiência.
Ser alguém
escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. é uma atividade mais de aventura, que de rotina.
A sociologia da atividade do escritor está ainda por fazer. é uma sociologia difícil de
ser tragada, tão diferente tende a ser o escritor de outros homens, quer dos das chamadas
profissões, liberais, quer dos que vivem de ofícios ou de artes. Ele é um pouco de tudo
isso sem pertencer especificamente a nenhum desses grupos profissionais. é inseguro.
Sabe-se de companhias de seguros que têm segurado por altas somas mãos de pianistas. Mas
não mãos de escritor.
Tende o escritor a
ser, por vezes, àsperamente individual para ser independente. Mas precisa, por outro lado, de não se
fazer, precisa de não se desenvolver, adstrito a uma classe ou a uma raça ou a um
sistema ideológico, fechado ou exclusivo. Precisa quase sempre de ser o mais possível
múltiplo e vário nos seus contatos e nas suas experiências, embora se conheçam casos
excepcionalíssimos de indivíduos que quase isolados do mundo se têm tornado escritores:
o caso das, Bronté, o de Santa Tereza, o de esquisitões como Thoureau e, entre nós a
seu modo, Lima Barreto.
Não é
autêntico escritor, mas literalmente, homem de letras, o indivíduo
que escreve à base de informações colhidas em autores de
livros já clássicos; sem exprimir da vida ou da natureza o que ele próprio vê, sente,
observa, experimenta, recria. Daí, no autêntico escritor, aquelas "faculdades
indisciplináveis" que, nos "autores do Norte, principalmente da raça
anglo-saxônica" notou certa vez Maria Amália Vaz de Carvalho, esquecida dos
Cervantes e dos Fernão Mendes Pinto, já que os Unamuno, na época daquele pronunciamento
da ilustre portuguesa, não tinham ainda atingido a sua plena grandeza. Pois de Unamuno é
que ela principalmente poderia ter dito que se revelava, como escritor, "tão
estreitamento identificado com a sua obra que os dois formam um inseparável todo".
Escritores desse
tipo escrevem, com efeito, não só para "expandirem a exuberância de força vital que não conseguem exaurir
de outro modo" como para "porem o mundo na confidência de suas impressões
hiperagudas". Enquanto o inautêntico, mais homem de letras ou mais literato ou mais
beletrista do que escritor, este é, ou aquele "modesto burguês que não conhece da
vida senão o que aprendeu nos livros" - de outra caracterização ainda de Maria
Amália Vaz de Carvalho - ou o mundano, o homem do mundo, o requintado, freqüentador
apenas de salões, de clubes elegantes, de academias, de society; ou, ainda, o ideólogo
revoltado ou o teórico frustrado por sua vez freqüentador somente de reduzido
grupo de indivíduos de quem se sente ideologicamente afim; quase sem vivência; quase sem
experiência; com uma "obra escrita" quase sempre contraposta A
"existência ativa".
Por aí se percebe quanto há de complexo no
material que venha a servir a elaboração de uma sociologia do
escritor autênticamente escritor; e na qual o primeiro cuidado do sociólogo teria que
ser o de separar o escritor assim, criador, vital, experiencial, do beletrista livresco ou
do homem de letras mesmo clássicas, que escreve livros apenas parasitórios.
Admitindo-se que eu
seja um escritor literariamente válido como escritor, - segundo alguns
críticos literários, essa
hipótese não parece valer sequer como hipótese - a que tradição literária pertenço?
A que constante? A que tipo? Por que espécie de vocação? Segundo que decisiva
motivação? Coexistindo de que modo com o antropólogo - inseparável do psicólogo - com
o sociólogo, com o historiador de minha formação sistematicamente universitária?
Sou escritor acreditando pertencer
principalmente à tradição ibérica de escritor - A qual,
aliás, já me filiou o Professor Fernand Braudel, do Colégio de França, especificando
tratar-se de escritor brasileiro, segundo ele, mais à maneira espanhola que a portuguesa.
Não falta, a essa tradição, no meu caso como no de uns poucos outros - um Santayana ou
um Cela, por exemplo - o colorido de alguma influência inglesa e um pouco da francesa e
até da alemã. Mas sob a predominância das constantes ibéricas.
São, aliás, duas tradições em alguns pontos, afins, a ibérica e a anglo-saxônica, como tradições ou constantes de expressão literária ou, mais especificamente, de expressão literária através do ensaio. Através, também, do drama, da própria novela e da própria poesia.
Divergem as duas tradições da francesa em serem mais livres do que a predominantemente francesa daquelas convenções, para alguns de nós, excessivamente acadêmicas, de correção de frase, de preocupação de medida no dizer, do elegância de palavra, que Boileau tornou quase canônicas para os seus compatriotas de vocação literária, embora não deva ser esquecido o fato de não
pertencerem a essa tradição, talvez menos ortodoxamente característica, da França intelectual, do que parece, nem Montaigne - descendente, aliás, da gente ibérica nem Pascal, nem Villon, nem Rimbaud, nem Michelet, nem Proust. Franceses, entretanto, muito franceses, esses, escreveram o francês de um modo, nuns, mais parente do espanhol de certos espanhóis, do que do francês das receitas dos Boileau, noutros, mais afim, do inglês de certos ingleses do que do francês consagrado pela Academia Francesa Como exemplarmente clássico, isto é, como arte de composição exemplarmente correta, da qual fosse impatriótico um escritor afastar-se com a desenvoltura, nos arrojos de expressão e nas audácias de inovação, na língua inglesa, de um Swift, de um Carlyle, de um. Whitman, de uma Certrude Stein, de um Joyce; ou, na língua espanhola, de uma Santa Tereza, de um Cervantes, de um Unamuno, de um Ruben Dario, de um Ramón del Valle Inclán, de um Garcia Lorca, e, na língua portuguesa, de um Fernão Mendes Pinto, de um Eça, de um Euclides da Cunha.
Dentro da mais castiça tradição, escreve quem, sendo hornem - ou mulher, o caso de Santa Tereza - precisa de completar-se ou de intensificar-se, como pessoa, como homem - ou como mulher - escrevendo como outros, dentro da mesma tradição, vem pintando ou toureando ou dando-se à Igreja Católica ou ao Estado ou dedicando-se à
insurreição contra a Igreja ou contra o Estado, não
despersonalizando-se nunca, porém, nem desispanizando-se,
em qualquer desses extremos. Não faz parte dessa tradição a figura do literato "au
dessus de la melée" ou sequer a do homem requintadamente de letras. O hispano ou o
ibérico é escritor sendo principalmente pessoa ou principalmente homem.: um homem que
ajusta a palavra à sua personalidade em vez de ajustar a personalidade a qualquer
conjunto de convenções de arte literária tidas por essenciais à consagração
de um homern especificamente de letras. E' o exemplo, para todos nós, supremo, de
Cervantes e de Camões, de Gil Vicente e de Fernão Mendes Pinto, depois de ter sido o de
Lulio: Ramon Lulio.
De Cervantes, se sabe que não se situa, de modo algum, entre os autores de romances ou de novelas - gênero a que aliás não é muito dado o espanhol - como escritor requintadamente literário pelo que nos seus escritos tenha sido arte de composição ou obra de homem especificamente de letras; ou produção esmerada de literato. Como já têm observado vários
críticos, o Don Quixote é obra que, pelas suas deficiências de composição, tem repugnado aos analistas ortodoxamente literários, isto é, mais bisantinamente literários - pensamos alguns a respeito desses analistas - no seu modo de ser críticos de outros escritores. Entretanto, já se tem salientado, a propósito de Cervantes não haver romance de Flaubert, por mais literariamente perfeito em sua composição, que se aproxime em sabedoria, em humor, em poder poético, da obra imperfeita e, às vezes,
relassa, do espanhol; nem a supera - pensam mestres de literatura comparada - romance inglês algum, dentre os mais potentes: o Tristam Shandy, o Robinson Crusoe, O Tom Jones. Nem, ainda, o Wilhelm Meister, do alemdo. Entretanto, Cervantes escreveu o seu livro muito ibericamente à reveli a de quase todas as convenções literárias: juntando a um pouco das velhas crônicas de feitos heróicos muito de picaresco e até de vulgar e de chulo. O picaresco, o vulgar, o chulo colhido pelo autor da boca do povo e por ele, Cervantes, intensificado com efeitos sociologicamente simbólicos e psicologicamente representativos da realidade. Intensificação de que só são capazes os poetas que ao contato direto com a vida juntem
o poder ao mesmo tempo analítico e lírico de compreendê-la, de dramatizá-la e de interpretá-la. O mesmo que, noutro tipo de literatura, fizera já o português Gil Vicente.
Cervantes, -
consideremos com algum vagar o caso do grande hispano, pelo que há nele
de sociologicamente expressivo - ao contrário de um Balzac, de um Zola, mesmo de um Scott, não foi homem de letras - observam alguns
dos seus biógrafos - sendo pelo que um deles considera um quase acidente: faltou-lhe
- ao seu modo de escrever - sistemática intenção literária, embora não lhe
faltasse vocação para se exprimir, em amplitude e em profundidade, como escritor. Pois
é certo que, ainda moço, garatujara seus versos, talvez mancos. Incorretos. Mas no que
veio, homem feito, a primeiro afirmar-se foi no esforço militar em lutas que fizeram
dele, depois de aprisionado pelo inimigo, escravo de mouros: os mouros que combateu no seu
tempo como em tempo mais próximo de nós combateria outros invasores da Espanha ou
inimigos das crenças ibéricas. Um exílio de cinco anos enriqueceu-lhe a experiência de
europeu de sabores fortemente indo-europeus. Fez-se até estimar pelos maometanos.
Quisesse ter renegado o cristianismo e a gente ibérica e acredita-se que teria sido mais,
entre mouros, do que fora, ou viria a ser, entre sua própria gente e os da sua própria
religião, numa época em que as religiões definiam, para os europeus, as culturas e
caracterizavam as civilizações, sobretudo as situadas em fronteiras, como as ibéricas:
na vizinhança das gentes agressivamente islâmicas.
Preferiu Cervantes voltar da África a sua
gente, que não era, para ele, bom hispano, só a espanhola mas também a portuguesa. Foi
ele - é outro dos seus exemplos - não apenas um espanhol mas um espanhol pan-ibérico.
Sabe-se, com efeito, de Cervantes que, de volta a península, depois de prisioneiro
de mouros, viveu primeiro em Portugal, tendo se ligado a mulher portuguesa, de
quem informam seus biógrafos - teve até uma filha; e foi, ao que parece,
sob o estimulo de um amor português que escreveu, quase aos quarenta anos, o seu poema
pastoral Galatea. Após o que casou-se, como é sabido, com mulher da sua velha
província: mulher de província - pormenor psicologicamente significativo - muito mais
moça do que ele. Foi então, um tanto prosaicamente, uma espécie de cobrador de impostos
para ordens religiosas: o que lhe deu a oportunidade de numerosos contatos com o cotidiano
da vida da sua gente. Depois de muita aventura, alguma rotina. Depois do exótico, a
província. Depois da experiência heróica, a anti-heróica. Por isto ou por aquilo,
chegou, nesses seus dias de cobrador de impostos, a ser encarcerado na adega de uma casa
de aldeia em La Mancha. Depois do exílio, a prisão: experiência - o exílio, a prisão
- que ninguém imagina atravessadas por um Flaubert ou enfrentadas por um Anatole France:
literatos quase exclusivamente de gabinete ou tão somente de academia. Mas experiências
tão comuns entre escritores hispânicos ou ibéricos, de Ramon Lulio a vários dos
atuais, que chega a se tornar suspeito de pouco viril o escritor ibérico que nunca
experimentou - como um Unamuno ou um Fernando de los Rios - o exílio ou a prisão, para
não nos referirmos aos de vida mais dramática, e até de fim trágico, como foi o caso
de Frederico Garcia Lorca.
O exemplo supremo
que Cervantes, e escritores hispânicos ou ibéricos menos
importantes, porém não menos significativos do que ele,
nos deixaram, é o de que não é fácil separar-se, dentro dessa tradição ibérica mais
característica, de literatura, o escritor, do homem; nem o artista, da pessoa. Pessoa
quase sempre personalidade, de que a arte é quase tão somente uma expressão apenas
apurada pelo exercício nem sempre acadêmico ou convencional da mesma arte; quase nunca
uma simples aquisição, através desse exercício tornado a angústia em que Flaubert se
requintou e sob a qual Eça de Queiroz, ao afrancesar-se, perdeu a potência ibérica que,
paradoxalmente, readquiriu ao envelhecer e ao desafrancesar-se, enriquecido pela aventura
de afrancesamento.
Dai ser quase sempre o escritor de tradição
ibérica um escritor mais de campo de que de gabinete: a negação mesma do típico litterateur
abstrato. Intelectual dado, por vezes, sendo à
vida de café, a contatos com o tumulto e até com a boemia da vida
de café e de rua, o fato é que do café ibérico se
pode dizer que é uma instituição ainda mais democrática que o seu equivalente
francês, sabendo-se de cafés ibéricos que têm sido ou são, ainda hoje, freqüentados
pela gente mais diversa - toureiros, políticos, atores, artistas plásticos,
compositores, além de escritores - e não apenas, um, por intelectuais deste feitio,
outro, por intelectuais daquele outro feitio, cada café com seu que de aristocratismo
literário e seu toque de clube exclusivo.
Supõe-se ter a idéia - ou a necessidade? -
de escrever Don Quixote empolgado Cervantes quando ele se achava na prisão em La
Mancha. Tinha - todos o sabemos pelos seus biógrafos - cincoenta e oito anos quando
publicou, já quase velho, a primeira parte da, para. a época, estranhíssima obra, tão
fora das convenções então dominantes na literatura de qualquer pais europeu; tão
inovadora; aparentemente mais de moço afoito do que de velhote prudente. Mas com todas
essas contradições, obra de escritor caracteristicamente hispânico ou ibérico:
presente nos seus escritos; concreto nas suas descrições, deformadas, entretanto, para
efeito de síntese ou de intensificação simbólica da simples realidade; ou expressivas
-expressionismo do mesmo tipo do de El Greco em pintura ou do de De Falla ou de Villa
Lobos em música ou do Aleijadinho na escultura - deste ou daquele aspecto da realidade
que é uma atitude que distingue o escritor à la Fernão
Mendes Pinto do repórter apenas objetivo de viagens, como distingue o historiador à
la Oliveira Martins do cronista apegado às datas, o dramaturgo à la
Garcia
Lorca dos teatrólogos apenas realistas.
Autobiográfico nas suas supostas invenções puras, que
são, entretanto, experiências um tanto dissecadas ou purificadas
através de uma técnica literária muito ibérica,
Cervantes como Fernão Mendes Pinto, na língua portuguesa, como que
se antecipou a Gide e a Pirandelo numa técnica especificamente
literária de autobiografia projetada em literatura aparentemente do não-eu imaginado
pelo eu; e em arte, em geral, aos Cubistas quanto à substituição de uma perspectiva
única por perspectivas empáticas e simultâneas da mesma realidade. Há nele alguma
coisa não só de ensaísta como de historiador e até de psicólogo-social dentro de um
ficcionista nunca, no seu caso, apenas lúdico nos seus objetivos de inventor ou de
contador de história que não tendo acontecido tal como se apresenta se baseia,
entretanto, em intensificações de fatos, em misturas de pessoas e de tempos diversos e
em novas combinações de relações reais e até históricas de pessoas com paisagens.
Fatos e relações que não só aconteceram como se repetiram sob a forma sociológica de
recorrências de comportamento humano, dentro de circunstâncias especificamente
ibéricas, isto é, hispânicas - ou especificamente espanholas - só possíveis algumas
delas em época de dissolução de uns tantos estilos de vida, de conduta: de etiqueta e
de sua incerta substituição por outras: a época de Don Quixote.
Não se
caracteriza o escritor da mais castiça tradição ibérica - da qual Cervantes permanece, o exemplo clássico mais alto
- por aquela bisantinice na composição literária que resulta em obras rigorosamente bem
cuidadas e em estilos dos chamados castigados. Daí um psicólogo inglês da sagacidade de
Havelock Ellis ter observado dos escritores espanhóis - do próprio Cervantes - serem,
por tradição, "apt to neglect the more minute graces of style".
Neste particular,
creio na verdade
pertencemos, alguns escritores brasileiros - eu, dentro de limites modestíssimos - antes
à tradição ibérica que a qualquer outra de escritor. No meu caso, me sinto, é certo,
parente, - sei que irremediavelmente pobre - de um Proust tido por alguns por muito
francês: parentesco descoberto em mim por críticos estrangeiros, principalmente por
franceses. Mas o parentesco que porventura me prende a esse escritor francês, ao meu ver
pouco castiço como escritor francês e até um tanto ibérico no seu modo de ser
introspectivo e empático espécie de suíta defroqué que, tendo perdido a
fé, conservasse o melhor da casuística psicológica dos jesuítas e até se mostrasse
discípulo a seu modo dos Exercícios Espirituais como técnica de
empatia a novela - estaria na tendência, desajeitada da minha parte e, nele, magistral, para captar dos
homens ou dos grupos humanos que consideramos mais as intimidades quase secretas, de tão
sutis, características do seu comportamento, que os aspectos ostensivos desse
comportamento. Estaria também na própria maneira um tanto relassa de procurarmos dar
expressão a essas nossas aventuras de recuperação não só de tempos como de homens
perdidos em tempos desaparecidos.
Do psicólogo
inglês, tão admirador dos místicos espanhóis,
Havelock Ellis, é outra observação, perspicaz sobre o escritor
ibérico: a de que é um escritor que, de ordinário, se tem afirmado mais na idade madura
do que na mocidade. Isto por ser essencialmente - deve-se acrescentar a Ellis - um
escritor autobiográfico. Nunca um inventor de personagens ou de mitos - o que faz que
não seja um escritor de ficção no sentido vulgar de ficcionismo - tudo nele tende a ter
por base sua própria e personalíssima experiência: a vida por ele pessoalmente
experimentada, vivida, vista, ouvida, amada, sofrida, apalpada, sentida, observada. A vida
por ele apreendida em todos os seus contrastes: desde os mais sórdidos aos quase
angólicos; dos plebeus aos fidalgos; dos sensuais aos religiosos. Daí um misticismo de
certos escritores ibéricos - Santa Tereza, entre eles - a que não falta sensualidade.
Sensualidade sublimada, é claro.
Ao escritor
caracteristicamente ibérico repugna a arte de escrever levada
àqueles requintes que a torne uma arte de escritor para escritores, tal o
seu refinamento em composição fechada, esotérica, sectária. A
tendência do escritor hispânico, é para um realismo vizinho de um expressionismo,
desdenhoso, em seu modo de ser expressão ou interpretação ou intensificação
literária de vida vivida ou de experiência experimentada, de quanto lhe pareça
bisantinice estilística ou chinesice artística. Daí ser um escritor a quem não faltam
incorreções na composição das frases; descuidos na gramática; plebeismos - inclusive
obscenos - os mais inacadêmicos e os menos de salão, na caracterização de fatos vivos
e até em movimento, ou na redução desses fatos a símbolos também vivos e atuantes.
Será o escritor caracteristicamente ibérico,
um tipo de escritor a cuja tradição, na sua parte mais espanhola que portuguesa, repito
que críticos franceses da sagacidade de Fernand Braudel, professor da Sorbonne, vem
filiando a expressão literária de alguns brasileiros de hoje - eu, modestamente, entre
eles, repito - figura inatual ou mesmo arcaica? Creio que não. Ao
contrário: creio que vem havendo nele, através de sua aparente
arcaização alguma coisa de potencialmente pós-moderno que
parece vir da sua predisposição a alguma coisa
de ultra-acadêmico e, até, de saudavelmente anárquico no seu método ou antes, modo, de
expressão literária. Essa predisposição vem fazendo do escritor mais tipicamente
ibérico, desde Ramon Lulio e de Fernão Mendes Pinto, desde Fernão Lopes e do próprio
Camões, desde Lopes de Vega e de Gil Vicente, desde Juan de la Cruz e de Santa Tereza, um
interprete de vida, sentida, sofrida, experimentada, interpretada, nos seus contrastes,
através de uma mais ou menos intensa participação do escritor nessa mesma vida.
Participação que vem fazendo dele aquilo que, em moderna linguagem sociológica se chama
um observador empático ou um analista participante. Daí vir sendo ele, por antecipação
a métodos modernos de literatura, em particular, e de arte, em geral, a um tempo
impressionista e expressionista em suas interpretações de objetos, em vários casos,
tornados sujeitos, dos quais tem revelado, através de tais abordagens, intimidades
insuspeitas, como aquelas, dos muçulmanos, reveladas por Lulio ou como aquelas outras,
dos orientais, surpreendidas por Fernão Mendes. Quando, F. H. Bradley escreveu em Appearance
and Reality que
a realidade varia com o ângulo de que é observada, devendo, por
conseguinte, ser considerada ao mesmo tempo múltipla e uma só, já o escritor
tipicamente ibérico vinha seguindo esse tipo de abordagem do real: abordagem seguida
também pelos pintores caracteristicamente espanhóis. E quando se fala em pintores
caracteristicamente espanhóis, é preciso incluir-se, no número desses pintores, El
Greco, pela muita espanholidade que adquiriu ao fixar-se na Espanha: tanta que esse
adventício, como bom expressionista, se tornou mais espanhol que os espanhóis.
Se pertenço
como escritor, com possíveis, embora discutíveis, virtudes
literárias, como também discutível, admito ser minha
condição de analista - dentro da tradição, também ibérica, de Vives - a um tempo
científico e humanístico, do Homem, isto é, de um tipo de homem situado, e, ainda, como
possível interprete de uma sociedade e de uma cultura também situadas; se pertenço como
possível escritor e como possível antropólogo dessa espécie, talvez mais
existencialista que aristotélica - e o hispano é um existencialista desde velhos dias -
antes à tradição ou à forma ibérica de escritor e de analista do Homem que a qualquer
outra, suponho que o seja - se de fato o sou - por direito tanto de quem nasceu ibérico
como de quem, seguindo, dentro da sua modéstia, e por conseguinte, a imensa distância, o
exemplo de El Greco, conquistou essa sua condição ibérica em plenitude e talvez em
profundidade, pela sua intensa identificação, desde adolescente, e sendo sempre
brasileiro, como os estilos e os valores literários da Espanha e não apenas de Portugal.
Já recordei,
noutro dos meus ensaios, como tal sucedeu. Como estudante universitário
no estrangeiro, senti a necessidade, diante de
fortes culturas, então, como ainda hoje, em vigor nos grandes meios universitários dos
Estados Unidos e da Europa, como a anglo-saxônica, a germânica, a francesa, a eslava, a
italiana, de resguardar-me dessas culturas imperiais, firmando-me não só nos ainda
verdes e um tanto agrestes valores culturais brasileiros nem apenas nos relativamente
poucos, valores lusitanos e luso-brasileiros, mas nos ibéricos, em geral, dos quais os
brasileiros, os lusitanos, os luso-brasileiros senti então e sinto hoje, serem apenas
parte. Venho desde aqueles dias firmando-me nos valores espanhóis - e não apenas nos
portugueses dessa cultura global que cedo, felizmente, descobri ser tão minha, assim
global minha e dos brasileiros - quanto dos espanhóis da Espanha ou dos
hispano-americanos do México ou da Colômbia ou do Equador ou de qualquer pais outrora
colônia só da Espanha; tão minha e dos brasileiros de um Brasil, colônia outrora da
Espanha e não apenas, de Portugal, quanto a portuguesa, inseparável, como cultura, da
espanhola. Estava eu no começo dessa minha consciência pan-ibérica de simples
candidato, mal saído da adolescência, a escritor, quando Oxford, na Inglaterra, conheci
o então mestre de literaturas ibéricas naquela universidade Don Fernando de Arteaga - antecessor de Salvador de Madariaga - que um dia me
sugeriu permanecesse eu no burgo oxoniano como seu assistente. Sugestão que confesso ter
me seduzido, de tal modo correspondia ao meu afã pan-ibérico e ao meu encanto pela vida
na Oxford daqueles dias. Mais forte, porém, que esse encanto foi o meu outro empenho,
tamb6m daqueles dias e que dura até hoje: o de reintegrar-me no trópico de que sou
nativo, não como simples brasileiro, mas como brasileiro pan-ibérico.
Data dos meus dias de estudante em Colúmbia
onde conheci Don Ramón del Valle lnclán - e de scholar meio boêmio em
Oxford, em Paris, na Alemanha e em Coimbra - o fervor, de adolescente, com que
me entreguei à leitura de autores espanhóis e hispano-americanos, entre êstes Ruben Dario, e ao estudo
de artes espanholas e hispano-americanas - a moçárabe, manuelina, a cusquenha, a
mexicana - sentindo nesses autores e nessas artes, mistas de um modo muito ibérico, não
autores e artes estrangeiros, de encanto ou sabor exóticos para meus olhos, meus ouvidos
e meu paladar de brasileiro, porém expressões - inclusive na culinária e nos vinhos -
de uma cultura para mim, toda ela, sendo hispânica ou ibérica, materna; familial;
fortemente endogâmica, a despeito de suas aventuras com o exótico. E nada mais natural
que dessa minha identificação, em fase ainda tão plástica da vida, resultasse que a
muita leitura de místicos, de dramaturgos, de ensaístas, de poetas espanhóis, e muito
convívio com artes e artistas ibéricos, me levasse a um modo de ser escritor - quando
comecei a ser, senão escritor, arremêdo de escritor - decisivamente orientado por tal
identificação com os espanhóis e seus descendentes e continuadores, tanto quanto com os
portugueses e seus outros descendentes e continuadores, além dos brasileiros.
Não devo
deixar de assinalar que considerável vem sendo, também, a
influência, sobre minha formação - ainda
incompleta, apesar da idade - de constante aprendiz de escritor, de influências vindas de
outras origens: francesa, (Montaigne, Pascal, Michelet, os Goncourt, Proust, o próprio
Gide); anglo-saxônica (Chaucer, Swift, Defoe, Pater, Joyce, os dois James, Yeats, ps
Imagistas, Lawrence da Arábia); russa, de Tolstoi; a desse alemAo, filho de brasileiro,
que foi Thomas Mann, autor, também ele, de páginas que me parecem das mais penetrantes
que um escritor moderno tem escrito, associando à ficção a realidade de modo por vezes
semelhante ao de autores ibéricos. Apenas são influências que se juntam à decisiva
que, na minha formação, tem sido sempre a ibérica.
Na
generalização de Gide de, em literatura,
ser a ficção, história que poderia ter acontecido e a história, ficção que aconteceu
e na sua confissão de, como escritor sempre auto-biográfico, apresentar os fatos de tal
modo que eles se conformem, assim apresentados, mais com a realidade do que com ela os
mesmos fatos se conformam, ou se conformaram, na vida real, encontro afirmativas de um
método com o qual, até certo ponto, coincide, dentro dos seus
limites, o meu, de ensaista, e, agora, seminovelista quase sempre historiador ou
antropólogo na sua ciência ou no seu saber e não raro ibericamente autobiográfico na
sua expressao literária; e que foi o método do grande Fernão Mendes Pinto ao organizar
e apresentar os fatos que constituem essa obra prima de literatura e também de
antropologia existencial que e Peregrinação e o método de Vives, considerado por
Dilthey o fundador da moderna antropologia. Um Vives que tendo sido científico foi
também autobiográfico e, como tal, escritor caracteristicamente ibérico.
Aliás, no
método de Gide, como no método de Proust no método de
Montaigne e no método de Stendhal, no método de Defoe, no de
Nietzsche e até no método de Lawrence da Arábia e no de Hemingway, discípulo, aliás,
de Pio Baroja - isto é, no modo vivo, vivente, desses escritores serem escritores,
pode-se descobrir parentesco nada insignificante com os métodos mais característicos dos
escritores mais castiçamente ibéricos, a um dos quais Gracián, Nietzsche prestou
homenagem quase de discípulo a mestre. São métodos a que, em arte de pintura, um
espanhol fixado em Paris, Pablo Picasso, vem dando, com arrôjo ibérico, a mais vigorosa
expressdão moderna; e levando para essa arte aquele sentido profundamente hispânico de
interpretação literária ou filosófica ou sociológica ou religiosa da vida, segundo o
qual a realidade, seja ela qual for, exige do seu interprete que a considere, tanto quanto
possível, simultâneamente, isto é, através de várias perspectivas, e não apenas de
uma só; ou da convencionalmente isto ou aquilo: histórica ou ficcionista, realista ou
impressionista, expressionista ou cubista, sociológica ou psicológica.
Sou escritor -
ou um constante aprendiz de escritor que nas suas tentativas de captar e
interpretar aspectos situados da condição humana, em geral, através da do homem tropical, especialmente da do
brasileiro, em particular, vem procurando captá-los e interpretá-los por meio de várias
perspectivas, por vezes simultâneas. Daí o confuso, o desordenado, o descontinuo que
têm encontrado em meus trabalhos certos críticos literários. Talvez, daí, a
incompreensão, da parte de uns tantos outros, do que vem sendo, nesses trabalhos, o
emprego de perspectivas científicas ao lado das humanísticas, além de repetições e
desordens na expressão ou fixação possivelmente literária dessas perspectivas por
vezes simultâneas: expressão que daria a esses trabalhos segundo alguns críticos,
categoria artística ou qualidade poética e segundo outros os reduziria a um amontoado
caótico de imagens, nem validamente científicas, nem literariamente sugestivas.
Concordo em que
haja, nos meus trabalhos, objetos dessas críticas, além de
desordem e repetições, de negação de virtudes:
convencionalmente literárias, por um lado, e de convencionalmente cientificas, por outro,
como virtudes puras ou castiças em suas formas acadêmicas ou ortodoxas. Não sou um
escritor - se é que sou escritor - fácil de ser classificado; e nisto talvez seja
caricaturescamente ibérico. O estilo que, segundo alguns críticos, caracteriza os mesmos
trabalhos, reconheço não ser modelo de estilo científico - admitindo-se que fosse um
estilo antes cientifico que literário, que eu procurasse atingir. Mesmo porque o ideal,
em trabalhos puramente científicos, parece ser a quase ausência de estilo. Confesso-me
anárquico, um tanto personalista, um tanto impuro, um tanto contraditório, um tanto
desordenado e, nestes defeitos, uma caricatura daqueles escritores ibéricos ainda hoje
inclassificáveis, um deles o Unamuno de quem há pouco se comemorou o centenário.
A verdade,
porém, é que, no meu caso, o que venho procurando ser é
escritor que, como escritor, se serve da sua formação ou do seu
saber - se é que existe - científico - o antropológico, principalmente - em vez de
pretender ser principalmente antropólogo ou sociólogo ou historiador, por assim dizer,
institucional. O caso - essa condição híbrida, flexível, e um tanto anárquica de
vários hispanos. O caso, também, de um Lawrence da Arábia: esse inglês parente de
espanhóis até no seu modo empático de ser moçárabe. Entre nós, brasileiros, o caso
de Euclides da Cunha. Daí sentir-me com o desembaraço ou a liberdade para me exprimir,
principalmente, como escritor, - escritor com pretensões a escritor literário - sem que
para tal renuncie à responsabilidade de que me investe a formação ou a condição de
cientista e, talvez, - "excusez du peu" - a de pequeno pensador. Cientista sem
cátedra universitária - sempre recusada - mas sempre em contacto com universidades do
seu país e do estrangeiro. Pensador desligado de ideologias sistemáticas ou fechadas,
mas sempre em atividade pensante, analítica, crítica.
Como é que um
escritor assim escritor e
talvez assim ibérico se diferencia dos demais intelectuais - dos intelectuais que não
são escritores nem ibéricos? Creio que por aquilo que um crítico alemão, Rolf
Schroers, chama "espontaneidade": qualidade e às vezes defeito tão dos hispanos.
Uma espontaneidade que é quase o mesmo que criatividade; e esta, por sua própria natureza, rebelde quase sempre às normas estritamente acadêmicas
e aos estilos rigidamente institucionais de comportamento intelectual. Personalismo.
Individualismo. Talvez - repito - algum anarquismo intelectual contraditoriamente vizinho
de certo apego de revolucionário - conservada a umas tantas tradições ou constantes,
sob a forma de valores de sempre. De qualquer modo, possível corretivo, da parte de uns
indivíduos mais espontâneos que institucionalizados, aos excessos de institucionalismo e
de academismo, com que vários outros são intelectuais e por vezes intelectuários, isto
é, intelectuais como que burocráticos ou sob a disciplina quase burocrática de
instituições ou de ideologias.
Salienta o
crítico alemão dos indivíduos de
formação universitária - cientistas, técnicos, scholars - que, especializados nisto ou naquilo, são
"altamente qualificados", também nisto ou naquilo, e de
"inteligência admiravelmente adestrada" nas suas várias perícias. Não Ihes
faltam conhecimentos sistematizados; nem disciplina científica. O que lhes parece faltar
para serem não só escritores como intelectuais no sentido ibericamente mais castiço de
escritor e até de intelectual é espontaneidade. Criatividade. Ou disponibilidade para
aquela vida intelectual bastante independente para ser criadora que faz Santayana deixar
um dia, inesperadamente, sua cátedra em Harvard para tornar-se até o fim de sua vida num
convento da Itália, não como convertido à Igreja mas sempre como intelectual
independente, um cigano desprendido de compromissos com instituições oficiais ou
oficiosas de saber ou de ciência.
Daqueles
indivíduos de formação
universitária e de disciplina científica podem aproximar-se os modernos cérebros
eletrônicos - sugere o crítico alemão, que já citei. Mas não dos intelectuais que,
sendo escritores, se diferenciem dos universitários daquele tipo de homem logicarnente
mental, por uma espontaneidade capaz de surpreender-se a
si própria. Nesta espontaneidade está um característico de
todo escritor autêntico, mas,
principalmente, de todo autêntico escritor ibérico ou pan-ibérico. Ela pode levá-lo a
contradições. Mas contradições que de ordinário se completam na interpretação, por
um escritor, de uma realidade complexa através do domínio do mesmo escritor sobre
palavras, além de sugestivas, reveladoras: epifânicas, como as que Joyce tão
intensamente buscou, especialmente na sua última fase de experimentador verbal: na
verdade psicológico.
Referi-me já ao pouco pendor do escritor
espanhol para a novela convencional. Entretanto, é espanhola a super-novela que é Don
Quijote; e de Ganivet como de Unamuno são páginas imortais em
que a chamada "verdade novelesca" faz companhia à não-novelesca, reforçando-a ou dando-lhe
intensificações dramáticas que só por esse tipo de verdade a novelesca - ou pela
teatral, poderiam ser por eles atingidas. A verdade, porém, é que a presença do que
seja dramático no passado ou na atualidade ou no futuro de um indivíduo ou de um grupo
humano pode ser surpreendida e sugerida pelo escritor sem que ele precise de recorrer à
novela ou ao teatro; e nessa captação e sugestão de drama o escritor espanhol tem como que se especializado, pela revelação, em ensaios como os de Vives, os
de Gracián, os de Luis de León, os de Ganivet, os de Unamuno, os de Ortega, os de
Baroja, os de Azorin, de uma verdade não-novelesca, desenvolvida quase sempre, tanto
autobiograficamente como pela dissolução do eu do autor nos modelos que ele faz
quando desdobra ensaios em novelas, seus personagens imitarem. Portanto, ora de dentro
para fora, ora de fora para dentro.
O grande característico, aliás, de
Cervantes, em Don Quijote. Daí, em livro recente, Mensonge romantique et
vérité romanesque, (Paris 1961),
o crítico René Girard salientar da novela romântica ou romanticóide - isto é, a novela convencional - que "jamais descobre a
contradição dialética final que toda grande novela encerra". E dá exemplo, de
grande novela animada de contradição dialética, o Don Quijote.
Aqui me permito a deselegância de, descendo
até à minha própria condição de pequeno escritor
de feitio espanhol, referir-me a recente experimento a que tive a audácia
de entregar-me, escrevendo o que denominei uma semi-novela, pois já que
não me era possível escrever,
como, Miguel Cervantes, uma supra-novela, procurei esquivar-me da convenção da pura
novela esboçando uma semi-novela; e procurando tornar claro, no subtítulo, não só essa
deficiência como aquela orientação: a de que o autor procurava fugir da "mentira
romanticóide" para ater-se a uma verdade, menos romântica que romanesca ou
novelesca. Isto dentro da tradição cervantina que é também a que se encontra em
Galdos, em Ganivet, em Unamuno, em Baroja: o Baroja que copiado por Hemingway fez o
anglo-americano chegar ao Prêmio Nobel. Aliás, é também reparo de Girard que na
"grande novela", o autor dá sempre a verdade que apresenta como proveniente de
outro e não como saída dele próprio: a tendência do romancista ou novelista
convencional, como que ansioso de projetar-se nos personagens, tornando ostensiva sua
criação, em vez de empenhado em penetrar-lhes nas consciências, por meios indiretos e
empáticos e quase como se fosse apenas um mediador entre eles, personagens e as suas
façanhas, e o leitor, como o ensaísta ou o historiador ou o antropólogo é quase sempre
outro mediador entre a realidade crua que consegue captar e o leitor a quem transmite a
imagem e, por vezes, a interpretação dessa realidade.
Se para Girard a
verdade novelesca não deve
sujeitar-se a ser apenas uma expressão literária de verdade psicológica ou de verdade
sociológica - ou antropológica ou histórica - isto não significa que essas três ou
quatro ou cinco verdades não possam coincidir numa novela, que seja, ou por deficiência
ou por superioridade, algo diferente das novelas convencionais. São
coincidências características da novelística
espanhola; e também neste ponto me encanto, pelas
coincidências desse gênero que se encontram em. pequenos trabalhos meus, mais próximos
de espanhóis que mesmo de ingleses. A verdade novelesca pode, com efeito, sendo coincidir
de modo exato, coexistir, de modo iluminante, com a verdade histórica ou com a verdade
sociológica ou com a verdade psicológica. Uma pode intensificar ou ampliar as outras. Na
expressão de qualquer dessas verdades, ou de várias delas a um tempo, pode definir-se um
indivíduo como escritor.
O exemplo de Nietzsche é expressivo, de filólogo, e, sobretudo, de filósofo, que se afirmou principalmente como escritor. Já fôra o caso de Pascal. Já fôra o de Francis Bacon. Já fôra o de Gracián. E depois de Nietzsche, seria o de Newman, o de William James, o de Unamuno, o de Spengler, o de Ortega, o de Santayana e, nos nossos dias o de Aldous Huxley, o de Bertrand Russell, o de Gabriel Marcel, o de Sartre. De Sartre acaba de escrever um dos seus críticos de língua espanhola, para caracterizá-lo como escritor, que "ha intentado llegar por todos los medios posibles a una vasta mayoria de lectores que no se ha reducido a la exposición tecnica, especializada, sino que ha echado mano de la literatura, del articulo periodistico inclusive..." Esse critico é Jorge Rodrigues Romero, n. 52, de outubro de 1964, da excelente Eco, revista de la cultura de Ocidente, que se publica em Bogotá. Precisamente o número em que aparece a tradução do ensaio de Gert Muller sobre Spengler, no qual se exalta o escritor alemão - escritor principalmente jornalístico, antes de ter surpreendido seus contemporâneos com sua obra monumental de teoria da história - por ter realizado uma façanha que dificilmente poderia ter sido realizada por um professor universitário e, portanto, acadêmico, a quem faltasse o ânimo, que não faltou ao escritor por vezes mais intuitivo do que lógico, para superar, no campo da teoria da história, aquele "especialismo que se havia dispersado em um sem número
de domínios", substituindo-o por uma "visão das grandes conexões", através da consideração das culturas como sujeitos, e não objetos, do acontecer histórico.
É na captação de conexões dessa espécie que o escritor ao se afirmar mais intuitivo do que lógico, mais generalista que especialista, se avantaja ao antropólogo, ou ao sociólogo, ou ao economista, ou ao historiador, que não seja, como o escritor autenticamente escritor, é, um criador, mas apenas um erudito ou técnico ou um sábio no seu modo de ser intelectual. A virtude que lhe distingue a creatividade é a poética no seu sentido mais profundo; e que tanto pode animar os ensaios de um Walter Pater como os sonetos de um Camões ou os romances, mesmo os mais realistas, de um Lawrence. Todos escritores: cada um a seu modo.
Devo recordar aqui
que desde o comêço de minha atividade, primeiro de candidato a escritor, depois, de escritor profissional,
grande tem sido o meu afã no sentido de, para ser assim complexo, conservar-me quanto
possível independente de qualquer ideologia política ou sistema religioso ou escola
filosófica ou seita sociológica. Reconheço ser possível a um escritor pertencer ativa
e conscienciosamente a um desses sistemas e escrever obra notável: Dante, o Católico
ortodoxo, é o supremo exemplo que logo se impõe à nossa consideração. Milton e
Bunyan, Batistas, dois outros exemplos magníficos. Ainda outros exemplos, Newman e
Claudel e, nos nossos dias, Merton, Católicos, Eliot, Anglicano, o Fascista Ezra Pound e,
entre nós, o Comunista Jorge Amado.
São,
porém, casos raríssimos. O drama de
Pasternack está vivo diante de nós. O de Unamuno, também: o Unamuno que, para ser o
hispano completo que desejaria ter sido, estimaria decerto, no seu intimo, ter
podido aderir de corpo e alma à Igreja Católica, da qual,
entretanto, para ser o escritor sincero, honesto, independente que foi, conservou-se
apenas um marginal: um marginal sempre angustiado agônico, até - mas sempre
independente. O caso também de Berdiaeff com relação a Igreja Ortodoxa Russa e o de
Malraux com relação a este
vigoroso equivalente da Igreja Católica nos dias da Contra-Reforma e da
Igreja Ortodoxa Russa no século XIX que é
atualmente, a despeito das idéias arcáicas e das teorias em vários pontos ultrapassadas
em que se apoia, o Partido Comunista Internacional: como organização, duro,
inquisitorial e, por vezes, até lamentavelmente sanguinário naquela intolerância,
naquela intransigência, naquelas exigências de subordinação absoluta de seus membros,
quer à
sua mística doutrinária, quer aos seus oportunismos,
ostensivos ou sutis. Táticas que fizeram a força da Igreja
Católica de Roma e, sobretudo, da Companhia de Jesus naqueles dias -, e
que, repudiadas hoje por essas duas organizações, em face, uma e outra de idílica e por vezes, talvez, para um. Antero de
Quental que voltasse a considerar o assunto, excessiva tolerância dos seus contrários e
de quase desapêgo aos seus dogmas essenciais e aos seus ritos de validade universal,
explicaria isto a decadência, a fraqueza, a impotância em que, segundo alguns
observadores, porventura extremamente severos, vão resvalando; e em que continuarão,
conforme os mesmos observadores, a resvalar até que dentro delas próprias se reergam
intransigências e se reafirmem dogmas decisivos: aqueles sem os quais uma igreja não é
igreja porém apenas uma igrejinha a mais, do caráter dúbio das muitas que constituem
hoje o chamado Protestantismo liberal; ou da mesma espécie antes humanitária, cívica ou
ética que propriamente religiosa, de movimentos como o na sua esfera, admirável
"Rearmamento Moral" ou, em plano intelectual superior, o "Congresso pela
Liberdade de Cultura" - um como Rotary Internacional da esquerda. O que registro
aqui, é claro, apenas de passagem; e valendo-me das opiniões nem todas aceitáveis, de
observadores de um dos fenômenos mais impressionantes dos nossos dias: o da, segundo
esses observadores, excessiva inclinação da Igreja Católica Romana para imitar igrejas
liberalmente Protestantes que parecem vir sofrendo excessos de culto, pelos seus adeptos
de uma tolerância por vezes menos virtude que expressão de fraqueza de ânimo: a
indiferença pelos valores espirituais sob sua guarda. Pois não sendo membro de nenhuma
daquelas organizações e considerando-me como escritor, obrigado a ser independente de
qualquer delas, é como se fosse, com relação a elas, um homem de Niterói com,
relação a coisas da Guanabara.
Duas possibilidades
parecem abrir-se para a Igreja Católica de Roma - durante séculos
fonte de inspiração, justamente pela firmeza
dos seus dogmas, para tantos escritores de primeira grandeza, de Santo Agostinho a Paul
Claudel e, pelo mesmo motivo, solução para as angústias de vários outros, entre os
quais Newman e Huysmans: ou reerguer-se, revalorizando os seus dogmas e os seus ritos e o
seu mistério, e, através deles, sua unidade; ou continuar de tal modo pluralista e
desenvolver-se de maneira de tal modo lógica e racional que a mística de unidade se
torne para ela apenas uma poética relíquia e, neste caso, pouco capaz de oferecer
resistência ao seu sucessor, como força unida pelo dogma e avigorada pela mística nada
racional da intransigência: o referido Partido Comunista Internacional. Sucede, porém,
que também este vem se enfraquecendo nos últimos dez anos e tende a enfraquecer-se cada
vez mais pelo policentrismo que se está acentuando entre numerosos Comunistas, já quase
tão desprendido do culto de Lenine e do rito russo-soviético de Comunismo monolítico
quanto nume rosos
Católicos-Romanos do culto de Maria e do rito latino e supra-nacional de
Catolicismo.
Com tais
tendências dissolventes quer de dogmas quer de ritos, unificadores de sistemas autoritários e ordenadores, parece ganhar
relevo a concepção de vida dos anarquistas vamos dizer construtivos: aqueles para os
quais o bem estar humano seria favorecido pelo mínimo de pressão autoritária ou
ordenadora ou disciplinadora - vinda de fora para dentro - sobre os homens. Concepção
com que se harmoniza o ideal de vida de vários escritores do tipo menos acadêmico e mais
espontâneo: o mais característico, segundo parece, daqueles escritores que psicológica
e sociologicamente se distinguem de literatos e de homens de letras.
E' claro que esta
visão de dois dos fenômenos mais expressivos da nossa época
- a desintegração já franca da Igreja de Roma como
força autoritariamente ordenadora e o começo de desintegração da
Organização Comunista Internacional, como equivalente sociológico dessa força, nos
últimos decênios - é uma simples visão intuitiva - quando muito um pouco sociológica
- desses fenômenos. Uma visão que não considera nem o aspecto místico desses
fenômenos nem o seu aspecto especificamente político. Como livre-atirador, - e aqui não
pretendo sendo apresentar-me como um exemplo de escritor-livre atirador em face de uma
dramática situação contemporânea - o escritor independente pode dar-se ao luxo desses
devaneios, com um desembaraço difícil de ser atingido por intelectuais comprometidos com
instituições ou com sistemas ideológicos.
Vejo no escritor expressão, sobretudo,
daquela inteligência, daquele saber, daquela intuição que precisam de ser independentes
para se afirmarem criadoras. A não ser quando, por necessidade do próprio élan criador, e até da sua pessoa
inteira, precise o escritor de intensificar-se com uma tradição ou
com um sistema de vida, de cultura e até de política; e possa faze-lo sem
sacrifício, em qualquer ponto essencial, da sua arte ou da sua condição de escritor:
façanha dificílima porém possível. Outra vez nos ocorre o exemplo de Dante; e dentre
escritores ibéricos, o de Santa Tereza ou o de Luis de León. Mas quase sempre o que
parece desejável, do ponto de vista do equilíbrio entre os extremos, é que haja
organizações firmes nas suas ortodoxias e indivíduos à margem dessas ortodoxias ou em revolta contra elas. Entre esses indivíduos, vários dos
escritores mais ciosos da sua independência como escritores.
Creio que tenho
sido, como escritor, um independente e um sincero. Nessa minha atividade venho
seguindo, de algum modo, o exemplo do inglês que se gabava de nunca ter
procurado uma amizade prestigiosa, por ser
prestigiosa, nem se esquivado a um ódio de poderoso, por ser ódio de poderoso. Isto com
relação a indivíduos e com relação a instituições; com relação a sistemas
fechados e com relação a modas ideológicas às vezes tão tirânicas, em, seu domínio
sobre uns tantos intelectuais, como as modas de penteados, de trajo e de calçados sobre
as mulheres da chamada "society"; e também com relação ao público em geral,
a cujas exigências e caprichos sentimentais ou ideológicos, o escritor autêntico -
penso eu e assim tenho procurado proceder ou comportar-me como escritor - nunca se deve
submeter. Às vezes o caminho do escritor, fiel à sua vocação e às suas idéias, é o
caminho da impopularidade. Nunca o do indivíduo que escreve obsecado pela vontade de ser
sempre "best seller" e ter sempre uma "bone presse".
Sou dos que pensam
que o escritor, para ser autenticamente escritor, precisa de pensar, sentir e escrever sem subordinação a
qualquer força econômica ou politicamente dominante ou a moda ideológica ou a
convenção social ou a terrorismo jornalístico: o terrorismo da parte de jornais ou de
jornalistas que pretendam intimidar ou prejudicar escritores com distorções de suas
idéias, silêncios em torno dos seus livros, malícias contra suas pessoas. O escritor
que se acovarde diante dessas forças corre o risco de tornar-se escriturário em vez de
escritor; intelectuário em vez de intelectual. Corre o risco de tornar-se um equivalente
das prostitutas avelhantadas: aquelas que tudo passam a fazer para agradar os jovens, para
ganhar popularidade, para se dar prazer aos poderosos de qualquer espécie.
Raramente o escritor
autenticamente escritor se sente de todo à vontade, quando seu pensar, seu sentir, seu escrever ver em voga, que
ele não existe senão como expressão, de uma maioria satisfeita com seus triunfantes
estilos de vida e de cultura. Ao escritor autêntico penso, eu que anima, quase sempre,
antes o pendor para a inovação, a renovação a crítica, a projeção sobre o futuro,
algum regresso - como no caso do pré-Rafaelista Dante Gabriel Rossetti, escritor e pintor
e como, entre nós, foi o caso do poeta Augusto Frederico Schmidt - a algum passado mais
de acordo com seu gesto que a pura atualidade ou. a simples moda literária ou a cômoda
adesão a essa atualidade e às suas normas; ou a um progressismo sectário ou retórico.
Dai a
inconformação, mais que a acomodação às
normas em vigor, caracterizar o escritor autêntico. A não ser,
é claro, quando nessas normas em começo de ser normas, se projetam
idéias pioneiras, revolucionariamente
pioneiras, de um escritor, que aparece então como renovador em parte triunfante como é o
caso atual de Malraux, até há pouco um insurgente; e agora colaborador do Presidente De
Gaulle num governo sob vários aspectos revolucionário que se vai estabilizando em regime
revolucionário-conservador. Foi o caso, dos escritores Franklin e Jefferson na
organização dos Estados Unidos num novo tipo de Estado-Nação. Foi o caso do escritor
Lenine na reorganização da Rússia como outro tipo novo de Estado-Nação. Foi, no
México, o caso de Vasconcelos com relação a uma política indigenista de cultura para a
gente mexicana. O caso de Masarik e o de Benes, na Tchecoslováquia. O caso, entre nós, o
do já citado Augusto Frederico Schmidt que ficará na história da politica exterior do
Brasil como um dos reorientadores dessa política. O escritor pode tornar-se, em tais
casos, um quase político, sem sacrifício nem da sua vocação nem da tendência de todo,
o escritor autêntico para criar, pensar, sentir e atuar, independentes de quanto seja
excessiva pressão de instituição ou de Sistemas ideológicos sobre sua criatividade.
Sem um dominio sobre
as palavras que se defina de modo mais incisivo, ou menos incisivo, num estilo, e sem um sentido epifânico no uso
não só de palavras como até na combinação de vogais com consoantes no ritmo de frases
que, através de pontuação também rítmica, passem a caracterizar esse todo ou esse
complexo chamado estilo, não há, evidentemente, escritor. Até que ponto, no meu caso,
haverá um ensaísta e agora também um seminovelista, que, além de descritivo, seja,
epifânico? Ignoro. Sei que não me contentaria nunca - se dependesse de mim - de ser
simplesmente descritivo no que escrevo. Nem simplesmente descritivo nem apenas expositor
de conhecimentos ou de saberes adquiridos de livros ou de mestres ou de estudo somente
linear deste ou daquele objeto. E sim um tanto mais do que isto. Sugestivo. Evocativo,
interpretativo. Provocante. Epifânico.
E' por esse
afã ou por essa capacidade, que
um indivíduo vai além do saber, racional ou intuitivo, em que é, de algum modo,
especialista, seja esse saber o acadêmico de um Huxley, sobre ciências biológicas, ou
folclórico de um Simões Lopes Neto sobre coisas gauchescas; e se torna ou se afirma
escritor. E como escritor adquire uma força que não atingiria como especialista, mesmo
quase perfeito, mas desprovido a virtude - virtude no seu sentido básico da palavra
- de escritor.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Como e porque sou escritor. João Pessoa: Universidade da Paraíba, 1965. 33p.
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