CONTINENTE E ILHA
É bem conhecida a frase irônica de caracterização do heroísmo moderno, em que um grande escritor brasileiro de 1900 vazou sua tristeza e inadaptado aos supostos americanismos do século que seu olhar espantado de "celta" misturado a "tapuio" e com reminiscências de "grego" apenas viu nascer: "antes de pedir um historiador, reclama um empresário".
Frase que, neste fim de 1940, o autor d'Os Sertões retificaria decerto diante da bravura sem espalhafato com que a gente moça dos países nazistas e antinazistas enfrenta a morte nas lutas aéreas da Europa, da África e da Ásia, uns fanatizados por seus Antonios Conselheiros, outros por simples senso ou mística do dever; mas todos indiferentes aos empresários e aos próprios historiadores.
Os empresários e os historiadores é que não podem conservar-se alheios a atos de coragem tão grande e nos quais se decide treatralmente, sôbre tôrres de igrejas e telhados de casas, o destino inteiro da sociedade humana - e não apenas o de duas ou três nações - por menos profissionalmente dramáticos que se mostrem os atores - quasi todos uns meninos de dezoito ou vinte anos, como os que em 1937 Paulo Inglês de Sousa e eu vimos na Espanha; por menos convencionalmente trágicos que sejam os seus gestos ainda quasi de colegiais.
Diante desta cidade do Rio Grande do Sul, hoje em festa, mesmo que os empresários de heroísmo se afastem indiferentes do acontecimento, preferindo a celebração de feitos mais emocionantes que o segundo centenário - se não real, simbólico - da colonização da área, hoje quasi metropolitana, onde está Pôrto Alegre - área desenvolvida nos seus começos por gente vinda de ilhas, homens tranquilos ainda que corajosos nas suas iniciativas, lusitanamente pertinazes nos seus esforços de lavradores, criadores de gado, comerciantes, mestre de ofícios, artesãos, pescadores; diante do segundo centenário desta cidade de passado pouco belicoso, mas de modo nenhum sem bravura - não há historiador brasileiro, ia dizendo americano, para quem o fato agora comemorado neste recanto do Brasil, outrora chamado "continente", seja um fato qualquer; e não um instante profundamente significativo na vida das Américas. Particularmente da América portuguesa.
A América interia deve sentir-se feliz com as povoações americanas que partindo de sesmarias chegam aos duzentos anos, ou excedem, em plena afirmação de vigor urbano: o caso de Pôrto-Alegre. Mas para nós, brasileiros, e para o povo cuja língua e tipo de civilização européia, ou antes atlântica prolongamos com acréscimos cada dia maiores neste continente - os portugueses da Europa e das ilhas - o regosijo é ainda mais vivo: no bicentenário de uma cidade cujo comêço representa principalmente esfôrço lusitano, pertinácia açoriana, a vocação ecumênica do português para desentranhar-se em novos povos, novas culturas, novas nações, vemos afirmar-se no espaço continental das Américas e através do tempo - através da história das mesmas Américas - o traço essencial de uma civilização que tendo sido a base do esfôrço colonizador desta parte do mundo tornou-se a condição do nosso desenvolvimento em cultura autônoma e plural e em sociedade amplamente democrática. Cultura e sociedade hoje fortalecidas por um como que vigor híbrido sociológico - do biológico não ousaria vos falar - vindo do contacto com outras culturas e com outros povos, admitidos todos com maior ou menor franqueza, maior ou menor fraternidade - mas admitidos sempre - à obra de organização do Brasil em democracia ao mesmo tempo social e personalista, em nação ao mesmo tempo americana e universalista, em cultura ao mesmo tempo lusitana e pluralista, continental e regionalista.
Quer a ética profissional ou, antes, o rigor da especialização científica, que o historiador, o antropologista, o sociólogo, o geógrafo, o geólogo, não tenha emoção nenhuma diante dos fatos: só receptividade intelectual. O Brasil, porém, é um desmoralizador de cânones profissionais demasiado rígidos. E se até os geólogos estrangeiros como Hart se têm comovido que nem poetas diante dos fatos da natureza amazônica, há-de se perdoar a um simples estudioso brasileiro de história e de antropologia um pouco de emoção diante de fatos de cultura como o que Pôrto Alegre celebra, talvez um tanto fora da ortodoxia cronológica, neste momento: o bicentenário de sua colonização, esforço, principalmente, de um grupo de ilhéus que em poucos anos, sem perderem o gosto de solidariedade ilhoa, de aconchego familial, de concentração regional, de esfôrço e de conservação de valores tradicionais, adquiriram aquela consciência continental que desde o século XVI principiou a dar fôrças ao português e ao seu descendente híbrido, no Norte e principalmente no Sul, para espalhar-se com seu sangue ou seu meio-sangue valentemente aventureiro por tanto espaço americano virgem de europeu; para levantar nos ermos casas, capelas, fazendas, engenhos, azenhas, pelourinhos, cidades, fortalezas, currais, canaviais à moda dos de Portugal e das ilhas do Atlântico; para explorar tantos rios, descobrir tantas madeiras e plantas úteis, incorporar à culinária, à botica, ao laboratório, ao vestuário da Europa tantos animais e essências valiosas; humanizar tanta geografia simplesmente física ou brutalmente catastrófica.
Dentro desse rítimo continental de extensão de esfôrço humano é que se processou, em grande parte, a colonização do Brasil pelo português e pelo seu descendente mestiço. Mas do meio de um esfôrço tão considerável no sentido de extensão, surgem-nos, também desde o primeiro século de povoamento da América pelo lusitano, ilhas como que de intensificação ou condensação da energia colonizadora. Essas ilhas sociológicas foram as cidades edificadas nos montes ou em ilhas físicas, os vastos colégios dos jesuítas, os engenhos grandes de açúcar, em volta dos quais se esboçaram as primeiras regiões brasileiras: Itamaracá, São Vicente, Maranhão, Piratininga.
É que no Brasil o fenômeno sociológico e cultural como que repetiu o geográfico: sociologicamente e culturalmente desenvolvemo-nos em ilhas e essas em arquipélagos ou numa enorme ilha-continente. Ilha-continente semelhante à física, destacada por Oliveira Lima no seu prefácio à Geografia do professor Delgado de Carvalho, ao reparar que as cabeceiras do sistema fluvial amazônico vão quasi entestar no interior com as do sistema fluvial platino. Ilha e continente ao mesmo tempo. Ou ilhas e continente. Um arquipélago sociológico ou cultural de proporções continentais.
Desde o século XVI que ao sentido continental do esfôrço colonizador do português na América corresponderam tendências no sentido de coagulação da energia lusitana em várzeas mais favoráveis á cultura da cana de açúcar, em pontos do litoral mais favoráveis ao trafico marítimo, à armazenagem de produtos, à constituição de cidades, ao embarque e exploração de pau-brasil e de peles, esboçando-se dêsse modo áreas econômicamente estratégica que depois se acentuariam em regiões mais amplamente culturais. Áreas econômicamente estratégicas às vezes correspondentes às regiões, províncias ou ilhas ecológicas desde os começos do século passado entrevistas pelo ilustre botânico e grande brasileiro Manuel de Arruda Camara, que as desejava conciliadas com a extensão continental do Brasil por meio de maior comunicação de umas províncias vegetais e animais com as outras: intercomunicação ao serviço do bem estar humano e no interêsse da abastança da população inteira do então principado. "É pois manifesto" - são palavras do botânico-político no seu Discurso sôbre a utilidade da instituição de jardins nas principais províncias do Brasil oferecido ao Príncipe Regente Nosso Senhor - "que sendo o continente do Brasil, desde o Rio da Prata até o Orenoque, tão extenso e tão variado em climas e terras, é susceptível não só de nêle se cultivarem as plantas da Europa, África, e Ásia, mas de aí se naturalizarem as de umas em outras provincias". Desta maneira, o arguto profeta da política botânica e zoológica que melhor teria correspondido à nossa condição de continente - ou antes de arquipélago - formado por um conjunto de ilhas que hoje denominamos ecológicas, cuidava que seria possível ao Brasil reunir produções, e animais das várias partes do mundo, aclimatando-os com cuidados científicos, em hortos, botânicos e jardins zoológicos.
A adaptação a diferentes províncias, regiões ou ilhas do continente - ou do arquipélago brasileiro - conforme as condições de solo e de clima e as necessidades de cada província ou região, de animais de várias origens - europeus, africanos e asiáticos - parecia a Arruda Câmara a base científica de uma economia brasileira de proporções continentais. Ele sonhava com uma variedade de importações úteis. As abelhas de Angola, por exemplo. As ovelhas de lã fina da Espanha. Os carneiros do Peru. Os camelos e dromedários, que lhe pareciam próprios para os sertões de Pernambuco, Paraíba e Ceará.
No sentido de dispersão continental e de expansão imperial e, ao mesmo tempo, no sentido de fixação ou condensação de esforços e valores em ilhas ecológicas e sociológicas - ilhas, regiões ou províncias - um sentido completando, retificando, corrigindo o outro - é que fêz um tanto empiricamente - sem a técnica ou o rigor científico desejado por Arruda Camara para a parte botânica e zoológica de tão ingente esfôrço - a colonização portuguesa da América. Ilhas às vezes literal ou quasi literalmente ilhas como a de Santa Catarina, e como a do Recife; como Itamaracá e Marajó. Ilhas imaginárias, outras, quanto à geografia física; mas na verdade ilhas pelo seu caráter ecológico-botânico, de áreas ideais para certas especializações de interêsse agrícola ou pastoril; ou pelo seu caráter cultural, de pontos especializados no esfôrço pachorrentamente comercial e rotineiramente agrário, em contraste com as energias inquietas dos bandeirantes, dos sertanistas, dos gaúchos, dos missionários, dos aventureiros, dos caçadores de esmeraldas, de ouro, de escravos, de almas, de baleias, de onças.
O que o professor Artur reis destaca em sugestivo ensaio sôbre a política de Portugal no vale amazônico com relação essa formidável ilha ao mesmo tempo ecológica e sociológica do arquipélago brasileiro que é a Amazônia, pode generalizar-se à política lusitana nas demais ilhas ou regiões da América de formação portuguesa: sem ter sido uma política de plano preestabelecido, "não desatendeu, todavia, às condições regionais. A sinopse de legislação econômica de Portugal na Amazônica publicada pelo mesmo pesquisador nos deixa ver o afã de Portugal, desde meados do século XVII, em intensificar alí, como numa ilha enorme, as agriculturas caracteristicamente tropicais. Principalmente as do cacau, da baunilha e do anil. Proíbe-se, depois, qualquer atividade para a descoberta de minas; declara-se imprópria a cultura do tabaco e impróprio o fabrico do açúcar porque prejudicariam a produção da Baía e Pernambuco; manda-se estabelecer um Horto Botânico para experimentação regional das culturas da pimenta, canela, árvore de fruta-pão, noz-moscada, teca, cravo da índia, jalapa, barbadine, linho-cânhamo; ordena-se que Sousa Coutinho levante um censo minucioso das realidades econômicas e humanas da região. Juntando o sentido continental ao de ilha, não só lembra-se Portugal da Baía e de Pernambuco ao colonizar a Amazônia, como recorre ao "Estado do Brasil" em benefício da vasta região tropical; é assim que "manda que o Estado do Brasil passem para a Amazônia escravos bons"; que ordena providências para se estabelecerem as comunicações com Mato Grosso pelo Madeira; que recomenda providências para a abertura de comunicações com Goiaz e Mato Grosso pelo Tocantins, pelo Xingú e pelo Tapajóz, "bem como a expansão comercial para as Antilhas". O sentido de arquipélago unido ao de ilha. O sentido de ilha unido ao de continente. Tais as tradições que nos ficaram da política econômica de Portugal e que se vêm desdobrando ente nós em motivos, sugestões e condições para uma política social e de cultura, até hoje nunca definida nem mesmo esboçada por ninguém mas praticada inconscientemente por quasi todos os brasileiros, embora deformada por alguns em desejos separatistas e pervertida por outros em mau estadualismo - o da primeira República; ou, por brasileiros, ainda mais ineptos, em mau unitarismo ou mau centralismo.
Dos ilhéus que colonizaram no século XVIII o Rio Grande do Sul todos parecem ter adquirido sem demora o sentido continental, o gôsto dos largos espaços que seria uma condição quando não sempre física, psíquica, de brasilidade e americanidade; mas alguns, para estilização definitiva de sua vida e de sua energia de colonos, ao continentalismo heróico, romântico e aventurescamente dispersivo e móvel - sem o qual não haveria o vasto Brasil de hoje - preferiram continuar, até certo ponto, ilhéus; perto do mar ou junto de rios; pescando e vivendo principalmente de peixe; e entregues à obra menos romântica, porém essencial, de estabilizar a colonização desta parte da América em esfôrço agrário, comercial, urbano e até burocrático.
Que tudo foi necessário para formar o Brasil. Na exaltação do bandeirante, a que todos nos sentimos justamente atraídos, pois o heroísmo dêle foi na verdade enorme, e formidável sua obra no sentido continental e imperial que se tornou, para o brasileiro, motivo e mística de nacionalidade e americanidade, não devemos perder de vista os homens menos dramáticos mas igualmente úteis que desde o século XVII são vítimas da caricatura fácil dos historiadores, de Frei Vicente do Salvador a Capistrano de Abreu: os homens-caranguejos do litoral, das ilhas, da beira-mar e da beira-rio. Ao lado do entusiasmo pela vastidão continental do Brasil e pela energia dos desbravadores que o fizeram tão vastos, parece justo e, mais do que justo, essencial à obra, que ainda nos resta realizar, do desenvolvimento harmônico do Brasil, lembrarmo-nos das "ilhas" e dos "ilhéus", que concorreram poderosamente - e ainda concorrem hoje como provincianos - não só para a estabilidade social e econômica de valores a princípio coloniais, depois nacionais, como para a variedade regional e a pluralidade cultural da vida brasileira.
É que o sentido americano de continente necessitamos continuar juntando o tradicional, o português, o hispânico, o africano, o atlântico de ilha, para que os dois antagonismos históricos, psicológicos e sociológicos continuem - com outros antagonismos - a se completar na nossa vida e na nossa cultura; o sentido de continente a nos defender dos excessos do de ilha; o de ilha a nos defender dos excessos do de continente; o sentido atlântico e ecumênico a nos completar o do Oeste ou dos sertões. O sentido horizontal de expansão continental, que seria também o de americanidade e de progresso - se é que se pode falar de progresso, sem excitar divergências radicais quanto ao que êle é e até se é constante e indefinido - seria completado pelo vertical, de concentração e de relativa insularidade em relação com os vizinhos do continente. Sentido, êste, que seria, ao mesmo tempo, de tradição portuguesa e de oceanicidade, a ilha significando em nossa paisagem cultural não só a concentração como a variedade - ou a possibilidade de variedade - de contactos humanos de sangue e principalmente de cultura como outras ilhas e como tôdas as partes do mundo. De modo que a seguirmos a tentativa talvez um tanto louca, mas em todo o caso honesta, de filosofia da historia brasileira aquí esboçada, o sentido de continente é que seria para nós um limite, embora limite saudável e útil; enquanto, um tanto paradoxalmente, o sentido de ilha seria o universalismo como uma aventura quasi sem limites; e ao mesmo tempo, o hispanismo, o lusitanismo, o regionalismo de origem, como uma permanência essencial à nossa vida e à nossa cultura. E os quatro - regionalismo e continentalismo, lusitanismo (ou hispanismo) e universalismo - condições essenciais ao nosso desenvolvimento harmônico em cultura a um tempo regional e universal, personalista e pluralista, americana nos seus ideais e nas suas condições geográficas, econômicas e psicológicas e euro-africana nas suas raízes sociais e étnicas mais profundas. Euro-africana: principalmente hispânica; particularmente portuguesa.
À sombra da boa hospitalidade de Pôrto Alegre, volto a afirmar hoje, no meio das alegrias de um bicentenário que é uma afirmação de vitalidade brasileira e de vitalidade portuguesa, velhas idéias que me parecem de alguma importância para a interpretação da história nacional e, talvez, para o aproveitamento das sugestões dessa mesma história em orientação sociológica e até política das relações interregionais e dos contactos internacionais da nossa cultura. São idéias que há ano e meio tive oportunidade de exprimir no estrangeiro, não só em conferência na Universidade de Western Reserve, como em artigo para a revista The American Scholar. Artigo do qual peço aos meus ouvintes sul-rio-grandenses de hoje permissão para traduzir e resumir um ou dois trechos.
Naquela conferência perante estudantes norte-americanos estão preocupados - estávamos no meado de 1939 - com problemas de relações internacionais, principalmente interamericanas, e depois em artigo na revisa universitária de público mais seleto daquele país e escrito por sugestão de um jovem professor da Universidade de Colúmbia que já se tornou uma das mais fortes expressões de talento filosófico do seu país - John Herman Randall Jor - procurei destacar justamente o ponto que há pouco ferí de passagem: que para nação nenhuma da América a condição de americanidade e, por conseguinte, de continentalidade, é uma condição de suficiência cultural; do mesmo modo que não deve ser - mas já aí a questão se alonga em filosofia social e em teoria política - condição ou motivo de uniformidade ou de uniformização de regime de govêrno. Assunto - êste último - que suponho ter sido tratado então de ponto de vista novo, isto é, considerada sua dependência lógica e histórica da condição cultural; e, por conseguinte, contra o politique d'abord de Charles Maurras. "Como brasileiro" - disse eu então, lembrado ainda da Conferência de Lima e falando a estudantes e professores de um meio universitário meu conhecido velho como é o norte-americano, onde se aprecia a franqueza, a sinceridade, a probidade científica, e se estima a independência intelectual - "eu nunca assinaria declaração em que a identidade de tipo político de govêrno fôsse considerada fundamental ao panamericanismo". E acrescentei: "Creio que o Pan-americanismo não deve depender de uniformidade política ou de govêrno das várias nações americanas e que qualquer implicação de tal dependência envolve restrição tão séria para a autonomia nacional, a ponto de significar o sacrifício da saudável individualidade de cada nação a uma convencional uniformidade política, extensiva ao continente inteiro". Pois "as formas políticas têm que variar com diferenças de condições sociais, causadas em grande parte, como ninguém ignora, por diferenças de desenvolvimento histórico e de composição social (da qual não se pode separar a étnica, para efeitos sociológicos) de cada grupo nacional". E ainda: "Há climas históricos; e dentro dêles, impõem-se diferenças de estilos de cultura e de vida, inclusive de forma de govêrno". Pelo que me parecia que nas relações interamericanas - favorecidas por aquela condição física e até certo ponto psíquica de americanidade ou continentalidade que por si só é uma garantia sólidamente natural de interêsses fundamentais comuns de política internacional, de defesa militar e de economia - o desenvolvimento a ser estimulado deveria ser não no sentido da uniformização política, segundo um regime considerado ortodoxo pela nação mais poderosa, mas no sentido de reciprocidade, as diferenças de grupo para grupo tão aproveitadas no interesse comum do continente quanto as semelhanças. Porque pode-se mesmo falar - como me aventurei a sugerir aos estudantes e professores norte-americanos de Western Reserve - em pan-americanismo, como um plano de vida em comum, semelhante aos de urbanismo, apenas em dimensões ou proporções gigantescamente continentais; e no qual, como nos planos verdadeiramente científicos e artísticos de urbanismo, os interêsses de uma área não fôssem sacrificados arbitráriamente aos de outra; nem - tomemos os valores urbanísticos como símbolos - as igrejas velhas sumáriamente arrasadas com tôdas as suas sugestões sentimentais, históricas ou de beleza para fácil e imediata solução de um simples problema de tráfego; nem devastado quanto fôsse mato ainda denso, para solução igualmente simplista do problema de descongestionamento de rua ou de desafôgo ou expansão de área para instalação de fábricas ou indústrias, mas conciliados os vários interêsses sem sacrifício de nenhum dos essenciais; equilibrados e não destruídos os antagonismos; harmonizadas, e não eliminadas para vantagem de um interêsse único ou exclusivo, as divergências, e, quanto possível, as originalidades, as diferenças, as singularidades.
Com muito maior razão e sôbre fundamentos culturais e históricos ainda mais sólidos, pode-se falar na necessidade de um plano de articulação das diferenças regionais na vida nacional do Brasil e de ajustamento de relações de cultura do nosso país não só com as nações do continente como com determinados países da Europa e da África onde florescem culturas maternas da nossa. Relações em que ao sentido de continente, isto é, continentalidade de extensão, de iniciativa, de progresso, de americanidade, de experimentação, sentido caracteristicamente americano que é hoje a base da nossa política de solidariedade fraternal com as demais nações da América, se junte o de ilha, isto é, de profundidade, de densidade, de conservação de valores - maternos indígenas, europeus e africanos -, de condensação de esforços e, até certo ponto, de continuação de ritmo de vida e mesmo de trabalho, de endogamia não direi de sangue mas dos essenciais de culturas maternas - isto é, a indígena, e, principalmente a hispânica, a portuguesa, quasi diria a hispano-árabe, a hispano-africana, a hispano-atlântica, como que guardada e apurada para o Brasil na Europa, na África, nas ilhas dos Açores e da Madeira, a aí enriquecida pelos contactos com o Oriente. Sentido tão essencialmente brasileiro, êsse de ilha, quanto o de continente, Continente e ilha: antagonismos que o Brasil ou concilia e equilibra, seguindo aliás a geografia, ou se sujeita a uma verdadeira guerra civil na sua psicologia social e dentro e sua cultura.
Entreviu-os a inteligência de Prudente de Moraes, neto - talvez a maior vocação brasileira de crítico da nossa geração, infelizmente retraído hoje das revistas literárias e a quem a iniciativa, ao meu ver, precipitada e infeliz, de fechar-se a Universidade do Distrito Federal sem outra que verdadeiramente a substituísse, afastou também, do professorado universitário - sugerido, em artigo escrito há dez anos, essa possível "constante da nossa história": derramamo-nos em "superfície" antes de nos desenvolvermos em "densidade e profundidade". Desgastes da energia expansiva com sacrifício da criadora já observado, aliás, por Alberto Torres ao criticar o nosso "afã de ir estendendo populações aventureiras e empresas capitalistas por todo o território" sem "concentração das populações nas zonas já abertas à cultura"; e também por Euclydes da Cunha ao salientar os males do que chamou "sistema de culturas largamente expansivas". Apenas não me parece que, no Brasil, a extensão de esforços se tenha feito sempre com inteiro sacrifício da sua condensação; pois como sugerí em trabalho publicado em 1933 e como comecei a salientar nesta palestra, bem cedo teve a colonização portuguesa da América as suas ilhas onde pararam energias vianesas, minhotas, açorianas, no rame-rame da lavoura, do comércio, do artesanato; onde se esboçaram províncias ou regiões, depois mais fortemente caracterizadas por atividades econômicas em grande parte sedentárias e ligadas, com seus concomitantes psicólogos e de cultura geral, a ambientes em que a especialização cultural e psicológica se foi integrando ecológicamente nas condições físicas de situação, de solo, de clima.
Donde a precoce regionalização em ilhas da vida luso-brasileira ou luso-afro-brasileira, ao lado de sua também precoce dilatação em continente ou arquipélegado. E incluo o africano porque êle - o ladino - foi uma agente de fixação e de propagação de cultura que não pode nem deve ser esquecido em síntese nenhuma da formação brasileira. Agente a serviço da implantação da cultura portuguesa e cristã na América e da assimilação da cultura indígena pelo colonizador e depois pelo colono. Agente tanto no sentido de fixação da mesma cultura e de assimilação indígena - assimilação através, principalmente, da cunhã (incorporada quer ao sistema patriarcal em volta dos engenhos de açúcar quer aos quilombos e mucambos instalados como outras tantas ilhotas sociológicas no meio dos matos) - quanto no sentido da dilatação da mesma cultura pelo continente. Móvel como foi o escravo, principalmente o fugido, tornou-se um excelente condutor da nossa cultura em formação a extremos como os amazônicos e até a países sob outro domínio político. Países onde o negro fugido, assumindo aquela função de pioneiro que certos discípulos de Gobineau pretendem limitar ao ariano, estabeleceu - como nas Guianas - zonas marginais, sôbre cuja cultura indecisa ainda hoje flutuam elementos culturais luso-afro-brasileiros. Entre outros, palavras portuguesas em estado puro ou deformadas pelo africano, pelo ameríndio ou pelo mestiço; e palavras africanas deformadas pelo português e pelo ameríndio.
A Nova Lusitânia, no Norte, foi uma daquelas ilhas na paisagem social da vasta colonização, nem tôda ela sempre em movimento continental do Brasil dos primeiros séculos. Nem tôda ela sempre em movimento porque os casais vianeses trazidos em 1535 por Duarte Coelho, fixando-se nas várzeas dos rios pequenos no Nordeste do Brasil, mais favoráveis à cultura da cana e à indústria do açúcar, constituíram-se verdadeiramente em ilha. Ilha sociológica - como já foi dito - e, até certo ponto, biológica, pela endogamia e pelo in-breeding; pelos muitos casamentos de sobrinha de quinze anos com tio de trinta e quarenta; e de primos com primas. Ilhas que só aos poucos e não precipitadamente, foi-se expandindo, sem que em Duarte Coelho e nos casais, sólidos e cheios de filhos, de vianeses vindos como êle para o Brasil, fundadores de engenhos como o do Forno da Cal e de cidades como Igaraçú e Olinda, a atração pela aventura de desenvolvimento em superfície - que atuando sôbre outros grupos colonizadores fêz do Brasil um continente - tivesse perturbado o gôsto tradicional pela lavoura. Nem o gôsto tradicional pela lavoura nem o espírito de família patriarcal. Espírito sedentário, diga-se mesmo rotineiro, cheio de amor à repetição, à missa todo o domingo de manhã (com exibição, pelas senhoras, de jóias e sêdas), aos jantares de dias de festa, á liturgia festiva dos são-joôes e do culto de Nossa Senhora, aos espetáculos na praça de touros, às recorrências de botadas e de safras nos engenhos. Mas nem por isso, o espírito ou ânimo inferior ao dos homens transbordantes da vontade de conquistar espaço e desenvolver em superfície sua ação e seus sonhos. Os tais homens dinâmicos e aventureiros que alguns sociólogos fantasistas pretendem sejam os superiores pela raça ou pela seleção social, esquecidos inteiramente da reduzida área ou região - ilha sociológica - em que se levantou, sedentária e urbana, a civilização grega; ou do pequeno arquipélago - arquipélago sociológico: a Europa medieval - em que se ergueram as catedrais góticas; ou dessa outra ilha dos nossos dias - ilhas até no sentido literalmente geográfico - que dá mais, talvez, ao Norte do continente americano do que recebe dele: Manhattan.
Neste trecho meridional do Brasil, de colonização regular pelos portugueses menos antiga porém mais saudável que a do Norte, o processo sociológico de povoamento se desdobrou, com o tempo, em dois sentidos: no de continente e no de ilha. No de dilatação ou de desenvolvimento em superfície e no de fixação e desenvolvimento vertical em sobrados, em igrejas, em pelourinhos, em cidades altas, em portos baixos. Uma das cidades - Pôrto Alegre, a cuja saúde social, e particularmente econômica, parece nunca ter faltado o contacto com as grandes correntes de atividade continental por um lado e com as atlânticas por outro. Mas o traço social e psicológico que lhe caracteriza a fisionomia histórica é bem o de ilha no sentido sociológico: o de ponto de condensação de energias e de irradiação de valores ao mesmo tempo tradicionais e atlânticos.
Com relação a Pôrto Alegre acabo de me familiarizar de alguma maneira com alguns daqueles documentos miúdos e algumas daquelas sobrevivências aparentemente sem importância do passado de uma cidade que nos deixam entrever a intimidade dêsse passado; e me parece que neste outrora Pôrto de Viamão e de São Francisco dos Casais o simplesmente dos Casais - denominação por si só significativa - o processo de condensação e ao mesmo tempo de irradiação de valores a que há pouco me referi foi essencialmente o mesmo verifica naquelas áreas do Norte onde o sentido de ilha - isto é, de sedentariedade familiar e de esfôrço em sentido vertical: igreja, pelourinho, sobrado, azenha, santa-casa - dominou o de continente - isto é, de desenvolvimento em superfície; o de desenvolvimento em superfície e um tanto à gandaia, de contentamento com a palhoça, a rêde, os amores fácies, a farinha; de continentalidade, às vezes rasteira. Pôrto Alegre nasceu e cresceu sociológicamente ilha: como Olinda, como Florianópolis, como o Rio de Janeiro, como Belém do Pará, como São Luiz do Maranhão, como o Recife; e ao contrário de São Paulo, essencialmente continental na sua formação. Cresceu - se não erro nessa aventura um tanto ousada de interpretação do passado social de uma cidade em cuja biografia se esmera, neste momento, a ciência dos seus filhos mais letrados - entre a sua rua da Praia e a sua Estrada do Meio: equilibrada entre o mar e a terra; sem deixar um pelo outro. Justamente como Olinda, no século XVI; e como depois o Recife entre a sua rua do Comércio e, mais tarde, a sua também rua da Praia, do lado do mar, e a sua estrada de Caxangá, ou também no Meio, para o interior. E com ruas menores de nome que lembram os do Recife velho. Uma delas se chamou aquí dos Pecados Mortais, e no Recife, dos Sete Pecados Mortais.
Esta a ecologia humana - em traços os mais gerais, é claro - da formação de Pôrto Alegre que nos explica ter-se condensado aquí, e daquí se irradiado depois, uma considerável riqueza de energia açoriana ou portuguesa. Riqueza de cultura: a lavoura à moda das ilhas, o culto da hostilidade, as festas do Espírito Santo, as cavalhadas, as irmandades (a do Santíssimo Sacramento, selecionadora de brancos mais finos, as do Rosário, concentrando os pretos), as corridas de touro, a missa como ofício religioso e tambem como liturgia social, o uso e até abuso do nome de Jesús nos nomes das mulheres - Maria, Tereza, Antônia, tôdas de Jesús -, o gôsto pela bacalhoada, pelo vinho, pelo doce. E riqueza de sangue, pois com a sedentariedade, a prosperidade agrária e a rotina de vida comercial, foram-se multiplicando em filhos -, até certo ponto pela endogamia - os pioneiros da colonização, muitos dêles menos conhecidos pelos nomes de família do que pelos apelidos pitorescamente lusitanos de "Chico Ilhéu", "Vicente Brado", o "Velho Fumaça", o "Velho Bogango", o "Ressabiado"; e multiplicando-se - que o digam os livros de assentamentos de batismos e óbitos no arquivo da Secretaria do Bispado de Pôrto Alegre - em famílias vastamente patriarcais. Pois "raro era o casal" - diz-nos Coruja Filho, velho e bom cronista da província - "que não contava mais de seis filhos e alguns, como o do Lopes, atingiram a fabulosa cifra de 21 filhos e o de Manuel Jacinto, a de 30 filhos, sendo 15 de cada uma das mulheres com que foram casando!".
Sem aquelas condensações de sangue, de cultura, de energia portuguesa, como, desde o século XVIII, Pôrto Alegre, como, desde o século XVI, Olinda e Rio de Janeiro - para citar apenas algumas das ilhas sociológicas na formação brasileira - tudo indica que o esfôrço bandeirante no sentido continental da expansão em superfície teria sido profundamente comprometido, uma vez absorvidos ou exterminados os indivíduos ou os casais portugueses e mestiços - dispersos e desconexos - pelas vigorosas invasões francesas, holandesas e espanholas, dos primeiros séculos coloniais: a aquí, também, pelas reduções jesuíticas, em certa fase de sua atividade, absorventes e antilusitanas a seu jeito, embora sob outros aspectos elas próprias tenham sido ilhas moderadoras dos furores continentais do bandeirante. Precisamente naqueles pontos de condensação de sangue e de concentração de cultura de origem portuguesa, é que os invasores encontraram a maior resistência aos propósitos de se estabelecerem no Brasil, desaportuguesando-o.
Essas ilhas lusitanas alargaram-se num quasi continente: a América portuguesa. E esta o que é hoje, sociológica ou culturalmente, é um largo arquipélago. À sua singularidade portuguesa no continente americano - singularidade antes cultural do que étnica (inclusive por largo tempo, a própria singularidade política, de forma monárquica de govêrno) - o Brasil tem reunido sempre a pluralidade de etnias e culturas. E esta lhe tem permitido crescer dentro daquelas linhas essencialmente portuguesas de unidade, sem esterilizar-se na uniformidade, na monotonia, na igualdade dos sistemas filípicos de pátrias feitas geométricamente e à fôrça; de povos engrandecidos em impérios aparentemente maciços à custa da espontaneidade criadora, fluida, ardente de suas regiões ou de suas províncias; de continentes desenvolvidos rápidamente em fôrças mundiais pelo puro progresso técnico ou pela simples ficção política de unidade, com o sacrifício das reservas de profundidade poética, de densidade folclórica e de originalidade cultural de suas ilhas.
Nunca que ao Brasil aconteça a desgraça de uniformizar-se filipicamente num império ou de integrar-se num sistema de uniformidade continental ou de rígida, dura e absoluta singularidade nacional de cultura, com o sacrifício de suas diferenças regionais; com tôdas as suas ilhas, românticas e pitorescas, de diversidade regional de cultura, de vida e de paisagem, reduzidas a ilhas do Diabo, a presídios melancólicos dos seus próprios valores, das suas próprias diferenças, das suas próprias singularidades provincianas, condenadas a morrerem de fome e de esterilidade, para sôbre os seus tristonhos restos etnográficos estandardizar-se a paisagem cultural do continente americano ou do Brasil inteiro.
Que Pôrto Alegre continue Pôrto Alegre em vez de uma imitação do Rio de Janeiro - imitação a ser evitada nos próprios nomes de lugares novos. Que Pôrto Alegre continue Pôrto Alegre em vez de se banalizar numa sub-Chicago do Sul ou numa nova São Paulo atual de um passado já denso, os valores açorianos, portugueses, luso-ameríndios e até luso-africanos que integram esta cidade no que a cultura brasileira tem, de Norte a Sul, de mais larga e característicamente seu como cultura de base e tradicional, comum ao Brasil inteiro. Mas que se sinta também o que há de particular a esta área urbana e á região brasileira que ela domina o que a enriquece de influências diversas. Que se sintam aqui, como em nenhuma outra cidade grande do Brasil, o gaúcho, no pitoresco como no essencial de sua cultura, inclusive de sua culinária; o missionero; a influência chamada indistintamente castelhana; a influência dessas duas ricas culturas poslusitanas a que o Rio Grande do Sul e o Brasil já devem tanto: a influência alemã e a influência italiana. Que um estreito critério de uniformidade de cultura ou de singularidade nacional ou histórica ou, ainda, de suficiência continental de valores e estilos de vida, não abafe nem procure abafar essas influências mais recentemente européias nem impedir que elas aquí se alonguem saudàvelmente em valores neo-brasileiros, através do enriquecimento regional da língua comum, da culinária tradicional, do folclore, da arquitetura, da higiene doméstica, da decoração interna das casas, da cultura intelectual e artística do povo e das elites.
Permitam os meus amigos de Pôrto Alegre - centro intelectual para onde o Brasil se volta com atenção cada dia maior - que eu, para terminar esta palestra já muito longa, quasi personalize o critério semissociológico e semipolítico, sob que venho procurado desenvolver a idéias de ilha e de continente, ou antes, de arquipélago, na formação do Brasil em geral, e desta cidade em particular. E recorde como essa idéia me ocorreu; como ela passo da esfera de biografia de um antigo estudante meu, de origem açoriana, para a biografia do nosso país.
Em 1931, estando em Lisboa, recebí o primeiro convite que me levou aos Estados-Unidos para dirigir cursos universitários. Foi da Universidade de Stanford.
Lembro-me de que seguí de Lisboa para Nova-Iorque no Satúrnia; e de Nova-Iorque para São Francisco, de trem, sob uma vasta carga de neve. Tudo branco pelos campos e pelas cidades que o transcontinental atravessou em três dias. Mas cheguei a São Francisco numa tarde quasi de verão: na Universidade de Stanford o sol brilhava nas fôlhas das palmeiras com um gôsto de sol do Brasil.
Encontrei em Stanford um grupo esplêndido de estudantes que ainda hoje vivem na minha memória de professor-cigano, para quem a beca tem sido uma espécie de tapête voador. E entre os estudantes inscritos no meu curso de "seminário", estava um rapaz de origem portuguesa, ou antes, açoriana, mas na aparência tão americano quanto outro qualquer. Na aparência, nos estilos e nos ideais de vida.
Pois dêsse estudante de Stanford é que me parece chegaria, anos depois, uma carta de Santa Cruz das Ribeiras dos Açores que é um documento interessantissimo de "volta às origens"; uma parada brusca no processo de extrema modernização e excessiva continentalização de um individuo e o seu regresso ao primitivismo dos avós ilhéus. Espécie de conversão do continente ao regional: do metropolitano ao provinciano.
Se êsse processo - indicado pela carta-autobiografia do meu antigo aluno - não se viesse desenvolvendo nele há mais de ano, poderia parecer um entusiasmo de momento; uma pura emoção de regresso de nativo; uma simples aventura sentimental. Mas, não: vinha-se desenvolvendo há longos meses. No indivíduo em quem estava para desabrochar um moderno e banal rotariano de São Francisco ressurgiram com tal fôrça os avós lavradores de Santa Cruz das Ribeiras que, mesmo aquietada sua primeira paixão de convertido pela vida da ilha e pelas suas tradições, êle nunca mais será um americano a quem o americanismo baste ou um moderno que se contente com as delícias do modernismo. Essa conversão êle bondosamente atribuiu ao meu curso: à parte sôbre os pioneiros da colonização portuguesa no Brasil.
O caso do estudante norte-americano, neto de açorianos, é que me fêz pensar intensamente neste velho tema: nós, americanos, precisamos ainda da vida que vem de nossas raízes européias e africanas mais profundas. Precisamos não nos fechar a essa vida, numa ostentação tola de suficiências. Essa suficiência - por mais paradoxal que pareça - tem motivos poderosos para ostentar-se na esfera dos valores cultos e técnicos - esfera em que o desenvolvimento americano tem sido enorme; mas não na esfera dos valores folclóricos. Temos ainda muito que absorver - e não apenas que assimilar - daquelas velhas raízes européias e africanas - para não falar agora das ameríndias - cuja vida e energia se comunicaram a nós menos pelos livros que pela boa tradição dos analfabetos e dos quasi-analfabetos.
Para o Brasil devemos procurar trazer o máximo dessas tradições, que aquí se encontrando com as já em vigor rebentem em novas combinações, novas riquezas e energias. Elas não devem ser confundidas com imposições de natureza política que nos queira fazer qualquer grupo de colonos a serviço de ideais de expansão partidária ou estreitamente doutrinária: "salazarista", "nazista", "fascista" ou "niponista". Contra tais imposições, nossa reação terá de ser cada vez mais forte. Nada de nos esquecermos, porém, de que será vantagem e não prejuízo, para o Brasil, enriquecer-se da energia folclórica que sob a forma de dansas, de artes domésticas, de tradições culinárias, de jogos, de lendas, de técnicas de trabalho, nos continue a trazer o português ou o hispano, ou nos traga hoje qualquer grupo europeu que venha estabelecer-se entre nós - alemão, austríaco, polonês, italiano - uma vez que já temos bastante vigor nacional de cultura para ir subordinando essas riquezas novas às tradições dominantes, que são as luso-indo-africanas.
É claro que a parte lusitana dessas tradições dominantes precisa de ser constantemente reforçada e renovada. Fui sempre dos que consideram uma insensatez qualquer redução ou restrição de nossa parte para à colonização portuguesa. É uma colonização que deve estar fora de "quotas" e de outras medidas da política brasileira de imigração. Sempre me pareceu que colono português deve sentir-se aquí quasi tão dono da terra quanto o brasileiro já velho ou telúrico. Porque dentro dêsse à-vontade êle será mais capaz do que como estrangeiro, de enriquecer esta parte da América com seus valores folclóricos e com suas tradições populares em vez de procurar escondê-las sob a pressão de um "americanismo", de um "continentalismo" ou mesmo de um "brasileirismo" arrogante, que só exalte a nota de modernidade, de progresso e de dinamismo técnico com sacrifício daqueles elementos sentimentais, daquelas sobrevivências morais e daquele resíduo artístico do período de nossa formação portuguesa colorida pelo intenso contacto com o ameríndio e com o africano. Resíduo que se possa conciliar, é claro, com a vida brasileira, ou americana: com os seus imperativos.
Sob a pressão de um "americanismo" ou "continentalismo" superficial mas arrogante, é que vivera o ex-estudante da Universidade de Stanford. Ao contacto com a paisagem, as coisas e as tradições profundas da ilha de seus avós, êle perdeu de repente o pudor de sua origem ilhoa, a ponto de, numa reação extrema, exagerada, quasi mórbida, querer renunciar, por amor dela, as vantagens da boa posição já adquirida numa civilização moderna e continental. Até que lhe veio o sensato equilíbrio entre os extremos.
O verdadeiro "americanismo" ou o "brasileirismo" inteligente será aquêle que conciliar com a sua nova dimensão nacional e continental de vida e com a sua perspectiva americana e moderna dos valores humanos, o apego às origens regionais, européias e africanas de muitos dos valores que ganharam aquí relevos novos e expressão nacional ou continental. Sem falar, é claro, nos valores indígenas que devemos conservar ou desenvolver.
O meu aluno da Universidade de Stanford foi a Santa Cruz das Ribeiras visitar a casa dos avós e escrever os últimos capítulos de um livros erudito. De repente, aquêle drama. A ilha a vencer-lhe o continentalismo, o americanismo o modernismo. A ilha a não o querer senão ilhéu. E o gosto do arcaico dominando-o, fazendo dele quasi de repente um português velho do tempo de D. Maria I; desamericanizando-o ou, pelo menos, reduzindo-lhe o americanismo à parte menos poderosa de sua personalidade.
Um drama interessantíssimo para ser estudado pelo psicólogo. Mas também um drama de interesse sociológico. Dificilmente posso imaginar o rapaz de origem portuguesa que conhecí em Stanford sem falar português, jogando tennis tôdas as tardes e não tendo outra noção de good-time senão a da mocidade norte-americana das universidades, a escrever-me de Santa Cruz das Ribeiras, como qualquer ilhéu que de lá tivesse saído já homem para a aventura na América, que nenhum recanto do mundo podia ser melhor nem mais lindo que a sua ilha; que lá estava há meses e lá é que queria ficar a vida inteira, indo à missa aos domingos, jogando sueca com as tias velhas às quintas-feiras, dansando nos bailes populares, cantando nas serenatas no adro de capela do Senhor Espírito Santo, assistindo ao próprio terço, para pedir a Deus que chova sôbre a ilha ou participando da própria cerimônia de bênção das casas dos botes "porque os marinheiros já há muito tempo que não apanham baleias!"; ou, ainda, admirando "a balbúrdia na rua quando o vigia lá no alto dá o sinal de baleia ao longe. . . homens a fugir para o cais, mulheres com bolos de milho e de peixe sêco para os maridos, e daí a pouco seis ou sete lanchas, ora a remos, ora a vela, por esse mar a fora".
Porque vimos juntos certas aldeias da Europa portuguesa, êle faz questão de salientar na sua carta de convertido que as da sua ilha são ainda mais interessantes: "A nossa gente açoriana é mais viva. . . menos ignorante. O açoriano é uma das pessoas mais independentes que conheço. Todos têm a sua casa, o seu bocado de terra. Não se vê aquí o luxo excessivo do continente, mas, também, não se vê sua miséria". Acrescentando êste reparo: "Daqui poucos têm emigrado ultimamente para o Brasil". . . O Sr. Pereira, que hoje está em São Paulo e que de anos visita os seus parentes de cá, mandou construir o edifício mais alto das Ribeiras". O rastacuerismo do continente deformando a paisagem da ilha.
A carta é um dos mais interessantes documentos psicológicos e sociológicos que tenho lido e que possuo. Mostra a ilha vencendo o continente na personalidade de um desenraizado. O desenraizado voltando às sas raízes ilhoas com o gôsto de quem encontra nelas a compensação para um continentalismo e para um modernismo que em vários países americanos - em todos talvez - se tem desenvolvido em extensão com sacrifício de valores de profundidade, vamos dizer ilhéus. Valores essenciais ao homem. Valores poéticos. Valores folclóricos. Valores tradicionais, ancestrais, maternos.
Êsse, o caso individual e extremo de pessoa vinda de avós ilhéus a quem o continente desvairava em homem quasi sem raízes. O desenraizado individual em tempo, parou; e, como nas conversões dramáticas, voltou á ilha para a ela se abandonar molemente por longo tempo, quasi como o herói de um romance regionalista de Hardy. Um homem à procura do equilíbrio - que afinal encontrou - entre a ilha e o continente.
Não será esta solução a ser transportada pelo brasileiro do plano individual para o social? Porque a nós, sociedade brasileira, o que convém é o equilíbrio entre aquêles extremos. A nós a harmonia que convém é a que se estabilize entre aquêles antagonismos, desenvolvendo-se numa espécie de política cultural do Brasil: a de interrelações íntimas e constantes entre a ilha de casa um e o continente de todos. Arquipélago sociológico. Arquipélago cultural. Arquipélago social. Política de cultura a um tempo tradicionalista e progressista, personalista e socialista, unionista e regionalista, lusitanista e pluralista, hispanista e americanista, continentalista e provincianista.
Da Espanha escreveu o mais espanhol dos espanhóis, Angel Ganivet, que era quasi uma ilha. Uma quasi-ilha situada ente dois continentes. Rigorosamente, uma península. E como os povos pertenceriam por sua configuração psicológica e histórica - e não apenas pela geográfica - a êstes três tipos - o continental, o peninsular e o insular - representados, respectivamente, na Europa, pela França, pela Espanha e pela Inglaterra, de maneira quasi ideal, Ganivet considerava a Espanha a expressão ideal de um povo peninsular: com as vantagens e as desvantagens de semelhante condição, é evidente. Do Brasil não se pode dizer que pertença geográfica, histórica ou psicológicamente a qualquer dêsses tipos na sua pureza; nem do brasileiro que seja na América um continental, um peninsular ou um ilhéu. Histórica e psicológicamente a língua portuguesa e a formação lusitana - e dentro desta a experiência monárquica e o desenvolvimento de maneiras aristocráticas conciliadas com modos democráticos de convivência - nos separam da América espanhola, embora não tanto quanto da inglesa ou da francesa, para nos dar no Novo Mundo a situação de uma ilha enorme que fôsse ao mesmo tempo um continente ou, antes, um arquipélago, tal a sua extensão e tal a sua variedade de regiões naturais e de cultura. Essa extensão continental nos dá direito a tratar de igual para igual com a América inglesa e com a América espanhola; essa variedade de regiões nacionais nos torna aptos a concorrer com o melhor da nossa experiência regionalista para a federação continental, já em esboço, de povos americanos, do mesmo modo que para a melhor articulação de culturas neo-européias e particularmente neo-hispânicas da América as maternas. Pela sua configuração de arquipélago cultural, o Brasil tem em si recursos extraordinàriamente plásticos sôbre os quais o brasileiro poderá levantar uma cultura nova e original, em que se harmonizem antagonismos até hoje em conflito noutros países, como dentro da própria quasi-ilha do pobre Ganivet e regionalismo degenerado em separatismo com o unitarismo desbragado em tirania do poder central sôbre as regiões.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Continente e ilha. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943. 69p.
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